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Pelo Olhar Dele - MarkHyuck

Chapter 5: CAPITULO CINCO

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Meus olhos se voltam para o teto do quarto iluminado pela luz de final da tarde. No aparelho de som tocava uma das minhas músicas, num volume baixo, quase um chiado. Enquanto isso, tentava responder o que tinha acontecido para eu voltar a me sentir tão insatisfeito depois de um dia incrível ontem. Suspiro. Enfio a mão abaixo do travesseiro apalpando em busca do meu celular. 18h34. 22०C.

Fechei os olhos levando as mãos ao rosto, esfregando algumas vezes. Fala sério, Haechan, você sabe exatamente o que aconteceu.

Junwon entrou em contato comigo.

Junwon, o namorado lindo de Mina, minha prima. Nós paramos de nos falar pouco antes de eu vir para Gapyeong a pedido meu e ele apenas concordou mesmo confessando não esperar essa atitude. Pensei muito em chamá-lo e tentar saber como as coisas ficaram depois que fui embora, até que percebi que o feed do instagram de Mina não tinha mais nenhuma foto com ele, me respondendo tudo.

A culpa já tinha me consumido antes disso tudo. Eu sabia que seria assim, ele também. Sei que prometi sumir para ele, mas não vai dar Mina, desculpe. Eu espero que você entenda...

Peguei o celular antes de pensar demais e disquei o número de Junwon. Tentei afastar qualquer pensamento que me pesasse, mas tudo parou quando ouvi a respiração dele do outro lado da linha, após alguns longos bips. Perguntei se ele estava lá e tive uma confirmação.

— Está tudo bem? — Ele pergunta.

— Por aqui? Sim, até que não é tão ruim quanto eu pensava...

Abro um pequeno sorriso e troco o celular de orelha.

— E você, como está?

— Ótimo. Para dizer a verdade, nunca me senti tão bem.

— Ah, é? Isso é muito bom...

Penso por alguns segundos, enquanto ele não diz nada. Me sinto ansioso para saber:

— E aí? Sentindo muita falta da gente? — Espero ter parecido humorado na pergunta, é óbvio que ele não poderia sentir minha falta. Eu também não poderia sentir a dele. Junwon solta uma risada sugestiva do outro lado, que me confundiu.

— Nós prometemos não voltar mais nisso.

— Qual o problema? Não é como se fôssemos nos encontrar pra resolver isso.

— Haechan, te liguei porque tenho uma coisa pra te falar, acho que vai gostar... Ou que precisa saber, sei lá.

Percebo que ele num tom mais sério alterna de assunto e apenas prossigo:

— E qual é?

— Eu conheci um cara na faculdade... Dohyun. Nós estamos saindo há duas semanas e eu acho que vamos nos dar bem.

— O que?

— É, eu sei que pode ser recente, mas você sabe o que eu penso sobre o tempo...

— Não, Junwon, como assim? Mas e a Mina? — Corto sua fala.

— Ah... Terminei.

Arregalo os olhos ficando sentado assim que escuto sua resposta. Tudo porque ele prometeu para mim que não faria desse jeito. Como muda de ideia no meio do caminho?

— Você simplesmente terminou com ela?

— Ei, não se faça de surpreso agora. Não era o que você vivia me pedindo?

— Você sabia os motivos, e também sabia que deveria ter feito isso com calma.

Procuro não me exaltar, mas quando vejo meu tom de voz está cada vez mais alto.

— Sim, mas eu cansei, Haechan. Só isso! Cansei de esconder dela, de todo mundo. E é bom parar de me julgar, tá legal? Você prometeu pra no fim ir embora e me deixar sem nada. O Dohyun pelo menos não fica com esses joguinhos de interesse. Ele é como eu.

— Do que você está falando? Eu estava mais preocupado com a minha prima, eu sempre deixei isso claro.

— A gente ia terminar de qualquer jeito, não tinha como alguém não sair machucado.

— Tinha sim! — Contestei. — Você me enganou!

