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A Incógnita

Summary:

Ao se deparar com o questionamento de se ama ou não Saotome Mary, Ririka começa uma corrida para descobrir o que de fato é o amor antes que seja tarde mais e acabe magoando a única e mais especial amiga. Com a ajuda de sua irmã, a garota tem 3 dias para encontrar, de uma vez por todas, uma definição boa o suficiente para aquele sentimento. Será que a Momobami consegue?

Notes:

YO!
Essa é minha primeira fanfic aqui no ao3 (e minha primeira no fandom de Kakegurui), por isso eu estou MUITO ansioso por isso. Eu espero que vocês gostem e que se divirtam, mas acima disso, que entendam a mensagem. Obrigado por passarem para ler e é isso.

OBS: o que está em itálico, é flashback.

BOA LEITURA! ^^

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O amor é filho da riqueza e da pobreza: da riqueza por constantemente dar, e da pobreza por constantemente pedir. Platão falara isso há anos e anos. Mais tarde, também Lacan disse: amar é dar o que não se tem para alguém que não o quer. E então veio Freud e soltou que amor é cura, mas também é loucura. Talvez, se espremer um pouco, encontre a resposta para o que amor desejo é. Mas com a ideia de que algo é “algoritmo independente”, vem a ideia de que tem de ser igual a todos. E o problema parecia apenas se multiplicar para encontrar algo que coubesse a todos.

Shakespeare, o amor como a única loucura de um sábio e a única sabedoria de um tolo. Pois então, quem sabe, fosse verdade. Porém, daria ela credibilidade ao homem que escreveu um romance de pouco mais de três dias entre um casal que acabou em uma tragédia com a morte dos envolvidos? Um brasileiro certa vez disse: “cada qual ama a seu modo, o modo pouca importa. O essencial é que saiba amar ”. Machado de Assis, portanto, concordaria com ela de que para encontrar uma resposta “verdadeira”, seria contrariar o que é amor. E se o amor era mesmo loucura e era mesmo sabedoria, faria sentido dizer que dependia de que modo estava sendo vivido.

Mas que modo é esse? E se há mesmo um modo, por que não pode ser igual para todos? Por que não podem ser a mesma coisa para todo mundo? Seria mais fácil, certo? Assim, todos saberiam quando amam e, portanto, todos saberiam quando odeiam. Afinal de contas, o que é o ódio se não o oposto ao amor? Se amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior e, o ódio, uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior como Spinoza dissera, parecia-lhe plausível acreditar que seriam opostos.

–– Está fazendo aquela cara de novo.

Os olhos abriram um pouco mais, arregalando levemente com a voz que lhe arrancou dos pensamentos próprios. Ela fitou a dona da outra voz, apenas para grunhir e se afastar em um pulo com uma careta de desprazer. A garota a sua frente segurava um sapo em suas mãos, estendendo-o próximo demais do rosto da outra. Nojento.

–– Kirari! - brigou, colocando um braço entre elas.

A menina riu, colocando o bicho dentro do grande retângulo de vidro, fechando a parte de cima. As duas meninas se acocoraram de frente para o aquário, observando o sapo pular de um lado para o outro em falhas de fugir. A garota de cabelos prateados amarrados em tranças ao seu lado estendeu o braço, o dedo indicador chocando contra o vidro duas vezes antes de espalmar a mão.

–– Veja, Riri, ele está desesperado para voltar para casa.

–– Então por que o prendeu?

–– Vovó disse ontem que os Momobamis têm sangue frio. - ela fitou uma irmã. - Pensei que, se eu abrir ele, talvez eu possa entender como nós temos isso em comum. Sabe, sapos tem sangue frio.

Ririka não disse nada, apenas balançou a cabeça, demonstrando que entendera o que a irmã queria dizer. Ela sabia que o fato de o sapo ter sangue frio queria dizer que sua temperatura corpórea era controlada pela temperatura ambiente. Isto é, quando de corpo frio, o sapo tende a arrumar um local perto do sol para se aquecer. Procurar algo quente.

Algo quente.

Como se estivesse esperando por sua deixa, um vento frio entrou pelas grandes portas de correr abertas. Ambas as meninas viraram o rosto para o jardim exposto pela abertura, percebendo a tempestade que se formava ao longe, aproximando-se. A ventania estava forte e fria, muito fria. O bicho no aquário parecia assustado, encolhendo-se em um canto, os olhos pequenos arregalados e o pequeno corpo movendo-se rapidamente, demonstrando sua respiração pesada.

Aproveitando-se do momento de distração da irmã, Ririka abriu a tampa, deixando uma abertura suficientemente grande para que o sapo aproveitasse para escapar. Para sua surpresa, ele não fez isso. Ele ficou. E, com o cenho franzido, a menina se aproximou mais do vidro.

–– Por que abriu a tampa? – Kirari pareceu voltar a prestar atenção ao que acontecia dentro do quarto.

Ririka apontou para o animal.

–– Acho que ele não quer fugir. Não quer ir embora.

Kirari bufou.

–– Droga. Bem, acho que é esperado. Ele deve ter medo demais de nós para tentar sair, mas... quem não tem?

A porta que levava para o corredor abriu, uma moça jovem colocou apenas a cabeça para dentro, curvando-se rapidamente para as duas crianças antes de correr para as portas duplas e se apressar para fechá-las. As garotas não pareceram ligar para a presença da mulher, muito intrigadas pelo sapo acovardado. Agora, com as portas fechadas, sua oportunidade de fugir chegara a quase zero. Não que sua fuga fosse impedir sua morte, afinal de contas, Kirari decidira o que iria fazer com ele e, se foi decidido por um Momobami, não havia mais volta.

–– Eu acho que ele tem cara de Tsuki.

–– Tsuki? – Kirari a olhou, confusa. No entanto, o semblante confuso não se demorou, logo virando para um de descontente. – Ah, não, Riri! Você o nomeou, de novo.

Ririka corou fortemente, mas ignorou a irritação da irmã, erguendo-se um pouco para pôr a mão dentro do vidro. Com a mão um pouco trêmula, estendeu o dedo indicador e esperou. Um longo minuto passou, fazendo a garota sentir que talvez devesse se aproximar, mas logo o bicho deu um saltito, esfregando a cabeça no dedo pálido. O sorriso cresceu, e a menina se sentiu incapaz de o conter. Seu coração bateu mais agitado no peito e foi como se seus pulmões tivessem crescido de tamanho. Foi uma sensação estranha.

–– Huh... senhorita Momobami? – a mulher, que antes havia sido esquecida pelas gêmeas, chamou, um pouco incerta de sua atitude. Ao atrair a atenção das duas Momobamis, sentiu-se ainda mais ansiosa por ter os dois pares de orbes azuis sobre si. – Talvez... Talvez não seja sábio manter tanto contato com esse bicho. Ele pode ter doenças ou algo do tipo.

–– Ma-mas...

–– Não se preocupe, senhorita Kimura, minha irmã e eu estamos cientes deste fato. Eu o peguei para dissecá-lo, então logo ele estará morto. Não há com o que se preocupar sobre qualquer laço seja formado. – Kirari voltou-se para Ririka, que havia recolhido a mão para o colo, mexendo os dedinhos pequenos, ansiosa. – Certo, Riri?

A mulher esperou uma resposta. A verdade é que Ririka não queria deixar o pobre animal ser dissecado por sua irmã, que com certeza estava deveras animada para o fazer, mas a jovem menina não sabia como explicar que tipo de afeição era aquela que ela desenvolvera pelo animal. Talvez Kirari estivesse certa, não havia com o que se preocupar quanto a criar laços, afinal de contas, ela era uma Momobami e criar laços, ao invés de alianças, era uma ideia no mínimo estúpida. Era uma atitude fraca.

Os olhos azuis se fitaram por mais meio segundo antes da garota de cabelos soltos suspirar e voltar sua atenção para o sapo. Tsuki parecia ter voltado a se assustar, como se tivesse entendido que fora capturado apenas para servir de objeto de prazer e estudo para uma das gêmeas, como se soubesse que seus dias estavam contados. Ririka queria protegê-lo. Queria cuidar dele.

–– Rari... – fitou a gêmea mais nova, engolindo o bolo que se formara em sua garganta. Ela precisava pedir, precisava desesperadamente dar sua opinião. Era a vida de seu novo amiguinho que estava em jogo. Precisava ter coragem. – Você... você pode... pode...

Kirari franziu, por momento confusa com o que a irmã pedia.

Ao perceber que sua dicção não iria colaborar para que formasse uma frase inteira e reivindicasse o animal para si, Ririka apontou para o novo amigo e então para si, em um pedido silencioso. A outra bufou, pronta para negar. Foram aqueles olhinhos brilhantes e pidões que fizeram o interior de Kirari revirar e um grunhido ser contido.

–– Você tem que parar de fazer isso, Riri. – ela fitou a mulher. – Por favor, traga outro aquário e avise minha avó que precisamos de um veterinário. Minha irmã ficará com o animal.

O desgosto com a decisão ficou evidente no rosto da mulher, que abriu a boca para contestar sobre o novo animalzinho de estimação de suas mestras, mas ao ver o sorriso contente de Ririka, decidiu não retrucar. Bem, talvez não tivesse sido apenas o sorriso infantil da gêmea mais velha, ou a atitude quase boba da menina ao acariciar a cabeça do anfíbio- que por algum motivo, voltara a respirar tranquilamente e se permitia ser tocado. Muito provavelmente fora o olhar que recebera da outra gêmea, Kirari a olhando severamente para a simples menção de contestar a felicidade de sua irmã. Portanto, como ordenado a pouco e após uma pequena reverência, a mulher se retirou para cumprir com o que lhe fora dito.

Kirari se aproximou do vidro, cutucando este. Tsuki estremeceu ao contato de Ririka, voltando a se encolher no canto.

–– Você consegue achar outro, certo? – Ririka balançou o indicador em uma tentativa quase idiota de atrair o sapo para mais perto. – Desculpa estragar seu experimento.

–– Não, tudo bem. Eu consigo outro. – sentaram-se uma do lado da outra, de frente para o aquário. Kirari pendeu a cabeça um pouco para o lado, fazendo uma careta. – Ele é meio feio, não acha?

Ririka riu.

–– Ele é... fofo, da maneira dele.

Um trovão soou alto, seguido por outro e o barulho de chuva. As mãos pálidas e pequenas se entrelaçaram quase que instantaneamente, o calor das palmas aquecendo uma à outra. Kirari estremeceu um pouco, o lábio inferior sendo capturado entre a abertura entre um dente de leite e onde deveria ter outro dente- este cairia naquela manhã mesmo. A mais velha pareceu perceber o medo palpável nos olhos azuis da outra, pois deslizou o corpo levemente e passou um braço por cima do ombro da outra.

–– Sabe, é só uma chuva. – Ririka sorriu para a irmã, que a olhou surpresa pelo contato físico. – Logo passa.

Kirari assentiu, corando levemente e desviando o olhar da irmã para fitar o sapo, este parecia um pouco menos apavorado. Teria Tsuki percebido que, até mesmo quem lhe causava tanto medo, poderia ter medo de algo?

–– Não conte a vovó que tenho medo de tempestades, ok?

Ambas riram, imaginando como a velha ficaria revoltada por saber que uma de suas sucessoras tinha medo de uma “simples chuvinha”.

–– Eu juro. – e estendeu o mindinho, não demorando para ter este enlaçado com o da outra em uma promessa.

O som estrondoso do helicóptero era quase ensurdecedor, ainda mais estando há tanto tempo ligado, esperando por suas passageiras.

Os braços estavam para trás, as mãos servindo de apoio para que ela se escorasse no ferro da cerca atrás de si. Ainda bem que estava com sua máscara no rosto, assim Kirari não veria seus olhos confusos fitando a interação desta com Sayaka. Não é que fosse algo incomum ver as duas adolescentes interagindo, ou ver aquele brilho que parecia irradiar de ambas toda vez que se falavam. Não, não era. Mas isso não queria dizer que deixava de ser no mínimo intrigante para a outra Momobami.

Aos nove anos, na tarde tempestuosa em que adotara Tsuki, Ririka lembrava de ter lido um romance adolescente ruim, mas lembrava também de como o amor parecia-lhe algo tão confuso. Hoje, aos 18 anos, não parecia ter avançado muito para a compreensão de algo. Pelo contrário, assistir sua irmã interagir com a jovem Igarashi a deixava ainda mais confusa. Por que o amor não podia ser simples? Por que não podia ser igual a todos? Ela e Kirari eram iguais e, por vezes, não pareceu ter problema. Logo, o que havia de tão especial no amor para ele ser único para todos?

Kirari riu de algo que Sayaka falara, mesmo que a garota parecesse levemente irritada por não ter sido levada a sério. A mão da atual presidente do corpo estudantil subiu, repousando apenas quando encontrou a bochecha de sua secretária, onde deixou um afago terno. A Momobami sorriu ao ver a vermelhidão crescer no rosto da outra, mas o sorriso contido nos lábios da Igarashi pelo gesto de afeto apenas deixou a outra gêmea mais confusa.

Quando ela corava, seu corpo costumava entrar em colapso. O desespero para se cobrir e fingir que não era com ela, a vontade quase mortal de sumir. Quando Ririka corava, tudo o que ela mais queria era sua máscara, assim não precisaria ter de se esforçar tanto para esconder suas emoções. Esconder emoções não era muito sua praia, era de Kirari. Ririka não gostava de corar. O quente em sua face a deixava nervosa, ansiosa. Era agonizante carregar aquela queimação e não saber como fazer parar, porque, afinal de contas, quanto mais pensava em fazer parar, mais queimava. Isso a irritava.

No entanto, Sayaka estava ali, sorrindo e corando. E não era qualquer sorriso. Ririka conhecia aquele sorriso, era o mesmo que ela usava apenas para Kirari: um sorriso de orgulho de ter a atenção da outra para si. Ela estava genuinamente feliz por ter corado, como se aquela fosse apenas uma consequência de ter seu desejo mais íntimo realizado. Como se... Como se gostasse de sentir a agonia e a irritação da queimação em si. Como se não importasse que seu interior estivesse em colapso, ela sentia prazer no ato.

“A loucura do sábio ou a sabedoria do tolo?”, pensou Ririka.

–– Senhorita Momobami? – chamou a pilota, aproximando-se devagar da mulher mascarada. Após uma rápida reverência, ela pôs as mãos para trás e ergueu o queixo, em respeito a outra. Ririka não tirou os olhos do casal mais a frente. – Sinto informar, mas precisamos sair imediatamente. Do contrário, as senhoritas irão se atrasar para o jantar com sua avó.

Ririka pensou por um momento antes de assentir, movendo a mão para dispensar a pilota, esta que logo fez uma nova reverência e se retirou. Com uma respiração funda, a mulher mascarada marchou em direção as duas moças. Kirari não parecia lembrar que tinham um compromisso. Não, não apenas um compromisso. Elas tinham quase uma ordem para comparecer ao jantar com a vovó Momobami. E isto, portanto, significava que qualquer atraso, seja de 10 segundos ou 10 minutos, não seria perdoado com facilidade.

–– Rari, precisamos ir ou vamos nos atrasar. – avisou alto o suficiente, para que o helicóptero não impedisse que a mensagem fosse passada, ao tocar o ombro da irmã.

Kirari a fitou, suspirando. Sorriu de canto.

–– Estou indo. – virou-se para Sayaka, com um sorriso ainda mais gentil. – Cuide de tudo por mim, tudo bem, Sayaka?

–– Sim, presidente!

O sorriso que a Igarashi deu fez o estômago de Ririka revirar.

Não é que fosse feio, não a entenda mal. Muito pelo contrário, o sorriso foi adorável. Talvez, pensou a garota, se as luzes do heliponto estivessem apagadas, apenas aquele sorriso seria suficiente para iluminar todo o lugar. Entretanto, a moça não compreendeu.

Kirari tinha o terrível costume de fazer o que queria e quando queria, não importava os outros. Não era 100% culpa dela, elas tinham sido criadas assim: um Momobami pega o que quer, quando quer e, se não puder pegar, destrói. Com Sayaka, a ideia de pegar porque quer não era aplicada. Longe disso, na verdade. Kirari achava Sayaka intrigante, portanto, tomar só por tomar não a divertia. Ela testava. Ou melhor, ela testou. Depois do episódio da Torre, Ririka não sabia mais se sua irmã permanecia testando a secretária ou se todas aquelas “ordens” e responsabilidades passadas para ela eram apenas por confiança.

E foi por causa dessa dúvida, se era ou não um teste, que Ririka não compreendeu por que cuidar de uma escola inteira na ausência da presidente e da vice-presidente deixava uma simples secretária tão contente. Era uma responsabilidade quase gigantesca. Afinal, o jantar de sua avó não poderia ter vindo hora mais inoportuna, já que foi logo ao final das eleições para presidente do conselho estudantil. Kirari e Ririka tinham muito o que organizar, esta saída custaria muito. E, ainda sim, não custaria nada, pois Igarashi Sayaka com certeza cuidaria de tudo. Tanto peso em seus ombros e feliz?

As gêmeas deram as costas para Sayaka, caminhando lado a lado para mais perto do helicóptero. A pilota estava sentada em seu lugar, ficando a vista da janela, mas um copiloto magrelo estava do lado de fora, apenas a espera das duas Momobamis. Ele estendeu a mão, gentilmente ajudando que Kirari entrasse, esta que logo tomou seu lugar. Assim que foi a vez de Ririka, ao tocar a mão do homem, um grito cortou todo o som estrondoso que havia no lugar.

–– Ririka! Sua idiota, não ouse entrar agora.

Ririka virou-se. Por mais que soubesse que ninguém veria, ela franziu ao ver a loira. As mãos nos joelhos, respirando fundo a procura de ar, e as bochechas coradas do esforço. Mary se ergueu, ficando ereta, e apontou para a mulher mascarada. A expressão não era contente. Sendo bem sincera, a Momobami diria que era quase fúria que aqueles olhos dourados berravam para ela. Fúria e... algo mais.

–– Eu preciso falar com você.

Sayaka, que estava ao seu lado, apressou-se para segurar a loira ao vê-la fazer menção para se aproximar. Elas se atrasariam.

–– Tem 2 minutos, Riri.

Ririka olhou por cima do próprio ombro, vendo a irmã a fitar. Aquele olhar. O mesmo olhar intrigado que ela dava para tudo que a deixava curiosa. Não o tipo de curiosidade agoniante de Ririka, o tipo de curiosidade prazeroso. Ela quis se esconder, sabia que coraria sobre aquele olhar nela e em Mary.

–– Eu já venho.

Com passos longos, a garota se aproximou, mas foi surpreendida ao encontrar Mary no meio do caminho, pois esta se soltara de Sayaka- a garota não fazendo sequer um movimento para se aproximar, talvez tivesse Kirari intervindo? No entanto, mais surpresa ainda foi ter o dedo da loira cutucando com força, dando-lhe um pequeno empurrão no ombro. Ririka deixou a cabeça pender levemente para o lado, demonstrando sua confusão, e levou a mão lentamente para onde fora cutucada.

–– Aconteceu algo, senhorita Saotome?

Mary grunhiu.

–– Você ia embora sem se despedir de mim?!

–– Eu não... não compreendo. – ela abaixou a cabeça levemente, tentando entender o que aquilo queria dizer. – Pensei que estivesse em casa, não quis atrapalhar seu momento em família.

–– Momento em família? Então você vai sair por três dias inteiros e não ia me falar nada para “não atrapalhar meu momento em família”? –  jogou os braços para o alto. Ririka quis explicar que não foi o que quis dizer, mas a loira foi mais rápida. – Você é idiota, Momobami?!

Ririka não sabia como reagir, estava confusa demais para isso. Por que Mary estava tão irritada sobre isso? Eram só 3 dias em casa, um jantar com sua avó, uma reunião com o clã Bami e no terceiro dia estaria de volta antes do sol sequer se pôr. Não havia o porquê de tanta irritação para uma simples ida a sua casa. Não é como se Mary fosse sentir sua falta nos corredores por alguns míseros dias, certo? E seria tão rápido que não havia necessidade de informar a ninguém que ambas gêmeas sairiam.

–– Senhorita Saotome, eu não...

–– Ora, pare de me chamar assim! Já disse que pode me chamar de Mary. E... – em um movimento rápido, a loira arrancou a máscara da garota. – Já falei para tirar isso quando for falar comigo.

Ririka piscou algumas vezes, uma clara demonstração de que estava confusa demais para qualquer resposta. Procurou em sua memória algo que tivesse feito e que tivesse irritado tanto Mary, talvez tivesse sido o almoço? Bem, não era culpa dela que seu chefe passou molho de alho em suas salsichas de polvo, certo? Mary mesma dissera. E Ririka até se desculpou, não sabia que a loira não gostava de alho. Ou talvez tivesse sido a ligação perdida de horas mais cedo? Mas ela respondera por mensagem assim que saiu da reunião com o conselho, e a loira dissera que não tinha se irritado.

Aquele olhar irritado estava deixando-a nervosa. Ririka não sabia dizer, mas tinha algo a mais no brilho dourado, quase como se a raiva não fosse só raiva, como se tivesse uma mensagem por trás. Como se estivessem, além de bravos, tristes. E ter aquele olhar sobre si não estava a deixando bem. Sua vontade era de se desculpar, mas sequer sabia pelo que estaria se desculpando, então não seria certo. Alguma ideia, ela precisava de alguma ideia. Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, serviria, desde que ela conseguisse tirar o que quer que estivesse causando aquele sentimento em Mary, não importava qual nome aquele sentimento levava. E o pior de tudo... ela causara. Um bolo se formou em sua garganta e a respiração ficou quase impossível de acontecer.

–– A-aconte-teceu algo, senho- Mary? – perguntou novamente, incerta se devia. Insistir em suas dúvidas geralmente deixava a loira irritada, como se Ririka não conseguisse ver o que estava bem a sua frente e o que Mary parecia gritar em seus gestos. Naquele momento, porém, não havia muito o que fazer. – E-eu não compreendo.

Mary bufou, cruzando os braços.

–– Você podia ter me avisado. Eu teria ficado preocupada sem notícias, sua idiota. – ela olhou para o chão.  

Ririka assentiu, ainda não compreendendo o grande motivo de tanta irritação, mas não iria contestar. Agora sabia, pelo menos, em partes o que tinha causado o quer que fosse esse sentimento gritante em seus olhos.

–– Perdoe-me, Mary. – ela fez uma leve reverência. Mary arfou, surpresa pela reação. – Eu não queria alarmá-la, de verdade.

–– Tu-tudo bem, só... só não repete mais, ok?

Ririka sorriu. O sentimento sumiu dos olhos dourados. Não que ela fosse capaz de ler o que se passava naquelas orbitas agora, mas com certeza era melhor do que aquela coisa ruim. Além do mais, agora a Momobami conseguia respirar.

–– Tudo bem.

–– E, huh, cuide-se, ok?

Mary estava adorável: o bico nos lábios, o olhar desviado de leve, o cenho franzido, os braços cruzados sobre os seios. Estava, claramente, ainda nervosa, a Momobami conseguia perceber pela tensão em seus ombros. Ririka sentiu as mãos formigarem, quase como se coçando, e uma ansiedade tomar seu peito. Ela queria, desesperadamente, acalmá-la. Mas, como se faz isso?

