Chapter Text
Charles massageia sua testa novamente. O que começou como uma dor incômoda na parte de trás de sua cabeça se espalhou pelas últimas duas horas. Nesse ritmo, vai se transformar em uma enxaqueca até o final do dia.
As primeiras semanas de aula são sempre difíceis. Com as crianças ainda cheias de energia por conta das férias de verão, levará mais ou menos uma semana ou mais para, no mínimo, eles se acalmarem e seguir o cronograma.
Há cinco novos estudantes este ano — todos mutantes. Deveria ser uma coisa boa, sério — Charles está sempre empolgado em ter novos estudantes admitidos na escola. Porém, não nessa situação. A quadra de basquete e o ginásio estão em reforma e eles estão com dois professores a menos, o que significa que o Charles precisa dar um jeito para ficar supervisionando a reforma e substituir os professores que faltam. Outro fato que não ajuda é que três dos cinco novos alunos são extremamente travessos.
O pior deles é Peter Maximoff, o qual simplesmente não ficará sentado por um mísero milissegundo. Para piorar a situação, a sua mutação é velocidade sobre-humana. Com apenas cinco anos, ele pode correr três voltas na sala de aula em um piscar de olhos. Felizmente, a sua irmã gêmea, Wanda é dócil. Ela não fala muito com qualquer um que não seja o seu irmão, contudo, a mesma possui uma mente brilhante quando se trata de absorver suas lições ou observar atentamente seus arredores. Levará algum tempo para ela se misturar com os outros, Charles entende. Ele vai ajudá-la nesse aspecto, se necessário.
Depois, há Alex Summers, o qual está empenhado em destruir tudo. Eles já tiveram que trocar um quadro de avisos e uma cadeira; e eles ainda estão na primeira semana de aula.
Ororo sente uma certa alegria assustando os outros com faíscas brancas que escorrem de seus dedos. Foi díficil fazê-la entender que tal comportamento não seria aceito, o que apenas a encorajou em dobrar suas travessuras.
Não é que a pequena Kitty seja problemática, entretanto, ela precisa receber mais atenção que o resto. Dado que manifestou seus poderes recentemente, ela frequentemente encontra-se com uma das pernas presa em uma cadeira ou uma mão batida sem rumo presa dentro de uma mesa. Acalmar uma Kitty chorosa e resgatá-la sem causar machucados, até agora, não foi nada fácil.
‘Por favor, escutem’ ressalta Charles quando a turma desmorona em um barulho de conversas. Peter corre até sua irmã e a sua cadeira antes que Charles possa terminar. Mort está colocando sua língua para fora e olhando atentamente para algo em sua mesa. Faíscas brilhantes de luz estão explodindo na frente de Illyana, arrancando risos dela.
‘Turma, escutem!’ Charles diz com vigor, novamente, e pega a tigela na mesa. O novo objeto nas mãos de Charles se torna o centro das atenções de seus alunos quando eles se voltam em sua direção.
‘Realizaremos uma atividade,’ ele diz quando a turma aquieta-se, ‘Cada um de você virá até aqui e pegará uma ficha desta tigela.’ Ele balança a tigela em suas mãos, embaralhando as fichas dentro. 'Após voltar para o seu lugar, você terá que desenhar e colorir o que você acha que a ficha diz.'
Para demonstrar, ele escolhe uma ficha da tigela. ‘Comida favorita’, está escrito no pedaço retangular de papel. Charles ama um bom macarrão com queijo, porém ele não consegue desenhar uma tigela de macarrão com queijo sem se parecer geometria abstrata. Ele se contenta em desenhar uma pizza no quadro. É o que ele acaba pedindo hoje em dia, de qualquer maneira. Além disso, é mais simples de desenhar.
Isso lhe rende várias cabeças mexendo-se para baixo e para cima com entusiamos e salva de palmas enérgicas de seus alunos.
'É simples, vejam…' Charles diz enquanto se vira para encará-los. As crianças estão brilhando o observando, ansiosas para começar. Peter já está inquieto em seu assento, esforçando-se para ficar parado.
Charles suspira. ‘Peter, por que não começamos com você?’
Peter pega a sua ficha e corre de volta para a sua cadeira antes mesmo de Charles terminar de falar.
Seguindo o exemplo de Peter, os outros pulam de seus assentos e correm direto em direção da tigela. ‘Em fila… Por favor, façam uma fila. Um por um,’ Charles protesta sobre o barulho de ‘eu eu eu’ conforme ele levanta a tigela para cima com o intuito de mantê-la fora do alcance de suas mãos esticadas.
Assim que todos retiraram e sentaram-se em suas cadeiras em uma mesa oval, Charles anda por trás de seus assentos lentamente.
Charles não está ciente do conteúdo das fichas; Theresa foi gentil e se ofereceu em fazê-las.
Alex está colocando a língua para fora e pintando com um giz de cera no papel. Ah, e claro, o seu ‘Brinquedo Favorito’ é uma arma vermelha. Darwin — bendita seja a sua criatividade — está desenhando uma casa azul com janelas amarelas acompanhadas por uma árvore laranja para ‘Minha casa’. Ororo está tentando e falhando em desenhar escamas em um peixe para ‘Meu Bicho De Estimação’.
Bem quando a satisfação de trazer à tona a criatividade das crianças começa a se instalar, Charles vê Peter bem na ponta da mesa.
O menino está sentado tão imóvel que por um momento Charles questiona se está imaginando coisas. Suas sobrancelhas prateadas estão puxadas para baixo e seus lábios finos parecem ainda mais finos estando pressionados assim. Sua visão está focada numa folha em branco, sua ficha esquecida ao seu lado.
Charles nunca viu Peter assim antes. Há sempre um sorriso esboçado em seu rosto, mesmo quando ele cai tropeçando nas pernas da mesa em sua pressa.