— Hah... Agora a culpa é minha?  — Foi a vez dele de me interromper — Eu sabia que isso iria acontecer. Uma vez você me perguntou se eu estava arrependido, eu respondi que não, mas se quer mesmo saber, me arrependi. Se soubesse que no fim você iria embora sem me dar uma chance, teria poupado meu tempo.

— Vai se foder. Junwon, seu... Babaca!

Rosno querendo gritar, mas sendo impedido pelo choque.

— Olha, Haechan...

— Por favor, apague meu número. — Peço encerrando a ligação logo em seguida.

Tento respirar fundo uma, duas, três e na quarta vez tenho vontade de chutar alguma coisa. Na minha cabeça se passavam cenas, borrões. Minha mandíbula doía por conta dos dentes cerrados. Os pensamentos foram acumulando e se acumulando enquanto eu buscava entender se tudo o que ele me disse foi real.

Eu não esperava isso. Com certeza não esperava que em menos de uma semana ele tivesse tomado todas as decisões sem mim. Até mesmo a de partir. Não esperava que fosse trocado tão rápido. Quem é esse Dohyun afinal? O que ele conseguiu mostrar de tão especial em apenas duas semanas?

Espera aí... Duas semanas?! Se faz quinze dias, significa que ele chegou pouco antes de eu ir embora. E se foi o que aconteceu, isso piora absolutamente tudo!

Enquanto eu me sinto uma bagunça, ouço a porta do quarto abrir e vejo Mark entrar com sua mochila nas costas. O dia lá fora já estava mais escuro. Ontem no fim do evento, Jihoon pediu para que seu irmão fosse dormir em casa e ele não negou o pedido à irmã, retornando só agora. Ele me cumprimenta quando me vê, mas eu não consigo responder.

Não entendo bem o que sinto, apenas sei que não queria sentir. De repente, tudo o que eu conhecia em Jeju parecia ter mostrado outra face, ou a parte de si que sempre esteve consigo. A parte que se eu tivesse conhecido desde o início, teria evitado muita coisa. Teria feito diferente. Não quero chorar. Só queria ficar um pouco sozinho. Péssima hora para aparecer, Mark, ainda que esse quarto seja seu há mais tempo.

Eu queria falar com Mina, queria saber como ela estava, mas me atender a essa altura deve ser o último de seus planos.

Fico mais alguns minutos no quarto, ouvindo Mark desfazer sua mochila em silêncio. Antes que fosse se preparar para dormir, eu desço da cama, saindo dali sem dizer nada. Meu colega de quarto com certeza notou, pelo barulho que as medalhas que ganhamos ontem fizeram quando puxei a maçaneta, lugar onde estão penduradas. Aviso ao monitor do andar que vou apenas dar uma volta e é verdade. Consigo caminhar devagar até a sala de televisão do outro lado do campus, o que me dá mais tempo sozinho, na companhia de grilos barulhentos e da corrente de ar fria da noite. Preciso ligar a TV quando chego à sala, por estar vazia. Muitos alunos tiveram a mesma decisão de Mark ontem a noite, e provavelmente retornam mais tarde ou até mesmo amanhã.

Fico repassando mentalmente minha conversa com o babaca do Junwon, tantas vezes que até me questiono o porquê não lhe falei mais, não o xinguei e esperneei mais. Queria fazê-lo sentir-se mal. Queria que ele soubesse a pessoa horrível e egoísta que é. Queria que estivesse com um pingo de peso na consciência, pelo o que fez com a minha prima duas vezes seguidas. Quem ele pensava que era?

Começo a assistir tão distraído que nem percebo que ainda estava no canal do colégio há vários minutos, onde passavam anúncios da escola.

Na sala ecoa o som da porta se abrindo, mas eu nem olho. Continuo pulando os canais com o controle na mão. Ouço a porta do frigobar bater e pouco tempo depois me sinto obrigado a colocar os olhos em Mark, quando ele sentou bem ao meu lado no sofá. Percebi que vestia um casaco verde que não estava usando quando chegou. Ele apenas sorri com o canto da boca e volta a prestar atenção na tela ao tempo que me oferece um pepero direto do pacote. Não questiono, simplesmente aceito.

— Os vermelhos são os melhores... — Ele diz.

