Chapter Text
A vida pode ser incrível com poderes. Há quem pergunte o que diabos Sehun usava para fazer a sua bendita skincare; há quem aposte nos produtos da Kylie Jenner; há quem diga que ele recorre a métodos caseiros — desde café até babosa. A verdade, entretanto, apesar de parecer absurda, era simples: magia. Literalmente, Sehun cuidava de sua pele com feitiços. Sim, exatamente o que você deve estar pensando. Bastava uma varinha, as palavras mágicas certas, e o brilho envolvia o seu rosto até deixá-lo completamente livre dos cravos e espinhas. Ele fazia isso todas as manhãs, sua rotina era sagrada. Ele se levantava, amarrava os cabelos e cortava uma cenoura para a sua amada filha, Cordelia Winthrop Scott — sua coelha que, por acaso, graças a um feitiço, podia falar. Depois de cuidar da alimentação da sua companheira peluda, ele se vestia decentemente para ir à escola e, então, ia direto ao banheiro para performar todos os cuidados com a sua pele.
— Acabarum Espinhatum... — recitou o feitiço, e assim seu rosto ficou liso como porcelana.
Sua cara sempre ficava quente depois disso, era comum. Para aliviar a sensação, Sehun jogou um pouco de água fria em seu rosto. Também era uma forma de relaxar, seus ombros estavam tensos por conta do nervosismo. Sua cabeça estava a um milhão. Claro, aquele dia tinha tudo para tirar qualquer boa perspectiva sobre o fim de seu ensino médio. Não que em algum momento Sehun tivesse grandes expectativas, apenas tinha medo de sair do que estava ruim para algo que seria pior ainda. “Por quê?”, você pode perguntar. E a resposta é simples, na verdade. Aquela gentil segunda-feira nublada de agosto seria o seu primeiro dia de aula em uma escola nova. Ele estava no último ano do ensino médio, mas iniciaria o segundo semestre em outra escola. E o motivo disso beirava o estúpido.
— Você é um merda — disse à própria imagem refletida no espelho, observando as gotas d’água que pingavam de seu queixo.
Sehun secou seu rosto com cuidado, era sensível à toalha áspera. Depois disso, tirou a presilha dos cabelos, libertando a juba sedosa que arrancava suspiros por onde quer que ele passasse. Ele não deixava o cabelo crescer demais, costumava mantê-lo cobrindo a nuca, as orelhas, e um pouco dos olhos — se cabe a observação — porque era uma forma de evitar que fosse pego cochilando escorado à parede durante as aulas em que os professores mandavam para fora aqueles alunos que pegavam no sono. Funcionava, na maioria das vezes. Entretanto, por mais que seu cabelo não fosse tão grande, era compridinho o suficiente para que vários convites — principalmente de garotas — aparecessem; chamando o rapaz para se enroscar em algum canto e ganhar uns puxõezinhos naquela cabeleira linda e cheirosa. Sehun fugia de todos eles, não importava quem fosse o pretendente, ele corria de toda essa conversa de ficar, conhecer alguém... Ele vivia entre os mortais, pessoas que acreditavam na magia como uma fantasia pertencente aos contos de fadas, aos filmes, a qualquer ficção. Por isso, ele fazia o possível para manter distância de todos aqueles que não podiam saber o que ele era; logo, era compreensível que seus únicos amigos fossem sua coelha falante e seu primo, que também era um feiticeiro.
Outro motivo gritante para que ele evitasse criar vínculos com mortais, era o pavor que a ideia de se apaixonar por um deles representava. Honestamente, os mortais não eram um problema, o problema é que, para ficar com um, Sehun teria que renunciar aos seus poderes. Pode até soar ganancioso de sua parte, mas aquilo era uma forte questão de identidade para Sehun. Ele era de uma longa linhagem de feiticeiros respeitadíssimos no mundo mágico, bruxos que contribuíram com extensas pesquisas e muito conhecimento a respeito da magia e novos encantamentos, colaborações definitivamente benéficas. Aquele garoto nasceu um feiticeiro, foi criado por dois feiticeiros, e tinha orgulho de ser um feiticeiro. Uma de suas maiores vontades era de, um dia, poder contribuir significativamente como seus pais, seus avós e bisavós fizeram. Sehun, com certeza, não estava minimamente disposto a abrir mão de seus poderes. Portanto, ele preferia evitar passar pela dor de se apaixonar por alguém que não poderia ter. Era mais conveniente. Quer dizer, feiticeiros até podiam namorar com mortais, ou ter um relacionamento menos consistente, mas não podiam viver com eles, casar-se, ou ter qualquer relação mais firme; ainda que informalmente. Os poucos que já arriscaram alguma coisa meio clandestina foram descobertos pela Polícia Bruxa... E acabaram tendo que escolher entre os seus poderes e a pessoa a quem amavam.
