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Entre prédios e promessas

Chapter 2: Are we out of the woods?

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Oscar se sentia completamente desorientado. As últimas coisas que se lembrava antes de ficar inconsciente eram do brilho das estrelas acima de si, do barulho de água corrente ao seu lado e da memória ainda fresca do olhar de traição e dor que Lando lhe lançara antes de sair de casa.

Oscar tentou abrir os olhos, mas a claridade que vinha de uma janela próxima parecia uma faca perfurando seu crânio. Ele soltou um gemido baixo e imediatamente sentiu o latejar das costelas. Onde quer que estivesse, o chão não era mais de pedra e grama; ele sentia um colchão macio e o peso de um cobertor de lã grosso sobre o corpo.

O ambiente era completamente desconhecido para ele, o quarto era aconchegante e quentinho, as paredes de madeira pintadas à mão com vários desenhos infantis, a janela aberta mostrando as Montanhas Catskill no fundo com o barulho suave da correnteza de um rio, o teto com uma luminária delicada de um quarto infantil.

Oscar se sentia mais perdido a cada segundo, porém seu corpo o impedia de levantar e voltar para casa, a dor lancinante se espalhava por seu corpo até que ele tivesse vontade de vomitar. Oscar voltou a se deitar na cama ao perceber que não seria capaz de levantar dela sozinho e seus pensamentos voaram de volta para Nova York.

Pensou no tio que provavelmente ficaria super preocupado se ele não voltasse para casa, pensou em Lando e em como ele descontou de forma injusta suas frustrações no melhor amigo, pensou em Victor, que provavelmente estaria revirando esse lugar para achar Oscar, pensou no lugar completamente desconhecido em que está, pensou em tudo que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas.

Pensou em tudo que devia ter pensado antes de virar o Homem-Aranha e em todas as coisas que devia ter pensado depois de se tornar.

Pensou em Mark.

Até que seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta rangendo ao se abrir e da figura de um homem alto e loiro passando por ela enquanto segurava seu traje nas mãos. Oscar se assustou com o aparecimento repentino e tentou se levantar da cama para se proteger, suas costelas latejaram no instante em que ele tentou se mexer e um sibilo doloroso escapou dos lábios do adolescente.

O homem se virou para ele e apenas levantou uma sobrancelha enquanto deixava seu traje em uma cadeira ao lado da porta.

— Charles! O loirinho acordou, você já conseguiu descobrir quem são os pais dele? — O loiro desconhecido gritou pela porta, provavelmente conversando com outro morador da casa, pelo menos era o que Oscar pensava.

— Não, parece que ninguém desapareceu na noite anterior e, se desapareceu, não perceberam ainda. — A voz que soava tinha um sotaque diferente, claramente não era americano, e Oscar se sentia a cada segundo mais desorientado dentro daquele quarto.

— Qual o nome dos seus pais, garoto? — O loiro mais alto se virou para ele com uma careta, como se Oscar tivesse feito xixi no carpete da sala. Claramente incomodado com a situação, sua voz também tinha um sotaque desconhecido para Oscar, que não havia percebido antes.

— Humm... eu não sei. — A voz de Oscar não passava de um sussurro e, mesmo que ele soubesse o nome dos pais, ele não diria a desconhecidos, afinal esses homens poderiam estar trabalhando para quem o machucou e o fez parar neste lugar.

— Pelo amor de Deus, o moleque bebeu tanto que não lembra nem o nome da própria família. — O olhar de incredulidade que vinha do mais velho ao lado da porta de certa forma incomodava Oscar, sem saber sobre o que diabos eles estavam falando. E por que Oscar estaria bebendo? Ele ainda é menor de idade.

O olhar de Oscar muda rapidamente quando uma nova figura aparece pela porta, um homem da mesma altura do loiro, porém com cabelos castanhos e a pele mais bronzeada, aparece no quarto e se aproxima da cama de Oscar.

— O menino todo estrupiado e você implicando com ele, Max? Vai pegar um kit de primeiros socorros para eu cuidar dele. Vamos, anda logo que meu tempo não é infinito. — O moreno disse para o loiro, aparentemente Max, que saiu resmungando em um idioma ininteligível para Oscar.

— Olá, querido, meu nome é Charles e aquele rabugento ali é o Max. Te encontramos perto do riacho hoje pela manhã e você estava desacordado. Você se lembra de algo da festa de ontem à noite ou de qualquer informação das últimas duas semanas? — O moreno era delicado e gentil com Oscar, acariciando seu cabelo e usando um tom de voz suave.

A pergunta o transportou direto para as lembranças das últimas semanas e da noite anterior. A pressão da mídia tentando descobrir quem ele era, a crescente frustração de Lando com suas atividades cada vez mais perigosas, os machucados cada vez mais frequentes, a briga, a perseguição... Oscar ainda se lembrava de tudo, talvez ainda mais do que se lembrava antes.

— Hum... eu me lembro de tudo sim, mas eu não estava em nenhuma festa ontem à noite, eu nem sequer sou daqui. Eu moro em Nova York.

