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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-08-28
Updated:
2026-09-25
Words:
83,189
Chapters:
15/?
Comments:
46
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45
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1,010

Geada boreal

Chapter 14

Notes:

Olha, essa é a minha conversa entre Jack e Soluço favorita. Não pelo que é dito, mas porque a gente tá na cabeça maluca do Jack, e ele é maravilhoso por dentro, sem saber o que tá acontecendo.

OLHEM AS TAGS!!!! ELAS SÃO FREQUENTEMENTE ATUALIZADAS!

Chapter Text

"...então foi por que os dragões ficaram acuados?" Soluço repetiu o que a mãe explicava no salão. "Mas por que essas pessoas em específico para cuidar deles?"

"Porque Gotti e Bocão são especialistas nesse tipo de cuidado." Valka explicou com paciência.

"Me referia aos gêmeos." Seu tom era mais seco; Jack o beliscou na cintura por baixo da mesa.

"Porque somos especialistas em dragões!" Cabeça-Dura argumentou, do outro lado de Jack, um braço sobre os ombros dele. "Todo dragão nos ama."

"Muito debatível." Soluço fez uma careta e voltou a olhar para a mãe, depois de um segundo a mais encarando aquele braço. "Não vejo sentido."

"Eu pedi por eles. Eles entram no caos e não fazem perguntas." declarou Jack, e Soluço cruzou os braços no peito, imitado por todos os outros cavaleiros. "Sem ofensa."

"Ah, nós estamos muito ofendidos, sim." Astrid fazia uma careta magoada; Jack se encolheu, esfregando o braço que ela havia socado quando o viu mais cedo. Uma represália pela revolta da arena. "Somos todos amigos, que preferência é essa?"

"Não foi preferência, no meio do caos só… só consegui pensar neles." Jack encolheu os ombros. "Eles foram de grande ajuda. Não hesitaram em fazer o que precisavam. Não sei se… vocês iam fazer."

Soluço abriu a boca para argumentar, mas se lembrou dos baldes de sangue e restos de dragão que haviam tirado daquela arena. Algo tão grotesco que ele só podia imaginar o tipo de coisa que Bocão e Gotti mandaram os gêmeos fazerem enquanto Jack e sua mãe acalmavam os dragões para não se tornarem agressivos.

Provavelmente ele não aguentaria ter de fazer o que eles fizeram. Nem o Perna-de-Peixe ou o Melequento. Talvez a Astrid, sim, mas ela era mais do tipo de fazer em humanos e menos em animais. Os gêmeos não tinham aquele filtro. Eles receberiam um martelo ou faca e iam fazer sem hesitar o que foi mandado, se achassem que valia a pena.

E, pelo apego que tinham a Jack, poderia ser até cortar patas fora e quebrar ossos pelo bem maior.

Soluço esfregou o rosto.

Havia uma lógica. Um sentido.

Aos poucos, a maioria começou a aceitar aquilo e entender. Dos cenários, aquele era o mais prático e menos danoso. Para Berk e para os dragões.

"Da próxima," começou Estoico, segurando a mão de Valka, "nos explique antes o que estão planejando. Não apenas se tranquem e nos deixem imaginando coisas."

"Ah." Jack soltou baixinho, apontando o queixo, e Soluço o olhou pelo canto do olho. "Aí está. Onde vocês são iguais."

Olhou para o pai sorrindo com tanta devoção e amor para a mãe que ele poderia ficar tonto apenas de ver de longe. Seu rosto esquentou. Jack riu baixo, inclinando a cabeça para a mão caída de Cabeça-Dura em seu ombro.

"A cara de cachorrinho também."

"Cala a boca, elfo." soltou, apoiando o cotovelo na mesa e o rosto no punho, virando para o outro lado. Jack apenas riu, se virando para trás e começando a conversar com os gêmeos.

Por alguma razão, Soluço esperava que a conversa continuasse. Alguma provocação ou… aproximação? Mas Jack parecia alheio àquilo, fechado novamente no canto caótico da mesa com a dupla Thorston.

Seu primeiro instinto era desviar daquilo. Se afastar um pouco do incômodo e focar em outra coisa ou pessoa. Mas ele não queria viver em looping com o Jack sempre que se incomodava, então esticou a mão e a colocou sobre o joelho dele, apertando levemente ao ouvir o que o Perna-de-Peixe falava sobre ter pensado que a intenção da Valka era uma de suas teorias desde o começo, mas que, com os ânimos exaltados, mesmo certo, não faria diferença alguma.

No fim, tudo acabou dando certo.

"Melequento, a obra da minha casa é totalmente sua de novo." disse Jack, se movendo, o joelho batendo no dele. "Soluço está oficialmente expulso."