Seu primeiro e único relacionamento foi com Junmyeon, um feiticeiro que conheceu em sua antiga escola. É claro que um bruxo reconheceria o sobrenome Oh, e bastou que ele mostrasse a sua varinha a Sehun para que o menino soubesse que seu segredo estaria seguro com ele. Ambos tinham uns dezesseis anos quando se conheceram, e para Sehun, que sempre repeliu qualquer tentativa de aproximação de outras pessoas, parecia ser algo bom manter Junmyeon por perto, porque era o único feiticeiro de sua idade — além de seu primo — que ele conhecia, e era alguém que demonstrava interesse. De alguma forma, Sehun sentiu que deveria ficar com Junmyeon; aquele garoto era gentil, doce, engraçado, lindo para um senhor caralho, era perfeito, também tinha poderes... Só havia um problema: Sehun não o amava.
Ele tentou, tentou e tentou convencer a si mesmo de que Junmyeon era a pessoa perfeita para ele, mas, ainda assim, não o amava. Ele tinha muito carinho pelo Kim, mas apenas o namorava para afastar a sensação de solidão, porque tinha medo de não encontrar alguém como ele. Alguém com o mesmo segredo que ele. Por isso, parecia que ter Junmyeon ao seu lado era o certo a se fazer, ou então passaria a eternidade de sua imortalidade sozinho. Porém, o relacionamento deles durou apenas um ano. Junmyeon foi para uma escola de magia e teve que dar adeus a Sehun. Estranhamente, para o Oh, aquilo foi um alívio, ao mesmo tempo em que representou desespero.
— Você é um merda. — Ele repetiu enquanto penteava seus cabelos diante do espelho. Depois disso, colocou outra vez em seu pescoço a corrente que não podia nunca perder. Carregava ali a chave daquilo que precisava de extrema proteção. É tão secreto que, por enquanto, nem você pode saber o que é.
— Autodepreciação já tão cedo, Sehun? — Ouviu a voz de Cordelia, que o observava da porta do quarto. Talvez fosse de se pensar que uma coelhinha tão pequena e fofa tivesse um timbre bem agudo e condizente com o de uma criaturinha encantada. Entretanto, ela tinha a voz de uma mulher de quarenta anos que fumava um maço de Marlboro no café da manhã desde os vinte. Sehun, às vezes, acreditava fielmente que sua coelha sumia de madrugada para ir fumar com outros coelhos, mas Cordelia dizia que ela ia para a sala ver televisão, porque ficava dormindo enquanto Sehun estava na escola.
— Não é bem autodepreciação... — Ele saiu do banheiro e tirou sua jaqueta de couro do gancho na parede. — Eu sei conviver com esse fato.
— Você não é um merda, garoto. — Cordelia pulou para cima da cama ainda bagunçada do menino. Por mais que tivesse sua própria caminha rosa no chão, preferia dormir onde sentia o cheiro de seu dono, que, na verdade, era mais como um afilhado que precisava de seus conselhos, ainda que se considerasse seu pai. — Um merda não assistiria nove temporadas de The Office comigo, mesmo odiando o Steve Carell.
— Cordelia, o merda aqui conseguiu novamente ser um estorvo para os pais depois de brigar na escola pela quinta vez no ano... Eles ameaçaram me expulsar, você sabe!
— É... Eu concordo que surrar um moleque porque ele roubou seu chocolate foi bem extremo, mas esse pessoal de escola particular também é muito chato, enchem o saco por qualquer coisa... Pra que chamar seus pais? Você já tem dezoito anos! — A coelha apontou com as orelhas para o laptop de Sehun, ele entendeu o sinal e abriu o computador para ela. Veja só você, os coelhos de hoje estão se entrosando com a tecnologia. — Acho muito bom você estar indo para uma escola pública, lá o que rege tudo é a Lei de Talião.
— Não acho que seja bem assim, Cordelia...
— É sim, eu sei do que eu tô falando, colega. — Ela interrompeu o feiticeiro, já abrindo o YouTube para consumir conteúdos de procedência duvidosa. Mesmo não sabendo ler, Cordelia sabia muito bem como lidar com as tecnologias, até melhor do que Sehun. — Você vai se dar bem lá, e... Olha só, você ainda vai estudar com seu primo. Acho Chanyeol uma gracinha, apesar do intelecto extremamente questionável.
