Chapter Text
Eram três da madrugada e Evalin Greenleaf estava longe de estar dormindo. Recostada na cama em um paredão de travesseiros macios e com um caderno apoiado em sua barriga (muito) grávida anotava algo à luz de velas. O marido não estava no quarto, o que era uma pena, porque ela queria muito uma massagem nos pés - Legolas estava em uma reunião que durava muito mais do que deveria, a propósito. Então Eva, com seus doze meses de gravidez (maldito seja o Valar que decidiu que a gravidez élfica duraria um ano) de gêmeos, apenas escrevia concentrada.
Estava refletindo quantos docinhos de limão eles iam precisar para a recepção na ala de cura quando a porta se abriu e Legolas entrou. Evalin imediatamente jogou o caderno para o lado e virou o rosto fingindo estar dormindo.
- Você finge mal, querida - Legolas riu - O que está escrevendo?
- Hunf! Eu não finjo mal, você que tem olhos de lince - Eva resmungou pegando o caderno de volta - E não estou escrevendo nada de especial
- Se não é nada especial porque está te mantendo acordada até tarde?
- Eu já dormi - apoiou as mãos na barriga protuberante, desconversando
Se aproximando da cama, Legolas sorriu maliciosamente.
- Vai falar por bem ou por mal?
- Nem por bem nem por mal - Evalin abraçou o caderno contra o peito
- Essa escolha não existe
- Agora existe - empina o nariz
- Não, não existe - Legolas parou em frente a cama, com os joelhos próximos ao colchão
Com um olhar super desconfiado e desafiador, Evalin apenas se moveu e se sentou em cima do caderno.
- Sim, veremos - e então, Legolas simplesmente começou a tirar a camisa. E bem, quem era Evalin para conseguir desviar o olhar não é mesmo?
Se orgulhando de sua total incapacidade de desviar o olhar Eva apenas ofegou quando viu Legolas deixar a camisa cair no chão, exibindo seu abdômen definido, e em seguida começar a tirar a calça.
- Se preparando para dormir? - se fez de sonsa, acuada no topo da cama para proteger o caderno. Mas olhando fixamente, é claro. O marido, afinal, era um espetáculo a ser visto.
- Não deveria?
- Deveria. Deveria? - mordeu os lábios, incerta
- Deveria, mas antes acho que preciso dar um boa noite especial para a minha esposa
- Oh. Eu sei dar boas noites muito especiais
- Nem sabe do que estou falando - Legolas arqueou uma sobrancelha, divertido, e apoiou um joelho na cama
- Então por favor, marido, me esclareça
- Agora eu quero ser esclarecido sobre o que achou - Legolas sorriu malicioso, afastando o longo cabelo loiro dos ombros largos expostos
- Tudo que eu quiser fazer pode virar um boa noite especial - Eva declarou
- Ah é?
- Não estão faltando peças para você tirar? - gesticulou impaciente
- Realmente gosta de me ver pelado, hein?
- Temos anos de casamento, você já sabe dessa informação - gesticulou mais uma vez
E Legolas? Bem, ele tirou. Fazendo toda uma cena para tirar a última peça, ficou totalmente nu, para o prazer de sua esposa (e de nós leitoras) e subiu na cama, afinal, seduzir Evalin é seu esporte favorito.
- Vai fazer o que agora? - perguntou Legolas com a voz baixa e rouca, se aproximando como um felino encurralando sua presa
- Você não me falou o boa noite especial que quer - disse Evalin, admirando satisfeita os contornos do corpo do marido
Legolas aproximou o rosto do de Evalin, os olhos azuis penetrantes.
- Eu estava pensando em um beijo - e pegou uma mecha do cabelo dela
- Você não precisava tirar as calças só para um beijo - provocou. Então também aproximou o rosto até quase encostar os lábios nos dele, ficando a um sopro de distância
- Eu estava me preparando para dormir - e então a beijou. Lenta e profundamente. Desafiador e apaixonadamente.
