Actions

Work Header

Azul da cor do mar

Chapter 4: Capitulo 4, Viana.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

O local de encontro era sujo, tinha cheiro de cerveja velha e suor. Logo depois do seu “discurso”, Caetano desceu do navio em direção ao porto, enquanto cantarolava uma receita de vatapá. Maria Bethânia tinha os braços ao redor do pescoço de Caetano. Chico ficava atrás dos dois, que ignoravam ele, e apenas às vezes Bethânia verificava se ele ainda estava ali. 

Chico pensou até mesmo na possibilidade de fugir, era um local aberto, era só ele gritar que era o príncipe ( Rei, ou qualquer coisa que queira chamar) de Hollanda que ajudariam-o. Mas o jeito que Caetano estava despreocupado preocupava Chico.

Bethânia usava roupas mais adequadas ao lugar, com um vestido verde com uma abertura atrás parecido com os que as mulheres de Viana estavam usando. Enquanto Caetano não se preocupou com isso, apenas roubou um chapéu de palha e uma boina, colocou o chapéu de palha em si e a boina em Chico.

— Isso é um disfarce? — Chico resmungou. Eles passaram pela feira local, o sol sendo escondido pelas tendas. A feira estava cheia de tendas coloridas para cada seção de itens, alguns dos comerciantes levavam as mercadorias na cabeça enquanto gritavam sobre seus produtos. A maioria eram frutas, itens artesanais e roupas

— É claro — Caetano roubou uma maçã, mas os comerciantes fingiram que não viram — Não tô’ afim de drama.

A feira tinha cheiro de 

Continuaram andando, logo indo para uma parte menos movimentada, com velhos estranhos fumando. Chico seguiu os outros dois entrando em um bar. O local era imundo, com as paredes cheias de mofo e móveis que pareciam nunca ter sido limpos. Logo na entrada, uma garota jovem segurava uma bandeja com churrasco em um prato de barro.

— Nara, que tal a nossa mesa de sempre? — Caetano tocou o ombro dela, que assentiu enquanto acompanhava os três até uma mesa ao canto do bar, que dava visão para o palco vazio. Eles se sentaram lá, enquanto Nara andou até o balcão sem nem perguntar o pedido.

Nara era uma elfa, com suas orelhas pontudas roçando no cabelo liso e curto na altura do queixo. Seu pescoço tinha uma tatuagem escrito leão em uma língua antiga, mas que pelas aulas rigorosas do castelo, Chico conhecia.

Caetano e Bethânia ficaram conversando sobre como Nara continuava a mesma e como o velho bêbado desmaiado perto deles ficava cada vez mais velho e continuava sempre bêbado. Pareciam pertencer ao local, como se fossem lá todo dia tomar um vinho ao fim da tarde. Belchior ainda não tinha aparecido, mas eles não pareciam se incomodar.

Nara veio até eles com uma garrafa de licor e um trio de copos deixados sobre a mesa, ela serviu os copos, e foi-se partindo. Bethânia sorriu, virando o copo em goles rápidos. Chico pegou um dos copos, enquanto examinava o líquido. No palco, um homem de idade adulta, com cabelos cacheados e uma barba rala. Ele segurava um violão nas mãos, enquanto se sentava em um banquinho antes de dar o primeiro som do violão. 

A primeira frase foi como um depoimento, algo do fundo da garganta.

— Eu nasci, há dez mil anos atrás! — cantou, com a voz estridente. Chico não imaginava algum ser com mais de dez mil anos. Era possível, talvez, afinal os feéricos são seres da natureza, que podem viver mais de novecentos anos. Mas dez mil anos eram muitos anos até mesmo pro mais velho do reino, e ao julgar pela face do cantor era impossível. — E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais…

Era mais um tolo contando mentiras, algo que Chico se pegou apreciando nos últimos tempos. A roupa do cantor era parecida com mantos religiosos, branco com rendas em seu ombro e o colo do pescoço. Ele dedilhava o violão com excelência, enquanto as sereias cantavam o backing vocal.

Em seu pé tinha um saco de moedas, que Chico jurava não ter visto antes. Os clientes do bar colocavam o dinheiro lá, enquanto o cantor continuava.