Kirari e Sayaka tinham tido aquele momento rápido, onde a mais velha acariciara a face da outra. Talvez isso acalmasse um pouco mais os nervos de Mary, afinal de contas, acalmaram os da Igarashi. Valia a pena tentar?

Se valia ou não, Ririka não sabia dizer, mas que ela queria tocar o rosto da loira? Ela queria. Queria muito. Os olhos dourados a fitavam em um misto de sentimentos que a outra não sabia explicar, porém, era aquele pequeno bico emburrado que estava a deixando com esse sentimento estranho. O estômago da mais velha revirou, um frio passou por seu peito e ela prendeu a respiração inconscientemente. O que era aquilo? Ela não entendia, era uma sensação estranha.

As mãos se remexeram juntas de novo, os dedos brincando com as unhas, fazendo pequenos “pec, pec” soarem. Mary fitou a garota, analisando-a por um segundo. Ririka não soube dizer o que se formou na cabeça da outra, e soube menos ainda o que significava quando a viu abrir os braços, as bochechas coradas e a expressão fechada. O bico se desformou para que os lábios se comprimissem em uma linha.

–– Vem. – Ririka a olhou confusa. Mary pareceu se irritar ainda mais. – Vem logo! É um abraço de despedida. Eu não corri de casa até a porcaria dessa escola para você só me dizer que não vai mais esconder merdas de mim, tipo quando for ficar fora por três dias. – parou por um momento, os olhos enfim encontrando os azuis. Mary engoliu em seco. –  Anda logo, antes que eu mude de ideia.

Ela não sabia como reagir. Ainda bem, no entanto, que seu corpo pareceu saber. Com passos incertos, Ririka se aproximou passando os braços ao redor da cintura da loira e escondendo o rosto na curva do pescoço da outra. Mary fechou os próprios braços ao redor do pescoço da Momobami.

Foi... constrangedor.

Não era bem o que as duas esperavam. Era estranho aquele tipo de contato físico, ainda mais porque nem Mary parecia gostar e nem Ririka era acostumada com isso, portanto, o máximo de contato frquente que elas tinham eram pequenas batidinhas na cabeça uma outra- e isso, inclusive, causava um sentimento muito estranho no peito da Momobami, como se não conseguisse conter o sorriso que crescia dentro de si, e sua face sempre queimava depois do gesto. Foi constrangedor e, ainda sim, isso não queria dizer que tenha sido ruim.

Ririka respirou fundo, pôde sentir quando os cabelos da nuca de Mary se eriçaram e os braços fecharam com mais firmeza ao redor dela. O cheiro que invadiu as narinas da Momobami a intrigaram: uma mistura de perfume barato com talco de bebê. Ela virou um pouco o rosto, encostando o nariz atrás da orelha da loira e tudo ficou claro. O cheiro de bebê estava, especificamente, ali. Atrás da orelha. Em mais nenhum lugar. E saber esse fato fez o peito da mais velha queimar, assim como suas bochechas.

Elas se afastaram. Mary tinha um pequeno sorriso no canto da boca, como se tentasse escondê-lo, e as bochechas queimavam em vermelho forte. Ririka franziu, a imagem de Sayaka veio a sua cabeça, sendo dispersada logo, pois ela queria se demorar um pouco mais nas orbitas douradas antes de ter de ir embora.

–– Então, huh... Chegar lá, você me avisa, viu? – Mary agarrou seu colarinho e a puxou para mais perto, mostrando a mão em punho. – E nem ouse me deixar preocupada com você, Momobami! Não seja estúpida a esse ponto.

Ririka assentiu rapidamente, afastando-se quando foi solta do aperto. Mary a devolveu a máscara, mas a garota não a pôs, apenas olhou novamente para a outra.

–– Estou indo, Mary.

Mary assentiu.

Ririka a deu as costas, a máscara em mãos, e fez seu caminho de volta para o helicóptero. O copiloto novamente estendeu a mão para a gêmea, que, desta vez, completou sua missão de entrar no veículo. O homem fechou a porta depois de entrar, entregando os fones de ouvidos para ambas e tomando seu lugar ao lado da pilota.

Ambos os pares de olhos azuis fitaram a janela, vendo Mary e Sayaka ficando pequenas conforme o veículo subia no ar e se distanciava de Hyakkaou.

Não passando despercebido sobre o olhar de Kirari, a garota mais velha suspirou, os dedos pálidos apertando as aberturas dos olhos de sua máscara, que repousava em seu colo. A outra Momobami sorriu, vendo uma oportunidade quase única de irritar a irmã, apenas para ver até onde Ririka aguentaria- e ela até poderia admitir que para saciar sua curiosidade sobre o que as garotas haviam falado há pouco. Melhor. Kirari viu uma oportunidade perfeita para entender a relação de sua irmã mais velha com a Saotome Mary.

–– Mary correu até aqui para tirar sua máscara?

Ririka piscou, parecendo voltar de seus pensamentos, e fitou o outro par de olhos azuis. Deu de ombros.

–– Eu não entendi bem, sendo bem sincera. – voltou-se para a janela. – Ela estava irritada, porque não avisei que viajaria por três dias, mas suponho que Mary está sempre irritada com algo.

Kirari assentiu.

–– Compreendo. – sorriu presunçosa. – Mas, se ela estava assim tão irritada, o que fora aquele gesto?

–– Que gesto? – Ririka a olhou, genuinamente confusa.

–– O abraço, querida irmã!

–– Oh.

Foi tudo o que a garota falou por longos minutos. Kirari esperou, pacientemente. Sabia que sua irmã estava tentando formular algo, os olhos perdidos diziam isso.

Ririka fitou a própria mão, que parecia ainda formigar, quase como se pedisse por mais contato. Não era apenas sua mão que pedia por mais, seu nariz também parecia carregar a memória do cheiro da loira e as bochechas pediam pelo calor da outra pele contra si. Seu corpo inteiro ainda não conseguia, aparentemente, voltar para seu controle total. A Momobami sentia como se estivesse flutuando, ao mesmo tempo que a sola de seu sapato fazia questão de ser sentido por seus pés, tomando consciência de sua existência, avisando-a de que estava com eles muito bem em terra firme- bem, quase isso. Todos os seus sentidos, na verdade, pareciam aflorados e sentir tudo aquilo a fazia... flutuar mais?

Engoliu em seco, coçando o canto da mandíbula, bem abaixo de sua orelha esquerda. Não era uma sensação ruim, Ririka tinha de admitir, por mais agonizante que fosse, mas era algo bem... excêntrico, digamos assim. Singular. No entanto, o que lhe causava mais dúvida eram os motivos que levaram Mary a abraçá-la. Talvez, um equívoco causado por cargas de irritação e culpa por ter gritado com ela? Não, não poderia ter sido isso, Saotome não costumava ligar de voltar atrás quando algo a incomodava, portanto, se o abraço tivesse sido um equívoco, ela não teria vergonha de dizer, certo?

–– Foi um... – ela umedeceu os lábios com a ponta da língua, ainda não fitando a irmã. – Um abraço de... despedida.

–– Um abraço de despedida? – repetiu Kirari, franzindo. – Então ela correu até aqui para te dar um abraço de despedida? Então, ela é mais intrigante do que pensei.

Ririka fitou, o olhar duro para a irmã.

–– Pare com isso.

Kirari riu, mostrando as mãos.

–– Eu não fiz nada.

–– Conheço esse olhar, Kirari. – fitou a máscara em suas mãos, a lembrança da expressão na face da loira ao arrancar o objeto de si invadindo sua cabeça. – Mary não é uma coisa para ser seu objeto de estudo. Ela é, sim, desajeitada e muito mais vulgar do que esperamos no começo. – Kirari abriu a boca para falar, mas ao ter os olhos azuis de sua irmã sobre si, calou-se. – Mas... Ela é muito mais que isso. E não permitirei que a trate como uma cobaia.

Os olhares se seguraram por alguns minutos, o silêncio parecendo deixar ambos copiloto e pilota desconfortáveis em seus assentos. Não era comum ver as gêmeas em situação tão tensa, sequer um momento em que se ouvisse Ririka falar com tanta firmeza na voz- já era raro a ouvir falar, que dirá com tanta rudez.

Kirari sorriu de canto. Não estava satisfeita com a resposta da irmã, portanto, insistiria apenas mais um pouco. E Ririka conseguiu ver que isso iria a irritar, e muito, mas não recuaria, afinal de contas, jamais permitiria que Mary fosse tratada como algo para tomar porque quer e, se não pode tomar, ser destruída. Era sua amiga.

–– Não se preocupe, querida irmã, não tenho interesse algum em Mary. – ela apontou para a irmã com uma mão, apoiando o queixo na outra enquanto o cotovelo repousava no descanso de braço de seu assento. – Você, porém, sempre será meu maior interesse. Apenas acho interessante sua relação com senhorita Saotome.

Ririka bufou.

–– Somos amigas, Kirari. Não há nada de interessante nisso.

–– Talvez você não tenha percebido, querida irmã, mas eu me importo com você e me sinto no dever de falar, já que você não parece ter notado por si só. – a garota riu. – Mary não é sua amiga. Pelo menos... não quer ser.

Certa vez, Ririka lera sobre os efeitos de um soco, especificamente no queixo. Ela fora procurar, porque não tinha entendido como seu tio queria tanto que ela aprendesse a socar alguém de forma correta pelo queixo e como aquilo poderia causar ainda mais problemas do que um soco, por exemplo, no olho. E a menina encontrou que aquele tipo de soco era quase fatal: ao atingir o queixo, a força poderia ir direto para uma região do cérebro chamada de tronco cerebral. Essa porcaria, que mais a fez pensar em uma árvore, é quem comanda a consciência. Portanto, dependendo da força do baque, causa-se uma lesão, e esta pode ser temporária ou não, e deixa de funcionar. Ou seja, a pessoa pode desmaiar, ou entrar em coma por dias, meses e até anos.

No entanto, naquele momento, a Momobami pensou que talvez um soco no seu queixo doeria menos. Como se tivesse sido puxada, sentiu seu corpo inteiro reagir a fala da irmã. Perguntou-se se, por um acaso, falas pudessem causar algum problema em seu tronco cerebral. Quem sabe assim, seu corpo desligaria e ela não precisaria ter de lidar com aquele fato, com aquelas palavras. Com aquela dor.

Dor?

Não, palavras não causam realmente dor, o que torna evidente que um soco em seu queixo, ou em qualquer outra parte de seu corpo, seria muito pior. Seu lado racional dizia isso, repetindo para ela. Mas ao fitar a própria mão, Ririka não entendeu o motivo de sua garganta arranhar, prendendo o choro. O lábio inferior deu uma leve tremida e os nós dos dedos ficaram ainda mais brancos ao apertar com mais força as aberturas dos olhos de sua máscara. Um soco doeria muito mais, certo? Então... então como aquelas palavras pareceram a cortar por dentro, com muita mais força e precisão do que um soco?

Kirari franziu. Os olhos azuis de sua irmã pareciam piscinas, inundados.

“Oh, céus, falei algo errado?”, pensou, alarmando-se.

A verdade é que Kirari não pensou que cutucaria sua irmã ao ponto de vê-la chorar. Muito pelo contrário, aquela jamais fora sua intenção. Ela apenas queria saber quais eram as verdadeiras intenções de Ririka com Mary, porque as da Saotome estavam muito claras para ela. Teria, então, usado palavras erradas para explicar os sentimentos da loira para a gêmea? Bem, ela não estava mentindo, certo? A Momobami mais nova sabia que não era amizade que a garota queria com Ririka. Assim sendo, o que fizera a garota inundar os olhos de lágrimas?

Olhando para frente, a garota percebeu que tanto a pilota quanto o copiloto pareciam prestar atenção na conversa das meninas, e isso incomodou profundamente Kirari. Ela não gostava que os outros soubessem de seus assuntos. Com isso em mente, virou-se para seu espelho, apenas para sentir seu coração se apertar. Havia poucas coisas que deixavam a presidente com o peito tão comprimido, e geralmente essas coisas envolviam Sayaka. No entanto, quando se tratava de Ririka, não existia “poucas coisas”. Tudo importava. E aquele pequeno bico, indicando o choro sendo segurado, era importante demais para ser ignorado.

–– Ririka. – os olhos se fitaram e Kirari apontou com o queixo para os adultos pilotando o veículo. – Terminamos essa conversa em casa.

Não houve resposta. Ririka apenas respirou fundo, uma respiração entrecortada, e voltou-se para a janela. Kirari fez o mesmo, apoiando novamente a cabeça sobre a mão e repousando a outra em seu colo. Ela não gostava daquele sentimento de que estava brigada com a irmã, mas resolveriam isso em casa, longe dos ouvidos daqueles poderiam ter sua discussão como algo que as tornassem fracas. E isso nunca seria permitido por Momobami Kirari.

–– Que tipo de postura é essa? – a velha gritou de seu lugar na cabeceira da mesa.

Mais do que depressa, a menina se endireitou em seu lugar, ainda que seus pés estivessem gritando de dor embaixo de suas coxas e nádegas. Ela não queria ousar olhar para a carranca que sua avó provavelmente a direcionava, temendo que o olhar a fizesse queimar ou fosse desintegrada. Outro dia, ela tinha lido sobre esse super-herói que tinha visão de calor. Não que sua avó fosse um super-herói, a velha mais aprecia uma super-vilã, mas como o herói tinha identidade secreta, a garota não quis descartar a possibilidade de que vovó Momobami era apenas uma fachada para sua outra identidade.

Ririka engoliu em seco. Um pequeno bico seus lábios, e ela tinha tentado com toda força não deixar que ele se formasse, mas foi mais forte que ela. Devido a sua fraqueza, o ato a rendeu uma punição.

A mulher na ponta da mesa ergueu-se, caminhando até ela e a puxando pelo braço, de forma que ela ficasse em pé e a olhasse nos olhos. A garotinha queria chorar e se jogar nos braços do pai, que assistia tudo com os olhos apreensivos atrás do ser raivoso. No entanto, Ririka se manteve firme, não que houvesse realmente como escapar das garras que eram os longos dedos esqueléticos de sua avó.

–– O que é isso na sua cara? – a voz esganiçou para ela.

Ririka segurou o choro, não querendo deixar que seus olhos se inundassem.

–– Na-nada, vovó.

–– Oh, é mesmo? – o polegar segurou com força o lábio inferior da menina entre o dedo indicador. – Eu espero que não se repita. Você é uma Momobami, afinal de contas. – e a jogou de volta ao seu lugar. Desta vez, virando-se para o homem, o olhar de nojo embalou o homem. Os olhos azuis pareciam apavorados. – Esta claramente puxou seus genes fracos, Kotaro.

O homem baixou a cabeça, a franja dos cabelos pretos caindo um pouco sobre os olhos. Ele engoliu em seco, tentando controlar a respiração, não querendo se opor a mulher a sua frente, esta que logo caminhou tranquilamente até onde a outra gêmea estava. Kirari tinha os olhos fitando a irmã e o pai, seus olhos opacos. As garras pousaram sobre seus ombros e a menina ergueu a cabeça, fitando os olhos vermelhos, enquanto os longos cabelos brancos caíam por sobre os ombros cobertos pelo kimono. O sorriso que se formou nos lábios pintados de azul da velha fez com que Kotaro, que voltara a assistir a líder Momobami, estremecer da cabeça aos pés.

–– Esta, por outro lado... – com o nó do dedo indicador, a velha acariciou a bochecha macia e infantil da neta. – Esta nasceu para ser uma líder. A sorte da segunda a nascer. – os olhos mortais vermelhos fitaram a outra menina, que agora era envolvida por um longo braço pálido. A velha fez uma careta de desgosto. – Você teve sorte de nascer.

–– Isso é suficiente, mãe. – a voz era firme, quase tão fria quanto a da velha. Os olhos tão vermelhos quanto travavam uma briga com os vermelhos originais, os cabelos brancos presos em um coque alto arrumado e os lábios pintados em um rosa singelo. Em seus braços, Ririka se encolhia. – A senhora sequer é capaz de distinguir quem é Kirari e quem é Ririka, portanto, não ouse causar intriga entre minhas filhas.

–– Está me desafiando, Akemi?

–– Jamais, minha mãe. – ela fitou o esposo por alguns segundos, variando o olhar entre ambas as filhas em seguida, para só então se voltar novamente a velha. – No entanto, não acho sensato de sua parte colocar as gêmeas contra si. Elas herdarão a liderança do clã, sim? E a senhora sabe perfeitamente os danos que estas rivalidades entre líderes podem causar. Afinal de contas, a senhora e titia não foram exatamente discretas sobre aquela discussão. E hoje temos mais uma família no clã com a separação de vocês, o que quase nos levou a ruinas.

A mulher respirou fundo, não podendo contrariar o que a filha dissera.

Ririka sabia como se impor era difícil para ela, enquanto criança e enquanto Ririka. No entanto, algo que sempre a acalmava, era quando sua mãe se impunha. A mulher não era de brigar, não era de erguer a voz, de sequer dar sua opinião. Como a filha mais velha, Akemi preferia seguir ordens, ficar em silêncio, fugir de confrontos e estresses. Quanto aos assuntos do clã, ou eram diretamente resolvidos com a líder, a vovó Momobami, ou com Kotaro, seu marido.

Por serem tão parecidas, Ririka sempre se sentia em êxtase quando a mãe batia o pé. Eram momentos tão raros, mas tão bonitos. Era como ver o sol nascer em uma manhã de inverno, quando haviam se passados dias e mais dias em tempestades de neve. Era quente. E a menina sentia aquele calor em seu peito toda vez que via o semblante sério gritar em silêncio ao reivindicar algo. Para a pequena Ririka, Akemi era exatamente quem ela queria ser.

Kotaro pareceu enfim voltar a si, erguendo-se as pressas e fazendo uma reverência estabanada em direção a vovó Momobami. Ambos os pares de olhos vermelhos o fitaram.

–– Peço perdão pelas atitudes de minha filha, mestra Momobami! Prometo que trabalharei melhor em Ririka e farei meu melhor para Kirari continuar como está. – as palavras pareciam se atropelar conforme saíam de sua boca.

Akemi suspirou, não gostando de como o homem se posicionou, mas não falaria nada. A velha, por outro lado, sorriu, deliciando-se com as afirmativas do genro.

–– Assim espero, Kotaro. – caminhando de volta para o seu lugar, a velha fitou a filha novamente. Akemi ajudava Ririka a se sentar de novo, murmurando algo que a matriarca não podia ouvir. – Akemi, soube que há outro assunto que queria conversar comigo.

Ainda com a tensão no lugar, todos tornaram a comer. Kotaro fitou a esposa, o cenho franzido. Não sabia de assunto algum que tivesse de ser falado com a matriarca Momobami, talvez Akemi tivesse esquecido de o comunicar sobre?

Akemi fitou ambas as filhas por um momento, olhando para suas combucas de comida. Vazias.

–– Poderia dar permissão para as meninas se retirarem, por favor, mãe? – a mulher assentiu. – Ririka, Kirari, quero as duas no quarto. Banho, escovar os dentes e na cama. Logo irei lá ver como estão. Vão.

Não esperando um segundo aviso, ambas meninas se ergueram as pressas. Se não fosse pelo medo de ouvir outro ralhar de sua avó, teriam corrido, mas apenas a ideia de levar outra bronca já as deixava nervosas demais. A passos longos e rápidos, saíram do lugar. Assim que longes do olhar dos mais velhos, e tendo certeza de que a avó jamais perceberia, entrelaçaram os dedos, as mãos passando o calor que cada uma necessitava. Uma empregada as acompanhou pelos corredores até que chegassem ao banheiro.

Não disseram nada. Cada uma fez sua higiene como sua mãe mandara, não trocando uma palavra sequer, Ririka presa em seus pensamentos e Kirari a observando.

Não era a primeira vez que a avó das meninas as dizia como Kirari nascera para ser uma líder, que carregava os verdadeiros genes Momobami vindos de Akemi e que tinha a benção da sorte que o segundo nascido recebia. Em contraponto, Ririka tinha tido sorte em nascer, que carregava os genes podres de seu pai e que jamais seria uma jogadora tão boa quanto a irmã naquela competição por poder. Não era algo constante, acontecia apenas quando a mulher se irritava com alguma atitude de uma das gêmeas: se fosse Kirari ou Ririka, não importava, porque a velha não sabia quem era quem, mas a comparação não mudava.

Kotaro costumava dizer que para saber quem era quem, era necessário, talvez, tatuar em suas mãos algo como “1” e “2”, e a ideia até foi para frente por um tempo, mas não se concretizou. A matriarca sugerira, certa vez, que usassem algum tipo de roupa que as distinguisse e, novamente, a ideia até foi desenvolvida, mas não durou. Em todos os casos, Akemi intervia. A mulher era a única que, ao bater o olho, sabia perfeitamente quem era Ririka e quem era Kirari. Logo, se ela era capaz de saber, não eram necessários nenhum truque para as distinguir.

Ririka nunca se importou muito com as comparações a sua irmã, estava tão acostumada. Passava por isso praticamente sua vida inteira, estranho seria se não houvesse comparação. Para a garota, era inconcebível a possibilidade de não as comparar, já que eram muito opostas. E por ela tudo bem. Já sabia que não era como sua irmã e Kirari também sabia disso, mas nenhuma das duas se importava de não serem completamente iguais, pois sabiam que aquilo apenas significava que se completavam ainda mais.

A forma como as gêmeas conseguiam se ligar e passar uma pela outra era incrível. Por vezes enganaram seus primos, outras seus empregados e até mesmo seu pai e avó. Passavam tanto tempo juntas, que conheciam uma a outra com a palma da mão. E não era porque acreditavam genuinamente que eram a mesma pessoa por dentro, e sim porque acreditavam genuinamente que eram as duas peças de um mesmo quebra-cabeça: de longe, uma mesma imagem, e de perto, complementos.

Todas as falas de sua avó, ou de qualquer pessoa, não magoava Ririka e ela sabia que não magoavam Kirari também. No entanto, houve algo naquele jantar que incomodou a mais velha das gêmeas e ela não conseguia entender. Talvez tivesse sido a ordem para se retirar com sua irmã, ou talvez tivesse sido o tom de voz que sua mãe usara, quase como um tom de despedida. Não sabia exatamente o que era, e não importava saber realmente. Tudo o que importava era que ela não entendia. E ela não gostava de não entender.

Agora, cada uma das meninas espalhava seu futon sobre o tatame do quarto que dividiam. Ao se deitarem, viraram de frente uma para a outra, os olhos azuis se fitando.

–– Você se chateou com o que a vovó falou?

Ririka deu de ombros.

–– Não, mas meu lábio dói um pouco. – o dedinho indicador tocou seu lábio inferior, que realmente estava um pouco vermelho.

Kirari olhou para a porta, vendo que a empregada que as acompanhava e cuidava delas, já havia saído. Em um movimento rápido, esgueirou-se para debaixo das cobertas da irmã, esta que afastou um pouco para caber ambas em seu futon.

