Chapter Text
꧁⎝ 𓆩༺✧༻𓆪 ⎠꧂
-Acho que isso é seu… - Ela estende o objeto para mim. Vejo em sua outra mão minha faca. A pedra vermelha do medalhão estava rachada, provavelmente por ter batido na rocha junto comigo em minha queda. Ela me entrega os objetos e senta ao meu lado novamente. - O medalhão estava em você, Norm tirou para poder cuidar dos ferimentos em seu peito e deixou comigo, mas esqueci de te entregar antes. E a faca estava na beira do rio onde te encontramos, suponho que seja sua, já que não temos rochas pretas nessa região… - Ela observa os objetos agora em minhas mãos.
-É minha sim… -Reflito se devo agradecer, eles são todos muito formais sempre, talvez isso demonstre que não sou uma ameaça. -Muito… Muito obrigada.
-De nada! - Ela sorri, fechando os olhos. Sinto algo estranho em meu estômago, é como fome, mas não dói como fome, dá para entender? Baixo a cabeça e coloco o medalhão em meu pescoço novamente.
-Como é mesmo seu nome? - Neytiri pergunta ao me entregar uma cumbuca com sopa, que eu agarro firme com a mão, depois de largar a faca ao meu lado, para não virar já que está quase transbordando. Os demais presentes também começam a servir-se com o caldo, este que era feito com raízes.
-Lìnta te'Rrta Fya'ite. Fya era minha mãe… - Digo, logo depois enchendo minha boca com o alimento.
-Entendi. Lìnta, aqui nessa casa cada um tem uma função, assim que se recuperar um pouco, irá nos ajudar. Acredito que o braço quebrado não seja um desafio tão grande para você, já que te vi caçando um Palulukan... -Ela estava lá? Como não a vi?
-Sim, senhora… - Abaixo o semblante observando o líquido em minhas mãos.
Ela se abaixa perto de mim e cochicha no meu ouvido.
-Não confio em você garota, sei que está aprontando algo e até que eu descubra, fique longe dos meus filhos. - Ela sai de perto de mim e eu aceno com a cabeça, a olhando nos olhos. Merda, mulher inteligente…
Após todos se alimentarem e as conversas voltarem, estas que eram em inglês e que eu com certeza não estava incluída, a senhora Sully me chamou para mostrar onde eu iria dormir. Confesso que me impressionei quando vi uma coisa pendurada, que eles chamam de rede, ao invés de um pedaço de couro no chão. Coloquei minha sacola - que me devolveram apenas com os ossos pequenos após confiscarem as armas - pendurada ao lado da rede e guardei dentro dela minha faca que Kiri havia me devolvido. O pedaço de couro que estava em minhas costas desamarrei e coloquei-o aberto abaixo da minha rede, tenho quase certeza de que não consigo dormir nessa coisa.
Nesse momento Kiri chegou onde estou.
-Mamãe disse para te levarmos no rio para se banhar. - Reviro os olhos, que mania dessa gente de estar sempre na água.
-Não quero perder minhas cinzas, elas me camuflam à noite na sua floresta colorida… Mas obrigada pela tentativa. -Respondi a encarando.
-Mas se deixar seu braço sujo seu machucado irá infeccionar de novo… -Ela observa meu curativo, que já estava com um fundo avermelhado novamente.
-Como quer que eu lave o braço sem molhar a tala que Norm acabou de fazer? Ah, e ele limpou meu braço quando fez a tala. Agradeço a preocupação… - Digo sincera.
-Pode limpar seu corpo com um pano para não molhar o curativo, não faz isso normalmente? Os humanos tem um objeto de limpeza muito bom, se chama sabonete, você vai gostar de tomar banho com ele, é sério! - Ela gesticula com as mãos, ajoelhando ao meu lado. - Tem certeza de que não quer tomar banho? - Suas sobrancelhas se movem e fazem uma expressão de dúvida tomar seu rosto, ela inclina levemente a cabeça para o lado. Sinto minhas bochechas esquentarem, juntamente de minhas orelhas, e meu coração acelera. Mas que merda é essa?
