Work Text:
(não voe)
Mover-se por entre as árvores é um jogo rápido, uma questão de profissionalismo e agilidade — sobrevivência. Não há tempo para se empoleirar num galho e cantarolar uma melodia alegre… quer dizer, se nem sequer há tempo para sacudir as penas e livrá-las desse sangue incômodo como haveria de surgir-me a oportunidade de ser um pássaro de verdade?
(não olhe)
Manter os olhos juntos, direcioná-los apenas para o objetivo principal, sempre à frente, jamais para os lados — ignorar. Deixar para trás os outros pequenos pássaros, aqueles que foram depenados, esmagados, que mancharam a floresta de vermelho e agora com os olhos abertos choravam as lágrimas silenciosas da morte.
(não pie)
Amarrar os falecidos — como se suas asas já não tivessem sido arrancadas de seus corpos há muito tempo. Observá-los cobertos por trapos ensanguentados enquanto eram empilhados uns em cima dos outros, eram todos iguais agora.
Não há motivo para derramar lágrimas pelos mortos.
Suas almas estão livres para voar pelo céu azul.
Seus olhos movem-se para todas as direções admirando o Paraíso.
Seus cantos ecoam ao longe, choram pelos que ficaram, pelos vivos.
Estão livres da gaiola em que a vida os prendera, livres para sempre.
Não estão?
(não pense nisso)