Enfiou os dedos nos cabelos da esposa e virou levemente seu rosto, aprofundando ainda mais o beijo. Entre mordidas, beijos molhados e carícias sensuais, Legolas a puxou para o colo, tomando cuidado com a barriga (muito) grávida da esposa.
E Evalin? Completamente entregue, viciada e apaixonada. E o caderno? Completamente esquecido, esquecido e esquecido.
Separando o beijo com um sorriso tão lindo que seria capaz de ofuscar uma estrela, Legolas a deitou na cama novamente, deum beijo suave em sua barriga e fez menção de ficar por cima, mas então...
- Legolas!
Sorrindo maníaco e com olhos de um azul predatório Legolas pegou o caderno e se afastou com a expressão mais satisfeita da face da terra média.
- Caluniador, caloteiro, enganador de esposas grávidas, mal caráter - Evalin bufou contrariada, resnungando a maior série de adjetivos que conseguiu pensar
- Sou focado nos meus objetivos - então abriu o caderno para ler
- Aparentemente comer sua esposa não é um deles - Eva continuou resmungando - Elfo trapaceiro, pilantra, safado
- Três centenas de doces de limão? - Legolas franziu o cenho - Amor, nós já conversamos que não pode comer tantos doces assim de uma vez e....
- Não é para mim - Evalin lançou um olhar estranho
- Não?
- Eu amo doces mas não sou tão sem noção. São para nossas visitas
- Que visitas?
- Não nossas, dos bebês.
- Você pode ser clara e explicar de uma vez?
- Sabe me dizer se as cozinheiras estão acordadas agora? Sei que ainda é de madrugada mas é que é muito urgente, são para a nossa recepção e...
Ocupada demais divagando, Evalin não percebeu o olhar vidrado do marido lendo a próxima página. Legolas ergueu o olhar para ela, baixou de volta para o caderno, voltou para Evalin, para o caderno, para Evalin, para o caderno e por fim...fixou os olhos azuis acusadores e tão arregalados quanto um pires na esposa.
- Então precisamos dos doces para receber nossa família e amigos, além dos nobres do reino! Todo mundo que for conhecer os gêmeos e nos parabenizar vão ganhar um docinho de limão e...
- Quando ia me falar que está com contrações???
Pois era isso que ela anotava na página que Legolas apontava: o espaço de tempo entre as contrações.
- Em breve - estendeu a mão para o caderno
- Agora deu para mentir, querida? - Legolas parecia cada vez mais pálido
- Eventualmente eu ia contar. A bolsa estourou mais cedo quando você estava na reunião. Inclusive, como foi? - mexeu os dedos na direção do caderno - E vamos, tenho uma série de coisas para arrumar
Legolas respirou fundo, fundo e mais um pouco fundo. Parecia um elfo dando tudo de si para não entrar em colapso.
- Valar. Sim. Tudo bem. Vou me vestir. Precisa de ajuda para se vestir ou já posso ir buscar as bolsas que preparou?
- Ah - Eva fez um biquinho, observando o marido praticamente hiperventilar - Não se vista ainda
- Claro que tenho que me vestir! - Legolas correu para catar suas peças de roupa descartadas
- Sabia que orgasmo ajuda na dilatação? - Eva balançou a cabeça, dizendo naturalmente
- De jeito nenhum! Estamos indo para a ala de cura
- Foi informação do curador! E não estamos indo agora - girou as pernas para fora da cama e começou a se levantar lentamente
- Ele dá todas as informações para nós dois porque essa especificamente daria só para você? E sim, estamos indo agora! - Legolas largou as roupas novamente e correu para ajudar a esposa a se levantar.