"Demorou, hein." Melequento cruzou os braços no peito, sorrindo com presunção. "É apenas reconhecimento, Soluço. Nada mais."

"Em alguma coisa você tinha que ser— ai!" chiou, massageando o lado quando Astrid bateu nas suas costelas com o cotovelo. "Qual é?"

Ela nem o olhou. Melequento parecia mais arrogante. Soluço odiou.

"Jack, entrego sua casa depois de amanhã, pela manhã." Melequento sorriu, cheio de si, e Jack sorriu tão aliviado que Soluço se sentiu um pouco culpado por talvez ter atrapalhado a construção.

Seus dedos apertaram levemente e Jack o olhou; pareceu adivinhar o que estava pensando, porque revirou os olhos, se virando e apoiando as costas ao seu lado, como geralmente fazia com o Cabeça-Dura.

"Se vai ficar pronta, então precisamos de hidromel para batizar." Cabeça-Quente sorriu do outro lado do irmão. "Vamos achar o melhor tipo para isso!"

"Os móveis já estão prontos também." Perna-de-Peixe se animou. "Fiz com entalhes de dragões e recentemente o Bocão decidiu fazer uma graça de desenhar flocos de neve e coisas do tipo também."

"Imagino o motivo." Jack riu, revirando os olhos. Os gêmeos começaram a gargalhar; Cabeça-Dura se apoiou em Jack, como Jack se apoiava em Soluço, chutando a irmã para fora do banco e recebendo socos.

"Eu não disse antes, mas eu estou fazendo mantas e organizando peles." Astrid pareceu levemente constrangida. "Mas acho que vai ser útil?"

"Se cozinhar para mim, está perdoada." Jack sorriu. Astrid revirou os olhos, mas relaxou os ombros. "Estou falando sério, eu vou te prender na minha casa."

"Tente a sorte, fada." Astrid se inclinou contra as costas de Soluço, batendo o dedo no nariz de Jack pelo desafio; Jack sorriu ladino para ela.

Soluço se sentiu em meio a um conflito muito intenso e temeu por estar no meio daqueles dois.

Cabeça-Dura se desencostou de Jack quando a irmã puxou seu cabelo, e Soluço bufou para os empurrões que aquilo estava dando neles.

E então Jack os chutou sem misericórdia para o chão, deixando que se escalpelassem, sem se afastar, apenas bebendo de seu copo e os olhando com diversão maldosa.

Talvez, lá no fundo, Soluço entendesse um pouco os dragões em seu orgulho quando Jack escolhia um para brincar ou voar. Era realmente algo especial. Por um momento, pensou em erguer o braço e o circular, mas parou antes, percebendo que seria demais.

"Ah!" Jack se afastou, se sentando direito e acabando com todos os seus sonhos. "Melequento, a Lua já consegue me carregar. Quer apostar uma corrida depois?"

"Sério?" Melequento se ergueu imediatamente, batendo as mãos na mesa. "Finalmente! Vamos agora. Eu chuto sua bunda e aí vou construir sua casa." declarou, saindo da mesa. Jack se ergueu às pressas e, ao se encontrarem na ponta, começaram já a competir para ver quem chegava mais rápido do lado de fora.

Soluço sentiu o frio que o corpo de Jack deixou, antes do gosto amargo por Melequento ser o primeiro em quem ele pensava para ir correr, e não ele. Pelo amor de Thor, eles têm a mesma espécie de dragão!

"Alguém mais se sente injustiçado?" Cabeça-Quente bufou ao apoiar o queixo na mão. "Eu quero correr também."

"Eu sei que o Jack vai ganhar e ele só quer chutar a bunda do Melequento." Astrid rasgou seu pão com um sorriso cruel. "Acho que vai ser divertido assistir. Não sei por que o Melequento acha que vai ganhar de um Fúria."

Perna-de-Peixe riu. "O Jack também tem uma ótima comunicação com dragões, tempo de montaria não vai ajudar."

"Acho que o único aqui que ele não venceria é o Soluço." Astrid sorriu com provocação, e Soluço fez uma careta. "Então você não vai correr com ele tão cedo, campeão."

"Isso sim é injusto." reclamou, mas Astrid apenas riu da cara dele.


Assistir aos outros correndo nunca tinha tanta graça quanto correr junto. Pelo menos era isso que Soluço pensou pelos últimos cinco anos, mas agora estava mudando de ideia.

Na estrutura do que um dia seria a casa de Jack, eles viram Jack e Melequento em seus dragões na outra colina para a largada. Claramente havia uma provocação ali; Jack se movia muito sobre a Lua do jeito que fazia sempre que estava tentando irritar muito alguém.

