Chapter Text
Kyungsoo acordou naquela manhã com uma estranha vontade de caminhar pela cidade. As cortinas de seu quarto, ainda que fechadas, se moviam com o vento que entrava de sua sacada, o sol fraco, em consequência de toda a poluição da metrópole, invadindo um pedaço de sua cama. Era um dia até que animado.
Jiji deitou em seu peito, o rabo felpudo e preto incomodando o nariz do rapaz, o fazendo rir pela forma fofa que seu gato o queria fazer levantar. Olhou para o despertador, ainda era cedo, mas sabia que não conseguiria mais dormir.
Levantou, se espreguiçando ao lado da cama, indo direto para a cozinha. Arrumou a ração de Jiji em sua vasilha vermelha, já decidindo se comeria um pão torrado com café ou o resto da pizza que tinha pedido noite passada. A pizza de quatro queijos com um café ao leite comum foi uma boa escolha, tudo isso, regado ao belo som de uma música desconhecida que o vizinho de cima tocava em seu violão. Já fazia um tempo que passara a preferir o som do violão de seu vizinho pela manhã do que o jornal que, a cada dia, mostrava mais tragédias.
Fez a sua caminhada diária calma pelo seu bairro, uma música leve tocando em seu fone de ouvido e, quando voltou, percebeu que já devia estar se arrumando para o estágio. Estava finalmente fazendo a sua graduação em medicina veterinária, não via a hora de se livrar das horas de estudo. Queria poder trabalhar em horário integral com aquilo que mais amava, o que tinha certeza que logo aconteceria.
Durante a noite, quando finalmente chegou de seu dia cansativo, um banho quente e uma boa janta não foram o bastante para o fazer relaxar.
Da mesma forma que não via a hora de receber seu diploma, também não conseguia parar de pensar sobre. Seu TCC já estava pronto, mas toda vez que o olhava sentia que faltava algo, que não estava tão bom como o seu professor elogiou.
E não apenas isso. E se nunca conseguisse abrir a clínica que sempre sonhou? E se não se interessasse mais pela área? E se desistisse em algum momento da vida? O que iria fazer? E se ficasse desempregado? Onde moraria? Não queria voltar a morar no interior, amava o seus pais, mas sabia que aquele lugar não era para si. E se o dinheiro não fosse o bastante?
Muitas dúvidas rondavam por sua cabeça, pensamentos incessantes que o enxiam de pânico. Por isso, decidiu, após a janta, sentar no tapete da sala e seguir uma recomendação de sua psicóloga.
Deixou a televisão ligada no jornal da noite, o volume baixo para não atrapalhar. Juntou as pernas e respirou fundo, o exercício de respiração sempre lhe ajudava a aliviar a enxurrada de pensamentos.
Fechou os olhos. O barulho que vinha da TV parecendo apenas um leve ruído. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira...
Mas, daquela vez, não adiantou. Pelo contrário, tudo ficou muito pior, como tudo que se encontrava em 2020. O ano que era para ser um sucesso para todos, o famoso “esse vai ser o meu ano” que dissemos no Ano Novo. Entretanto, tudo tinha a capacidade de piorar na virada da década, e foi o que aconteceu.
No jornal, o homem engravatado anunciava que a doença que assombrava toda a China, infelizmente, começara a aparecer pela capital Sul-Coreana. Todos podiam pegar, desde crianças e adultos a idosos. Ela podia se mostrar de formas diferentes para cada um, e ninguém estava totalmente seguro e imune.
Kyungsoo arregalou os olhos, o desespero crescendo dentro de si próprio, um choro entalado na garganta, a respiração voltando a falhar. As próximas noites foram bem longas.
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Chanyeol estava em uma entrevista de emprego quando a quarentena foi anunciada na cidade de Seul. O recém-formado em engenharia mecânica, estava finalmente procurando um emprego após anos estudando sem parar e chorando pelos cantos da faculdade. 2020 era para ser o seu ano, onde conseguiria, finalmente, um emprego fixo, compraria um carro com os primeiros salários e, talvez, até conseguisse um namorado. Mas, pelo visto, a vida não era bem assim.
Quando a doença começou a surgir, todos os países com grande número de casos decretaram a quarentena, o isolamento social, apenas os trabalhadores essenciais saíam às ruas enquanto o resto da população se mantinha em casa, cuidando-se.
Chanyeol sabia que se caso a doença chegasse a Coreia também seria assim, por isso não ficou tão chocado com o anúncio. Aceitou que ficaria em casa por uns quinze dias até os casos diminuírem e depois voltaria a sua procura por emprego sem mais problemas, não tinha como um vírus que surgira na China resistir ao clima úmido de Seul.
