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Entre prédios e promessas

Summary:

Oscar Piastri sempre voltava. Essa era a regra não dita de um relacionamento que dividia espaço com o perigo de ser o Homem-Aranha. Mas, após um ferimento crítico que o deixou isolado da cidade que jurou proteger, Oscar se vê preso em uma batalha silenciosa para conseguir voltar.

Lando Norris não sabe disso. Para ele, o silêncio de Oscar é um mistério cruel nascido de uma briga que nem deveria ter acontecido. Enquanto Nova York transforma o desaparecimento em espetáculo, Lando se vê tomado por uma angústia solitária. Ele não procura a verdade por trás da máscara; só quer sentir o toque de quem, mesmo com dor e tantos obstáculos, está fazendo tudo para quebrar o silêncio e chegar em casa.

Notes:

Essa história também foi publicada no wattpad pela conta @lysweet.

Não permito traduções ou adaptações da minha obra sem a minha autorização!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: I'm the one who's gonna be your super hero

Chapter Text

Nova York continua fazendo barulho como todos os dias, carros passando em alta velocidade pelas ruas, pessoas apressadas demais com a vida e ninguém se importando com o que lhes acontece ao seu redor. Bom, exceto Oscar Piastri.

Oscar sempre se importou muito com tudo que acontecia no ambiente em volta dele, seja uma planta machucada, até uma pessoa machucada depois de ter sido assaltada. O problema para uma pessoa assim é que, vivendo em Nova York, visões como essa são corriqueiras e ninguém nunca está fazendo nada para impedir que isso continue a acontecer.

A polícia de Nova York é ineficaz há muitos anos, muito mais uma propaganda da cidade perfeita do que um órgão público voltado para a segurança dos civis. É claro que eles tentam muito. Só que, às vezes, tentar não é o suficiente, é preciso que medidas mais fortes sejam tomadas até que alguma coisa finalmente funcione, ou pelo menos funcione parcialmente.

Oscar sempre esperou que alguém fizesse isso, tomasse medidas mais duras até que os problemas começassem a ser resolvidos. Mas, enquanto ele assistia da janela de casa, os problemas continuavam aumentando e ninguém se levantava de suas cadeiras para resolver nada.

Até que um dia ele teve a solução para os problemas da sua cidade, pelo menos era o que ele pensava.

Num dia ensolarado, com um clima ameno, ele foi fazer uma excursão junto com o colégio, estavam visitando um centro de pesquisas muito famoso, de um homem com dinheiro para comprar o mundo se ele quisesse. A pesquisa que o laboratório estava fazendo era sobre espécies de aranhas e como elas reagiam a diferentes substâncias e radiações.

Apesar de ter passado uma semana inteira ouvindo as reclamações de seu melhor amigo, Lando, sobre eles terem que visitar um centro que estava fazendo pesquisas de aranha, Oscar estava animado. Ele era a verdadeira definição de nerd, até mesmo o estereótipo físico batia. Um rapaz alto e magricela, que usa óculos e é extremamente desengonçado, esse é Oscar Piastri. Poder visitar uma pesquisa dessas e vê-la de perto era quase um sonho para ele.

E estar finalmente ali era ainda mais impressionante, tantas espécies de aranha e tantos resultados diferentes para pequenas alterações de DNA, era um sonho. Como nem tudo são flores, ele precisou achar um jeito de estragar tudo, com seu jeito desengonçado, ele admirava um dos tanques com uma aranha até que ela pulou no vidro, bem em direção ao seu rosto.

Imediatamente, ele deu um passo para trás, assustado com o ataque repentino da aranha, e esbarrou em um outro viveiro que estava logo atrás dele. A tampa de vidro abriu uma pequena fresta, nada muito grande, mas o suficiente para que a aranha do jarro escapasse e o atacasse. Ele foi picado pela aranha e ela logo fugiu para um canto escuro da sala, escalando pela parede e desaparecendo pela escuridão.

Oscar tentou agir como se nada tivesse acontecido para não levar uma bronca dos pesquisadores ou de seus professores, mas a dor em seu pulso era lancinante e, com uma velocidade fora do normal, ela ficou vermelha e inchada. Ele fez o melhor que podia para esconder a ferida pelo resto do passeio, mas sua animação estava morta e seu corpo estava começando a ser afetado pelo veneno da picada.

Lando não levou dois segundos para descobrir o que havia de errado com Oscar e passou o resto da excursão tentando convencê-lo a falar com alguém, porque uma picada dessa poderia ser perigosa, mas, se nenhum efeito tinha aparecido ainda, isso não o mataria, certo? Pelo menos foi isso que Oscar pensou.

