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Carlos nunca soube se acostumar com o silêncio de sua casa após tantos anos cercado pelo ronco potente dos motores. Hoje é mais um daqueles dias em que tudo em sua casa o incomoda, a falta de barulho, os troféus empoeirados, as fotos de um tempo que não volta mais.
Sua esposa estava fora de casa para tirar fotos para mais uma revista e ele estava sentado no chão da casa revirando caixas antigas numa tentativa de preencher o vazio que a Fórmula 1 deixara. Ele nem sabia o porque estava fazendo isso de novo, mas não conseguia controlar a vontade de revisitar seus tempos de glória.
Ser campeão mundial foi ter seu sonho de criança ser realizado, uma sensação inesquecível que ele gostaria de poder repetir todos os dias desde então. Sair definitivamente do esporte foi o segundo dia mais triste que ele teve em sua vida. Deixar para trás a adrenalina que o dominava na hora de correr, os pódios cheios de caos e champagne e até mesmo as frustrações depois de um domingo difícil foi doloroso. Era por um ponto final em algo que ele nunca queria que terminasse. Era admitir a si mesmo que seu maior sonho havia acabado e que era hora descansar.
Na última semana ele tinha encontrado várias caixas esquecidas, cheias de coisas que o pertenciam na época que ele foi piloto da Ferrari, talvez a melhor época de sua carreira, e de muitas formas, de sua vida pessoal também. Sua esposa tinha pedido para ele arrumar elas e decidir o que ainda valia a pena guardar.
As memórias da Ferrari não são bem o tipo de coisa que Carlos gostaria de relembrar, apesar de ter sido uma época incrível. Tem algumas coisas que estão onde devem estar: no passado.
Abrir aquelas caixas era quase como abrir a caixa de Pandora.
Ele postergou o máximo que pode, mas elas ainda estavam ali, o encarando dia após dia. Ele pensou que estava fazendo uma tempestade em um copo d'água com toda a situação e que no dia seguinte tudo estaria guardado e ele nem se lembraria mais daquelas coisas. Como ele estava enganado.
Tudo começou a ficar difícil quando abriu a primeira caixa. Só tinha uma coisa dentro dela, seu capacete de corrida, não de qualquer corrida, sua primeira vitória. As lágrimas começaram a rolar antes que ele percebesse e seu peito doía com a saudade. Ele se lembrava daquele dia todas as vezes que subia no pódio depois de uma corrida, a primeira vitória é sempre a que fica no coração.
Era doloroso demais ficar ali sentado vendo aquele capacete, então ele se levantou, saiu de casa a e foi caminhar para espairecer a mente. Depois de mais de uma hora pensando se deveria continuar com aquilo ou deveria guardar aquelas caixas num lugar que ele nunca mais fosse achá-las, ele voltou para casa. Não importava o quão doloroso fosse se lembrar daquela época ele iria enfrentar seus pesadelos. Como o dia que foi chutado da Scuderia, ou o dia da sua última corrida ou todos os dias que ele correu sabendo que iria embora.
Assim que passou pela porta de casa ele olhou para as caixas no meio da sala e as ignorou mais um pouco. Tomou um banho quente e demorado, tentando ficar menos tenso e mais tranquilo. Ao voltar para a sala achou que seria mais fácil encarar aquele desafio com alguma música, pegou o telefone, abriu o Spotify e colocou a primeira playlist que achou para tocar. Se arrependeu quase imediatamente da escolha, os toques suaves e calmos de uma música que ele se lembrava muito bem chegaram aos seus ouvidos quase estourando os tímpanos, mesmo que o volume estivesse baixo. “Made in Japan” era uma música que ele não queria lembrar, mas lembrar dela foi como um abraço da mãe quentinho num dia chuvoso.
Ele se sentou de frente para as caixas de novo, tirou o capacete da caixa e passou um pano para tirar a fina camada de poeira que o cobria. Depois de limpo, o deixou de lado para criar uma pilha do que queria guardar. Passou para a segunda caixa, tirou a fita que a fechava por cima e quando abriu encontrou suas luvas de corrida. Todas as luvas de corrida que ele usou em seus anos na equipe. Algumas estavam sujas e desgastadas, outras tinham sido usadas apenas uma vez. Mas ele nunca foi guardar nenhuma de suas luvas, nem a de outras equipes, então apenas tirou a caixa da frente e a colocou para o lado. Ali ficaria a pilha das coisas para o lixo.
A terceira caixa o pegou de surpresa. No topo dela estava escrito com uma caligrafia que não era sua apenas um nome: Charlie. A caixa não combinava com as outras que estavam ali, ela era bem maior que todas, estava menos empoeirada, como se tivesse aparecido ali depois e tinha aquele nome tão conhecido por ele no topo da caixa. De tudo que ele poderia encontrar aquilo era o que menos estava esperando. Ele tirou cuidadosamente a fita que lacrava a caixa e ficou ali encarando a caixa esperando que ela se abrisse sozinha.
Levantou cuidadosamente as abas da caixa e a abriu. Dentro dela tinha fotos, papéis do mais variados tipos, um boné com o número dezesseis, uma câmera fotográfica e um papel com letras grandes e com a mesma caligrafia delicada que estava no topo da caixa. “Por favor não me esqueça” era a única coisa escrita no papel. As lágrimas voltaram a correr soltas pelos olhos de Carlos, os soluços saiam sem sua permissão e seu peito doía como o inferno.
Naquele mesmo momento tocava a música que seu adorável Charlie amava tocar para ele no piano. O trecho da música o fazia lembrar a quantidade de vezes que ele a proferiu enquanto olhava no fundo daqueles olhos verdes que ele tanto amava.
I remember all the good times I had walking in the sand
With a beautiful girl that I met made in Japan
Ele sempre cantava errado a música, às vezes ele trocava Japan por Mônaco, às vezes por Ferrari e sempre trova girl por boy. Porque Charlie era seu homem, ora da Ferrari, ora de Mônaco.
Charlie era Charles Leclerc, seu companheiro de equipe, seu melhor amigo e seu namorado. Seu tudo. E que agora não era nada.
Ele tirou a folha com a caligrafia delicada de dentro da caixa e passou o dedo por cima das lindas letras de Charles no papel, se lembrando da quantidade de vezes que a leu. Em cartas confessando seu amor e em bilhetes com frases encantadoras ou até engraçadas que ele deixava antes de todas as corridas.
A primeira coisa que conseguiu visualizar na caixa foi uma foto polaroid do primeiro dia deles na Ferrari. Carlos não tinha nem trinta quando entrou para equipe, não tinha barba e ainda era festeiro e imaturo. Naquela foto os dois estavam em Maranello para se encontrar com todos os mecânicos, o chefe de equipe e mais pessoas responsáveis por fazer tudo girar. Foi um dia incrível.