"Se o Melequento não surtar antes de saltar, talvez ele até ganhe." considerou Cabeça-Dura. "Tipo, a Lua ainda tá fraca. Ela não vai manter a velocidade como o Banguela."

"Talvez ele dê a ela a bênção do inverno e ela fique boa só para correr." considerou Cabeça-Quente.

"É uma Fúria. Ela vai vencer. Nem que durma o resto do dia. O nível de orgulho deles é enorme." Astrid lançou um olhar para Soluço. "Tende a ser também o do cavaleiro."

"Sinto que estou sendo atacado, mas eu vou ignorar." sorriu, se inclinando para ela, apoiando os ombros e parte do peso. Astrid riu de volta, dando uma cotovelada leve nele na cintura. "Eu aposto no Jack."

"Ninguém esperava outra coisa." disseram juntos, e Soluço bufou.

"Então vamos fazer o placar." Cabeça-Dura ergueu a mão. "Perna-de-Peixe e Soluço, me deem papel e grafite."

"Te ofereço carvão. Você não vai desperdiçar grafite com isso." bufou, tirando o carvão do bolso, e Perna-de-Peixe entregou uma folha.

Cabeça-Dura se sentou em uma pedra e começou a anotar. Três para Jack, dois para Melequento.

"Sério?" Astrid encarou Cabeça-Quente.

"Eu quero que o Jack perca. Vai ser engraçado." sorriu ela como um gremlin.

Se desvencilhando de Astrid, Soluço mexeu em suas roupas de novo e tirou um bloco de folhas e o lápis.

"O que está fazendo?" Astrid olhou por sobre o ombro dele.

"É a primeira corrida dele. Vamos eternizar."

Sorrisos carinhosos se abriram em todos. Banguela se aproximou para oferecer o lombo de apoio, e Soluço se sentou na neve para assistir e capturar a cena com a melhor precisão possível. Teria só um segundo para decorar e esboçar algo.

"Eles largaram." Perna-de-Peixe riu. "Nossa!"

Soluço podia entender. Dente-de-Anzol não tinha nem chance.

Jack e a Lua dispararam como uma flecha para a frente, tão rápido que Soluço mal os viu passar em sua frente. Um vulto branco e azul no meio das nuvens da manhã e do céu. Quase completamente camuflados.

Os cavaleiros comemoraram, surpresos e em incentivo. Lua cuspiu plasma e atravessou, acelerando mais ao usar o ar da explosão de impulso como o Banguela fazia.

Soluço se sentiu sorrir; Banguela murmurou de aprovação, a língua para fora e balançando a cauda. Sua mão começou a se mover no papel rapidamente para pegar aquele momento com precisão.

Quando Melequento finalmente chegou no outro pico, Jack já estava fingindo um cochilo para o provocar. Os gritos foram ouvidos mesmo a metros de distância.

"Ficou ótimo." Astrid aprovou, se sentando ao lado dele.

"Quando eu finalizar vai ser." declarou, erguendo o nariz, e ela sorriu.

"Bom te ver assim, Soluço." disse mais baixo, se apoiando ao lado dele. "Parece mais leve."

"Sério?" A olhou, surpreso, e Astrid acariciou o Banguela.

"Fazia muito tempo que você não desenhava." Astrid apertou os lábios. "Muito tempo que não fazia alguma coisa que não fosse trabalhar."

Soluço a olhou pelo canto do olho e se recostou nela também, apoiando a cabeça.

"Sempre estive ocupado?" questionou, lembrando de Jack falar aquilo alguns dias atrás. O motivo de ele não ter se permitido aproximar tanto e o evitar com medo de ser um estorvo. "Acho que eu hiperfoquei no trabalho."

"Talvez." Astrid piscou lentamente. "Mas é um alívio ver que você saiu dessa."

Bufando, riu um pouco e deixou que Astrid segurasse sua mão, entrelaçando os dedos.

Seus amigos ao redor ainda falavam da corrida, de forma muito óbvia os ignorando e desviando a atenção. Revirou os olhos e preferiu assumir que era melhor assim. Não tinha de pensar demais sobre as coisas se todos tinham um acordo de que não falariam sobre isso.

Porque ele e Astrid eram um caso complicado. O romance não havia dado certo ou nunca se encaixou direito, mas nenhum deles queria realmente mudar as coisas. Pelo menos as principais. Beijos e aproximação sexual ficaram cada vez mais difíceis de acontecer e, antes mesmo do fim definitivo, já não existiam. Mas ainda não era fácil simplesmente não serem próximos e fingir que não tinham alguma intimidade.