Os sintomas não passaram, quando a noite chegou e ele estava aconchegado em sua cama para dormir, cheio de dores pela picada, os barulhos ao seu redor começaram a parecer altos demais, o mundo girou, girou até que ele desmaiasse em sua cama antes de sequer conseguir pensar sobre a picada e sobre seu dia.

E foi isso que trouxe Oscar até o momento presente, o momento em que teias de seda proteica saem de seus pulsos como seu nariz soltando catarro quando ele está gripado e que tudo ao seu redor parece demais para seus sentidos, enquanto Lando o encara boquiaberto, sentado na beirada de sua cama.

— Oscar, você tem certeza que não quer ir pro hospital? Eu acho que nós dois estamos alucinando, você por conta da picada e eu por ouvir você.

Se ele não estivesse tão tonto com o fato de seu corpo estar completamente estranho, ele teria rido de Lando e suas palhaçadas involuntárias, mas tudo para ele, no momento, é borrão.

— Oscar, você está me escutando? Ei, Oscar, estou falando com você! Pelo amor de Deus, você pode, por favor, prestar atenção no que estou tentando te dizer?

Oscar está de costas para Lando, tentando ignorar todas as perguntas que seu amigo o faz, pois ele simplesmente não tem resposta para nenhuma delas. Até que, em algum momento, ele começa a sentir um formigamento na nuca, algo bem leve que, aos poucos, vai aumentando até se tornar insuportável, seu subconsciente o diz para virar para trás, onde Lando está, ele não sabe por que, mas obedece.

Assim que ele se vira, a primeira coisa que seus sentidos conseguem captar é o barulho de algo sendo jogado, a segunda coisa é um borrão azul gigante vindo em sua direção e a terceira é a sensação de sua fronha na ponta de seus dedos.

Quando sua visão volta a estar cem por cento, ele consegue ver melhor o ambiente, seu braço está esticado para frente, perto de seu rosto, segurando seu travesseiro, Lando está na cama, o olhando boquiaberto, e o formigamento em sua nuca passou de repente.

— Como você fez isso?

Lando pergunta, trocando o olhar do rosto para sua mão segurando o travesseiro rapidamente, o olhar assustado de um cervo e a boca aberta o suficiente para um pássaro fazer um ninho dentro dela.

— Fiz o que? — Oscar não tem a menor ideia do que está acontecendo e do porquê Lando parece tão chocado.

— Isso com o travesseiro? Tipo, foi muito, muito rápido.

— Lando, se você não explicar o que aconteceu, eu não vou conseguir adivinhar! — Oscar não faz ideia do que aconteceu, tudo que ele sabe é que pegou um travesseiro e agora seu melhor amigo está olhando para ele como se ele fosse um alien.

— Oscar, você estava virado completamente de costas para mim e, no instante que eu joguei o travesseiro, você ainda estava virado e, então, em milésimos de segundo, você se virou e pegou o travesseiro, mesmo sem saber que eu tinha jogado ele em você. Como você fez isso?

— Oh... eu não sei. Bom, eu estava sentindo um formigamento estranho na nuca e alguma coisa me dizia que eu devia virar para trás e então eu virei e vi esse borrão azul na minha direção e estiquei o braço. Eu não sabia que tinha sido tão rápido.

— Oscar, eu acho que essa aranha te transformou em alguma de... de super humano. Você está com os reflexos apurados, sentiu quando eu ia jogar algo em você e tem teias saindo do seu pulso. Eu não me surpreenderia se você começasse a escalar daqui a pouco.

Isso acendeu uma chama de curiosidade em seu interior, será que ele é capaz de escalar? Ele já tinha feito coisas que seriam fisicamente, biologicamente e visivelmente impossíveis. Contrariou algumas leis da física e da biologia e provavelmente algumas da química também, então não faria nenhum mal testar mais habilidades.

Oscar se concentrou no teto de seu quarto e tentou pular o mais alto que conseguia, quando seus pés saíram do chão, instintivamente, suas mãos tocaram o teto e seus pés também, o colocando meio de cabeça para baixo comparado à posição que ele estava antes.

— QUE PORRA É ESSA?

Se Lando disse que não se surpreenderia, ele claramente havia mentido.

E seu grito também assustou Oscar, o que o fez se desequilibrar e cair do teto para o chão em segundos. O baque que seu corpo fez ao cair no chão certamente incomodou os vizinhos do apartamento debaixo.

— E acho que estou escalando também.

— Você consegue controlar as teias que saem do seu braço ou elas só saem, tipo o suor?

Lando lhe perguntou enquanto tocava seu pulso, o inspecionando, virando-o de um lado para o outro como se procurasse um botão de um brinquedo. Oscar fez uma careta ao perceber a comparação que ele havia feito, não havia nada melhor que suor para ele comparar as teias? Biologicamente, as duas não têm nada em comum, mas ele entendia o que seu amigo tentava lhe dizer.

