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Rating:
Archive Warning:
Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Series:
Part 1 of If you can dream it...
Stats:
Published:
2019-10-24
Updated:
2020-01-30
Words:
41,353
Chapters:
10/?
Comments:
114
Kudos:
97
Bookmarks:
5
Hits:
3,751

Wishing Upon a Star

Summary:

"If your heart is in your dream
No request is too extreme
When you wish upon a star
As dreamers do
Fate is kind"

Nove anos aparentemente era outra das idades complicadas, não que Raquel tivesse ouvido falar disso na vida, mas quando se tratava de Paula aquela parecia a realidade. Sérgio, por outro lado, ficava exasperado com como nenhum dos diversos livros que lera sobre crianças lhe alertara que a temida pré-adolescência poderia começar tão cedo.
Nas últimas duas semanas, muito para o desespero da mãe e do padrasto, ela decidira que queria conhecer a Disney.

Notes:

Tudo começou com um plot no Twitter inspirado nos stories do Álvaro com os filhos na Disneyland.

Era pra ser uma Oneshot pra postar no SerquelDay...

Até eu me empolgar e perder o controle???? Dai agora vai ter mais de um capítulo e eu que lute.

Espero que gostem!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Part of Your World

Chapter Text

Betcha on land

They understand

Bet they don't reprimand their daughters

Bright young women

Sick of swimmin'

Ready to stand .

 

Nove anos aparentemente era outra das idades complicadas , não que Raquel tivesse ouvido falar disso na vida, mas quando se tratava de Paula aquela parecia a realidade. Sérgio, por outro lado, ficava exasperado com como nenhum dos diversos livros que lera sobre crianças lhe alertara que a temida pré-adolescência poderia começar tão cedo. 

Nas últimas duas semanas, muito para o desespero da mãe e do padrasto, ela decidira que queria conhecer a Disney. E por decidir, Paula entendia: insistir sem parar sobre um mesmo assunto, sem jamais deixar-se convencer do contrário. Aparentemente, algumas colegas de escola já conheciam alguma versão dos famosos parques e dividiam fotos e memórias com a garota, que se chateava com ser, nas palavras da pequena, “a única que não foi!”. 

- Mas o meu aniversário de dez anos está chegando! - Paula cruzou os braços. - Eu só quero ir a um parque, qual o problema? - o clima naquele jantar estava escalando rapidamente.

- O problema, cariño , é que é muito dinheiro… - Raquel tentou. 

- Mentira. - Paula acusou, olhando na direção de Sérgio. - O Sérgio tem dinheiro! - Raquel arregalou os olhos e balbuciou qualquer coisa envergonhada, enquanto a filha a olhava vitoriosa. - Ele sempre me fala  “dinheiro não é o problema, Paulinha”, então não tenta me enganar! 

Sérgio, que apenas as observava calado, sentiu o rosto queimar. O olhar fulminante de uma Raquel que sempre lhe alertava sobre mimar demais a menina, apenas piorou tudo. Respirando fundo, enquanto a discussão das duas escalava, Sérgio fechou os olhos e começou a pensar, agradecendo aos céus que Marivi e sua enfermeira haviam se recolhido mais cedo. 

- Mas é que eu não entendo! Eu faço minha lição, eu não desobedeço, eu só te peço uma coisinha e você diz não! 

- Paula, eu já disse que é impossível! 

- Por quê?

Antes que Raquel pudesse responder, Sérgio se levantou abruptamente, assustando as duas, que o olharam preocupado. Isso porque ele não tinha o costume de fazer movimentos bruscos, pelo contrário, era sempre extremamente gentil. Paula nunca o havia visto perder a paciência, exceto da vez que decidiu montar um móvel sozinho e foi um desastre frustrante. A lembrança a fazia querer rir. 

- Tio Sérgio…? - Paula chamou, mas ele continuava encarando a mesa, onde apoiara as duas mãos. 