Charles caminha em sua direção e senta-se em um banquinho ao seu lado.
‘Peter,’ ele o chama baixinho e, gentilmente, coloca a mão em seu ombro.
O menino levanta sua cabeça. Ao desfranzir suas sobrancelhas, o azul de seus olhos são revelados.
De regra, Charles não lê a mente das crianças. A estrutura do cérebro não está completamente formada, é muito mais caótica do que a dos adultos e mais propensa a danos por contatos telepáticos. Os escudos de Charles estão sempre levantados durante o horário escolar. Todavia até mesmo os seus escudos não são eficazes para bloquear as ondas de cautela que irradiam de Peter.
‘Você está tendo um problema com o desenho, querido?’ ele pergunta baixinho, inclinando-se para o menino.
Peter assente com a cabeça lentamente.
‘Sem problema, eu posso ajudá-lo,’ Charles o tranquiliza com seu melhor sorriso. ‘Vamos ver o que você pegou.’ Ele pega a ficha da mesa, lê-se: 'Minha mãe'.
Charles não entende o que deve fazer. O menino simplesmente não consegue colocar seus pensamentos em um desenho? Ele vem de uma família desestruturada? Ele tem uma mãe distante, ou Deus me livre, uma mãe emocionalmente distante?
O lábio inferior de Peter está tremendo quando Charles vira-se para olhá-lo. Não querendo presumir, ele fala, ‘Peter, por que você não me conta sobre a sua mãe e nós iremos ver o que podemos desenhar.’
Peter fica em silêncio por um longo tempo, somente olhando para Charles com os olhos arregalados. Lidar com crianças é ao mesmo tempo, simples e complicado. Então, Charles espera pacientemente acariciando as costas de Peter de cima e para baixo.
Bem quando Charles começa a se perguntar se o menino irá respondê-lo a final, Peter diz, “Meu Vati falou que a minha Mama é uma estrela no céu e que ela cuida de nós quando dormimos.’
De todas as coisas que Charles esperava, a resposta de Peter não era uma delas. Uma onda de simpatia borbulha do fundo de seu estômago. Ele sabe muito bem como é perder um pai. As crianças são ainda tão jovens. Isso é tão injusto.
‘O que mais o seu pai contou sobre ela?’ (Vati é Pai em Alemão, se Charles recorda-se direito).
‘Ele diz que ela amava a gente muito. Muito mais que amamos ela.’
Charles sorri. Talvez seja um alívio leve nesta situação infeliz que os gêmeos tenham um pai que está lá para eles. ‘Tenho certeza de que sua mãe te ama muito, querido. E vocês dois têm muita sorte de ter um pai maravilhoso.'
A indiferença no rosto de Peter diminui e um pequeno sorriso toma seu lugar à menção de seu pai. Peter assente com a cabeça rapidamente em resposta e acrescenta: ‘Vati é o melhor! Ele canta para nós antes de dormir. Ele nos faz bolo no nosso aniversário. Mas não tão bom quanto da Nana. Ele nunca consegue cozinhar tão bemquantoaNana—’ esse é o último pedaço das palavras de Peter que Charles consegue compreender antes que elas aceleraram-se uma milha por segundo. Charles não precisa ouvir o resto para ter sua suposição confirmada que o Sr. Maximoff é, de fato, um pai amoroso.
Uma ideia surge. ‘Nesse caso, Peter,’ Charles diz quando Peter finalmente terminar de falar. Pegando uma caneta do bolso do peito, ele risca o 'Mãe' da ficha e escreve 'Pai' em cima. 'Por que não desenhamos seu pai em vez disso?' Charles inclina-se conspiratoriamente e sussurra, 'Agora, isso é um segredo entre mim e você, certo? Então, não conte a ninguém.'
‘Nem mesmo para a Wanda?’
‘Nem mesmo para a Wanda.’
Um sorriso ligeiro brota no rosto de Peter. 'Eu posso fazer isso!', ele diz e se parte para escolher seus gizes de cera.
Charles senta-se ali por alguns minutos cuidando Peter desenhando e apagando uma figura de palito. Geralmente, Charles faz questão de manter uma correspondência constante com os pais de todos os seus alunos e conhecê-los pessoalmente. Ele havia perdido o encontro com os Maximoffs no primeiro dia de aula. O Sr. Maximoff apareceu bem quando havia saído em direção ao ginásio para se encontrar com o empreiteiro.
Charles faz uma nota mental para conhecer Sr. Maximoff quando este vier buscar as crianças naquele dia.
*
Charles sorri com carinho para o desenho de Peter quando o menino deixa-o cair sobre sua mesa em um borrão de prata.
É inocente de uma forma que só uma criança consegue ser. Wanda, à direita, está vestida com um vestido vermelho, enquanto Peter, à esquerda, está vestido com calças pretas e o que Charles infere em referência ao seu cabelo prateado é uma jaqueta prateada. O homem no meio — Sr. Maximoff — com cabelo curto e barba, vestido com o que parece ser uma camisa xadrez e jeans está segurando as mãos de ambos. Todos os três estão sorrindo, o Sr. Maximoff excessivamente, mostrando todos os dentes afiados em um largo sorriso.
Charles sabe que Peter está exagerando, mas, estranhamente, esse sorriso lembra-o de seu adversário do ensino médio. Charles não é de se usar esse termo livremente, nem ao menos é do tipo de ter adversários para começar. Contudo, se alguém chegou perto de significar metade disso, foi Erik Magnus Lehnsherr.
Mesmo após todos esses anos… Charles detém-se.
Ele olha para o papel novamente. Sr. Maximoff, ele relembra-se. Ele deveria se encontrar com o Sr. Maximoff depois da escola.
