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Category:
Fandom:
Relationship:
Characters:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Collections:
Marshmallow Ficfest
Stats:
Published:
2021-03-30
Completed:
2021-03-30
Words:
13,491
Chapters:
2/2
Comments:
4
Kudos:
7
Hits:
99

amor é fogo que arde sem se ver

Summary:

Quando eu pensava que conhecia Park Chanyeol, associava-o à imagem de um vulcão. Algo silencioso e, aparentemente, inofensivo e agradável como uma mera montanha, mas que, ao explodir, deixa um rastro de destruição inigualável. Quando o conheci realmente, comecei a associá-lo à lava. Linda, atraente, brilhante e, sobretudo, corrosiva. Algo que não podia ser colocado à minha frente em hipótese alguma, pois, mesmo sabendo dos perigos que corria, era algo que eu com certeza não hesitaria em tocar. Francamente, haverá algo pior do que um inimigo que te atrai?

Notes:

Olá novamente, leitores!

Aqui está a minha segunda história para o Marshmallow Fest. Completamente diferente da anterior (Petit Gâteau) e completamente fora da minha zona de conforto também. Não é a primeira vez que eu tento escrever fantasia, mas é a primeira vez que eu publico uma fanfic desse gênero, então peguem leve comigo... ;_;

Ao querido doador do plot #119, muito obrigada! Quis ficar com ele assim que li mas, como estava insegura, adiei um pouco o meu processo de adoção hahaha Talvez não tenha ficado exatamente como você estava a espera (já que o plot era mais sobre a vida deles enquanto monarcas), mas espero que goste mesmo assim! ♥

Obrigada a todos que decidirem dar uma oportunidade às minhas histórias, deem muito amor ao Marshmallow Fest e aos autores. ♥

Chapter Text

             

Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer.

 

 

Eu queria ter uma história feliz para lhe contar hoje.

Na verdade, eu até tenho várias. Mas, se você realmente estiver com vontade de lê-las, talvez eu consiga enviar uma cópia dos nossos últimos Almanaques como presente. Obviamente que nenhum deles foi escrito por mim, e sim pelo escrivão do Reino do Gelo. Todas têm um carácter oficial, as palavras que as compõem foram escolhidas com cautela, e a sua única função é educar o povo sobre as nossas conquistas, vitórias, guerras e derrotas.

Essas histórias contam, como você bem conhece, sobre o reinado dos meus pais, sobre os meus primeiros anos como príncipe herdeiro e, por fim, sobre a minha ascensão ao trono e sobre todos os obstáculos que tivemos de ultrapassar para chegarmos onde estamos hoje. É provável que haja descrições sobre as joias encrustadas na minha coroa, ou sobre o brilho da seda das minhas vestes; com certeza me descrevem como alguém bondoso, pacífico e justo. Não porque eu assim o seja de facto, mas porque é assim que eu tenho de ser.

Mas nenhuma dessas histórias lhe explicará como eu já estive muito perto de cometer uma loucura, perto de abandonar o mundo como eu conheço, deixando todo o meu povo sem rumo, desgovernado. Nenhuma delas lhe descreverá os acontecimentos através do meu olhar, as palavras como eu queria que elas tivessem saído da minha boca e, principalmente, não reproduzirão o que os meus ouvidos escutaram, porque há muitas coisas que eu prefiro guardar só para mim.

Em todos os contos oficiais eu sou descrito como um rei feliz e realizado, assim como você também deve ser nas histórias do seu reino, mesmo que por dentro eu me sinta destruído, como se tivesse perdido mil batalhas. E apesar de poder soar dramático, diria que foi quase isso que me aconteceu. Tudo por causa do meu coração jovem e imaturo que, em meio à tantas opções, desejou justamente aquela que não podia ter.

Ah, meu querido Park Chanyeol.

Dono de um exército imbatível, de todas as terras para além das montanhas, da maior riqueza que existe no nosso mundo e, como se não bastasse, dono de todo o meu amor.

Só de pensar no seu nome já me sinto um grande traidor da minha pátria. Só de pensar em como queria estar nos seus braços agora, sinto que deveria ser destituído do meu título de rei e enviado para as masmorras, onde permaneceria até o fim dos meus dias, pois não há nada pior para a honra de uma criatura do gelo do que cultivar bons pensamentos sobre criaturas do fogo.

Nós deveríamos estar em guerra.

Deveríamos estar nos enfrentando neste exato momento, até porque você sabe que pode me destruir. Não porque eu sou fraco ou porque o meu povo não tem forças suficientes para fazer frente ao seu, mas porque eu sempre deixei claro que não ofereceria qualquer resistência. E talvez isso faça de mim um covarde.

Enquanto os escrivães me retratam como um rei sábio e poderoso ao ponto de afastar qualquer ameaça do fogo, eu estou trancado nos meus aposentos escrevendo uma longa carta para o meu maior inimigo e intimamente desejando que o próprio apareça, apenas para que eu tenha a oportunidade de vê-lo mais uma vez.