- Cariño…? - Raquel tentou, e respirou fundo ao se lembrar das poucas vezes que o vira com aquela expressão tão focada, quase como se não estivesse ali com elas mais. A última vez envolvia o Banco Central da Espanha, e Sérgio não era exatamente o mesmo homem que ele era em Palawan.

- Paula… - ele começou, sério e calmo, e arrumou os óculos. Definitivamente, aquele era o Professor. Raquel se levantou em reflexo, não sabendo bem o que esperar. - Eu acho que eu e sua mãe precisamos conversar. 

- Eu fiz algo de errado…? - Paula mordeu o lábio, parecendo arrependida. - Vocês vão brigar? - a pergunta não foi para Raquel. - Tio Sérgio, não tem problema, eu não vou insistir mais, eu prometo. - ela se levantou, com os olhos marejados. 

Por um momento, Raquel viu Sérgio aparecer novamente, deixando o professor de lado para falar com a menina. - Não, Paulinha, eu e sua mãe não vamos brigar… A não ser que ela queira brigar comigo, mas nesse caso peço que fale com ela. - Sérgio piscou, e Paula riu um pouco, apesar de não estar completamente convencida. - E nada disso é sua culpa… Só precisamos conversar umas coisas de adulto.

Paula sorriu e concordou com a cabeça, murmurando um pequeno ‘ok’, voltando a atenção novamente para o seu prato, claramente chateada de ser excluída da conversa dos adultos. Os gritos internos de ‘eu já sou grande’ eram quase audíveis, enquanto Sérgio e Raquel se dirigiam ao escritório. E Paula ser ‘grande o suficiente’ era exatamente o ponto da conversa.

 

- Nem pensar! - se a persona do professor fora ressuscitada, uma mistura quase assustadora de Lisboa com a Inspetora Murillo não ficara para trás. - De jeito nenhum que eu vou deixar você envolver minha filha de nove anos nisso tudo. - ela vociferava, quase socando a mesa do escritório, a fúria materna quase fazendo o professor se arrepender de ter levantado o assunto. Quase.

- Ela já está envolvida até o pescoço! Só não sabe disso ainda. Caso você tenha se esquecido, Raquel, ela está sendo criada por dois criminosos procurados pela Interpol, e não saber disso não muda nada. Ela está crescendo, ela se lembra do assalto da Casa da Moeda, viu nós dois sumirmos durante o assalto do Banco da Espanha, ela vive escondida, cheia de regras. É uma questão de tempo até juntar a droga dos pedaços. É uma milagre que não tenha ainda, considerando que ela mudou de sobrenome ao vir morar aqui. E como você acha que ela vai reagir ao descobrir?

- Sérgio, não é como se ela fosse nos entregar para a Interpol ou algo do tipo! - Raquel jogou os braços ao lado do corpo, cansada e desacreditada. - Somos os pais dela!

- Não. - ele a corrigiu. - Você é a mãe dela, e eu sou o ladrão que te arrastou para uma vida criminosa. Ou pelo menos é como ela vai entender se souber por terceiros ou descobrir sozinha, e vai nos ressentir e se chatear imensamente. E quando isso acontecer, ela precisará achar um culpado. - ele apontou para si mesmo. 

- Você não me arrastou para coisa nenhuma! - Raquel passou as mãos pelo cabelo. - Eu faço minhas escolhas. 

- Eu sei disso, - ele se sentou na cadeira atrás da escrivaninha, soando quase orgulhoso. - mas boa sorte explicando isso para uma criança cheia de sonhos românticos. 

Raquel suspirou e deixou-se cair na outra cadeira, negando com a cabeça. Ela simplesmente odiava admitir que, naquele caso, Sérgio estava certo. Quanto mais Paula crescia, mais difícil ficava, principalmente porque ela não tinha todas as informações para entender. 

- Quando você se tornou tão esclarecido na arte de criar uma criança, professor?  

