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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-03-25
Updated:
2026-04-06
Words:
11,353
Chapters:
2/3
Comments:
24
Kudos:
109
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8
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3,412

estudo de caso

Chapter 2

Notes:

Por favor, notem com bastante atenção as tags e, principalmente, o aviso que NÃO EXISTE nelas. Nem nunca vai existir. Ok? Pra ser bem extremamente claro: NINGUÉM VAI MORRER!!

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

Colocar as fotos de Paulinho, Lorena, seu pai e a dela própria no quadro a incomoda muito mais do que ela achou que incomodaria. Mas com a mente menos enevoada pelo medo, ela consegue focar melhor no trabalho que eles têm a fazer e menos no susto.

A mensagem está clara, ou pelo menos parte dela está: fique longe. Saia de cena. A pergunta que fica é se ela é o real alvo ou se é uma peça.

O responsável é óbvio, mas qual a real intenção? Quem exatamente ele quer atingir? Ela? Por ter “influenciado” Lorena? Por ser mulher? Por ser policial? Por ser lésbica? Por ser filha de um desembargador honesto? Por ser incorruptível? Ok, colocando a lista assim fica até difícil questionar que ele queira que ela desapareça da face da Terra. E ainda assim…

“Eu não acho que ele quer me atingir puramente pela quilométrica lista de motivos que ele tem pra me odiar.”

“Bom dia pra você também, Juquinha. Eu estou ótimo! E você? Sim, eu aceito um café.”

“Ótimo! Pega pra mim também, por favor”, se fosse possível ouvir uma pessoa revirando os olhos, ela tem certeza que agora seria o momento em que ela conseguiria essa proeza.

“Sua sorte é que eu sou um sujeito muito educado”, finalmente tirando os olhos do quadro, das fotos que pregou nele, ela aceita o copo que Paulinho lhe oferece. Ele parece bem, descansado. Apenas mais um dia, como se o mundo não tivesse saído do eixo 12 horas atrás, “se você não é o alvo real, quem é? Seu pai?”

“Não… Se fosse ele, teriam mandado as fotos pra ele e uma delas seria minha. E com certeza ele estaria aqui agora”, vira de novo para o quadro. Abaixo das fotos novas, os dados que conseguiram achar sobre o veículo que ficou estacionado por 10 minutos em frente ao bar. Placa fria, é claro, mas conseguiram diminuir a possibilidade de marca e modelo para 2 carros ligados à Fundação. Ela seguia impressionada com a velocidade com que seus colegas trabalham quando um deles estava envolvido (queria que todo caso fosse tratado com a mesma atenção e empenho).

“Cê tem alguma teoria? Tá com uma cara de quem tá pensando em alguma coisa mirabolante.”

“Pois saiba que minhas ideias mirabolantes se provaram todas bem certeiras até o momento.”

“Claramente o resultado de um excelente treinamento com um ainda mais excelente mentor.”

“E muito humilde, é claro.”

“É claro.”

“Lorena é o alvo real.”

“Como é que é??”

“Não é a mim que ele quer atingir. É ela.”

“Espera um instantinho só”, ele pressiona os dedos nos olhos, respirando fundo, tentando fazer algum sentido, “cê tá achando que ele ameaçou Lorena pra te deixar abalada e isso atingir a própria Lorena?? Isso não faz sentido nenhum! Por que mandar alguém atrás dela e mandar a foto pra você ao invés do contrário?”

“Porque contra mim ele só vai fazer algo a hora que não tiver mais nada a perder. É ela que ele odeia. Eu sou só uma peça, um efeito colateral.”

“E contra ela ele faria algo agora? Eu acho que não. Ela é filha dele.”

“Paulinho, quantos casos a gente vê todos os dias em que pais fazem todo tipo de atrocidade contra os filhos pelos motivos”, ela usa os dedos para indicar aspas, “mais vazios que existem?”

“Ok, tá. Nessa, você tem razão, mas ainda não consigo ver esse ponto. Se ele está mesmo disposto a machucar ela, por que ele não mandou que atirassem ao invés de apenas tirar a foto?”

“Porque não se trata, pelo menos por enquanto, de machucar ela. Não fisicamente”, toma mais um gole, olhos fixos na foto dela, “ela me escolheu ao invés do nome dele e nunca olhou pra trás. Ele age como se a tivesse expulsado, mas ela escolheu sair. Ela abandonou o nome dele, a família dele, ele, como se fosse tudo irrelevante. E mais, pra ela, realmente é. Ele não admite isso. Homens minúsculos possuem egos enormes.”