Por mais que eu saiba que tenho uma obrigação para com o meu reino, confesso que duvido das minhas capacidades de lutar contra uma invasão do seu. Como eu expulsaria dos meus domínios quem eu mais quero perto de mim?

Já se passaram anos desde o nosso último encontro e, ainda assim, esse sentimento ainda permanece bastante vivo no meu coração outrora completamente gelado. Eu não devia ter deixado o herdeiro do Reino do Fogo plantar uma chama aqui dentro, até porque eu sabia que estaria cavando a minha própria cova, mas como eu poderia evitar? Como eu poderia me afastar quando os seus olhos sempre tão agressivos ficavam mansos na minha presença? Como eu poderia me recusar a conhecê-lo quando todas as histórias e teorias que um dia me contaram sobre as suas maneiras, caíam por terra enquanto conversávamos, cada um na sua margem do rio?

 

 

– Não sei se acredito em você. – Foi a primeira coisa que Minseok disse quando Chanyeol se apresentou. Aos dezessete anos, não podia dizer que tinha visto muita coisa nessa vida, mas aquele garoto magricela à sua frente com certeza não transmitia a imagem de príncipe herdeiro todo-poderoso que ele tinha sido induzido a criar.

Os dois tinham se cruzado por acaso, enquanto desfrutavam de um raro passeio desacompanhados de qualquer soldado. Estavam muito próximos de atingir a maioridade e as famílias reais não tinham razões para temer pela segurança dos seus herdeiros, pois ambos tinham sido muito bem-criados, apesar de ter sido de maneiras opostas. Enquanto Minseok era adorado por tudo e todos, colecionando ovações por onde passava, Chanyeol era temido, conhecido como o herdeiro do fogo mais poderoso de todos os tempos.

Mas Minseok viria a saber que, apesar de esse título corresponder à realidade, Chanyeol também possuía outros lados. Mais ternos, calmos e acessíveis, que ele só mostrava a quem queria.

Minseok lembrava-se de tê-lo visto rir abertamente, como se o príncipe do gelo tivesse contado uma piada muito engraçada.

– Porque as minhas vestes estão sujas? – Ele retrucou, parecendo genuinamente divertido. Tinha passado boa parte da manhã vagando sem rumo pela floresta, brincando de explorador porque sabia que muito em breve não poderia se dar ao luxo de passeios como aquele.

Chanyeol estava aproveitando as semanas de liberdade concedida pelos pais para viajar pelo reino, conhecer as suas terras e os seus habitantes e, por que não, começar a tecer os seus próprios projetos para quando finalmente tomasse as rédeas do governo. Só não esperava percorrer milhas suficientes para deparar-se com o Rio Água-viva, que fazia a divisão perfeita de onde terminava o Verão, e onde começava o Inverno.

– Porque você sorri muito. – Minseok respondeu, por fim.

Os dois caminhavam paralelamente, cada um na sua margem, alheios ao facto de que o destino já estava brincando maldosamente com os dois.

– E eu não posso sorrir? – É claro que ele podia, no entanto, Minseok tinha sido levado a crer que os Park eram sisudos e mal-encarados. Nunca pensaria que o seu futuro inimigo número um conseguiria falar enquanto sorria de orelha a orelha, saltitando de rocha em rocha, se equilibrando para não cair na água fria. Ele parecia guardar um espírito jovem, em nada correspondente com a imagem negativa que lhe tinham dado. – Olhe à minha volta, você não acha que eu tenho motivos para sorrir?

Minseok se atreveu a desviar o olhar.

Apesar de haver algumas nuvens teimosas ultrapassando a barreira invisível criada pelo rio, a maior parte do céu sob a cabeça de Chanyeol era de um azul tão límpido que parecia fruto da sua imaginação. Havia uma imensidão de árvores verdes à volta e atrás dele, com os galhos balançando por causa da brisa fresca e dos passarinhos que saltitavam de um lado para outro.

A correnteza do rio, apesar de leve, estava lá, enquanto do seu lado Minseok só conseguia enxergar uma fina camada de gelo sobre a água ameaçando se expandir. Também não havia sons de animais na sua margem, pois a maioria deveria estar escondida nas suas tocas, e Minseok não podia julgá-los por isso.

Engoliu em seco, sem saber o que responder, ainda mais quando reparou no olhar sabichão e no sorriso agora cínico do suposto príncipe do fogo. O que ele estava insinuando, afinal? Que a vida era mais bonita do outro lado? Que o Verão era melhor do que o Inverno?

Inconformado com o rumo daquela conversa tola e sem futuro, trancou a cara e virou-lhe as costas, algo nada digno de um nobre. Mas talvez, só talvez, não estivesse inconformado com as insinuações de Chanyeol, mas sim com a possibilidade de ele ter razão.

 

 

Eu lembro perfeitamente do dia em que nos conhecemos.

Como poderia não lembrar? Lhe amaldiçoei com todas as minhas forças, inconformado com o facto de que, apesar de amar o meu elemento, ter pensado que o céu nublado e a neve branca provocados por ele eram enfadonhos e tristes. E por mais que eu quisesse rejeitar essa ideia, precisava ser sincero comigo mesmo. E precisava aceitar que a vida para lá do Rio Água-viva parecia muito mais interessante.