Os olhos de Charles se arregalaram até atingirem o tamanho de uma jabuticaba e sua mão foi à boca tentando conter um suspiro de susto.

Ambos não perceberam a reentrada do loiro no quarto. Com passos duros, ele deu a volta na cama em que Oscar estava descansando e se sentou ao seu lado enquanto abria o kit de primeiros socorros e metodicamente preparava os materiais para limpar os ferimentos de Oscar.

— Max, você ouviu isso? Nova York! Ou ele delirou completamente ou algo muito errado aconteceu com ele. — Charles dizia completamente espantado para o loiro ao seu lado, ignorando completamente o adolescente deitado ao seu lado e falando como se ambos estivessem em outro cômodo.

— Se é de Nova York, deveria ter ficado lá. Aqui o asfalto é mais duro. — Max respondeu depois de alguns segundos em silêncio enquanto cuidava dos machucados no rosto do australiano.

O contraste com a falta de paciência de Max e o carinho de Charles era algo curioso de se observar, o quanto Max era atento aos detalhes e Charles alheio a tudo ao seu redor também os faziam uma dupla engraçada de se assistir. Max passava os algodões pelas feridas de Oscar sem nenhum carinho, não era bruto, e sim firme. Sem nenhum espaço para contestações ou reclamações de dor.

E enquanto ele aplicava os curativos, Oscar também sentia o olhar inquisitivo sobre ele, analisando o rosto de Oscar enquanto fazia algumas caretas no processo. Oscar sempre soube que não podia ser descrito como alguém tão belo, mas receber caretas assim de graça o fazia pensar que talvez ele fosse mais feio do que imaginava.

Charles continuava ali, como um golden retriever ansioso abanando o rabo para pular logo no dono que acabou de passar pela porta. Sem falar nada, o moreno ficava rondando o trabalho de Max enquanto o loiro resmungou para ele.

— Charles, se você não me der espaço, esses curativos só ficarão prontos semana que vem.

E então Charles imediatamente agia como um cachorro que acabou de levar uma bronca do dono, mas ele nunca se distanciava o suficiente. Sempre ali, inspecionando ou tentando ser proativo ajudando o loiro. Até que os curativos estavam prontos e imediatamente Max arrumou as coisas de volta dentro da caixa e se levantou da cama.

— Nem pense em se levantar dessa cama, seu corpo não aguenta dar três passos.

Suas palavras não eram as de um médico dando instruções para que seu paciente melhorasse, e sim as ordens de um general que não quer ser contrariado. Max se virou e andou em direção à porta e cuidadosamente a fechou enquanto saía do quarto.

— Não precisa ficar com medo dele, tá? Ele pode fazer essa pose de marrento e rabugento, mas é um marshmallow derretido por dentro. — A voz de Charles era baixa, como quem não quer ser pego enquanto diz uma besteira.

Era meio difícil para Oscar não ter medo do loiro mais velho, ele conseguia ter uma carranca mais rabugenta que a de seu tio Fernando e ele ainda estava na casa de desconhecidos. Aquelas pessoas ainda poderiam fazer mal a ele. Charles se levantou da cama e bagunçou os cabelos de Oscar como seu tio Mark costumava fazer e se dirigiu até a porta que fora fechada por Max instantes antes.

— Eu sei que você disse que é de Nova York e coisa e tal, mas por que diabos você vestiria uma roupa de aranha desse jeito, amigo? Eu não sabia que o povo das cidades americanas era tão estranho. — Charles lhe perguntou com a mão na maçaneta, pronto para girá-la e ir embora, com um tom de dúvida e uma das sobrancelhas arqueadas.

Oscar soltou uma risadinha antes de responder.

— Você ainda não viu nada.

Charles sorriu de volta para ele e então girou a maçaneta e saiu pela mesma porta que o outro morador da casa havia saído há pouco tempo, deixando Oscar novamente sozinho com seus pensamentos. Ele sabia que seu corpo estava muito machucado e que fisicamente era impossível voltar para casa nessas circunstâncias. Ele teria que passar um tempo ali se recuperando até estar apto para voltar para casa.

Seria um longo tempo de recuperação.

O tempo foi passando lentamente na percepção de Oscar, a noite chegou, mas seu corpo doía tanto a ponto de tirar sua fome completamente e ele adormeceu num sono turbulento e cheio de sonhos dolorosos. Mark, Fernando e Lando eram visões frequentes, seus sonhos eram curtos e sempre acabavam da mesma forma, a morte. Fosse a dele ou a de seus entes queridos, seus sonhos sempre acabavam como a vida um dia terminará, com a morte.

Oscar despertou no dia seguinte todo suado e se contorcendo na cama, os primeiros raios de sol invadiam o quarto se infiltrando pelas cortinas e o som dos animais do lado de fora despertava todos os seus sentidos, seu corpo ainda doía, mas um pouco menos que na noite anterior. Sua barriga roncava como quem o lembrava que ele havia corrido centenas de quilômetros e depois não se alimentara direito.