Foi no inverno de 2021 que ela foi tirada.
Carlos estava ansioso aquele dia, era um passo gigantesco que ele estava prestes a dar em sua carreira. Assinar com a mais antiga e mais importante equipe do grid não era pouca coisa e ele sabia disso. Ele já tinha trocado de roupa várias e várias vezes e parecia que nenhuma ficava boa. No fim ele decidiu pedir ajuda à namorada para escolher. Não adiantou nada. Ela apenas pegou um conjunto que Carlos já tinha experimentado e descartado e o entregou.
Ele desistiu e vestiu aquele mesmo, afinal a roupa não o faria ser demitido no primeiro dia. Ele entrou numa das Ferraris que tinha em sua garagem, uma que ganhou do pai no aniversário de vinte anos e foi em direção à fábrica da Ferrari em Maranello, na Itália. Ligou o rádio e foi cantarolando uma música qualquer que tocava enquanto batia os dedos no volante no ritmo da música. Ele não estava com muita vontade de se encontrar tão cedo com seu novo companheiro de equipe, Charles Leclerc.
Ele o achava um pouco arrogante demais e muito esquentadinho também. Sua relação com seu antigo companheiro de equipe, Lando Norris, era a melhor que ele podia imaginar, os dois eram melhores amigos e inseparáveis. Se davam bem desde o primeiro dia. Carlos já conhece Charles, e também já não gosta muito dele. Sua única missão é não deixar isso ficar muito transparente para ele.
O rádio tocava uma música com uma melodia bonita, falando sobre um homem que se apaixonou por uma garota japonesa que foi prometida a outro homem e os dois nunca ficaram juntos. A música tocou Carlos, e o deixou pensativo sobre quantas vezes pessoas que se amavam muito não ficaram juntas por coisas tão simples. Ele anotou mentalmente para pesquisar depois o nome da música.
A viagem de carro durou menos de meia hora e ele chegou exatamente às dez horas da manhã, assim como pediram no email que ele havia recebido três dias atrás. Ele estacionou o carro numa das vagas disponíveis, desligou o rádio e desceu do carro. A brisa da manhã estava refrescante e cheirava a grama recém-cortada, o sol brilhava alto no céu italiano e as folhas das árvores se balançavam levemente.
Ele caminhou em direção à fábrica e quando chegou se dirigiu ao balcão da recepcionista, afinal era sua primeira vez, ele não fazia a menor ideia para onde ir. Ele arranhou a garganta e forçou o seu melhor italiano.
— Buon pomeriggio, potrebbe indicarmi dove si trova l'ufficio di Mattia Binotto?
Ele só queria saber onde ficava a sala de Mattia Binotto, seu chefe de equipe. A recepcionista lhe lançou um largo sorriso e se levantou para indicar a ele o local. Ela ia apontando para várias coisas no caminho e falando o que eram, era uma mulher simpática. Simpática até demais em alguns momentos, o tocando e usando um tom de voz doce demais.
O prédio da Ferrari era um lugar ao mesmo tempo que acolhedor, também era intimidador. As paredes altas de pedra, as portas vermelhas e o símbolo da equipe com o cavalo no meio criavam um ambiente único. Ele admirava tudo que podia, os carros antigos expostos, os mecânicos trabalhando em algumas salas e em outras pessoas socializando e conversando.
No meio do caminho eles passaram em frente uma sala, dentro dela estava Charles e algum funcionário da equipe conversando. Charles rapidamente terminou a conversa e correu para alcançá-los. Charles se virou para recepcionista e falou num italiano perfeito.
— Sara, puoi lasciare che me ne occupi io da qui in avanti.
Depois se virou para Carlos com um sorriso animado no rosto e estendeu a mão enquanto trocava para o inglês.
— Cahlos, que bom te ver! Vai ser muito bom te ter como companheiro de equipe.
O nome de Carlos soou de uma forma tão bela na voz de Charles que o hipnotizou, o som do r não saía direito por conta de seu sotaque francês, fazendo o nome perder um pouco da intensidade, mas ficar dez vezes mais belo. Carlos retribuiu o aperto de mão e sorriu para Charles, talvez ele tivesse julgado ele cedo demais por acontecimentos passados.
— Bom te ver também Charles. Estou animado para trabalhar com você. Você pode me levar para a sala do Mattia?
O sorriso de Charles aumentou no rosto enquanto ele conduzia Carlos pela fábrica. Ele falava sem parar nenhum segundo, sempre o apresentando a pessoas e indicando lugares até que os dois chegassem até uma porta com o nome do chefe de equipe escrito bem na frente.
— É bem aqui. Eu vou te esperar aqui fora para te apresentar o resto da fábrica quando vocês acabarem.
Carlos acenou com a cabeça e entrou pela porta que Charles lhe indicara. Lá dentro o chefe de equipe o esperava. Eles tiveram uma conversa sobre pequenos detalhes sobre o contrato que já estava assinado, apenas sendo reforçado a ele. Mattia explicou coisas básicas sobre a equipe, falou um pouco sobre o carro e o que esperavam para a temporada de 2021. Foi uma conversa breve e de boas vindas, pouca coisa realmente foi dita. Ele também lhe disse que mais detalhes seriam passados ao longo da semana e logo no dia seguinte ele já poderia treinar no simulador da equipe. Quando acabaram, Mattia lhe estendeu a mão e se despediu. Carlos saiu da sala e encontrou Charles exatamente onde ele disse que estaria.
— Finalmente vocês acabaram! Vem, eu tenho que te apresentar muitas coisas ainda.
E Charles partiu em disparada para a saída do corredor enquanto puxava Carlos pelo braço. Ele mostrou para ele onde ficavam os simuladores, pistas de teste e lhe apresentou mais pessoas na fábrica. Quando tudo acabou, os dois estavam exaustos de tanto andar e se jogaram na sala de descanso de Charles. Ambos os pilotos tinham uma sala para descansar na fábrica para poderem relaxar entre reuniões e testes. Carlos se jogou em um dos puffs que encontrou e sacou o celular para pesquisar a música que ouvira no rádio mais cedo. Charles vendo a movimentação não hesitou em perguntar.
— Está fazendo o que?
Seu tom não era interrogativo, apenas curioso para saber o que o companheiro fazia com uma expressão tão forte de determinação. Carlos tinha acabado de descobrir o nome da música que lhe tocara o coração, e estava mais que disposto a compartilhar a informação com Charles. Tudo que ele mais quer é ter uma boa relação com seu companheiro de equipe.