— Você sabe que eu só tô indo pra lá porque eu implorei para os meus pais não me mandarem pra escola de magia... Não tenta me empolgar, não vai dar certo. — O garoto suspirou e colocou sua mochila nas costas, pronto para sair do quarto. — Enfim, o que me deixa feliz é saber que não vai ter tanta gente rica e perturbada lá. Tchauzinho, até depois!
— Boa sorte! — A coelha gritou, e Sehun já estava longe.
Ele não queria ser visto pelos pais, não naquela manhã. Sehun tinha um relacionamento incrível com eles, sua mãe e seu pai eram duas pessoas totalmente compreensivas, mas, honestamente, não seria legal ter uma conversa com eles naquele momento. Ele sabia que teria que ouvir um puta discurso sobre seu comportamento, sobre a forma hostil de lidar com desavenças — exceto com a família, porque, nesse caso, ele era alguém muito diplomático —, sobre como ele deveria pensar antes de agir... E era aí que morava o problema, na maioria das situações. Quando aquele moleque ordinário tomou a barra de chocolate de sua mão para fazer seus amigos rirem, quanto mais Sehun pensava, maior era a vontade de meter o punho na cara daquele maluco. E, tudo bem, ele sabia que deveria se controlar mais, mas repetir aquilo pela enésima vez só o faria se sentir mais certo de que beirava uma decepção para seus pais. Já bastava sentir o deslocamento de chegar em uma escola nova no meio do ano como uma punição.
Porém, sua mãe estava na cozinha quando ele chegou lá. E ele sabia que iria ouvir.
— Bom dia, mãe... — disse baixo, enquanto abria a geladeira atrás de um copinho de iogurte.
— Bom dia, Sehun... Por que não se senta para tomar café? Queria conversar com você.
Para a sua sorte, a campainha tocou. Devia ser Chanyeol, eles combinaram de ir à escola juntos. O que era conveniente, falando a verdade, não só porque seu priminho morava no outro lado da rua, mas porque Sehun não tinha a menor vontade de falar com qualquer desconhecido se acabasse ficando perdido naqueles corredores. E ele chegou na hora certa.
— Ah, acho que agora não vai dar, Chanyeol já chegou! — O moreno correu para a porta. — Tchau, mamãe!
(...)
— Não deixa o pessoal saber que você era de escola particular, vão te dar uma zoada...
— Não tem como saberem, Chanyeol, não é como se eu fosse falar da minha vida com alguém lá. — Sehun chutava uma pedrinha na calçada, seria mentira se dissesse que não estava nervoso, e ele precisava descontar de alguma forma. Ele tinha apenas um dos fones pendurados à sua orelha e, naquela manhã, preferiu ouvir sua playlist de músicas velhas, eram poucas que ele gostava, mas existiam. — São só seis meses, eu não preciso me aproximar de ninguém.
— Como você é frio, Sehun. — Chanyeol abraçou o primo enquanto andavam. Se fosse qualquer outra pessoa, teria tomado um belo de um soco. — Pode deixar que eu vou enturmar você rapidinho... Todo mundo me adora!
— Você sabe o que eu penso sobre a idolatria de atletas no sistema educacional e da impunidade em relação ao bullying que isso pode criar...
— Eu não entendi absolutamente nada do que você falou, meu amigo. Mas lá não tem esse negócio de bullying, todo mundo é amigo de todo mundo, todo mundo pega todo mundo e... — O maior se aquietou por um segundo, e inspirou o ar pela boca com força ao ter o que parecia ser uma ideia brilhante. — Você precisa ir em alguma das minhas festas, essa sexta! Cara, você vai ficar muito louco, vai pegar gente e...
— Não, muito obrigado. — Sehun tirou o braço do mais velho de seus ombros. — Eu não tenho nada contra os mortais, mas eu evito exposições. Você, sendo um feiticeiro, também deveria se preocupar com isso. Você fica bêbado pra caralho nessas festas, não sabe quem entra e sai da sua casa... E se alguém encontra a sua varinha? Você tem noção do problema que isso pode criar?
— Relaxa, Sehun... Eu não sou idiota de deixar a minha varinha em qualquer canto. Eu escondo ela quando tem gente lá em casa.
— Pois você deveria ter ela com você o tempo inteiro! — Ele abriu a sua jaqueta para mostrar o bolso com zíper que tinha costurado internamente para carregar sua varinha. — Você nunca sabe quando vai precisar.
