Work Text:
Continuar indo aos ensaios da orquestra era torturante, para não dizer outra coisa menos educada e infinitamente mais vulgar. Kaworu posicionava o violino na altura do queixo perfeitamente, fechava os olhos com delicadeza, encantava a todos com seu talento — ninguém imaginava que seu desejo era atravessar seu pescoço com o arco cada vez que as notas da partitura se transformavam na melodia de Johann Pachelbel.
A composição favorita de Shinji — O Cânone em Ré Maior.
Kaworu não tinha coragem de olhar para o violoncelo há meses, ouvia o som do instrumento, isso era inevitável, mas se olhasse teria de enfrentar a ausência de Shinji e o fato de que ele o abandonara para nunca mais voltar.
Havia outros sinais além daquele, claro.
O telefone que nunca tocava.
A caixa de correio vazia.
Mas o violoncelo era o que mais doía-lhe, Shinji sempre tocava-o com maestria ao seu lado. Kaworu e ele partilhavam o mesmo estado de transe provocado pela música, encontravam-se na viagem que os sons faziam através do ambiente, comunicavam-se com as cordas, eram as verdadeiras estrelas da orquestra, sempre em sintonia.
E agora estava tudo acabado, porque Shinji era tão complicado quanto uma peça de Franz Liszt para piano.
Uma peça que Kaworu preferia estar ensaiando — estava disposto a abandonar o violino, pois o Cânone destruía-lhe os nervos e o que restava de suas boas memórias com Shinji.
"Por que, Shinji?"
"Por que você me deixou?"
Lágrimas rolavam sutilmente por sua face pálida, mas sua mão continuava guiando o arco pelas cordas, provocando a melodia que Kaworu não mais aguentava escutar.
E então a música parava, o alívio vinha e Kaworu respirava, por um momento livre de toda aquela memória afetiva.
Por um único momento, um intervalo de dez minutos a cada ensaio.
Depois disso, Kaworu retornava, mais desanimado e menos preparado para tocar a sua ruína. Não conseguia abandonar a orquestra no entanto, sonhava com o dia em que Shinji fosse voltar e assumir sua posição no violoncelo, bem ao seu lado.
Sonhava, iludia-se, e não tinha qualquer pudor sobre isso.
Kaworu posicionava o violino na altura do queixo perfeitamente, fechava os olhos com delicadeza, encantava a todos com seu talento…
— Mais uma vez, turma — dizia o maestro.