- Eu aprendi com uma especialista, Inspectora. - ele segurou a mão de Raquel, que suspirou derrotada.

 

Paula estivera quieta pelos últimos cinquenta e sete segundos, fitando o chão com a boca semiaberta, como se seu cérebro estivesse usando toda a energia de seu corpo processando todas as informações que havia recebido. Para quem passara os últimos quase três anos em Palawan sabendo apenas o mínimo necessário, ela de repente se via incluída em cada detalhe que sua mente de nove anos conseguia entender, e a menina se sentiria sobrecarregada, caso não estivesse tão feliz de finalmente lhe contarem algo - mesmo que igualmente irritada.

- Então… - a menina, que estava sentada na mesa de Sérgio, olhou na direção dos dois adultos, que a observavam sentados em cadeiras à sua frente. - Foi por isso que a gente veio viver aqui. - Raquel assentiu. - E porque eu não posso ter um telefone, um iPad, ou ir pra Disney, ou falar com meu pai. 

- Você já não podia falar com o seu pai antes, Paula. - Raquel suspirou. - Um juiz já tinha mandado ele ficar bem longe de mim, e por tabela de você. 

- E ninguém nunca me disse porque! Só que ele era uma pessoa ruim, mas o Sérgio roubou dois bancos e a gente mora com ele! E você me ensinou que roubar coisas que não são suas é errado, mãe! Eu não entendo mais nada!

Raquel imaginava que teria que ter aquela conversa em algum momento com a filha, mas não que seria tão cedo assim. Lançando um olhar furioso a Sérgio, ela segurou as mãos de Paula, tentando explicar coisas que ela era pequena demais para entender. 

- Existem dois tipos que coisas erradas, meu amor. - Raquel respirou. - Coisas que são proibidas pela lei, e coisas que são maldosas por natureza. Eu te ensinei a não fazer nenhuma das duas, porque as leis existem por uma razão. - ela lambeu os lábios, sem saber como continuar, e olhou em desespero para Sérgio. 

- E porque sua mãe te ama muito, - ele continuou, recebendo um olhar reprovador da menina. - e não quer te ver em problemas. Nenhum de nós quer.  Às vezes, adultos querem que crianças façam o que eles mandam e não o que fazem, e sei que não é justo. Por isso estamos explicando. Sim, eu roubei a Casa da Moeda, mas eu nunca peguei nada que não fosse meu, Paula. Eu imprimi meu próprio dinheiro lá dentro. Dinheiro que não pertencia a ninguém. E isso é contra a lei, apesar de não ser naturalmente maldoso, porque se não fosse contra a lei… 

- Todo mundo ia fazer isso e ninguém mais ia trabalhar? 

- Exato. 

- E por que você fez? 

- Porque o mundo dos adultos é muito complicado. - Foi Raquel que respondeu, chamando a atenção da menina. - E as pessoas que fazem as leis e proíbem as pessoas normais de imprimirem dinheiro, deixam as pessoas muito ricas fazerem isso. - não era exatamente aquilo, mas ela não achava que conseguiria explicar aportes do governo à bancos para uma menina de nove anos. 

- E a maioria das pessoas normais não sabem que essa injustiça acontece. - Sérgio completou. - Eu cometi um crime enorme, Paula, para mostrar ao mundo uma injustiça. Na época, a maioria das pessoas na Espanha estava do meu lado, não do da polícia, inclusive, porque viam a injustiça. Não significa que o que eu fiz é certo, porque eu ainda quebrei várias leis, mas também não me faz maldoso.  

- Tipo quando a professora deixa algumas crianças que ela gosta mais comerem doces na sala e outras não?

- Suponho que sim. - Sérgio sorriu. 

- Mas se eu comer o mesmo doce, ainda vão brigar comigo… - ela ficou emburrada. 