“Se trata de quê, então?”

“Punição. Ela me escolheu. Ele vai me usar pra punir ela. Manda as fotos – e eu concordo, você seria um alvo independente de mim – pra eu me sentir culpada, pra me abalar, talvez pra que eu termine com ela pra protegê-la. Eu sofro, ela sofre por me ver sofrer. Punição. Talvez ele espere que ela vá até ele e implore pra que ele não faça nada.”

“Você conversou com ela?”

“Não em detalhes. A conversa acabou tomando outro rumo.”

“Outr– que rumo pode ser mais importante??”, ela olha pra ele. Não diz nada. Arqueia uma sobrancelha enquanto acompanha as engrenagens dele tentando girar na direção correta. Bebe um gole do café. Um, dois, três, quat–e lá está!! “Ah. Ah!” ele tosse de leve na mão, desvia o olhar, bochechas coradas. E finalmente ela solta a gargalhada que estava lutando tanto para conter. “Cala a boca.”

“Posso saber o que é tão engraçado a ponto de interromper um trabalho tão importante?? Que, por sinal, afeta direta e indiretamente os senhores??”

“Paulinho deu um pequeno tropeço, delegado. E somos muito competentes, conseguimos rir e trabalhar ao mesmo tempo.”

“Sei. O que temos de novidade? E por que a foto do seu pai tá no quadro?”

“Ele é o motivo pelo qual Ferette não tem coragem de vir pra cima de mim diretamente”, ela dá de ombros, como se fosse apenas um fato qualquer e não algo que faz com que seu sangue ferva nas veias.

“Vagabundo covarde. E ainda ameaça a própria filha!! O que encontraram nas câmeras?”

“Carro chegou por volta de 8 da noite – horário que as lojas já estavam fechadas e os bares abertos – menos de 10 minutos depois foi embora. Não dá pra ver o carro por completo e a placa é fria, mas conseguimos ligar à Fundação por eliminação. O horário não bate com as mensagens. Ninguém estava no local no horário que enviaram pra mim, tivemos que voltar a gravação várias horas e pesquisar todos os veículos – carros ou motos – que ficaram algum tempo parados ali. Porém, esse aí foi o único que tem alguma ligação com Ferette. Chegaram, esperaram o momento em que Lorena apareceria no ângulo correto, tiraram a foto e foram embora – provavelmente pra casa do Paulinho. Horas depois me enviaram, esperaram eu ler e apagaram as mensagens. O chip a essa altura já deve ter sido destruído. Pessoal da perícia tentou conseguir mais alguma coisa no meu celular agora cedo, talvez os dados das fotos, mas sem sucesso.”

“Muito bem. Excelente trabalho, muito completo. Claramente estou fazendo um ótimo trabalho como seu mentor.”

“Delegado, Paulinho que é meu mentor.”

“E eu sou mentor dele. O que vocês vão fazer agora?”

É a pergunta que ela está se fazendo desde o momento que tudo começou. O que diabos ela pode fazer? O que qualquer um deles pode fazer? Foi uma ameaça e sabem de onde partiu, mas nada além. Sem exigências, sem rastro concreto, sem assinaturas. A ideia é desestabilizar, incitar medo, talvez forçar um término ou um afastamento, o que, no que depender dela, não vai acontecer.

Se ela tem proteção, então essa proteção será de Lorena também.

“Continuar as investigações. Achar alguma prova incontestável que nem os contatos dele consigam ignorar. O de sempre: buscar um milagre.”

-----

Lorena acorda no meio da manhã. A luz do dia se desvencilhando da cortina que balança com a brisa que vem da porta entreaberta da varanda e reflete em seu corpo nu enrolado nos lençóis. Ela espreguiça, todos os seus músculos deliciosamente doloridos pintam imagens da noite anterior e ela sorri, satisfeita. Quase volta a dormir novamente.

Pisca os olhos diversas vezes até finalmente conseguir abrí-los em definitivo e a primeira coisa que vê é a mesinha de cabeceira. Sobre ela, uma garrafa de água e um bombom. Debaixo dele, um papel dobrado.

