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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2020-07-25
Words:
371
Chapters:
1/1
Kudos:
4
Hits:
58

Cânone Em Ré Maior

Summary:

Kaworu posicionava o violino na altura do queixo perfeitamente, fechava os olhos com delicadeza, encantava a todos com seu talento...

Notes:

Fanfic de 2020

Work Text:

Continuar indo aos ensaios da orquestra era torturante, para não dizer outra coisa menos educada e infinitamente mais vulgar. Kaworu posicionava o violino na altura do queixo perfeitamente, fechava os olhos com delicadeza, encantava a todos com seu talento — ninguém imaginava que seu desejo era atravessar seu pescoço com o arco cada vez que as notas da partitura se transformavam na melodia de Johann Pachelbel.

A composição favorita de Shinji — O Cânone em Ré Maior.

Kaworu não tinha coragem de olhar para o violoncelo há meses, ouvia o som do instrumento, isso era inevitável, mas se olhasse teria de enfrentar a ausência de Shinji e o fato de que ele o abandonara para nunca mais voltar.

Havia outros sinais além daquele, claro.

O telefone que nunca tocava.

A caixa de correio vazia.

Mas o violoncelo era o que mais doía-lhe, Shinji sempre tocava-o com maestria ao seu lado. Kaworu e ele partilhavam o mesmo estado de transe provocado pela música, encontravam-se na viagem que os sons faziam através do ambiente, comunicavam-se com as cordas, eram as verdadeiras estrelas da orquestra, sempre em sintonia.

E agora estava tudo acabado, porque Shinji era tão complicado quanto uma peça de Franz Liszt para piano.

Uma peça que Kaworu preferia estar ensaiando — estava disposto a abandonar o violino, pois o Cânone destruía-lhe os nervos e o que restava de suas boas memórias com Shinji. 

"Por que, Shinji?"

"Por que você me deixou?"

Lágrimas rolavam sutilmente por sua face pálida, mas sua mão continuava guiando o arco pelas cordas, provocando a melodia que Kaworu não mais aguentava escutar.

E então a música parava, o alívio vinha e Kaworu respirava, por um momento livre de toda aquela memória afetiva.

Por um único momento, um intervalo de dez minutos a cada ensaio.

Depois disso, Kaworu retornava, mais desanimado e menos preparado para tocar a sua ruína. Não conseguia abandonar a orquestra no entanto, sonhava com o dia em que Shinji fosse voltar e assumir sua posição no violoncelo, bem ao seu lado.

Sonhava, iludia-se, e não tinha qualquer pudor sobre isso.

Kaworu posicionava o violino na altura do queixo perfeitamente, fechava os olhos com delicadeza, encantava a todos com seu talento…

— Mais uma vez, turma — dizia o maestro.