-Evito o contato com a água, para ser sincera. - Paro de a olhar, vagando com meus olhos envolta do galho onde as redes estavam penduradas. - Lá no vale das Cinzas a água que temos é apenas para beber, é raro quando temos tempo de tomar um banho de rio… -Explico.
-Aqui tomamos todos os dias… A Tsireya praticamente mora na água, sabe? Ela é do clã Metkayina. Eles vivem ao lado do oceano… Já foi em Awa’Atlu? Lá é muito bonito… -Ela tenta puxar assunto, além de continuar tentando me convencer a ir tomar um banho.
-Não, nunca fui. E não vou tomar banho, minhas cinzas são minha identidade no meio do seu povo. E olha, sei que está tentando ser simpática e agradeço, mas estou aqui contra minha vontade e gostaria mesmo de ficar sozinha… - Digo, fingindo estar concentrada mexendo em alguns acessórios em meu cabelo, para não a olhar.
-Ah, foi mal… Eu vou te deixar sozinha… Mas devia experimentar a rede, garanto que é melhor que o couro… - Ela se levanta e eu escuto seus passos se afastarem na direção da tenda onde estávamos. Por um momento reflito se não fui muito grossa, já que da família dela, apenas ela e Tuk não demonstram ser hostis. Fala sério! Ela devia manter distância de mim! E eu dela… Já que planejo destruir ela e a família dela o mais rápido possível… Nota mental: Não me apegar a Kiri e a criança.
Ignorando a dica da garota, já que definitivamente não quero cair com tudo no chão deitando nessa coisa, me deito em meu pedaço de couro, virada para a esquerda já que a minha nova tala é ainda mais dura que a anterior e não consigo me deitar com ela, além de que minhas costas tem doído bastante. Fico ouvindo barulho de insetos e vozes abafadas até adormecer. Na manhã seguinte, acordo com barulhos diversos, caminho até a tenda e encontro somente Tuk e Neytiri.
-Finalmente acordou… - A mais velha fala. -Não dormiu na rede por que? - Indagou, apontando para que me sentasse ao seu lado e me entregando um fruto para comer.
-Prefiro minha cama cotidiana… - Digo, logo após me concentro apenas em comer o alimento amarelado.
-Mentira, teve medo de cair, não é? Sou mãe de 4 pivetes, garota, não adianta tentar mentir, sei ler pensamentos… - Por um momento fiquei aflita, será verdade? A encarei.
-Talvez um pouco… - Voltei a me concentrar na comida.
-Ei mãe! Não sou um pivete! - Tuk fala encarando a mulher.
-Não é não, querida. Mas seus irmãos são. - Ambas sorriem. - Está com dor? - Ela observa minha tala, agora quase toda vermelha de sangue, o que na verdade combina bastante comigo, já que os desenhos que possuo na pele são vermelhos e feitos, em sua maioria, de sangue.
-Não muito…
-Vá até o laboratório depois de comer, Norm quer que faça mais soro. Está magra e claramente fraca. - Ela estava concentrada em catar grãos, com a ajuda de Tuk, que provavelmente seriam cozinhados depois.
-Desse jeito vou ficar uma gorda horrorosa… - Reclamo em um sussurro para mim mesma, não pensei que ela fosse ouvir.
-Prefere morrer e invocar uma guerra? - Ela fecha o punho batendo-o no chão ao seu lado - Quer que crianças morram porque você ia ficar gorda caso fizesse soro? -Ela me encara com olhos ferozes.
-Não, eu… Apenas estava dizendo… - Ela me corta.
-Devia ter mais gratidão, garota! Não a quero aqui, mas estou fazendo um esforço, devia se esforçar também ao invés de ficar reclamando.