- Exatamente. Se você comesse o doce, estaria errada, mesmo que sua professora esteja também. - Raquel tentou não sorrir. - Com uma diferença: mesmo estando errada, a sua professora pode te castigar por desobedecer. 

- E a polícia pode prender vocês. - eles concordaram. - Mamãe… o que o papai fez? 

A pergunta súbita os pegou em sobressalto, e Raquel sentiu os olhos encherem de lágrimas. Ela balbuciou alguma coisa, e sentiu a mão de Sérgio segurar a sua. 

- Eu ouvi que ele é ruim, que ele te machucou, mas… - os olhos dela se encheram de lágrimas. 

- Seu pai. - Raquel respirou. - Ele realmente me machucou, filha…

- Raquel, você quer que eu... ? - Sérgio fez menção de se levantar, mas Raquel o segurou. 

- Filha, sabe como alguns pais e mães batem nos filhos que não fazem o que eles querem? - Paula fez que sim com a cabeça, fechando a expressão. - E que isso é proibido em muitos lugares, porque não podemos resolver com violência? - Mais um sim. - Bem, alguns maridos, maus maridos, pensam que as esposas devem obedecer como crianças a seus pais, se vestir e se portar como eles querem, e começam a ver erro em tudo o que elas fazem, colocar nelas a culpa de seus próprios problemas… - Paula prendeu a respiração. - E existem casos, em que… - a voz de Raquel falhou. 

- Eles resolvem com violência? - Paula olhou para baixo. - E machucam e… e o papai era desses? Foi assim que ele te machucou?

- Sim… E depois ele tentou te tirar de mim e eu não podia permitir isso. - Raquel se levantou e abraçou a filha, que soluçava baixinho. - Então tive que te tirar dele porque… porque não podia viver sem você e no mundo complicado dos adultos ninguém se importava que ele tinha me machucado e estavam ajudando ele a te levar embora. E sei que é injusto e que você não merece viver nessa guerra. - Paula a abraçou mais forte. - Você não é feliz aqui, meu amor? 

Paula hesitou por um momento, e se afastou um pouco da mãe para responder, dando de ombros. - As vezes eu sinto falta da Espanha, e de tecnologias, mas não quero que você seja presa e te levem embora para eu nunca mais te ver…. ou que o papai te machuque de novo. 

— Quando você for maior, pode ir pra Espanha sempre que quiser, ok? - Raquel beijou o topo da cabeça de Paula. — Você não é uma fugitiva procurada e nem nossa prisioneira, só criança. 

— Que deu o azar de ser criada por dois criminosos que nem vilões de verdade são. - ela rolou os olhos. — Além de ter um pai mau. Já entendi. Só queria ir pra Disney, nada demais, porque a vida dos adultos precisa ser tão dificil? - nenhum deles sabia dizer quanto ela estava realmente chateada e quanto estava dramatizando. — Pera… mas e o Banco? Vocês falam que não podem arriscar na Disney e voltaram pra Espanha e roubaram de novo? Só podemos arriscar agora quando vocês querem? Quando eu quero não pode? Como isso não é injusto igual o negócio de imprimir dinheiro? E esse ouro não era de ninguém não? 

Sérgio suspirou, aquela seria uma longa noite. - Pra começar, o ouro era do povo Espanhol…

 

Cinco dias depois, Paula já havia parado de assustá-los durante o dia com perguntas aleatórias sobre como foram os dois assaltos, ou sobre variadas oportunidades em que a polícia poderia capturá-los. Duas semanas mais tarde, ela deixara de cair no choro sempre que se lembrava do que a mãe lhe contara sobre o pai. E ao final de dois meses, as coisas finalmente pareciam ter voltado mais ou menos ao normal, e a aproximação do aniversário da menina trazia uma aura de felicidade que a casa desesperadamente precisava. Paula estava sendo muito madura com tudo o que sabia, mas mesmo assim era apenas uma criança e merecia tempos de paz. 