Senta-se na cama para conseguir beber sem fazer uma bagunça – experiência anterior – e só quando bebe o primeiro gole nota o tanto que está com sede. É claro que Eduarda teria pensado nisso.

Com delicadeza, tira o bombom de cima do papel.

Lorena,

Eu sempre acreditei em almas gêmeas. Aquela ideia de inevitabilidade, de destino, de amor arrebatador. Quando te vi pela primeira vez, eu tenho certeza de que cada átomo meu te reconheceu de infinitos encontros anteriores. Quando seus olhos encontraram os meus, eu senti uma eternidade de amor no meu peito muito maior do que eu jamais imaginei ser possível.

Mas aqui e agora te vendo dormir tão em paz eu entendi uma coisa muito importante: eu escolheria te amar em todas as minhas vidas.

Eu te amo. Pela inevitabilidade do destino e pela escolha da minha consciência.

Quando acordar, por favor, sinta-se à vontade. Toque o que quiser, pegue o que quiser, deixe sua presença em tudo. Eu não quero mais uma realidade que não foi tocada pela sua essência. Quero resquícios seus para me alimentar nos momentos de sua ausência.

Sua,

Eduarda

Quando mais nova, a ideia de almas gêmeas a encantava. Ou talvez, a ideia de amor em geral. Lorena cresceu vendo relacionamentos transformados em obrigações, negócios, meios para um fim que só dizia respeito a uma única pessoa, um lucro pessoal.

Lorena é sonhadora. Convicta de seus ideais. Apaixonada pela vida. Quanto menos amor via ao seu redor, mais amor ela via no mundo, nas coisas simples, na beleza do dia-a-dia. O amor está em tudo em suas mais variadas formas: no abraço de um amigo, no cantar de um pássaro, no sussurrar de uma mãe, no pôr-do-sol cercada de desconhecidos mas que ali naquele momento estão conectados por um reconhecimento anônimo que está além do consciente.

Lorena é resistência. Num mundo particular tão feio, tão podre, que ato pode ser mais corajoso do que acreditar na pureza do amor e na beleza da vida?

“Nenhum gesto humano pode abolir o acaso…”, ela diz em voz baixa, quase reverente, dedos traçando as letras no papel que ainda segura como se fosse o mais precioso dos presentes – e realmente é. Não o papel em si, nem mesmo as lindas palavras, mas o sentimento que representam, a pessoa.

Quando desencanou do cupido, o acaso resolveu agir e pintar seu mundo de cores mais vivas, mostrar a ela que todo o amor que ela consegue claramente ver nos pequenos momentos é infinito, companheiro, aquece, acalenta, cuida, cura, muda o mundo e que, principalmente, também é dela.

Não foi uma escolha. Nunca é, foi o que disse para Zenilda quando contou sobre Eduarda. E mesmo que o sentimento não tenha sido uma escolha, o relacionamento foi e é todos os dias. E todos os dias ela a escolhe de novo. Porque amar Eduarda vai muito além de acaso e destino e almas gêmeas. É um ato de resistência. Compartilhar o mundo e a alma. O acaso lhe ensinou, no fim das contas, que este compartilhar não é uma divisão, mas sim uma multiplicação.

Ela se joga na cama de volta, gargalha contra o travesseiro. Sinceramente, ela acha que talvez esteja ficando um tanto insana, mas é como se tivesse tomado uma dose cavalar de adrenalina. Pensa em correr uma maratona, nadar 15Km em mar aberto, escalar uma montanha, fazer rapel numa cachoeira.

Quase corre para a varanda gritar a plenos pulmões para toda a cidade de São Paulo que Eduarda Fragoso era dela. Ao invés disso, joga o bombom na boca e vai para uma versão bem mais inocente (e um tanto sem graça) de banho que a da noite anterior.

Uma vez vestida, resgata o celular que em algum momento foi parar no tapete. Opta por fazer o mais próximo de gritar na varanda que a era moderna lhe permite. Téo Pereira estava certo quando disse que ganhariam fãs graças ao artigo dele sobre o relacionamento delas, mas ainda era uma sensação muito estranha a chuva de curtidas e comentários (alguns um pouco mais sedentos do que ela gostaria) sempre que publica alguma foto delas. Mas ela quer que o mundo saiba que Eduarda é dela e que se amam e que não importa o que o inventem de fazer contra elas, elas seguirão juntas.