-Se me permite, senhora Sully. - Digo me levantando. - Vocês Omatikaya não sabem nada sobre esforço. Gratidão nem sempre está associada a se contentar com as coisas. Se for gorda não serei ágil e isso vai me tirar o que tenho de mais importante no mundo, minha posição no batalhão dos Mangkwans. - Explico. - Temo que não saiba a importância disso, já que seu povo não precisa de formações de guerra para sobreviver. Com licença. -Me retiro da tenda sem ver sua reação após minhas palavras mas a ouço rosnar.
Entro no laboratório já sendo direcionada a uma sala com paredes - do que chamam - de vidro. Norm coloca soro em meu braço e eu passo algum tempo observando tudo à minha volta. De repente uma humana de pele clara e cabelos escuros entra no laboratório. Ela vestia, além da roupa, um negócio preto em seu peito e carregava algo que parecia muito o atirador de trovão que eu roubei de Sully. A vejo seguir por um corredor ao lado da sala onde eu estava. Pego a bolsa de soro que estava pendurada ao meu lado, me assegurando de o homem estava bem ocupado e não estava me olhando. Vou me esgueirando atrás da mulher, entrando em uma sala que faz meus olhos brilharem, diversos lançadores de trovão pendurados nas paredes. Em um negócio plano, cheio de aberturas, vejo o que parecem pedras, mas pontiagudas e de metal, acredito que seja o que faz o trovão. Preciso descobrir como usar essa coisa e acho que aquela mulher que vai me mostrar isso… Volto rapidamente para onde estava, para não que o humano não suspeitasse de minha ausência.
As horas que passei no laboratório depois disso pareciam intermináveis, a única visão que tinha era de Norm e a mulher de cabelos escuros sentados a frente de uma tela, que tinha outros humanos fazendo diversas coisas, enquanto comiam coisinhas pequenas e brancas que faziam um barulho crocante. Quando o soro acabou, Norm limpou meu braço novamente, fez outra tala e passou cera em volta das ataduras, para que eu pudesse tomar um banho - por que sinto que Neytiri ou algum dos Sully veio aqui reclamar que não pulei na água junto deles ontem? -, mesmo que não quisesse o fazer, já que a marca de meu povo são nossos desenhos corporais feitos de sangue, cinzas e carvão moído. Saí do laboratório no horário do Eclipse. A maior parte dos Na'vis estavam ocupados com suas próprias vidas, por isso, sorrateiramente fui até Tarokxo, que estava em um lugar onde os Ikrans ficam para receber alimento e água, e peguei meus alucinógenos, os escondendo embaixo de minha tanga. Por um momento quase fui pega, já que naquele momento os dois filhos da família Sully estavam sobrevoando o local, mas felizmente eles estavam ocupados demais um com o outro, então consegui correr sem que eles me vissem. Voltei para a tenda, vendo agora apenas Neytiri, avisei que iria até o rio me banhar, a mandato de Norm e saí rapidamente.
Cheguei à beira da água e me assegurei de que não havia ninguém nas proximidades. Coloquei um pouco do alucinógeno em minha mão esquerda, usando minha longa unha, da mão direita como medida, confesso que isso foi meio difícil, dado o estado do meu braço. Puxei o pó com minha narina direita, jogando minha cabeça e mão para trás, para que todo o alucinógeno entrasse em meu nariz. Escondo o saquinho do alucinógeno embaixo de algumas folhas, pretendo pegá-lo depois, nunca sei até onde posso ir quando estou drogada… Em poucos segundos tudo parece girar, isso me traz uma sensação libertadora. Me deito no chão olhando para os galhos das árvores acima de mim, estes que pareciam se duplicar e ficam mais coloridos que o normal. Um tempo depois, vejo em meus delírios Kiri e aquele garoto de cabelos amarelos, também duplicados. Por um momento dou risada, já que a cara do humano estava toda embolada em minha visão. A miragem de Kiri se abaixa ao meu lado. Eu estava agora sentada, ela então segura meu rosto com ambas as mãos, me fazendo a olhar nos olhos, vejo no reflexo de suas íris verdes meus próprios olhos, em um amarelo escuro e com as pupilas muito dilatadas.