— Estou pesquisando sobre uma música legal que eu ouvi no rádio hoje, “Made in Japan” o nome, conhece?
Charles virou a cabeça para olhar para Carlos na velocidade da luz e a ponta de seus lábios formavam um sorriso que quase alcançava o teto.
— Eu amo essa música! E também amo tocar ela no piano, ela consegue ficar mais bonita do que já é!
— É? Então você vai ter que tocar para mim um dia viu.
Charles apenas riu e concordou com a cabeça enquanto olhava Carlos nos olhos. Aqueles olhos verdes eram a coisa mais bela que Carlos já teve o prazer de ver. Charles se levantou e foi até uma mesa, de lá abriu uma gaveta e tirou uma câmera fotográfica de lá. Se virou para Carlos e com um sorriso balançou a câmera em sua direção.
— Vem, vamos registrar o momento. O primeiro grande dia de Carlos Sainz na Ferrari!
Carlos posou para fotos as quais ele nunca vira e depois de uma sessão como modelo eles pediram a mesma recepcionista que cumprimentara Carlos na entrada que tirasse uma foto dos dois juntos. Foi um começo incrível para os dois.
A textura da polaroid nas mãos de Carlos o trouxe de volta à realidade, seu rosto já estava banhado de lágrimas e ele se sentia submerso, como uma onda que o levou e o afundou. E essa onda é a Ferrari, no caso, agora apenas as memórias que sobraram para atormentá-lo. A temporada de 2021 foi terrível, o carro estava horrível e os pilotos estavam no meio do fogo cruzado do Hamilton com o Verstappen. Mas para Carlos e Charles foi ótimo para se conhecer melhor e no fim do ano os dois já eram melhores amigos inseparáveis.
Apesar das memórias se tornarem amargas, os momentos ainda foram maravilhosos, Carlos coloca a foto ao lado do capacete na pilha para guardar. A segunda foto polaroid era da primeira vitória de Carlos. Um dos melhores dias de sua vida, não só pela vitória, mas também por Charles. Aquele dia foi quando percebeu que tinha se apaixonado por seu melhor amigo, seu companheiro de equipe.
A música continuava a tocar no fundo como se combinasse com a memória que aquela foto lhe trazia a voz de Buck Owens soava em seus ouvidos dizendo:
As we walked by the river and she softly took hold of my hand
That's when I fell deep in love with a girl made in Japan
Foi assustador e aliviante ao mesmo tempo, estava assustado por pensar que talvez nunca pudesse contar a Charles sobre o quanto estava apaixonado por ele, e aliviante ao finalmente conseguir denominar aquela mistura de sentimentos confusos que o perseguiam. Carlos conseguiu a resposta para todas as suas dúvidas mais tarde naquele mesmo dia.
Foi no ano de 2022 em Silverstone.
Carlos desceu do pódio encharcado de champagne e com um sorriso que quase chegava às orelhas. Era o melhor dia de sua vida até então, ganhar uma corrida é objetivo de todo piloto. Independente da categoria, ganhar é a borboleta que você persegue durante toda sua carreira. Quem tem duzentas vitórias e quem tem uma, todos estão correndo com o mesmo objetivo. Ganhar. E agora é a vez de Carlos.
Apesar do dia incrível que Carlos estava tendo, Charles estava tendo um dia terrível. Largou em terceiro e perdeu a posição para Sérgio Perez logo no começo da corrida, eles até chegaram a batalhar um pouco pela primeira posição em um momento mais avançado na corrida. Carlos ganhou a disputa e Charles caiu para quarto lugar. Enquanto Sérgio Perez, que estava a sua frente no campeonato, terminou em segundo. Abrindo vantagem para Charles que tinha chegado a liderar o campeonato no começo do ano.
Carlos se sentia mal por ele, tudo que o monegasco mais merecia era ser campeão mundial. Ele estava voltando para garagem da Ferrari depois de dar entrevistas e conversar com alguns outros pilotos no fim da corrida. O sorriso estava quase gravado em seu rosto, ele não conseguia parar. Quando chegou na garagem viu os mecânicos se juntando para tirar uma foto pós corrida. O troféu no meio e uma placa escrita “Carlos first win” e um p1 em baixo. Charles não apareceu.
O sorriso de Carlos começou a vacilar. Os engenheiros e mecânicos o banharam de ainda mais champagne e o abraçaram lhe dando tapinhas nas costas enquanto diziam o quanto estavam felizes pela vitória. Mattia também apareceu para dar os parabéns a Carlos. Na verdade, quase todos apareceram. Menos Charles.
Quando tudo terminou ele foi para o motorhome da Ferrari arrumar suas coisas para ir embora. O local estava vazio e era possível ouvir até o rangido das portas se abrindo. Carlos subiu as escadas devagar, o cansaço da corrida começando a dar sinais em seu corpo. A adrenalina foi passando e seu sorriso foi ficando cada vez menor. Um pouquinho dele desejava que Charles tivesse ficado, para ser mais sincero, grande parte dele necessitava que Charles tivesse ficado para comemorar.
Carlos não sabia explicar, mas já tinha um tempo que ele não conseguia ficar sem Charles. Ficar longe dele o dava uma agonia no peito e um vazio na mente. Estar ao lado de seu companheiro era como um dia ensolarado na praia, um chocolate quente num dia frio, era confortável. Ouvir sua voz doce e calma, com aquele sotaque francês que fazia Carlos pirar toda vez que ele não conseguia falar o r de seu nome. Aqueles olhos verdes como esmeraldas que o olhavam como se ele fosse o único no mundo inteiro. Aquele carinho e diversão que só os dois conseguiam ter juntos.
Tudo isso o lembrava de Isa, sua namorada, quando eles se conheceram Carlos se sentia da mesma forma. Como se pudesse voar a qualquer momento e de que era capaz de construir um mundo novo apenas para aquela pessoa. A única diferença é que Carlos estava apaixonado por Isa, ou estava na época. Ele não estava apaixonado por Charles. Não mesmo. Não podia estar nem se quisesse.
Quando terminou de subir as escadas, se dirigiu até seu quartinho para poder pegar o que estava guardado lá e ir para seu hotel. Afinal seu avião partiria cedo pela manhã. Mal teve tempo de reagir quando abriu a porta e braços fortes o apertaram em um abraço firme. O cheiro do perfume forte e amadeirado de Charles invadiu suas narinas com força e Carlos se sentiu tonto por instante. Ele não sabia o que fazer, seus braços estavam confusos sobre que direção tomar suas pernas desequilibradas com a força do abraço que o empurrou um pouco para trás e seu cérebro estava em branco.
Charles estava aqui.