— Eu não sei, acho que precisamos testar para descobrir.

Oscar levantou o pulso e se concentrou nas teias para tentar fazê-las sair, mas nada aconteceu. Ele tentou de novo, dessa vez fazendo mais esforço para sair algo. De novo, nada aconteceu. Ele tentou chacoalhar o pulso, virá-lo em várias posições, mas nada acontecia.

— Oscar, o que você fez hoje mais cedo quando elas saíram do seu pulso?

A pergunta de Lando o levou de volta para aquela manhã. Ele tinha acordado tonto, com uma dor de cabeça enorme e sem conseguir enxergar nada, não só pela falta dos óculos, mas também pela sua visão estar quase completamente preta. Quando se levantou da cama, seu corpo cambaleou até o banheiro, tentando se apoiar em algo e a cabeça latejando sem parar. Com intenção de tentar controlar um pouco a dor, ele tinha levado o indicador à cabeça e pressionado sua têmpora, no meio do caminho, sem perceber, ele levantou junto o mindinho e colocou força ao pressionar a têmpora, foi aí que a teia saiu de seu pulso.

Ao se lembrar da situação da manhã, ele repetiu os movimentos com os dedos, fechou a mão e levantou apenas o indicador e o mindinho. Se concentrou no seu corpo e focou apenas nas teias, tentou aplicar força no pulso até que sentiu seu sangue correr mais forte naquela região do braço e uma sensação gelada dominou suas veias. Ele foi tirado de seu estado de concentração ao ouvir Lando gritando de novo.

— ECA! Oscar, você precisava mesmo lançar isso no meu moletom da McLaren, é falsificado, mas foi caro, tá bom.

Naquele dia, os dois continuaram a testar as habilidades de Oscar até que o Lando começasse a se aproveitar delas para benefício próprio e Oscar o expulsasse de sua casa com a justificativa de que ele era muito barulhento e estava sendo um aproveitador barato.

A situação que foi o pontapé inicial para a possível solução de alguns problemas do Oscar? Bom, tudo aconteceu numa quarta-feira, depois da aula.

Oscar nunca foi uma pessoa de muitos amigos, as únicas pessoas que ele tinha em sua vida eram seu tio Fernando, seu melhor amigo Lando e seu tio Mark, que morrera há alguns meses. Na escola, sua única companhia sempre foi Lando e isso nunca o incomodou, nem mesmo o bullying que ele sofria de alguns de seus colegas de sala por ser um nerd desengonçado. Lando sempre tentava defendê-lo, mas a situação sempre acabava com ele suspenso e Oscar tendo que aguentar mais ofensas dos outros alunos.

Naquele dia, Lando não voltaria para casa com ele, então ele não precisaria fazer o caminho mais longo para acompanhá-lo até a porta de casa. Oscar estava andando calmamente para casa até que passou ao lado de um beco escuro e a base de sua nuca começou a formigar de novo, seus instintos gritando para que ele voltasse para o beco e desse uma olhada. O formigamento era tão intenso que Oscar não tinha outra alternativa a não ser voltar para lá e dar uma olhada.

Ele caminhou devagar de volta ao lugar escuro e, enquanto ia adentrando aquele beco no Queens, algo lhe dizia que as coisas a partir dali seriam muito diferentes. Quanto mais ia adentrando, mais escuro ficava, mesmo sendo uma tarde agradável em Nova York.

Até que seus ouvidos captaram um gemido de dor, quase como um sussurro em suas orelhas, e depois o som inconfundível de um soco. Seu corpo ia naturalmente de encontro com a origem do barulho, seus pés guiando o resto do corpo. Uma voz bem pequenina o dizia que ele deveria ir embora, que ele era magrelo demais e já apanhara demais no colégio para se meter em uma briga que não era sua.

Mas ele não ouvia essa voz, preferia calá-la e seguir em frente. Aos poucos, os sons da briga foram aumentando e Oscar se sentia alerta o tempo inteiro, os pelos do braço se arrepiando e o formigamento na nuca sendo constante. Quando ele chegou no fim do beco, ele pode finalmente visualizar a briga, dois garotos corpulentos e grandes estavam intimidando um rapaz claramente mais novo que eles, mais baixo e mais magro também. A compaixão que Oscar sentiu pelo garoto foi imediata e ele conseguia se enxergar naquela posição em vários momentos passados de sua vida.

— Ei, vocês dois, por que não brigam com alguém do tamanho de vocês?