–– Deixa eu ver. – a mais nova das gêmeas tocou com o polegar o beicinho que Ririka fizera para que ficasse mais a vista seu machucado. Kirari riu ao ver a outra fazer um barulho de dor engraçado. – Parece que alguém te beijou.

Ririka fez careta.

–– Quer dizer, tipo a mamãe e o papai? – Kirari assentiu. Ririka fingiu vômito, causando risos em ambas. – Eu não acho que um dia eu vá querer beijar alguém.

–– Mesmo? Eu sempre imaginei como seria ter alguém tipo o que a mamãe é para o papai. Parece... a gente.

Ririka esbugalhou os olhos.

–– Nós não somos como eles, Kirari!

–– O que? – os olhos azuis se fitaram. – Ew! Não, não desse jeito. – por instinto, elas giraram um pouco para mais longe uma da outra. – Eu quero dizer, alguém companheiro, sabe? Que fica 24 horas por dia com você, que está lá para quando você precisa. Só que a diferença de nós para eles, é que nós nos amamos.

–– Você acha que eles não se amam? – com o cenho franzido, Ririka fitou a irmã, a procura de respostas. Kirari deu de ombros, fitando teto. – Por que?

–– Papai é estranho, Riri. Ele é submisso a vovó, obedece cegamente, e por vezes esquece de nós duas e até de mamãe. – ela virou a cabeça, fitando a outra. – Outro dia, eu ouvi ele e a mamãe brigando. Algo sobre não ter muito tempo.

–– Para nós?

–– Quem sabe? – ela se sentou, abraçando as próprias pernas. – Mas e se ele for embora, Riri? O que você acha que acontece com a mamãe?

Ririka se sentou também, cruzando as pernas. Em um gesto ansioso, a menina brincou com os dedinhos do pé, mordendo o lábio inferior.

–– Não sei.

–– Eu acho que ela será devorada pela vovó.

–– Mamãe não é fraca, Rari. – os olhos azuis se cruzaram. Ririka tinha aquele olhar decidido. – E-ela não gosta de confronto, é só isso. Mas ela não é fraca. Você viu ela hoje.

–– Compreendo.

Elas se jogaram de costas no objeto fofinho, fitando o teto novamente. Por alguns minutos, elas ficaram silêncio, mas não tempo suficiente para que alguma das duas dormisse. Kirari logo voltou a falar.

–– Riri?

–– Rari?

–– Riri, e se... E se mamãe for embora?

Ririka se sentou as pressas, fitando a irmã com os olhos esbugalhados.

Como assim sua mãe ir embora? Ela jamais faria isso, certo? Sua mãe jamais as abandonaria, jamais a abandonaria. Akemi era muitas coisas parecidas com Ririka, mas carregava o que a jovem menina não tinha: coragem. E aquele tipo de atitude jamais seria tido como coragem. Não. Seria a prova do quão covarde alguém poderia ser.

–– Por que diz isso?

–– Pensa comigo, Riri. – Kirari se sentou também, ficando da mesma altura que a irmã. – Mamãe não costuma esconder nada da gente, e nem do papai principalmente. Mas hoje? Hoje ela quis falar algo que nós não podíamos ouvir e, pela cara do pai, ele também não sabia. Faz sentido sobre o tempo, certo? Se o tempo está acabando, é porque ela logo vai embora e precisa resolver os últimos assuntos com vovó.

–– Eu não acredito em você. – Ririka se ergueu, caminhando apressada para longe da irmã. – Isso é ridículo!

–– Por que?

–– Mamãe não é covarde, Kirari!

–– Eu não disse que ela é.

–– Nos abandonar seria covardia. – o olhar enfurecido caiu sobre a menina ainda no futon. – Retira o que disse!

Kirari sorriu de canto.

–– Você só está com raiva, porque sabe que é verdade.

–– Retira o que disse, Kirari! – pediu com mais força.

–– Ela pode não ser covarde agora, mas pode se tornar. Vovó disse que a irmã dela era uma mulher muito corajosa.

–– Para!

–– Mas que no final, foi muito covarde. Ela preferiu perder tudo a arriscar tudo e ganhar. Mamãe pode estar com medo de arriscar tudo, então ela prefere perder tudo.

–– Eu falei para você parar!

A garota jogou em cima da irmã, segurando-a pelos cabelos e batendo sua cabeça contra o travesseiro. Kirari não ficou muito atrás, prendeu as pernas ao redor da cintura da irmã e inverteu as posições, ficando por cima, tentando parar os ataques irracionais da irmã. Em um movimento rápido, Ririka se soltou da outra, pegando o travesseiro e tacando com força contra a menina, que tropeçou no próprio pé e caiu para fora do tatame. Kirari rolou a tempo de fugir de outro ataque e correu para o próprio futon, pegando o travesseiro que estava abandonado ali.

Antes que a guerra se prolongasse, a porta do quarto foi aberta.

–– O que está acontecendo aqui?

As meninas pararam seus ataques no ar, segurando seus travesseiros acima da cabeça. Assim que os olhos infantis fitaram a mulher com uma mão na cintura, expressão fechada e segurando uma caixa com a outra mão, souberam que estavam encrencadas. Soltaram suas armas de ataque e apontaram uma para a outra.

–– Foi ela que começou! – fitaram-se, ainda mais enfurecidas. – Não foi não!

Akemi suspirou. Colocou a caixa no tatame, fechando as portas atrás de si, e sentou-se entre um futon e outro. Deu pequenas batidinhas nas camas bagunçadas, indicando que as meninas se sentassem. E como pedido silenciosamente, ambas se sentaram, colocando os travesseiros sobre as perninhas cruzadas. A expressão irritada de ambas fez a mãe achar a coisa mais adorável do mundo os biquinhos em seus lábios pequenos.

–– Certo, quem quer me dizer o que aconteceu aqui?

Ainda que brigadas, as gêmeas se fitaram, pedindo silenciosamente uma a outra para não contar o que acontecera para a mãe. Ririka muito envergonhada de ter atacado a irmã e Kirari subitamente temendo que a mãe se magoasse caso soubesse que ela a chamara de covarde. E elas acordaram, naquele olhar, que nada seria dito.

Akemi suspirou.

–– Certo, já que vocês farão esse voto de silêncio, eu falo então. – ela pegou a caixa e pôs em seu colo. Os olhos azuis infantis a fitaram, curiosos. – Vocês sabem por que pedi para que saíssem do jantar? – ambas meninas balançaram a cabeça, negando. – Eu precisava falar algo com sua avó sobre uma coisa. Seu pai também não sabia, pois eu tinha decidido falar com os dois juntos e, só depois, com vocês.

Ririka sentiu a garganta arranhar. Aquele tom de novo. O tom de despedida.

–– Você vai embora, mamãe?

Os olhos vermelhos caíram sobre ela. Akemi respirou fundo, umedecendo os lábios em uma tentativa de dar forças a si mesma para continuar. Ela estendeu a mão para cada uma das filhas, que logo pousaram suas mãos pequenas sobre as da mulher, que as enlaçou entre seus dedos cumpridos.

–– Mamãe não vai embora, meninas. – ela respirou fundo, olhando para teto tentando conter as lágrimas. – Bem, não agora.

–– Mas, você vai? – foi Kirari quem perguntou, estranhando as atitudes da mãe.

Não era comum Akemi demonstrar tanta fraqueza diante delas. A mulher não chorava perto das meninas, não aceitava que brigassem com ela na frente de suas filhas e muito menos se rebaixava. Momobami Akemi era sempre sorrisos, abraços, carinhos para as filhas. Ela era morna como uma manhã de primavera. Nada tinha a ver com ela chorar.

Com a mão um pouco trêmula, ela afagou a bochecha, ainda rosada dos exercícios, de sua filha mais nova.

–– Eu vou explicar, certo? – depois de respirar fundo, a mulher continuou. – Papai e eu estávamos nos separando.

–– Vocês o que?! – disseram juntas.

A mulher riu ao ver as expressões de surpresa, quase que exatamente iguais.

–– Calma, calma. Sim, estávamos, mas não vamos mais. – elas suspiraram. – Não vamos porque eu descobri algo e eu preciso que ele cuide de vocês

Ririka franziu.

–– O que a senhora descobriu?

Akemi negou com a cabeça.

–– Não vem ao caso. O que importa é que, durante a reunião a mesa, eu, sua avó e Kotaro decidimos que a guarda de vocês agora pertence a vovó Momobami. E de acordo com o nosso trato, vocês terão de se diferenciar. – ela abriu a caixa. – Eu sei reconhecer vocês, distinguir cada uma, mas isso porque vocês são minhas garotinhas. No entanto, como parte do trato, vovó pediu para que vocês usem isso. – ela tirou uma máscara com um sorriso branca e duas fitas pretas, estendendo cada objeto para uma das meninas. – Kirari, você agora irá usar essas fitas, use-as como quiser, você será a face do clã Momobami. E Ririka...

A menina pegou a máscara. Não se sentia ofendida, de forma alguma, sobre ter sido designada aquele objeto. Mas sua mãe parecia muito magoada, e ela não soube dizer bem o porquê.

–– Por que a Riri tem que esconder o rosto?

Ririka fitou a irmã, olhando para a mãe em seguida. Akemi parecia tentar com todas as suas forças esconder a dor em seus olhos, mas estava claro como o dia para a gêmeas.

–– Ordens da vovó. – gentilmente, a mulher acariciou os cabelos da filha mais velha, dando pequenas batidinhas em sua cabeça. – Eu sinto muito, querida.

–– Tudo bem, mamãe, eu gostei. – ela sorriu para o objeto em seu colo. – Eu realmente gostei.

Akemi pegou o objeto da mão da garota, guardando na caixa novamente e fez o mesmo com as fitas de Kirari. Ela jogou o quadrado de papelão para o lado e respirou fundo, visivelmente incomodada com aquilo tudo. As duas meninas se olharam, confusas, e voltaram a fitar a mãe.

–– Hora de dormir! – as meninas se apressaram a deitar por entre as cobertas, os olhos azuis fitando a mãe logo em seguida. Akemi sorriu doce para elas. – Meninas, eu quero que me prometam uma coisa. – ajoelhou-se perto de ambas, erguendo um dedo mindinho para cada uma. – Prometam-me que sempre estarão lá uma para a outra e nada vai as separar.

Sem hesitar, os dedinhos pequenos voaram, enlaçando-se aos da mais velha, enquanto os olhos azuis se cruzavam. Ririka sorriu pequeno ao que Kirari sorriu de canto. Como se ciente do que havia acontecido, o coração de Akemi pareceu bater com mais calma, o aperto afrouxando um pouco.

–– Eu prometo! – disseram as duas juntas.

Akemi depositou um beijo na testa de cada uma antes de caminhar para perto da porta, virando-se para as duas meninas. O sorriso que ela lhes deu fez com que o peito de ambas as crianças se aquecesse, como se soubessem que tudo ficaria bem depois daquilo. Kirari e Ririka retribuíram o sorriso.

–– Boa noite, minhas meninas. Eu amo vocês.

–– Boa noite, mamãe. Também te amamos. – disseram juntas.

–– Oh, e mais uma coisa. – a mulher olhou para o corredor do lado de fora rapidamente, antes de sorrir sapeca para as duas crianças. – Se forem dormir no mesmo futon, ao menos disfarcem pela manhã, tudo bem?

As três riram.

Ririka se fitava de frente para o espelho. O kimono não era usado talvez desde que fora para a reunião do clã e anunciara as eleições para presidente do conselho estudantil de Hyakkaou e para a liderança do clã Momobami. Não fazia tanto tempo assim, mas ainda sim, vestir ele pareceu estranho. Como se não pertencesse a ela mais. Os olhos caíram para o retrato milimetricamente posicionado em sua cabeceira.

O sorriso de verão irradiava da foto, os olhos vermelhos quase sumindo com as bochechas erguidas. Em seus braços, Akemi segurava Ririka e Kirari, aos 7 anos. Os olhos fechados, o sorriso enorme em uma gargalhada congelada no tempo. A foto fora tirada em seu aniversário por seu pai, Kotaro. Tinha sido um dia divertido: elas foram para a Disney, em Orlando, com os pais e ficaram um mês longe de toda a confusão Momobami. As meninas já estando tanto com a fita como com a máscara há pouco mais de dois meses, mas não precisaram usar na viagem, pois sua mãe dissera que podia cuidar disso.

A mulher suspirou, o dedo acariciando com delicadeza o contorno do rosto da mãe, o peito apertando.

Um ano mais tarde, depois de sua viagem com suas filhas, Momobami Akemi faleceu de câncer, tendo passado o último ano apenas para ficar ao lado de suas filhas e preparando-as para a despedida. E como se apenas esperasse a partida da esposa, Kotaro não demorou para engrenar em um outro relacionamento, sendo assim expulso da família. Vovó Momobami já tinha a guarda das gêmeas, portanto, não foi trabalhoso mudá-las de sua casa para a mansão da avó, onde moraram até pouco tempo. Ao completarem 17 anos, tanto Kirari quanto Ririka decidiram se mudar e tinham sua própria casa, com a permissão da matriarca, é claro.

Seu pai não sumiu da vida delas por muitos anos. Kotaro tinha formado uma família, três filhos homens, com esta outra mulher e raramente falava com as gêmeas. Ele se dizia perdidamente apaixonado pela atual companheira, mas que jamais houve algo entre eles antes de sua mãe morrer. Kirari o afastou completamente delas quando, em uma conversa com o pai, ele soltou que estava com a esposa há mais de 15 anos. Ririka e ela o colocaram para fora da mansão, não aceitando que o homem que traiu sua mãe pisasse ou dirigisse a palavra a qualquer uma delas novamente.

–– Ririka? Está pronta?

A garota ergueu o olhar da foto, fitando o par de olhos azuis pelo reflexo no espelho. Assentiu, erguendo-se de seu lugar.

Kirari e Ririka caminharam lado a lado pelos corredores longos da mansão, parando apenas quando chegaram de frente para as portas duplas de correr. Havia um homem em cada ponta da porta. Eles fizeram uma reverência antes de puxar as portas e as permitir de entrar.

Como de costume, a matriarca Momobami estava sentada a cabeceira, a velhice muito mais evidente do que 11 anos atrás, quando pegara a guarda das gêmeas. O kimono, porém, ainda era o mesmo: azul, em contraste com seus olhos, e detalhes em ouro. Os cabelos estavam presos em um coque alto, nenhum fio sequer fora, e os lábios pintados em azul, com aqueles brincos pesados, ainda que muito chiques, pendendo em sua orelha. A carranca também não mudara. Ririka tinha certeza de que a avó nascera com aquela cara fechada.

–– Estão atrasadas. – ralhou.

Kirari sorriu de canto, dando de ombros.

–– Tivemos contratempos.

–– Estou vendo. – ela assistiu as netas assumirem suas posições a mesa, só então indicando para que os empregados trouxessem o jantar. –  Pois bem! Soube da eleição que houve, Kirari. Posso saber que ideia foi essa?

Kirari riu, a mão cobrindo levemente seus lábios cobertos pelo batom azul.

–– Ora essa, vovó, isso já não é mais de interesse seu. – a velha suspirou ao comentário da mais nova. – Além do mais, ocorreu tudo bem no final.

–– Exceto, é claro, tudo o que você colocou em risco.

–– Se me permite dizer, vovó, eu não estava sozinha nessa. – Kirari fitou a irmã, que revirou os olhos, levando parte de sua comida a boca. – Ririka estava comigo. Na verdade, sequer fui eu que fez o anúncio da competição pela liderança do clã. E não foi ideia minha.

Os olhos vermelhos fitaram a neta mais velha, que não parecia dar muita bola para o que acontecia. Ririka segurava sua cumbuca, comendo majestosamente em silêncio. A matriarca a analisou com cuidado, então virou-se para Kirari novamente, e então novamente para a outra gêmea.

–– Isso é verdade, Ririka?

–– Perfeitamente, vovó. – ela pôs o objeto de volta a mesa e descansou seus hashis ao lado. As mãos pousaram sobre seu colo e ela fitou a matriarca. – De primeira, foi apenas uma brincadeira, mas Kirari gostou da ideia. Então levamos para frente e eu mesma fiz o anúncio para as demais famílias enquanto Kirari tinha coisas para resolver na escola.

–– E por que eu não fui informada antes disso tudo começar?

–– Com todo respeito, vovó. – as duas começaram a dizer juntas, erguendo os dedos indicadores e apontando para a mulher. Kirari sorri, deliciando-se da cara de surpresa da avó, enquanto Ririka a encarava com os olhos ferozes, mas de semblante sério. – A senhora já não é mais a líder do clã. Nós somos, e não devemos satisfação alguma do que fazemos. Portanto, ponha-se no seu lugar.

E como se nada tivesse acontecido, elas voltaram a comer em silêncio, tranquilamente. A velha, por outro lado, tinha os olhos esbugalhados para a comida em seu prato, a boca entreaberta e o coração batendo em seus ouvidos.

Era a primeira vez que elas falavam daquela forma com a avó, mas não estavam de bom humor para explicar delicadamente para a velha seus motivos para não contar a ela. E o pior, teriam de explicar gentilmente que, de fato, não tinham tido intenção de comunicá-la sobre qualquer atitude que tiveram sobre o futuro do clã. Elas lideravam todas as famílias há muitos e muitos anos, sua avó não tinha nada que “precisar saber”. E para a sua má sorte, nenhuma das netas perderia tempo sendo gentil com ela.

O jantar não se demorou, logo as gêmeas se ergueram, virando-se para avó, que ainda comia em silêncio, e fizeram uma pequena reverência.

–– Obrigada pela refeição, vovó. – disseram juntas.

–– Meninas? – o par de olhos azuis a fitou. Com um sorriso orgulhoso, mas sem realmente as olhar, a matriarca continuou. – Deixarei o clã para vocês cuidarem. Por favor, deem tudo de si.

As gêmeas assentiram, e então se retiraram.

Enquanto caminhavam de volta para seus quartos, Ririka sentiu quando um mindinho cutucou seu mindinho. Suspirou. Ainda estava irritada, quase magoada, com Kirari, mas não recusaria aquele afeto. Logo, esticou um pouco a mão e aceitou o entrelaço de seus dedos. Pode ouvir quando um suspiro de alívio escapou baixo de sua irmã.

Os empregados que as acompanhavam foram dispensados assim que alcançaram o corredor que as levava para seus devidos quartos. As mãos se soltaram quando cada uma rumou para o próprio aposento, e talvez não tivesse sido apenas Ririka que sentira, mas seu corpo reclamou. Foi frio. Quando o morno das mãos deixou de aquecer uma a outra, o vento frio batendo em suas palmas, foi solitário.

Decidida a não pensar muito sobre a separação de sua irmã e não querendo falar sobre o ocorrido no helicóptero, Ririka rumou para o banheiro. O kimono foi tirado de seu corpo antes mesmo de alcançar completamente o destino, jogando-o no cesto de roupas sujas assim que pôde. Seu banho já estava pronto, como esperado, então não se demorou para fechar a porta da sala de banho, tomar uma ducha rápida para limpar o corpo e enfim entrar na banheira. A água quente em contato com sua pele logo fazendo todo os pelos de seu corpo se eriçarem.

Com as costas recostadas no encosto da banheira, apoiou a cabeça na borda, afundando um pouco mais. Fechou os olhos. Cada músculo de seu corpo pareceu relaxar, e um suspiro escapou de seus lábios. Apenas o barulho dos sapos e dos grilos do lado de fora invadiam pela janela, os vidros embaçando com o banho quente e o cheiro de jasmim tomando todo o lugar. Ririka tinha certeza de que dormiria se relaxasse um pouco mais.

De repente, a porta se abriu. No susto, Ririka escorreu e acabou afundando na banheira. Ao se erguer, tossindo um pouco por conta da água que entrara pelo nariz, a garota fitou seu reflexo. Bem, não seu reflexo do espelho, seu próprio reflexo ambulante. Kirari tinha os olhos confusos com o susto da irmã, a toalha amarrada sobre os seios e os cabelos soltos, enquanto as mãos repousavam em sua cintura.

–– O que está fazendo aqui, Kirari?! – Ririka tentou se encolher, cobrindo a si mesma com os braços e as pernas da melhor forma que conseguiu.

–– Eu não consegui relaxar sabendo que você ainda estava brava comigo.

–– E não podia esperar eu sair do banho? – as bochechas brilhavam em vermelho, e não apenas pelo calor do ambiente.

Kirari franziu.

–– Está com vergonha, Riri? Você sabe que tudo o que você tem, eu também tenho, certo? E, no nosso caso, a semelhança é ainda maior.

Ririka bufou. Ainda com uma mão sobre os seios, ela apontou para a porta.

–– Sai, Kirari!

–– Eu quero conversar com você!

–– Eu estou nua, Kirari! Não quero falar com você.

Kirari fez bico, sabendo que aquilo a daria alguma vantagem sobre a irmã. E, como planejado, a garota assistiu quando Ririka desviou o olhar, grunhindo baixo.

–– Por favor?!

–– T-tá! – gaguejou. – Me es-espera no quarto, ok?

Kirari sorriu, assentindo. Assim que teve certeza de que a gêmea tinha saído, Ririka se ergueu da banheira. Caminhando apressada até o cabide de parede, de onde pegou sua toalha, enrolando-se as pressas. Ao sair da sala de banho, caminhou até a pia. Não se demorou para secar o cabelo e escovar os dentes, levando menos tempo ainda para se vestir.

No quarto, como esperado, Ririka encontrou sua irmã. Desta vez, Kirari já trajava seu pijama, deitada com os braços apertos na cama da outra e olhando para o teto.

–– O que você quer falar? – a garota se aproximou da irmã, empurrando-a um pouco para que ambas pudessem se deitar.

Kirari se virou, ficando de bruços e apoiando a cabeça na mão para poder fitar a irmã.

–– Por que se zangou comigo?

Demorou um pouco para a resposta vir. Ririka não sabia se deveria falar para a irmã que se magoara quando ela disse que Mary não queria ser sua amiga. Já tinha levado tanto tempo para que a gêmea mais velha enfim acreditasse genuinamente que a loira a tinha como amiga, ouvir aquilo de Kirari não a deixou apenas irritada. Ela ficara verdadeiramente magoada.

Ririka não tinha muitos amigos, não sabia fazer amizade e geralmente seu sobrenome tornava as coisas 10 vezes, 100 vezes, mais difíceis. Com Mary, ela aprendeu o que era aquilo, pois por muito tempo sua única amiga foi Kirari. Não era justo dizer que Saotome não queria ser sua amiga, na verdade, era muito cruel. E doía a simples hipótese de aquela afirmação ser verdadeira.

–– Por que disse que Mary não quer ser minha amiga?

Kirari piscou. A realização enfim a atingindo.

–– Então é sobre isso? – Kirari riu.

Ririka bufou, pegando o travesseiro que estava em sua cabeça e o colocando sobre o rosto, envergonhada demais para deixar que seu rosto fosse visto- e sua máscara longe demais para ser usada.

–– Kirari! – choramingou por entre a fronha.

–– Desculpa, desculpa. – ela se sentou. Kirari segurou a mão da irmã, tirando o objeto fofinho de seu rosto, para que pudesse olhar nos olhos azuis iguais aos seus. – Você entendeu errado, Riri. Não quis dizer que a senhorita Saotome não quer ser sua amiga, eu quis dizer que ela quer ser mais que apenas sua amiga.