Carlos levantou os braços e rodeou a cintura de Charles retribuindo o abraço de Charles firmemente. Aquela cintura o deixava louco, tão fina que Carlos se pegava pensando às vezes se suas duas mãos conseguiriam dar a volta nela. O que não é nada normal para se pensar sobre seu companheiro de equipe, só que Carlos não conseguia evitar. A cada dia ele ficava mais e mais encantado por Charles. Os dois continuaram em silêncio por alguns minutos, envoltos naquela névoa de paz e calmaria que apenas eles podiam proporcionar um ao outro. O abraço era a ponte que fortalecia cada vez mais a relação dos dois. Depois de um tempo Charles se afastou desmanchando o abraço olhando no fundo dos olhos de Carlos, o topo verdejante das árvores de seus olhos se encontrando com o tronco dos olhos castanhos amadeirados de Carlos. Os dois se complementando, formando um só.
— Me desculpe por não estar na sua comemoração Carlos. Eu sinto muito, muito mesmo. Eu estava meio chateado e vim me acalmar aqui, eu achei que você ia passar aqui depois das entrevistas e não percebi que você foi tirar foto com a equipe. Eu juro que queria estar lá, juro de verdade mas…
A voz de Charles estava quebrada e frágil, no canto de seus olhos pequenas lágrimas começavam a se formar. Carlos percebeu que ele ia entrar em loop, ia começar a falar sem parar enquanto se desculpava e não ia parar nunca mais.
— Charles, shhh. Está tudo bem. Você está aqui agora, está tudo bem.
A voz de Carlos era tão terna e mansa que os ombros tensos de Charles imediatamente relaxaram. Carlos pegou suas mãos e as apertou levemente enquanto olhava no fundo dos olhos de Charles, encarando sua alma pura e sensível.
— Você está aqui agora Charlie e só isso importa.
Foi a primeira vez que Carlos usou o apelido, que futuramente seria o único jeito que ele iria conseguir a Charles. Sua mão foi em direção ao rosto dele pousando em sua bochecha, Carlos delicadamente passou o dedão por ali acariciando enquanto Charles se inclinava para receber mais carinho, como um gato que busca seu dono por aconchego. A outra mão de Carlos foi de encontro a outra bochecha de seu companheiro e repetiu a ação. Charles o encarava como se ele fosse o sol, brilhando unicamente para ele.
Charles foi se aproximando lentamente, até seus corpos estarem colados, ele levou a mão à bochecha de Carlos também e a acariciou ternamente. Seus dedos macios como algodão, traçavam linhas imaginárias na bochecha de Carlos, fechando todas as feridas em seu coração. Causadas por pensar que Charles não se importava com ele e por isso não quis comemorar sua primeira vitória. As mãos de Carlos desceram para a cintura de seu amigo e a rodearam num meio abraço. Aquilo não era jeito de dois amigos se abraçarem, mas quem se importa? Carlos definitivamente não.
— Você estava tão lindo lá em cima, como se tivessem anjos sob a sua cabeça naquele pódio. Eu não consegui tirar os olhos de você, era alucinante ver você lá em cima. Meu cérebro nem conseguia processar tamanha beleza.
As palavras de Charles eram carregadas de carinho e afeto, que chegavam ao coração de Carlos e transbordavam. Ele não conseguia tirar os olhos da boca de Charles enquanto ele falava. E então o pensamento o atingiu como um turbilhão. Ele estava apaixonado pelo seu companheiro de equipe e melhor amigo. Muito mais apaixonado do que jamais esteve por qualquer outra mulher em sua vida.
Ele nem teve muito tempo antes de processar a ideia que seu cérebro acabara de conseguir quando sentiu os lábios de Charles se juntando aos seus. O choque inicial o fez travar enquanto sentia os lábios macios e delicados de Charles pressionados no seus, porém quando o choque passou ele pode retribuir o beijo e tomar posse dele. As mão nas cintura de Charles se apertaram quando o beijo se aprofundou e uma das mãos de Charles subiu imediatamente para o cabelo dele, o apertando levemente em alguns momentos. Quando foram obrigados a se separar pela falta de ar, os dois estavam ofegantes, com os rostos vermelhos. O cabelo de Carlos levemente bagunçado e a camiseta de Charles fora do lugar.
— Eu me meti num problema gigantesco.
Era possível escutar o sorriso de Charlie em sua voz, ele olhava para Carlos como uma obra de arte renascentista. Como se fosse tudo.
— Ah é? E que problema gigantesco é esse?
— Eu estou completamente e perdidamente apaixonado por você.
Carlos juntou os lábios dos dois imediatamente após a fala de Charles, ignorando todos os problemas que vinham junto com essa paixão. Os dois trabalharem na mesma equipe e estarem apaixonados em um esporte extremamente homofóbico que nunca os aceitaria e que ambos são comprometidos com outras mulheres. Tudo isso era problema para um Carlos futuro lidar, o de agora só precisa que o corpo de Charles esteja junto ao seu enquanto seus lábios estão juntos. O futuro é um problema para depois.
— Eu também estou perdidamente apaixonado por você, Lord Perceval.
Carlos soltou um suspiro baixo ao se lembrar desse dia.
Algumas coisas realmente não deveriam ser relembradas.
Ele revirou a caixa e encontrou a partitura de uma música. Ele não precisava nem ler o que estava escrito para saber qual era. Era a música deles. Aquela que Carlos cantou muitas vezes no calar da noite em quartos de hotéis, nas únicas camas que podiam compartilhar e nos únicos momentos que podiam ter verdadeiramente um ao outro. No verso da folha estava escrita a letra, não a original e sim a versão que ele sempre cantava a Charles. Bem no final do papel em letras minúsculas e quase invisíveis a caligrafia delicada de Charles se fazia presente mais uma vez.
“Que o destino dessa música nunca nos encontre e se encontrar, que sejamos mais fortes que ela”
Eles não foram fortes, nem sequer tentaram. Desistiram assim que o primeiro empecilho apareceu. Escolheram o caminho mais fácil sempre. Dentro da caixa também tinha um dos bonés de Charles, não qualquer boné, mas o boné que ele sempre usava dizendo que era para atrair coisas boas. Um boné que Carlos fez uma assinatura bem pequenina no fundo dele. Charles sempre lhe disse que ele atraia coisas boas.
In the dark of night we would lay on Tokyo bay
And the singing of the birds woke us up at the break of day
Her smiling eyes always seemed to try to understand
All the love in my heart for the girl made in Japan
A melodia da música preenchia a dor lancinante no coração de Carlos o fazendo se lembrar de todos os detalhes da relação dele com Charles. Os olhares roubados entre reuniões de equipe, pódios e durante os vídeos promocionais da Ferrari. Olhares carregados de amor, atração e tudo que não podia ser dito em voz alta. A mensagem mais bela e pura de amor que os dois tinham a permissão de compartilhar.