Suas costelas ainda doíam o suficiente para impedi-lo de levantar da cama, mas para Oscar nada é impossível. Seu corpo mutante deveria ser capaz de se recuperar com uma velocidade diferente da recuperação humana, então Oscar forçou o corpo a se levantar da cama. Suas pernas fraquejaram no mesmo instante em que ele apoiou o peso de seu corpo sobre elas.

Suas costelas imploraram por socorro e faziam Oscar arquear de dor, pontos pretos apareceram em sua visão e Oscar tentou se apoiar em uma mesa de cabeceira ao lado de sua cama. Apesar da dor, ele continuou seu caminho até a porta, seu corpo balançava e ele era incapaz de andar sem um apoio ao lado. Oscar foi se apoiando em tudo que via pela frente e deliberadamente ignorou seu traje na cadeira ao lado da porta.

O loiro girou a maçaneta da porta e descobriu que, na verdade, ele estava no segundo andar da casa, pois a primeira coisa que viu foi a escada de frente para a porta do quarto em que está hospedado. No mesmo corredor havia duas portas. Uma no final do corredor, que estava fechada, Oscar imaginou ser o quarto de Charles ou Max ou dos dois, e uma porta ao lado da sua. Pela pequena fresta da porta ele podia ver as usuais coisas de um banheiro.

Mas nenhum daqueles cômodos era o objetivo de Oscar, ele queria se sentir parte de seu corpo e se movimentar e a melhor coisa para fazer isso era descer a escada. Oscar se apoiou no corrimão da escada e cuidadosamente colocou um de seus pés no degrau de baixo, quando se sentiu pronto jogou o peso do corpo para aquela perna e levou a outra perna para o mesmo degrau.

A perna de Oscar quase não aguentou o peso e o corpo dele cambaleou para frente, quase caindo escada abaixo, ele se segurou mais forte nos corrimões para não cair e soltou um suspiro de alívio ao ver que seu corpo não despencara. E então repetiu o processo até estar mais ou menos no meio da escada. Foi quando ele ouviu uma pequena tosse de frente para ele, os pelos de Oscar se eriçaram. Ele havia sido pego.

Cuidadosamente ele levantou a cabeça, que estava olhando para baixo para não se desequilibrar nos degraus, foi quando percebeu quem estava de frente para ele.

Max estava com os braços cruzados sobre o peito e uma carranca no rosto, mas com uma leve ruga de preocupação no meio da testa e uma pequena bandeja de comida ao seu lado. Ele o olhava feio, como um adolescente rebelde tentando escapar no meio da madrugada para ir a festas.

— Volte para a cama, Oscar, seu corpo ainda não está pronto para se mexer.

Max disse mais algumas coisas enquanto lhe dava um sermão, mas Oscar estava mais preocupado com outra coisa. Ele não dava conta de voltar, descer usava bem menos força do que subir uma escada. Ele encarava o chão com vergonha de pedir ajuda e sem vontade de escutar um sermão. Quando a voz de Max finalmente se calou em sua mente, ele levantou o olhar para Max e fez sua melhor carinha de cachorro abandonado.

— Você pode me ajudar a subir? — Oscar estava morrendo de vergonha de precisar pedir ajuda e de não ser capaz de subir sozinho. Suas bochechas atingiram um tom rosado que subiu até as orelhas.

Max apenas olhou para ele e soltou um suspiro de cansaço enquanto subia para ajudá-lo. Max passou um dos braços pelo ombro de Oscar e o ajudou a apoiar o peso em seu corpo. Os dois subiam devagar enquanto Max reclamava alguma coisa sobre adolescentes irritantes.

Max o ajudou a subir e se deitar novamente em sua cama e depois lhe trouxe um café da manhã reforçado. Ajudou Oscar a comer e, quando o mesmo acabou, Max foi embora sem dizer mais uma palavra. Oscar não viu Charles naquele dia, apenas Max durante suas refeições, quando o loiro vinha ajudá-lo a comer.

Os próximos dois dias foram monótonos e se arrastaram com a velocidade de uma lesma. Charles voltou a estar mais próximo e era uma presença quase constante em seu quarto, os dois falavam sobre nada e sobre tudo ao mesmo tempo. Oscar descobriu que Charles era monegasco e que nunca tinha ido a Nova York. Descobriu também que o lugar onde ele estava era completamente isolado de sinais de TV ou telefone, então as notícias só chegavam por jornal.

Max quase nunca estava em seu quarto, mas estava sempre o rondando para cuidar dele, sempre aparecendo no mesmo horário para ajudá-lo a se alimentar, todas as noites antes de dormir o ajudando a trocar seus curativos e ir até o banheiro tomar um banho. Sempre prestativo, mas sem trocar uma única palavra.