Ririka franziu, sentando-se também e apoiando as costas na cabeceira da cama.

–– Quer dizer, tipo... melhores amigas?

Kirari fez careta, negando com a cabeça.

–– Quero dizer, tipo... – pensou por um segundo e deu de ombros, não acreditando que diria aquilo mesmo. – Quero dizer tipo eu e Sayaka.

No mesmo instante, as bochechas de Ririka queimaram.

Como Kirari e Sayaka? Mary queria ser com ela como sua irmã era com sua secretária?

“Oh, céus!”

–– Ma-mas... Vo-você e a Sa-say... – gaguejou, sua dicção a abandonando.

Kirari riu de novo, voltando a se deitar na cama e fitando teto.

–– Acho que Mary ama você.

–– Po-por que a-acha isso?

–– Porque acho que só você não percebeu isso ainda, irmã. A questão não é se é verdade ou não que Mary tem sentimentos por você, é se você tem por ela.

Ririka se levantou as pressas, as mãos voando de encontro uma com a outra e começando pequenas brigas entre seus dedos. Ela engoliu em seco. A respiração ficou descompensada e seu corpo tremeu.

Sentimentos por Mary? Bem, ela tinha sentimentos por Mary, eram amigas, mas seria amor? Como ela conseguiria dizer se o que sentia era amor, se sequer conseguia definir o que era amor? Como ela diria para a loira que a amava, se não era capaz de sequer entender o que aquele sentimento significava?

E sobretudo, como poderia ter certeza de que Saotome Mary tinha sentimentos por ela? Não era no mínimo estranho desenvolver sentimentos por alguém tão estranha como Ririka? Quero dizer, Yumeko estava bem ali e, por mais que a Jabami parecesse muito com Kirari, Saotome e a garota tinham uma amizade muito mais íntima e próxima do que elas duas. Como ela poderia se apaixonar por uma Momobami? Ninguém é idiota a esse ponto.

Quase ninguém é idiota a esse ponto, afinal de contas, Sayaka estava apaixonada por uma Momobami. E ninguém dizia que a garota estava louca, que era estúpida ou coisas do tipo. Não. Portanto, se era possível que a secretária se apaixonasse por Momobami Kirari, a presidente sádica do conselho estudantil, por que parecia tão impossível acontecer o mesmo entre Ririka e Mary?

“Loucura do sábio ou sabedoria do tolo?”, pensou repetidas vezes.

Seu coração estava disparado e um frio tomava seu peito.

Tudo bem, partindo do pressuposto de que Kirari estivesse dizendo a verdade, como Ririka poderia ter certeza de que era amor? Ela não conhecia o amor. Já lera em tantos lugares, em filósofos, sociólogos, escritores de romance adolescente barato, mangás, revistas em quadrinhos. Assistira romances, comédias românticas, tragédias. Obras estrangeiras, nacionais, clássicas, modernas, contemporâneas. Procurou por uma similaridade para que ela pudesse definir como amor para todos, mas sempre caía no mesmo problema: amor é diferente para todo mundo. E se diferente para todos, como ter certeza de que o que sente é amor? Sobretudo, como ter certeza de que o que o outro sente é amor?

Ela estava pensando demais. E ainda nem havia chegado à possibilidade de Kirari ter errado em sua aposta. Não que Ririka acreditasse nisso, sua irmã não costumava errar com tanta facilidade. No entanto, a possibilidade ainda estava ali, certo?

–– Riri? – Ririka virou afobada para a irmã, que agora estava sentada. Deu duas batidinhas no colchão. – Senta.

Ainda sentindo seu corpo inteiro enérgico, Ririka se forçou a caminhar de volta para a cama e se sentar. Kirari forçou seus ombros, deitando a irmã com a cabeça em seu colo e passou a acariciar a divisa entre suas sobrancelhas com o próprio polegar.

–– Você está fazendo aquilo de novo. – murmurou, vendo o franzido da irmã se desfazer sobre seu toque. – O que te incomodou?

Ririka engoliu em seco. Era coisa demais para explicar. Então filtrou tudo em uma pergunta.

–– Como sei o que é amor?

Kirari piscou, seu afago parando momentaneamente pela surpresa da pergunta da outra. Os olhos azuis de ambas se encontraram. E foi naquelas órbitas que a gêmea mais nova percebeu. Ririka genuinamente não conhecia aquele sentimento. Riu fraco.

–– Você realmente não sabe, não é? – Ririka balançou a cabeça, negando. Kirari suspirou. – Bem, acho terá de descobrir então, ou acabará magoando a senhorita Saotome.

Ririka pensou por um segundo. Kirari não sabia o que se passava na cabeça da irmã, mas era no mínimo adorável assistir sua cabeça funcionar. Os olhos sempre pareciam se perder em um ponto qualquer, e fechavam um pouco; a boca formava uma linha, comprimindo os lábios, e uma pequena parte se lábio era sugada para dentro da boca. Kirari sempre se perguntou se, quando ela pensava, ficava pelo menos perto de como Ririka ficava. Não que fosse impossível, ela sabia disso, e ainda sim o questionamento permanecia.

Com um impulso repentino, Ririka se ergueu, virando-se para a irmã com os olhos bem abertos. Ela sorria, animada demais para esconder aquilo. Kirari franziu, confusa com a reação repentina da irmã. Teria a mais velha descoberto o que era amor assim? Tão rápido?

No entanto, na cabeça da outra gêmea, a solução estava muito pelo contrário. É claro! Como ela não pensou nisso antes? Ririka precisava saber de uma pessoa que conhecesse como era estar apaixonado por alguém, ouvir da boca dessa pessoa a exata descrição do que era amor. E ela tinha uma pessoa perdidamente apaixonada por outra bem na sua frente. Ririka pensou, portanto, que se conseguisse que Kirari a dissesse o que era amor, ela estava certa de que conseguiria entender. Talvez, sua irmã gêmea enfim a ajudasse a abrir os olhos para aquele mundo.

–– Me explica! – Ririka praticamente gritou, muito animada por enfim aprender sobre amor.

Kirari deixou a cabeça pender um pouco para o lado, ainda não compreendendo.

–– Sobre... amor?

–– É! – ela se levantou da cama, a animação a deixando muito ansiosa para ficar parada, e passou a andar de um lado para o outro. – Pensa comigo, Kirari! Eu não sei o que é amor, e só posso aprender realmente amando. Mas, se houver alguém que sabe o que é e puder me guiar, talvez eu seja capaz de compreender o que eu sinto. – virou-se para a irmã, os olhos brilhando. – Você é completamente apaixonada pela Sayaka, então pode me guiar. Me explica, Rari!

Kirari corou de leve, mas não deixou de rir. Sua irmã era mesmo uma criança em corpo de mulher.

–– Eu não sei se isso irá te ajudar, Ririka. O amor é um sentimento que cada pessoa sente de formas diferentes. Até mesmo as pessoas envolvidas, sentem diferente.

–– Bem, isso é claro. – os olhos azuis caíram sobre o aquário perto da janela. Via-se apenas os olhinhos brilhantes amarelos de Tsuki, escondidinho em sua caverna. Ririka sorriu. – Somos Momobamis, Kirari, temos sangue frio. A forma como você ama Sayaka com toda certeza será diferente de como ela te ama. – voltou-se para a irmã. – Mas, você a ama. Já seria de grande ajuda.

Kirari a encarou por alguns minutos.

Não costumava falar sobre seus sentimentos por Sayaka para ninguém que não fosse a própria. No entanto, a Momobami sabia que sua irmã verdadeiramente precisava de ajuda sobre aquele assunto. Kirari temia que, se não a ajudasse, Ririka provavelmente explodiria sem saber o que realmente sentia. Confusão nunca foi o forte de sua irmã mais velha e, diferentemente dela, não saber de algo a incomodava.

A gêmea suspirou.

–– Tudo bem.

Se é que era possível, o sorriso de Ririka cresceu ainda mais.

–– Mesmo?!

–– Sim. – ela riu, vendo a irmã se jogar em cima dela em um abraço agradecido. Deu leves tapinhas em seu ombro, para a afastar de si. – Por onde quer que eu comece?

–– Certo, eu não pensei nisso. – Ririka pensou por um segundo antes de assentir, determinada. – Como soube que a amava?

Kirari sorriu.

–– Acho que devemos começar por algo menos épico. – as duas deitaram de novo na cama, as cabeças viradas para cada lado da cama e ambas fitando o teto. Kirari respirou fundo. – Tudo começou quando ela pediu para ser minha secretária.

Ririka tinha o nariz enrugado, cheirando de leve o objeto em suas mãos. As bolinhas, à primeira vista, pareciam deliciosas: o molho marrom melando por cima e um pouco de cebolinha picada de enfeite. A garota sabia o que eram takoyaki, mas nunca efetivamente provara. Sua avó dizia que era comida de ralé e elas não eram ralé, portanto, nenhuma das gêmeas podia comer aquele tipo de coisa.

–– Você tem certeza de que isso é... higiênico? – ela olhou para a barraquinha, a senhorinha sorrindo para outro cliente totalmente alheia a conversa das duas adolescentes sentadas em um banco mais distante. – Digo, ela está vendendo comida na rua. Não tenho certeza de que...

–– Ririka! – a outra brigou, fazendo a mais velha se calar. Ela espetou a bolinha que estava no pote de papelão no colo da outra antes de prosseguir. – Prova! E ai você decide depois se gosta ou não.

–– E-e se eu fo-for alérgica?

–– Você não é. – a garota revirou os olhos. – Prova logo, sua idiota!

Ririka suspirou e abriu a boca. Os olhos azuis fitaram os dourados. Mary tinha as bochechas levemente coradas e os olhos levemente arregalados. A outra não entendeu porquê de Saotome está com vergonha, mas logo sentiu quando o takoyaki foi posto em sua boca.

Era delicioso! O gosto do agridoce parecia explodir em contraste com o gosto salgado do polvo. Ririka não demorou para pegar outra bolinha, sorrindo de boca cheia para a sensação nova que adorara conhecer. Não importava mais nada, se era ou não higiênico, se sua avó iria ou não brigar com ela. Não importava. Aquele era seu novo prato favorito.

Ao seu lado, Mary a assistia com os olhos divertidos, mas as bochechas ainda queimando um pouco. A verdade é que a primeira bolinha não era para Ririka e a loira, no entanto, não soube, e nem quis, revelar isso para a outra garota, que tinha ficado adorável com os olhinhos temerosos levemente fechados a boca aberta. E, agora, vendo como a mais velha estava feliz e animada com o novo prato que provara, Saotome não conseguiu não sentir o sentimento de orgulho em seu peito. Ela causara aquele sorriso e aquela felicidade na garota. Seu coração pulou em seu peito.

Balançando a cabeça para dispersar quaisquer outros sentimentos em relação a mais velha, Mary deu um leve empurrão em Ririka, de forma brincalhona.

–– Hey! Não vai comer tudo, eu também quero.

Ririka a olhou com os olhos esbugalhados, as bochechas queimando fortemente.

“Oh, droga! Será que comi demais? Eu esqueci da senhorita Saotome!”, pensou, nervosa.

Olhou para o próprio colo, em um alvoroço só, apenas para constatar que, das 6 bolinhas compradas, ela já comera 3 e tinha uma presa entre seus dentes na boca. Sentiu-se mal por ter devorado o lanche da amiga. Com pressa, terminou de comer o takoyaki já em sua meio-comido, forçando-se a mastigar e engolir o mais rápido que pôde. E ao ter a boca vazia, ergueu-se. Mary franziu, vendo a afobação de Ririka.

–– Perdão, senhorita Mary! E-eu posso comprar mais se vo-você qui-quiser. – gaguejou, enfiando a mão no bolso da saia para pegar alguns yens.

Mary se levantou, apressando-se para negar com a cabeça.

–– Não precisa! Eu posso comprar mais depois, Ririka.

–– E-eu vou ver se ela ainda te-tem al-alguns... – e se virou, pronta para caminhar apressada para onde a senhorinha sorridente servia algum novo cliente.

–– Ririka!

Mary se apressou para segurar o braço da menina, intendendo pará-la. Mas a atitude brusca apenas puxou a menina de encontro com seu corpo. O corpo da Saotome até tentou segurar as duas, no entanto não surtiu muito efeito quando Ririka procurou equilíbrio também. Enquanto a loira caiu sentada de novo no banco, a Momobami tentou procurar uma forma de não cair em cima dela. O joelho da mais velha caiu na lateral do corpo da outra, um braço se apoiando no encosto do banco e o outro no ombro da garota abaixo de si. E, por impulso para impedir que o corpo caísse sobre si, as mãos da garota sentada voaram para a cintura da outra, apertando com firmeza.

O dourado segurou os azuis por pouco mais de meio minuto antes de ambas parecerem perceber a posição em que se encontravam. Ririka pulou para trás, as bochechas queimando como brasa e os olhos arregalados. As mãos, que já eram brancas e agora se encontravam pálidas como papel, antecipou-se para cobrir o rosto. Mary também tinha as bochechas vermelhas, evitando encarar a outra e as mãos fechando com força contra o assento.

“Não! Não, não, não! Droga, estraguei tudo!”, pensou Ririka, ansiosa demais para reparar que os takoyakis estavam jogados no chão, abandonados por elas.

Mary sabia que precisava falar algo, Ririka parecia que iria explodir no lugar, mas ela não conseguia reagir. Seu coração ressoava muito alto em seus ouvidos, e ainda tinha aquele frio na barriga maldito que estava deixando paralisada. E não apenas isso. A Saotome tinha certeza de que o formigar nas palmas de suas mãos não era devido ao aperto na madeira. Sua pele pedia por mais contato na mais velha, e por mais que fosse embaraçoso de admitir, ela não odiara aquele momento entre elas. Porém, como diria isso para a Momobami que claramente odiara aquele contato? Afinal de contas, a mais velha tinha odiado, certo?

A máscara. Ela queria desesperadamente sua máscara para cobrir a si mesma e fingir que aquele terrível ocorrido não tivesse acontecido. Como se não bastasse ter comido todo o lanche de Mary, ainda a colocara em posição no mínimo vergonhosa, e no meio da rua! Ririka só queria sua máscara, quem sabe assim seu coração pararia de chacoalhar em seu peito. Quem sabe se cobrisse seu rosto, seria rapaz de fazer o frio em sua espinha parar e aquela vontade de vomitar sumir.

Seu corpo inteiro tremia. As mãos, agora entrelaçadas atrás de si, brincavam de bater as unhas umas nas outras, o barulhinho de “pec, pec” não sendo ouvido com tanta clareza. Ainda que não estivesse de máscara, seus pulmões pareciam ter desaprendido a funcionar e a falta de ar estava a deixando desconcertada. E ainda tinha aquele formigamento em uma das mãos, na parte interna de seu joelho e em parte da panturrilha. Como se tudo isso não fosse suficiente, o seu corpo inteiro estava arrepiado, não que ela soubesse dizer o porquê.

Por um descuido, os olhos se cruzaram de novo. O formigamento em sua mão piorou, e ela não aguentou, permitindo-se de coçar a mão em um desespero para fazer a sensação passar. Mary assistiu seu ato. Por um segundo, os dourados perderam o brilho, apenas tempo suficiente para que a loira se erguesse.

“Pronto, é agora que ela vai dizer que não quer mais ser minha amiga.”, o pensamento fez os olhos azuis se encherem, as lágrimas ameaçando derramar.

Para a surpresa da menina mais velha, a loira apontou para o muro da escola.

–– Ainda temos um tempinho antes das aulas da tarde. Conheço um lugar que podemos deitar um pouco e descansar o tanto de comida que comemos.

Ririka não sabia se queria ir. Por um lado, ela queria correr de volta para a escola e pegar sua máscara, deixada na sala do Conselho Estudantil por ordens de Mary para que assim pudessem aproveitar o horário daquele intervalo como pessoas normais. Por outro lado, porém, a Momobami não queria se afastar da amiga, não ainda. Temia que, se o fizesse, seus erros pesariam e ela perderia a Saotome. A simples ideia de perder sua amiga fazia um calafrio subir por sua espinha e seu coração se apertar. Era uma sensação ruim.

Portanto, ainda um pouco tímida, Ririka assentiu. Ambas as meninas limparam a sujeira que o takoyaki fizera no chão e então rumaram, em silêncio de volta para a escola.

Mary as guiou para uma parte mais afastada de alguns prédios, passando por alguns arbustos. Ririka não conhecia aquele lugar, e olha que ela deveria conhecer basicamente a escola inteira como a palma da própria mão. A loira ergueu um pouco alguns arbustos, abrindo uma passagem, e apontou para que a outra atravessasse. E assim que os olhos azuis fitaram o que tinha do outro lado, foi impossível conter o sorriso.

Era uma clareira, não muito grande, com uma enorme árvore no centro. A magnólia kobushi tinha lindas flores brancas-rosadas resistindo bravamente ao outono. Ririka estava admirada, os olhos azuis brilhando ao se aproximar de um dos frutos da planta e o acariciar com delicadeza. Mary se aproximou.

–– Como conhecia esse lugar? – Ririka entrou um pouco por entre as cascadas de flores, o cheiro invadindo suas narinas. – É tão... lindo. E-eu não acho que eu te-tenha vindo aqui antes.

Mary se sentou na base do tronco, recostando as costas na madeira e deu de ombros, assistindo a outra garota também se sentar. A loira percebeu quando Ririka recuou um pouco, ainda envergonhada demais para aquela aproximação. Saotome sorriu de canto.

–– Eu encontrei. – o sorriso se tornou orgulhoso quando as órbitas azuis se tornaram admiradas pelo trabalho da amiga. – Eu e uma... velha amiga.

Os olhos dourados fitaram as próprias mãos. Ririka franziu, a cabeça pendendo um pouco para o lado. Aquela expressão no rosto de Mary era nova para ela. Era uma expressão que carregava um misto de sentimentos: dor, raiva. E havia algo a mais ali. Saudade?

–– Ela deve ser muito importante para você. – murmurou em um fio de voz, também fitando as mãos.

–– Era sim.

Aquela frase, por mais inocente e pequena que fosse, causou uma fisgada no peito de Ririka. Não era justo. Mary parecia triste com algo e ela estava pensando em como queria ter sido essa amiga? Para descobrir algo com a loira, algo que se tornasse só delas duas, e ser importante para Saotome também. Não era justo com a loira aquele tipo de atitude de sua amiga. Ela a trouxera até ali, certo? Isso seria suficiente por hora.

–– Huh... Quer ouvir música? – a voz de Mary a puxou de seus sentimentos. A loira tinha puxado o celular e os fones, estendendo um dos lados para a mais velha. Ririka assentiu, aproximando-se um pouco. Saotome pareceu corar um pouco. – Não ri, ok?

A mais velha não entendeu, e ficando ainda mais confusa quando a batida começou. Não era ruim, muito pelo contrário, era muito boa. As vozes de alguns garotos pareciam uma sinfonia perpetuando em seus ouvidos. Ririka fitou Mary, os olhos dourados ansiosos por uma resposta.

–– Por que eu riria? É uma música muito boa. Qual o nome?

Mary arregalou um pouco os olhos.

–– Você não conhece One Direction? – Ririka balançou a cabeça. Mary abriu a boca, em choque, e logo se apressou de tirar os fones do celular, erguendo-se. – Essa se chama Fireproof. Eu dedico a você, garota do fundão. – brincou, fingindo estar em um show cheio de gente e dando play de novo na música.

Ririka riu, vendo a garota iniciar uma performance constrangedora de tão exagerada que eram seus movimentos. Ela rebolava, dançando e cantando em um inglês arrastado, quase berrando as letras. Mary gesticulou na direção da Momobami, apontando para ela em certa parte da música, apenas dar um giro e voltar a performar. A mais velha não demorou para puxar o celular e filmar os movimentos da amiga.

Quando a primeira música acabou, e os olhos dourados fitaram os azuis, tinha um brilho que Ririka não soube explicar. Era quase como procurasse por algo. A respiração descompassada e as bochechas avermelhadas de cansaço. Não demorou para que Mary percebesse o objeto nas mãos da mais velha e logo se jogou em cima dela, que gargalhava afastando o eletrônico da mais baixa.

–– Deleta isso! Deleta isso, porra! – pedia desesperada.

–– Nã-não! E-eu quero de recordação.

Mary se sentou, bufando.

–– Sua memória é recordação suficiente. – cruzou os braços, desviando o olhar. Ririka riu, cutucando seu rosto com o dedo indicador enquanto guardava o celular. Mary estapeou sua mão. –  Não, sai! Idiota.

Uma outra música começou a tocar e, por mais que Ririka não soubesse sobre o que falava, ela julgou que seria uma boa puxar a loira para dançarem juntas. As bochechas de Mary queimaram, fitando a mais velha totalmente alheia ao significado de Change My Mind tocando no celular da garota.

–– Eu nã-não sei fazer como você fez. – Ririka corou fortemente, mas sorriu. Mary sentiu seu peito aquecer. – Mas se te deixa mais tranquila de que estaremos quites... –  ela tirou o celular do bolso e o apoiou na árvore, gravando as duas. – Pagamos mico juntas.

Mary gargalhou. Ririka era mesmo adorável.

Com esse pensamento em mente, Mary segurou as mãos da menina e a guiou em sua dança desengonçada, dando rodopios vez por outra na menina, que ria da bobeira das duas. No entanto, Ririka não ligava mais para a música que tocava, estava se deliciando com a risada de Saotome e em como seus cabelos voavam com os movimentos que faziam juntas.

Mary era sua amiga. Ela não precisava temer outras pessoas, ainda mais aquelas do passado de Saotome. E foi com esse alívio no peito que Ririka se deleitou das demais músicas da playlist de One Direction nos favoritos da mais nova.

 Uma vez, quando elas tinham 13 anos, Ririka viu a irmã realmente preocupada. Não tinha acontecido muitas vezes, Kirari não era de deixar suas emoções visíveis, a menos que fosse para debochar dos de outra pessoa. Na verdade, se bem recobrava, aconteceu esta única vez. Os olhos azuis ficaram arregalados, como se pudessem saltar da face da menina, e tão inundados quanto as lágrimas sendo seguradas poderiam guardar. O medo diante de seus olhos.

Ririka tinha se jogado em um poço, pois, sem querer, Tsuki caíra lá dentro e a menina queria buscar o amiguinho. Kirari ficara no topo e gritara por todos os empregados que pôde, mandando que buscassem sua irmã “daquela entrada pra o inferno”. A mais velha nunca entendeu o porquê a ideia de ela estar lá embaixo apavorou tanto sua gêmea. Não era como se sua presença mudasse algo na vida da outra, mas, naquela noite, quando foi arrancada para fora do poço e elas enfim se abraçaram, ignorando o fedor que vinha de uma delas, Ririka não se importou de não entender.

Não aconteceu mais, porém. Desde aquele fatídico dia, Kirari proibira qualquer passeio perto do poço que Ririka viesse a querer fazer com o sapo, alegando que se a mais velha caísse lá, não iria a buscar uma segunda vez. E como sempre foi muito boa em obedecer, a outra gêmea acatou. Ela e Tsuki passavam boa parte do tempo no jardim, o bicho em seu aquário menor de passeio; vez por outra, iam para a biblioteca ou ficavam pelo quarto mesmo.