Foi ao mercado que tinha em seu bairro comprar alguns alimentos que estavam faltando em sua casa, aproveitando para pegar alguns doces e salgadinhos a mais para aproveitar enquanto estivesse em casa. Havia muitas pessoas lá, estava totalmente cheio. Pessoas desesperadas comprando sacos de comida, papel higiênico e qualquer besteira que julgavam útil. As comidas faltavam nas prateleiras e tudo parecia um caos.
Chanyeol julgava estar em meio a um apocalipse zumbi, pelos gritos e confusão que via e ouvia. Comprou o que conseguiu, tentando ser o mais rápido possível para não se meter em nenhuma confusão enquanto estivesse ali.
Quando chegou em casa, já era final de tarde. Tomou um banho e fez um prato de miojo para comer enquanto assistia ao jornal. Sentia o medo. Sentia o caos. Sabia que era importante estar protegido e não sairia de casa até tudo aquilo acabar. Mas também sabia que as mídias não estavam colaborando em nada, apenas piorando o desespero da nação. Ainda assim, naquela noite, não conseguiu pregar os olhos uma única vez, pensando em como ficaria o mundo depois dessa confusão.
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Kyungsoo havia ligado para a sua psicóloga uns dias antes do anúncio sobre a quarentena, expressou todos os seus medos sobre a pandemia, queria ficar mais calmo, dormir bem, conseguir pensar em algo além das mortes, dos sintomas, parar de se preocupar um pouco com as pessoas que amava. Sabia que não poderia surtar, estava em casa, sozinho — que Jiji não ouvisse esse pensamento —, não queria mais pensar sobre isso, e apenas sobre isso, vinte e quatro horas por dia. Precisava se acalmar. Precisava manter uma rotina, mesmo estando em casa.
Sua psicóloga receitou que seguisse bastante hobbies durante aquele tempo, algo que gostasse muito de fazer antes da pandemia, ou então tentar descobrir coisas novas que talvez gostasse e nunca saberia sem possuir aquele tempo livre. Ter algo para fazer o ajudaria a focar os pensamentos, tirando o poder que a doença estava tendo sobre ele desde que a pandemia começara.
Por isso, na tarde em que a quarentena em Seul foi decidida, Kyungsoo decidiu correr para uma floricultura. A senhora que vendia as plantas até mesmo ficou confusa. Multidões estavam correndo desesperadas para os mercados, comprando mantimentos que durariam por meses, se contar a quantidade em que eram levados. Então, por que um jovem de vinte anos foi até a sua loja comprar o máximo de mudinhas que pudesse levar?
Ainda assim, ela o vendeu tudo que foi escolhido com um sorriso estampado no rosto coberto por uma máscara fofa de florzinha. Quanto mais dinheiro tivesse, melhor.
Kyungsoo comprou um amor-perfeito, já que achava as flores fofas. Uma costela de adão, suculentas e cactos não poderiam faltar. Temperinhos básicos que poderia usar na cozinha, para exercer outro de seus hobbies, como cebolinhas e salsinha. Comprou folhas de menta também, seriam úteis. Mas o que mais achou diferente encontrar foram flores de lavanda, as quais com toda certeza resolveu levar.
Achou incrível que a senhora também lhe ofereceu vasinhos para colocar os cactos e suculentas e também uma terra bem fofa para ajudar no plantio.
Chegando no prédio, cumprimentou o porteiro - que o ajudou a abrir a porta -, indo direto para o elevador. Ficou tão focado em ajeitar as plantas no chão da caixa de metal que mal percebeu a entrada de outra pessoa.
— Boa tarde! — uma voz um pouco mais grossa que a sua foi possível escutar, fazendo o Do desviar os olhos das sacolas no chão para encarar o homem mascarado à sua frente. Sabia que era o seu vizinho de cima, não havia ninguém daquela altura e com aqueles olhos expressivos em todo o prédio. Kyungsoo custava a dizer que nunca conhecera alguém como ele.
— Oi, boa tarde! — sorriu, mesmo sabendo que a máscara preta cobriria aquele detalhe, mas, pelas bochechas levantadas, o mais alto acabou retribuindo o ato.
Quando o elevador parou em seu andar, Kyungsoo foi rápido em recolher as sacolas do chão e as ajeitando nos braços. Até mesmo pensou em pedir a ajuda do vizinho por estar muito pesado, mas, ao ver as sacolas estampadas com a logo do mercado do bairro, o rapaz apenas se despediu do vizinho com um acenar de cabeça.