A foto é uma que tirou na noite anterior. Eduarda rindo de algo que ela disse, olhos brilhando, mas focados na rua, mãos no volante, as fortes e coloridas luzes de uma loja refletindo diretamente nela, criando um contraste com a escuridão da madrugada. Eduarda brilha no meio da foto, um holofote que vai além das luzes, que nasce de presença, de força.

[“Na troca intensa de olhares
O caos e a calmaria vêm
Reparo através dos detalhes
O riso frouxo que cê tem


Procuro em todos os lugares
Como é que eu te encontrei assim
Semblante dos delineares
Na busca do que há em mim


E eu, sem intenção de acreditar
Que ali iniciava nossa história
E eu, eu fiz questão de te mostrar
Que em ti já fiz minha morada”]

Debate meio segundo antes de enviar uma foto do bilhete para Maggye.

“Vendo assim ninguém imagina o que essa mulher fez comigo noite passada.”

“se não for dar detalhe, não toque no assunto!”

“Banheiro. Espelho. Chuveiro. Cama. E o completo contrário de edging.”

“sapatonas loucas senhor!”

“Num dado momento ela me fez gozar sem nem encostar em mim.”

“...”

“amiga, eu to começando a me arrepender de ter apresentado vcs. devia ter ficado com ela eu mesma”

“Maggye, vc é hétero.”

“neste exato momento eu não tenho tanta certeza assim”

“HAHAHAHA”

“Ridícula. Pois pode tirar o olho que ela tem dona.”

“graças a esta que vos fala. eu acho que eu ganhei o direito a um pequeno brinde”

“Comporte-se ou eu não conto mais nada no futuro.”

“vc me mostra a pessoa mais engraçadinha, romântica E safada da história da humanidade e espera que eu fique como?? eu ainda sou humana!”

“Pode só ficar feliz por mim e tá ótimo!”

“eu to. muito. brincadeiras a parte, vc merece isso. alguém como ela. quer dizer… ela. eu sabia que tinha algo especial ali quando resolvi apresentar vcs”

“E é exatamente por isso que vc será nossa madrinha de casamento! Obrigada mais uma vez, Maggye. Minha vida sexual não seria a mesma sem vc”

“kkkkkkkkkkk vsf”

“Pode deixar que repasso a sugestão!”

O quarto à luz do dia é tão aconchegante quanto à noite. Claro, isso se dá muito mais pela pessoa que vive ali do que qualquer outra coisa, mas ainda assim ela teve um momento de questionamento se a luz diluiria um pouco o sentimento. Com um último olhar apreciativo e sorriso nos lábios, ela se direciona à porta e para ao notar um post-it pregado no batente.

Infelizmente, comer alguém não dá sustento. Coma alguma coisa!

“Realmente… As engraçadinhas são um perigo”, diz quando se recupera da inesperada risada.

Na cozinha, pregado na porta da geladeira: tudo na prateleira do meio, chamada prateleira L, é vegano. Algumas coisas eu que fiz.

Ao abrir a gaveta em busca de talheres: passei café agora cedo, caso queira.

Na banqueta da ilha: coma alguma coisa com proteína! Nada de só frutas!

Revirando os olhos e meio contrariada, ela volta até a geladeira em busca de mais opções.

Na pia: não se preocupe com isso, pode colocar na lava-louças. Ela existe pra esse motivo.

Rindo de leve, balança a cabeça. Se vira pra área de estar e para, cerra os olhos. Será…?

Na manta do sofá: entrei em mania fazendo essa manta. Saí às 2 da manhã atrás dum armarinho aberto pra comprar mais linha. Acredite! Achei um!

Na varanda principal, no banheiro social, na lavanderia, na despensa, na adega, no quarto de hóspedes. Pequenas anedotas, comentários, desenhos bobos.

No escritório: fiz os dois lerem Crepúsculo. Dr. Henrique é #TeamEdward, Dona Violeta é #TeamJacob. Eu, é claro, sou #TeamAlice.

