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Elas não fazem cabum, não literalmente

Summary:

Quando Venti aparecia de surpresa com um quarto alugado e uma bolsa, Xiao já imaginava que alguma coisa iria acontecer — ele só não conseguia precisar o que exatamente.

Ou: um conto sobre bombas de banho e pijamas de bichinho.

Notes:

E aqui vamos nós para o dia 2 — "Domestic". Confesso que tive um pouco de dificuldade com esse, espero que gostem da minha falha tentativa de humor!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

            — Explique-se.

            Venti lhe sorriu, mostrando todos os dentes, enquanto Xiao mantinha-se de braços cruzados, suspeito. Quando o bardo aparecia de surpresa na pensão Wangshu desse modo, o yaksha já sabia que ele estava com alguma ideia em mente.

            Alugando um quarto e com uma bolsa nas costas, mais suspeito ainda.

            Xiao cerrou os olhos, aguardando que Venti concedesse a explicação para tudo aquilo. Estavam no quarto e o bardo já havia se livrado da boina e da capa que usualmente portava, fazendo um suspense enorme com a bolsa que estava agora em suas mãos.

            — Então... A Lisa importou de Fontaine umas bombas de banho e eu queria experimentá-las~ — cantarolou, ainda sorrindo de forma boba. Xiao arregalou os olhos, totalmente desentendido do assunto.

            — Quem fez o quê? — A gargalhada de Venti foi escandalosa e o yaksha fez um gesto para que ele diminuísse o tom da voz.

            — Lisa importou bombas de banho de Fontaine! — Ele repetiu, abrindo finalmente a bolsa e tirando de lá uma esfera rosada com uma suave fragrância adocicada. — Você as coloca na água e elas se dissolvem, como se fosse sabão. Divertido, não?

            — E você quer... testar isso...? — Xiao ergueu as sobrancelhas. — Ainda não entendi o que eu tenho a ver com isso tudo.

            — Como você é chato! — Venti mostrou a língua, emburrado e o yaksha franziu o nariz, fazendo bico. — Eu quero dividir a experiência com você, por isso vim até aqui.

            — Dividir? — Foi a vez do bardo franzir o cenho, incrédulo com a atitude do outro. — Você está insinuando que... a gente...? — Xiao sentiu os cabelos saírem do lugar e o rosto corar um momento.

            — Você é burro mesmo ou só se faz? — O som que o yaksha fez foi desgostoso. — Xiao, pelos arcontes, não vai ser a primeira vez que você vai me ver pelado. Você desliga o cérebro quando a gente transa?

            — Cahém! — Xiao pigarreou, desviando o olhar de Venti. — Isso não vem ao caso. E eu posso não querer dividir uma banheira com você.

            — Mesmo que divida os lençóis? — Xiao encolheu os ombros e Venti suspirou. — Bom, tudo bem. É contigo, no final. Mas eu realmente gostaria de partilhar a experiência com você.

            — Como... — O yaksha começou, coçando a nuca com a ponta dos dedos. — Você teve o trabalho de alugar o quarto, eu acho que podemos tentar.

            — Yay! — Antes que Xiao pudesse pensar, a mão de Venti já estava na sua, entrelaçando os dedos com os seus, puxando-o para o banheiro do pequeno quarto. — Não vamos perder mais tempo, então! A noite não é tão longa quanto parece e eu só aluguei um dia.

            — Nós ainda temos o meu quarto, se precisar.

            — Seu quarto não tem banheiro.

            Xiao bufou. Ele tinha um excelente ponto, por isso não retrucou outra vez.

            Entraram no pequeno cômodo e, sem demoras, Venti ligou a banheira, deixando que a água a enchesse. Ao mesmo tempo, ele começou a soltar os diversos acessórios que ainda tinha no corpo, como o espartilho, os sapatos, desabotoar a blusa de babados, remover as meias decoradas.

            Xiao desviou o olhar dele para a água que enxia, não querendo curiar além do necessário. Por mais que já tivesse dividido outros momentos com Venti, ele ainda estava trabalhando diversas outras coisas — entre elas essa noção de espaço pessoal e espaço compartilhado.

            — Xiao~! — Venti cantarolou outra vez e o yaksha o fitou, percebendo que ele só estava de shorts. Piscou, seus olhos subindo da peça de roupa para a esfera rosada nos dedos do bardo. — Assista.

            Venti arremessou a esfera na água e, atento, o yaksha observou como ela caía e, instantaneamente, começava a borbulhar, se dissolvendo enquanto rodava na superfície da água. Aos poucos ele foi percebendo como o transparente foi dando lugar a vários tons de rosa, claros, escuros e um cheiro doce de flores silvestres enchia suas narinas, inebriava seu olfato. Não eram flores que conhecia — deveriam ser de Fontaine.

