Chapter Text
Duque Hajime Iwaizumi, do reino de Karasuno. Um homem que, assim como seu nome, transmite grande força e resiliência para todos à sua volta, sendo mais nobre por entre os nobres, sempre se deixando levar por seu grande coração em enormes ações de caridade pelo povo. Construiu orfanatos, um grande centro de reabilitação e um hospital local, tudo com seu próprio dinheiro conquistado com muita garra.
Sua amizade com o Rei, Sawamura Daichi, era cultivada com muito carinho pelos dois, sendo também o que mantinha Iwaizumi em sua posição de Duque sem que precisasse se envolver em politicagem, o que nunca lhe atraiu. Sua missão era apenas para com a caridade, que fazia sem exitação, e isso sempre inspirou o monarca Daichi à, como Hajime, doar-se sem esperar retribuição.
Tobio Kageyama, filho único do implacável duque. Kageyama, o sobrenome vem de sua falecida mãe, Iwaizumi escolheu nomeá-lo como tal para que a mulher jamais fosse esquecida, tendo morrido durante o parto. Tobio era um garoto muito fechado, com uma dificuldade enorme de lidar com as pessoas, que por mais que se esforçasse pareciam repelí-lo.
Algumas crianças o chamavam de apelidos maldosos, como “Grande Rei”. Por mais que parecesse uma boa nominção, vinha com um significado vil e obscuro que envergonhava o menino. Tudo isso, no entanto, não apagava o fato de ser uma criança um tanto quanto talentosa, principalmente quando o assunto eram esportes.
Seu pai o incentivava em tudo que fazia, e não era diferente com vôlei. Eles jogavam juntos sempre que Iwaizumi tinha uma folga, já que Kageyama não tinha amigos para treinar consigo. A realidade nua e crua era que ele não tinha ninguém, além de seu pai.
O duque sempre foi sensível às necessidades alheias, e com seu primogênito não era diferente. Percebeu facilmente o vazio que se formava na criança, a enorme insegurança, sabia que todos os outros garotos faziam com que se sentisse um incômodo. E não deixava de elogiá-lo quando tinha a chance, de levá-lo para o acompanhar no serviço evitando assim que ficasse sozinho durante longas horas. Deu ao garoto tudo que ele quis, sem praguejar.
Hajime não era um pai frouxo, também deu à Tobio ensinamentos valiosos, principalmente sobre ser solícito e resiliente, mesmo que em seu silêncio costumeiro. Iwaizumi mostrou à ele que, mesmo que não fosse o melhor com palavras doces, podia ser uma pessoa gentil em suas ações e isso sim era o mais importante.
Apesar deste belo companheirismo entre os dois, Iwa sabia que havia uma grande lacuna à ser preenchida no coração de seu filho, um espaço que necessitava de uma figura paterna ou materna, gênero não era algo que lhe importava. Em uma noite, queixou-se da solidão de ambos à Daichi e seu marido, Koshi Sugawara.
-Talvez seja hora de abrir seu coração para um novo alguém. - Sawamura pontuou.
-Com certeza, Iwaizumi, não pode ser o viúvo bonitão pra sempre. - Suga brincou, colocando em jogo o apelido que corria pelo reino. Hajime se contorceu na cadeira, odiava ouvir as mulheres da região dizendo: “o viúvo bonitão!” umas para as outras enquanto ele passava. - Você precisa de uma pessoa para iluminar esse seu rostinho caído. - Os três riram quando Iwa fingiu estar ofendido com a honestidade de Koshi.
-Porra, não conheço ninguém interessante, - Ele responde em frustração. - e não vou ficar com qualquer um. - Adiciona antes que Sugawara comece a mencionar as muitas pessoas “decentes” conhecidas pelos três.
-Isso, escolha direito, - Daichi assentiu. - Um casamento não é uma mudança só para você, mas como para seu filho. Todos aqui sabemos como crianças demandam atenção especial. - Ele fala ao lembrar de seu pequeno Hinata.
-Sim... Tobio é a minha prioridade. - Iwaizumi sorriu fraco ao lembrar de seu anjinho.
-Sabe... eu conheço um rapaz que faz muito bem seu tipo, - Koshi introduziu com calma. - Daichi também achou, não foi, amor?
-É, agora lembrei dele. É... peculiar.