— Eu vi o nosso povo e os humanos se dividirem— vocalizou, enquanto levantava o queixo — Eu vi os elfos e os gnomos se absorverem, eu vi. — Chico sorriu, lembrou de sua infância lendo os livros sobre o passado na biblioteca do reino. 

A história dos humanos e os feéricos era um tema não tão interessante hoje em dia, os feéricos se escondiam dos humanos, apesar de às vezes aparecerem por lá. Há muito tempo, o mundo humano e feérico eram unidos, com a natureza em perfeitas condições. 

Porém, os humanos estavam insatisfeitos com aquilo, eles achavam que mereciam o mesmo poder que os feéricos tinham,e por causa disso foram sendo consumidos pela ganância. 

Armaram uma emboscada; iriam matá-los para estudar cada espécie. Um dos humanos acreditava que era preciso beber o sangue deles para conseguirem os poderes e assim seguiram em frente.

Os feéricos não eram estúpidos, eles sabiam mentir, e ainda mais descobrir mentiras. Um senhor, de chapéu vermelho tingido de sangue, conhecido como Barrete Vermelho, descobriu a trama e levou de volta os feéricos para aquele lugar esquecido, que centenas de anos antes dos humanos eram seu lar, o bosque Araçá. O bosque das árvores curativas, que guardava o antigo portal para o mar dos atuais reinos.

As espécies se separaram, cada uma tornando uma ilha seu lar.

— Eu vi um príncipe entrar por essa porta! — E riram dele, como se fosse mais uma mentira — Eu vi a Virginia ser morta, eu vi! — Aquele nome era mais familiar do que ele desejava.

Chico lembrava do quadro daquela mulher negra, junto do filho em seu colo. Era a antiga rainha do reino, antes de deixar seu filho de treze anos no poder, Virginia Viana.

Ele se recordava de dias depois da sua volta para o reino de Hollanda ver a primeira capa do jornal; A morte da jovem rainha de Viana que deixou apenas seu filho, o único herdeiro. Seu pai encarou o papel e depois fechou-o acendendo um cigarro. 

O cantor continuou com a melodia, contando sobre a vez que entrou em guerra com Miranda pela mão de uma linda mulher, quando perdeu ela e navegou pelos 7 mares com apenas a ajuda da sua intuição e histórias cada vez mais cabulosas — e mentirosas para Chico.

A música acabou com a última frase dizendo que se alguém provar que ele estava errado, o cantor tiraria o chapéu. Apesar dos risos, todos bateram palma, com o cantor indo embora, Caetano aplaudiu, enchendo o copo novamente.

— Raul ainda continua fazendo esses shows? — Bethânia resmungou.

— Essa é a coisa dele — Caetano sorriu — Toca Raul, lembra?

Bethânia assentiu, dando uma risada leve. Chico odiava quando eles traziam aquelas piadas internas que só eles entendiam — Que acontecia com mais frequência do que ele gostaria.

Raul apareceu dos bastidores, com uma roupa diferente de antes, com uma calça branco boca de sino e uma regata até a mesa deles, se sentando e colocando os pés em cima da mesa. 

— Belchior está insuportável! — grunhiu, se encolhendo na mesa. — Na próxima vez que eu tiver que ajudar ele, eu vou acabar com todos os meus anos de vida.

— Os dez mil? — Chico perguntou, sem pensar antes. Raul finalmente virou para ele, analisando-o por completo. Passando pelos cabelos encaracolados que haviam crescido pelos dias sem cortar, e principalmente, o olho azul da cor do mar. 

— Eu te conheço! — Raul gritou, e riu logo em seguida — Você é o príncipe! Bem-vindo ao bando — Ele estende a mão, dando um aperto de mão apertado em Chico, balançando todo o seu braço.

— Fico triste por você já começar conhecendo Belchior — Raul gungunou, soltando a mão de Chico, pegando o copo quase acabado de Buarque, bebendo como se fosse água — Mas tem problema não, ja já você vai embora.

Raul disse como se Chico fosse mais um príncipe comum roubado por Caetano e sua trupe. 