Chegou em casa estranhamente feliz, iria aproveitar o resto do sol da tarde, que ainda tinha, para plantar as mudas que precisavam de claridade nos vasos que já possuía. Por morar em uma kitnet, a única sacada que tinha estava em seu quarto e era bem pequena, mas isso não o deixou menos animado. Aproveitou a estante de madeira que já estava lá e plantou os temperos, os dentes-de-leão, uma das suculentas maiores e as lavandas em vasos que comprou na floricultura. Deixou ali também a sua costela de adão que já viera em um vaso, por isso nem trocou.
As outras suculentas e cactos plantou em vasinhos que já tinha, deixando alguns ali e outros espalhados pela casa para mudar um pouco a decoração.
Ao final do dia, depois de regar cada uma de suas novas plantinhas, já todo sujo de terra e suor, Kyungsoo tomou um banho relaxante e assistiu a um filme na Netflix. Quando se deitou na cama percebeu que estava exausto pelo esforço da tarde, porém feliz por não ter pensado tanto sobre a doença que lhe assustava, conseguindo se concentrar no que gostava. Naquela noite, dormiu bem depois de muitos dias caminhando entre sonos desregulados.
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Já faziam quase quatro semanas desde o início do isolamento social. Um mês ao qual Chanyeol se encontrava preso em casa e sem nenhuma fonte de renda. O dinheiro, que havia guardado para dar a entrada em seu primeiro carro, estava sendo usado para comprar os alimentos mais baratos que o rapaz conseguisse achar, ou seja, estava sobrevivendo a base de besteiras e macarrão instantâneo, já que, mesmo sabendo cozinhar razoavelmente, os vegetais estavam cada dia mais caros. Chanyeol também tinha que pagar as contas e não queria ter que pedir dinheiro emprestado aos seus pais, por isso se contentava em comer qualquer besteira.
Chanyeol torcia para que não demorasse a voltarem ao normal. Precisava de dinheiro, da sua vida de volta, de um emprego, de coisas banais que o faziam feliz como ir a encontros de anime ou então a exposições de carros antigos. Queria sair para festas, ver os amigos, gastar dinheiro com coisas que não precisava e se arrepender depois, beijar na boca, ganhar carinhos, essas coisas sabe. Estava tão carente que Sehun não o aguentava mais, tendo que ouvir suas falas manhosas e reclamonas durante as chamadas de vídeo.
— Sehun, você não entende, eu não aguento mais olhar para as paredes mixurucas desse apartamento sem graça!
— É só não olhar pra elas, ora. — Sehun falou, com tédio, nem prestando mais tanta atenção assim nas reclamações do amigo, fazendo Chanyeol bufar, decidindo ignorar o comentário.
— Parece que não era eu que morava aqui, sabe?! Tudo branco e sem decoração nenhuma. Como eu pude passar quase quatro anos em um apartamento assim?
— Você mal parava em casa, Chanyeol, e, quando ia, era para capotar de sono. Aquelas aulas acabavam contigo.
— Verdade... ai, hunnie, eu só queria sair de casa. Acho que estou enjoado daqui. — A voz manhosa do Park apareceu, fazendo Sehun revirar os olhos pelo drama do amigo, ele já havia repetido aquela mesma frase umas três vezes só naquela noite.
— Chan, você sabe que-
— É, eu sei que eu não posso enloucar e sair de casa, sei como tudo isso é perigoso. Eu só não queria... ter que ficar por aqui, mas não posso fazer nada em relação a isso.
Sehun sentiu o desânimo na voz do amigo, sabia como ele se sentia, estava exatamente igual. Ficar em casa sozinho, sem ninguém para conversar e nada para fazer não motivava ninguém, fazia-o se sentir cansado mesmo ficando o dia inteiro parado, além de triste, inútil, desmotivado. Queriam suas vidas de volta, mas não podiam fazer nada em relação a isso, apenas aceitar e seguir, pois, sabiam que estavam seguindo na direção certa, precisavam ficar em casa para que um dia pudessem voltar ao normal.
Por isso, Sehun colocou um sorriso compreensivo no rosto e tentou fazer o máximo para deixar o amigo, no mínimo, animado.
Já era quase madrugada, e sabia muito bem como Chanyeol não estava conseguindo dormir ultimamente. O mais velho foi diagnosticado com insônia ainda na adolescência, tomando remédios para conseguir dormir tranquilo e sem interrupções por algumas horas. Mas, durante o isolamento, Sehun percebeu como o Park estava dormindo pouquíssimo, sempre inquieto, um sono leve e irregular, por conta da preocupação e de estar se movimentando muito pouco durante o dia.