Evitei durante uma semana os trilhos que iam em direção ao rio, mas devia ter calculado que mais cedo ou mais tarde os meus caminhos me levariam até lá novamente. Talvez fosse obra do destino, ou talvez fosse apenas a minha teimosia e curiosidade dando o ar da sua graça depois de tantos anos sendo reprimidas em prol da criação de um rei perfeito.

Nem os meus pais nem nenhum funcionário ficaram sabendo sobre os nossos primeiros encontros, mas, no fundo, sempre que eu saía dos muros do castelo com o pretexto de andar à cavalo, sentia os seus olhares acompanharem os meus passos e o peso da culpa aumentar nas minhas costas.

Eu estava certo de que seria a desgraça do meu povo caso fosse descoberto.

E você, Park Chanyeol, seria a desgraça do seu, mesmo que você parecesse não se importar com essa possibilidade. E digo isso porque não havia dúvidas de que você se arriscava muito mais do que eu nos nossos encontros, visto que enquanto o meu castelo ainda hoje está localizado bastante próximo da fronteira delimitada pelo rio, a sua residência ficava muito além dos limites, longe o suficiente para que a nossa humidade não alcançasse.

Ah, sim. Porque se havia algo que o Fogo temia era a Água.

E, verdade seja dita, eu era uma versão dela.

Você sabe melhor do que eu que em séculos de história, a família Park nunca conheceu o significado da palavra “derrota”. A guerra era uma arte da qual vocês se orgulhavam, e não havia elemento nenhum no mundo que vos fizesse parar. Conquistaram todos os territórios à volta do Reino de Fogo, desde a Terra dos Ventos, ao Vale dos Magicae. E vocês estavam certos de que não havia nada capaz de deter a máquina imbatível que era o vosso exército, até se depararem com o Reino do Oceano e, a seguir, com o meu Reino de Gelo.

Por mais que se esforçasse, o Fogo não era páreo para a Água. E, apesar de conseguir derreter o Gelo facilmente, as chamas não se propagavam devido à humidade e, em pouquíssimo tempo, se extinguiam. Portanto, se algo errado acontecesse nos nossos encontros, eu não só podia facilmente retornar à segurança do castelo, como também podia utilizar a água do rio a meu favor, mesmo que não conseguisse controlá-la a cem por cento. Por outro lado, você, Chanyeol, ficaria ilhado. Longe dos soldados, pois você insistia em aparecer desacompanhado, e cercado por dois elementos inimigos.

Eu admirava a sua coragem.

Desde o primeiro dia, quando você me saudou antes que eu sequer te notasse.

Imagino que se fosse o contrário, se eu te tivesse visto caminhando à beira do rio, teria ficado calado, escondido entre os troncos das árvores, tentando desvendar-te apenas com o olhar. Eu avaliaria as possibilidades, calcularia o perigo e as minhas hipóteses contra ti antes de aparecer sorrindo, como se os nossos povos não possuíssem uma longa história marcada por confrontos.

E com isso não quero dizer que sou covarde perante o desconhecido. Na verdade, acredito que esteja longe de o ser. Como qualquer outro príncipe, fui treinado para aproveitar os tempos de bonança, sim, e para sobreviver aos tempos de guerra, mesmo que fôssemos um reino pacífico e que raramente entrava em conflito com outros. O Gelo não tem inimigos para além do calor, portanto fui treinado para reconhecer o perigo e enfrentá-lo com a cabeça erguida, mas também para saber onde estavam os meus limites de forma a não os ultrapassar.

E eu soube desde que te vi que você era um perigo para mim.

Assim como eu era para você.

           

 

– Você tem medo de mim, Minseok? – Chanyeol perguntou um dia, um pouco depois de se conhecerem.

Aquela era a quarta semana que se viam, apesar de nunca terem marcado encontros. Reticente em falar sobre as suas verdadeiras intenções, Chanyeol agarrou-se à mentira de que precisava conhecer melhor as cidades próximas da fronteira norte, pois eram as mais distantes da capital do Reino do Fogo. Assim conseguia matar dois coelhos de uma só cajadada: os seus pais ficavam contentes pelo seu interesse nas questões políticas, e conseguia escapulir para o trecho menos vigiado do Rio Água-Viva.

Na segunda vez que repetiu o trajeto, tentou fazê-lo sem criar expectativas, afinal o príncipe do Gelo não tinha motivos para estar, coincidentemente, lá outra vez, certo? Não tinha motivos para querer voltar a encontrá-lo, tinha? Estava tentando se convencer de que não ficaria desiludido caso não o encontrasse, quando o avistou na outra margem, parecendo muito ocupado conversando com uma Coruja-das-Neves para perceber a sua presença.

Apesar de saber que o príncipe Minseok tinha interesse o suficiente para continuar aparecendo semana após semana, a verdade é que as conversas lhe pareciam muito ligeiras, superficiais. Chanyeol estava genuinamente curioso sobre o outro lado, queria receber um convite para atravessar o rio e ver as coisas com os próprios olhos; queria que Minseok respondesse as suas perguntas sem ser tão monossilábico e queria, mais do que tudo, que o outro deixasse a sua postura sempre tão polida e política de lado.