-O que aconteceu? - Sua voz parecia um eco distante.
-Sabia que o verde de seus olhos é lindo? Alguém já lhe disse isso? - Vejo a Kiri duplicada fixar o olhar em mim meio incrédula.
-Eu já disse! - O garoto loiro grita.
-Não falei com você! Não banque o namorado ciumento! - Digo mostrando a língua. Depois disso seguro a mão de Kiri que estava em meu rosto. - Seu namorado é muito idiota e feio, você merece algo melhor, já que vai ser a próxima Tsahìk dos Omatikaya… Não acha?
-Ele não é meu namorado… - Olho o garoto rapidamente com o canto do meu olho, este que coçava a nuca e encarava o chão de terra à nossa volta. - E como sabe que serei a próxima Tsahìk? - Ela me pergunta. - Ou melhor, o que aconteceu com você? Responda logo.
-Norm não cala a boca no laboratório, estava falando sobre a passagem do “cargo” para você e como uma tal de Grace ficaria orgulhosa… - Vejo reflexão em seus olhos, que me encaram a um tempo. Minha cabeça tomba para o lado, mas rapidamente volto a minha postura. - Estou bem… É apenas uma droguinha para sobreviver a esse cárcere… - Sorri com um ar sacana. Coloco um dedo em seus lábios os pressionando levemente, os encarando por um momento meio longo. - Mas ei… Shiiii~... Não conte para sua mãe, ela tem cortado minha onda… - Solto um riso. - Literalmente… - Empurro suas mãos, voltando a me deitar.
-Ei, Kiri, vamos voltar, vai que isso é tóxico… Essa garota é muito estranha… - Vejo-o segurar o braço de Kiri, que agora volta seu olhar a ele.
-Não podemos deixar ela largada aqui… Ela é nosso tratado de paz, lembra? - Por um momento me sinto como um objeto, algo que os Omatikaya usam para ter paz e Varang para ter acesso a armas. Nesse momento, a brisa passa e me sento rapidamente os assustando.
-Suas… Suas pupilas estavam grandes e agora estão minúsculas! Está bem? Você também não estava dizendo coisas comuns… - Kiri fala e os dois me observam.
-Vocês não viram nada - Digo me levantando. -Se ousarem contar para qualquer um que me viram assim, corto suas gargantas bem devagar com minha faca quando estiverem dormindo! E parem de me seguir! - Caminho até o rio, entrando na água, que estava gelada até demais, fazendo um arrepio passar por meu corpo.
-Ei! -Escuto Kiri gritar atrás de mim. - Não quer mesmo um sabonete?
-Não! Vá embora. - Me sento na parte rasa do rio, molhando completamente minha tanga, o que me irrita um pouco, já que por conta da plateia não a tirei para me banhar.
Escuto seus passos e suas vozes se afastarem atrás de mim. Uso minha mão esquerda e o pano preso ao meu corpo para me lavar. Vejo a correnteza levar minhas cinzas e minha pele azul começar a aparecer. Depois que terminei de me lavar fico um tempo ainda sentada na beira do rio, refletindo sobre tudo e escutando o som da água. Sinto tanta falta de minha terra, minhas cinzas… Sei que tenho uma missão a cumprir, mas parece ter algo dentro de mim, como um aviso, me dizendo para fugir de tudo, me dizendo para desistir de tudo… Algo como um vazio imenso, que não se completa com nada. Penso na oportunidade que terei se for a próxima Olo'eykte dos Mangkwan, mas sei que não serei uma boa líder, Varang tem sangue frio e faz o que é necessário para ajudar os nossos, mas eu não tenho a mesma coragem. Dizem que coragem a gente adquire no meio do processo, mas porque sinto que não sou capaz de começar o processo? Não sei se sou capaz de levar as armas até Varang e esse pensamento me assombra…
Me levanto da água, a vendo pingar de meu corpo. Seguro firmemente meu cabelo, tentando tirar o excesso de água presente nele. Balanço minha mão para a secar com o ar e pego o alucinógeno escondido, começo a ir em direção da vila Omatikaya. Passo rapidamente em Tarokxo para esconder a droga e corro até a tenda dos Sully. Quando entro, todos me encaram.