Kirari não demonstrara mais tanto medo, não que Ririka tivesse presenciado. Ainda demonstrava suas preocupações acerca da irmã, mas nada que chegasse a chover sentimento como naquele dia. No máximo, no dia de sua aposta juntas, e isso era algo que a mais velha preferia não comentar. As herdeiras cuidavam uma da outra e se preocupavam. No entanto, demonstrar mais que o necessário não era algo do feitio de nenhuma das duas. Eram Momobamis. E Momobamis são como sapos: Momobamis tem sangue frio.

Portanto, demonstrar esse tipo de coisa, essa apreensão sobre o bem-estar de uma pessoa não era de tudo normal para o dia a dia. Em contraste com seus costumes, o coração da Momobami mais velha se apertou e seu corpo gelou ao ver o nome gravado na tela do celular, que gritava pedindo por atenção ao receber uma chamada. Ririka mal podia acreditar em si mesma. Não é que fosse 100% culpa dela. A única pessoa para quem ela, às vezes, dava satisfação, era para sua irmã, com quem estava bem agora. Logo, em seu modo automático, a garota esqueceu completamente de avisar para Saotome Mary que chegara e que estava viva.

–– Não vai atender? – Ririka fitou a irmã, que tinha o olhar irritado. – Eu não aguento mais ouvir One Direction tocando. Atenda logo a senhorita Saotome!

Ririka agarrou o celular, erguendo-se da cama e caminhando para o closet, onde se trancou. Fitou a tela do telefone por mais alguns toques. Seu coração estava disparado. Ela não sabia dizer, mas se sentia feliz. E não apenas feliz, ela estava genuinamente alegre por receber a ligação da amiga. Seu peito subia e descia em respirações pesadas, sua respiração ligeiramente descompensada. Era como se seu corpo estivesse quase ansioso só com a ideia de ouvir a voz do outro lado. No entanto, ainda que aquele fosse um sentimento ruim, Ririka não conseguia conter o pequeno sorriso no canto dos lábios- não que ela sequer soubesse que o carregava, de qualquer forma.

Atendeu.

–– Aê, finalmente! Achei que tivesse sumido. – a voz de Mary era irritada. No entanto, era carregada de preocupação, a afobação na respiração entregava isso. – Por que você não me ligou, sua idiota?! Eu fiquei morta de preocupada com você.

–– De-desculpa, senho-Mary! – ela pigarreou, desencostando da porta e caminhando um pouco pelo armário. – E-eu esqueci. Sin-sinto muito. Kirari e eu tivemos tempo apenas de nos trocar e fomos para o jantar e depois, bem, depois... Aconteceram umas coisas. – ela murmurou o final, não querendo realmente que Mary a ouvisse.

A loira do outro lado, porém, suspirou.

–– Tudo bem. Eu só fiquei realmente preocupada, não precisa fazer essa voz.

Ririka franziu, pendendo um pouco a cabeça.

–– Q-que voz?

–– Essa!

–– Mary, não acho que estou conseguindo entender seu ponto.

Por mais que Ririka não visse, de alguma forma, como as palavras soaram a seguir vindas de Mary, ela sabia que a outra tinha corado. Era o mesmo tom de quando ficava envergonhada. O tom meio arrastado, como se forçando as palavras a saírem.

–– E-esse tom, merda! – ela bufou. – Quan-quando você faz alguma besteira e quer que eu te desculpe, você sempre usa esse tom. É irritante!

Ririka não se conteve, acabou rindo um pouco.

–– Se você diz. Mas, Mary, eu não consigo ver a diferença dos meus tons de voz. – ela fitou a porta que levava para o banheiro. – Bem, eu também não tenho muitas interações sociais, além de minha irmã, você e o Conselho. Logo, não costumo me desculpar com tanto arrependimento. – ela segurou o queixo com os dedos, um bico se formando conforme pensava. – Acho que esse tom de voz é só para você, Mary.

Por longos minutos, Mary ficou em silêncio. Ririka tirou o celular do ouvido algumas vezes, para ver se a garota tinha caído, e até tentou a chamar, mas não houve resposta.

Será que ela dissera algo errado? Não tinha mentido, certo? No Conselho, ou até mesmo nas reuniões com o clã, era muito mais comum que se desculpassem com ela do que efetivamente o contrário. Não é que a Momobami fosse mal-educada e nunca se desculpasse, mas havia algo quando era com Mary. Ela sentia esse desespero de tirar essa angústia causada por ela mesma do peito da Saotome. Talvez, fosse por isso que a mais velha tinha aquele tom de voz somente para a amiga, algo que ela não tinha planejado, sendo bem sincera.

–– Mary? E-eu sei que está ai, consigo ouvir sua respiração. – Ririka pediu, preocupada ao ouvir o descompasso dos suspiros. Um outro ainda mais logo se seguiu. – Você está bem?

Um murmuro foi ouvido, algo que a Momobami não foi capaz de distinguir, mas parecia positivo.

–– Então, huh... – Mary voltou, parecendo desconfortável. – Eu te ligo amanhã, certo?

Ririka não queria desligar agora. No entanto, sabia que a garota parecia precisar de um tempo para algo e não seria a Momobami que impediria Mary de ficar melhor.

–– Certo. – assegurou. – M-me... huh... – fechou os olhos, respirando fundo.

–– Você?

“Vamos, Ririka, você consegue! É Mary, sua amiga, você pode fazer isso.”, pensou.

–– M-me ma-manda mensagem qua-quando... – pigarreou, tentando fazer as frases desentalarem da garganta. – Quando esti-tiver melhor. Não me de-deixe preocupa-pada, po-por favor.

O suspiro de alívio que escapou de seus lábios foi audível o suficiente para fazer Mary rir do outro lado da linha. Ririka sorriu de canto, a risada soando como uma belíssima sinfonia em seus ouvidos. Ainda estava um pouco tímida pelo que pedira, mas ouvir a outra ficar tão relaxada sobre a acalmara um pouco.

–– Pode deixar, Ririka.

Elas desligaram e Ririka voltou para o quarto.

Kirari não parecia ter sequer se movido, mas o celular em suas mãos dizia o contrário. A luz brilhava em suas órbitas azuis e os polegares pareciam flutuar de tão rápido que ela digitava. No entanto, foi o pequeno sorriso no canto dos lábios que fez com que a mais velha soubesse com quem a irmã conversava. Ririka se jogou ao seu lado na cama e, como se automático, a outra bloqueou o objeto, largando-o ao seu lado na cama.

Ririka arqueou a sobrancelha.

–– Sayaka? – Kirari assentiu. – Certo. Onde paramos?

–– Eu quero saber como foi a ligação com a senhorita Saotome antes.

As duas se sentaram, encarando uma à outra. Com a sobrancelha arqueada, Ririka cruzou os braços.

–– Tudo bem, então me diga o que conversava com a senhorita Igarashi primeiro.

Kirari semicerrou os olhos.

–– Touchè. – bufou. Ambas se jogaram na cama de costas, prosseguindo o assunto como se nada tivesse acontecido. – Certo, onde eu parei?

–– Você contava como pequenas coisas dela te fascinam. – Ririka se apoiou nos cotovelos para conseguir fitar a irmã. – Você quer dizer, tipo, você fica reparando nela o tempo inteiro?

Kirari pensou um pouco.

–– Não acho que seja o tempo inteiro, mas sempre que possível.

–– Por que?

Foi a vez de Kirari se apoiar nos cotovelos, as sobrancelhas franzidas na direção da mais velha, que não parecia entender qual o motivo de tanto choque para aquela pergunta.

–– Riri... – ela se sentou, cruzando as pernas. – Eu não faço isso porque eu quero.

Os olhos azuis ficaram ainda mais confusos.

–– Como não?

Kirari pensou por um tempo, parecendo procurar pelas palavras que precisava. Respirou fundo e deu de ombros.

–– Acho que é como um imã.

–– Um imã?

–– É. – ela assentiu, mais certa desta vez. – Não é porque eu quero, mas, quando vejo, eu já estou admirando ela fazer aquela careta adorável de determinação enquanto pensa em alguma coisa lógica demais para definir alguma coisa simples demais.

–– Quer dizer, isso te atrai? A agitação dela, digo. – Kirari assentiu. – Quer dizer que você se atrai por ela igual pavoas são atraídas pelos pavões?

Kirari a olhou ofendida.

–– Como é que é, Ririka?

A mais velha se sentou, encostando-se na cabeceira e abraçando um travesseiro por ali. Ela deu de ombros, achando que sua comparação fazia bastante sentido.

–– Pavoas se atraem por pavões devido sua agitação. Quanto mais agitados os pavões, mais as pavoas se atraem. – ela deu um momento para a irmã assimilar antes de continuar. – Quanto mais agitada Sayaka fica, totalmente perdida nos pensamentos de lógica dela na procura pelas respostas das suas loucuras, mais você se atrai por ela. Ou... Ou eu estou errada?

Mesmo que não quisesse admitir, Kirari sabia que a irmã tinha razão. Portanto, recusando-se a falar em voz alta, decidiu que iria admitir de outra forma.

–– Eu pensei que quem guiaria quem aqui, era eu a você e não ao contrário. – Ririka corou, murmurando uma “desculpa” baixa. A mais nova passou uma das mãos na franja, jogando-a para trás. – De qualquer forma... Eu reparo nas pequenas coisas da Sayaka, talvez por instinto. E são coisas que muito provavelmente só eu sei. É o que torna especial.

Ririka mordeu o lábio inferior. Aquela frase a intrigando.

–– Que... Que ti-tipo de coisas?

Kirari olhou preguiçosamente o celular, olhando a hora. Estava tarde, elas deveriam ir dormir. A mais nova se ergueu da cama da irmã, caminhando calmamente para perto da porta.

–– Ah, coisas tipo... Eu sei de gostos dela que ela tem vergonha de contar para outras pessoas, ou como eu sei cantos específicos do corpo dela que a faz ter cócegas e mais nenhum lugar. – ela fitou a irmã e deu de ombros. – Pequenas coisas que, para os outros, não são nada, mas para mim são o mundo. Continuamos mais amanhã, está tarde. Boa noite, Ririka.

Ririka apenas balançou a cabeça, os olhos sequer se dando ao trabalho de fitar a irmã deslizar a porta do quarto e sair.

Coisas que só eu sei.

Como se destrancasse uma porta, as lembranças com Mary foram escancaradas para ela no momento que a frase saiu da boca de sua irmã. Ririka conhecia muita coisa da loira, coisas que ela não sabia se outras pessoas sabiam ou não, mas que, no fundo, ela queria que fosse algo só delas. A Momobami sempre acreditou que tudo o que sua amiga a contava, eram coisas que ela também contava para Yumeko, ou Itsuki, até mesmo para Ryota. Nunca fora atrás de confirmar, não apenas por sua capacidade de socializar e fazer amizades ainda estar em desenvolvimento, como também por querer manter para si a ilusão de que ela carregava informações de Saotome que mais ninguém tinha.

Por exemplo, Ririka sabia que o gosto musical de Mary não ficava apenas no indie e no rock, ela também gostava bastante de K-pop e de pop; sabia que, atrás dos lóbulos das orelhas da loira, o cheirinho de bebê sempre estava presente, não importava quanto perfume ela passasse; sabia do lugar que a outra encontrara, e até já frequentara com ela algumas vezes. Não eram muitas coisas, ela tinha de admitir. Entretanto, eram coisas que faziam o coração da Momobami aquecer só de pensar que era algo somente delas, e de mais ninguém. Era especial.

Nunca quis, porém, confirmar se eram informações que apenas ela tinha. Repetira, várias vezes, que os amigos da senhorita Saotome com toda certeza tinham tais conhecimentos, certo? Afinal de contas, Yumeko abraçava Mary praticamente todo dia, não era possível que não soubesse sobre o cheirinho atrás de sua orelha; ou a senhorita Sumegari não saber dos gostos musicais da loira, já que sempre mexia pelas playlists desta; sequer Ryota seria tão oblívio ao lugar escondido, era o amigo mais longo de Mary, ele já deve ter ido lá várias e várias vezes. Por mais que as afirmativas fossem óbvias, Ririka preferia continuar ignorante sobre a verdade nelas.

Ririka e Mary eram amigas há pouco tempo. Não tinha como ela saber coisas tão específicas sobre a amiga sem que os amigos mais longos dela não tivessem reparado. Então, os argumentos não faziam muito sentido quando ela dizia a si mesma que Saotome não se sentia confortável com os demais como se sentia quando com a Momobami.

Um coaxar chamou a atenção da garota. Ela sorriu, erguendo-se da cama e caminhando para o aquário. Com toda delicadeza do mundo, Ririka abriu o vidro na parte superior e pegou o anfíbio em mãos.

–– Hey, Tsuki. – ela caminhou com o sapo para uma das portas, abrindo-a para o corredor externo da casa e sentando-se no batente. Suspirou. – Você conheceu o amor alguma vez, Tuski? Antes de vir morar comigo.

Ela mal acreditou em si mesma quando realmente esperou por uma resposta. O sapo apenas coaxou novamente, afundando mais ao contato quente das mãos da garota. Ririka balançou a cabeça, como se entendesse o que ele quis dizer, e ergueu os olhos azuis para o céu. A lua estava brilhando em um tom alaranjado. Estava linda.

–– Eu também te amo, Tsuki, mas não é sobre isso que eu quis dizer. – pronunciou-se de novo ao ouvir outro coaxar do sapo. – É um tipo que eu não entendo.

–– Eu não entendo!

Ririka procurava fôlego depois daquela corrida. Fora puxada com muita força pela loira, que correu desesperada para longe dos outros amigos.

Era horário do almoço e ambas as meninas tinham combinado de almoçar juntas. Para Ririka, almoçarem juntas não queria dizer que não poderia almoçar também com os amigos de Mary, certo? Desde que estivessem perto uma da outra, a mais velha não ligava. Obviamente, com mais pessoas ao seu redor, a garota ficaria mais calada e envergonhada, e não poderia efetivamente ficar de máscara, a menos que quisesses morrer de fome. Além disso, ela não ligava. Para sua surpresa, no entanto, a loira ligava. E não pareceu gostar nada quando Yumeko sugeriu que almoçassem todos juntos.

Mary agarrara a mão da Mombami, negando em plenos pulmões o convite conforme se distanciava. Ririka apenas se deixou ser arrastada, tendo apenas de apressar um pouco o passo quando a garota menor começou a correr.

Mary a encarava encostada na arvore, estavam agora novamente no lugar que a loira encontrara. Em uma mão, ela segurava seu almoço, enquanto a outra ainda estava enlaçada a da mais velha. Ririka percebeu isso, corando um pouco. Sua máscara cobria seu rosto, então ela não se importou de demonstrar que tinha percebido. Não queria soltar a mão da amiga.

–– O que não entendeu? – Mary questionou.

As pressas, ela soltou a mão, puxando-a para si um pouco afobada.

–– Po-por que correu? – Ririka se sentou ao lado da amiga, ambas agora com as pernas encolhidas e dobradas. Com a mão que não carregava o próprio almoço, tirou sua máscara. – Achei que quisesse almoçar com seus amigos.

–– Eu não disse que ia almoçar com você?!

–– Be-bem, sim. – ela fitou as mãos, os dedos se agitando com o tom raivoso da loira. – É s-só que... Ain-da poderíamos almo-moçar juntas, e com eles.

Mary negou com a cabeça.

–– Não! Eu disse que iria almoçar com você, não com eles.

–– Senhorita Saotome, nã-não me incomodaria, se é o que pe-pensa.

De repente, a loira jogou o próprio almoço de lado, ficando em pé e olhando com raiva nos dourados para a garota mais alta, ainda sentada. As mãos voaram para a cintura e Mary grunhiu. Ririka estremeceu em seu lugar.

–– Você não quer ficar sozinha comigo, Momobami?!

Não foi um tom totalmente raivoso. Teve algo mais, mas Ririka não soube distinguir. Portanto, apenas se apressou em ficar em pé, deixando seu almoço cair também.

–– Nã-não me entenda errado, senhorita Sa-Saotome. – pigarreou, desviando um pouco o olhar em uma tentativa de forma palavras que pudessem ser compreendidas. – Eu gosto de ficar sozinha com você. Só não quero que se afaste dos seus amigos por minha causa. – sua voz saiu como um fio, quase inaudível. – De-desculpa.

Mary pensou que, se estivesse um pouco mais distante, não teria ouvido. No entanto, seu peito derreteu ao ouvir o tom de voz ao pronunciar o pedido de desculpas. Ela se sentiu culpada. Não era culpa da Momobami que ela estivesse tão arisca, ou que estivesse tão sensível. Em partes, sendo sincera, era sim, mas Ririka não sabia desse fato. Logo, ela não merecia receber tais gritos, ou ter sido arrastada pela escola inteira.

A Saotome desviou o olhar quando teve os azuis sobre si. Suspirou.

–– Não, Ririka, eu que... eu que te devo desculpas. – ela fitou os próprios pés, uma mão apertando o braço com força para se livrar de um pouco de tensão. – Não é culpa sua, eu que não estou tendo um dia muito bom. Peço desculpas.

Ririka tocou sua mão, os dedos fazendo os da loira institivamente aliviarem o aperto. As duas se fitaram e a mais alta sorriu pequeno, dando de ombros.

–– Comer sempre me acalma um pouco.

Mary riu.

Entretanto, quando se viraram, foi como ter presenciado a cena de um crime. Ambos os almoços tinham se aberto, deixando a comida inteira cair sobre a grama. Um choramingo saiu dos lábios de Ririka, seguido por um grunhido de Mary. Elas se apressaram para juntar a comida do chão, tendo em mente que não havia como comer aquilo. Não mais.  

–– Merda! Merda, merda, merda! – Mary choramingou ao ver a comida estragada, um bico enorme se formando em seus lábios. – Eu tinha passado a noite inteira fazendo isso.

Ririka se ergueu, seu potinho já fechado em mãos.

–– Você tem outro?

–– É claro que não, Ririka! – ela fitou a amiga, os olhos dourados brilhando de decepção pela comida. O brilho vermelho que pintou as bochechas de Mary deixara a mais velha confusa. – E-eu tinha feito algo para você provar.

–– Eu... provar?

–– É. Você sempre traz essas comidas chiques para eu provar, eu queria retribuir o favor, mas não queria que os outros vissem. – ela cutucou a salsicha de polvo no prato, imundo de terra. – Mas agora ele tem esse tempero intragável nele.

A risada de Ririka chamou a atenção dos olhos dourados. Mary franziu ao ver a mão da mais velha cobrir a boca, impedindo que a risada se espalhasse muito mais alta. Ela estava linda: os ombros tremendo de leve com as gargalhadas baixas, os olhos fechados como se deliciando da cômica atitude de Saotome.

–– Do que você está rindo, sua idiota? Eu perdi todo meu trabalho.

–– Desculpa, Ma-Mary. – ela fitou a amiga, o olhar risonho e um pequeno sorriso contido brincando nos lábios. – É só que... Você ia me dar para provar salsichas?

A boca da loira abriu em uma falsa ofensa.

–– De polvo! Salsichas de polvo, ok? E elas estavam muito bem temperadas.

–– Certo, certo. Desculpa. – Ririka respirou fundo, seu ar risonho ainda pairando entre as duas. – Bem, tenho certeza de que Kirari e Sayaka ainda não almoçaram. Podemos ir até a sala do Conselho Estudantil e pedir algo simples e rápido para o nosso chefe.

–– Teremos de almoçar com sua irmã?

–– Não se você não quiser. – a Momobami pensou um pouco. – Podemos ir para uma das salas vazias da área sul, no terceiro andar.

Mary fez careta, suspirando.

–– Vamos levar falta se demorarmos tanto assim.

Ririka sorriu, orgulhosa.

–– Você está na presença da vice-presidente do Conselho Estudantil, senhorita Saotome. Eu consigo cuidar disso por nós.

Não foi necessário mais nenhuma argumentação. Antes que percebessem, já caminhavam de volta para a escola, a caminho do Conselho Estudantil.

Por mais que parecesse que o assunto tinha chegado a um fim, Ririka não conseguiu não pensar sobre o que acontecera. Não é que Mary não tivesse sido gentil com ela, não era isso. Pelo contrário, a loira fora um doce em assumir a culpa pela explosão. No entanto, a Momobami não podia deixar de se culpar.

Certa vez, Ririka e Tsuki tinham tirado a tarde para assistir algum filme e acabaram encontrando este. “A Extraordinária Garota Chamada Estrela” contava a história sobre esse casal: um garoto, Leo, que decidira, ao se mudar para uma cidade pequena, que seria melhor se ele não chamasse atenção demais para si, pois assim se machucaria menos; e uma garota, tão excêntrica quanto seu próprio nome, tão colorida e tão única quanto seus próprios pensamentos. E de tão diferentes, eles se apaixonam. Como qualquer clichê de os opostos, eles se envolvem nas peculiaridades um do outro que tanto os fascina.

Estrela é essa garota diferente. Ela é brilhante como seu nome remete, tem pensamentos diferentes, discursos diferentes, roupas diferentes. Ela é um ponto de arco-íris no meio do oceano que cores escuras e sem graça. Estrela Caraway se torna objeto da sorte de todos, o motivo dos sorrisos, das mudanças. Entretanto, como em qualquer trama, ela comete um erro em sua singularidade. E todos se voltam contra ela, inclusive o garoto por quem se apaixonou.

O problema de clichês é exatamente esse: quanto mais você assiste, mais você prevê o que vai acontecer. Esse não foi diferente e foi exatamente por isso que Ririka se incomodou de assistir o decorrer do filme. Leo, o mocinho da trama, acaba falando para Estrela exatamente esta frase: “por que você não pode ser como todo mundo?”.

Ririka queria ser como Estrela. O filme inteiro, ela quis ser aquela garota excêntrica, que não tinha medo de sorrir para estranhos, de cantar parabéns no meio da cafeteria da escola para uma pessoa que ela não conhecia, de falar o que pensa. Ririka queria ser ela. E ainda sim, quando a frase foi dita, não pesou tanto em seu peito, porque ainda que não fosse como a extraordinária garota chamada Estrela, a Momobami não era como todo mundo.

Naquela tarde, caminhando lado a lado com Mary de volta para a sala do Conselho Estudantil, Ririka queria dizer para a amiga que ela sentia muito. Sentia muito por não ser como todo mundo. Quem sabe, se ela conseguisse ao menos falar perto de outras pessoas sem sua máscara e sem gaguejar, ela fosse capaz de não ter afastado Saotome dos demais amigos. Talvez, se ela fosse como os outros, seria capaz de ser 1% do que os amigos da loira eram para ela. A proximidade que eles tinham, a cumplicidade, a lealdade. Se a Momobami ao menos fosse como os outros, as coisas poderiam ter sido diferentes.

Seus passos tiveram de ser abruptamente parados quando seu corpo se chocou contra um menor. Ambas as garotas tropeçaram um pouco, tombando para frente, mas conseguindo se segurar antes de efetivamente cair. Ririka arfou.