Lorena sabe muito bem o que Eduarda estava fazendo, mas ainda assim se surpreende com a capacidade que ela tem de ser boba. Mas se tem um cômodo que ela não precisa da desculpa dessa caça ao tesouro para visitar, é este. Três das paredes cheias de livros de cima a baixo. De todos os tipos (inclusive os famigerados da saga Crepúsculo), cores, tamanhos. E, apesar de ser loucamente apaixonada por literatura e linguagens, é a parede atrás da robusta mesa de madeira maciça que lhe chama mais atenção. Diplomas, certificados, homenagens. Os nomes misturados e sem qualquer indicação de prioridade, de importância. De tudo que ela viu naquele apartamento até o momento, nada evidencia mais para ela a cumplicidade, a unidade dos Fragoso do que aquela parede. Ninguém importa mais ou menos, os três são uma coisa só e todas as conquistas são igualmente importantes. Ela sente uma pequena pontada no peito e, se em algum momento desde aquele jantar na galeria ela se questionou, agora fica bem claro:

Se eles lhe derem a honra, quando o dia chegar, ela será Lorena Fragoso.

-----

Eduarda abre a porta do apartamento, almoço em mãos, bolsa no ombro, distintivo ainda pendurado no pescoço. Pendura bolsa, jaqueta e distintivo, tira as botas e as deixa ao lado da porta, para no primeiro passo. Tudo está diferente, nota, com um sorriso. Não literalmente, claro. Neste sentido, tudo está exatamente igual. Mas em todos os demais, está diferente: mais completo, mais bonito, mais lar.

Deixa o almoço na ilha da cozinha e segue o puxão que sente no peito. Sabe que sempre vai achar o caminho direto para onde Lorena estiver (logicamente, as opções são limitadas apesar do tamanho do apartamento e mais ainda do condomínio, que Lorena tem toda liberdade de conhecer, se assim quiser. Eduarda estando lá ou não. Mas ainda assim, o ponto é válido. Até porque, das opções possíveis, um dos sofás da varanda principal não seria prioridade na lista).

Em silêncio, se posiciona na porta, apreciando a vista. Ela está lendo um dos livros que ela sabe muito bem de onde foi retirado, confortavelmente jogada nas almofadas, uma xícara de café na mesinha ao lado. Seus olhos se encontram menos de um segundo depois. No rosto dela, o sorriso que Eduarda mais ama.

Eduarda é observadora. E Lorena é seu tema favorito. Poderia escrever incontáveis artigos só sobre seus olhos, ou lábios, ou até mesmo sobre suas covinhas. Tem catalogado cada sorriso, cada expressão, cada gesto, reação, marca, o arco de suas sobrancelhas, as ondas que seus cabelos fazem.

O ponto é que aquele sorriso só existe para ela. Como se ela mesma o tivesse esculpido no rosto de Lorena. Dela. Delas. (E ela sabe que o mesmo acontece com ela. Sentiu quando seus lábios tomaram uma forma nova, uma assinatura de Lorena que ela carrega com orgulho, seus olhos brilhando numa onda de luz impossível de decifrar.)

“Você tá fazendo Maggye questionar a sexualidade dela”, diz quando Eduarda chega perto.

“Quê?!”

“Comentei da noite passada e do seu bilhete e acho que engatilhei o gay awakening da gata.”

“Infelizmente pra nossa querida,” ela diz em meio ao riso. Se junta a ela no sofá, a abraça pela cintura, o cheiro de seu sabonete na pele dela a deixa momentaneamente tonta, “eu estou perdidamente apaixonada por uma certa garota de olhos verdes. E sou muito fiel a ela. E se ainda assim algum dia ela resolver me largar”, bate 3 vezes na madeira da mesinha, “eu nunca mais devo me relacionar com alguém. É só ela que eu quero.”

“E você já disse isso pra essa tal garota?”

“Todos os dias! Mas só pra reforçar: você, Lorena, é o grande amor da minha vida”, um beijo, “Sol que eu orbito”, outro, “ar que eu respiro”, mais um, “você é tudo que eu quero”, sua voz falha um pouco, pupilas dilatam, corre os dedos de leve pelo rosto dela, da testa ao pescoço, os enterra no mar de cabelos, “hoje e sempre.” O beijo, desta vez, é muito menos recatado, muito mais faminto, direto, mensagem clara como a luz do sol: é você. É apenas você. E se não houvesse você, não haveria mais nada.

Ficam ali um tempo, testa com testa, respirando o mesmo ar, seu lugar preferido no mundo. Lorena segura o pulso dela, as batidas de seu coração nas pontas dos dedos dela.