-Nossa, agora até parece uma Na’vi de verdade. Não tá mais cinza, Cinzeiro. - Lo'ak fala.
-Venha aqui garota, vou te dar uma tanga seca… -Neytiri me chama para outra parte da tenda. Espero que ela me dê o pedaço de pano para colocá-lo em meu cinto e tirar o antigo, mesmo sabendo o desafio que isso vai ser apenas com uma mão, mas ao contrário disso, ela me ajuda. - Com licença, vou te ajudar a tirar essa coisa molhada. Por que tomou banho com isso?
-Kiri e o garoto me viram no lago… Não queria tirar na frente deles… -Digo a observando concentrada em fazer tranças com outro pedaço de pano para prender em minha cintura, agora nua.
-Aquele loiro intrometido… - Ela termina de colocar a tanga em mim. - Me desculpe por mais cedo, garota… - Me olha nos olhos. - Deve se sentir deslocada, percebo isso agora pois você tem um olhar triste. Vou tentar não pegar no seu pé, se prometer parar de reclamar e revirar os olhos, isso me irrita profundamente. - Sorri levemente para ela, que devolve o sorriso. - E se está tramando algo, por causa daquela sua líder, fique bem longe dos meus filhos, pois não terei piedade na hora de meter uma flecha no seu ouvido. - Ela endurece a feição, me fazendo suspirar pensando no que me aguarda…
-Eu gosto da forma ameaçadora com que protege seus filhos, senhora Sully… - Sou aincera. - Toda mãe é assim?
-A sua não é? - Ela me questiona.
-Ela morreu quando eu era muito nova e, no geral, ela não gostava da minha presença. Eu era a maldição de sua vida… - Reflito sobre o passado e a mulher me encara com dúvida.
-Por que maldição? - Me questiona.
-Porque por minha culpa coisas ruins aconteceram na vida dela. - Respondo e ela continua questionando.
-Que coisas ruins? O que você fez? - Ela se posiciona mais para trás.
-Quando minha mãe descobriu que estava grávida… - Abaixo minha cabeça vendo as memórias de como minha mãe me tratava voltarem. Isso embrulha meu estômago. - Meus avós morreram… Quando nasci, meu pai morreu… Ela perdeu tudo que tinha por minha culpa… E em meu aniversário de cinco anos, perdemos nossa vila novamente e ela faleceu… Isso tudo é culpa de minha maldição. Isso tudo é culpa de Eywa! Que nos virou as costas e lançou essa maldição sob mim! - Por um momento sinto a raiva tomar conta de mim.
-Por que Eywa tem culpa?! - Ela segura firmemente meu braço, fazendo meus olhos, agora cheios de lágrimas, olharem os dela. - Eywa nos mostra o caminho para seguir quando as coisas dão errado! Minha casa também foi destruída, por aqueles que vieram do céu, mas eu tive fé em Eywa e ela me mostrou o caminho! E olhe para mim agora! Tenho quatro filhos lindos e saudáveis e tudo melhorou! Porque tive fé! Se continuar culpando Eywa ao invés de seguir em frente com as oportunidades que ela te proporciona, então não vai a lugar nenhum, garota! E eu não sei quem meteu essa merda na sua cabeça, mas nada do que aconteceu na vida de sua mãe era culpa sua! Você não é uma maldição e não está amaldiçoada! Seu povo só não teve os recursos para perceber isso… - Ela fala quase gritando as primeiras frases, mas depois abaixa a voz.