Os olhos azuis fitaram Mary, confusos. A loira tinha a mão na maçaneta, mas os olhos presos no objeto em volto de sua mão não movia.

–– Senhorita Saotome, aconteceu... – mas a voz abafada pela máscara morreu lentamente quando barulhos baixos soaram pela superfície de madeira. Os olhos azuis arregalaram, não que realmente fosse visto. – I-isso... is-iss...

Mary se virou, pálida e com os olhos arregalados, fitando a amiga. Ambas engoliram em seco.

–– A po-porta tá trancada, Ririka. – murmurou em um fio de voz.

–– Merda!

Mary não sabia dizer o que mais a surpreendia naquele momento. Se era o fato de que o nome da secretária da presidenta do Conselho Estudantil era gemido e chamado pela voz da própria em pequenos engasgos; se era o que acontecia em si naquela sala; ou se era Ririka ter xingado, alto e claro. Tudo aquilo parecia surreal demais para a Saotome.

Por outro lado, enquanto a mais nova parecia ter quebrado, a Momobami pensava em uma solução rápida. Não era a primeira vez que pegava a irmã e Sayaka naquelas situações, acontecera cerca de duas outras vezes: uma quando estavam em casa e outra quando foram visitar a casa da avó. Desde o incidente da Torre, Ririka vinha tendo de lidar com o relacionamento ainda mais íntimo (e agora quase oficial) de Kirari com Igarashi. No entanto, saber que estavam fazendo aquilo nas propriedades da escola a deixou desconcertada. Fez um lembrete para brigar com ambas quando voltasse.

A mais velha precisava, no entanto, tirar Mary dali. Apesar de baixos, podendo serem ouvidos apenas quando próximas da porta, os gemidos pareciam estar deixando a loira traumatizada. E, sem pensar muito, Ririka segurou a mão da garota e puxou. Quando estivessem longe daquele ninho de obscenidade, pensaria sobre o almoço, já que não mais poderia seguir com o plano de pedir a seu chefe.

–– Mary? Você está bem? – perguntou assim que se sentaram nos bancos de um corredor vazio. – Eu sinto muito que tenha presenciado isso. Eu prometo que vou falar com Kirari e a senhorita Igarashi sobre o incidente!

Mary pigarreou, piscando algumas vezes e respirando fundo.

Eis aqui o ponto: o fato de ter presenciado tais cenas- ou simplesmente ouvido a elas- com Ririka, deixara a loira extremamente envergonhada. Uma timidez que ela sequer sabia que existia dentro de si, foi como querer se jogar dentro de um buraco e fingir que não existia. Ela sentia as bochechas queimando, apesar do corpo inteiramente gelado. Foi um sentimento estranho. Mais estranho ainda, porém, foi o efeito que os gemidos causaram nela. Não é que fosse excitante ouvir o nome de Sayaka ser chorado alto, sequer a imagem das duas fazendo o que quer que estivesse causando tais choros formada por sua imaginação. Porém, a ideia de que eram mulheres gemendo e se entregando a seus desejos uma pela outra, deixando-se ser completamente meladas pelo amor que sentiam reciprocamente a cada toque. Isso sim deixou Mary com uma sensação estranha. Era quase... inveja?

Ririka a fitava. O sorriso da máscara deixou um frio passar por sua espinha. Mary queria mais do que nunca arrancar aquela coisa para poder olhar no fundo dos olhos azuis, mas se conteve. Os dedos pálidos da mais velha denunciavam como ela estava ansiosa, as unhas tinham voltado a fazer um “pec, pec” irritante.

–– Huh... – Saotome pigarreou de novo. – No-nosso almoço já era, né?

O suspiro audível da Momobami fez o peito de Mary se aquecer.

Verdade seja dita, Ririka já estava quase planejando a morte da irmã caso Mary nunca mais quisesse olhar na sua cara devido ao que acabara de presenciar. Afinal de contas, eram gêmeas! Olhar para a mais velha, seria como olhar para Kirari e a simples lembrança de seus gemidos depravados poderia sim ser um ótimo motivo para Saotome querer se afastar. Portanto, quando ouviu o tom de brincadeira nas palavras da loira, a outra não conseguiu conter o alívio. Seu corpo inteiro relaxou imediatamente.

–– Aparentemente, sim. – coçou a nuca, ainda se sentindo um pouco menos ansiosa. – Peço desculpas por isso, senhorita Saotome.

–– Está tudo bem, Ririka.

Por um momento, ficaram em silêncio, cada uma imersa em seus próprios pensamentos. Até que...

–– Eu tive uma ideia. Você tem dinheiro em mãos? Ou cartão? – Ririka franziu para a pergunta de Mary, mas balançou a cabeça em afirmativa, tendo plena consciência de que a outra não via sua confusão estampada no rosto. Do bolso da saia, puxou uma bolsinha de dinheiro. – Perfeito! Vem.

Em questão de 10 minutos, talvez 15 porque Ririka deixara cair algumas moedas pelo caminho, as duas se encontravam sentadas embaixo do quadro negro de uma sala vazia no terceiro andar da área sul, como a Momobami previra.

A ideia de Mary foi estranha, para não dizer ridícula, para um paladar refinado como o da mais velha, mas Ririka não ligou. Saotome e ela passaram um bom tempo escolhendo coisas nas máquinas automáticas da cafeteria, agora tinham quase um banquete de comidas cheias de conservantes e porcarias. A Momobami deixara algumas moedas caírem quando foram colocar separadamente para escolher o que beber e isso só fez a loira rir de como a outra era desengonçada.

–– Honestamente, eu não sei como você a aguenta.

Ririka colocou a máscara de lado antes de pegar um pacote de takoyakis. Então, os olhos azuis pousaram em Mary, que a fitava com os dourados brilhando.

–– Perdão? – franziu, confusa pelo assunto repentino.

–– Kirari. – apressou-se em explicar. – Eu não sei como você a aguenta.

Ririka riu, dando de ombros e voltando-se para seus tão amados takoyakis.

–– São anos de prática. –  colocou a bolinha boca, virando-se para Mary. A menina pôs a mão na frente da boca para poder falar. –  Mamãe dizia que eu era tipo o freio da Kirari, mas suponho que isso tenha mudado conforme os anos passaram.

O silêncio se firmou novamente. Mary assistia a mais velha comer as bolinhas com talvez mais avidez do que o da senhorinha da esquina. Ririka a encarou, sorrindo sem graça ao perceber que era assistida.

–– O-o que fo-foi? –  perguntou, tímida.

–– Você nunca falou sobre a sua mãe antes.

“Oh, então foi isso”, pensou Ririka. Ela pôs o pacote de lado, limpando as mãos e a boca com o guardanapo. Após endireitar-se de forma que estivesse virada para Mary, a garota explicou.

–– É um assunto delicado para mim e Kirari.

–– Oh! Desculpa, eu não quis...

–– Não, tudo bem. –  ela sorriu, fitando as mãos. –  Minha mãe era incrível, sabe? Ela era corajosa, era inteligente. E ela era tão quente... Mamãe morreu quando eu e Kirari tínhamos 8 anos. Nossa avó tinha ficado com a nossa guarda e nosso pai era meio que um imprestável, então. –  ela deu de ombros.

–– Eu sinto muito pela sua perda.

Os olhos azuis e os dourados se seguraram. Havia tanta verdade nas órbitas de Mary que Ririka não soube dizer se era efeito de ter citado sua mãe ou se era efeito Saotome, mas sentiu quando seu peito aqueceu. Quente.

–– Tudo bem, já tem bastante tempo. – Ririka fitou as próprias mãos. – Sabe, mamãe era a única que conseguia diferenciar eu e Kirari. Ela nos via como éramos: indivíduos separados, mas que, por um acaso, carregam a maldição serem exatamente iguais. Mamãe dizia que éramos especiais, que não era uma maldição. Ela dizia que Kirari deveria cuidar de mim, e eu deveria cuidar de Kirari, sempre está lá uma pela outra. – um suspiro escapou de seus lábios. –  Naquela época, nós éramos como todos os outros. Só crianças, querendo brincar e descobrir o mundo. – a respiração começou a se cortar, o choro preso em sua garganta. – Eu sinto muito, Mary.

Mary franziu o cenho, a cabeça pendendo um pouco para o lado.

–– Pelo o que?

–– Por não ser como todo mundo. – Ririka enfim encontrou coragem para erguer a cabeça. Os olhos azuis inundados e cheios de dor fez o coração de Saotome encolher. – Se eu fosse como todo mundo, não teríamos passado por tanta coisa hoje. Eu queria poder ser como todo mundo, por você. Seria mais fácil.

Era isso que Leo queria quando pediu para Estrela ser como todo mundo: era fácil, era confortável. Era amor, certo? Ele só não queria que sua amada sofresse tanto e era muito mais fácil prevenir isso se tornando como todo mundo do que enfrentar a dor de todos sobre si. E naquele momento, se Ririka conseguisse se forçar a ser como todo mundo, ela teria feito exatamente o que Estrela fez.

As mãos voaram para as laterais do rosto de Ririka, erguendo-o um pouco mais para que estivesse de cabeça erguida ao falar com Saotome. Esta, por sua vez, tinha um olhar determinado, quase ofendido, e a boca se espremia ao formar aquela linha apertada nos lábios. A mais velha não entendeu.

–– Nunca mais repita isso. Está me ouvindo? Nunca mais!

 Ririka piscou, confusa demais para que as palavras fizessem um efeito real. Mary estava brava, o que não era exatamente incomum, mas ela parecia, acima de brava, magoada. E foi quando os olhos dourados deixaram pequenas lágrimas se formarem no canto dos olhos, que a Momobami ficou atônita.

“Eu a fiz chorar?”, o pensamento pesou em sua cabeça.

–– Ma-Mary...

–– Não! Eu não quero mais ouvir isso de você. – a loira a soltou, empurrando a garota pelos ombros. – Você é idiota, Momobami? Só pode ser! – outro empurrão, este agora fez a garota cair de sobre os próprios calcanhares. Ririka a olhava confusa, totalmente surpresa pela reação de Mary, ainda que os empurrões não carregassem tanta força. – Ser como todo mundo? Você quer ser igual a todo mundo? Sua experiência sendo exatamente igual à esquisita da sua irmã não foi suficiente? – outro empurrão.

–– Ma-Mary, eu não...

–– Você fica calada! – desta vez, o empurrão fez com que Ririka chocasse as costas contra o chão. Mary subiu sobre ela, puxando-a pelo colarinho da camisa e as deixando com os rostos próximos. Os olhos dourados estavam inundados de raiva, mas também de lágrimas contidas. O peito da Momobami apertou. – Você fica calada, ok, sua estúpida? Eu não quero que você seja como todo mundo, porque você não é como todo mundo. Ninguém é igual. Nem você é 100% igual a Kirari. Então pare, ok? Pare de dizer que quer ser como todo mundo por mim, porque eu não quero você como todo mundo, Momobami idiota!

Os braços da loira cederam e ela caiu sobre o corpo da outra, o rosto enterrado na curva de seu pescoço, uma mão ainda no colarinho e a outra largada contra o chão de madeira. Ririka estava estática, chocada demais para reagir, sequer sua timidez se fez presente por ter a garota sobre ela. Ela não entendia. Por que Mary se irritara tanto? Será que ela não gostava dela como sua amiga, por isso não a queria mudar? Ainda que fosse isso, por que tanto desespero? Não é como se Ririka fosse realmente ser capaz de mudar da água para o vinho, não é?

–– Você... não gosta de mim? – a pergunta escapuliu pelos lábios da Momobami, que fitava o teto.

Mary não se moveu, mas a bufada que deu ressoou pelo ouvido da mais velha.

–– Idiota. – sussurrou. – É exatamente por eu gostar de você que não quero que mude.

–– Mas, Mary... Não seria mais fácil?

–– E daí que seria mais fácil? Não seria você. Se eu quisesse te mudar, meus sentimentos não seriam verdadeiros. É por isso que eu não ligo se será mais fácil. Se não for você mesma, eu não quero.

Sem perceber e sem se conter, um sorriso cresceu nos lábios de Ririka, o canto dos olhos enchendo de lágrimas e um soluço baixo escapando de seus lábios. Ela passou seus braços ao redor da outra, não ligando realmente se Mary reagiria de má forma ou não. Naquele momento, ela só queria demonstrar como estava feliz.

–– O-obrigada, Mary. – a voz se arrastou para sair com clareza.

Mary assentiu, balançando a cabeça ainda na curva do pescoço da outra.

–– Idiota.

Em um movimento abrupto, a loira se ergueu, afastando-se da outra e estendendo uma mão para a ajudar a se sentar, desviando a cabeça em uma tentativa falha de esconder o vermelho quente nas maçãs do rosto. Assim que ambas estavam devidamente sentadas de novo, Mary enxugou os cantos dos olhos, ansiosa para sumir com qualquer vestígio de lágrimas. Ririka sorriu doce para ela.

Ele deveria falar algo, certo? Deveria falar alguma coisa. Então, com a ideia de que precisava comentar alguma coisa, Ririka fitou as mãos em seu colo e corou fortemente.

–– Você é realmente incrível, senhorita Saotome. – pigarreou, não querendo comentar mais sobre seu elogio. –  Quer takoyaki?

A mais velha se virou, animada para sua comida. Mary a observou, uma coragem escalando do fundo de seu ser, arranhando para que as palavras saíssem. Era agora.

–– Ririka, eu preciso te falar algo.

Foi só os azuis clarinhos de pós-choro pousarem sobre ela e rosto rosado de sua timidez atingir seu campo de visão, porém, que a coragem caiu e as palavras sumiram. O medo de ser rejeitada gritou mais alto. Ririka a encorajou com o olhar, sorrindo docemente.

“Merda, por que você tem de ser tão fofa?”, Mary praguejou nos próprios pensamentos.

–– Você sabe que esse takoyaki não chega nem perto do que eu te apresentei, certo?

Ririka fez bico e fitou o pacote em suas mãos, voltando-se para a loira em seguida.

–– Mas é que é tão gostoso... Eu não resisti.

–– Você sabe que tinham frutas lá, certo? Coisas sem tantos conservantes.

Ririka sorriu desafiadora.

–– Aquelas frutas com certeza têm tantos conservantes quanto, para durarem tanto tempo lá dentro sem estragar. Pelo menos isso aqui tem gosto bom.

Mary riu.

–– Seu paladar é de criança.

–– O seu também. – acusou de volta e estendeu uma bolinha para a loira. – Toma, prova!

Mary abriu a boca, aceitando de bom grado a comida. Precisava admitir, os takoyakis de Ririka eram muito mais gostosos que seus pedacinhos de melão.

–– Eu quero mais.

–– Não, sai! Esses são meus.

–– Ririka! Divide comigo. – tentou pegar, mas a mais velha afastou o pacote, risonha.

–– Não!

–– Me dá isso aqui, sua riquinha egoísta! – esticou-se mias para pegar.

–– Mary!

Havia essa lenda antiga, acontecera no Japão Feudal e era a história mais conhecida, pois envolvia também as belas arvores que enfeitavam e perfumavam o atual país. A lenda da árvore solitária que, por pena, recebeu a ajuda de uma fada para que pudesse andar pelos homens e entender como seus corações funcionava, em uma tentativa de que, desta forma, pudesse enfim florescer. A árvore que, um dia, se apaixonou por Sakura, uma gentil e carinhosa mulher, e por quem declarou seu amor. Quando seu tempo vivo acabou, e sua amada decidiu que ficaria para sempre com ele, a fada fundiu Yoshiro com a jovem. Sakura significava “flor de cerejeira”, mas arvore não sabia desse fato.

Ririka amava essa lenda. Por algum motivo, lera tantas vezes que sequer conseguia contar mais nos dedos. Era a história mais bonita que conseguia pensar e, quando se fala em amor verdadeiro, é em Sakura e Yoshiro que a Momobami pensava logo de cara. Não é que não pudesse pensar em outras histórias, até poderia, mas é que não queria. Nenhum conto parecia ter tanta força como aquele. Nada fazia com que ela se relacionasse mais com amor do que aquela lenda.

Por mais que não fosse exatamente o melhor tempo para se estar do lado de fora, a primavera com seu sol mais ameno ainda não fazia com que tivesse calor suficiente. No entanto, lá se encontravam as duas: Kirari deitada em uma boia relativamente grande em formato de asas brancas, os óculos protegendo os olhos do sol e a cabeça apoiada nas mãos atrás desta, o sorriso não saía dos lábios pintados de azuis; Ririka também estava em uma boia, porém a sua era circular e tinha uma proteção contra o sol, estava encolhida, abraçando as pernas, e com os óculos de sol cobrindo seus olhos.

–– Você está me dizendo que irrita a senhorita Igarashi por... diversão? – seu tom era de pura confusão. – Isso não meio que a deveria ser algo ruim?

Kirari riu.

–– Bem, com certeza. Mas não é. – ela se virou para a irmã, abaixando um pouco os óculos até a ponta do nariz. Os azuis se fitaram. – Ela não fica realmente brava.

–– Kirari, eu tenho certeza de que Sayaka fica com muita raiva. Quero dizer, ela fica vermelha!

–– Não é de raiva. – voltou para sua antiga posição, reajustando os óculos. – Eu só faço isso porque quero ver sua reação. É tão intrigante, tão prazeroso de assistir. É uma sensação única que apenas Sayaka me proporciona.

Ririka não respondeu. Seus olhos caíram sobre a água azul cristalina, perdidos em seus próprios pensamentos.

“Uma sensação única?”, pensou, um pouco confusa.

–– Você faz coisas assim.

–– Como? – Ririka a fitou, franzindo o cenho.

–– É, você faz coisas assim. Apenas para ver a reação da senhorita Saotome.

–– Não é verdade. Eu não gosto de irritar Mary.

–– Não precisam ser coisas que a irritam, Riri. – ela sentou, cruzando as pernas e apoiando o corpo com os braços para trás. Sorriu de canto. – Ou você acha que todas as vezes que você a elogiou alto na saída de alguma reunião do conselho, na frente de todo mundo, foi apenas coincidência?

–– Eu não... Não...

Mas sua defesa morreu na garganta.

Por mais que não quisesse admitir, Ririka fizera de propósito algumas vezes. Não é que quisesse ver Mary irritada, ela apenas achava adorável como a garota ficava extremamente envergonhada e corada a cada elogio. Levara vários esporros quando fazia isso, mas a Momobami não ligava. A reação de quando Saotome cruzava os braços, fazia aquele bico quase imperceptível e desviava o olhar, apenas para logo depois falar coisas como “não fale isso tão assim de repente!” ou “não seja esquisita, idiota!”. Eram essas reações que faziam a mais velha a elogiar, porque eram essas reações que faziam seu peito queimar.

Será que era isso que Kirari quis dizer com “diversão”? Ou talvez tivesse sido sobre isso que ela quis dizer quando falou sobre sensação única? Se fosse, ela não poderia discordar. Todas as vezes que Mary corara por causa de Ririka e, ainda que a repreendesse depois, uma sensação diferente se instalava em seu peito. O tom na voz de Saotome também era diferente de quando realmente brigava com ela, era um tom de quem não estava realmente brava- e a Momobami aprendera, realmente rápido, diferenciar esses dois tons de voz, já que um era usado, estranhamente, só com ela.

–– Essa... essa sensação que você disse que sentiu. – Ririka apoiou os óculos em cima da cabeça, piscando algumas vezes para se acostumar com a diferença de claridade, e fitou a irmã nos olhos. – Como ela é?

Kirari franziu.

–– Você quer saber como ela é ou você quer compará-la com o que você sente?

Ririka não precisou pensar, a resposta escapou de seus lábios antes que pudesse realmente assimilar.

–– Confirmar.

–– Entendo... – Kirari pigarreou, endireitando a postura e cruzando as pernas. – É como... Como se um fogo se acendesse dentro de mim. É um fogo diferente, porém, é um fogo morno. Lembra quando a gente brincava no escritório da vovó? Lembra de como era a sensação de ter aquele risco de sermos pegas? –  Ririka assentiu – Acho que é tipo isso. É como flutuar, mas sentir os pés no chão. E é quente, bem aqui.

Não foi surpresa para nenhuma das duas quando Kirari pousou a mão sobre o peito. A sensação não era perfeitamente igual, mas tinha suas semelhanças. Talvez por quê sua irmã mais nova era verdadeiramente apaixonada por Sayaka? Ou era por que o amor é diferente para todo mundo?

Ririka fitou as próprias mãos. Quando Mary segurava sua mão, era quente, e não apenas em sua mão. Também era quente em seu peito. Sempre foi quente para ela, na verdade. Saotome era como o calor que a Momobami sentiu falta por tantos anos. Não era frio, não era solitário. Era bom.

A garota piscou, a frase de sua irmã borbulhando em sua cabeça.

Com Mary, ela nunca sentira frio, nem mesmo quando pegaram aquela chuva horrível no outono passado. Havia momentos em que era mais quente que outros, porém. Por exemplo: quando dançou com Saotome as músicas de One Direction, foi quente como se estivessem enroladas em uma manta em uma manhã de inverno; mas quando tropeçou e caiu por cima da loira, Ririka sentiu como se tivesse sido jogada dentro de lareira acesa. Seria esse tipo de quente diferente que Kirari se referia?

–– Rari? – os azuis se fitaram. Ririka sentiu suas bochechas queimando, um nó se formando em sua garganta e as palavras parecendo se prender contras as paredes de suas cordas vocais. Forçou. – Qu-que ti-tipo de outro que-quen-te?

Kirari franziu.

–– A pergunta é por que eu falei morno? – a gêmea mais velha assentiu. Kirari suspirou. – Bem... há esse outro quente. Eu não tinha encontrado em outro lugar, mas é diferente. Não sei se você já sentiu com a senhorita Saotome, mas... – pensou por um momento, apoiando o queixo sobre a mão. – A causa às vezes são olhares, às vezes gestos, às vezes toques. É um quente de quando seu corpo implora para que a outra pessoa te toque, como se faltasse água e apenas a pele da outra pessoa contra a sua fará a cede passar. – deu de ombros. – Às vezes são beijos. O quente é diferente. Queima, mas não é incômodo. É prazeroso.

Ririka assentiu.

–– É esse quente que sentiu na sala do conselho estudantil?

Kirari esbugalhou os olhos, levando os óculos ao topo da cabeça e fitando a irmã sobressaltada.  

–– Do que está falando?

–– Sobre o quente que queima prazeroso. – ela gesticulou. – Você sabe? Foi isso que levou você e a senhorita Igarashi a transarem na sala do conselho, certo?

Kirari abriu a boca, chocada demais. Não é que ela não esperasse que ninguém realmente um dia as pegaria, mas não pensou que teria sido justamente sua irmã. Ou que sequer Ririka teria coragem de comentar sobre com tanta inexpressão, como se não tivesse tanta importância. Sendo sincera, seu choque maior era a confiança com a qual a mais velha falara, sem sequer tremer a voz.

–– Como sabe disso?

–– Mary e eu ouvimos vocês no outro dia. Tiv...

–– Senhorita Soatome também sabe?! – Kirari praticamente gritou.