Soluço viu Jack e Melequento voltando com os dragões e se sentiu um pouco agitado, mas não entendia. Parecia medo, mas do tipo que sentia quando sabia que seu pai o repreenderia. Mas ele não havia feito nada de errado para isso.

Jack e Lua pousaram na beira. Banguela mal deu tempo a Soluço antes de ir até a Fúria da Luz e seu cavaleiro; o desenho teria voado se Astrid não o pegasse com a mão livre, rindo.

"Vocês foram incríveis!" Perna-de-Peixe elogiou, acariciando Lua na cabeça na emoção e, para a surpresa de Soluço, ela sequer reagiu, apenas ergueu o focinho de forma arrogante.

"A Lua foi incrível. Eu só estava lá em cima." Jack riu, olhando rapidamente para Soluço antes de se virar de novo para os gêmeos. "Os próximos a comer nuvem vão ser vocês. Mas outro dia. Não vou exigir muito dela ainda."

Lua protestou com um grunhido, e Jack sorriu para ela.

"Você deu sorte que eu peguei leve. Como era sua primeira corrida, eu deixei vencer." Melequento argumentou, e Jack revirou os olhos.

"Porque você é adorável." disse, se virando, e Melequento ficou vermelho.

"Eu não sou adorável coisa nenhuma! Eu apenas sou um cavalheiro! Um homem de verdade!" argumentou, e Jack ergueu uma sobrancelha, o sorriso maldoso brincando em seus lábios quando ele simplesmente abraçou Melequento pelo pescoço.

"Com certeza! Não sei como você não é o mais popular da vila." Jack o beijou estalado no rosto, e Melequento gritou tentando escapar, ficando atrás de Jack com o rosto furioso e vermelho enquanto todos riam dele.

Soluço riu junto. Mas não se sentia nada feliz e não achou nem um pouco engraçado. Jack deixou Melequento o pegar, e aquilo pareceu quebrar seu primo, que apenas segurou Jack pelos braços com as sobrancelhas franzidas, sem saber o que fazer.

"Que idiota." Astrid bufou.

"Os dois." murmurou, se sentindo mais azedo, mas apenas engoliu. "Quando vamos correr, Jack?" questionou alto, e Jack o olhou.

"De preferência, nunca." sorriu, e Soluço franziu as sobrancelhas quando todos riram. "Melequento, e a minha casa?" questionou, piscando os olhos de forma exagerada, e Melequento o largou, bufando e batendo o pé ao ir em direção às madeiras. "Realmente, um homem de verdade."

"Cala a boca!" mandou ele, sem os olhar.

Soluço assistiu aos gêmeos se juntarem a Jack na provocação a Melequento, e Perna-de-Peixe aproveitando a boa vontade da Lua para a estudar de perto.

"Gosto de como as coisas são agora." Astrid sorriu, vendo os amigos brincarem. "É, mais ou menos. Essa coisa do Jack e do Melequento é nojenta."

"Hm." murmurou.

Mas sabia que concordava com a segunda parte com mais força do que estava disposto a admitir.

Astrid se soltou dele e se levantou.

"Vai correr comigo, elfo?" provocou, com as mãos na cintura. Jack desviou a atenção dos gêmeos no ato, piscou parecendo calcular e sorriu ladino, erguendo o queixo.

"Você nem tem coragem de vir me desafiar cara a cara, Grude." declarou, e Astrid começou a correr até ele, que pulou pelos gêmeos, correndo para longe e gargalhando.

Soluço sentiu um gosto esquisito na boca ao ver ele correr de costas, deixar Astrid segurar seus dedos e depois acelerar apenas para a provocar.

Era algo agridoce. Não sabia exatamente o que pensar ou como medir aquilo.

Astrid previu o caminho que ele faria e se virou no instante certo, se jogando nele e caindo os dois no chão em uma bagunça de pernas e mãos, até Jack implorar aos gritos por piedade.

Soluço preferiu olhar para o desenho que segurava.

Por que ele tinha uma resposta atrevida e distante quando até a Astrid poderia brincar?

Definitivamente não era justo.


Para a felicidade de Jack, todos os dragões se recuperando na arena acordaram do congelamento naquela tarde bem o bastante para serem retirados para outro lugar.

Não que Berk tivesse muito espaço, mas todos entendiam que não era plausível deixar quase vinte dragões em um espaço tão apertado. Foi uma ação conjunta de deixar quem conseguia se mover ir sozinho e quem não conseguia ser carregado, mas, ao pôr do sol, todos estavam na Enseada dos Idiotas — como Astrid gentilmente apresentou para ele da última vez. Ali era seguro, tinha comida e água, e eles poderiam partir assim que se sentissem bem o bastante para tal. No pior dos casos, uma equipe iria verificar diariamente as questões de alimentação e checar os ferimentos.