Alguns dias antes do aniversário de dez anos de Paula, Sérgio passou o dia todo trancado no escritório, até que no fim da tarde pediu que as duas o encontrassem lá. 

O escritório estava muito diferente do normal: a mesa de Sérgio estava afastada para o fundo do cômodo, duas carteiras escolares estavam colocadas uma ao lado da outra, e uma lousa fora colocada ao lado da mesa de Sérgio. 

Raquel franziu o cenho e abriu e fechou a boca algumas vezes, reconhecendo aquela organização como similar às dos assaltos, e se perguntando o que Sérgio estaria aprontando, porque ela realmente torcia para que ele não estivesse planejando ensinar sua filha a roubar um banco, ou o que fosse. Vestindo um terno azul que devia ser bem desconfortável no clima de Palawan, mesmo que ele não demonstrasse coisa alguma, ele estava recostado à mesa e fez um sinal para que elas se sentassem em suas respectivas carteiras. Paula cruzou os braços, e fez que ia bater o pé, mas acabou seguindo Raquel reclamando algo como “nem pensar que vamos fazer mais lição de casa”. 

Sérgio ajustou os óculos e se levantou, andando até a lousa sob atento e curioso olhar das duas mulheres Murillo, e escreveu uma palavra na lousa: Bienvenidas . Raquel soltou um som que era um misto de questionamento e riso, e se levantou. Ela não fazia ideia do que ele tinha na cabeça, estava tendo deja vus demais por segundo, e se sentia levemente chateada de não ter sido envolvida no que quer fosse aquilo. 

- Sérgio… - ela começou e logo foi cortada, quando ele lançou um pedaço de giz em sua direção e fez um sinal para que ela parasse, mal conseguindo se manter na persona do professor com a cara de revolta com que Raquel respondeu, e o riso histérico que saiu de Paula. 

- Eu tenho três regras, - ele voltou-se novamente para o quadro para escrever. - e você sabe muito bem que a primeira delas é: Sem nomes, Lisboa

- Eu vou ter um nome de cidade também? - Paula ficou em pé de repente, enquanto Raquel fuzilava o Professor com o olhar. - Mamá, por favor, me deixa ter um nome de cidade!!! 

- Isso depende do que certas pessoas tem em mente. - Raquel, ou Lisboa , cruzou os braços e andou na direção dele, sem parecer intimidada pela enorme diferença de altura. - Vamos lá, qual o plano, professor

- Tokyo Disneyland. - ele respondeu, simplesmente, e Paula caiu sentada, chocada demais para gritar. 

Raquel, por sua vez, sentiu os olhos marejarem com uma rapidez incontrolável, e o sorriso sincero, ainda que discreto, de Sérgio, fez apenas com que a vontade de chorar piorasse. Então era por isso que ele estivera tão estranho e distante? Estava tramando um jeito de mais uma vez mimar Paula? 

Colocando-se nas pontas dos pés, Raquel segurou o rosto de Sérgio, e pressionou os lábios contra os dele, puxando para um beijo calmo e cheio de agradecimentos implícitos, coisas que viriam mais tarde, quando eles estivessem sozinhos e pudessem estudar melhor o plano. Sorrindo contra os lábios da amada, Sérgio deixou-se perder por um momento, abraçando-a pela cintura, e deixando o beijo se estender um pouco mais do que devia, até que uma certa garotinha de quase dez anos limpou a garganta e os encarou mal criada. 

- O que nos leva às próximas regras… sem relações interpessoais e sem perguntas pessoais . - Sérgio comentou, ajustando a postura, enquanto Raquel ria com o canto dos lábios. 

- É… - Paula negou com a cabeça. - Acho que isso aí não tem como. 

- Tarde demais. - Raquel pressionou mais um beijo rápido nos lábios dele e voltou para sua carteira. 

