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Pegada Ecológica

Summary:

Pegada Ecológica é um termo cunhado para designar o impacto, em medida de quantidade de água e terra, das gerações atuais no nosso planeta.

Não que Xue Yang dê alguma bola pra essa baboseira ambiental.
Mas que ele adora uma pegada ecológica, isso ele adora.

Notes:

Capa por Anebelle! (https://www.spiritfanfiction.com/perfil/Anebelle)

Aviso: sejam responsáveis, não usem certos produtos — ainda mais oferecidos por estranhos — em certas partes do corpo, tá ok?
obrigada.

Dedicando à @Anebelle pq ela ama SongXue e à @MelBronte por canonizar o Song Lan da moto elétrica no meu cérebro.

Work Text:

cover

Song Lan era um consumidor consciente. Sabia que muitas vezes apenas não havia escolha a se fazer, mas quando a possibilidade existia, lá estava ele, desdobrando-se pela opção mais ecologicamente correta. Namorou um monge por um bom tempo, entoando o hare krishna hare rama na praça juntamente com Xiao Xingchen, enquanto tentavam vender livros de receitas veganas pelo “preço que lhe parecer justo”. Uma briga grande aconteceu quando Song Lan descobriu que a editora responsável não apenas jogava os detritos das impressões em um rio próximo, mas que usava cola de origem animal para afixar as capas.

    Xiao Xingchen não via problemas naquilo. Precisava angariar fundos para o Templo de qualquer maneira, e sempre lhe respondia com um “as pessoas podem começar com escolhas pequenas para depois atingirem seu nível de iluminação, irmão Lan”.

    Irmão Lan o caralho. Era seu namorado, devia prestar mais atenção em suas necessidades e ser coerente com o que pregava!

    Não que Song Lan fosse um eco-chato extremista. Pelo menos esforçava-se para não ser um. Respeitava o “grau de iluminação” das pessoas, apenas não gostava da hipocrisia, motivo que o fez largar de vez os hare krishna e tornar-se engenheiro ambiental. Faria mais pelo planeta sendo ativo naquela empreitada e trabalhando pela natureza do que vendendo livros para engordar a poupança de Baoshan Sanren.

 

    Continuou sua vidinha, optando por locomover-se a pé, de bicicleta, usar o transporte coletivo e, em casos muito extremos, recentemente apelava para a moto elétrica. Era complicado fazer compras, pois sua pasta de dentes vegana em embalagem biodegradável era vendida em um lado da cidade, enquanto o xampu cruelty-free, no outro extremo. Nada que bons pares de sapatos com sola de pneus reciclados e laminado vegetal e suas inseparáveis sacolas de pano não resolvessem. 

    Também acreditava em uma boa alimentação. Precisava estar saudável para apoiar sua causa. Com as vitaminas certas em seu prato, atividade física e meditação, mantinha o corpo nutrido, apelando para chás e ervas ao menor sinal de resfriado, nunca deixando de faltar ao trabalho e correr o risco de ver alguém repassando um projeto que não houvesse revisado nos mínimos detalhes.

 

    Comia apenas um produto de origem animal, insubstituível em sua dieta: o rabo do novo namorado, Xue Yang.

 

     Xue Yang não dava a mínima para suas causas. Mas, ao contrário de Xiao Xingchen, não fingia importar-se. Foram algumas brigas até que acostumasse com as manias de seu novo amorzinho, que preferia andar em um confortável carro com bancos de couro que fazia uma média de seis quilômetros por litro de — socorro — gasolina, do que andar de bicicleta. Seu bem-querer também entrava em pânico cada vez que a palavra “ônibus” era mencionada. Por ele, Song Lan adquiriu a moto elétrica.

    Também nunca escondera que preferia ir a uma boa churrascaria do que comer aqueles salgados veganos vendidos em feira de produtos artesanais. Entretanto, não negava as iguarias que Song Lan o oferecia, virando um grande fã das balas de goma acácia, sem derivados de origem animal em sua fabricação. Na realidade, sentia-se mimado e adorado toda vez que Song Lan procurava pela opção sustentável que o agradasse. 