Os silêncios compartilhados que diziam mais que mil palavras. O barulho alto dos motores rugindo, das pessoas caminhando pelo paddock e da movimentação dos pilotos e mecânicos, nenhum desses era capaz de apagar o barulho dos corações dos dois martelando o peito. Os silêncios em noites difíceis, fáceis e até proibidas, de quartos de hotéis sendo testemunha da consumação de seu amor.
Segredos que nunca poderia existir a luz do dia, segredos que até de noite eram proibidos. Declarações de amor ditas como quem pronuncia um feitiço, sentimentos que nunca deveriam ter sido pronunciados. Mas que sua confissão apenas reforçava o que os dois sabiam. Que se eles quisessem o amor deles seria a conexão mais forte a existir. O único problema é que eles nunca quiseram.
Tanto amor reprimido e jogado fora. O que poderia germinar e virar uma vida cheia de companheirismo virou nada. Ele se lembrava de quando os dois faziam planos de virar campeões mundiais, se aposentar e depois revelar o seu amor ao mundo. Eles já estavam aposentados a anos e não se falavam a mais de quinze anos.
Apesar de tudo isso Charles foi a parte mais linda de sua vida. Com ele o mundo era uma utopia. Charles sempre colocava a coberta em Carlos, porque sabia que ele não conseguia dormir sem ela. Guardava pãezinhos de chocolate todos os dias no café da manhã porque eram seus favoritos. Se esforçava para não deixar o quarto bagunçado porque sabia que ele odiava.
Ninguém nunca o conheceu como aquele homem o conhecia. Ele expressa o amor dele em atos de serviço. Carlos por mais que se esforçasse não conseguia ser tão bom nisso quanto Charles. Mas ele sempre gostou do toque físico e das palavras de afirmação.
Estar ali segurando a cintura de Charles, ou apenas os mindinhos entrelaçados, corpos colados e toques fugazes. Isso era essencial para Carlos. Dizia coisas para Charles até que suas bochechas ficassem tão vermelhas quanto o carro que dirigiam, ou que faziam ele sorrir com aquelas covinhas lindas ou que apenas o fizessem olhar para Carlos como se ele fosse o mundo inteiro. Isso era amar para Carlos Sainz.
Carlos também se lembra da última vez que viu esse boné e de como a situação não acabou bem. Um dia que soava exatamente como o trecho da música que tocava.
My transistor radio comes from far away
And when it's night over here over there it's a breaking day
She cried when she said she'd been promised to another man
Foi num dia de setembro em 2023.
Os gemidos de Charles eram como música para seus ouvidos. Seu nome era dito como uma prece pelos lindos lábios de Charles enquanto seus quadris se chocavam. Esse era mais um dos encontros proibidos que os dois tinham entre as corridas.
Os dois estavam no apartamento de Charles, algo inédito. Os dois estavam solteiros e se sentiam menos culpados ao se amar sem ter que trair alguém que os esperava em casa com amor e confiança. Charles tinha mandado uma mensagem na noite anterior quase de madrugada o convidando a ir para a casa dele. Já que naquele horário seria bem mais difícil de alguém vê-lo dirigindo pelas ruas do principado até a casa do monegasco.
Os dois se amavam com corpo e alma, seus corpos sincronizados até as mínimas reações. E o momento da libertação era sempre o ápice de tudo. Os dois estavam exaustos e seus peitos subiam e desciam de forma sincronizada e o rubor no rosto dos dois indicava um cansaço extremo. Nada que dois atletas da elite não estivessem acostumados.
Apesar do cansaço Carlos se levantou e foi até o banheiro e molhou uma toalhinha com água morna. E voltou para limpar a bagunça que os dois haviam feito. A delicadeza que ele passava o pano pelo corpo de Charles mostrava que o cuidado dos dois ia além de esconder o amor deles. Depois que considerou seu trabalho perfeito, Carlos se jogou ao lado de um Charles já adormecido na cama, o abraçou pela cintura até que seu peito estivesse colado nas costas de Charles e sussurrou um breve boa noite a ele. Charles apenas resmungou antes de se ajeitar em Carlos e cair em um sono profundo.
Quando Carlos acordou já não tinha ninguém na cama, mas ele podia escutar um barulho de panelas sendo mexidas e um cheiro forte de bacon preenchia o quarto. Ele rapidamente pegou uma das cuecas no chão e a vestiu indo em direção a cozinha. Quando chegou na porta dela a visão que encontrou transbordava seu coração.
Era uma cena que ele queria poder ter todos os dias, Charles vestido com apenas uma camiseta sua e as belas pernas à mostra, mexendo ovo em uma frigideira enquanto cantarola uma canção francesa qualquer. Carlos gostaria de poder ter isso para sempre. Essa casualidade de viver com Charles, de poder amar Charles.
Não precisar se esconder, fingir que são apenas amigos e que nada é diferente entre eles. Ele gostaria de poder gritar ao mundo seu poder por ele. Poder dizer o quão lindo fica Charles Leclerc fazendo café da manhã para ele. Poder ter tudo que ele teria com uma mulher.
Os beijos depois dos pódios, poder acompanhar uma corrida sendo apenas namorado de Charles e não piloto de corrida, poder dizer abertamente “meu namorado” em uma entrevista antes ou depois da corrida. Poder viver a casualidade do dia a dia com ele.
Morar juntos, cozinhar juntos na cozinha gigante que Charles tem em casa, adotar animais de estimação juntos e tratá-los como filhos, discutir sobre quem deixou a toalha na cama. Coisas tão básicas mas que para Carlos é essencial e que ele nunca pode viver.
Talvez agora que os dois estão solteiros eles possam dizer à mídia que querem relaxar e ficar solteiros por um tempo. Enquanto estabelecem uma vida melhor para eles. Talvez Carlos converse isso com Charles mais tarde.
No momento o que ele faz é se aproximar lentamente de Charles e o abraça por trás, encostando o seu queixo no ombro do namorado que se assusta levemente.
— Mon Dieu, Cahlos! Você não pode chegar me assustando assim, e se eu tivesse me queimado?
Carlos ignora os protestos do monegasco e começa a distribuir beijos pelo pescoço dele até que a respiração dele fique irregular e tudo que ele consiga dizer é seu nome, daquela forma fraca e intensa que só ele consegue.
Os dois não demoraram muito para terminar de fazer o café. Serviram a mesa e comeram enquanto comentavam casualidades do dia a dia, como o que aconteceu com um dos irmãos do Charles ou o que o cachorro de Carlos tinha aprontado na semana passada. Conversavam sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo.