- Foi só coincidência. E não estamos, não. Preciso falar com as cozinheiras e ainda nem comecei a me maquiar - Evalin caminhou em direção a penteadeira, dando uma risadinha e um tapa na bunda ainda muito nua do marido
- Vou perguntar a ele quando chegar lá. E aviso as cozinheiras no caminho, elas já sabem o que tem que fazer, Eva, meu amor
- Eu não vou sair agora
- Valar como você consegue ser tão teimosa? - Legolas voltou a tentar se enfiar nas calças apressadamente enquanto Evalin se sentava calmamente e pegava seus pincéis de maquiagem
- Eu estou me preparando - fuzilou Legolas com os olhos ao mesmo tempo em que passava rouge nas bochechas
- Pode se preparar na ala de cura
- Você pode me ajudar a contar as contrações - Evalin ignorou o comentário e declarou como se isso fosse ajudar a ansiedade do pobre coitado do marido dela
- Eu vou ser o primeiro elfo da história a ter um ataque cardíaco
- Pode contar mais duas agora - disse Eva, com seus lábios formando um biquinho enquanto passava o batom. Ou tentava passar, já que estava muito distraída com a bela cena do marido se vestindo - Hummmm...eu juro que é verdade, ajuda na dilatação e....
- Evalin Greenleaf - Legolas fechou as calças e começou a se enfiar na camisa, totalmente inquieto, não conseguindo se manter parado nem para calçar as botas - Não ouse completar essa frase
Em seguida o príncipe correu para a porta, berrou um "vão nascer!" e voltou correndo para o quarto. Logo em seguida, em questão de segundos, vela após vela foi acesa em todo o palácio, passos começaram a soar e vozes começaram a gritar. Todo o palácio acordava as pressas. Guardas, servos, nobres, plebeus...todos que possuíam dois olhos e duas orelhas pontudas corriam para se organizar a dar as boas novas para o reino.
- Chato - Evalin se virou de volta para o espelho, mas continuou espiando o marido pelo reflexo do espelho - Terminei a primeira parte. Falta trançar o cabelo e...
- Eu tranço pra você! - Legolas correu para perto e parou atrás da esposa, imediatamente começando a trançar seus fios. Eva deu um sorriso ao sentir os dedos trêmulos do marido em seu couro cabeludo
- Claro, querido. Se isso te faz achar que vamos ir mais rápido - sorriu compreensiva - Então pode começar, e acho que terminando isso podemos ir - puxou as duas bolsas de maternidade que colocou em cima da penteadeira e começou a conferir pela milésima vez
Legolas trançou agilmente os cabelos de Evalin, seus dedos correndo rapidamente pelos fios e fazendo uma trança linda e funcional.
- Que linda - nossa gravida preferida sorriu - Agora me dê um beijinho
E Legolas? Legolas obedeceu. Deu a volta para ficar de frente para a esposa, segurou o encosto da cadeira e a beijou. Suave e profundamente. Depois forte e rapidamente. E mais uma vez Evalin ficou completamente entregue, viciada e apaixonada.
- Amarth, querida, luz do meu coração, amor da minha imortalidade...será que agora podemos ir? - o príncipe implorou, começando a dar pequenos beijinhos em todo o rosto dela - Por favor?
- Tudo bem, podemos
E antes que Eva pudesse mudar de ideia, Legolas rapidamente pendurou as duas bolsas no ombro e a pegou no colo.
- Ah! - foi a declaração de uma elfa que claramente pretendia ir andando pois tinha planos óbvios de ir parando várias vezes no meio do caminho. É...ela não esqueceu os docinhos de limão
- Começo a achar que você não quis fazer o parto no nosso quarto, como é o costume, porque queria usar todo minuto possível para dar voz aos seus pensamentos completamente intrusivos - Legolas abriu a porta do quarto e saiu rapidamente da ala real
- Não são intrusivos! Os doces são importantes! E você deveria se preocupar com eles também e... - olhando por cima do ombro do marido Evalin finalmente percebeu um comboio de servas e guardas os seguindo - Ah, perfeito! Verde, eu quero tudo em tons de verde
Com sua esposa ocupada dando instruções, Legolas apenas se concentrou em respirar fundo, muito fundo, muito fundo mesmo, para se acalmar. Um passo atrás do outro. Um de cada vez. Sempre em frente.
Ai. Valar. Do. Céu.
Ele seria pai! Pai! Pai! Pai! De gêmeos. Que iam nascer. E iam nascer agora. Que começaram a nascer algum momento atrás quando sua esposa resolveu esconder as contrações em detrimento dos seus docinhos de limão. Malditos docinhos de limão!