    A não ser por essas minúsculas questões, conseguiam manter um relacionamento saudável, concessões eram feitas por ambos, como no caso da moto elétrica e um ou outro hambúrguer de grão-de-bico. Porém, tudo começou com um repelente de mosquito.

 

    Song Lan chegava da trilha, faceiro. Iria apenas buscar a toalha em sua barraca e lavar o suor com um revigorante banho de cachoeira. Com o camping lotado àquela época do ano, não estranhou ao ver uma barraca pequena bem ao lado da sua. Suspirou, triste pelo tanto de peças de plástico que envolviam a fabricação da pequena tenda, comparando à sua, feita de lona de caminhão reciclada, mas seguiu para o seu banho.

Não podia tomá-lo como de fato gostaria, já que havia uma pessoa sentada sobre uma das pedras no meio da cachoeira. A calça jeans, inapropriada para o contato com a natureza, puxada até o joelho, os pés dentro da água. 

    

— Mo Xuanyu! Eu nunca mais faço nada pro safado do Meng Yao! Tive que montar aquela barraca pavorosa sozinho, não tem mais cabanas pra alugar. Ele disse que vinha, mas provavelmente está rindo da minha cara no maior conforto do mundo, lá com a Qin Su! Eu que aguente o Jin Zixuan se mostrando praquela pobre garota! Não que eu quisesse ficar perto dos dois, já que parecem dois adolescentes cheios de hormônio, mas o único lugar que achei era do outro lado do camping. Ah, pronto. Vai acabar a bateria. E eles ficaram com a extensão. Não sei nem como carregar meu celular. Isso. Se puder vir me buscar, ninguém vai dar bola se eu apenas sumir desse mato… O que? Você só volta na segunda? Tudo bem, eu espero. É, é… O casalzinho quer ficar até o outro final de semana. Isso se não morrerem antes por conta de alguma criatura selvagem...Ok, ok! Tchau!

 

    Song Lan não pode evitar de rir. Gostava de aproveitar suas folgas em atividades desse tipo e sempre encontrava um tipinho da cidade reclamando da selvageria que era ficar por entre as árvores. O predador mais perigoso que existiria naquele tipo de acampamento seria um ladrão de panelas ou algum desprevenido furtando mantimentos para não andar até a vendinha do Seu Ouyang.

    Entediado, Xue Yang amaldiçoou os amigos mais algumas vezes, até perceber a presença de Song Lan ali. Com uma risadinha amarela, abanou os dedos, querendo que um buraco abrisse e o levasse de vez, de preferência para um inferno urbano. Agora ainda passava vergonha na frente dos caras bonitos, tudo culpa de Meng Yao!

    E, falando em cara bonito, Xue Yang nem disfarçou com os óculos escuros, que continuavam no topo de sua cabeça. Ficou secando o carinha que mergulhava, de cueca, sem pudor algum. Se tomava banho ali, gostoso e seduzente, Xue Yang que não seria burro de não aproveitar a situação para dar uma boa olhada. Pelo menos até os mosquitos aparecerem.

    

No caminho de volta para a barraca, Song Lan escutava os gritos e o barulho detestavelmente característico de spray. O rapazinho da cachoeira ralhava com os insetos enquanto tomava um banho de repelente. A cada apertada naquele aplicador, um pedaço da camada de ozônio era consumida, assim como o coraçãozinho sofredor de Song Lan. ELe tratou de segurar o vizinho de camping pelo pulso, interrompendo aquele dano terrível à natureza.

— O que você está fazendo? Os mosquitos vão me comer vivo! Parece que quanto mais passo essa bosta, menos adianta!

— O aerosol não é a solução. Eu posso lhe ajudar.

 

Confiscando a embalagem para descartá-la corretamente, Song Lan apanhou uma garrafinha de vidro em seus pertences. Quando Xue Yang a abriu, sentiu o aroma cítrico, porém docinho que vinha daquele pequeno recipiente.

— Pra que isso?

— É repelente natural. Eu que fiz. Pode ver, não tem uma picada de mosquito em mim.

Na dúvida, arriscaria. Já era nítido que os mosquitos desrespeitavam sua opção industrializada, não custava nada tentar. Ainda mais com aquele vozeirão lhe dizendo o que fazer. 