–– Sim. – Ririka suspirou, revirando os olhos. – Eu fiquei de falar com vocês sobre isso, mas não soube como abordar. Mas aproveitando que estamos aqui, por favor, que não se repita! – Kirari assentiu, recompondo-se. Em questão de segundos, toda a surpresa parecia ter sido suprimida e a gêmea mais nova relaxava novamente em sua boia. – De qualquer forma, é sobre isso, certo? O quente que queima prazeroso.

–– Sim. É sobre isso, Ririka. – o tom monótono forçado em sua voz entregou que Kirari ainda estava extremamente tímida com a ciência de que sua irmã e a Saotome Mary ouviram suas intimidades com Sayaka. – Você já sentiu isso?

Antes que a resposta viesse, uma voz se sobressaltou.

–– Senhorita Momobami? – ambas as gêmeas viraram para a borda da piscina, fitando o empregado que estava curvado em direção a Kirari. – Sua presença é requisitada. Uma jovem reivindica que atenda ao telefone.

Kirari fitou a irmã, a mensagem de que falariam sobre aquilo depois clara como cristal para a mais velha.

–– Deve ser Sayaka, eu deixei o celular no quarto. – ela deslizou o corpo para dentro da água. – Já venho. Você ficará bem?

Ririka balançou a cabeça, confirmando. Os olhos azuis assistiram conforme sua irmã nadou para perto das escadas grandes e caminhou para fora. Kirari se enrolou em um roupão e rumou para dentro de casa, sendo seguida pelo empregado.

Quente que queima prazeroso.

Não mentiria. Ririka já sentira aquele quente, mais de uma vez. E sendo honesta, em sua maioria, relacionado a Mary. No entanto, ela não sabia dizer se era “prazeroso”. Por mais que tivesse gostado da sensação de ter o corpo da amiga tão próximo ao seu, o suficiente para ter suas peles se tocando ou apenas para conseguir sentir a respiração contra si, a Momobami se sentira ansiosa. Lembrava de como a Saotome era quente, e como sua pele era macia, mas também se lembrava de como a loira ficara vermelha e desconcertada com as poucas vezes em que aconteceu de se tocarem de forma um pouco mais íntima- como nos abraços, ou na queda.

Sua cintura formigou. Ririka reconheceu a sensação, e sabia que fora causada pela lembrança de quando sua amiga a segurara para não cair sobre si. Lembrava-se de como ela apertou, com uma quantidade razoável de força, e de como seu corpo inteiro aqueceu. E como se estivesse acontecendo naquele exato momento, o corpo da Momobami esquentou como brasa. Ela se endireitou em sua boia, repentinamente sentindo um calor quase que assustador.

“É esse quente prazeroso que você fala, Rari?”, a pergunta flutuou sobre seus pensamentos.

Será que era errado? Uma simples lembrança como essa a deixar assim? E pior, a deixar com esse quente sem que a Saotome tivesse consciência do efeito que causava? O prazer era algo que Ririka conhecia com pouquíssimas experiências, e era ainda mais escasso quando se referia a um prazer sexual. Assuntos assim não chamavam sua atenção, não era algo que ela desejasse sempre, que sequer procurasse por isso. No entanto, lá estava ela, com o corpo inteiramente quente lembrando das poucas vezes em que Mary a tocara.

Decidida a se esfriar, a garota tirou o moletom sem mangas azul claro de sobre seu corpo, deixando os óculos junto, e deslizou para dentro da água. Assim que sentiu seu corpo fervente contra o frio da piscina, um arrepio passou por sua espinha. Suspirou, assistindo as bolhas que saíram de sua boca flutuarem para a superfície.

Certa vez, ela lera sobre essa teoria filosófica. Bem, na verdade, mais tarde descobriu que ser uma doutrina ética, mas não vinha ao caso. O fato é que ela lera sobre hedonismo quando sua irmã descreveu que suas atitudes, em maioria, eram levadas por suas procuras por prazer A princípio, Ririka pensou que a mais nova se tratava de uma pessoa contemporânea que o sociólogo Bauman descrevia: pessoas que procuravam prazer em relações superficiais. Toda a questão dos relacionamentos líquidos, que são facilmente findados ou moldados, parecia plausível que as gêmeas se encaixassem. No entanto, conforme lia, percebeu que Kirari não estava naquele tipo de hedonismo.

Na antiguidade greco-romana, surgiu pela primeira vez um filósofo chamado Aristo de Cirene. Assim como Aristóteles, Aristo acreditava que a vida humana tinha uma finalidade. Para tanto, concluiu que tal finalidade era o prazer. Na psicologia, também conhecido como hedonismo psicológico, afirma-se que há uma ligação entre prazer e felicidade, e que a felicidade era a finalidade da vida humana, como defendido por Aristóteles.

De primeira vista, pelo menos na visão do hedonismo cirenaico, Kirari se encaixaria perfeitamente. Todas as atitudes que a garota tomava eram unicamente para seu prazer pessoal. O que também a ligava ao hedonismo de Bauman, onde as pessoas são egoístas, guiadas pelo próprio ego e por satisfações pessoais. Talvez, para a gêmea mais nova, a razão de sua vida realmente fosse a busca pelo prazer. Ainda que no hedonismo epicurista- do filósofo fundador do epicurismo, Epicuro-, que dividia o prazer entre prazeres naturais e não naturais, a Momobami se encaixasse mais nos não naturais. De forma geral, para Ririka, não era estranho a julgar como hedonista.

E então que vem o questionamento de Ririka: seria ela hedonista?

Bem, para Betham e Mill, talvez sim. “Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de prazer” define o utilitarismo. O hedonismo utilitarista se trata de uma ação que causarão prazer em um maior número de pessoas. Isto é, na verdade, uma doutrina ética, na qual o agente moral analisa antes de agir, pois só será correto moralmente se atingir prazer no maior número de pessoas. Este prazer também pode ser lido como bem-estar. E, por anos, as atitudes de Ririka eram todas baseadas em machucar o mínimo possível de pessoas.

Por mais que obedecesse Kirari, Ririka sempre tinha consigo esse desejo de não deixar que as atitudes de sua irmã respingassem em tantas pessoas. Para Jeremy Betham, lá pelo século XIX, não importava a ação, e sim seu resultado. Já para John Stuart Mill, a intenção do agente moral é mais importante do que a ação em si. Ou seja, ainda que não agisse por seus desejos pessoais, em busca por um prazer individual, a Momobami ainda se encaixava em um tipo de hedonismo.

O que era engraçado, no entanto, é como as coisas haviam mudado. Talvez não totalmente, mas com certeza mudado. E agora a mais velha das gêmeas se via encarando a si mesma em um perfil hedonista, senão aquele que se referia antes. Ririka tinha plena consciência que estava seguindo por um hedonismo dos prazeres não naturais. Seu corpo entregava isso. Afinal de contas, esse desejo sexual que sentia- e que queria tanto ceder-, nada mais era do que Epicuro definia como um dos prazeres não naturais: o sexo.

Ela nadou para a superfície, apenas para abrir os braços e boiar. Os olhos azuis se fecharam, deixando que seus pensamentos tentassem a ajudar a compreender o que sentia. Pois, diferente do que imaginou quando leu sobre o hedonismo epicurista, sobre os prazeres naturais e não naturais, não acreditava que seria de tudo ruim ceder a algo que não estivesse sob seu controle. Talvez, não fosse de tudo um mal permitir que esse prazer não natural pelo qual ela ansiava e buscava.

–– Riri? – abriu os olhos, afundando um pouco para apoiar os pés no chão da piscina, e fitou Kirari. A gêmea mais nova já estava sem seu roupão, o biquíni azul em contraste com a pele branca alva. – Você está bem?

Ririka franziu.

–– Por que não estaria?

–– Você está na piscina. – ela entrou, nadando para se aproximar da irmã mais velha. – Você não entra, a não ser que seja verão e em um dia muito quente.

Ririka corou, afundando um pouco mais na água e abraçando o próprio corpo. Os olhos azuis desviaram e logo as lembranças que fizeram seu corpo aquecer voltado a invadir sua cabeça.

–– Eu fiquei... fiquei com calor. – murmurou em um fio de voz.

O sorriso que cresceu nos lábios de Kirari foi tão malicioso e tão maléfico que Ririka teve certeza de que alguma brincadeira viria a seguir. E ela não errou.

–– Foi por causa do papo sobre coisas quentes prazerosas?

Ririka revirou os olhos.

–– Talvez.

–– Ora, ora, irmãzinha, quem diria que você seria tão lasciva. – brincou.

–– Kirari! – Ririka jogou água na irmã, que apenas riu. – Nã-não foi por querer.

Kirari subiu na própria boia, ainda rindo um pouco da irmã.

–– Bem, ainda sim, foi bem indecente.

–– Você quer mesmo falar de indecência, Kirari? – Ririka cruzou os braços. – Podemos falar sobre os seus gemidos na sala do Conselhos Estudantil, se for o caso. Como era mesmo? – Kirari fitou a irmã com os olhos de aviso, mas foi ignorada. Logo a mais velha tinha os olhos fechados. – Sayaka! Ah, Sayaka, isso! Assim. – imitou a mais velha.

–– Ora, sua!

Kirari desceu de onde estava e se jogou em cima da irmã, que riu fugindo da mais nova. Logo uma guerra se formara na piscina, as risadas uma da outra soando alto. A manhã então se passou assim, entre brincadeiras das duas. Eram poucos, quase raros, os momentos em que tinham para curtir uma a outra. Agora que ambas lideravam o clã, tais situações pareciam ter ficado ainda mais difíceis.

Após o almoço, que não teve a presença da avó das meninas, foram levadas para a casa onde moravam apenas as duas. Haveria uma reunião com os representantes de cada família- que, como ordenado por suas líderes, agora se tratavam de seus primos, com quem competiram nas eleições- e precisavam se preparar.

Jogadas cada uma em um sofá da enorme sala de televisão, com esta ligada, Kirari e Ririka tinham tornado ao assunto sobre amor. E agora, parecia que as coisas estavam ficando mais claras para a mais velha, havia ainda apenas uma questão.

–– Você falou com ela hoje?

Ririka negou com a cabeça, os olhos fixos no teto.

–– Yumeko e Itsuki a convenceram a ir ao shopping, fazer compras. Ryota também ia.

–– E por isso não se falaram?

–– Eu deveria? –  virou a cabeça, encontrando os azuis de Kirari. – Ela está com os amigos. Não quero incomodar.

–– Riri, eu tenho certeza de que ela não se incomodaria de você mandar mensagem para ela. – esticou a mão, pegando o próprio celular e sorrindo boba. Virou a tela, mostrando as notificações de Sayaka. – Viu? Ela sabe que estou com você, mas sabe que me mandar mensagem não incomoda.

Ririka esticou a própria mão e pegou o celular, sentando-se corretamente no sofá e cruzando as pernas uma em cima da outra.

–– E o que eu falo?

–– O que falaria se fosse no colégio?

Não foi preciso pensar muito. Um sorriso se formou na face da garota, que não tirou os olhos da tela do celular.

–– Eu perguntaria como foi o dia dela, e ela iria reclamar dos amigos dela, principalmente de Yumeko. E então ela perguntaria do meu, eu diria o de sempre, e nós provavelmente fôssemos sentar embaixo da árvore, para eu poder tirar a máscara e nós podermos conversar sobre coisas banais.

Kirari a assistia falar, o sorriso no canto dos lábios entregando como estava orgulhosa da irmã.

–– Faça isso.

Ririka a olhou confusa.

–– Isso?

–– Pergunte sobre o dia dela.

–– Oh, isso... – ela fitou a tela do celular. Logo os polegares voaram sobre o objeto, digitando o que queria perguntar. E, como se se estivesse esperando apenas por isso, Mary respondeu. O sorriso cresceu em Ririka. – Ela respondeu.

Kirari riu.

–– É claro que ela respondeu. – pulou para o sofá ao lado da irmã, apenas para espiar a conversa desta com a Mary. Para seu total desgosto, ambas riam de alguma piada que envolvia tempero de terra ser delicioso e sobre banquetes feitos de takoyakis. Franziu. – Vocês... Vocês são estranhas.

Puxando o aparelho contra o peito e se afastando um pouco, Ririka fitou a irmã com raiva, as bochechas avermelhadas.

–– Vo-você está lendo minhas me-mensagens?

–– Eu que te encorajei a manda-las, nada mais jutos que eu poder ver como foi. – o nariz entortou. – Mas preferia não ter. Por que terra é um bom tempero? E quem em sã consciência come takoyakis em um banquete?

Ririka sorriu boba, voltando-se para a conversa.

–– É uma piada interna nossa.

–– Oh, então vocês também têm piadas internas? – Ririka assentiu, fazendo Kirari rir. – E você ainda acha que não é amor?

A vermelhidão nas maçãs do rosto da menina entregou seu nervosismo.

–– A-amigos tem piadas in-inte-ternas.

–– É, mas vocês compartilharam isso com os outros amigos? – o silêncio respondeu por ela. Kirari assentiu. – É algo só de vocês, certo?

–– Isso não significa nada.

–– Irmã, você fez progresso com Saotome Mary? – a pergunta ressoou em seus ouvidos como se tivesse tocado play em uma fita cassete, repetindo-se. Kirari pendeu a cabeça de leve para o lado. – O que você pensa de Saotome Mary agora?

“Agora?”, pensou, os olhos caindo sobre a mão, a tela do celular bloqueada em seu colo.

Antes que uma das duas pudesse falar algo quanto ao silêncio que pesou em seguida, o som do despertador soou pela casa. A hora de se arrumarem havia chegado. Assim, ambas rumaram para os próprios quartos.

Ririka deixou que sua empregada a ajudasse a vestir o kimono que usara na noite anterior, já lavado. Seus pensamentos estavam muito longe para que conseguisse se vestir sozinha sem se atrasar.

Da última vez que Kirari a perguntara sobre sua relação com Mary, fora antes de sua aposta. E, ao invés de perguntar o que Ririka achava da loira, a caçula perguntara o que Saotome achava da mais velha. Para ser sincera, responder aquela pergunta naquela época já tinha sido difícil, mas respondê-la agora era como se tivesse 10 vezes mais peso.

Por quê? Ela não sabia dizer. E seu tempo para entender as coisas estava se acabando. Ririka temia que, na manhã seguinte, todo seu esforço se esvairia e ela não teria a resposta. E, como castigo por não ter tido capacidade para compreender coisas tão simples, Mary iria a deixar.

Por instinto, os dedos se fecharam com força por entre os olhos de sua máscara, que repousava contra seu colo. Seu peito apertou e seus olhos encheram de lágrimas. Ela não queria perder Mary, ela não queria ter de se afastar da pessoa que ela mais se importava no mundo. Ririka não queria ter de assistir Saotome Mary escapar por entre seus dedos e ir embora. Era doloroso pensar nisso.

Os olhos azuis fitaram as mãos de sua empregada, agilmente formando seu penteado. Uma segunda opinião não faria mal, certo?

–– Senhora Kamikoshi, poderia me responder uma coisa?

Os olhos gentis da mulher, já com seus quase 50 anos, caíram fitaram a mais jovem pelo espelho da penteadeira. Ela sorriu gentil.

–– Claro, senhorita Momobami. Em que posso ser útil?

Ririka desviou o olhar, de repente se sentindo tímida demais para se pronunciar.

“Vamos, Ririka! É por Mary, fale!”, brigou consigo mesma. Pigarreou.

–– Se a senhora precisasse entender algo, em um certo período curto, para não perder alguém. E o tempo estivesse acabando, mas a senhora ainda não entendeu o que precisava para manter esse alguém... O que a senhora faria?

A senhora pareceu pensar por um tempo, os olhos se semicerrando e formando uma face pensativa. Ririka sentiu seu interior se revirar em ansiedade e seus dentes cravarem na parte interna de sua bochecha. Enfim, a senhora Kamikoshi a encarou.

–– Esse alguém é alguém que eu amo?

–– Possivelmente.

–– Então não há o que pensar. – os dedos voltaram ao trabalho ágil. – Eu não desistiria.

–– Mas e o tempo? A pessoa só fica se você entender, porque senão ela vai embora.

–– E ela não pode me ajudar a entender?

Batidas irromperam o silêncio que se instalou. A porta foi aberta assim que Ririka permitiu, e um homem fez uma reverência rápida antes de entrar completamente.

–– Senhorita Momobami? Todos aguardam apenas a senhorita para que se dê início.

–– Já estou indo. – com outra reverência, o homem saiu. Ririka ficou em pé e caminhou até a porta, mas, antes de sair, fitou a senhora, que agora se ocupava em organizar a penteadeira. –  Obrigada.

A mulher a olhou, confusa.

–– Perdão, senhorita?

Ririka negou com a cabeça e sorriu gentil pouco antes de posicionar a máscara em si.

–– Apenas aceite meu agradecimento.

Em poucos instantes, ambas as gêmeas se encontravam ajoelhadas no tatame. A forma como as reuniões aconteciam tinha sido atualizada, agora que os líderes das famílias eram todos jovens. Portanto, a frente delas, um grande telão mostrava cada um dos membros do clã Momobami que haviam participado das eleições, sendo Rin e Terano acompanhados por Ibara e Yumi sorridentes.

Kirari e Ririka trocaram um rápido olhar antes de voltar a fitar o telão.

–– Podemos começar.

As duas estavam deitadas sobre o colchonete na grama do jardim da escola. Já estava escuro, o que deixava as estrelas e a lua visíveis. Como Ririka tinha prometido esperar por sua irmã e Sayaka, para poderem ir embora juntas, Mary se oferecera para esperar com ela, já que nenhum de seus pais estaria em casa naquele dia mesmo. E para matar o tempo, decidiram observar as estrelas.

Ririka apontou para uma formação.

–– Aquela é a Ursa Maior. – o dedo indicou uma outra um pouco mais abaixo. – Aquela a Ursa Menor, e a que as cruza. – indicou uma linha imaginária. – É a constelação do dragão.

Mary pendeu a cabeça um pouco para o lado, deixando a cabeça se apoiar contra a cabeça da outra.

–– Como você sabe dessas coisas? Não me diga que teve aula disso na sua família de esquisitos!

Ririka riu.

–– Não. – apoiou a própria mão contra a barriga e deu de ombros. – Quando eu era pequena, e tinha dificuldade para dormir, minha mãe costumava me levar para o jardim e me mostrar as constelações que ela conhecia. Eu li um pouco mais depois que ela morreu, me ajudava a sentir ela um pouco mais próxima.

–– Quando eu tinha problema para dormir, minha mãe continuava dormindo. – elas riram da loira. – Mas meu pai geralmente ainda estava acordado, então eu assistia televisão com ele até conseguir dormir.

Elas ficaram em um silêncio gostoso logo depois, apenas admirando o céu. Nenhuma das duas queria quebrar aquela bolha que elas haviam criado, confortáveis demais no calor uma da outra. O outono estava chegando ao fim, o que quer dizer que logo nevaria e aqueles momentos ao ar livre ficariam mais difíceis. Tanto Ririka como Mary queriam apenas aproveitar o mundinho que haviam criado ali, só delas.

A mão de Ririka escorregou de sua barriga de tão relaxada que estava, caindo ligeiramente próxima a de Mary. A mais velha não pareceu notar, mas a loira reparou. Seu coração disparou no mesmo momento, o mindinho de sua mão tremendo em uma vontade desesperadora de cobrir o da outra.

Para a surpresa completa de Saotome Mary, a Momobami reparara sim no que acontecera. E, por estar tão confortável com aquela bolha, ela pensou que não faria mal algum pedir, certo? Logo, carregando o tão conhecido corar de duas bochechas, Ririka murmurou em um fio de voz:

–– Eu posso segurar sua mão?

Mary não respondeu, apenas sorriu, tendo ciência de que a outra não veria, e arrastou sua mão até que cobrisse a da outra. Ririka sorriu também, sentindo o quente da palma de Saotome entrar em contato com a dela. Seu coração estava acelerado, quase saindo por sua garganta, mas a Momobami não ligava. Nenhuma das duas ligava. Estavam orgulhosas de si. A sensação era de que tinham dado o primeiro passo na lua pela primeira vez na história da humanidade. Quem era Neil Armstrong em comparação a elas duas?

Mary esticou a mão livre para o céu e apontou para uma estrela que brilhava diferente.

–– Por que ela é diferente?

–– É que não é uma estrela. Esse é Marte, o planeta mais próximo da Terra. É por isso que conseguimos ver ele.

Mary balançou a cabeça.

–– Ele tem história tipo Saturno e Júpiter?

Ririka franziu.

–– Saturno e Júpiter tem história?

–– Tem.

–– Eu não sabia... – a mais velha pensou um pouco. – Eu sabia, porém, que Júpiter é o maior planeta do sistema solar, mas o segundo com mais luas; em contraste, Saturno é o segundo maior, mas o primeiro em quantidades de luas.

–– Eles se completam? – Ririka afirmou com a cabeça. – Então a história faz sentido.

–– Você me pode contar ela?

Mary corou.

–– É uma história boba. – tentou desconversar.

Ririka virou a cabeça, usando a mão livre para erguer a cabeça de Mary a ponto de ter os olhos dourados a olhando. Sorriu pequeno.

–– Se é algo que você goste, não é bobo para mim.

Mary desviou o rosto. Ririka fez o mesmo, voltando a fitar o céu. Pelo tempo que se passou em silêncio, a Momobami já começava a temer ter falado algo errado. Talvez tivesse ultrapassado alguma linha ao tocar seu rosto sem permissão? Céus, as permissões! Ela com certeza deveria ter pedido antes de fazer aquilo.

Mas seu coração se aquietou quando a voz de Mary soou, um tanto baixa, como se estivesse tímida para falar. Ririka prestou atenção.

–– A história conta sobre duas amigas. – um pigarro. – Elas eram muito próximas, tinham até crescido juntas. Já crescidas, elas se apaixonaram. No entanto, ambas faziam parte de famílias muito tradicionais e uma delas era prometida para casar com um príncipe. Elas acordaram de que, ao completarem 17 anos, fugiriam juntas. Quando o dia chegou, elas combinaram de se encontrar atrás da floresta. Mas uma delas acabou sendo capturada por um guarda do rei.  

Ririka apertou um pouco sua mão contra a de Mary.

–– E então? O que aconteceu?

Mary riu da ansiedade da mais velha, e continuou.

–– A outra voltou atrás dela, obviamente. Elas foram interrogadas e condenadas a morte.

Ririka arfou, não gostando de como a história se desenrolava.

–– Que horror!

–– Na época, era como se estivessem desonrando seus deveres como mulher e toda aquela babaquice antiquada. – Mary gesticulou com a mão livre. – Mas calma! Antes de morrerem, uma delas entregou um colar com um anel pendurado em forma de pingente. Nele, tinha as iniciais uma da outra, assim uma lembraria da outra onde quer que estivessem. A história conta que, no momento da execução, elas foram amaldiçoadas e transformadas em planetas. Elas só poderiam se encontrar a cada 800 anos, e o encontro sempre causaria grandes consequências.

–– Boas? Ou ruins?

–– Tanto faz, poderia ser qualquer um. Enfim, uma delas virou Saturno, carregando o colar que ganhou da amada eternamente consigo. E a outra se tornou Júpiter.