Foi quando sentiu um cutucão na bochecha.
- Oi?
- Oi
- Nervoso? Ansioso? Colapsando?
- Colapsando - assentiu vigorosamente
- E olha que eu ainda nem comecei a gritar. Sabe, eles não vão nascer nesse corredor!
- Quem garante, senhora Evalin Teimosia Greenleaf? - brincou Legolas
- Bem, não estou sentindo nem Aerin nem Arsene deslizando de dentro de mim agora - disse, fazendo o marido rir, mesmo que soasse um pouco sem fôlego
- Shhhh não diga em voz alta! Eles podem se sentir compelidos!
Evalin riu, em seguida colocou a palma da mão na bochecha do marido.
- Você enfrenta com tranquilidade centenas de orcs raivosos e aranhas gigantes e agora está suando e com as mãos tremendo por que sua esposa quer doces de limão?
- Porque minha esposa quer doces de limão ao invés de parir! - fez um biquinho
Um pé. Outro pé. Um na frente do outro. Em sequência. Para chegar do outro lado. Valar. Ele ia ser pai!
- Você vai ser, você já é, um pai incrível. E se tenho uma certeza na vida essa certeza é você - Evalin sorriu
Em volta deles o caos acontecia. Elfos se empurravam desesperadamente nos preparativos para o parto, gritos de "vão nascer!", "o pequeno príncipe e princesa de Greenwood estão vindo!", "Sempre soube que o Principe Legolas e Lady Evalin acabariam juntos", "Você já pegou as mantas? A tesoura? As ataduras?", 'Pessoal, a princesa vai parir! Parem de gritar!", "Os docinhos de limão!" e “Cadê os docinhos??? De limão!”.
A voz do Rei Thranduil se sobressaía junto a de Lorde Thoronthur, que se aproximavam correndo e discutindo sobre qual lado da família seus netos puxariam. Thoronthur recusava veementemente qualquer ligação com a linhagem de Oropher, fora uns detalhes aqui e ali; já Thranduil declarava que os gêmeos viriam como cópias da família real e não tinha nada que o conselheiro pudesse fazer sobre isso além de pintar o cabelo das crianças. Principe Lindus vinha logo atrás, mandando os dois senhores élficos se controlarem ou os bebês nem iam nem querer nascer se fosse essa vista que teriam.
Mas Legolas e Evalin permaneciam em sua própria bolha de amor, não prestando atenção em nada além de um no outro.
- Você é a melhor coisa que me aconteceu - Legolas desacelerou o passo ao entrar na ala de cura, e suavemente deitou a esposa na cama. Elfos corriam em volta fazendo os preparativos para o parto, bacias de água, toalhas limpas... - Obrigado por me amar. Obrigado por me dizer sim. Obrigado por me fazer o elfo mais feliz do mundo. Meu coração é seu. Meu arco é seu. Eu sou seu.
Eva, deitada na cama e com as contrações (finalmente) aumentando a ponto de não mais conseguir ignorar, sorriu com um brilho em seus olhos e apertou a mão do marido.
- E eu sou sua. Por quanto tempo a eternidade durar. E além - colocou a mão sobre o coração de Legolas e sorriu
- Eva - Legolas segurou sua mão, dando um beijo no dorso - Amo você - em seguida desceu os lábios até a barriga da esposa depositando também um beijo ali - e amo vocês também. Mesmo quando a Terra Média não passar de um sussurro esquecido nos confins de uma biblioteca, uma mera citação em um livro antigo e esquecido, amarei vocês
Os dois sorriram um para o outro, radiantes com a enormidade do que estava acontecendo. Melhores amigos. Namorados. Casados. E agora pais.
- Pronta, Alteza? - o curador se aproximou, secando as mãos em um pano
- Sim, Elynion - assentiu Evalin - Mas antes....por acaso, no caminho até aqui...Você viu as cozinheiras vindo com meus docinhos de limão?
- Você não vai esquecer esses doces não é? - bufou Legolas
-Jamais