No quinto dia na casa ele foi liberado para andar de novo, Max o analisou como um médico fazendo um experimento e disse que ele poderia voltar a andar sozinho, contanto que ele não fizesse movimentos bruscos e tomasse cuidado ao se movimentar. Charles dava pequenos pulinhos de animação enquanto ouvia Max o liberar para andar, prometeu levá-lo para olhar a fazenda e os animais e fazer um tour pela casa.

Dito e feito, Charles fez o tour primeiro e Oscar descobriu que a casa era bem menor do que imaginava, o andar debaixo da casa contava com uma pequena, porém aconchegante, cozinha e uma sala de estar com um pequeno sofá e uma lareira à sua frente. Diferente da maioria das casas do mundo, a sala não contava com uma TV pelo simples fato do sinal não chegar.

A fazenda também não era muito grande, contava com um cavalo e duas vacas em um curral e num pequeno galinheiro havia umas cinco ou seis galinhas e espalhadas pela fazenda algumas ovelhas pastavam. E ao lado da porta de entrada da casa estava Max com dois animaizinhos descansando aos seus pés. Um gato e um cachorro se aconchegavam e se reviravam no chão.

A cena dos dois animais lembrava Oscar de Max e Charles.

O cachorro tenta subir em cima do gato enquanto o mesmo resmunga, mas não faz nada para impedir. Essa era a dinâmica que Oscar vinha observando nas últimas semanas. O jeito como Charles fazia questão de ajudar Max em cada uma das tarefas mais simples da casa. Como Max sempre reclamava da bagunça de Charles, mas nunca fazia nada para mudar. Como toda manhã Max fazia uma xícara de chá só para Charles ou como Charles sempre se segurava em Max na hora de subir ou descer uma escada.

Assistir eles era como assistir a uma dança coreografada, mas cada um dos passos era levemente improvisado pelo dançarino. É planejado, mas único de seu próprio jeito.

Oscar sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com as costelas quebradas. Era uma dor mais antiga, que ele vinha ignorando com adrenalina e máscaras de lycra. Ao ver o gato finalmente ceder e deixar o cachorro encostar a cabeça em seu pelo, Oscar fechou os olhos. Ele conseguia quase sentir o cheiro do perfume de Lando, aquele cheiro de cidade e de casa, que ele tinha jogado fora na última discussão.

Ele ignorou o aperto no peito e deixou Charles continuar seu tour pela fazenda com ele.

O resto do dia foi passando lentamente, Oscar aproveitou sua pequena liberdade para passar mais tempo no andar de baixo da casa junto a Charles e Max. Era hora de fazer o jantar e Oscar se sentia como um peso morto dentro da casa, enquanto os outros dois moradores faziam tudo, ele apenas observava. Sem saber o que fazer, ele estava ali, parado e perdido e, tentando ajudar em algo dentro daquele momento, se voltou para a pia bagunçada com as coisas do jantar e começou a esfregar a louça.

Max imediatamente parou o que estava fazendo e ficou atrás de Oscar colocando sua cabeça por cima do ombro do rapaz, investigando seu trabalho. Oscar se sentiu incomodado, mas não tomou nenhuma medida, tudo que fez foi continuar seu trabalho calmamente. Até que ouviu um resmungo atrás de si e viu a cabeça desaparecer de cima de seu ombro.

— Cuidado com as facas, Oscar, Charles as afiou demais semana passada.

Oscar não respondeu nada, mas a sensação quente que preencheu seu coração o fez levantar o canto dos lábios em um leve sorriso. Aos poucos ele foi conquistando o coração de pedra do loiro e sua confiança também.

A noite, portanto, já não foi tão bela quanto o dia.

Oscar não conseguia enxergar nada, seus sentidos aranha estavam completamente apagados a não ser pelo formigamento incessante em sua nuca. Ele podia escutar gritos pedindo por ajuda, mas não sabia de onde nem quem os pedia. A voz parecia vir de todos os lados e, a cada segundo, ela ficava mais próxima e mais próxima até que ele pudesse identificar quem gritava.

Lando.

Oscar tentou se mexer até perceber que estava amarrado. Ele se debatia em suas cordas, mas continuava parado. Enquanto isso, os gritos de Lando pareciam cada vez mais desesperados e Oscar não podia fazer nada. A última coisa que ele viu foi o rosto de Victor.

— Sentiu minha falta, Oscar?

Oscar acordou sobressaltado e com a respiração irregular, seu peito subia e descia dolorosamente. Oscar olhou ao redor procurando qualquer vestígio de Lando ou de Victor, mas tudo que podia ver era a parede do quarto decorada por árvores e nuvens e ouvir os grilos cantarem do lado de fora.

Oscar se assustou ao ouvir a porta do quarto ranger e levantou o pulso instintivamente para se proteger, porém não havia perigo nenhum. Era apenas Max carregando uma manta gigante com uma xícara de chá na mão, ele se dirigiu lentamente até Oscar, colocou a xícara na mesa de cabeceira ao seu lado, o cobriu com a manta e se sentou na poltrona ao lado da cama.

— Nenhum demônio vai te capturar aqui, Oscar, antes disso eles teriam que passar por mim e por Charles.

