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Fandom:
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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2021-03-27
Completed:
2021-03-27
Words:
2,355
Chapters:
2/2
Kudos:
3
Hits:
57

Todas as coisas que (não) aconteceram naquela barraca

Summary:

Um coração que arde não pode ser contido. Isso é o que Jungkook vai perceber ao dividir uma barraca com Hoseok, o homem por quem é apaixonado e com quem esteve por seis meses até que tudo terminasse em silêncio e dor, semanas antes.

Chapter 1: I need you

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu preciso de você, garoto
Por que eu me apaixono e
digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garoto
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que eu vou me machucar?¹

 

Hoseok estava bem ali, ao meu lado, esparramado preguiçosamente sobre os lençóis emaranhados que serviam como um colchão improvisado. A barraca amarela, montada dentro da estrutura de madeira pregada à uma grande árvore, se encarregava de nos esconder dos convidados da festa de aniversário de Namjoon.

O segundo dia de comemoração se esvaía, aos poucos, conforme o sol se derretia atrás das montanhas esverdeadas que se viam ao longe. Na estrada de terra que dava acesso ao pequeno sítio em que nos encontrávamos o único movimento visível era o do pó se erguendo com a brisa fresca que o céu soprava. E, assim como a calmaria imperava do lado de fora, dentro daquele pequeno espaço que dividíamos, não havia nada a se ver, além das nossas costelas, subindo e descendo, num passo ritmado e preguiçoso, conforme respirávamos.

Era uma dádiva vê-lo tão quieto.

O rapaz com as pálpebras fechadas, levemente embriagado pelo efeito do fumo que havíamos compartilhado minutos antes, parecia prestes a adormecer. E, eu, inquieto, tomado pela vergonha dos desejos que me invadiam a mente, somente o observava, pelo canto dos olhos. Pedindo, incessantemente, que os deuses me ajudassem a não o tocar.

Meus dedos, formigando em ansiedade, mais do que nunca, queriam se arrastar pela pele dourada da clavícula bem desenhada, exposta pela regata branca. Tremiam somente com a possibilidade de invadir os fios castanhos de seus cabelos, para assegurarem que a textura era tão macia quanto parecia.

O coração frágil, que implorava por coragem dentro do meu peito, mesmo que errando as batidas a cada segundo, era um lembrete dos sentimentos que não queria demonstrar. Sentimentos que eu sequer deveria nutrir.

Hoseok tinha outra pessoa.

O anel prateado encaixado em seu anelar direito reafirmando o que ele me disse silenciosamente, ao soltar minhas mãos quando a música que dançávamos chegou ao fim, há algumas noites atrás. Uma canção sobre um amor conturbado, assim como o nosso, na qual fiz de tudo para transmitir a ele, através do aperto firme, o que estava sentindo.

Não foi o suficiente. E, percebi isso assim que nossas mãos se desentrelaçaram e ele cruzou a entrada do clube, para minutos depois, retornar com os lábios manchados de vermelho.

Com a garganta fechada e os olhos molhados eu o acompanhei de longe, pelo resto da madrugada, movimentando-se entre a plateia do show que assistíamos, segurando uma mão miúda, cheia de anéis, que pertencia à mulher que lhe roubava os pensamentos.

Ela era linda e, agora, se encontrava bem longe. Provavelmente deitada no sofá de sua sala, em algum apartamento perdido entre as ruas de Busan.

Esse era meu único acalento. Saber que o tinha só para mim, mesmo que somente por alguns instantes.

Tal constatação me levou a deixar escapar um suspiro longo, o que, por sua vez, chamou a atenção de Hoseok que levantou os orbes castanhos até o meu rosto.

- O que você tem? - perguntou-me em voz baixa. Suas pupilas dilatadas aos poucos tomando conta de suas írises, levando-me a questionar internamente o que havia por trás daqueles olhos cansados, envolvidos por olheiras escuras.

Lancei-lhe um sorriso vencido antes de balançar a cabeça para os lados em um gesto de negação.

Não arriscaria abrir a boca, temia dizer as palavras que acampavam no pé de minhas cordas vocais e se empurravam, umas contra as outras, para saírem de uma vez.

Hoseok esticou os braços longos por um segundo, emitindo um gemido preguiçoso, como se acordasse de uma longa soneca.