Quando terminaram de comer e guardam os pratos na pia Charles o arrastou para o piano. Em cima dele estava o boné que atraia coisas boas na visão de Charles. Ele o tirou de cima do piano e colocou na cabeça na cabeça do espanhol. Passou os dedos levemente pelas teclas do piano e começou a tocar.
A música deles. Sempre a música deles.
Carlos não cantou dessa vez. Preferiu apreciar a expressão de concentração no rosto do namorado que se esforçava ao máximo para a música soar perfeita. Assim eles passaram o resto do dia, da cama para o piano e do piano para a cama. Usando todo o tempo que podiam para se amar o mais alto que conseguiam.
Já era noite novamente quando Carlos começou a se arrumar para ir embora. No dia seguinte ele iria gravar um comercial para a L’oreal logo pela manhã. Então como tudo que ele levou para a casa de Charles foi o celular e as chaves do carro, ele precisava voltar. Por mais que não quisesse.
Os dois estavam emaranhados no sofá enquanto esperavam um horário bom para que não vissem o piloto espanhol saindo da casa do companheiro de equipe. Depois de um silêncio longo e confortável, os dois o quebraram ao mesmo tempo.
— Eu tenho algo para te dizer.
A cena era cômica, coisa de filme. Os dois se olharam rapidamente antes de começarem a rir com a coincidência. Carlos se virou para o monegasco e indicou com os dedos que ele falasse.
— Você pode falar primeiro.
Nada no mundo podia prepará-lo para o que viria a seguir. Enquanto Carlos planejava contar sobre seu plano dos dois ficarem solteiros um pouco para poderem aproveitar mais o relacionamento o que Charles disse o destruiu e destruiu todos os seus planos juntos.
— Estou namorando uma nova garota.
Imediatamente ele ajeitou a postura no sofá. Sua respiração começava a ficar acelerada, milhões de perguntas passavam por sua cabeça e seu peito doía com a verdade de que talvez ele não fosse tão importante assim para Charles.
— O quê?
A expressão em seu rosto era de puro pavor, sua voz foi reduzida a um sussurro entrecortado carregado de dor. Ele olhava no fundo daqueles olhos verdes que ele tanto costumava admirar esperando ouvir que tudo era uma brincadeira ou talvez que fosse um pedido do time de relações públicas. Qualquer coisa.
— Eu conheci ela aqui em Mônaco numa cafeteria perto de casa. O nome dela é Alexandra e ela é incrível Cahlos. Ela é bonita e gentil, e também é muito engraçada. Tem um senso para a moda muito melhor que o meu. Ela é certamente a pessoa mais incrível que já conheci. E adivinhe? Eu estava usando o boné da sorte! Parece que sua assinatura realmente atrai coisas boas.
Carlos nunca se sentira tão ofendido em toda a sua vida. Aquele homem teve a coragem de olhar no fundo de seus olhos em um dos únicos momentos que podiam desfrutar um do outro e disse que a assinatura do piloto num boné especial para o relacionamento dos dois o fez namorar uma nova garota. Às vezes Carlos queria que Charles fosse um homem de verdade.
Ele se levantou num pulo do sofá e pegou o celular e as chaves do carro na velocidade da luz. Olhou para Charles, olhou para o piano no canto da sala e então pegou o boné de sua cabeça e jogou com a maior força que tinha em Charles.
— Então fique com essa merda de sorte só para você.
Carlos disse enquanto saia do apartamento sem dar tempo para ouvir o que Charles tinha a dizer. Disse não, gritou e depois fugiu de seus sentimentos e do piloto monegasco com quem trabalha junto. Ele passa o resto da semana ignorando as ligações infinitas que Charles faz, deixa milhares de mensagens não lidas e simplesmente finge que Charles Leclerc nunca existiu.
Quando voam para a corrida de Singapura, o espanhol se prova um excelente ator. Melhores amigos na frente das câmeras e inexistentes fora delas. Carlos ganhou a corrida, sendo a única vitória da Ferrari na temporada e de um piloto que não fosse da Red Bull. Ele quebrou a sequência recorde de dez vitórias de Max Verstappen e mesmo assim quando a corrida acabou Carlos recebeu a notícia que eles assinaram com Lewis Hamilton para a temporada de 2025.
Em nenhum momento disseram que iriam demitir, mas ficou implícito em todo instante. Eles nunca demitiriam o garoto de ouro da Ferrari, o garoto forjado e moldado lá. Feito para se encaixar com todos os ideias da Scuderia e que aos poucos colocou Charles numa síndrome de Estocolmo fortíssima.
Ele era o garoto feito na Ferrari. Carlos nunca teria espaço ali.
Naquela noite ele terminou na cama de Charles Leclerc.
Eles não falaram sobre Alexandra, nem sobre Lewis Hamilton e muito menos da Ferrari. Apenas se amaram a noite inteira se entregando de corpo e alma um para o outro.
E duas semanas depois, Carlos apareceu namorando Rebecca, uma modelo escocesa.
Na memória, o boné vermelho ainda estava na cabeça de Charles.
Na realidade, ele ainda estava nas mãos de Carlos.
Charles se desculpou com ele na época, disse que Alexandra não era nada e que logo terminariam. Os dois se casaram e tiveram dois filhos e Charles ainda teve a cara de pau de enviar um convite de casamento para ele. A primeira reação de Carlos ao ver o boné em suas mãos novamente foi jogá-lo com a maior força que tinha na parede.
Aquele boné era a representação física da ruína em sua vida, dos dias em que tudo era extraordinário ao lado do amor da sua vida e do dia em que essa mesma pessoa destruiu tudo que eles tinham. Tudo que Carlos tinha.
Carlos soluçava tanto que se sentia incapaz de respirar, seu peito doía, sua visão estava turva por conta das lágrimas que caiam sem sua permissão. Tudo que ele queria era Charles, aquele amor puro e sincero que ele nunca mais teve. Ele empurrou as caixas para o lado e cambaleando foi até a cozinha pegar um copo de água com açúcar para se acalmar. A primeira coisa que ele viu foi uma caneca da Ferrari em seu armário.
O choro aumentou até que ele não tivesse mais condições de ficar de pé, seu corpo escorregou pela parede da cozinha até que ele estivesse em posição fetal chorando no chão com o coração partido. Tantas promessas quebradas, tantos sonhos guardados. Uma, duas, três, infinitas horas se passaram até que Carlos conseguisse ficar de pé para beber a água.
Sua mão tremia e ele temia derrubar o copo enquanto o levava em direção aos lábios, em pequenos goles foi tomando todo o líquido até o copo estar seco. Ele se virou novamente para a última caixa o esperando no chão de sua sala. A maior vontade do espanhol no momento é jogar tudo aquilo na lareira e assistir a tudo queimar.