Oscar quase se arrependeu de se meter naquela situação, quase, porque, quando viu o olhar do garoto, algo mudou dentro de si. Ele estava sendo visto como um herói, um salvador para o menino. Os dois brutamontes claramente não pensaram o mesmo, apenas trocaram olhares entre si e, sem nenhuma palavra, avançaram para cima de Oscar.

Oscar se sentia despreparado, mas seu corpo parecia saber exatamente o que fazer, assim que os dois rapazes chegaram para atacá-lo, com um reflexo de se invejar, ele desviou dos socos. Com uma velocidade igualmente extraordinária, ele atacou os outros dois garotos. Deu um soco no rosto de um deles e, no outro, se abaixou para desviar do gancho da direita que ia receber e aproveitou para socar a barriga do garoto.

Os dois cambalearam para trás e Oscar não deixou barato, voltou a socar os garotos sem dar tempo para que os dois se recuperassem, alternando entre socos no rosto, alguns chutes na canela e socos na barriga. Os brutamontes não tiveram nem chances de sequer tocar o rosto de Oscar, até que ele se lembrou do garoto que estava ali antes. Ele parou e olhou para o rapaz que estava encolhido no chão, a poucos metros da briga.

Seu olhar era de espanto puro, já não havia mais aquele brilho no olhar de estar sendo salvo por alguém. Esses poucos segundos olhando para o menino foram o suficiente para que seus adversários se recuperassem e começassem a atacá-lo também. Um soco atingiu seu queixo e ele cambaleou para trás, imediatamente seus sentidos voltaram para a briga.

A briga não durou muito depois disso, seus oponentes ainda estavam fracos da briga e um soco não era o suficiente para derrubar Oscar. Depois dos dois rapazes estarem esgotados de brigar, a solução que encontraram foi sair correndo de volta para não apanharem mais.

Oscar sentia sua respiração ofegante e todos os músculos de seu corpo protestavam por um descanso, um filete de sangue escorria por seu nariz e seu queixo doía um pouco do soco que recebera. Só que, naquele momento, nada daquilo importava, ele se virou e caminhou até o rapaz que estava agachado no chão, pronto para oferecer ajuda a ele.

— Sinto muito por você ter visto isso, você precisa de mais alguma ajuda? — Oscar disse, estendendo sua mão para que o menino se levantasse do chão.

O menino o olhou com os olhos arregalados por alguns segundos antes de aceitar a ajuda para se levantar e, ao fazer isso, imediatamente abraçou Oscar, que foi pego de surpresa com o afeto tão repentino.

— Muito obrigado! Eu não sei o que teria acontecido se você não estivesse aqui para me ajudar, muito obrigado mesmo! — o menino disse eufórico enquanto se separava do abraço.

Oscar riu um pouco da situação, afinal, ele nunca se imaginara como um herói para alguém, ainda mais em uma briga. Ele bagunçou os cabelos do rapaz e pegou sua mochila, que estava largada no chão, se virando para ir embora, mas, antes de ir, ele olhou para o garoto e deu um sorriso para ele.

— Toma cuidado por aí, viu.

E então Oscar partiu em direção à rua novamente, com a mente inundada de pensamentos. O olhar do garoto gravado em pedra em sua mente, a gratidão gritante em seus olhos. Oscar estava sendo visto como o herói, um campeão e um salvador pela primeira vez na vida.

Voltar para casa era uma opção completamente inviável para ele no momento, seu tio Fernando lhe daria a bronca de sua vida por estar brigando de novo e pior, por ter entrado voluntariamente na briga. A única pessoa que poderia apoiá-lo nesse momento seria Lando, então Oscar tomou outro caminho. Em vez do habitual caminho ao apartamento do tio, foi em direção à casa de Lando.

A única coisa que conseguia pensar era o olhar do menino, o olhar de pavor quando Oscar foi violento demais, o olhar de gratidão ao receber ajuda. E se Oscar ajudasse mais pessoas? E se ele usasse as habilidades especiais que ele tinha ganhado para fazer o bem como fizera hoje?

Talvez não fosse a solução definitiva para o fim dos crimes em Nova York, mas ele poderia fazer eles diminuírem. Seu tio Fernando nunca o deixaria fazer qualquer coisa sequer parecida com essa, mas ele não precisava saber. Na verdade, ninguém precisava saber quem ele era, ele poderia fazer tudo no anonimato.

Oscar conseguiu finalmente ver uma luz no fim do túnel, ele conseguia visualizar um futuro de uma Nova York menos violenta e, apesar de ser um herói para todos, essa não era a sua principal motivação. Tudo que ele deseja é uma Nova York segura, uma cidade que teria menos chances de seu tio ser assassinado, um lugar mais seguro que talvez ele ainda estivesse vivo.