Seria maravilhoso poder parar o tempo para ficarem ali, mas o mundo ainda segue seu interminável movimento e os segundos seguem passando. Se levanta lentamente, mãos ainda dadas.

“Vem, eu trouxe almoço pra gente. Abriu um restaurante novo lá perto da DP com menu vegetariano e vegano. Local meio inóspito pra pedida, mas eu que não vou reclamar! Já experimentei alguns lanches bem gostosos. Acho que vai dar bom!”

E, do ponto de vista gastronômico, realmente dá. Um prato simples de cevadinha com castanhas, mas muitíssimo bem temperado. Já do ponto de vista elefante na sala, nem tanto.

Eduarda não sabe bem o que fazer com as mãos (ansiedade não é um sentimento muito comum para ela), então pega o copo e toma um gole de água, apenas para ter o que fazer com elas. Lorena pega uma delas entre as suas, traçando círculos nas costas dela, calma apesar da tensão. Eduarda dá sem pedir nada em troca. Lorena também sabe amar pacientemente. Eduarda tenta uma, duas vezes. Respira fundo, olhos fechados, buscando foco. Tenta mais uma vez.

“Ontem à noite, quando eu tava me preparando pra ir te buscar, um número desconhecido me mandou duas fotos: uma do Paulinho e uma… sua. Foi uma mensagem de Santiago Ferette.”

“Eles deixaram isso claro? Mencionaram ele? Alguma coisa assim?”

“Não, mas… A mensagem de texto que enviaram foi no mesmo contexto do que aconteceu na delegacia quando ele foi prestar esclarecimentos e a gente discutiu. Não existe dúvida sobre a autoria.”

“Eu posso ver? A foto?”

“Você não precisa fazer isso, meu amor…”

“Eu sei. Mas eu quero. Eu preciso. Porque ainda tem uma parte de mim que não quer acreditar que ele chegaria a esse nível”, ela se levanta, precisa se movimentar, precisa andar, ficar sentada não vai ajudar, corre os dedos pelo cabelo, “quão ridícula eu estou soando? É claro que ele chegaria. Ele mata pessoas todos os dias com aqueles remédios falsos! Por que eu ficaria chocada que ele seria capaz de me ameaçar, de te atormentar?”

Eduarda vai até ela. Oferece uma mão, mas não a toca, não sem que ela queira.

“Você não está sendo ridícula, meu amor. Não tem nada de errado no choque. Você não está menosprezando o que ele faz com aquelas pessoas ao se chocar com a realidade de quem ele é. Sua reação é natural.” O gesto emociona Lorena mais do que ela imaginava que emocionaria, mas é completamente desnecessário, apesar de apreciado. Ela nunca vai negar o toque dela.

“Me mostra a foto…”, diz, rosto escondido no pescoço de Eduarda, uma âncora.

Eduarda as guia de volta para a mesa, sentam lado a lado. No celular entre elas, abre a foto que a essa altura, ela tem certeza que está tatuada na parte de dentro de suas pálpebras. Sabe que é muita coisa para processar, então preenche o espaço com palavras enquanto Lorena analisa a imagem, atônita, violada.

“Se você preferir, não precisa ir pro trabalho, é possível você conseguir um atestado com a polícia. Eu imagino a sua resposta, mas eu quero que saiba que existe essa opção e que você tem todo o direito a ela. E que ninguém, absolutamente ninguém vai te julgar por escolher esse caminho. Mas se você escolher seguir, o patrulhamento foi aumentado, teremos segurança constante no bar, sem chamar muita atenção desnecessária. Meu carro é blindado. Tanto o pessoal quanto a patrulha. Meu amor…”, seus olhos ardem, mas ela não tenta esconder as lágrimas. Nunca vai tentar mascarar o que sente. Não dela. O sentimento de deja vu é inevitável, “olha pra mim. Se vo–”

“Não”, Lorena olha pra ela e é como se seus olhos atravessassem todas as camadas e se conectassem diretamente com a essência dela, “eu sei o que você vai falar e eu te amo muito por isso, mas a resposta é não. Como foi meses atrás. Ele não vai controlar minha vida. Nem com poder, nem com laços sanguíneos, nem com dinheiro, muito menos com medo. Eu te escolhi. Eu me escolhi. E vou seguir escolhendo.”