-Perfeito para você, tenho certeza dessa vez. Ele é alto, forte, tem um lindo cabelo castanho e MUITA atitude. É um cara talentoso, confiante, diria que até um pouco arrogante, - Iwa torceu o nariz, apesar de estar se interessando. - mas são dos difíceis que você gosta mesmo, então não vai ser um problema.
-Toru Oikawa. Um grande amigo de Suga, a energia deles é bem parecida no fim das contas.
-Ou seja, ele é foda. - Sugawara riu bêbado, acompanhado dos outros dois. - E ele tem dois filhos da mesma idade do Tobio, acho que seria ótimo para ele conviver com garotos da mesma idade... - Suga fez uma pausa, logo ele e Sawamura encaravam Iwaizumi, esperando por uma resposta.
-Ok, agora que eu já tenho até a ficha criminal dele... quem sabe. - Hajime ponderou timidamente, ao passo que o casal se olhou com animação.
-Não negou de primeira? - Suga foi o primeiro à falar. - Ótimo, vou ligar e chamá-lo pra nossa próxima noite livre de crianças! - Daichi riu pela felicidade pro marido e pela forma como ele se referiu àquela saída.
-Boa sorte, Iwa, vai precisar. - Sawamura afagou o ombro do amigo, pouco antes de receber uma cotovelada do esposo.
-Não fala assim, Toru é um ótimo partido.
-Ah, claro, Sugawara Koshi. - Daichi provocou, recebendo dessa vez um golpe forte no meio do estômago.
A próxima semana se passara no ritmo normal, apesar de Iwaizumi estar um pouco mais ansioso que o normal para sexta à noite, quando costumava sediar os encontros entre amigos. Poderia estar prestes à conhecer seu futuro marido, mas também podia ser outro idiota. Bem provável que fosse.
Quando o dia chegou, o Duque se vestiu ainda melhor que o usual, passou seu melhor perfume e se preparou para quem quer que aquele homem fosse. Não estava disposto à dar o braço à torcer, nem baixar sua guarda de primeira.
As batidas da porta revelaram que os três haviam chegado.
-Boa noite, Iwa! - Suga foi o primeiro à falar, quebrando o gelo. - Esse aqui, - Ele puxou Oikawa para seu lado bruscamente. - é Toru Oikawa, de quem eu falei. Toru, esse é o Hajime Iwaizumi.
-Uau, quanta formalidade. - Toru sorriu, dando uma risadinha junto de Koshi. Os dois se divertiam com esse tipo de humor mais direto e um tanto ácido. - É um prazer, Iwa-chan~
Iwaizumi sentiu uma coisa diferente em seu peito ao notar o claro sarcasmo na forma com que aquele rapaz o tratara, parecia promissor. - O prazer é meu. - Respondeu direto e saiu em direção à Daichi e Suga para cumprimentá-los com um curto abraço.
Ao chegar em Toru, ele parou e analisou-o de cima a baixo, decidindo-se por abraçá-lo também. Assim que tentou fazê-lo, Oikawa estendeu sua mão de forma confiante, parando Iwa por completo e o pegando desprevinido para um aperto de mãos, ao passo que sorria provocante.
Hajime levantou uma das sombrancelhas e não exitou em acertá-lo com força no pescoço, recusando a mão e voltando para dentro. - Entrem, fiquem à vontade.
- Hah... Iwa-chan! - Oikawa resmungou, massageando o local do golpe.
Algumas horas de conversa furada depois, os dois pareciam estar se dando melhor, à maneira deles.
-Espera, você também torce para a Aoba Johsai, Lixokawa? - Já tinham até apelidos carinhosos.
-É óbvio. Apesar de o time estar meio estagnado nos últimos torneios, continuamos sendo os melhores. - Ele diz de forma presunçosa, que de alguma forma atiça Iwaizumi.
-Concordo. Eu nunca daria as costas numa fase ruim!
- Um bom torcedor é aquele que está lá nesses momentos. Perder apoio só iria desestabilizá-los ainda mais. - Hajime concordou mais uma vez, começando então à reclamar do atual elenco. Os dois desenvolviam uma dinâmica própria, na qual Daichi e Suga nem ousavam se meter, conversando entre si e de vez em quando checando como os pombinhos estavam se saindo.
Já bebâdo, Oikawa discaradamente flertava com Iwaizumi, que, por outro lado, era o tipo de bebâdo rabugento, cortando as investidas de Toru apesar de também sentir o clima mudar. Koshi e Sawamura se foram, mas Oikawa seguiu com Iwa. Os dois eventualmente ficaram, no meio da selvagem madrugada à fora.