E, quando o sono era reduzido, Chanyeol ficava irritado e reclamão, como estava sendo agora. Sehun não gostava de ver o amigo assim, queria trazer pelo menos alguma felicidade para ele, mínima que fosse, naquela noite.
— Ei! Bora jogar among? — o Oh convidou o amigo com um carinho implícito na voz, fazendo Chanyeol soltar um sorriso bonitinho e animado.
— Eu sou o verde claro, nem vem.
— Mas eu sempre sou o verde claro, mané.
— Você é porque não me deixa usar, agora é a minha vez. E você nem gosta de verde. — Chanyeol já estava abrindo o jogo que baixara em seu notebook, rindo das reações do amigo.
— Claro que gosto! — Sehun quase berrou em indignação, mas tinha respeito por seus vizinhos.
— Vai de ciano então.
— Ciano nem é verde Chanyeol, se vê que é daltônico. — Sehun já criava uma sala, reclamando sem parar, fazendo o Park rir alto do outro lado da ligação.
Podiam se xingar aos montes, mas ambos carregavam um sorriso feliz no rosto, a sensação de conforto que sentiam era melhor que qualquer coisa.
Após partidas, reclamações, xingamentos e assassinatos pelo jogo, Sehun se despediu de Chanyeol dizendo que estava caindo de sono, o mais velho lhe desejou um boa noite e um cuidado com os espíritos que podiam puxar seu pé durante a noite, ouvindo um carinhoso vai se foder vindo do amigo medroso que era Oh Sehun.
As noites ficavam cada vez mais quentes durante aquela primavera, por isso, o Park deixou a porta da sacada de seu quarto aberta naquela noite, vendo a cortina clara se movimentar pelo vento fresco que entrava por seu quarto, deixando o ambiente muito confortável para se dormir por horas seguidas.
Chanyeol queria ter esse privilégio de dormir uma noite inteira e acordar renovado, almejava tanto todas as noites que pegasse no sono e só acordasse quando o sol estivesse alto no céu. E naquela noite não foi diferente.
Chanyeol deitou sobre a cama macia de lençóis feitos de algodão, ajeitou o travesseiro, fechou os olhos e respirou fundo, sentindo um cheiro doce e floral inundar o seu quarto junto ao vento e ao estranho silêncio que havia se tornado a capital durante as noites de isolamento.
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— Bom dia, meu pequeno. Dormiu bem? — Kyungsoo perguntou com um sorriso animado, ainda deitado em sua cama aproveitando os seus últimos minutinhos de preguiça, recebendo apenas um miado fofo e baixinho do gato preto — Miau pra você também.
Respirou fundo, esticando-se na cama macia, adorava acordar de bom-humor. Levantou-se e, em menos de cinco minutos, estava na cozinha fazendo o seu pão torrado e cantando uma música da qual nem se lembrava o nome. Jiji comia a sua ração sem nem prestar atenção no dono, que parecia fazer um show na cozinha.
Tomou seu café e foi direto para a sacada onde tinha suas plantinhas.
— Bom dia! — mesmo sabendo que não recebia respostas gostava de falar com elas enquanto as regava, conforme a necessidade de água de cada uma, cantarolando baixinho e sendo o mais delicado possível — Hoje eu vou tentar fazer tricô, achei uma agulha perdida aqui em casa, vai que eu consiga fazer aqueles cachecóis enormes iguais aos da mamãe — Kyungsoo contava animado para as plantas, ajeitando a terra de seus temperos — espero que dê tudo certo.
Após tomar um pouco de sol ali mesmo e ler um pouco de seu livro, contando sobre o enredo animado para as suas plantinhas e Jiji — que decidiu dar o ar da graça de sua companhia — Kyungsoo ajeitou-se em seu sofá com as duas agulhas perdidas que havia achado e um rolo velho de lã e entrou em chamada de vídeo com seu amigo Minseok, que aceitou ensiná-lo como tricotar.
— Que cara de sono é essa? — Kyungsoo questionou depois de ver as olheiras enormes que o amigo carregava abaixo dos olhos, além de um semblante completamente cansado.
— Catarina entrou no cio e eu tive que aguentar ela miando a noite toda enquanto segurava ela para não fugir pra ver aquele gato do vizinho, parece que ela tem um imã com esse gato safado que só quer desvirginar a minha filha. — o Kim reclamou completamente irritado, fazendo Kyungsoo ter que segurar a risada.
— Mas ela já não engravidou dele?
— Por isso mesmo, gato tarado que só quer a minha nenê quando ela tá no cio, ela não merece um macho desses, que depois do calor do momento abandona ela.