— Viscosinho isso aqui, hein…

 

Agradeceu pela generosidade do moço, pensando que talvez fosse melhor voltar para o colchão inflável, aquele que levou uma eternidade pra encher. Já era noitinha e não queria virar comida de gambá. Porém, tão logo entrou na barraca, percebeu que a cama havia furado. Maldita natureza! E, pra ajudar, enquanto ajeitava o cobertor para poder deitar em cima do colchão murcho, ouviu um barulho amedrontador. 

Song Lan aparecia para lhe oferecer seu Powerbank carregado com energia solar, afinal de contas, ouvira a conversa enquanto se banhava. Parou em frente à barraca vizinha, pensando em como chamar pelo moço, mas antes que limpasse a garganta para soltar um "com licença", Xue Yang voou em sua direção.

Foi uma topada fenomenal, a velocidade do mocinho da cidade e o elemento surpresa derrubaram o pobre engenheiro ambiental. O projétil humano tinha lágrimas nos olhos e aproveitou o conforto daquele corpo para desabafar.

— Tem um sapo na minha barraca! Eu odeio o Meng Yao! Odeio o Zixuan! Odeio essa merda de camping!

 

Song Lan averiguou a situação. Era apenas uma pererequinha, que logo achou seu caminho de volta pro mato. Tarde demais. Xue Yang nunca mais entraria naquela barraca.

Com o passar das horas o friozinho chegava. O bom moço compartilhava suas sementes de girassol com a companhia, que enrolara-se em uma cobertinha livre de resquícios de sapinho, gentilmente cedida por Song Lan e fitava os próprios sapatos, rezando pela hora em que alguém o resgatasse daquele mato. Trocaram algumas palavrinhas.

 

— Vou embora amanhã, no ônibus da tarde. Podemos ir juntos.

 

O que seria pior? Esperar ali ou andar de ônibus? Se não fosse pelo incidente anfíbio, Xue Yang provavelmente esperaria. Entretanto, a saudade do chuveiro quentinho, docinhos de padaria e televisão já batiam fortes. E isso que chegara há poucas horas.

Song Lan tentou recolher-se. Não costumava dormir muito tarde, apesar de fazer hora para ver se Xue Yang voltaria para a barraca. Não o deixaria ali, passando frio. Tampouco teria uma outra coberta para ele próprio. O convite foi feito.

Dormir de calça jeans era algo incômodo. Como prezava por seu conforto, Xue Yang não demorou a tirá-la. Song Lan apenas retirou o moletom, fazendo um travesseiro para o então colega de barraca.

Xue Yang tinha um mau humor do cão, pensou que talvez fosse melhor achar uma maneira de descontar a raiva. Se não fosse a situação toda, já teria dado um jeito de esfregar o rabo em Song Lan. Como estava ali, vítima das circunstâncias e praticamente agarradinho ao carinha gostoso pra poderem ambos serem tapados pela cobertinha, não via o porquê de não tentar.

— Ei. Minha estadia aqui já está uma merda. Não quer fazer algo melhor?

Claro, Song Lan pensou que seu hóspede reclamava pela ausência de um colchão inflável ou de espuma, ao invés disso dormia em um tapetinho de yoga feito com garrafa pet reciclada. Tinha forro, também confeccionado com o mesmo material. Era confortável, não havia motivos para desdenhar de sua humilde cama.

Tentou virar-se, mas Xue Yang ja sentava por cima de seu corpo.

— Meus amigos estão todos trepando. Dois lá do outro lado do camping, dois na cidade e outro lááá em Qinghe. Eu estou aqui fodido mas não satisfeito. E você com tudo isso aí pode se divertir também. O que acha? — Seguro de si, afinal de contas era um cara muito bonito, Xue Yang logo tirou a roupa. — Se não quiser transar, vai ter que ficar abraçado igual. Só consigo dormir se estiver pelado e vou passar muito frio se você não me esquentar.

— Você quer fazer sexo? Aqui? Agora?

 

Xue Yang interpretou aquilo como um sim. E, de fato era. Song Lan sempre quis trepar numa barraca, ouvindo o barulho da natureza ao fundo. Havia transado algumas vezes ao ar livre, mas nunca à noite, já que Xiao Xingchen tinha toque de recolher no templo. Quando acampava, era sempre sozinho.