Era um bom plano. Valka estava encabeçando aquilo e distribuía funções como se fosse normal para ela liderar. Jack foi lembrado mais uma vez, na única semana em que a conheceu, de que ela era, no final do dia, realmente a líder da vila junto a Estoico. Vinte anos não tiraram dela aquela autoridade, apenas lhe deram mais robustez.

"Você vai ajudar?" questionou ela, sentada no galho de uma árvore, uma perna flexionada com o braço apoiado enquanto a outra estava pendurada. Seu olhar era carinhoso, mas vigilante para os dragões fazendo o reconhecimento do novo espaço.

"Claro. Posso vir toda noite. Eu não preciso dormir." declarou Jack, de pé no mesmo espaço, com os braços cruzados no peito enquanto segurava o cajado e as costas encostadas no tronco. "Se depender de mim, eles serão cuidados."

"Guardião da humanidade e dos dragões?" Valka sorriu, terna.

"Acho que algo assim. Ainda tenho que discutir com os outros o quanto posso interferir de fato." Jack sorriu ao ver a Lua lá embaixo, passando por cada dragão e os acalmando, explicando a situação. Como ela era a única que eles conheciam, era muito mais fácil que fizesse a mediação. "Eu ainda sou um novato, sabe?"

"Para um novato, você se saiu muito bem." A mulher seguiu seu olhar. "Sua Fúria é linda e forte. Posso ver o vínculo que vocês têm, e não é apenas por você ser uma entidade."

"Eu meio que percebi isso quando ela tenta lamber meu cabelo e me colocar no ninho igual à Tempestade." riu, e Valka gargalhou, tranquila, segura e melodiosa. Um contraste com a gargalhada estrondosa do marido. "Os dragões são muito inteligentes. Eles podem se organizar em bandos como lobos e cuidar dos seus. Acho que aqui pode acontecer."

"E a Lua seria a líder?" Valka olhou para baixo, curiosa.

Jack desdenhou, rindo.

"Não. Acho que ela já faz parte de outro bando. Só é… muito teimosa para admitir." Valka o olhou com curiosidade, e Jack suspirou. "Sei que quer perguntar algo, Valka. Pode falar."

"Parece tão óbvio?"

"Não. Mas o Soluço me disse que havia perguntas, que o conselho queria saber sobre a Lua e os caçadores de dragões. Ele não quis me confrontar. O idiota acha que vai me proteger não falando sobre o que está acontecendo."

"Ele se importa com você." Valka suspirou. "Mas você quer se envolver de verdade nisso? É nossa luta, Jack. De Berk e de parte do arquipélago. Não sua. Não dos Guardiões."

"Vai dizer que o que eu faço é mais importante?"

"É um cargo bem grande." Valka balançou a cabeça. "Sobre o que foi questionado, já temos teorias sobre esses dragões, mas precisamos confirmar com você sobre a Lua. Ela foi caçada na ilha onde a encontraram ou foi levada para lá?"

"Levada." Jack apertou o cajado nos dedos, olhando sua dragão ajudar um Nadder a se equilibrar, que agora não possuía uma das patas. "Ela não é dessas ilhas. Suas memórias são de ilhas frias, mas não aquela de gelo. Ela se camufla na neve e nas nuvens. Mas ela foi pega caçando e não sabe quanto tempo ficou presa em navios que viviam a movendo. Até que fugiu naquela ilha quando o navio que a levava foi atacado."

"Atacado?" Valka o encarou, surpresa. Jack apertou os lábios.

"Sim." Jack fechou os olhos, lembrando da ilha congelada. "Ela tentou ajudar no ataque quando foi liberta, mas só conseguiu soltar um dragão e eles fugiram juntos. Estavam fracos demais."

Valka massageou o queixo, pensativa.

"E então os caçadores desceram pela corrente mais quente e foram pegos na rota comercial pelos nossos pescadores." murmurou, e Jack deu de ombros. "Por que levar uma Fúria em um navio cheio de dragões feridos?"

"Não sei. Ela também não sabe." Jack balançou a cabeça. "Se eu e o Soluço não tivéssemos ido para aquela ilha, ela teria ficado sozinha em questão de dias, pelo outro dragão estar muito debilitado."

"Talvez ela saísse para procurar um lugar mais quente." Valka se ergueu. "E a ilha mais próxima de lá é aqui." Jack a olhou, esperando por mais. "Talvez eles quisessem que nós a encontrássemos? Ou estavam a trazendo para barganhar com a gente?"