Mas ali é o único lugar que o amor dele ainda existe a não ser às memórias. Os registros físicos ficariam, até mesmo quando ele se fosse. E talvez, apenas talvez, num futuro distante as pessoas tomem conhecimento de quem realmente foi Carlos Sainz. Quem foi além de todas as mentiras que construiu ao redor de si mesmo para aguentar até finalmente descansar eternamente.
Ele se forçou a terminar de ver o conteúdo da caixa, afinal tudo que estava ali voltaria para ela e ficará guardada em algum lugar que nem a luz do sol ou ar puro chegue.
A música agora tocava a parte mais devastadora de sua letra e a que Carlos mais se identifica agora depois de todo o silêncio.
That's when I left my heart with the girl made in Japan
Yes my heart will always be with the girl made in Japan
Seu coração estará para sempre com o seu garoto feito na Ferrari.
A última coisa que tinha na caixa era uma carta, com uma datação recente. Três anos atrás. Provavelmente quando aquela caixa apareceu nas coisas de Carlos sem que percebesse.
Com uma caligrafia bem menos delicada que Charles costumava escrever e com manchas na tinta da caneta, provavelmente de lágrimas que caíram no papel de envelope estava escrito só uma frase.
Nem em outra vida eu poderia amar alguém que não é você.
Agora as lágrimas de Carlos se juntavam às de Charles manchando a tinta da caneta no envelope da carta. Tanto significado e tanta dor.
Cuidadosamente rompeu o lacre do envelope e em seu colo caíram duas coisas. Uma carta e uma foto polaroid do último dia de corrida de Carlos com a Scuderia. Os dois com os olhos vermelhos e inchados sorrindo como se o dia de amanhã fosse só mais um dia, como se aquele não fosse um final definitivo.
Dia 8 de dezembro de 2024.
Eles não conseguiram. Lutaram para conseguir o campeonato de construtores e não conseguiram. Era sua última chance de conquistar algo lado a lado com Charles e ele não conseguiu. Não conseguiu ultrapassar o foguete de Lando Norris na pista. E agora ele não teria nem o título e nem seu assento para tentar novamente.
Depois do ano maravilhoso que eles tiveram, ganharam corridas, subiram ao pódio várias vezes juntos e se divertiram em vídeos para a Ferrari. Estava bem ali na sua frente o fim acenando para ele. Monza e Mônaco foram as melhores corridas. Apesar de não ter subido no pódio na primeira, assistir Charles ganhando em frente aos tifosi e no seu país foi algo de se arrepiar.
Carlos também teve seus momentos de glória naquele ano, seu melhor ano na Ferrari, justo quando ele é enxotado. Descer do carro vermelho corsa uma última vez certamente foi marcante, assim como foi subir nele pela primeira vez. Depois de quatros anos banhados de vermelho ele se despediria dessa cor que por tanto tempo amou.
Carlos não queria ser apenas parte da fantasia que era a Scuderia Ferrari, ele também queria fazer parte da família que existia ali.
E conseguiu, independente dos altos e baixos, das brigas e desentendimentos com Charles e seus chefes de equipe, ele era tão parte da Ferrari quanto qualquer um naquela equipe. Para ele tudo era um borrão, o champagne gelado batendo em seu rosto e corpo o deixando completamente encharcado. Tudo para ele passava tão lentamente e tão rápido que nada conseguia ficar registrado na memória. Só aquela tristeza profunda que fazia seus ossos doerem.
O mundo lá fora era barulhento, a multidão enlouquecida, os repórteres e fotógrafos, os mecânicos se movimentando sem parar. Carlos não ouvia nada. Lando o abraçava e dizia alguma coisa e ele retribuía como um robô programado para fazer aquilo. Ele nem viu quando começou a chorar, mas quando se viu novamente estava fazendo um discurso de agradecimento a toda a equipe pelos anos que estiveram juntos.
Agradeceu a Charles também e nessa hora ele começou a chorar mais. Charles também não estava muito bem. Perder o título e o namorado no mesmo é dia duro. Não é para qualquer continuar se mantendo de pé depois do dia cansativo que os dois tiveram.
Depois de toda a emoção Carlos foi para seu quarto de descanso. Era a última vez que ele entraria ali, tantas vezes que ele tinha tirado sonecas para escapar de reuniões chatas agora seriam apenas história para aquele aposento. Ficou parado ali no meio absorvendo a energia do dia, pensando em como iria encarar o que ainda estava por vir e em como gostaria que tivesse tido mais tempo com todos ali.
Em algum momento a porta se abriu e Charles entrou fechou a porta e ficou parado ali. Carlos não o percebeu entrando e nem viu quando ele chegou por trás e o abraçou. Eles ficaram ali meio abraçados e vendo um espaço que compartilharam durante tantos anos virar nada.
— Isso não vai dar certo Charles. Nós dois… isso não vai dar certo.
Carlos interrompeu o breve momento de paz que havia se formado entre os dois com lágrimas nos olhos. Charles nunca tinha visto aquele tão frágil e queria poder apagar para sempre essa visão de seu cérebro.
— O que você quer dizer com isso, Carlos?
O detalhe não passou despercebido por Carlos, ele não tinha errado a pronúncia do r. Seu nome pela primeira vez em quatro anos soava normal saindo dos lábios de Leclerc. Charles estava com os olhos vermelhos, as sobrancelhas franzidas e um biquinho nos lábios. O mesmo biquinho que Carlos adorava beijar quando ele tinha suas crises dramáticas
— Quer dizer que eu te amo Charlie e que por isso não posso te prender em relacionamento que nunca vai ir para frente. Nunca poderemos nos abrir e estaremos sempre namorando outras pessoas e você merece muito mais que isso. Muito mais que noites proibidas em quartos de hotéis, que beijos em becos escuros e segredos que nunca poderemos dizer em voz alta. Você não merece isso.
Os olhos de Carlos não pararam nem um segundo de jorrar lágrimas, sua voz estava quebrada e seu inglês estava cheio de erros. O mesmo inglês que Carlos usava quando estava cansado demais para pensar em conjugações verbais. Ele acariciava o rosto de Charles da mesma forma que fez no dia que se beijaram pela primeira vez. Em vez de um começo era um ponto final.
— Você é uma pessoa boa demais para ficar amarrado nisso. Já basta a teia de aranha que você se envolveu com a Ferrari. E ainda sim, eu quero que você saiba que mesmo se as estrelas estivessem caindo e o mundo desmoronando, meu coração ainda pertenceria completamente a você Leclerc.