Max não disse mais nada e Oscar se deu o luxo de não precisar responder, as lágrimas acumuladas se soltaram como uma barragem que lentamente se rompe e quando sua água vaza é uma arte, não um caos destruidor. As lágrimas rolavam pela bochecha de Oscar lentamente, molhando o travesseiro e a manta que cobria seu corpo, a mesma que Max acabara de trazer.

Oscar se deixou ser embalado pelo calor aconchegante do cobertor e do silêncio confortável entre ele e Max. Apesar das lágrimas ainda rolarem, a presença firme de Max ao seu lado o lembrava de que ele ainda era uma criança e que também poderia receber cuidados.

Os mesmos cuidados que ele impedira Lando de dar.

O mesmo cuidado envolto de proteção e do sarcasmo típico de Lando. Um tipo de amor que apenas ele sabia dar e que Oscar nunca aprendera a receber.

Oscar caiu nas profundezas de seu sono, dessa vez sem sonhos.

O dia seguinte foi mais calmo do que todos os outros que Oscar tivera na fazenda. O dia amanheceu nublado e frio, Max já não estava mais na poltrona ao seu lado. Oscar se levantou da cama com cuidado enquanto suas costelas protestavam levemente, a dor praticamente já não existia, mas ela ainda estava ali, como um lembrete de que aquele não era o seu lugar e que algum dia ele teria que voltar.

Oscar desceu as escadas preguiçosamente, já sentindo o cheiro de café fresco invadindo suas narinas. Ao chegar na cozinha encontrou Charles na mesa e Max no fogão fazendo algo que parecia ser ovos mexidos. Oscar puxou uma das cadeiras se sentando enquanto pegava um pedaço de pão, o café da manhã passou preguiçosamente até que todos terminassem e se empoleirassem no sofá enrolados em cobertores.

O silêncio reinava no ambiente, a não ser pelo barulho do vento passando pelas portas e da chuva chicoteando as janelas. O fogo da lareira crepitava e aquecia o ambiente.

Oscar observava as chamas consumirem a madeira e percebeu que, assim como o fogo, ele não podia ficar parado por muito tempo. Ele precisava ser o incêndio que Nova York esperava, mas, pela primeira vez, ele sabia que tinha um lugar calmo para onde sua mente poderia fugir quando as cinzas pesassem demais.

Charles interrompeu o silêncio falando com uma voz calma e bem sutil.

— Oscar, já te contei o motivo que eu e Max viemos parar aqui?

Oscar olhou nos olhos do moreno, ambos sabiam que ele não havia contado, mas Oscar apenas balançou levemente a cabeça em negação enquanto colocava toda a sua atenção no monegasco.

— Max e eu somos europeus, ele é da Holanda e eu sou de Mônaco. Dois lugares que ninguém sairia de lá por nada nessa vida. Porém, quando eu e Max começamos a namorar, a situação não foi bem aceita pela família de Max, que ficou revoltadíssima, e minha família também não foi a mais animada ao descobrir que eu estava namorando um homem e então nós, dois jovens adultos imprudentes, resolvemos tomar uma decisão.

A voz de Charles era melodiosa contando a história, e apesar de ser uma história triste Charles parecia não se importar. Para ele naquele momento tudo que importava era o loiro dormindo em seus braços numa tarde fria e chuvosa, corações podiam ser vistos no fundo dos olhos de Charles.

— Pegamos o primeiro voo que achamos e viemos parar aqui, nos Estados Unidos, mas sabíamos que ser encontrados aqui não era algo muito difícil, pegamos então o primeiro ônibus que apareceu e ficamos hospedados numa cidadezinha meia hora daqui, até que uns anos depois conseguimos comprar essa fazenda. No fundo, só queríamos um lugar só para nós dois.

Oscar olhava para Charles sem saber bem o que dizer, apesar de seu coração sentir tudo sua boca não conseguia traduzir em palavras. Oscar esperava ao menos conseguir transmitir isso pelo olhar.

Oscar sentiu que aquele momento talvez fosse o ideal para falar sobre seus poderes e talvez sua situação num geral.

— Eu também nunca disse como vim parar aqui.

Oscar comentou como quem não quer nada, Charles ouviu e indicou que ele continuasse. Oscar explicou toda a situação de como conseguiu seus poderes e toda a ideia de tentar salvar a cidade, Charles em nenhum momento o interrompeu, deixou que Oscar falasse. Ele se sentia visto, como quem passa muitos anos no escuro e finalmente vê a luz. Explicou também sua situação com Lando e o medo de machucar ele ou seu tio Fernando. Quando finalmente terminou sua história Charles apenas olhou no fundo de seus olhos.

— E por que, Oscar? Qual a razão de tudo isso? De se vender e dar tudo de si para um povo que nem sequer vê o valor do seu sangue sendo derramado em vez do deles, por quê?

As perguntas de Charles eram pesadas, mas sua voz era sutil, como uma mãe guiando seu filho por um caminho denso e tortuoso. Oscar sabia a resposta para as perguntas, mas elas pareciam fracas ao lado da segurança de Charles ao perguntar.