Novamente, Kyungsoo teve que segurar a risada, não era bom afrontar Minseok quando ele estava irritado.
— Você acha que consegue me ensinar hoje? Não acha melhor descansar?
— Não, eu te ensino um pouquinho, até você pegar o jeito, depois eu vou dormir.
O Do apenas assentiu, fazendo Minseok pegar as suas agulhas e lhe mostrar como começar. Seguindo com os mesmos movimentos de separa a linha, pega a outra linha com a agulha e passa por baixo dessa linha separada, os mesmos passos, em sequência, com uma agilidade inigualável, formando uma carreira de pontos em uma das agulhas.
Enquanto isso, Kyungsoo sofria para conseguir até mesmo separar a linha, se atrapalhando e perdendo o ponto muitas vezes. Suspirou alto e largou as agulhas no próprio colo, fazendo um bico de frustração.
— Cansei, eu não consigo fazer isso. Achei que fosse muito mais fácil.
— Calma, Soo. Olha, é assim mesmo no começo, até pegar a prática, depois você vai ver como é muito simples. Essas coisas se aprendem com calma.
Kyungsoo suspirou mais uma vez, estava muito animado para tudo aquilo, achava que conseguiria de primeira, mas não foi bem assim. Minseok tentou dar uma animada no amigo dizendo que, talvez, comprar uma linha nova o ajudasse a fazer mais fácil e, contando de uma forma muito divertida, a primeira vez que tentou tricotar. No final, os dois se despediram com o Kim quase dormindo ali mesmo.
O Do assistiu um pouco de TV, fez o almoço e, à tarde, decidiu que iria ao mercado. Estava faltando muita coisa em casa e a ração de Jiji já estava acabando.
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Naquele mesmo dia, quando Chanyeol acordou, percebeu que dormiu a noite inteira. Um sono bom, que o deixou bem descansado e, até mesmo, mais animado. E depois de tomar o seu café, foi até a varanda do próprio quarto, onde — enquanto tocava o seu violão — sentiu novamente aquele cheiro doce e floral, que o lembrava a primavera. Mas, principalmente, lembrava do campo, da fazenda de sua avó, onde ela tinha, junto a grande plantação de arroz, um longo campo cheio de flores roxas e cheirosas, que, por coincidência, tinham o mesmo cheiro ao qual sentira na noite passada.
E após uma semana sentindo o mesmo aroma primaveril e dormindo umas cinco horas por dia — o que já era maravilhoso, já que não tinha mais o sono interrompido —, que Chanyeol pensava seriamente na possibilidade de ser aquele cheiro doce que o ajudava a relaxar pela noite.
Ainda durante aquela semana, Chanyeol tomou a decisão de pedir um pouco de dinheiro emprestado aos seus pais. Não conseguia mais viver a base de porcarias e, ainda por cima, seu remédio para insônia estava acabando. Não queria ter que fazer aquilo, mas a falta de renda estava quase o matando, prometeu a eles devolver cada centavo do que havia pegado.
Estava levando as sacolas de lixo até a lixeira coletiva do prédio. A máscara já estava começando a incomodar, já que agora era o calor que dominava a capital e, com o clima cada vez mais abafado, usar aquilo estava o deixando com dor de cabeça.
O elevador parou no andar de baixo, onde o mesmo homem mais baixo que si entrou, esboçando um sorriso no rosto — ou era o que parecia já que ele estava usando máscara — e o cumprimentando gentilmente.
Chanyeol lembrava-se vagamente do rosto dele, era bonito, muito bonito para falar a verdade, sempre gentil, achava ele uma boa pessoa, custava dizer que talvez sentisse certa atração pelo seu vizinho de baixo, mas ignorava esse detalhe muito bem.
Naquele dia o elevador parecia mais lento, como se demorasse mais a descer. Foi quando, em algum momento onde o mais baixo se aproximou um pouco mais de si para apertar o botão da portaria, que o Park sentiu um cheiro doce, floral, primaveril, que o lembrava o grande campo de flores roxas na fazenda de sua avó.
No momento em que Chanyeol finalmente assimilou que o rapaz tinha o mesmo cheiro que estava o acalmando e o ajudando a dormir durante a noite, a porta pesada do elevador se abriu, o vizinho despediu-se de si e o Park nem respondeu, atônito demais.
Ao chegar em seu apartamento, o rapaz mais alto discou o número de Sehun, ainda muito pensativo sobre tudo que acabara de acontecer. Quando a chamada foi atendida, Chanyeol mal deixou Sehun falar.
— Preciso de seus dons de detetive urgentemente.