Mark morrera há meses e Oscar ainda não conseguia parar de pensar em seu tio e em como a presença dele fazia falta no pequeno apartamento que ele compartilhavam. Seu tio tinha saído à noite para ir ao mercado da esquina, seu tio Fernando estava com vontade de comer paella, mas faltava um ingrediente e então o marido foi buscar. Ao chegar lá, Mark descobriu que a vendinha estava sendo assaltada e, assim como Oscar, ele desejava um mundo justo e seguro.

Ele tentou impedir os ladrões e tudo que conseguiu foi um tiro no peito e a vida interrompida. Oscar tentava não pensar muito naquele dia e em como seu tio Fernando nunca mais quis comer uma paella. Talvez, com suas habilidades, ele pudesse fazer um mundo melhor.

Ao chegar na casa de Lando, entrou na casa sem nem bater na porta, sabia que os pais do melhor amigo ainda estariam trabalhando e que, se ele fosse tocar a campainha, ficaria pelo menos uma hora plantado na porta, pois seu amigo não se daria o trabalho de atender a porta.

Se dirigiu para o quarto do amigo e encontrou uma cena adorável, Lando estava estirado na cama, dormindo, seu corpo estava completamente atravessado e sua perna e mão estavam penduradas para fora da cama enquanto ele babava no travesseiro. Era uma das visões mais bonitas de Oscar.

Sempre que ele podia, ele estava observando o amigo. Lando era uma das pessoas mais lindas que ele já havia conhecido, apesar do moreno não reconhecer isso. A pele morena bronzeada, os cachos castanhos, os olhos verdes, a pequena pinta que ele tem perto do nariz, tudo isso fazia Lando ser considerado um anjo aos olhos de Oscar.

Oscar se aproximou da cama dele e começou a chacoalhar o corpo do amigo enquanto o chamava freneticamente.

— Lando, acorda. Lando, Lando, acorda. Eu preciso te contar uma ideia que eu tive.

Lando continuou imóvel em sua cama, nenhum músculo foi movido. Oscar não estava com muita paciência para lidar com o sono pesado de Lando no momento então pegou o copo com água na mesa de cabeceira do amigo e jogou no rosto do adormecido.

—LANDO, ACORDA!

Lando repetiu os movimentos que um gato faria na mesma situação, pulou da cama e se contorceu todinho até cair no chão. Oscar achou a cena hilária, Lando todo molhado, estirado no chão, com os olhos arregalados e a respiração ofegante.

— Oscar, você por algum acaso quer me matar? — Lando olhava para Oscar expressando toda sua incredulidade e indignação enquanto se levantava do chão e pegava uma camiseta nova no armário para vestir.

— Não, de jeito nenhum. Na verdade, eu tenho um plano e preciso do seu apoio para tornar ele real. — De repente, o quarto parecia pequeno demais para Oscar, as paredes iam se juntando até quase esmagá-lo e sua respiração ficou agitada. E se Lando não o apoiasse?

Até hoje não teve nada que ele tivesse feito na vida que Lando não estivesse ali para apoiá-lo, ele não achava que seria capaz de fazer algo dessa magnitude sem o apoio do melhor amigo. Lando é luz no fim do túnel de seus dias mais sombrios, sem ele quem o colocaria para cima depois de um dia ruim? Ele precisava de apoio, especialmente do moreno à sua frente.

— Bom, o que você precisa, do meu charme encantador ou das minhas incríveis habilidades de comer escondido dos outros? — Lando estava no banheiro, trocando sua camiseta molhada por uma seca enquanto fazia Oscar rir de novo num espaço de tempo menor que cinco minutos.

— Bom, eu tive uma ideia voltando para casa hoje. Os meus sentidos me avisaram de novo de um perigo acontecendo perto de mim e acontece que tinha um menino apanhando em um beco e eu tinha que ajudar ele, sabe? Eu não podia deixar ele apanhar. — Foi nesse momento que Lando saiu do banheiro e olhou finalmente para o rosto do Oscar, sua expressão mudou de repente de animação para uma tristeza sem fim.

— Você entrou nessa briga só para apanhar junto, Oscar? Eu já vi você tomar decisões idiotas, mas isso é surpreendente. — Lando voltou para dentro do banheiro e retornou com uma garrafinha de soro, algodão e alguns curativos na mão.

— Lando, não foi bem assim, pela primeira vez eu bati também, ok? Eles apanharam muito mais do que eu, meus sentidos pareciam me avisar que golpes eles iam dar e meus reflexos me faziam desviar antes mesmo que eles pensassem em me tocar, eu só levei uns dois golpes numa hora que eu me distraí.

O olhar de Lando sob ele era cético, sem acreditar em uma das palavras que Oscar lhe dizia.