Sim, sabia que tinham sangues inimigos.

Mas estavam sozinhos no meio da floresta, o que poderia dar errado?

Minseok o encarou com as sobrancelhas erguidas, parecendo surpreso, ultrajado e divertido, tudo ao mesmo tempo. Foi a maior reação que conseguiu lhe arrancar em quatro semanas e isso, por si só, já era uma vitória.

– Você é que deveria me temer, Park. – A sua expressão voltou a ficar séria, mas Chanyeol conseguiu identificar um pequeno sorriso na sua voz. – Eu sou perigoso.

E talvez fosse o tom divertido, ou o facto de que ele estava sorrindo pela primeira vez; talvez fosse a forma como Minseok lhe observava, parecendo lhe achar graça e considerar aquela pergunta ridícula; ou talvez fosse simplesmente por ele ter respondido com duas frases, mesmo que curtas, mas Chanyeol podia jurar que sentiu alguma coisa dentro de si arder um pouco mais.

– Eu não duvido. – Respondeu, desejoso de provocar o outro. – Você deve ser imbatível em guerras de bola de neve.

E de todas as respostas afiadas que Chanyeol pensou que receberia, nenhuma delas envolvia ser acertado em cheio na bochecha por uma bola de neve. A bola desfez-se assim que lhe tocou, mas o choque térmico e da força foram grandes o suficiente para fazê-lo cambalear para trás. Tinha baixado a guarda por segundos e agora sentia-se ridículo.

Por estar andando paralelo ao outro, não viu o ataque, no entanto, nem mesmo a sua audição foi capaz de detetar o movimento. Nunca tinham lhe ensinado que o Gelo podia ser assim tão sorrateiro, e Chanyeol odiava ser pego de surpresa.

Pelos vistos, Minseok era mais atrevido do que pensava.

– Você pensava que era só o Fogo que queimava, Park? – Minseok perguntou, sentindo uma certa satisfação ao ver, mesmo que de uma distância considerável, a bochecha do outro ficar rubra.

– Não, mas eu pensava que o Gelo era mais fofinho. – Ele respondeu, e Minseok não soube o que fazer quando percebeu que o outro parecia um pouco magoado pela sua reação à provocação.

Não iria pedir desculpas, no entanto, porque não estava arrependido. Queria que Chanyeol soubesse que, apesar de não lhe dar muita corda, estavam no mesmo nível. Além disso, o que o fazia pensar que o Gelo era “fofinho”? Chanyeol com certeza não tinha tido oportunidades de sentir o gelo antes, portanto talvez estivesse falando apenas das suas expectativas em relação à neve. Mas ele tinha usado a palavra “gelo”, especificamente, então estaria se referindo à personalidade do elemento, pacífica e que preferia se retirar ao invés de insistir numa discussão? Ou talvez isso tudo fossem só as suas inseguranças trabalhando, ainda mais por estar na frente de alguém que todo o mundo considerava tão poderoso?

– O que aconteceria se eu retrucasse? – E Minseok sabia que o outro podia ter simplesmente retrucado, ao invés de ter sugerido, como se se preocupasse com o bem-estar do seu oponente e, sinceramente, não conseguiu decidir se isso o incomodou ou agradou de alguma forma.

– Por que você não tenta?  

– Eu não quero derreter você. – Minseok revirou os olhos e aquela foi a deixa perfeita para Chanyeol atacar. E bem tentou pegá-lo de surpresa, mas o príncipe do Gelo era muito mais bem treinado do que esperava.

Em qualquer outra situação, o herdeiro da família Park teria sentido orgulho da sua bola de fogo laranja-avermelhada que deixava um rastro de fumaça por onde passava. Tinha apontado na direção do rosto do outro, assim como o mesmo tinha feito e, apesar de saber que ele sairia ileso pela confiança que demonstrava, queria afetá-lo de alguma forma.  

Era injusto que só ele tivesse sido pego de surpresa, só ele tivesse sentido o elemento do outro acertar em cheio o seu rosto, só ele tivesse sido, de certa forma, derrotado. No entanto, para a sua infelicidade, Minseok estava bastante pronto para um contra-ataque, não dando nem chance à bola de fogo de atravessar completamente aquele braço do rio.

O sorriso convencido de Chanyeol logo murchou quando viu a enorme bola branca cruzar o caminho da sua, neutralizando-a completamente. Provavelmente Minseok precisava fazer um esforço maior se quisesse apagar as chamas, mas isso não o tornava mais fraco ou menos apto para um combate.

Recusando-se a crer que ele tinha desfeito as suas chamas, o elemento mais poderoso do mundo, tão facilmente, Chanyeol começou a lançar mais bolas de fogo, umas atrás das outras. No entanto, nenhumas delas chegou nem perto de atingir Minseok que, apesar de ofegante pelo esforço, soltava gargalhadas contagiantes de vez em quando.