— Esse tem gosto de xarope.

Mark ri com os ombros.

— O que está vendo?

— Sei lá, só queria sair um pouco do quarto.

— Não foi ver seu pai?

— Não, ele me ligou hoje de manhã. Avisou que não poderia me ver. — Explico indiferente, meus olhos ainda na tela onde agora passava uma cena de um filme de ação qualquer.

— Por que veio pra cá?

Perguntei a ele depois de um silêncio pairar sobre a gente.

— Não sabia que adoro assistir televisão todo domingo à noite?

— Sério?

— Não, né. Foi ironia... — Responde enquanto ri.

— Você é péssimo com ironia, por favor, pare.

Rebato o encarando, vendo seus olhos se curvarem com o sorriso que abriu.

— É que você não parecia muito bem.

— Ah.

— Isso só confirma tudo, né?

Sinto seus olhos em mim.

— Desde quando você se importa?

— Ei, eu sou seu responsável, não se lembra?

— Isso significa que preciso falar sobre questões pessoais?

— Não exatamente, a menos que queira. — Ele põe o pacote no meu colo e se ajeita no sofá, cruzando suas pernas, parando para me olhar assim que acaba — Quer desabafar?

— O que eu tenho a perder, não é?

— Ah, você finalmente vai falar algo a seu respeito...— Abriu outro sorriso.

— Então agora se prepare porque não vou parar mais.

— Estou pronto.

Sua atenção é minha quando ele apoia o punho na lateral da cabeça, voltando seu corpo na minha direção e ignorando o filme. Hoje ambas as íris estavam puxadas para o azul. Suspiro me preparando para começar.

— Tinha um menino em Jeju, o Junwon.

O encaro em busca daquela confusão que as pessoas têm quando falo abertamente sobre homens. Inicialmente, mesmo que não estejam desconfortáveis, elas esboçam alguma surpresa. Mark não fez isso. Ele apenas continuou me olhando, esperando que eu continuasse. Até fui esquecendo sobre o que ia falar.

— Ele é namorado da minha prima. Quer dizer, era.

— Ah... — Agora a surpresa no olhar vem, mas é plausível.

— Eles namoravam desde o último ano dela, quando ele terminou a escola e ingressou na faculdade.

— E vocês se conheceram na escola?

— Não. Mina morava perto de mim, então, nós vivíamos saindo juntos. Eu desde sempre notei algo diferente em Junwon. Claro que ficava péssimo com isso, mas tentava brincar sobre com Mina, dizendo o quanto ele era bonito. No começo era normal, mas aí... Junwon passou a meio que me corresponder.

Mark ergue uma sobrancelha.

— Sim, ele me elogiava e queria estar perto de mim, foi demonstrando o seu interesse. Até revelou que também gostava de meninos, assim como eu.

— Você ficou com ele?

— Até aí, nunca. Nós desenvolvemos alguma coisa forte, eu não sei bem nomear. Mas nos aproximamos de um jeito que até nos acostumamos a sairmos juntos sem a Mina. As coisas foram acontecendo e...

Mastigo o pepero tentando reunir coragem para dizer a próxima coisa. Depois de hoje é uma das que eu mais me arrependo. Mark nota e então recolhe mais um doce o comendo também em silêncio.

— Passei a gostar dele a ponto de nem lembrar da Mina e eu sei que fui péssimo por isso. Mas eu consegui ser pior ainda.

— Como?

— Nós saímos juntos uma vez e acabamos bebendo demais. Junwon me levou pra casa e pediu de volta um casaco que esqueceu no meu quarto casa na última vez que nos vimos. Nós começamos a conversar e daí... Eu transei com ele.

Mark não responde. Apenas mexe nos cabelos pretos e volta a recolher mais doce no pacote.

— Fui péssimo, eu sei. De todos os jeitos possíveis. Eu não queria que tivesse sido assim, mas quando vi, já tinha acontecido.

— Acredito que Mina ficou bem chateada...