- Eu acho que não quero sair daqui nunca mais. - soltou em um muxoxo, fitando o teto da barraca e apoiando os braços sobre a barriga.

Ergui o tronco para enxergá-lo melhor, apoiando-me nos cotovelos.

- Por que? - Minha pergunta saiu no mesmo tom, mesmo que não houvesse alguém por perto para nos ouvir.

Seu peito se encheu de ar e os lábios finos se abriram e fecharam algumas vezes antes da resposta ser externalizada:

- O tempo parece não nos atingir aqui dentro.

Minhas sobrancelhas franziram-se inconscientemente e precisei me sentar com as pernas cruzadas para observá-lo.

Percebendo minha confusão, Hoseok continuou:

- Escute - pediu por um instante, e atentei minha audição para o que quer que ele quisesse que eu ouvisse - o barulho está tão longe.

Realmente, os ruídos da festa pareciam distantes. Era como se estivéssemos envoltos por uma bolha que repelia a algazarra que acontecia do lado de fora.

- Não é confortável? Somos só eu, você e o calor do sol que ainda esquenta essa casinha. - disse com simplicidade.

Olhei ao redor, imerso em suas palavras, chegando aos poucos à mesma constatação.

- Eu não entendo o que quer dizer, hyung... - confessei.

Ele deixou seus olhos caírem sobre mim mais uma vez, sorriu minimamente, como se estivesse explicando à uma criança como as coisas funcionam, e sentou-se, com o corpo virado em minha direção.

- Não é sobre entender, Jungkook-ah. Você só precisa sentir e deixar as coisas se desenrolarem. Pare de pensar tanto. - explicou atenciosamente.

- É assim que você lida com as coisas? Não me parece muito responsável. - questionei após uma pequena pausa. Hoseok nunca se mostrou alguém que faz as coisas por impulso, mas talvez, esse fosse um lado dele que eu havia presumido não existir. Talvez não o conhecesse tão bem como gostava de pensar.

- Ah... - um riso fraco escapou-lhe - Isso te incomoda?

As coisas estavam tomando um caminho estranho. Remexi-me sobre os lençóis, demonstrando meu desconforto.

- Hyung, - chamei-o, sem saber ao certo o que deveria dizer. - eu... eu não sei.

Eu havia gaguejado na frente dele pela primeira vez, meu rosto certamente estava tomado pela vergonha. Abaixei-o, tímido, buscando esconder minhas incertezas. Meus dedos, inquietos, brincando sobre meu colo.

Hoseok se aproximou, pude reparar seus joelhos próximos aos meus sem precisar levantar meus olhos. Engoli em seco, meu coração batia freneticamente em antecipação.

Ele iria me tocar? Ele queria fazer isso?

Uma de suas mãos, suavemente, pousou sobre minha coxa esquerda, onde a bermuda larga não alcançava, causando-me um intenso arrepio que ergueu todos os pelos da minha nuca. Respirei fundo, cerrando as pálpebras, esperando pelo próximo movimento. Sua respiração foi tornando-se mais audível, conforme seu rosto aproximava-se do meu.

Em algum momento, a ponta do nariz de Hoseok roçou de leve em minha orelha, escondida entre meus fios negros desgrenhados.

Sua mão livre alcançou meu queixo e o ergueu, obrigando-me a encará-lo. Os olhos atentos que ele trazia fitaram os meus, somente para deixá-los em seguida e pararem sobre meus lábios. Ele estava pedindo minha permissão ou me avisando que faria aquilo? Não perdi muito tempo pensando sobre isso, apenas entreabri minha boca e fechei meus olhos novamente.

Não demorou para que seu hálito quente alcançasse o meu e nossos lábios se tocassem com cuidado. A mão em meu queixo escorregou para o meu pescoço, onde pressionou, quando sua língua deslizou sobre meu inferior. Eu estava esperando tanto por aquilo que, de alguma forma, deixei que um suspiro precipitado saísse de minha garganta no mesmo instante.

Hoseok estava me beijando. E meu corpo inteiro parecia em êxtase.

Respirei fundo sem nos afastar, enchendo meus pulmões com algo que não fosse o cheiro embriagante de Jung. As pálpebras tremulando sobre meus olhos.

Aquilo era loucura.

Notes:

1. I Need You. BTS, 2016.