Era tão bom, Hajime nunca havia sentido tanto êxtase em colocar alguém no seu lugar com as próprias mãos, não sabia se aquele longo e duradouro prazer vinha da real qualidade de seu parceiro sexual ou da grande quantia de bebida, entretanto no momento não importava. Sentia-se bem e isso era tudo que conseguia focar.
As saídas casuais para beber e transar dos dois lentamente se transformaram em elaborados encontros românticos, em sua maioria providos pelo atencioso Iwaizumi, mesmo que ele ainda tentasse manter uma imagem de durão. Namoraram por um pequeno período e já estavam noivos, a paixão engolindo qualquer resquício de razão.
Iwaizumi estava fraco por tudo no outro. Queria mais, precisava cuidar dele com todas as forças que lhe restavam. Proteger seu amor das dificuldades em que ele mesmo e seu ideal de perfeição o colocavam.
Oikawa sentia-se confortável com Iwa. Achava-o um homem extremamente charmoso, inteligentíssimo. Nunca havia conversado com alguém tão interessante, nem mesmo sua ex-esposa. Contudo, Toru também tinha um olho em sua estabilidade para toda a vida, afinal, Hajime não só era uma pessoa incrível, como tinha uma conta bancária deliciosa. E isso era uma vantagem significativa.
E Toru era esperto o suficiente para não deixar que seu noivo notasse esse pequeno interesse pelo dinheiro. Nunca, nem ao menos uma vez, mencionou ganhos em suas conversas ou pediu presentes. Quando Iwaizumi dava algo por vontade própria, ainda negava algumas vezes em uma falsa modéstia: “Não é isso que eu quero de você, Iwa-chan.” — Era exatamente o que ele queria.
Outra coisa que escondeu com maestria, foi sua pequena raiva de Tobio. Não entendia bem o porquê, mas o garoto lhe dava nos nervos. Talvez fosse o jeito tímido, ou o fato de ser absurdamente superior à seus filhos em tudo que fazia. Talvez um pouco das duas coisas. Quando seu noivo estava longe, Oikawa tratava Kageyama com desprezo evidente, o que confundia o pobre garoto.
Iwaizumi notou o estranhamento pela parte de seu filho, e teve a delicadeza de conversar com Toru sobre isso, longe das crianças. Ele deixou bem claro que seu filho vinha em primeiro lugar e que deixaria Oikawa, sem hesitar, caso descobrisse que estava maltratando o menino. Toru obviamente negou as acusações e até riu da seriedade com que o outro levava aquilo, mas seu ódio apenas foi alimentado com aquelas palavras.
Aquela criança estranha valia mais do que ele?
Passaram mais alguns meses morando juntos para a adaptação das crianças, Hajime esperançoso por uma amizade que não parecia acontecer. Kindaichi nem olhava para Kageyama e Suguru até brincava com ele quando adultos estavam por perto, mas assim que se viravam fazia questão de destilar todo o seu veneno, atingindo as inseguranças mais profundas de Tobio. Aqueles dois eram tudo, menos como irmãos para o pequeno, não que ele fosse se queixar disso, já que era acostumado à ser solitário e motivo de piada.
O casamento foi expansivo, cheio de convidados importantes. O casal esbanjava felicidade genuína, tendo o que chamariam de dia mais feliz de suas vidas. Oikawa agora era um Duque, Iwaizumi agora era um homem casado. Ambos estavam vivendo sua melhor vida.
Morar juntos não era novidade, mas os ânimos depois da cerimônia foram revigorados, para todos menos Tobio. O garoto se sentia cada vez mais excluído em sua própria casa, agora tendo que dividir seu pai com os outros três, nem seus jogos de vôlei eram os mesmos.
Ao passo que ele aceitava sua nova realidade, o tempo vagarosamente se passou. Tobio fez oito anos, seguido por Kindaichi e Suguru, que faziam aniversário juntos por serem gêmeos fraternos. Iwaizumi começou uma atividade social em parceria com outro reino, tendo que viajar muitas vezes para resolver detalhes.
-Uma bolsa de luxo! - Suguru respondeu prontamente quando perguntado qual presente desejava da cidade vizinha.
-Botas novas, de marca. - Kindaichi foi mais incisivo em seu pedido.