Mesmo após terminarem o duelo num consenso mudo e se jogarem, exaustos, no chão, Minseok continuou sorrindo, feliz porque há muito que não se divertia assim tanto. E Chanyeol não conseguiu ficar sério, por mais que quisesse manter a postura por ter saído daquela pequena batalha empatado. Enquanto ria, satisfeito por finalmente partilhar o seu primeiro momento informal com o outro príncipe, sentiu o seu coração esquentar pela segunda vez naquele dia.

E foi ali que percebeu o que aquele sintoma realmente significava. Mal sabia como, e mais tarde se perguntaria mil vezes o porquê, mas naquele momento já sabia que estava terrivelmente apaixonado.

           

           

Quando tivemos a nossa primeira pequena discussão adolescente, não tinha sido minha intenção machucá-lo de verdade com uma bola de neve. E eu sabia que não o tinha feito, porém, precisava reconhecer que estava cansado de ser visto como alguém manso, indefeso, submisso, ainda mais pelo nosso declarado inimigo. Eu não era nada disso. Eu era forte e corajoso, e queria provar o meu valor, mesmo que parecesse apenas um príncipe birrento preferindo responder uma provocação com maus-modos.

Apesar de ter tentado criar um rumo diferente para a conversa e de termos acabado rindo depois de uma pequena batalha entre nós, eu sabia que você estava falando sério quando me perguntou se eu te temia. Provavelmente você tinha chegado a essa conclusão devido ao meu comportamento mais fechado, de quem era capaz de ouvir-te falar durante uma hora inteira sem esboçar uma opinião; de quem acompanhava todo e qualquer movimento seu com atenção, não obstante você parecer bastante relaxado na presença de um suposto adversário.

E me senti grato por você não ter insistido, porque nem eu mesmo sabia o que responder. Mas eu não estava com medo, só estava tentando entender o que estava acontecendo.

Por que estávamos nos encontrando de sete em sete dias? Por que você continuava voltando, mesmo vivendo tão longe e, sobretudo, por que eu estava fazendo a mesma coisa? Talvez eu não fosse muito responsivo porque passava imenso tempo tentando encontrar repostas para as minhas dúvidas na forma como você falava, nos assuntos que você trazia, e em como nada parecia errado naqueles momentos, mesmo que eu sempre fizesse o meu caminho de volta me sentindo um criminoso.

O que aconteceria se os meus pais descobrissem? O que aconteceria se os seus pais descobrissem? Nos meus momentos mais emocionais, pensava que podia chegar ao extremo de perder a minha coroa, independentemente de ser o único na linha de sucessão; nos momentos mais racionais, acreditava que o mais certo era ser proibido de sair do castelo desacompanhado e, consequentemente, proibido de estar contigo.

Por várias vezes tentei colocar os dois castigos numa balança imaginária, tentar perceber qual dos dois me soava pior. Tentei também calcular se o melhor seria confessar os meus pecados e arcar com as consequências deles, ou viver com aquele segredo até ao dia da minha coroação, quando eu finalmente poderia fazer alguma coisa para mudar o rumo da minha nação e da minha vida.

Naquela altura já era óbvio para mim qual punição seria mais dolorosa, apesar de que eu me recusava a confessá-la até quando estava sozinho à noite, na escuridão dos meus aposentos.

Eu gostava da sua companhia, ainda que parecesse haver uma barreira muito maior do que a do rio entre nós. Eu gostava da forma como você me contava sobre a sua vida, como se eu não fosse literalmente seu inimigo e não pudesse usar toda e qualquer informação contra você no futuro. Eu gostava de como você mostrava interesse pelo meu reino, vez ou outra perguntando sobre algum animal que via ou sobre o nosso modo de vida no meio da neve. Eu gostava de como você perguntava sobre mim, ou sobre a minha opinião depois de falar muito sobre um determinado assunto. E gostava de como você só fazia isso às vezes, pois sabia que apesar das várias semanas de encontros, eu ainda estava com o pé atrás. Eu gostava de como você me respeitava, apesar de ser impulsivo como só um ser com o sangue quente pode ser.

 

 

– Como é sentir frio todos os dias? – Chanyeol perguntou, enquanto observava Minseok fazer pequenos cristais de gelo com a água do rio. O seu primo e atual líder do Reino do Oceano, Suho, ficaria furioso quando reparasse, mas o príncipe estava muito ocupado tentando fingir uma distração para se importar com as implicâncias dele.

 – Me diga você, Park. Como é sentir calor? – Retrucou com um sorriso provocativo nos lábios. Já não se sentia incomodado ou receoso em fazer brincadeiras, afinal de contas Chanyeol era o mais brincalhão entre os dois. – Como é se sentir suado e grudento todos os dias?

– Por que você nunca responde as minhas perguntas? – Minseok sempre arranjava uma forma de desviar do assunto, sair do foco principal. Chanyeol não sabia se era por medo de se expor ou porque ele era mesmo assim. Pelo menos sabia que não era por não gostar da sua companhia, visto que se assim fosse, ele tinha toda a liberdade de simplesmente deixar de aparecer. – Eu perguntei porque estou curioso.