— Hum, sei.

— É sério, Lando, mas não é sobre isso que eu queria falar. Hoje eu ajudei um menino a escapar de uns valentões e se eu fizer mais do que isso? — Oscar praticamente não sentia o algodão que Lando passava delicadamente por seu rosto para tirar o sangue e a sujeira que se acumulou.

— O que você quer dizer com isso? — Lando parou tudo que estava fazendo e encarou Oscar no fundo dos olhos, seu olhar era sério e não parecia nada com o Lando que Oscar estava acostumado.

— E se eu fizer mais que ajudar um garoto sofrendo bullying? Eu posso impedir assaltos, ajudar pessoas e impedir mais morte e violência em Nova York, Lando. — A esperança na voz do loiro era palpável, tanta esperança era colocada naquelas palavras, quase como uma oração saindo do fundo de sua alma pedindo misericórdia a todos aqueles que não mereciam.

— Oscar, isso é responsabilidade demais para um garoto de dezessete anos e, outra, não é você que deveria estar fazendo isso, deixe isso para a polícia, você pode se machucar. — Lando claramente não estava muito de acordo com a ideia do Oscar, mas Oscar ainda podia ver um fundo de esperança na voz do amigo.

— Tio Mark sempre me dizia que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, Lando. Eu tenho os grandes poderes agora para impedir que mais pessoas tenham mortes como a dele. Eu tenho a chance nas minhas mãos de fazer daqui um lugar um pouco melhor. — Oscar não gostava de falar da morte de seu tio, mas isso não saía da cabeça dele. Sua voz era cheia de dor e esperança e ele não tinha coragem de olhar Lando nos olhos, então olhava para todos os lugares no quarto menos para ele.

— Como você faria para não ser reconhecido? Seu tio Fernando não aprovaria nem um pouquinho essa ideia. — A voz de Lando se suavizou e ele passou a pentear com os dedos a franja de Oscar, que já caía pelo olho de tão grande.

— Bom, é aqui que o seu cérebro genial entra. — Oscar abriu o seu melhor sorriso e fez seu melhor olhar de gatinho pidão, Lando apenas bufou e voltou a fazer o curativo no nariz de Oscar.

E assim nasceu o Homem-Aranha.

Naquele dia, os dois sentaram e discutiram todas as estratégias para fazer isso funcionar. Primeiro, sentaram e decidiram um traje para que o Oscar pudesse se disfarçar. Decidiram homenagear a aranha que picou o Oscar e lhe deu os poderes malucos e as habilidades de aranha. Lando pegou algumas roupas de cama velhas que tinha em sua casa para costurar um traje, apesar de tentarem fazer uma roupa discreta, os únicos tecidos disponíveis eram um azul e um vermelho.

Depois do desenho do traje ficar pronto, eles partiram para o próximo ponto da lista, como descobrir que alguém precisa de ajuda? A estratégia que os dois montaram foi fazer rondas. De noite, o Oscar vestiria o traje e colocaria uma roupa normal por cima e então sairia pelo bairro até que achasse alguém precisando de ajuda, se ele achasse alguém, iria tirar a roupa num lugar escondido, colocar a máscara e ajudar a vizinhança.

E o ponto mais importante da lista, o tio Fernando. A mentira era a melhor opção que os dois tinham no momento. Inventar trabalhos de escola, compromissos e até dizer que ele ia dormir na casa do Lando por diversão. Qualquer coisa que passasse despercebido dos sentidos aguçados do espanhol.

Na teoria funcionava e, na prática, funcionou também. As primeiras rondas de Oscar foram um sucesso, seu tio não desconfiava de nada, todas as vítimas saíram seguras e ele também não se machucou muito. O verdadeiro problema veio depois, alguns o viam como um herói, já outros o viam como um justiceiro.

Alguém tentando fazer justiça com as próprias mãos de forma indevida, o viam como uma aberração. Por que um homem teria poderes de aranha? Por que não deixar os crimes com a polícia?

Mas a pergunta principal não era nem uma dessas, havia uma específica que estava na capa de todos os jornais.

Quem é o Homem-Aranha?

Oscar evitava encontrar com jornalistas enquanto estava ajudando a população, isso não era o suficiente para impedir que a mídia começasse a fazer uma pressão absurda para que ele se revelasse. Afinal, se ele não estava fazendo nada de errado, não tinha o porquê de não se revelar.

Palavras cruéis e maldosas eram dirigidas a ele, pela população, pelos jornais, pela polícia e até mesmo pelo prefeito da cidade. Nada daquilo importava para Oscar, contanto que a cidade fosse ficando mais segura, ele não se importaria de ser odiado.