O suspiro pesado fez Mary erguer um pouco o queixo, para poder fitar o perfil da amiga. Ririka tinha os olhos brilhando, mas não havia sorriso. Saotome se preocupou.

–– Não gostou da história?

–– Ela é intensa.

–– É só uma história.

–– Toda história sai de uma verdade. – ela virou a cabeça, não esperando ter o rosto de Mary tão próximo ao seu. Seus narizes se roçaram, mas nenhuma das duas se moveu para se afastar. Ririka prosseguiu. – Você acredita nessa história?

Mary piscou.

Por algum motivo que nenhuma das duas conseguiu explicar, a pergunta de Ririka não era sobre a história de amor entre Saturno e Júpiter. Por conta disto, Mary não sabia o que responder. Se fosse sobre o que acabara de contar, a resposta seria não. Por mais que adorasse aquele conto, não conseguia acreditar genuinamente que os fatos tivessem de fato acontecido. No entanto, se por alguma possibilidade divina a mais velha estivesse se referindo a elas duas, a loira não sabia como responder. Ela queria dizer que sim, desesperadamente sim! E ainda assim, não sabia. Não por ela, mas pela Momobami.

Havia poucas coisas das quais Mary tinha certeza, mas, desde o que aprendera com uma grande amiga em seu passado sobre amor, ela poderia afirmar com veemência o que sentia por Ririka. Seus sentimentos pela a outra eram reais, eram fortes. Ela não sentia aquilo há muito tempo, talvez desde que a tal grande amiga foi embora. Seria aquele o momento mais apropriado para afirmar com todas as letras para a inocente e pura Momobami Ririka?

Mary abriu a boca para falar, porém as palavras não saíram. O som de One Direction tocou alto, o vibrar no bolso da saia da mais velha chamando a atenção desta. Soatome não conseguiu conter o sorriso ao perceber que fizera a garota gostar da banda. Assistiu quando Ririka sentou, atendendo ao telefone.

–– Oi, Kirari. – silêncio. Ririka murmurou. – Ok, estou indo.

Ela se voltou para Mary.

–– Elas terminaram?

–– Sim. Você... hã... Quer ca-caro-rona para casa? – ficou em pé, esticando a mão para a loira. Mary aceitou a ajuda para ficar em pé, levando o colchonete consigo no trajeto. – Eu in-insisto.  

Mary negou com a cabeça.

–– Está tudo bem, eu posso pegar o metrô.

–– Não! – Ririka olhou a hora no celular. Era tarde, muito tarde. – Está muito tarde para você voltar sozinha. Vamos, eu insisto! Tenho certeza de que não será problema.

Mary não conseguiu negar, achando adorável a decisão estampada no rosto da mais velha, então apenas assentiu com a cabeça. Ririka repôs a máscara e seguiu de volta para o prédio. Após uma rápida parada para deixar o colchonete nos armários do ginásio, ambas seguiram para a entrada da escola.

Era a primeira vez que as quatro se encontravam em um mesmo lugar, ainda mais sendo um lugar tão fechado. Sayaka estava acostumada a andar com as gêmeas na limosine real da Toyota, geralmente cambiam as três na parte de trás e o motorista sozinho na frente. No entanto, desta vez, ela mesma se ofereceu para ir na frente, sentindo um desconforto tremendo quando percebeu que Mary iria se oferecer. Por mais que não tivesse tanta afeição pela Saotome, a Igarashi não queria que a loira sentisse tão deslocada estando longe de Ririka.

Mary, por ser a menor entre as três no banco de trás, se encontrava bem no meio. Kirari tinha os olhos fitando a estrada lá fora, o queixo apoiado nas costas das mãos e as pernas cruzadas. Em contraponto, Ririka lia algo em seu celular, os joelhos encostando um ao outro e a máscara cobrindo sua face. Saotome se sentia deslocada, secretamente desejando que alguém falasse qualquer coisa. Se ao menos o motorista ligasse o rádio.

As mãos da loira se fecharam ao redor da barra de sua saia, os olhos dourados assistindo a estrada pelo vidro da frente ansiosos. O movimento, porém, chamou a atenção de Ririka. A mais velha descansou o aparelho em seu colo, colocando a mão entre sua perna e a de Mary, em um pedido silencioso. Saotome não demorou para compreender, suspirando baixo assim que sentiu seus dedos entrelaçarem aos da mais velha. Seu corpo inteiro pareceu relaxar instantaneamente.

“Droga! Por que você tem que ser tão... tão...”, mas nem mesmo seus pensamentos conseguiram achar palavras para descrever a Momobami.

–– Sua casa fica muito longe, Mary? – Kirari questionou.

Os olhos dourados pousaram na gêmea que ela considerava do mal.

–– Um pouco. Sinto muito as fazer me trazerem. – fitou Sayaka pelo retrovisor. – Eu tentei avisar Ririka que não precisava.

––  Não tem o que se desculpar. – Ririka avisou antes que Kirari pudesse ralhar sobre. – Está tarde, seria perigoso. E a volta para nossa casa fica no caminho para a de Sayaka mesmo, então não tem com o que se preocupar.

Mary assentiu com a cabeça. Um bocejo escapou de sua boca quando viu Sayaka fazer o mesmo. Igarashi, por já estar mais acostumada com o local, não se envergonhou de apoiar-se contra a porta e fechar os olhos. Ao seu lado, Kirari fez o mesmo, ambas com expressões bem cansadas no rosto. Ela até que tentou, mas Saotome não pôde não maldar que aquele cansaço poderia ser devido a esforços que nada tinham a ver com o Conselho Estudantil.

–– Está cansada? – Ririka quase sussurrou para ela. Mary assentiu. – Descanse. Quando chegar, eu acordo você.

–– Posso... posso deitar no seu ombro?

Os olhos dourados não captaram, mas Ririka sorriu ao assentir. Mary deitou a cabeça no ombro da mais alta, que afundou um pouco no banco para que a outra pudesse descansar a cabeça sem muito esforço. Em poucos instantes, apenas a Momobami mais velha e o motorista seguiam acordados.

Ela não queria admitir o que estava fazendo, porque talvez se o fizesse tornasse seu ato, no mínimo, esquisito. Mas a verdade é que Ririka estava adorando assistir Mary dormir. Era tão adorável, tão cativante. A bochecha estava um pouco torta, sendo amassada pelo contato contra o ombro da mais velha, e isso fazia com que seus lábios ficassem entreabertos. Deles, pequenos ressonos soavam, suspiros e arfadas de um sono profundo. Os dedos tinham afrouxado um pouco, mas não o suficiente para largar do calor que sua palma causava ao da outra.

Era tão linda. A expressão de paz, genuinamente descansando e entregue ao cansaço. Mary era linda, muito bonita mesmo. E Ririka não se cansava de afirmar isso, fosse para a própria ou para si mesma, vez por outra também dizia para qualquer pessoa, tendo ou não sido perguntado.

Não compreendia como seu peito se aquecia tanto com a garota, mas também não ligava muito. Das poucas coisas que Ririka não ligava por não entender, pelo menos 99% envolviam Mary. E isso a intrigava. Era como ver as perguntas, mas não se importar realmente, porque o que importava não eram mais as respostas. Pelo contrário, as respostas pouco importavam. A sensações que ela sentia, que Saotome causava nela, eram únicas e especiais. E ela temia que a resposta tornasse tudo o que ela sentia em algo banal.

Talvez devesse contar para sua amiga, não é? Contar que gostava do que esta causava nela. Contar que não ligava de não entender, porque com Mary as respostas não eram necessárias, o que importava verdadeiramente eram as duas.

Quando sentiu o carro parar e ouviu seu motorista avisar que haviam chegado à residência de Saotome Mary, Ririka cumpriu com o que dissera. Acordou a amiga com delicadeza, a trazendo a consciência com toda gentileza do mundo e se certificando de não acordar nenhuma das outras duas.

Com a ajuda da mais velha, Mary saiu do carro e caminhou para a porta. Ambas pararam de frente para esta e Ririka estendeu a mochila da mais nova, que havia carregado para esta. A loira sorriu.

–– Obrigada pela carona, Riri. – ela abriu a porta, mas antes de entrar, virou-se para a mais velha. – Hã... Eu acredito.

Ririka pendeu a cabeça para o lado, um pouco confusa.

–– Perdão?

–– Se eu acredito nessa história. – ela se aproximou da mais alta, sua mão afastando um pouco a máscara. Assim que os olhos azuis e os dourados se encontraram, ambas coraram. Mary se aproximou, segurando a mão atrevida de Ririka que voava para cobrir o rosto. – Eu acredito nessa história.

Deixando um beijo relativamente demorado no canto da boca de Ririka, Mary se afastou. Ela acenou com a mão antes de entrar na casa e fechar a porta com um estrondo. A Momobami estremeceu. Com a máscara de volta ao lugar, caminhou para o carro carregando um sorriso bobo.

Ririka não sabia dizer de qual história a Saotome se referia, mas a resposta aqueceu coração. Sua mente não se importando com a história de Saturno e Júpiter, preferindo acreditar que respondera a sua pergunta nas entrelinhas. E aquele beijo? Bem, sua mente também preferia acreditar que tivera sido um deslize causado pelo sono excessivo ainda presente no corpo da mais nova. Não queria descartar a ideia de que fora proposital, a ideia soando um pouco errada por serem duas amigas. No entanto, assim como suas perguntas sem respostas, ela não ligava.

Era estranho uma amiga querer aquele tipo de coisa com outra? Ririka fez uma nota mental para perguntar a Kirari, ou talvez para Yumeko. Em quesito de amigos, por motivos obvieis, Kirari não seria a melhor para lhe ajudar.

Isso! Perguntaria a Yumeko.

Ririka riu da lembrança.

Ela nunca chegou a questionar de fato Yumeko sobre o incidente na casa de Mary. Na verdade, sequer as duas que presenciaram o fato comentaram novamente sobre. Ririka não sabia se por preferirem esquecer que acontecera, ou por de tanto quererem falar, não encontrarem as palavras. Isso acontecia com muita frequência com ela, sendo honesta. Querer muito falar algo, mas as palavras sumirem.

Seu tempo acabara. Os três dias fora tinham passado em um piscar de olhos e, por mais que tivesse passado praticamente 72 horas ouvindo e questionando sua irmã sobre amor, ainda se sentia insegura. Não carregava uma definição com ela e não teve tempo para responder a pergunta de Kirari quando saíram da reunião com as famílias, cansadas demais para qualquer coisa. E agora estavam ali, caminhando pelos corredores vazios da escola da área sul, Ririka ainda sem sua definição do que era amor.

–– Rari? – Kirari fitou a irmã, parando no meio do corredor. Virando-se uma para a outra, Ririka prosseguiu. – Eu sei que Mary gosta de mim, mas como eu sei que ela gosta, gosta de mim?

Kirari bufou.

–– Agora você está igual a mim.

Ririka não entendeu qual era o ponto de sua irmã.

–– Nós somos gêmeas, Kirari, essa é meio que... a coisa toda.

–– Não, não isso! – bufou, estapeando-se na testa. – Você está igual como eu fiquei quando Sayaka e eu pulamos da torre.

–– Você estava agindo feito uma estúpida!

–– Eu precisava saber se ela gostava, gostava de mim! – ela arqueou as sobrancelhas.

–– Ela se jogou, jogou da torre por você! – ralhou, negando com a cabeça. – E tem mais, eu ainda não tenho uma definição do que é amor. O que eu faço?

Kirari suspirou, passando o dedo indicador entre as sobrancelhas.

–– Riri, me escuta, ok? – ela pôs as mãos nos ombros da irmã. – Você ainda não entendeu? O amor é uma incógnita, um grande desafio. Muita gente tentou definir o que é o amor, e ainda sim é o único sem uma que consiga ser suficiente. E essa é a parte legal! Não é conceituar o que é desconceituado ou definir o que é indefinido. Você apenas sente e se deixa levar. – ela se afastou, cruzando os braços. Kirari sorriu para a irmã, olhando-a no fundo dos olhos. – O que você acha de Saotome Mary, Ririka?

Como um clique em sua cabeça, como se a última peça que faltava tivesse sido achada, Ririka entendeu. E com um sorriso enorme, escondido pela máscara, a garota voltou a andar, sendo seguida pelo olhar confuso da irmã.

–– Desculpa, Rari! Mas tem uma pessoa pra quem preciso responder essa pergunta primeiro.

Ela caminhou a passos apressados por entre os corredores longos, querendo chegar o quanto antes para a sala onde sabia que a encontraria. Pela primeira vez, Ririka não ligou de ter os olhares curiosos dos poucos alunos que não estavam em sala de aula. Alguns comentavam sobre ela, sobre como a vice-presidente parecia tão majestosa até mesmo andando com tanta pressa; outros fofocavam, imaginando para onde esta ia com tanta velocidade, tanta avidez para chegar ao seu destino.

E por ter pressa, Ririka apenas abriu a porta da sala da turma de Mary. Os olhos de todos caíram sobre ela, assistindo-a caminhar na direção do professor.

–– Poderia dispensar a senhorita Saotome para mim, professor? Por favor. – fez uma pequena reverência.

O ato causou arfadas por toda a sala, incluindo no professor. O homem se apressou a fazer uma reverência também e assentir com a cabeça.

–– É claro, vice-presidente. – ele se virou para os alunos. – Senhorita Saotome, por favor. A vice-presidente requisita sua presença.

De todas as cabeças que se viraram para ela, apenas uma importava. Mary se ergueu, caminhando devagar de encontro a Ririka. Tudo bem que tinha pedido para que a mais velha a avisasse quando chegasse a escola, mas não esperou que esta fosse a buscar em sua sala.

A Momobami gesticulou para fora da sala, agradecendo rapidamente ao professor antes de fechar a porta atrás de si. E, sem esperar por mais um minuto sequer, segurou Mary pela mão, puxando-a apressada para fora da escola.

–– Ririka? Ririka, o que está acontecendo? – Mary pediu, vendo os olhares dos alunos pelos corredores sobre elas. – Vice-presidente, eu juro que não fiz nada!

Pensou que, talvez, se defendesse a si mesma de qualquer coisa que tivesse feito, Ririka a explicaria o que estava acontecendo. Estava errada. A mais velha apenas ignorou seus questionamentos. Logo, no entanto, Mary conseguiu deduzir para onde estavam indo, assim que seus pés pisaram do lado de fora do prédio escolar.

As mãos só se soltaram quando chegaram a moita, e unicamente porque Ririka fez questão de segurar para que Mary passasse. E, ao fazerem a passagem para o lugar especial delas.

–– Eu preciso conversar com você, senhorita Soatome.

Mary engoliu em seco, ficando de frente para a garota. Ambas se encontravam na parte interior da árvore, que começava a ter suas flores nascendo de novo após o inverno. A loira se sentiu ligeiramente nervosa, talvez até mesmo ansiosa, com a frase da mais velha.

–– Então diga.

Ririka respirou fundo.

–– Eu não conheço o amor. – Mary franziu com aquele começo. – Eu não conheço o amor e é por isso que eu não me dei conta antes. Eu não percebi que, talvez, você gostasse de verdade de mim. Eu peço desculpas. – antes que a loira pudesse retrucar, sentindo seu coração se partir e sofrer em antecipação por ter seus sentimentos recusados, Ririka continuou. – Eu peço desculpas por não ter entendido os meus sentimentos. É que eu nunca me senti assim com ninguém antes, mas também nunca tinha tido alguém tão próximo de mim assim antes. Mary, eu gosto de não ter respostas com você. Normalmente, eu não gosto de não entender algo, mas com você, eu não ligo. E eu amo coisas que são só nossas, porque eu me sinto especial com você. Eu amo muitas coisas em você, mas eu sou apaixonada pelo calor que você exala! Eu sou completamente atraída por ele, talvez porque tenho sangue frio dos Momobamis, ou porque você me lembra coisas que eu não tenho mais. Não sei. Eu não sei porque eu amo você, eu não sei definir amor, eu não sei definir nada! Eu não tenho respostas com você. – respirou fundo, procurando ar para continuar. – Mas, se estiver tudo bem por você... – ela se inclinou, fazendo uma reverência para Mary. – Eu gostaria de descobrir o que é amor, com você. Porque eu acho que amo você e não quero aprender sobre isso com mais ninguém.

Silêncio.

Por longos minutos, Mary não falou nada. Ela não reagiu: não falou, não se moveu, não gritou, não explodiu. Mesmo quando Ririka endireitou a postura, a loira tinha a cabeça baixa, a franja cobrindo seu rosto. Não havia sinal de uma reação, fosse ou não negativa.

Ririka sentiu seu coração, que já estava acelerado o suficiente por tudo o que acabara de falar, de repente querer perder as batidas. Sua garganta secou e, ainda sim, parecia a vontade de vomitar no pé dela molhasse tudo. As mãos tremiam, parecendo que estavam contra o chão durante um terremoto, e sua respiração pesada e descompassada. A Momobami jurava que podia sentir seu corpo suar frio, e ainda que quisesse confirmar, não conseguiria, porque seu corpo parecia anestesiado, fazendo-a sentir cada veia, cada gota de sangue passeando por este.

Por que ela não respondia? Será que concluiu tudo errado e agora perdera a Saotome de vez? Céus! E se tivesse realmente sendo vista por Mary apenas como uma amiga, o que faria agora? Não podia mais voltar atrás com o que dissera! Talvez, se ela dissesse que era apenas brincadeira, ainda desse tempo de fingir que nada aconteceu.

Por fim, o grunhido que soou do fundo da garganta de Mary foi o suficiente para Ririka voltar a si. A mais baixa se aproximou, a passos firmes, e segurou o pulso da maior, arrancando a máscara e jogando-a longe com a mão livre. A face da Momobami ardeu em um vermelho intenso ao enfim ter os olhos dourados sobre ela. Saotome tinha os olhos lacrimejando, mas um sorriso contido nos lábios.

– Se vai se declarar para mim, ao menos tire essa porcaria para falar olhando nos meus olhos. – Ririka arfou. – Faça de novo.

– De-de no-novo?

– O final. Repete. – Mary se afastou um pouco. – Quero ver seu rosto quando fizer isso. Por favor.

Ririka tinha certeza de que, se por um acaso fosse necessário, seu rosto serviria como fogão tranquilamente para cozinhar qualquer coisa. No entanto, ainda que tímida, não desistiria de Mary, não agora quando estava tão perto. Ela respirou fundo, engolindo o bolo em sua garganta, e fechou os olhos.

– Saotome Mary, eu gostaria de descobrir o que é o amor, com você! Porque eu acho que amo você e não quero descobrir isso com mais ninguém.

Desta vez, nem um minuto se passou após as palavras saírem, logo Mary a puxara pela cintura e juntara seus corpos. Ririka esbugalhou os olhos, seus braços contra o peito da mais baixa e a boca entreaberta pela surpresa. Saotome sorriu abertamente.

– Eu disse que acreditava na história. – murmurou baixo. – Eu também quero descobrir o que é amor com você, Riri, e somente com você, porque eu também acho que te amo.

O sorriso das duas já não cabia mais em seus rostos de tão grande que estavam. Por alguns segundos, elas se olharam, mas os olhares logo caíram para os lábios uma da outra. As faces foram se aproximando devagar, uma esperando que a outra tomasse o primeiro passo ou que a proximidade tomasse a iniciativa por elas. E quando os lábios se chocaram, nada mais importava.

O mundo tinha sumido, o vento ameno de primavera batendo contras as flores e levando algumas com ele não foi suficiente para as separar. Pelo contrário, ao sentir mais segurança em seus movimentos, Ririka deslizou as mãos pelos ombros da mais nova, subindo por seu pescoço até que estivesse segurando as laterais de sua cabeça. Mary subiu as mãos de sua cintura até que estivessem espalmadas no meio das costas desta, puxando-a para mais perto.

Seus lábios brincavam entre si. Era um beijo calmo, mas cheio de saudade, o que parecia irônico, levando em consideração que nunca haviam se beijado. Havia tanto sentimento naquela dança que, quando a língua de Ririka pediu passagem e Mary cedeu, foi como se fogos de artifícios estivessem sendo soltados e uma festa acontecesse no peito de cada uma. Se, por um acaso do destino, elas conseguissem se aproximar mais, seria apenas para se fundir.

Pensando no motivo de nunca ter tentado algo assim antes, em como sua demora parecia idiota agora, Mary apenas não conseguia não apreciar os lábios da outra contra os seus. Eram macios, delicados e tão inexperientes, e ainda sim parecia que a dança que bailavam fosse como se sempre tivessem feito aquilo. Ririka não estava diferente. Talvez, o que diferisse seus pensamentos para os de Saotome, eram unicamente o fato de que ela não conseguia não pensar em como Mary beijava bem e em como os lábios habilidosos pareciam veludo contra os seus.

Ainda que fosse a primeira vez, a sensação que ambas carregavam consigo era de que aquele beijo tinha sido predestinado. E que aquele mundinho, aquela bolha que elas estavam formando só para as duas, tinha sido escrito nas estrelas.

Ao se afastarem, com selinhos leves, elas se fitaram. E como se a realização do que haviam feito batesse a porta, Ririka esbugalhou os olhos, cobrindo o rosto com as mãos e apoiando a cabeça na curva do pescoço de Mary, que riu de sua reação.

–– Beijei tão mal assim?

–– Não! – a resposta veio muito rápida, atropelando até mesmo seu respirar. Mary riu mais. – Digo, nã-não é isso. É só que... eu estou feliz.

Mary a puxou, afastando as mãos de seu rosto e passando os próprios braços pelo pescoço da mais velha. Com todo carinho do mundo, ela depositou um beijo rápido nos lábios da Momobami, esta que passou os braços tímidos ao redor da cintura da loira.

–– Também estou feliz. – sorriu grande. Ririka a seguiu, ainda vermelha da timidez. – Vamos aprender sobre amor, juntas. Mas, até lá, eu amo você.

Ririka assentiu, passando a ponta do nariz contra a ponta do nariz da outra. Ambas fecham os olhos, apenas sentindo o carinho. Até que as palavras terminadas. E aquele quente que ambas sentiram, foi definitivamente a resposta que precisavam. Era um quente diferente de todos os outros: era um quente que dava certeza.

–– E eu amo você.

A loucura do sábio ou a sabedoria do tolo? Já não importa mais. Porque, como disse Emily Dickson: tudo o que sabemos do amor é que o amor é tudo que existe. E se é tudo o que existe, você não define, apenas sente.

Notes:

Não sei se ficou claro, então vou dizer: há algumas referências importantes no decorrer do texto.
1- o abraço de despedida foi inspirado na fanar da @gata_mala_ no twitter (MUITO OBRIGADA, É LINDA SUA FANART)
2- a história Júpiter e Saturno foi do conto que o @vitormarques contou no tiktok dele, eu achei incrível e não pude não usar
3- a última cena da Ririka e da Kirari ("ela pulou, pulou da torre!") é uma referência a um diálogo entre as gêmeas Rooney, de Liv e Maddie do Disney Channel.

Espero que tenham gostado. Por favor, não se acanhem, deixem comentários e me deixem saber o que vocês acharam de tudo. Obrigada por lerem, inclusive, isso me deixa muito feliz! É isso, até a próxima, people! ^^