Minseok tentou, por alguns momentos, perceber se o outro estava ou não sendo sincero. Imaginou que ele não tinha razões para não o ser, já que partilhava tanto sobre a sua vida naqueles encontros, que o mínimo que podia esperar era ser retribuído.

Naqueles quase dois meses, já tinha aprendido muito sobre a vida no Reino de Fogo e, principalmente, sobre a família real. Sabia que o rei estava esgotado, desejoso de passar a coroa para Chanyeol que, apesar de não ser o primeiro na linha de sucessão, era o único com vontade de governar. Yoora, a princesa mais velha, afastou-se da família por não concordar com a forma de governo e tirania praticada pelo pai. Sabia que a sua mãe se abstinha sobre os assuntos do reino e que a única coisa que matinha aquela união instável entre os conquistadores e os conquistados era o medo.

Ainda era muito cedo para perceber qual era a posição de Chanyeol em tudo isso, mas gostava de acreditar que ele seria melhor do que os seus antecessores. Queria muito acreditar que quando ambos se tornassem reis dos seus respetivos povos, poderiam manter aquela quase amizade e, quem sabe, até mesmo poderiam assinar um acordo de paz entre os reinos. Mas um que fosse sincero e que realmente valesse.

– Eu não sinto frio, Chanyeol, assim como você não deve sentir calor. – Respondeu como se fosse óbvio, fazendo com que o outro risse. – Por acaso estou dizendo alguma asneira?

– De onde você tirou que nós não sentimos calor? – Chanyeol perguntou, ainda rindo. – Quer dizer então que se eu saltar para dentro de um vulcão, eu vou estar tão confortável quanto estou agora, no meio da floresta? Se eu sou capaz de sentir frio, por que não sentiria calor? Você mesmo está encasacado, Minseok, e está no seu próprio elemento.

Minseok nunca tinha colocado as coisas daquela forma e, precisava confessar, fazia sentido. Tinha partido do princípio de que, por ter o Fogo como seu elemento, Chanyeol simplesmente não sentia calor, assim como ele próprio tinha a impressão de que nunca sentia frio, porque era algo a que já estava habituado. Nem sequer sabia como era sentir-se de outra forma, e não se imaginava rodeado de outra coisa além da neve espessa e do vento gélido.

– No meu caso, faz parte do protocolo, que é algo a que os meus pais dão muita importância. Não posso sair por aí despido, com roupas pouco apropriadas para um príncipe. – O loiro explicou. – Mas entendi o que você quis dizer. Nunca senti frio, mas também nunca me atrevi a sair dos meus aposentos sem a minha pele de urso.

– Exatamente. – Chanyeol concordou. – E pode apostar que se eu vestisse esse casacão, derreteria. – Os dois riram juntos.

– Só se você o vestisse do seu lado da margem.

Minseok continuou brincando com os seus cristais, por isso não percebeu o olhar curioso de Chanyeol sobre si, insinuando algo que ele nem teve a intenção de dizer. O príncipe do Gelo pensou que o assunto tivesse se encerrado por si só, mas, quando olhou o outro para confirmar, reparou no seu sorriso de lado e na forma como ele parecia querer lhe desvendar.

– Posso interpretar isso como um convite?

 

 

Apesar de haver sempre duas versões da mesma narrativa, como o habitual no que diz respeito à nossa história, a minha dizia que eu nunca, em momento algum, tinha convidado você, Park Chanyeol, príncipe herdeiro do Reino do Fogo, nosso maior inimigo, para um encontro no meio da noite no meu castelo.

Eu atrevo-me a dizer que nunca faria algo tão descarado, tão inconsequente. Não por falta de vontade, mas sim porque tinha a certeza de que isso me daria a liberdade de pedir um passeio pelo Reino de Fogo como retribuição e, pela forma como a nossa amizade estava evoluindo, eu duvidava que você fosse recusar.

Mas eu não podia correr esse risco.

Naquela altura, ainda não tinha a certeza se confiava ou não em você, mesmo sabendo que andávamos conversando muito nos últimos tempos. Parecia muito ingênuo da minha parte acreditar que Park Chanyeol, filho do rei mais temido de sempre, um príncipe que certamente herdaria esse título do pai, estava cheio de boas intenções comigo. Você não tinha razões para querer uma amizade com o herdeiro do Gelo, a não ser que fosse movida por questões políticas e diplomáticas. E, sendo assim, não me parecia totalmente sincero.

Por mais que eu quisesse me aventurar um pouco, sair da minha zona de conforto e descobrir o que estava para além do Rio Água-viva, também receava que estivesse servindo apenas como isca. Que, ao menor passo em falso, acabasse como um coelho tonto que caiu na toca do lobo perverso. Portanto, mesmo que a toca parecesse bastante tentadora, eu precisava controlar a vontade crescente de me auto convidar.

Eu era filho único, a única pessoa com a qual os meus pais podiam contar para assumir a liderança quando fosse preciso. Fui criado para servir ao povo, para ser leal às nossas tradições e para nunca dececionar aqueles que em mim depositaram confiança. Estava treinado para ser justo mesmo quando eu mesmo podia sair perdendo e ser racional ainda que a emoção quisesse falar mais forte.