- Mas eu ainda posso ter nome de cidade, não posso, professor ? - a pergunta dirigida direto a Sérgio atingiu Raquel profundamente, quase levando-a a ficar ofendida. Quase, se não fosse fofo. - Por favorzinho! Vocês são O Professor e a Lisboa, eu não posso ser a Paula.  

- Não mesmo pode mesmo, srta…? - Sérgio deixou-se sorrir, enquanto a garota pensava. 

- Ai, pera… eu não sei muito nome de cidade. - ela cobriu o rosto. - Madrid é um nome de menino. - os adultos se entreolharam, sem entender de onde ela tirava aquilo. - Palawan não é cidade, de acordo com minha aula de geografia é uma província , Porto Princesa é grande demais… Mãe, quer dizer, Lisboa , me ajuda!

- Pede ajuda pro seu cúmplice! - Raquel brincou, se referindo a Sérgio.

- Cúmplice? Eu não sabia de nada! 

- Ela aprende rápido, preciso admitir. - Sérgio comentou, e desviou do pedaço de giz que Raquel devolveu em sua direção. - E não sabia mesmo, você sabe que eu não conto nada a meus cúmplices até que precisem saber.

- E é disso que tenho medo… 

- Nome!! Cidade!!! Foco!!! - Paula bateu na carteira, quase fazendo bico, e parecendo ter metade da idade que tinha. 

- Hanói. - Sérgio respondeu, chamando a atenção das duas. O sorriso de Raquel entregava o que ela estava sentindo, e Paula parecia ponderar. - É a capital do Vietnã. 

- E também o nome do café onde eu e o Sér… O Professor nos conhecemos. - Raquel explicou, e Paula pareceu pensar mais ainda. 

- Hanói… - ela disse o nome e franziu mais ainda a testa, até sorrir. - É bonito, e a gente não teria plano incrível pra aprender se vocês dois complicados não tivessem se conhecido, então eu gosto! - ela se levantou subitamente e tentou correr até a porta, mas Sérgio foi mais rápido e se colocou entre a saída e a menina. 

- Eu disse que a aula acabou, srta. Hanói?

- Não, professor , - Paula cruzou os braços. - mas eu preciso de lápis e cadernos se quero aprender, não? 

- Perfeitamente. - ele lutou contra o sorriso que queria aparecer, e deu espaço para que ela passasse. - Mas não demore.

Paula mal terminou de ouvir o padrasto e disparou para seu quarto, derrubando várias coisas e falando algo com o gato no caminho, animada demais para se importar com os próprios modos ou com coisas potencialmente quebradas no caminho. 

No escritório, o Professor simplesmente andou de volta na direção da lousa, sob atento olhar de Lisboa, que ainda tinha suas ressalvas sobre a coisa toda, mas não conseguia negar a animação que crescia dentro de si, por mais que o medo quisesse a dominar. 

- E como, exatamente, o professor pretende nos colocar na Tokyo Disneyland sem trazer toda a Interpol junto?

- Parafraseando a srta. Hanói, com um plano incrível . - ele respondeu, num tom que Raquel classificaria como convencido demais para a saúde de qualquer pessoa. 

- Hanói tem dez anos, ela acha qualquer coisa incrível . - Raquel provocou, colocando os pés em cima da carteira. 

- Lisboa, Lisboa… um sábio homem muito inspirador uma vez disse que se você pode sonhar, pode realizar… 

- E posso saber quem foi seu muso da vez? 

- Walt Disney. - ele respondeu, com um sorriso, deixando-a sem palavras, e virou-se de volta para a lousa. 

Observando-o atentamente, e ouvindo Paula voltar correndo e gritando qualquer coisa sobre usar seu caderno de Frozen para as aulas, Raquel colocou-se sentada propriamente e tentou não se deixar derreter de amor ao perceber que ele havia mudado a frase na lousa para: Bienvenida, Hanói. Aquele plano com certeza seria o melhor deles.