"E por que dariam um dragão forte como ela para vocês?" Jack franziu as sobrancelhas. Valka coçou a nuca e suspirou.

"Não consigo pensar em uma razão. Parece muito arriscado."

"Seja o que for, ela agora está segura, mas não quer esquecer. Ela quer se vingar."

"E você vai ajudar?"

"Não sei. Vou proteger ela, pelo menos." Desencostando da árvore, se deixou flutuar para o chão, ouvindo Valka aterrissar pesadamente. "Por enquanto, vou focar nos que precisam de mim. Depois veremos."

"Concordo. Estoico e Soluço vão achar mais pistas. Talvez haja uma nova viagem de reconhecimento em breve." Valka passou por ele, sorrindo por sobre o ombro. "Acho que vai ser bom para você os acompanhar e levar a Lua. Ela pode ficar feliz em sentir o que é ser parte da cavalaria de Berk."

"Acho que ela ia desmaiar de felicidade só com a possibilidade." Riu, e a Lua o viu de longe, correu até ele e o jogou no chão, o lambendo no rosto e se afastando aos pulos, olhando para os dragões e para como ela os organizou. Estava orgulhosa do próprio trabalho. Jack se sentou no chão e a abraçou pela cabeça. "Você foi ótima, garota."

Lua ronronou feliz, se deitando. Valka cruzou os braços e olhou ao redor, um sorriso pequeno no rosto. Satisfação. Jack soltou o ar devagar.

Seja o que fosse o fundo daquilo, por enquanto eles poderiam esperar e ver o que acontecia.


Já era hora do jantar quando Jack voltou à vila com Valka, Pula-Nuvens e Lua, mas, em vez de uma refeição agradável em meio às risadas, encontrou Soluço esperando na porta com os braços cruzados.

"Merda." soltou, puxando o ar entre os dentes, entendendo que estava em apuros no momento em que Soluço apontou o dedo para ele em ameaça, caso ele saísse do lugar.

Valka olhou dele para o filho e riu contra a mão, antes de erguer as palmas em sinal de não interferência na briga e ir embora soltando risadinhas divertidas.

Jack segurou o cajado nas costas, se balançando nos pés, se sentindo agitado e não conseguindo sequer olhar para o futuro líder de Berk.

Porque ele sabia que levaria uma bronca bem justificada.

"Algo a dizer?" Soluço ergueu uma sobrancelha.

"Eu não pensei." declarou, olhando para o chão.

"Ótimo. Concordamos nisso. Agora vem." mandou, indo na frente, e Jack encolheu os ombros ao segui-lo para a vila vazia, enquanto todos comiam aconchegados no calor do salão.

A Lua obviamente os seguiu, assim como o Banguela. Os dois andando lado a lado sem falar, apenas interagindo com olhares, claramente não querendo dar a Jack qualquer dica.

"Traidores." bufou, e os dois reviraram os olhos para ele.

Ele podia sentir que eles os achavam idiotas. A Lua, em especial, achava o Soluço idiota. O Banguela era mais justo em nomear os dois. Mas Jack tinha um limite para entender os dragões se eles não quisessem ser entendidos.

Pois ele não sabia por que ele e Soluço pareciam tão idiotas para eles.

"De preferência, nunca?" Soluço soltou, ainda andando. Para onde? Jack nem tinha ideia.

"Ah, bem… minha boca se moveu antes que eu pensasse."

"Só sua boca?" Soluço o olhou, irritado.

E apenas aquilo. Sobrancelha franzida e lábios tensos. De alguma forma, Jack ficou aliviado por ele estar bravo e não magoado também. Então suspirou, mais calmo.

"Talvez mais." murmurou, e Soluço parou de andar, abrindo uma porta pesada. Jack percebeu que estavam na forja. "Por que me trouxe aqui? Vai me matar e queimar os restos para não ter prova?"

Soluço riu alto, uma mistura de espanto e diversão quebrando a raiva de antes e dando lugar apenas ao incômodo.

"Para de me fazer rir. Você fez de novo e eu estou irritado. Nem um dia!"

"Em minha defesa, eu percebi antes de fazer pior e parei na resposta malcriada. Você tem que contar meus avanços mínimos também." tentou, e Soluço ergueu uma sobrancelha, braços cruzados no peito. Jack encolheu os ombros, incerto. "Talvez… uma bronca mais branda?"

A porta se fechou.

Os dragões ficaram do lado de fora.

"Que tal você parar de fingir que eu não existo quando você se incomoda com algo?" ofereceu Soluço, movendo a mão como se apresentasse uma ótima e criativa alternativa. "Tipo, ajudaria não literalmente virar a cara para mim e depois me dar uma resposta constrangedora?"