Mas você era completamente diferente.

Desde à criação, à forma de ver o mundo. Assim como eu, você também tinha crescido dentro da realeza e tinha sido sempre tratado não como uma criança ou um adolescente, mas como um património do reino. Só que isso não parecia lhe deter, ou lhe tornar mais consciente das suas ações. Muito pelo contrário. E naquela altura eu já devia ter percebido, pelas nossas conversas, que você iria fazer de tudo para aproveitar a sua juventude enquanto não estivesse definitivamente preso à uma coroa, mesmo que isso significasse arriscar a própria vida.

 

 

Chanyeol era um príncipe rebelde de sorte.

Apesar de o seu cabelo vermelho-vivo e as suas vestes não serem nada apropriadas para esgueirar-se sorrateiramente por paisagens cobertas de neve, sem contar, obviamente, com os seus poderes que derretiam o chão onde pisava, tinha um grande amigo que não precisava de camuflagem para passar despercebido.

Kai era a própria camuflagem.

O príncipe não negava que sentia uma certa inveja dos poderes dos Magicae. O que era o Fogo perto da invisibilidade e teletransporte? Durante séculos a sua família o tinha utilizado apenas com o propósito de causar destruição e, se parassem para pensar com sensatez, qual era a utilidade disso? Absolutamente nenhuma. Era certo que assim conquistavam terras e aumentavam os seus domínios, mas, em contrapartida, precisavam investir muito dinheiro para recuperar as zonas destruídas. As mortes que o Fogo causava, por sua vez, eram irreparáveis e, como o esperado, deixavam traumas e ressentimentos na população que sobrevivia.

Mas havia muita coisa que podia fazer com os poderes dos Magicae, ainda mais se tivesse elementais de confiança do seu lado, como era o caso do Kai. O seu pai lhe dizia sempre, e com razão, para não confiar em elementais subjugados, no entanto, Chanyeol também tinha aprendido que certos povos eram muito pacíficos para buscar por vingança, e muito acomodados para tentarem lutar contra o lado que sabiam ser o mais forte. Portanto, quando finalmente se tornasse rei, com certeza traria o seu amigo para junto de si, como seu braço direito.

O quanto não conseguiriam poupar com a ajuda de elementais invisíveis? Guerras poderiam ser acabadas antes mesmo de começarem, pois estes conseguiriam facilmente entrar no campo inimigo e sabotar a maioria das suas armas; enviaria espiões para todos os cantos do Reino de Fogo, de forma a descobrir rebeliões e proteger os interesses da Coroa; e, se tudo desse certo naquela noite, quem sabe não conseguisse também continuar a visitar o príncipe e, até lá, futuro rei Minseok nos seus domínios?

A parte mais difícil do trajeto foi, obviamente, encontrar os aposentos de Minseok. A única pista que tinha era de a varanda estava virada para Oeste, pois lembrava-se de o outro ter comentado que adorava ver o pôr-do-sol da varanda do seu quarto. Quando, uns cinco minutos depois de desaparecer, Kai voltou para o esconderijo no jardim parecendo cansado, mas confiante, contou que, surpreendentemente, o castelo não parecia ser guardado por dentro como era por fora. Ou a família Kim tinha muita confiança nas suas fortalezas, ou acreditava erroneamente que os Park não retomariam uma guerra desnecessária.

Num piscar de olhos, Chanyeol e Kai estavam dentro do quarto grande e espaçoso, sendo que este último foi embora mal pisou no cômodo, depois se sussurrar um lembrete: “trinta minutos”. Era tudo o que o príncipe do Fogo tinha antes de voltar para casa e vestir a sua melhor máscara de indiferença, fingindo que não tinha escapado até o reino inimigo no meio da noite apenas para passar o resto do seu tempo articulando formas de cometer os mesmos erros, de novo e de novo, sem parar.

Com receio de assustar Minseok se o chamasse, decidiu aproximar-se da cama para tentar uma alternativa mais suave, apesar de não estar nem um pouco habituado a meiguices ou demonstrações de carinho. E não se tratava nem de uma coisa nem de outra, na verdade. Tratava-se apenas de não poder falar alto, como fazia quando estava na outra margem do rio, porque o príncipe estava apenas a meia dúzia de passos de distância e não podia sobressaltá-lo e correr o risco de atrair atenções indesejadas.

E Chanyeol percebeu, no instante em que em que deu o passo final até a cama, ficando a mera distância de um toque do outro, que tinha cometido um erro enorme e, como se não bastasse, irremediável.

De repente, sentiu como se tivesse caído numa armadilha. Minseok continuava deitado na cama, aparentemente envolto num sono profundo, e o único som naquele quarto era o da sua respiração tranquila. Então por que Chanyeol sentia a boca seca e amarga? Por que sentia o coração afundar enquanto a sua respiração ficava cada vez mais pesada? Por que Minseok permanecia imperturbável, mas o corpo do príncipe do Fogo parecia recusar cada um dos seus comandos?