            Ele ficou hipnotizado pela esfera que ia diminuindo, diminuindo de tamanho até desaparecer totalmente, deixando só a cor na água e os pequenos sais por cima dela. Pensou em virar para Venti e comentar algo, mas antes que pudesse fazer isso, percebeu seu vulto entrar direto na banheira, já sem roupas — e o yaksha quase soltou um grunhido pela surpresa.

            — Vem! Falta você agora. — Venti disse enquanto desfazia as pequenas tranças, percebendo como o rubor dominava todo o rosto de Xiao. — Tá, eu não olho você tirar a roupa, tonto. — O bardo fechou os olhos, entretido com o toque macio de seus fios por seus dedos.

            Sem escapatória, Xiao resolveu despir-se de todas as peças de roupa o mais rápido que podia — ainda que toda a quinquilharia que usava desse um trabalho tremendo para tirar — e, antes que Venti pudesse abrir os olhos, ele se afundou na banheira, sentado de frente para o bardo.

            Quando os verde-esmeralda se fizeram presentes de novo, Xiao sentiu seu fôlego prender na garganta.

            Eles estavam tão satisfeitos por vê-lo ali.

            — Você podia ter sentado aqui comigo! — Venti reclamou e Xiao bufou, encolhendo mais as pernas, não tendo muito espaço para esticá-las. — Não precisa correr de mim, eu não mordo.

            — Tem certeza dessa afirmação? — A risadinha do bardo foi travessa e Xiao torceu outra vez o nariz, lembrando das várias marcas que Venti deixava nele quando eles tinham suas noites juntos.

            — Se você pedir, eu mordo com carinho, ué. — Venti afirmou em uma voz serena, doce. Devagar, ele esticou os pés na banheira, até que a ponta de seus dedos encontrasse os de Xiao.

            No primeiro momento, o yaksha sentiu os músculos contraírem-se, não tendo mais como afastar as pernas. Foi percebendo Venti tamborilar a ponta dos dedos dos pés próximos dos seus e experimentou tocá-los de novo — era uma sensação gostosa, a pele dele contra a sua dentro da água morna.

            Devagar, foram ajeitando as pernas até estarem com elas trançadas, os joelhos se resvalando. Xiao evitava encarar Venti, as bochechas rubras demais para conseguir fazer isso.

            Percebeu que o bardo começava a se mexer e tencionou-se outra vez, virando para ver o que acontecia.

            — Mas o quê–?! — Assistiu como Venti se levantava, o rosto ardendo ainda mais pela visão. — Por que você–?!

            — Não se mexa muito, senão a banheira transborda — advertiu Venti, enquanto se ajeitava, virando-se de costas e sentando-se entre as pernas de Xiao, jogando as costas para encostar no peito do yaksha. — Ah, bem melhor. Já que você não chega perto de mim, eu chego perto de você.

            — Por quê?!

            Venti o olhou por cima dos ombros, a expressão séria. Xiao percebeu como os verde-esmeralda de suas íris estavam nitidamente preocupados, duvidosos se as reações do yaksha eram só um exagero ou reais incômodos.

            Por fim, Xiao suspirou, desistente.

            — Eu... — Ele começou, mordendo o lábio inferior, encarando a nuca de Venti à sua frente. — Não sei lidar com essas coisas.

            — Eu entendo. — Venti afirmou, voltando a olhar para frente, esticando as pernas, levantando uma para fora da água. Xiao assistiu como o rosa da banheira escorria por sua pele, os pequenos sais que nela ficaram refletindo a luz. — Por isso mesmo que eu queria experimentar o banho juntos. É uma novidade. Quem sabe fosse bom, né? — Sua voz tinha um pouco de pesar, como se Venti sentisse-se culpado pela decisão.

            Engolindo em seco, Xiao experimentou lentamente passar as mãos pela cintura do bardo dentro da água. Sentiu o corpo todo arrepiar conforme o envolvia em seus braços, enfiando o nariz em seus cabelos, tragando da fragrância deles.

            E, de repente, seu olfato ficou muito aguçado para as cecilias e as flores doces que exalavam do sabonete na água.

            Venti jogou mais o corpo contra o de Xiao, escorregando por seu peito, se acomodando em seus braços, ao ponto do topo de sua cabeça conseguir encaixar perfeitamente embaixo do queixo do yaksha — sentiu como ele suspirava, os dedos apertando sua pele, tocando-o como se ele fosse precioso, mas ao mesmo tempo, como se pudesse sumir.