— Meu tio Mark. Ele morreu tentando fazer o mundo melhor e eu sei que não posso fazer o mundo melhor, mas ao menos posso fazer com que mais famílias voltem com segurança para casa igual eu queria que tivesse sido comigo.

A voz de Oscar não passava de um sussurro triste e melancólico, se Charles não estivesse praticamente grudado nele ele certamente não escutaria sua resposta.

— E o melhor jeito que você achou foi se destruindo? Seu tio estava certo quando disse "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", mas você não abraçou suas responsabilidades.

Por um instante o adolescente se sentiu ofendido e estava pronto para retrucar Charles, mostrando a ele que tinha sim lidado com elas.

— Não, Oscar. Com grandes poderes você ainda preocupa sua família, ainda se machuca além do limite e brigou com a pessoa mais importante da sua vida. Sabe, seu Lando me lembra meu Max e de quando éramos adolescentes. Nós nos odiávamos, mas ele sempre estava ali, tentando cuidar de mim mesmo me xingando cinco segundos depois. Sempre foi amor, mesmo que escondido sob uma camada de ódio.

A fala suave, porém de filme, de Charles girou uma chave na mente de Oscar. Lando não estava brigando com ele, estava cuidando. Oscar sempre soube que gostava de seu amigo mais do que deveria para dois melhores amigos, mas ele sempre considerou que aquilo não era importante. Seus sentimentos confusos e bagunçados não podiam estragar a amizade. E era exatamente isso que ele tinha feito, deixado seus sentimentos estragarem a parte mais bela de sua vida.

Lando sempre esteve ali, se metendo em suas brigas, cuidando de seus machucados, ouvindo falar sobre suas nerdices ou sobre engenharia, o divertindo em seus momentos de escuridão e o apoiando em tudo. Oscar era simplesmente um idiota que nunca havia percebido o tanto que isso significava.

Oscar finalmente percebeu naquele instante que, em todos os momentos em que achou que ia morrer na floresta, ele não pensou na glória de ser o Homem-Aranha, ele pensou no rosto do Lando.

Um nó se formou na garganta de Oscar. Ele olhou para as mãos, agora limpas e cuidadas pela gentileza de dois estranhos, e sentiu o peso do anel de amizade ou de qualquer lembrança que o ligasse ao Lando. A voz de Charles ainda ecoava, falando sobre renúncia e coragem, mas para Oscar, o significado era outro. Ele não precisava de uma fazenda nas montanhas para ser feliz; ele só precisava que Lando estivesse seguro e que ele pudesse, um dia, olhar nos olhos dele e dizer tudo o que o medo o impediu de falar. Ele precisava voltar. Não por Nova York, não pelo dever, mas pelo garoto que era o seu verdadeiro norte.

Enquanto isso, a situação em Nova York era bem diferente.

Lando nunca vivera tanta pressão em sua vida.

Lando apertou as têmporas, sentindo uma enxaqueca pulsante que parecia sincronizada com as luzes de neon da Times Square lá fora. O silêncio do apartamento do Oscar era ensurdecedor. Cada canto daquele lugar gritava a ausência do amigo, e cada vez que o Tio Fernando perguntava se ele tinha notícias, Lando sentia como se estivesse sufocando em suas próprias mentiras.

A cidade de Nova York estava novamente mergulhada no caos absoluto, o sumiço do Homem-Aranha agora é sentido com pesar e não parece que uma semana atrás estavam o jogando para os leões por simplesmente não entenderem quem ele era.

Enquanto a cidade se preocupava com o exterior, Lando se preocupava com o interior, com quem estava por baixo da máscara. Oscar estava desaparecido há quase uma semana e Lando se sentia completamente desnorteado, como se sua bússola estivesse quebrada e seu senso de direção natural não funcionasse sem Oscar por perto.

Os jornais se perguntavam onde estaria o Homem-Aranha, o crime voltou a ser um problema. Antes, os ladrões que o temiam estavam novamente à solta para agir como bem entendessem. A polícia não conseguia lidar com tudo sozinha, os problemas apenas aumentavam e a cidade estava sem sua principal fonte de segurança.

E pior, a família de Oscar. Seu tio passou a semana uma pilha de nervos, registrou um boletim de ocorrência para o sobrinho desaparecido, mas a polícia tinha problemas maiores para resolver do que um adolescente que não volta para casa. E todas as vezes que ele perguntava a Lando sobre notícias o coração de Lando se quebrava mais um pouco ao contar mais mentiras.

Se Oscar estivesse vivo, Lando faria questão de matá-lo com as próprias mãos de pura raiva. Mas toda vez que esse pensamento aparecia a culpa logo vinha junto. Ele não sabia se Oscar estava vivo. Seu corpo poderia estar em qualquer lugar aí precisando de ajuda ou apenas de que lhe dessem um fim digno. Ele ainda se lembrava muito bem da última vez que o tinha visto.