“Ok… Ok. Mas”, aperta a mão dela, mensagem clara: isso é inegociável, “você não quer ficar escondida e é seu direito, só que vamos precisar tomar muito cuidado. Eu não quero te sufocar, nem quero que você ache que eu te considero uma donzela indefesa. A gente já meio que faz isso, mas eu gostaria de continuar sendo sua carona para o trabalho.”

“Tudo bem, eu fico mais tranquila tendo você comigo.”

“Então essa parte tá definida. Agora eu tenho uma outra proposta: você quer ficar aqui? Comigo? Pelo menos até a gente resolver esse problema?”

“É sério isso?”

Eduarda leva a mão dela até os lábios, deposita nela um beijo, olhos brilhando sempre focados nela.

“Não é o cenário ideal. Eu queria que fosse de uma outra forma, um lugar nosso, só nosso”, ela ajusta o corpo, chega mais perto dela, delicadamente coloca uma mecha do cabelo dela atrás da orelha, deixa a mão ali, levemente traçando formas na nuca dela com os dedos, “desde o momento que acordei com você nos meus braços pela primeira vez, eu soube que aquele seria o único futuro que eu iria querer pelo resto da minha vida.”

“É tudo que eu mais quero. Uma vida com você todos os dias é um sonho”, encosta a testa na dela, fecha os olhos. Lorena sabe que lar é uma pessoa e não um imóvel, mas ela quer compartilhar uma vida com ela, se misturar, bagunçar estilos, descobrir como se encaixam num cotidiano, perder a noção de onde uma acaba e a outra começa nas decorações, nas dinâmicas domésticas. Lorena quer descobrir que pessoa ela é vivendo com Eduarda, quer descobrir quem Eduarda é vivendo com ela. Se afasta um pouco, beija sua sobrancelha, “mas… E seus pais?”

“Eu vou conversar com eles. Neste momento, por mais que eu queira um canto nosso, pra começar a nossa vida, aqui é o lugar mais seguro que podemos estar. Uma das primeiras coisas que aprendemos na academia da polícia é que devemos tratar todas as armas como se fossem de verdade, carregadas e engatilhadas. Não se brinca com a vida de ninguém, não se arrume riscos desnecessários. Sua segurança é minha prioridade – sempre foi. Mas agora mais do que nunca. Você aceita? A gente fica aqui”, beija o canto de sua boca. Primeiro, porque pode; segundo, porque qualquer instante que fica sem beijar alguma parte dela é uma pequena tortura”, e, quando isso tudo passar, a gente senta com calma e define nosso futuro. Juntas.”

O beijo é lento, cheio de significado, de conexão. Uma reafirmação. De compromisso, de afeto, de presente e de futuro. O selo de uma promessa.

“Não é o cenário perfeito, mas eu também quero momentos de imperfeição ao seu lado”, Eduarda sorri, “mas!”, o sorriso de Eduarda diminui um pouco, “fale com seus pais. Sem falta. Eu odiaria impôr minha presença na casa deles sendo que eles ainda nem me conhecem! Eles saíram do país com a filha solteira e vão voltar dando de cara com a namorada dela morando na casa deles. Sem nunca terem visto ela!”

“Eles viram sim. Eu mando foto sua pra eles quase todos os dias. Eles já te amam!”

“Não é a mesma coisa e você sabe disso, espertinha!”

Eduarda dá de ombros, rindo. A própria imagem de uma criança mimada que nunca ouviu um não na vida.

“Realmente. Mas o ponto se mantém. Eles já te amam. Porque eu te amo, porque você faz meu mundo mais feliz, porque você me escolheu, porque você me ama com a mesma facilidade que respira. E porque tudo isso é recíproco”, ela dá de ombros novamente. Como se não tivesse falado uma das coisas mais lindas que ela já ouviu.

Eduarda ama abertamente, factualmente. Diz as coisas que diz da forma que diz porque é assim que as sente. Sem filtro, sem espaço para dúvidas ou receios. Eduarda a inspira. E desde que a encontrou, aquele desejo de escrever, de externalizar, mesmo que num pedaço de papel, tem se tornado cada vez mais forte. E pela primeira vez desde que fechou aquele caderno, ela sente que poderia encher páginas e mais páginas apenas sobre o brilho dos olhos dela. E, dessa vez, não tem voz nenhuma na sua cabeça questionando a beleza do que ela pode criar.