Charles chorava tanto que os soluços o deixavam incapaz de falar, os instintos falaram mais alto e ignorando todos os perigos ele beijou Carlos ali mesmo. Suas mãos subiram para a nuca de Carlos e juntou seus lábios num beijo cheio de posse e desejo, as línguas batalhavam por espaço na boca um do outro. Um beijo que gritava a posse, que não tinha carinho apenas o desejo em sua forma mais crua e cruel. Dentes se chocavam e as línguas batalhavam por mais e mais espaço até que nenhum dos dois conseguisse respirar mais. Até que suas respirações ficaram ofegantes e suas mentes nubladas pelo desejo de se consumirem.
Eles eram como fogo e gasolina, os dois nunca poderiam coexistir sem que resultasse em uma explosão.
— Nem em outra vida eu poderia amar alguém que não é você.
Naquela noite seus corpos se consumiram sem parar. Uma despedida definitiva de seu relacionamento, mas nunca de seu amor porque esse nem mesmo os deuses poderiam quebrar. Um amor que sobreviveu a tudo que os dois passaram juntos é mais forte que qualquer coisa. Foi a última vez que o lençol de suas camas sentiu suas peles nuas em contato. A última vez que paredes de hotéis ouviram as mais sinceras preces de amor e lealdade. A última vez que seus corpos se colaram por uma noite até que suas almas se fundissem e derretessem seus cérebros.
Naquela noite eles memorizaram seus corpos, seus sons e seus lugares favoritos no corpo um do outro. Porque para isso nunca existiriam registros apenas as memórias no fundo de suas mentes ecoando pela eternidade.
Carlos estava ouvindo os sons mais belos que um ser humano era capaz de pronunciar.
Carlos piscou devagar.
As melodias finais de “Made in Japan” tocavam pela sua sala de estar, encerrando completamente o ciclo de memórias que aquela caixa trouxe à tona.
O ex-piloto deixou a foto de lado e abriu a carta de Charles. O que seus olhos captaram primeiro era a caligrafia desleixada de Charles, como se aquilo tivesse sido escrito às pressas ou de forma tão demorada que Charles estava cansado demais para se importar com sua letra.
Meu querido Carlos,
você não faz ideia da falta que você me faz todos os dias. Quando eu acordo pela manhã e não é o seu corpo descansando ao meu lado, quando vou brincar de qualquer coisa e ninguém entra na minha competitividade como você entrava e quando vou olhar no fundo dos olhos da minha esposa para dizer que a amo e tudo que consigo ver é o seu rosto nela.
Eu te amei tanto. Cada fibra do meu ser era dedicada a te amar e a te venerar e quando você foi embora meu corpo perdeu o sentido, meu corpo já não respondia a mais nada. Eu fui programado para conseguir ser seu Carlos, apenas seu. Hoje, mais de vinte anos depois do dia que você foi embora eu finalmente posso ver que poderíamos ter evitado isso. Só que eu não queria sair da Ferrari por você, nunca quis sair, nem quando foi por mim. No fim eu nunca fui o campeão mundial que eu sempre quis ser pela Ferrari e também nunca tive você ao meu lado para conseguir seguir em frente.
Eu queria ter sido mais corajoso, por você, por nós e até por mim. Fui covarde até mesmo quando você não estava aqui. Meu filho comemorou muito quando você foi campeão mundial, um título que eu nunca te parabenizei direito por conquistar. O pequeno Carlos corria sem parar pela casa quando você ganhou aquela corrida em Singapura. Pois é, eu coloquei o seu nome no meu filho, um nome que eu nunca dei conta de pronunciar direito. Tive coragem o suficiente de pôr o seu nome no meu filho e nunca tive coragem suficiente para ter um filho com você.
Eu queria ter escolhido te amar. Estou te enviando essa caixa porque não quero que você faça o que eu fiz por muitos anos. Ignorar o que foi a parte mais bela e sincera de nossas vidas. Em outras vidas ou universos nós dois ficamos juntos. Tomamos as decisões corretas e somos felizes por completo, não com uma metade falsa que fingimos ser a verdadeira para agradar. Em outro mundo nós dois tivemos filhos com a sua beleza e meu dom para a música. A sua calma para lidar com os momentos difíceis e meu drama para arrancar tudo o que quisessem de nós.
Se eu dissesse para o Charles de vinte anos atrás que nosso amor foi reduzido a vários “e se…” ele certamente surtaria. Por que Carlos perder o título mundial com a Ferrari foi doloroso.
Mas a maior derrota da minha vida foi ter perdido você.
Infelizmente nós nunca poderemos existir nesse mundo. Então toda vez que você quiser lembrar de nós, essa caixa existe para manter a história do nosso amor vivo. Espero que você ainda se lembre da nossa música, aquela que costumava ser a razão do meu viver dia após noite. E digo isso porque tenho medo que você um dia vá esquecer de mim como eu quase esqueci você.
Porque eu passei metade da minha vida tentando te esquecer.
E a outra metade tentando lembrar como era viver sem você.
Por favor não me esqueça, porque nem em outra vida eu poderia amar alguém que não é você.
De seu outrora,
Charlie.
(ps: your boy made in Ferrari)
Carlos não conseguia parar de chorar, porque aquele homem o conhecia tão bem que fez algo para que ele nunca se esquecesse dos dois, mesmo separados Charles cuidou dele. O peito dele doía com a saudade, mas também com o alívio de poder colocar um ponto final nessa história que o perseguia dia e noite.
O tempo foi passando e ele foi se acalmando, os soluços sumiram, as lágrimas secaram em suas bochechas e tudo que lhe restou foi uma amarga saudade de um tempo que não voltaria nunca mais. Então sem pensar duas vezes pegou as chaves do carro para dirigir sem rumo, porque mesmo depois de muitos anos aposentado dirigir ainda era sua forma de terapia.
Quando percebeu tinha dirigido até aquela padaria que por tantos anos ouvira Charles falando com todo o coração. O mesmo lugar que ele conheceu a Alexandra. Carlos gosta de colocar a culpa nela pelo seu relacionamento ter dado errado e a odeia profundamente por ter virado amiga de sua esposa. No fundo ele sabia a verdade. Sabia que os únicos culpados por isso eram Charles e Carlos, sempre eles. E que no fundo elas só eram duas mulheres maravilhosas que foram colocadas no meio desse campo de batalha.
Ele ficou ali apenas encarando a fachada do prédio sem nunca entrar. Porque ele não precisava, esse ponto final já tinha sido colocado. Ele não precisa ir mais atrás de migalhas das memórias com Charles, eles as terá para sempre, talvez uns dias mais e outros menos.
Porque uma parte dele sempre pertencerá ao seu garoto feito na Ferrari.