— Ela demorou um pouco pra saber, porque depois daí eu tentei me afastar do namorado dela. Construí um muro com a culpa e o arrependimento. Não sabia como parar, porque, ao mesmo tempo que eu sabia que seria melhor estar longe dele, eu sentia falta. Ele ficou bravo comigo algumas vezes por ter me afastado e só hoje percebo o quanto isso foi babaca. Aliás, ele não parecia nada arrependido. Vivia pedindo pra deixar acontecer outras vezes, mas eu pedia pra ele falar pra Mina antes de resolvermos o que tinha entre a gente. Em algum momento eu acho que acreditei que se nós contássemos, doeria menos do que se ela descobrisse sozinha.

Abaixei os olhos alisando os detalhes da embalagem, para continuar:

— Até que chegou um dia que eu decidi que se não contasse a verdade, não iria ficar em paz. E simplesmente falei pra ela que além de estar apaixonado por ele, tinha rolado tudo aquilo. Não tive muito tempo, eu já estava pensando que seria difícil, que seria choro e gritaria e realmente foi. Mas eu tinha uma válvula de escape para fugir disso tudo: ao mesmo tempo estava brigando com meus pais, e eles decidiram que seria melhor se eu viesse à Gapyeong morar com ele. Daí eu pedi para Junwon continuar com Mina e tentar se resolver com ela.

— Seus pais brigaram com você por isso?

— Mais ou menos. Eles estavam bravos por outro motivo, mas na hora isso irritou muito minha mãe e só deu mais motivo pra ela.

— Então você mentiu pra mim.

— O que? Quando?

Entortei a cabeça com a aleatoriedade.

— Quando me disse que não estava aqui porque queria. De alguma forma você queria vir pra cá.

— Não queria. Eu precisei vir. E foi até melhor... Descobri que Junwon e eu queríamos coisas diferentes.

— Como assim?

— Ele me ligou hoje, pouco antes de você chegar. Aparentemente ele já estava com outro cara ao mesmo tempo em que dizia que me queria e enganava minha prima.

— Uau.

— Pois é... Nem eu consigo acreditar direito.

— Você está bem? — Ele quer saber. — Não quer chorar?

— Eu nunca vou chorar por um garoto.

Mark entende a minha afirmação e após uma pausa, estala a língua:

— Ah, Haechan... Acho que foi melhor assim.

— Com certeza foi — Assenti — Eu só preciso me conformar, sabe... É louco saber que quem eu achava que conhecia não era de verdade comigo. Muito louco ter vivido tudo aquilo. É ruim ter que se arrepender por mais um motivo...

— Minha mãe acredita na lei do retorno.

Comenta em seguida, olhando para o lado, mas logo retornando suas íris para as minhas.

— O que?

— Karma, não conhece?

— Acho que sim.

— Junwon magoou muita gente, mas isso tudo vai voltar para ele um dia. Aí você vai poder rir sem culpa.

— Eu espero...

Abro um sorriso ainda com os olhos fixos nele. Percebo o quanto foi bom poder finalmente falar disso com alguém. O quanto foi bom Mark ter mostrado que não queria julgar, ou apenas saber. Ele queria me ouvir. Em meio ao caos que eu tentava me conformar, estava o alívio. Uma sensação de liberdade.

E estava mais calmo sobre Junwon. Mark teve razão quando citou o karma, afinal, não há muita coisa que eu possa fazer. Mesmo que ainda queira dizer essas verdades. No fim, Mina e eu acabamos livres desse cara.

"quase sempre algo acontece por uma razão maior" — Frase sempre dita por minha mãe. Ela também está certa ao pensar assim, tendo o poder de me aconselhar até quando nem sabe da história toda.

Depois disso, nós começamos a ver um programa de comédia na TV. Rir ao lado dele me permitiu pensar em abrir algum espaço para ele aqui dentro. Sinto que essa parceria pode me trazer algo bom, enquanto eu estiver por aqui. É como se Mark me conhecesse apenas para fazer isso passar mais rápido. E eu vou deixar. Acho que podemos ser amigos.

 

Notes:

A história da vez também é um dos meus melhores projetos e é uma honra que você esteja aqui lendo esse slowburn gostosinho e colegial com markhyuck ainda por cima!

Espero que mamem muito essa fic, serioooo 💕