Do olhar de decepção do melhor amigo antes dele sair pela porta, da dor de seu coração se partindo ao meio ao ver que ele nem mesmo tentara. Lando passou os últimos anos tentando mostrar a Oscar o quanto ele gostava dele, o quanto o seu coração batia por ele e apenas por ele, mas nunca dava certo. Ele sabia que o amigo era lento e tinha dificuldades para interpretar ações básicas, então teve paciência.

Cada dia que passava ele dizia a si mesmo que no próximo dia Oscar finalmente entenderia. Anos se passaram e nada aconteceu, Lando passou a dizer a si mesmo que talvez ele soubesse e estava dizendo delicadamente ao melhor amigo que não era recíproco. Ainda assim ele teve esperanças, tentou dizer a si mesmo que um dia eles estariam juntos.

Um dia que agora provavelmente nunca chegaria.

O arrependimento de nunca ter dito, de nunca ter contado abertamente seu amor a Oscar enquanto ele ainda estava por perto agora doía e machucava Lando com uma faca cravada em seu peito, uma que ele se recusava a tirar.

Mas era inevitável.

Em algum momento ele teria que puxá-la e assistir o sangue escorrer, fruto de suas próprias ações.

Lando passou na porta do apartamento do amigo diversas vezes durante a semana, tentando ter apenas um vislumbre de algo que o lembrasse Oscar. Durante a semana também prometeu a si mesmo que, se Oscar voltasse, as coisas seriam diferentes. Ele se declararia, sendo recíproco ou não. Ele não viveria mais com esses sentimentos dentro de si, mesmo que tivesse que se declarar para uma lápide. Lando prometeu isso para si mesmo enquanto encarava a chuva batendo na janela de seu quarto.

Lando olhou para o traje reserva do Oscar escondido sob o fundo falso do armário. O tecido vermelho e azul parecia sem vida, uma carcaça de algo que um dia foi vibrante. Ele se perguntou se o destino de ambos era aquele: murchar em silêncio, um esperando por um sinal e o outro perdido em algum lugar onde o amor não poderia alcançá-lo.

Completava oficialmente uma semana que Oscar estava desaparecido.

Oscar sabia desde o momento em que levantara que precisava ir. Seu corpo já estava quase recuperado e ele havia passado tempo demais longe de casa. Ele ainda precisava voltar, se não por ele, pelos que ficaram. Ele só não sabia muito bem como iria embora.

Ele só havia chegado ali correndo por conta da adrenalina em seu sangue e do medo de acabar sendo pego, mas voltar correndo para ele era fisicamente impossível. Seu corpo ainda não estava completamente recuperado e ele não se sentia pronto para correr nem um quarteirão.

Sentado em uma das cadeiras de balanço do lado de fora da casa, as ideias iam nascendo e morrendo na mente de Oscar. Ele não fazia a menor ideia de como acessar um lugar tão isolado como aquele, quem dirá ir embora de um lugar ao qual ele nem sabe como chegou. A visão das Montanhas Catskill era deslumbrante aos olhos do adolescente, mas ele sabia que, naquele momento, elas eram uma barreira entre seu mundo real e a fantasia que ele vinha criando nos últimos dias.

— Se você passar mais um segundo aí, o seu cérebro vai fritar. O que você tanto pensa? — A voz de Max o tirou de seus devaneios e o trouxe de volta para a fazenda.

— Preciso voltar para casa. — Oscar não disse mais nada, não era necessário. A dor em sua voz e a melancolia em seu olhar indicavam todas as mensagens subentendidas por aquela frase.

— Então o que você está esperando para voltar? — A franqueza na voz do mais velho assustou Oscar por um instante e o fez pensar: o que ele estava esperando? Sua família precisava dele, seu melhor amigo precisava dele, sua cidade precisava dele. Ele olhou para o jerico de Charles parado ao lado do celeiro e depois para o loiro ao seu lado.

— O que você acha de um passeio? — Max arqueou uma sobrancelha e um pequeno sorriso se formou no canto de seus lábios.

Horas depois, Oscar tentava sem sucesso dar instruções a Max sobre como dirigir pelas ruas de Nova York para chegar até o apartamento de Lando. Quase três acidentes foram causados e algumas pessoas quase foram atropeladas no processo, mas os dois conseguiram chegar até o Queens em segurança.

Antes que ele pudesse entrar no prédio que consumiu seus sonhos na última semana e que foi o último lugar que ele esteve antes do grande desastre, ele se virou para Max.

— Obrigado. Por tudo.

Max lhe lançou um olhar de carinho e um sorriso sem mostrar os dentes enquanto balançava a cabeça levemente em descrença, seus dedos estendendo um papel dobrado para Oscar, que aceitou de bom grado.

— Sempre, Oscar. E vê se dá uma passadinha em casa depois para a gente conhecer esse famoso Lando.