— Já teve contato com a realeza? — Caetano pegou um dos copos que Nara levava na bandeja enquanto passeava pelas mesas. — Eu recebi a carta dele.

As luzes do palco foram desligadas, junto com os mais novos indo embora, deixando apenas os velhos alcoólatras rindo alto.

— A gente se juntou semana passada para reunir provas. Mas não adiantou muito, Caju conseguiu ser preso antes que conseguíssemos algo. — Raul comentou. 

Um homem se aproximou deles, tinha cabelo preto na altura do ombro. Tinha um bigode cheio e grosso, cobrindo apenas o buço. Tinha um rosto emburrado, com os braços cruzados sobre a jardineira jeans com o nome “Antonio C. Belchior” gravado em uma plaqueta.

— Finalmente chegaram! Achei que ia ser eterna a demora — Belchior sorriu, mas parou quando viu Raul encarando-o cético.

— Você está atrasado. — Raul resmungou, e Belchior se sentou ao lado de Chico.

Bethânia se levantou, caminhando até o balcão depois de dar dois tapinhas no ombro de Caetano. Ela pegou uma bebida com a Bartender e se sentou em uma cadeira vazia ao canto. Bethânia sorria, conversando com a atendente.

— E as provas? — Caetano perguntou, batucando os dedos na mesa. Raul pegou uma pequena pasta em uma bolsa da jardineira.

— Estão aqui, direto do chefe — Raul riu, entregando um pasta com vários envelopes dentro. — Eu ouvi dizer que conseguiram roubar a coroa de Hollanda, é verdade? 

— Conseguimos, já está nas mãos — Caetano revistou os envelopes com cuidado.

— Vocês roubaram a coroa!? — Chico indagou. A coroa era o símbolo de Hollanda, talvez a coisa mais importante do castelo. Era guardada presa em um cofre dourado escondido nos inúmeros quartos do castelo.

Dizia a lenda que Hollanda foi o primeiro lugar em que o Barrete Vermelho foi com os feéricos, fazendo a ilha o primeiro lar de todos. Até que um dia, um elfo curioso decidiu se aventurar dentro da floresta de Hollanda. E lá, ele encontrou uma mulher de cabelos loiros nua, sendo coberta apenas pelas asas de borboleta azuis. 

Sua voz era doce, encantadora e sedutora convenceu ele a ficar com ela dentro de um bosque. Apesar de o elfo nunca mais ter sido visto, a fada trocou a vida e o amor do rapaz pela prosperidade da terra de Hollanda, nascendo as primeiras fadas apenas em Hollanda. A fada apareceu no primeiro nascimento, coroando a pequena fada com a coroa de cristais azuis de Hollanda. E desde então, a coroa continuou sendo protegida pela família daquela criança, que se tornou a família real.

— Não sei se vamos conseguir ir até o samurai a tempo — Disse Caetano, ignorando Chico.

— A conferência vai ser dia nove de outubro, claro que dá tempo — Belchior resmungou — E o samurai não deixaria você passar aqui sem visitá-lo, ainda mais depois dessa nova aquisição.

Chico estava começando a odiar o jeito que tratavam ele com um animal de estimação dos piratas. Além do fato de que ele começou a pensar que aquele excesso de apelidos era apenas para confundi-lo. 

— Realmente, ele anda reclamando de não estar em seu barco mais — Raul batucou os dedos na mesa cheia de poeira.

— Ele esquece que tem deveres, que definitivamente não tem haver com o mar, por enquanto pelo menos — Caetano terminou a garrafa, dando o último gole. Bethânia veio logo atrás, com um cigarro entre os dedos.

O bar estava mais frio que antes, com os velhos saindo aos poucos, provavelmente pelo horário de almoço chegando. Um elfo caia por estar tão bêbado, mas continuava a beber. Sua namorada estava ao lado dele, rindo de alguma coisa. Nara limpava uma mesa enquanto cantarolava

Notes:

Sei que dei uma boa sumida, mas na real desativei um pouco minha vida das fanfics

Notes:

Está história foi criada apenas para questionar: Por que diabos não tem uma fanfic de MPB no AO3?