Eu esqueci que não posso discutir com essa gente, eles nunca vão entender. Mesmo assim, a água continua escorrendo de meus olhos. Encaro o chão. De repente sinto algo me abraçar, era Neytiri.
-Acho que sua mãe não teve oportunidade de te dizer isso, mas eu estou dizendo. Você não é uma maldição Lìnta e Eywa não te virou as costas. Mas você também não pode virar as costas para ela! Tem que acreditar de que tudo vai melhorar… - Tudo vai melhorar sim, quando eu conseguir completar minha missão e colocar aquelas armas nas mãos de meu povo… E te mostrar, Neytiri, que Eywa não irá te ajudar… Como não ajudou minha mãe…
O problema é que mesmo afirmando isso para mim mesma, abracei a mulher à minha frente com meu braço bom e chorei, feito uma criança. Por que está tudo tão bagunçado?! Por que estou chorando na frente de minha inimiga? Vou matá-la em poucos dias então, por que estou tão vulnerável em sua frente? Mas que merda está acontecendo comigo? Mais que merda ela está fazendo?!
Depois de um tempo sinto as lágrimas cessarem. Não posso me apegar a eles. Não posso crer em Eywa. Foco Lìnta!
-Vamos comer, garota. A janta já deve estar esfriando… - Limpo meus olhos e sigo a mulher até onde todos estavam.
Sento em um canto, como fiz nas outras refeições, vendo todos reunidos ao redor da fogueira. Porém, dessa vez, Neytiri me chama, dizendo para me sentar mais perto.
-Evitem falar em Inglês, para que ela entenda o que estão dizendo… A incluam na conversa… - Neytiri diz em Inglês.
-Achei que quisesse expulsar a cinzeiro, mãe. - Lo'ak fala e vejo a mulher revirar os olhos. A única palavra que entendo é cinzeiro… Por que estão falando de mim? Mas que merda…
-Achei que não era para falarmos com ela pois ela é uma traidora de Eywa, mamãe… - A mais nova de todos fala.
-Apenas façam o que sua mãe diz… - Jakesully fala e todos se calam por um momento.
O silêncio era desconfortável, todos estavam ocupados olhando seu próprio alimento. É a primeira vez que vejo essa família tão quieta… Será que Neytiri contou para eles que sou amaldiçoada e estão com medo de mim?
-O que é essa cicatriz reta em seus ombros? - Neteyam me pergunta.
-Ah… É um juramento que fazemos em nosso clã quando completamos 18 anos. - O respondo.
-Ah, caramba, que legal… Eu acho… Er… - Ele parecia procurar palavras para falar, já que abria e fechava a boca. - Você tem a idade de Kiri, ela fez aniversário no verão… Eu faço daqui uma semana… Vamos comemorar com o Clã Metkayina, no ritual dos Tulkuns… Quando você fez aniversário? - Ele tenta manter o assunto.
-O que é aniversário? - Questiono.
-Ué? - Todos então me olham com dúvida. - É o dia que você nasce e comemora seu nascimento todos os anos. - Você não sabe o seu aniversário? - O garoto questiona meio incrédulo.
-Sei que nasci no Inverno, mas não faço ideia de quando… Todos do clã comemoram apenas quando fazem 18 anos desde que nasceram, mas todos juntos e na metade do inverno.
-Ah… Entendi… - Ele volta a se concentrar em sua sopa.
-É… - Também estou sem assunto.
-Sabia que meus irmãozãos vão ser líderes quando crescerem? - Tuk me pergunta. - A Kiri vai ser a Tsahìk e o Neteyam vai ser o próximo Olo'eyktan! Isso não é maneiro? - Ela sorri de orelha a orelha. - E você? Você tem um cargo em seu clã? Você caça ou prefere artesanato? Ou você cuida da sua família como a mamãe?
-Isso é muito legal sim… Parabéns aos dois… - Eles acenam com a cabeça. - Eu… Bem… Eu vou ser…