E então o jerico partiu, deixando para trás um rastro de fumaça tão cinza quanto o céu de Nova York. Oscar fez uma anotação mental de olhar o motor deles quando os visse de novo. Antes de entrar no prédio, desdobrou o papel e encontrou um endereço junto com uma nota de rodapé.

"Não se perca, Spider boy"

Oscar deu uma leve risada das palhaçadas de Charles e guardou o papel no bolso da calça antes de entrar no prédio já tão conhecido por ele.

Enquanto subia as escadas, ele podia visualizar seu eu de uma semana atrás descendo essas mesmas escadas, correndo com o coração sangrando.

O mesmo garoto que achava que sabia tudo e agora entendia que não sabia nada.

Foi em frente à porta do apartamento do amigo que ele percebeu que não sabia o que dizer e nem como explicar toda a situação em que ele se meteu, mas, no momento, isso era irrelevante.

Oscar não podia mais passar o resto de sua vida se escondendo de seus sentimentos por motivos fúteis; era hora de enfrentar seus demônios. Girou a maçaneta da porta e encontrou a mesma casa que encontrou nos últimos anos: a mesma decoração, nada de diferente, nem mesmo o silêncio de uma casa vazia.

Oscar passou pela sala até chegar à porta do quarto de Lando; estava aberta como sempre. Porém, em vez de encontrar Lando dormindo ou deitado como sempre, ele estava na janela, olhando para baixo sem nem perceber o outro indivíduo no cômodo.

A janela refletia um olhar desolado e melancólico de Lando que destruía um pouco mais o coração de Oscar. Ele levantou o punho e, delicadamente, deu três batidinhas na porta para chamar a atenção do moreno.

— Eu já disse que não quero comer mã...

A frase de Lando morreu no meio do caminho quando ele percebeu quem estava parado em sua porta. Seus olhos se arregalaram e, imediatamente, ele saiu de perto da janela e se aproximou.

Lando deu um passo à frente, as pernas vacilando como se o chão tivesse se tornado incerto.

Oscar não se preparou para o que veio a seguir.

O punho de Lando atingiu seu peito numa sequência de socos e tapas sem intervalo. Oscar estava surpreso, mas deixou que seu melhor amigo descontasse sua frustração — ele merecia.

— Seu idiota, seu babaca egoísta, como você some e depois me aparece aqui de cara lavada, seu... seu...

A voz dele estava completamente embargada, e Oscar conseguia ver as lágrimas sendo contidas. Seus ataques foram ficando menos furiosos e mais descoordenados, os lábios tremendo e a respiração ofegante. Quando seu punho ia atingir Oscar em mais um ataque, o loiro se aproveitou de seus reflexos apurados e o agarrou, puxando-o para um abraço apertado.

As lágrimas que Lando tentava segurar se soltaram, e seu choro começou como a queda do Muro de Berlim: violento, revoltoso e renovador. O cheiro do shampoo de Lando o lembrava de onde ele sempre pertenceu, o peso de seu corpo contra o de Oscar servia de âncora para sua mente. Um grito de: Fique!

Uma das mãos de Oscar subia e descia pelas costas de Lando, lhe dando apoio, enquanto a outra acariciava seus cabelos até que o choro cessou e tudo que restasse fossem os espasmos involuntários do corpo de Lando. O moreno levantou a cabeça e encarou o Oscar com os olhos brilhantes de lágrimas, os lábios e o nariz vermelhos e com pequenas lágrimas escorrendo pelas bochechas.

Era uma das visões mais belas que Oscar já tivera, muito mais do que as Montanhas Catskill. E, sem se conter, ele aproximou seus lábios dos de Lando, o beijando de uma forma delicada e gentil, como quem segura uma peça de porcelana importantíssima. Os lábios de Lando tinham o gosto do maldito Monster que ele insistia em beber todos os dias.

Por um instante o moreno pareceu assustado, mas logo depois retribuiu o beijo. Segundos depois, Oscar separou seus lábios e encostou suas testas uma na outra.

— eu te amo.

Oscar sussurrou como uma prece desesperada aos deuses que precisa ser ouvida, com a força da correnteza de um rio que deságua no mar há mais de mil anos, com a sinceridade de uma criança ao ver algo de novo em sua rotina e com um amor que só ele tinha pelo Lando.

Lando sorriu para ele e, com um sussurro leve como uma pena e com o amor que só ele poderia ter pelo Oscar, ele disse:

— eu te amo mais.

Naquele momento nada mais importava; ele tinha Lando.

Como explicar seu sumiço para o tio, como voltaria a fazer rondas pela cidade sem mais nem menos, como lidaria com Victor ou com a pressão da mídia por saber quem ele é por trás da máscara?

Não importava. Ele sabia quem era por trás da máscara. Ele era o Oscar.

E, naquele momento, tudo que lhe importava eram os braços seguros que o seguravam, os lindos lábios que belas palavras sussurravam a ele e os lindos olhos verdes que o viam como quem ele era — como Oscar.

Notes:

Me contem o que acharam nos comentários e me perdoem qualquer erro, eu estava cansada quando corrigi.

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