            — Você é muito contraditório. — Venti sorriu, esfregando a cabeça no queixo de Xiao. — Eu não vou quebrar, mas também não vou sumir. Decida-se o que você quer.

            — Eu quero processar o que estou sentindo, se possível. — Xiao retrucou, não verdadeiramente incomodado, só um pouco deslocado.

            Sentiu como os dedos de Venti iam até sua coxa, sentindo os músculos endurecerem outra vez. Esperou um momento, percebendo como o bardo os deslizava delicadamente até os seus joelhos, massageando carinhosamente sua pele.

            Atentou-se mais à respiração de Venti, a maneira como seu peito subia e descia. Xiao o ajeitou mais em seus braços, acomodando melhor seu queixo no topo da cabeça de Venti — e o cheiro doce das cecilias, dos sais de banho, a água morninha, o calor do corpo de Venti contra o seu...

            Sentiu seus olhos começarem a pesar um pouco, piscando mais uma vez para tentar mantê-los abertos. Contudo, o carinho em sua pele, feito pelo bardo, estava dificultando isso.

            Os dedos dele vieram ao seu rosto e Xiao quase pulou pelo susto, fazendo Venti rir.

            — Estava cochilando, é? — brincou, afastando-se um pouco e beijando a bochecha do yaksha. Xiao suspirou, desistente do rubor em seu rosto. — Dormir na água não faz bem. Nós podemos aproveitar a cama pra isso.

            — Hmmm... — Xiao retrucou, ponderando. Percebeu como Venti se afastou dele, levantando-se e saindo da banheira. — Huh? Já cansou?

            — Eu não. Mas você certamente vai dormir aí. — Venti atestou, procurando na cômoda do banheiro por toalhas limpas. E as encontrou, enrolando uma em sua cintura, caminhando até a banheira, enfiando a mão dentro da água para puxar a tampa do ralo, deixando que ela esvaziasse. — Vamos, enxugue-se. — Ergueu a toalha para Xiao e o yaksha não pensou duas vezes em pegá-la.

            Antes que ele pudesse sair da banheira, no entanto, Venti havia se retirado para o quarto. Xiao deu de ombros, sentindo-se mais confortável desse modo. Quando Venti retornara, Xiao já estava com a toalha enrolada na cintura, pronto para pegar suas roupas de onde as havia jogado.

            Mas foi surpreendido por um embrulho nas mãos de Venti.

            — O que é isso? — indagou, curioso.

            — Pijamas! — Venti sorriu e o yaksha arregalou os olhos, incrédulo. — Comprei de um mercador enquanto vinha para cá. São feitos de algodão fino, muito gostosos.

            — Onde... você arranjou toda essa mora? — O yaksha questionou, genuinamente curioso.

            — Ora! — Venti fez bico, ofendido. — Eu sou um bardo popular, não é difícil arranjar mora se eu performar.

            — Eu achava que você era desafinado. — O som que Venti fez só poderia ser definido como engraçado, tipo um piado agudo. — Viu só.

            — Calado, senão te deixo pelado! — Xiao revirou os olhos, pegando o embrulho das mãos de Venti.

            Abriu-o sem muita delicadeza, só para ficar confuso com o que estava dentro. Definitivamente, era um pijama, no entanto...

            — Por que... isso tem pintinhos? — Xiao piscou, percebendo como Venti abria outro pacote e, no outro pijama, tinham coelhinhos. — ... Nossa, eu odeio você.

            — Você me ama! — Venti mostrou a língua, emburrado. — E você só vai usar isso comigo, aposto. Você usa a mesma roupa todo santo dia, pelos arcontes! Uma única vez!

            Xiao bufou, desistente pela segunda vez naquela noite. Não ponderou muito em vestir o pijama, no entanto, percebendo que realmente era feito do mais fino algodão — e estupidamente confortável.

            Assistiu como Venti, também já vestido, havia saído pegando todas as roupas jogadas no banheiro, deixando as toalhas penduradas no suporte antes de voltar ao quarto. Xiao o seguiu, ajudando-o a dobrar as peças e deixá-las sobre a única cômoda do quarto.

            Quando Venti atirou-se contra a cama e fez um gesto para que Xiao deitasse ali com ele foi que o yaksha entendeu toda a trama até o momento.

            — Teve algo que você não planejou hoje? — questionou, enquanto se acomodava no colchão macio. Percebeu como Venti se apoiava no cotovelo, segurando o rosto com a mão para poder observá-lo de cima, sorrindo arteiro. — Pelo visto, não.