E o carinha era bonitinho.

Não precisaram chegar a um acordo verbal, pois logo Xue Yang deu um jeito de beijar Song Lan. Em algumas mordidas mais fortes, já estavam ambos nus. O dono da barraca tinha mais grandes e fortes, que cumpriam muito bem o papel de agarrar as carnes de Xue Yang, deixando até mesmo algumas marcas para o dia seguinte. Bem do jeitinho que o rapaz que tinha medo de sapos gostava. 

Os anos de Hare Krishna também foram importantes para desenvolver a paciência de monge no engenheiro. Ele provocava Xue Yang até fazê-lo implorar. E ouvir aquele "Me fode, Song Lan, me fode de uma vez", justamente no cenário onde tantas vezes aliviara-se solitário, ouvindo o canto dos insetos, o deixava enlouquecido. Estava, de fato, se divertindo bastante.

Com algum esforço para alcançar o jeans, Xue Yang apanhou uma camisinha na carteira. Ainda sofreu bastante na mão de Song Lan, mas antes de ser penetrado fez um pedido inusitado.

— Podemos usar seu repelente? Deve dar um bom lubrificante. Não tem veneno, né? Coisa natural e etc.

Xue Yang acordou no outro dia cheio de marcas. Chupões, mordidas, arranhões. O cheiro de sexo na barraca, juntamente com um leve aroma cítrico. Era até um tanto quanto docinho o tal repelente. Dormira sobre o peito de Song Lan. Enquanto parecia ter sido atropelado por uma manada, o boy permanecia intacto, a menos do cabelo bagunçado.

A expressão no rosto de Song Lan era serena. Xue Yang tentou voltar a dormir, mas logo ouviu vozes conhecidas. 

Já era perto do meio-dia quando Meng Yao encontrou a barraca. Deu alguns cascudos na cabeça do meio-irmão, que estava tão ocupado trocando beijinhos com Jiang YanLi que nem sabia onde Xue Yang montara acampamento. Encontraram a cena toda revirada, barraca caída, embalagens de bala por entre os pertences do amigo.

Mas o par de tênis impecavelmente brancos dedurava a estadia no vizinho.

Ainda pelado, mais puto do que nunca, Xue Yang despertou Song Lan com os impropérios que desferia contra os amigos. Filho da puta era o mais básico deles, usado apenas contra o rapaz de boné marrom.

Song Lan arrumava seus pertences com paciência, os organizando na mochila de tecido, enquanto seu amante de uma noite gritava com os outros quatro — os fazendo organizar seus pertences —, decorando o sermão. "Se não fosse meu bom amigo Mo Xuanyu, que está lá na casa do caralho, vocês nem se lembrariam que eu existo! Yao, você é um grandíssimo filho da puta!"

Ao tentar despedir-se, porém, houve a proposta da carona.

O engenheiro não gostava de andar de carro, mas o combustível seria consumido de qualquer maneira. Assim chegava cedo em casa e poderia preparar-se para a semana de trabalho, ao menos.

Sentou-se no banco de trás, com Xue Yang o abraçando durante a viagem. Até trocaram alguns beijinhos enquanto as garotas pediram para Yao parar no caminho, por questões sanitárias. Beijinhos bem gostosinhos. Era uma pena que não pudessem continuar aqueles amassos, pois Zixuan logo retornara com sua gatinha, sentando-se perto até demais. Era pouco banco pra muita bunda.


 

Song Lan precisou atender à uma conferência sobre qualidade do ar em Gusu, mas quando retornou para seu lar, encontrou Xue Yang. Com a desculpa de buscar mais repelente multiuso milagroso, logo marcaram uma visita. E outra. Enfim, Song Lan arrumara um cachinho. E estava muito feliz por isso, produzindo muitos frasquinhos de lubrificante para usar com o namoradinho. 

Não era uma relação estritamente cruelty-free, já que o dito namoradinho gostava de umas cositas más fuertes. Tampouco era vegana. Produzia alguns detritos e consumia bastante água, especialmente depois de furunfarem.

Mas era muito da sustentável.

Ah, isso era.

 

 

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