-Jóias... você conhece bem meu gosto, docinho. Vou sentir sua falta! - Toru falou, colocando-se na frente de Tobio.
Percebendo o movimento do marido, o duque deu um beijo curto e se abaixou para falar com Tobio. - E você?
-Não preciso de nada. - Ele responde um tanto seco. - Mas me escreva uma carta quando chegar. - Tentou melhorar um pouco a situação.
- Sim, querido. Papai vai sentir tanto sua falta... mas Oikawa vai cuidar bem de você e logo estou de volta, certo, Tobio? Eu te amo. - Ele não esteve de volta. Mal sabia Kageyama que aquelas seriam as últimas palavras que trocaria com seu querido pai. A carruagem que o levava descarrilhou em uma colina, todos, passageiros e motorista, morreram no acidente.
A carta chegou como uma facada, tanto para Toru, quanto para Tobio. Oikawa fez uma cena, vivendo seu luto da forma mais escandalosa possível, e por mais incrível que possa parecer, ele estava genuínamente triste.
Cortou os encontros entre amigos das sextas-feiras, desligou-se do vôlei e até mesmo demitiu os funcionários que ajudavam à manter a casa e a horta que Hajime cultivava para subsistência. Toru se desligou do mundo, não atendia mais o telefone ou lia cartas. E, aos poucos, também desligou sua humanidade. Qualquer resquício de bondade que alguma vez teve, foi apagado.
Assim, ele voltou à sua raiva por Kageyama. O que podia fazer para quebrar aquele menino por completo? Era um jogo divertido quando se era o lado com poder. Tantas ideias vieram à mente, mas uma em especial lhe deu êxtase de apenas imaginar.
- Tobio-chan! - Chamou, jogado no sofá da sala e já rindo da situação que estava prestes à criar.
Kageyama entrou calmamente na sala e encarou seu padrasto como quem pergunta: “O que foi?” mesmo que mantendo-se silencioso.
- Ah... Tobio-chan... - O homem respirou fundo, segurando a enorme vontade de rir. - Sabe, querido, é difícil te dizer assim mas... não somos uma família. - Os olhos de Kageyama quase saltaram de seu rosto e Oikawa continuou mesmo assim. - E você não pode continuar aqui-
- Por quê? - O enteado realmente não via um motivo, afinal essa era a casa de seu pai.
-Não pode continuar aqui, - Toru retomou de onde havia parado, em um tom agressivo. - se não for útil. E eu para a sua sorte, eu sei exatamente o que você pode fazer para merecer esse teto sobre sua cabeça. - O homem sorri maldoso, enquanto o garoto apenas espera pelo que viria.
Como a criança parecia estática, decidiu continuar. - Como pode ver, não temos mais criados na mansão. Ou será que temos? - Oikawa se levanta e aponta um dedo contra a face de Tobio. - Isso é tudo o que você será de agora em diante, Tobio-chan~
Kageyama controlou sua vontade de gritar, de retrucar. Não valia a pena, e Oikawa era alguém que ele admirava, mesmo que de uma forma estranha. Tobio havia criado um laço emocional com ele, mesmo que não entedesse muito bem já que Toru nunca se esforçou para se tornar uma figura paterna... provavelmente eram os resultados de toda sua carência e solidão aparecendo.
-Estamos entendidos, servo? - Dessa vez, não foi capaz de segurar o riso quando viu Kageyama baixar os olhos e tentar conter algumas lágrimas.
-Sim.
Um tapa forte o atinge quando menos espera. - Sim, SENHOR. É assim que você deve tratar à mim e meus filhos de agora em diante. - Bufou o padrasto, mostrando como as coisas seriam daquele momento em diante.
-Perdão, senhor. - Tobio responde, olhos lacrimejando. Era jovem demais para lidar com aquilo friamente, por mais que tentasse.
-Agora... - Ele alisou o rostou do enteado por um momento. - Seja um bom garoto e tire todo aquele lixo do seu quarto, agora será o quarto de brinquedos dos meus meninos. - Podia-se ouvir Suguru rindo no cômodo ao lado. - Eu já me livrei daquilo que chamava de roupas e da maioria das tranqueiras que encontrei no caminho. Empregados se vestem como empregados, não como nobres. - Ele tomou um momento para ir até uma mesinha ao lado do sofá, abrindo a primeira gaveta e retirando alguns trapos, que pareciam bem maiores que Tobio, além de gastos e cheios de furos. - Isso deve bastar.