            — Foi um excelente plano, confesse. — Xiao fechou os olhos, suspirando, murmurando em concordância. — Aqui, venha. — Venti se levantou, acomodando-se mais próximo da cabeceira, batendo nas próprias coxas, indicando para Xiao deitar-se ali.

            Àquela altura, ele não tinha mais o que perder mesmo. Obedeceu ao chamado, encostando a cabeça nas coxas de Venti, percebendo como ele baixou a cabeça, esfregando o nariz no seu, a ponta de seus cabelos úmida em suas bochechas.

            — Você molhou os cabelos — atestou, fazendo o bardo sorrir.

            — Não se preocupe, eles vão secar logo. — Venti afirmou, descendo um pouco o rosto, resvalando os lábios pelos de Xiao. — Hmm~

            Devagar, ele separou a boca, prendendo o lábio inferior de Xiao contra os seus, chupando-o com doçura, permitindo que ele escorregasse até se separar de sua boca. Repetiu o ato, percebendo que o yaksha tentava prender mais seus lábios, impedi-los de partirem dos seus. Venti sorriu, satisfeito.

            Percebeu, ainda, a maneira como Xiao levava as mãos às suas, seus dedos se entrelaçando, não querendo que elas se afastassem uma da outra.

            — Alguém... — Venti começou, afastando o rosto, percebendo como as íris amarelo-topázio de Xiao brilhavam na luz do quarto. — Está demasiadamente carente, pelo visto.

            — Hmmm... — O yaksha retrucou, fechando os olhos, relaxando a expressão quando os dedos de Venti vieram aos seus cabelos, acariciando sua nuca com carinho.

            — Sh, sh. Relaxe, eu vou estar aqui com você~ — cantarolou, baixinho, uma promessa feita pelo vento.

            Não se deu conta quanto tempo ele ficou com Xiao em suas pernas, mas quando reparou, ele já havia adormecido — ainda que Venti soubesse que o sono dele era muito leve e, normalmente, não tranquilo.

            Ficou com ele em seu colo até que não mais aguentou e, sutilmente, o acomodou no travesseiro para deitar ao seu lado, querendo também ter uma noite de sono — ou o que restou dela.

 


 

            Na manhã seguinte, Xiao foi guiado pelo cheiro de Tofu com amêndoas que era tão característico — muitos anos aportado na pensão e Verr Goldet já havia acostumado a oferecer a especiaria ao adeptus, como uma cortesia por tudo que ele representava à Liyue.

            Ou talvez por Xiao evitar mostrar sua carranca aos seus clientes.

            O que importava mesmo era que ele já sabia que o prato o aguardava todas as manhãs. Contudo, ele não esperava por duas coisas: primeiro, que Verr Goldet fosse levar o prato ela mesma para Xiao. Segundo: que ele iria se esquecer do pijama que usava.

            A expressão dela era no mínimo curiosa. Não que isso diminuísse a sensação que Xiao teve ao abrir a porta e se encontrar com a chefa da pensão.

            — É... uma bela roupa, eu diria. Combina com você, os passarinhos. — Verr Goldet observou, oferecendo o prato a ele, sorrindo serena. — Diga ao seu amigo que pode ficar mais algumas horas no quarto que eu não me incomodo.

            Xiao não teve como respondê-la ou agradecê-la, porque o choque da realidade era grande demais para que ele pudesse processar. Percebeu como a chefa encostou a porta de seu quarto, deixando-o observando a madeira trabalhada dela.

            — Ah, que bom que ela gostou do pijama, não é, Xiao? — Era a voz de Venti, alegre, exuberante como o sol que entrava pela janela. — E realmente, ele fica uma gracinha em você. Talvez eu devesse...

            Por Rex Lapis, ele iria cometer uma heresia.

            Virou-se e, antes que Venti pudesse continuar com seus devaneios sobre pintinhos ou o que caralhos fosse amarelo que tivesse passado por sua cabeça, Xiao arremessou o prato de Tofu com amêndoas na direção dele. O prato não acertou, mas o tofu caiu graciosamente em cima de seus cabelos, escorrendo pelo seu rosto.

            Ah, o desperdício.

            — Por quê?! — Venti choramingou, indignado.

            — Retribuição divina.

            Depois daquele episódio, ficou acordado que nunca mais Venti iria inventar nada engraçadinho com Xiao sem antes deixar o yaksha à par dos detalhes — especialmente se esse algo envolvesse coisas adornadas com bichinhos de penugem e amarelo.

Notes:

Eu juro para vocês que o Xiao ama o Venti, ele só não gosta mesmo de ser surpreendido.

Comentários sempre me deixam de coração quentinho (✿◡‿◡)

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