Nunca admitiria para os seus iguais, por medo de soar dramático, mas a verdade é que durante longos minutos pensou que morreria ali mesmo, pateticamente, zelando os sonhos do inimigo. E, estranhamente, o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que tal não podia acontecer, pois ninguém justificaria a sua presença como o resultado inconsequente de uma paixão adolescente. Todos pensariam que o seu objetivo era atacar o outro príncipe herdeiro, matá-lo num golpe frio e baixo enquanto este dormia. Não podia deixar Minseok para trás acreditando nessa versão, assim como não podia se tornar a origem de uma nova guerra. Chanyeol não podia nem queria ser a origem de nada que machucasse Minseok porque, como já tinha confessado a si mesmo, estava apaixonado.

Por que outro motivo teria se atrevido a ir até ali?

Só agora, enquanto sentia o peito subir e descer com extrema dificuldade ao cambalear para trás, em busca de apoio, apercebia-se do tamanho da sua estupidez. Minseok sempre esteve certo, e Chanyeol era apenas um grandessíssimo idiota por tentar prová-lo errado. Aquilo nunca ia dar certo. eles nunca iam dar certo. Era um sonho impossível, fadado ao fracasso desde o primeiro dia, desde a primeira troca de palavras.

Não devia ter subido até ao topo da montanha. Não devia ter subestimado as capacidades do próprio corpo, nada habituado àquela altitude e ao ar tão rarefeito. Que tipo de líder do Fogo caminharia até ao centro do poder do Gelo, com um sorriso no rosto e esperando ser recebido de braços abertos?

Deixou-se cair numa poltrona, cansado como se tivesse feito a escalada toda correndo e não com a ajuda de Kai. A lembrança do melhor amigo tranquilizou-o. Pelo menos ele voltaria e logo e, mesmo se já tivesse virado um bloco de gelo até lá, ele levaria o seu corpo de volta.

Tentou acalmar-se, lutar contra toda aquela fatiga que parecia aumentar a cada segundo que passava naquele quarto. Desesperou-se quando sentiu os olhos pesarem, com medo de nunca mais voltar a abri-los, e percorreu o quarto à procura de algo em que pudesse focar toda a sua atenção, até que eles pousaram em Minseok.

Perfeito. Confortável no seu elemento, completamente alheio ao facto de que o seu amigo secreto estava sentindo toda a vida esvair-se do corpo naquele exato momento. E Chanyeol sentiu uma certa inveja. Será que ele próprio sentia-se assim tão à vontade e descansado em casa? Yoora costumava esfregar o vinco entre as suas sobrancelhas sempre que tinha oportunidade, reclamava do sangue quente e temperamento explosivo dos familiares e adorava usar expressões como “esfriar a cabeça”. Ah, como Chanyeol queria aquilo que Minseok tinha…

E como ele queria Minseok.

Tão bonito quanto um floco de neve.

E Chanyeol nunca tinha visto um floco de neve pessoalmente, mas os tinha estudado horas a fio através de livros e diários de antigos generais. Era essencial que conhecesse o seu inimigo em todas as suas formas e, por mais que quisesse manter o pensamento de que o gelo era uma coisa aborrecida e sem qualquer beleza ou particularidade, logo percebeu o quão bonito os flocos podiam ser.

O próprio Minseok tinha lhe enviado alguns desenhos através do vento, após muita insistência de Chanyeol e muita hesitação da sua parte, pois não queria dizer nada que comprometesse o povo do gelo no futuro. Precisou prometer várias vezes que nunca usaria aqueles desenhos para prejudicá-lo e que a sua intenção era apenas compreender aquele reino que, para si, era tão inalcançável e misterioso.

Os olhos começaram a piscar cada vez mais lentamente, ao passo que Chanyeol repassava atrás das pálpebras cada um daqueles desenhos detalhados e feitos especialmente para si. Minseok era mesmo como um floco de neve. Perfeito de uma ponta à outra; delicado e, ainda assim, capaz de ser tão forte quanto pedras de granizo; transparente em todas as suas atitudes e emoções, mesmo naquelas que tentava ao máximo esconder. E, assim como era incapaz de escolher um floco favorito, também era incapaz de apontar um único momento que o tivesse levado até ali, ou escolher uma única razão pela qual tinha se apaixonado por quem deveria ser o seu inimigo mortal.

Inimigo mortal…

Uma corrente de ar entrou pela janela, fazendo com que um frio percorresse a espinha de Chanyeol.

"Flocos de gelo também são traiçoeiros, Chanyeol”. Lembrava-se dele lhe ter dito, com um sorriso nos lábios e um brilho característico nos olhos, como se estivesse falando sobre algo que gostasse muito. Ele parecia contente de poder explicar alguma coisa, introduzir um pouco do seu mundo ao amigo. E Chanyeol estava feliz por ouvi-lo falar, poderia ouvi-lo sempre. “Eles podem ter pontas afiadas como agulhas e, quando bem atirados, podem congelar o seu coração.”

E então tudo ficou escuro.

 

           

 

 

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É em cuidar que ganha em se perder.