Ele jogou as roupas contra o rosto do enteado, que permanecia calado e choroso. O pequenino olhou para aquilo por um instante, aquelas blusas lhe fariam um vestido longo tranquilamente e isso não era boa coisa.
- Antes que pergunte, apesar de parecer que um gato comeu sua língua, - Provocou. - Você vai se mudar para o quartinho embaixo da escada, onde os materiais de limpeza costumam ficar. Tudo que pode levar é o conteúdo das caixas no novo quarto dos meus meninos. - Tobio, que agora estava controlando melhor seu choro, seguiu em silêncio. - Você tem essa tarde para se ajustar ao lugarzinho, antes de preparar o jantar.
- Mas eu não-
-Aprenda. - O homem cortou a tentativa de protesto, apesar de ser uma questão válida, porque mesmo que sempre ajudasse em casa, não era do costume do garoto cozinhar tudo sozinho, ninguém permitia por ser muito jovem.
Oikawa deu as costas e saiu sem dizer mais nada, deixando um Tobio completamente perplexo para trás, se perguntando como devia proceder, e depois de alguns minutos se decidiu por começar a arrumar o seu novo “quarto”
Ao descer as duas pequenas caixas com os pertences que lhe restaram, Kageyama abriu a porta do armário que agora chamaria de quarto e se surpreendeu ao notar que nem ao menos havia uma cama ali, nem um colchão para que dormisse confortável. Com uma sombrancelha levantada, questionando toda a situação em que se encontrava, decidiu abrir as caixas e analisar o que “piedosamente” seu padrasto o permitira manter.
Algumas de suas embalagens com cadeado ainda estavam ali — Ao que ele agradeceu silenciosamente, já que continham lembranças de seu pai. - Além de um de seus tênis e um chinelo, meias e cuecas também. Alguns cadernos praticamente em branco, retalhos que não tinha antes e acreditou ter recebido de seu padrasto em algum gesto de insana e incoerente piedade, assim como um singelo kit de costura que nunca havia visto. Na outra caixa estavam jogados alguns de seus livros e uma rala coberta. Tobio olhou para tudo aquilo, tentando montar uma estratégia que pudesse ao menos tornar aquilo suportável.
Começou varrendo e tirando pó de seu cantinho desajeitadamente, ainda era uma criança no fim das contas, deixando o lugar ao menos agradável para respirar, mesmo que o cheiro forte de produtos de limpeza fosse provavelmente perdurar ali para sempre. Ele não podia tirar os itens dali, mesmo que dormisse lá, continuava à ser o ármario de limpeza — Agora abrigando o garoto da limpeza.
Ele rapidamente posicionou seus pertences nos espaços livres das prateleiras, deixando de fora os retalhos, seus novos trapos e os itens de costura. O primeiro passo foi descobrir como fazer aquilo direito, já que tudo que sabia era dar um ponto de costura. Gastou um bom tempo apenas se ensinando à costurar de forma minimamente descente, mesmo que a linha ainda ficasse evidente e suas finalizações não fossem o que chamaria de suaves, por hora isso iria servir. Forçou suas pequenas mãos à trabalharem em fechar e remendar os grandes buracos nas roupas, o que não demorou muito já que eram poucas peças. Seria ainda mais rápido se ele não estivesse aprendendo na marra.
Depois de resolvido um de seus problemas, voltou-se ao outro: a falta de um lugar para dormir. Tobio não podia simplesmente deitar no chão gelado e esperar que aquela rala coberta lhe servisse de algo. Olhou para o fundo da caixa, ainda haviam muitos, muitos retalhos mesmo. Mentiria se disesse que seu primeiro pensamento não foi simplesmente jogar tudo aquilo no chão e se deitar, mas logo algo bem melhor lhe clareou à mente. De repente, Kageyama estava correndo até o pequeno celeiro da casa, na verdade até a casinha de ferramentas ao lado deste, em busca de palha limpa e nova. Ele fez duas viagens com tudo para dentro do armário, pretendia fazer um colchão grande que servisse até quando fosse adolescente, já tentando se poupar do trabalho de refazer tudo.