E, aos poucos, a situação foi ficando mais crítica para Oscar, os criminosos que ele enfrentava passaram a ser mais difíceis de combater. Assaltos a banco, esquemas de quadrilha e a polícia. Não importava qual crime Oscar fosse combater, a polícia estaria ali, não para combater o crime junto, mas para combater ele.

Oscar era uma praga tentando ser exterminada.

Missões mais difíceis o deixavam mais cansado e mais ferido. Hematomas, cortes e até fraturas viraram uma parte do cotidiano de ser um herói. Esconder isso de seu tio era uma missão quase impossível, mas as habilidades de maquiagem do Lando se provaram mais úteis do que quando era para se fazer cosplay.

Lando começou a desaprovar sua ideia de herói, de acordo com o moreno, aquilo estava se tornando perigoso demais para um adolescente e que, se um dia a polícia o pegasse, nada o faria escapar da prisão. A população criticava o Homem-Aranha, justificando que ele era um justiceiro e seu tio Fernando não ficou para trás nas críticas.

— Esses vigilantes são um perigo, Oscar, eles só pioram as coisas.

Isso destruiu Oscar por dentro, Oscar estava fazendo tudo aquilo por sua família, para que eles tivessem um mundo seguro e, sem saber que Oscar fazia tudo aquilo, ele desaprova o que ele se tornara.

"Entenda quem é o Homem-Aranha: um herói? Um charlatão?"

"Ele é o novo rapaz simpático do bairro?"

"Quem é o Homem-Aranha?"

As perguntas não paravam de surgir e a pressão também não.

Oscar continuava dizendo a si mesmo que não se importava.

Tudo deu errado numa quarta-feira.

Oscar estava na casa de Lando mais uma vez para tentar cobrir seus ferimentos e voltar para casa, já era noite e seu corpo estava exausto depois de lutar na noite anterior, não dormir nada e depois ir para a escola. Lando o encarava com aquele olhar de desaprovação que Oscar já estava quase acostumado.

A atmosfera no quarto estava pesada e tudo que se podia escutar era a respiração ofegante de Oscar enquanto ele tentava, sem sucesso, limpar um ferimento, o cheiro de sangue parecia impregnar as paredes do quarto. Lando segurava o kit de primeiros socorros e tremia. Não de medo, mas de raiva.

— Oscar, você tá se destruindo, cara, pedaço por pedaço. Você sabe que seus poderes não te deixaram imortal, né? — a voz de Lando começou delicada, mas com uma camada de fúria por baixo de todo o cuidado colocado ali.

— Eu não faço isso por diversão, Lando! — Oscar tentou se levantar, mas a dor em sua costela o fez vacilar e o rosto se contorcer — Eu estou tentando fazer o que ninguém faz. Se eu parar, quem vai garantir que outra pessoa não sofra o que o tio Mark sofreu?

— Você está morrendo por um fantasma! — a paciência de Lando se esgotou e toda sua raiva e dor de ver seu melhor amigo ferido começaram a transparecer, seu maxilar estava travado e lágrimas de frustração escorriam por sua bochecha.

— O que vai acontecer com o seu tio quando ele descobrir que o sobrinho dele é um justiceiro que está se matando por uma ideia passageira? O que vai acontecer comigo quando eu receber uma ligação dizendo que encontraram seu corpo morto num beco? Você acha que está pensando nos outros, mas só está pensando em você. Quer ser um herói e se esquece que você também sangra!

A voz de Lando aumentara muitos decibéis enquanto falava, mais lágrimas escorriam pelo rosto e ele apontava com o dedo para Oscar, como se apontasse para a bagunça que um cachorro fez enquanto brincava.

Oscar não tinha palavras para responder, as falas de Lando doeram mais do que qualquer soco que ele já tinha levado. Ignorando a dor que irradiava de seu corpo, ele pegou seu casaco na cama de Lando e caminhou até a porta do quarto.

Oscar passou pela porta sem olhar para trás. O silêncio que ficou junto do quarto do Lando era mais ensurdecedor do que qualquer grito. Ele descia as escadas carregando o peso do mundo junto com a dor em suas costelas. Tudo que ele queria fazer era chegar em casa e se esconder debaixo de suas cobertas, ignorando todos os problemas do mundo.

Ao chegar na rua, o ar frio da noite de Nova York atingiu seu rosto, mas ainda incapaz de apaziguar o calor da discussão em seu ser. Ele não chegou a andar três quadras.

O formigamento em sua nuca, seu maldito aviso, não veio aos poucos como ele estava acostumado. Um choque elétrico percorreu seu corpo partindo da nuca, seu corpo parou bruscamente, se tensionando por completo.