-----

Criar uma rotina é muito mais simples do que Lorena achou que seria. Por algum motivo, achava que alguma coisa não se encaixaria direito, que alguma parte da magia entre elas se quebraria na realidade do cotidiano.

É claro, elas precisam de pequenos ajustes aqui e ali, achar o ritmo correto nessa dança nova, descobrir em que momentos é necessário que uma guie e como a outra deve seguir, mas o encaixe? Ah, este é perfeito.

Eduarda é… enérgica. O tempo todo. O que, se for sincera, Lorena deveria ter deduzido pelo fato de que, apesar de ter tido, no máximo, umas três horas de sono, ela encheu a casa de bilhetes antes mesmo de sair para trabalhar. É quase como se ela tivesse café correndo nas veias.

Na maioria das vezes, Lorena acha fofo. Em alguns outros momentos, como quando ela ainda está tentando arduamente fazer o download da alma de volta pro corpo, a vontade é de jogar ela contra a primeira parede que encontrar e a devorar de tal forma que ela esqueceria todas as palavras (fez isso. Funciona perfeitamente. O problema é que Eduarda tem pudor quase nenhum e adora provocar).

Em suma, morar juntas foi a melhor decisão que já tomou na vida. Quando estão no apartamento, é fácil esquecer a realidade que as levou até este momento. É fácil esquecer que elas andam com alvos pregados na testa. É fácil esquecer que Santiago Ferette existe e que é um psicopata.

O problema é quando elas saem de casa. E o medo aperta no peito, e se questionam se aquele seria o dia em que alguma coisa aconteceria. Porque este é ponto principal, no fim das contas. Sabem quem as ameaçou, mas não existe forma de provar, não existe ação que possa ser tomada, nada que possa impedir que essa ameaça flutue sobre suas cabeças diariamente.

Lorena adiciona tortura psicológica à interminável lista de crimes que seu pai cometeu.

O dia começa como os outros nesta última semana: corpo nu colado ao dela, Eduarda distribui beijos (nuca, pescoço, ombros, costas) antes mesmo de estar consciente; se levanta e toma banho; volta para a cama e se despede; come alguma coisa; deixa o café passado, levando consigo uma dose para beber no caminho.

Lorena acorda em definitivo no meio da manhã; toma seu banho; come; toma seu café e escreve. Escreve o tempo todo, Eduarda uma fonte inesgotável de inspiração. Todos os seus poemas são sobre ela, direta ou indiretamente, porque mesmo quando fala de si, quando fala do mundo que vê, quando fala dos estranhos que vê na rua, ela sabe que o catalisador de seu amor próprio é o amor dela. Lorena não é incompleta sem Eduarda, nem incapaz. Ela só é mais colorida, mais segura de si. Ter amparo e afeto muda todos os aspectos de uma vida.

Eduarda almoça com ela em casa e aguarda enquanto ela veste o uniforme do bar.

O dia começa como os outros. Eduarda deixa que ela escolha a playlist que acaba quase sempre ignorada em favor do que quer que seja que elas tenham para falar, Eduarda sempre prestando atenção ao trânsito e aos arredores.

E exatamente por prestar atenção aos arredores que ela percebe o homem que lhe parece muito familiar – apesar de não conseguir imediatamente descobrir de onde – para ao lado do poste, olhos no carro dela, mas não nela.

 

O dia começa como os outros, mas ele se mexe e ela nota o brilho da arma.

O dia começa como os outros, mas ele aponta quando os pedestres formam um corredor temporário

O dia começa como os outros, mas ele atira e ela grita para Lorena se abaixar.

O dia começa como os outros, mas quando ela instintivamente tenta se jogar para o lado, é impedida pelo cinto de segurança.

O dia começa como os outros, mas agora ela tem uma marca no vidro do lado do passageiro e, do lado de fora do carro, o caos se instaura.

Notes:

É com profunda tristeza que venho informar que nosso querido gato homofóbico, Bóris Fragoso, não fará parte desse trabalho pq glô resolveu inventar ele du neida.

A música da legenda é essa aqui, caso tenham se interessado.

Notes:

Obrigado por ter lido até aqui!!

E não se preocupem! Eu num tenho menor capacidade de escrever cena de sexo, mas não vou deixar vcs na mão (alô, quinta série!!!) e vou postar um bônus que a gringa escreveu pra gente (só preciso decidir se tento a enorme proeza de traduzir ou se deixo em inglês)