"Da última vez eu fugi. Eu fiquei lá hoje. Temos um avanço." tentou de novo, e Soluço não pareceu convencido. "Eu estou aprendendo…"

"E eu estou te ensinando. E também evitando que isso cresça."

Jack se pegou fazendo um bico, sem conseguir evitar. Odiava não ter argumento e odiava estar errado e ser exposto no erro. Não achou que tinha sido tão ruim.

"Vem aqui." Soluço ofereceu a mão, e Jack a aceitou como se fosse ser guiado para a forca. "Como você consegue ser tão dramático?"

"Sua impressão. Estou sendo completamente sincero e sério aqui." declarou, e Soluço revirou os olhos, apertando a bochecha dele com força demais para ser só por brincadeira, mesmo que não o ferisse. "Entendi! Não vou fazer de novo!"

"Não vai fazer o quê?"

"Não vou tentar descontar em você se alguma coisa me fez sentir estranho!" declarou, segurando o pulso de Soluço com as duas mãos e suspirando ao ser liberto.

"Você consegue me deixar no limite." disse, e Jack estreitou os olhos para ele ao acariciar o próprio rosto. "Por que só comigo você é assim?"

"Porque você é o que mais me incomoda toda vez." bufou, dando de ombros.

"Sério? Você está falando isso quando temos os gêmeos no grupo? A Astrid te jogou no chão!"

"Eles são fáceis de lidar se jogar um pedaço de carne para eles brigarem. A Astrid só… não sei, ela me irrita, mas eu gosto de a irritar de volta e a ver correndo atrás de mim." Jack suspirou, abaixando a mão. "Mas você tem alguma coisa," explicou, movendo os braços pelo ar, "que me tira do sério às vezes. Só não controlo."

"Você está apontando para mim inteiro." reclamou, exasperado. "Assim não dá para ajudar."

"É, bem, fazer o quê?" sorriu, e Soluço lhe deu um olhar. "Não vai desistir, não é?"

"Não. E você sabe. Eu disse para você que vou ficar do seu lado. E você dificultar só vai me forçar a, bem… ter mais iniciativa e força de vontade."

"Conhecendo sua teimosia, então vai ser bem cansativo." Jack suspirou em desistência, se sentindo inquieto.

Não queria discutir ou justificar o porquê de ter sido um pirralho mais cedo. Só reconheceu a raiva que já estava começando a associar a Soluço e então passou a se comportar como não queria, mas não conseguia evitar. Era um sentimento borbulhante de gosto azedo toda vez que aparecia. Não sabia de onde vinha nem como reagir. Só reagia.

"Você não é um dragão acuado e eu não sou um predador para você usar bater ou fugir comigo, sabia?" Soluço soltou o ar e os braços. "Da próxima vez que isso acontecer, vem até mim e fala ou me faz parar de fazer o que te incomoda."

"Sério?"

"Sim. Aparentemente é o único jeito!" soltou, exasperado, jogando as mãos para cima. "Tipo, você não sabe o que eu faço que te deixa com raiva, mas desconta mesmo assim, tentando me deixar com raiva de volta. Então é melhor focar em mim na hora. Assim, pelo menos, eu vou saber o contexto que te irrita!"

"Eu nem fui tão ruim assim!" tentou de novo, e Soluço apertou as mãos em suas bochechas, as esmagando contra os dentes e o olhando nos olhos. "Beu bou teentla." prometeu, apesar dos lábios esmagados em um bico de peixe, e Soluço sorriu com falsa satisfação ao roçar o nariz em sua testa e o largar. "Não gosto dos seus métodos de educação." reclamou, abrindo e fechando a boca para se livrar da sensação de pressão no rosto, a pele aquecendo pela impressão fantasma desconcertante do toque do nariz dele em sua testa.

"Se funcionar, é o que vou usar." Soluço ergueu o nariz. "E adoro sua cara de peixe. É bem menos espertinho."

"Haha." ironizou, olhando ao redor e se sentindo deslocado ali.

Parecia que faltava alguma coisa para aquele impasse se resolver. Estava sendo bem mais fácil do que nas outras discussões, mas ainda mais constrangedor de alguma forma. Olhando através da franja, viu Soluço com as sobrancelhas franzidas de novo. Parecia preocupado.

Sem pensar muito, apoiou o cajado na mesa, se aproximou e apertou o indicador no vinco das sobrancelhas grossas. Soluço o encarou, confuso, e riu com leveza, tirando a mão dele dali e apertando seus dedos.

"Está preocupado." Jack percebeu, mas Soluço apenas negou com a cabeça.