Um SUV preto, fosco, sem placas, subiu a calçada em alta velocidade, bloqueando sua passagem. Antes que ele pudesse raciocinar, portas foram abertas e quatro homens vestidos com táticas militares, máscaras e coletes táticos saltaram, cercando-o em uma formação impecável.

No centro deles estava um homem um pouco mais velho, com um olhar calculista e a postura de alguém que caça por prazer.

— Oscar Piastri — a voz do homem era desprovida de qualquer emoção. — O Homem-Aranha.

Oscar sentiu seu sangue gelar. Eles sabiam.

— Muito prazer em te conhecer, eu sou Victor. Você não precisa ter medo, nós só viemos buscar nosso experimento com aranhas que, por algum motivo, está no seu corpo.

Oscar tentou pular para o topo de um prédio e fugir, mas um disparo sônico — um zumbido de alta frequência — atingiu o ar ao seu redor. O barulho foi tão agudo que Oscar caiu de joelhos, levando as mãos aos ouvidos, a visão girando. O seu Sentido Aranha foi forçado a um colapso pela frequência sonora.

Ele percebeu, com horror, que aquelas pessoas não queriam conversar. Elas queriam capturá-lo como se fosse um espécime.

Ele olhou ao redor. A rua estava vazia, mas o barulho da briga chamaria atenção em poucos segundos. O tio Fernando morava a poucas quadras dali. Ele não podia deixar essa luta chegar perto de casa.

Para fora, pensou ele. Tenho que tirar eles de Nova York.

Oscar forçou os músculos exaustos a reagir. Com um movimento rápido, ele acertou o para-brisa do SUV com um chute potente, abriu caminho e lançou uma teia no poste mais próximo. Em seguida, caiu no asfalto e disparou em direção à saída da cidade.

O motor do SUV rugiu, acelerando atrás dele. A caçada tinha começado.

Oscar sabia que estava em desvantagem, tanto numérica quanto tecnológica, e sabia que, se tentasse se balançar pelos prédios com suas teias como ele costuma fazer, ele seria pego rapidamente. As pernas de Oscar começaram a se mover instintivamente, ele corria para viver.

O vento bagunçava seus cabelos e seus pulmões imploravam por misericórdia, mas as pernas de Oscar não cediam. O SUV vinha atrás dele com uma velocidade implacável, ao cruzar a ponte George Washington, o céu começava a aparecer em sua forma mais sincera, sem a poluição visual dos postes amarelos. Mas, de certa forma, Oscar sentia falta do céu meio amarelado, isso significava que ele estava em casa.

Atrás dele, o SUV tentava atacá-lo com uma velocidade inacreditável. Oscar começava a sentir o corpo desistindo, mas seu corpo ceder significava ceder sua liberdade. O céu já não tinha mais postes para ser iluminado e a rodovia estava vazia, a não ser por Oscar e pelo carro o perseguindo.

Oscar tentava olhar ao seu redor e pensar em alguma estratégia para escapar da situação, mas nada no ambiente era favorável às suas habilidades. Suas teias ali seriam inúteis para escapar, seu corpo está exausto de correr e não aguentaria uma briga física e seus sentidos estão completamente desnorteados.

Oscar estava morto. Pelo menos morreria com uma bela visão das Montanhas Catskill, banhadas pela luz das estrelas. Sua velocidade começou a baixar e sua respiração arfante o fazia quase desmaiar na pista.

Quando ele sentiu mais um jato supersônico atrás dele.

Suas pernas imediatamente falharam e seu corpo foi lançado para frente com uma velocidade brutal, despencando pelo desfiladeiro abaixo. Sua visão estava completamente turva e sua mente na beira da consciência, ele conseguia sentir o impacto de seu corpo batendo contra o tronco das árvores, nas rochas no meio do caminho.

O formigamento em sua nuca era incessante, seu ouvido zumbia sem parar e, mesmo assim, tudo que conseguia pensar era que ele tinha deixado Lando para trás. Os dois haviam brigado e agora o corpo de Oscar estava rolando de uma altura de uns 15 metros enquanto seu corpo era destruído.

Ao avistar as Montanhas Catskill, Oscar pode finalmente perceber o quão longe estava de casa, ele nunca seria encontrado ali, provavelmente morreria comido por um urso no meio da noite.

Seu corpo parou de repente à beira de um riacho. Sua respiração lhe escapava do peito, suas costelas latejavam ainda mais do que antes, suas pernas exaustas depois de correr dezenas de quilômetros, seus ouvidos zumbindo ainda eram capazes de captar o barulho da água corrente e o canto dos grilos. Aos poucos sua consciência foi apagando e a última coisa que Oscar viu antes de apagar foi o olhar de dor do Lando antes de sair de casa.