Ele se decidiu e iniciou uma grande fronha de retalhos, quase um saco, entretanto com uma boa estrutura que depois seria recheada. Ele teve mais de quatro horas para trabalhar nisso, já que o que fez no quartinho antes disso não tinha tomado muito de seu tempo e seu padrasto havia lhe dado a tarde toda. Conforme a grande colcha tomava forma, suas habilidades evoluíam em conjunto, sendo cada vez mais fácil e rápido para ele, como em uma exponencial.
- Tobio-chaaan! - Oikawa gruniu da cozinha. - Agora. - Seu tom passou de sarcástico à sério em tempo recorde. O jovem sentiu por não ter conseguido terminar com a costura, mas já tinha mais da metade feita e isso era suficiente para se orgulhar, por agora.
Levantou-se e caminhou até a cozinha, já sabendo que era hora de cozinhar. Ou queimar a casa.
-Aqui, pirralho. - O padrasto jogou três livros contra seu peito e Tobio teve certa dificuldade em segurá-los, o que fez o outro rir maldoso. - Não estou fazendo isso pra te ajudar, eu só não quero a minha comida com gosto terrível. E se ela estiver... saiba que existem consequências, Tobio-chan! - A ameaça de Toru não combinava nada com o tom doce que ele usava no momento.
Logo, o homem deixou-o só, novamente sem nenhum aviso prévio. O enteado sentou e encarou os livros, escolhendo o "Culinária III - Carnes e Misturas" para procurar o que estava prestes a preparar. Cada uma daquelas receitas parecia igualmente e estupidamente difícil, e ele não tinha habilidade nem para fazer uma pipoca decente. Decidiu que, enquanto escolhia a receita, poderia começar à preparar o arroz, que era básico e acompanhava todas as refeições. Puxou então o livro “Cúlinaria I – Receitas básicas e essenciais” encontrando arroz nas primeiras páginas, ordem alfabética. Tentou seguir aquilo à risca, esforçando-se para ao menos não queimar nada.
Começou à preparar batata recheada, que dentre todos aqueles pratos parecia a mais fácil de fazer, apesar de também ser complicada. Kageyama tentou, ele tentou com todas as forças, e no fim das contas a batata parecia uma bagunça. Talvez ficasse melhor depois de assar, ele se animou e desligou seu primeiro arroz da vida. Ao passo que a batata seguia no forno, fez a parte mais fácil, que era o suco e cortar alguns vegetais para uma salada simples.
Como o prato principal ia demorar um pouco mais, saiu para arrumar a mesa e já posicionou o suco, seu arroz que acabara um pouco grudento e a salada, arrumando também os quatro pratos, acompanhados de talheres e copos. Só nesse momento desligou o forno, um cheiro delicioso invadindo suas narinas quando abriu o equipamento. Levou com todo o cuidade aquilo até a sala de jantar e posicionou junto ao resto.
-Jantar! - Ele se limitou à gritar, nervos já estourados com seu padrasto. O garoto sentou-se, esperando que os outros chegassem para se servir. Tamanha foi sua surpresa quando Oikawa fez uma longa e dramática expressão de surpresa. - O que é isso que meus olhos estão vendo?
-O que é agora? - Tobio respondeu à altura e engoliu seco ao notar que não havia mantido aquilo apenas para si, já que o preço por retrucar podia ser alto e ele não estava disposto à pagar.
-Hah... olha a boca, Tobio-chan! - O padrasto desferiu um tapa, deixando uma nova marca na bochecha oposta à que acertou horas antes.
-Bicho do mato! - Suguru provocou, logo atrás de seu pai.
-De qualquer forma, o que pensa que está fazendo? - Ele gesticulou, com uma exagerada expressão de nojo, para a cadeira em que o menino se encontrava.
-Esperando para jantar..?
Ambos, Oikawa e Suguru caíram na risada, uma risada dramatizada e repleta de maldade em cada ruído. Kindaichi estava muito ocupado lendo para sequer acompanhar tudo aquilo, mas seu irmão estava se entregando à maldade pelos dois, caçoando de Kageyama sem pudor.
Depois de quase dez minutos ininterruptos de risos, aos quais o enteado apenas encarou assustado e um tanto apreensivo, Toru conseguiu falar algo entre sua luta por ar. - Você... acha mesmo que- hah, acha mesmo que pode... simplesmente sentar aqui com a gente...? Essa foi a coisa mais engraçada que já ouvi na vida.
-Que tipo de escravo come na mesa? - Suguru adicionou, dando um ênfase medonho à palavra “escravo”.