"Nada com que você precise se preocupar também. Não ainda. Só coisas da minha cabeça, que quer pensar nos problemas sempre antes de as coisas acontecerem." Seu tom não parecia achar aquilo grande coisa, mas Jack ainda ficou incomodado com o pessimismo.

"Você precisa relaxar, idiota."

"Eu tenho." disse, e Jack estreitou os olhos. Soluço riu com diversão, se encostando na mesa, e Jack o seguiu, sem soltar a mão dele, ficando ao seu lado. "Falo sério. Eu tenho relaxado bastante. Estou bem mais leve hoje em dia."

"Se isso é o seu leve…" bufou, e Soluço abaixou a cabeça sobre a dele.

A raiva e o incômodo que Jack sentia escaparam com um suspiro ao bater os ombros com os dele e apoiar a cabeça ali. Soluço moveu o polegar pela mão dele, e Jack sorriu um pouco.

"Não vou insistir se não quiser falar." murmurou, e sentiu Soluço virar a cabeça em seu cabelo algumas vezes, e riu. "Você está comendo meu cabelo como a Lua e a Tempestade?"

"Ainda não. Mas acho que deve ter gosto bom se elas fazem muito isso." provocou, e Jack o empurrou de brincadeira. "Quer ir jantar?"

"Eu nem queria estar aqui!" bufou, e Soluço apertou o rosto dele entre as mãos de novo. "Beu bintu buintu. Obligladu pelu placienthia."

"Muito bom, elfo." sorriu, satisfeito, ao soltá-lo, e Jack sentiu o rosto quente de vergonha.

Odiou aquele método!

"Você é um idiota." reclamou, virando o rosto. Soluço apenas riu da cara dele. "Está se divertindo?"

"Um pouco. Sim." Soluço inclinou a cabeça para o lado. "Acho que posso reconhecer a evolução."

"Finalmente!" Jack ergueu as mãos, recuperando o cajado apoiado na mesa. "Então vamos comer." bufou, e Soluço riu ao segui-lo. "E para de rir!"

"Não vou, não." provocou, passando por ele, acariciando as barbatanas do Banguela.

Jack sentiu o rosto mais quente ainda. Se sentia exposto e vulnerável. Queria fazer algo com Soluço que fizesse passar aquilo. Algo físico e forte. Astrid vivia batendo nele, entendia agora por quê.

Ele era irritante!

Talvez Jack fosse tão irritante também, porque ela vinha batendo nele mais a cada dia.

Mas Soluço vencia!

"Você vai explodir se continuar inflando as bochechas assim, fada." provocou mais, e Jack chiou, querendo bater os pés no chão em uma pirraça como a de uma criança. Soluço se aproximou de novo, erguendo o queixo dele, e Jack o olhou com raiva.

"Idiota." declarou, sentindo o estômago fervilhar. Soluço só o olhou de forma suave e carinhosa. "Idiota!" repetiu, o abraçando com força pelos ombros, enterrando o rosto nos próprios braços, os pés fora do chão, deixando que Soluço o sustentasse, porque ele merecia aquilo.

Não aguentava mais!

Soluço, para sua decepção, não pareceu nem um pouco incomodado. O abraçou de volta e riu em seu pescoço, fazendo cócegas. Jack encolheu os ombros, o abraçando com mais força, o rosto queimando como brasa. O coração disparado.

Sentia raiva de Soluço. Muita raiva. Principalmente por não conseguir ficar com raiva. Queria viver naquele abraço e não o soltar.

Demorou um pouco, mas Soluço o colocou no chão e ajeitou o cabelo dele.

"Melhor?" Ergueu uma sobrancelha, e Jack não conseguiu fazer nada além de uma careta desgostosa. "Vou considerar que sim."

"Às vezes, eu realmente te odeio."

"Tudo bem. Eu lido com isso." sorriu, o puxando pelo pulso. "Mas antes de declarar seu ódio, vamos comer algo quente."

Jack não respondeu, puxou o pulso para segurar os dedos de Soluço e deixou que ele praticamente o arrastasse pelo caminho. Não sabia nem o que poderia falar, então ficou quieto, sentindo vergonha e sem jeito sobre como agir.

Não reconhecia aquele sentimento que estava trazendo borboletas irritantes para a sua barriga e enevoando sua cabeça. Mas, novamente, era culpa de Soluço.

Quando o salão ficou visível e próximo, a Lua passou entre eles, bufando, e os separou. Jack a encarou e riu com a cheirada que recebeu antes de sua dragão e o Banguela irem para junto dos outros que esperavam o jantar terminar.

Soluço esperou na porta, Jack o alcançou, e entraram juntos e mais calmos.