-O quê? - Kageyama perguntou, muito desatento para entender tudo que se passava consigo e o motivo.
- É, Tobio-chan é mais burro do que eu pensei. - Suguru solta, dando uma cotovelada para que Kindaichi siga sua provocação.
-É. - Isso é tudo que o rapaz responde, voltando para sua leitura.
- Tobio, acho que algumas coisas não estão claras. Seu lugar não é com a família, é na cozinha. No chão limpando, se preferir. Tudo, menos aqui. SAIA! - Oikawa gritou, avançando na criança, que apenas usou as mãozinhas para cobrir o rosto e se retirou correndo. - LIMPE A COZINHA, INÚTIL! Ugh. - Acrescentou.
Kageyama se escorou no armário da cozinha, passando a mão sob sua bochecha ao passo que as lágrimas escorriam. Seu peito doía, assim como sua cabeça. As mãos trêmulas massageavam seu corpo, tentando de alguma forma se acalmar. Nunca quis tanto o abraço de seu pai, uma de suas conversas em que ele lhe chamaria de melhor filho do mundo, qualquer gesto de carinho que pudesse lhe oferecer.
-Não estou ouvindo você trabalhando! - Seu padrasto gritou, assustando-o e o fazendo se desencostar e começar à lavar as louças. Tobio agradecia por ser um menino alto, caso contrário seria impossível alcançar a torneira ou o secador de louças, e ele teria problemas.
Ainda engolindo algumas lágrimas, o garoto terminou de limpar toda a cozinha, até mesmo fogão. Já que não tinha muito mais a fazer, passou a ler os livros de receitas, ficando até que interessado para testar alguns pratos. Nesse momento se perguntou se sua comida estava boa, não tinha provado nem uma migalha antes de servir.
- Tobio-chaaan! - Toru chamou, retirando o jovem de sua leitura.
Entrando na sala de jantar, Tobio viu uma bagunça desproporcional, parecia que haviam lutado uma guerra no lugar de jantar, e seus irmãos já haviam saído do local. Apesar disso, se manteve silencioso, esperando pelo que seu padrasto tinha a dizer.
-Quer fazer o favor de me explicar o que é essa PORRA que você serviu hoje?
-Como assim?
-”Como assim?” - O homem imitou com deboche. - Como assim??? Estava horrível, um lixo. Essa batata? Uma bagunça. Nem quero falar do arroz, ou papinha de neném, né? - Ele caminhava lentamente em direção ao garoto. - Não vi uma sobremesa, essa salada mal feita. Huh... por onde começar com você, pirralho?
Kageyama foi então empurrado bruscamente, caindo com tudo contra o piso. Toru agora estava parado bem encima dele, olhando para baixo com um tom de superioridade. - Espero, pelo seu bem, pela sua estadia nessa casa, que em no máximo uma semana estava cozinhando decentemente. Me fiz claro? - Perguntou de forma ríspida, e começou à chutar o lado do enteado com toda a força que havia em si, sem exitar mesmo quando ele estava grunindo de dor.
- S-sim, senhor... - Tobio não tinha estrutura para manter sua voz firme.
- Também te chamei para avisar que espero que esteja acordado às cinco da manhã, a partir de amanhã, para fazer nosso café da manhã e começar à cuidar da horta enquanto dormimos. Não quero você comendo da nossa comida sem minha permissão e se o fizer eu vou saber. - Ele ainda chutava o pequeno, agora em sua barriga e baixo do peito. - Sem jantar por hoje, por achar direito servir essa merda. - Os chutes cessaram e ele caminhou até a porta. - De manhã discutiremos suas novas obrigações, assim que eu acordar. - Toru sorriu, cínico, mantendo aquele contraste entre palavras maldosas e tom doce.
- Ok...... sen-
A própria respiração desesperada de Kageyama cortou sua fala, fazendo Oikawa rir de seu estado vulnerável. Tão fácil de quebrar... como esperado.
- Ah, e antes que eu me esqueça. - Ele se voltou para o enteado uma última vez. - Limpe essa bagunça antes de dormir. Boa noite, Tobio! - Toru finalmente caminhou para longe.
Tobio lutou contra a dor imensurável que sentia, evitando também de pensar em quanta fome sentia. Fechou os olhos por um instante, tentando juntar suas partes novamente. Não conseguiu naquela noite, nem em nenhuma outra. O menino estava perdido para sempre.