— Ih... Não dá não, às vezes eu acabo me metendo em situações inesperadas, sabe... Tipo, alguém tirando a minha roupa e afins. Alguém pode te chamar pra uma rapidinha no armário do ginásio, coisas que te pegam de surpresa e você não foge, sabe? — Chanyeol tinha um jeitinho bem cara-de-pau de falar. — Ah, você não sabe, você não tem vida social!
— Você é inacreditável, cara...
Sehun sentiu o estômago revirar assim que notou que estavam prestes a cruzar o portão da escola. Ele queria correr para casa, enfiar-se debaixo de seus cobertores e evitar qualquer tipo de situação social. Se tivesse ficado em sua antiga escola, apesar de frequentemente arrumar brigas com moleques inconvenientes que amavam assediar aqueles que não andavam em bando — “excluídos”, em outras palavras —, seria um pouquinho mais fácil. Estar na posição de aluno novo significava atrair olhares, chamar atenção... Ficar exposto. E essa ideia perturbava demais o Oh. Ele apenas queria passar despercebido, mas é óbvio que seria difícil sendo um aluno novo no meio do ano. Porém, Sehun se mantinha firme no fato de que isso era muito melhor do que uma escola de magia. Ele tinha amor por estudar e ampliar seus poderes, mas sabia muito bem sobre os perigos das escolas para bruxos: competitividade, sabotagem, feiticeiros das trevas e por aí vai. Honestamente, depois de seus antepassados terem exposto diversos feiticeiros que utilizavam seus poderes para o mal, Sehun temia por sua segurança carregando o seu sobrenome em um lugar como aquele. Portanto, acreditava ser muito melhor aprender sobre a magia com seus pais. E, para poder permanecer distante de uma escola de magia, teria que frequentar uma escola de mortais... Se não queria viver entre feiticeiros, teria de viver entre pessoas normais.
Diversas pessoas cumprimentavam Chanyeol de forma descontraída, com breves abraços, tapinhas nas costas, toques excêntricos. De fato, ele parecia ser bem popular entre todos naquele lugar. Entretanto, ele não parecia carregar qualquer senso de superioridade que a idolatria de atletas no ambiente escolar costumava trazer. Ele, capitão do time de basquete, mostrou ter afinidade com um grupo de garotos que estavam sentados no chão, jogando Dungeons & Dragons, algo que nunca foi de mínimo interesse para o Park. Depois, se aproximou de uma roda com pessoas vestidas de um jeito bem... Diferente. Usavam roupas pretas que passavam uma essência da Era Vitoriana, com maquiagens escuras e pesadas, góticos, se é possível nomear. E todos o receberam com sorrisos e abraços. Chanyeol definitivamente não mentiu quando disse que era amigo de todo mundo naquela escola.
— Então não tem bullying aqui...? — Sehun perguntou, um pouco descrente com a atmosfera amigável e cosmopolita que presenciava.
— Aqui é todo mundo igual, Sehun, você vai ver... Você pode ser um esquisito que usa coturnos e jaqueta de couro no calor para vir para a escola, mas eu respeito a sua diferença, você entende?
— Que sutil... — resmungou o moreno.
Um grito de volume crescente chamou a atenção dos dois rapazes, e Sehun se virou para olhar de quem era. A cena que se seguiu era digna de um filme clichê. Era como se aquele ser baixinho, de cabelos cor-de-rosa, corresse em câmera lenta para saltar nas costas de Chanyeol, enquanto tocava o refrão de Magic, do Pilot em seu fone — indispensável a um bom clichê, definitivamente, se você ouvir, irá concordar. O garoto ria enquanto desordenava totalmente o undercut loiro que o outro garoto ajeitava meticulosamente com gel antes de ir para a escola. O Park o recebeu com um abraço, e aquele cara não parava de falar por um único segundo. Sehun gostaria, sinceramente, de saber como alguém podia rir tanto e não calar a boca em uma manhã de segunda-feira. Era empolgação demais para a sua compreensão pessimista. Mas ele nem mesmo conseguia ficar atento ao que ele dizia, pois algo naquele estranho não deixou que Sehun tirasse seus olhos dele. Talvez ele tenha encarado demais a interação daqueles dois, porque logo os olhares se voltaram a ele.
— Quem é o cabeludo? — O desconhecido apontou para Sehun. — Tá pegando metaleiro agora?
— Não, claro que não! — Chanyeol riu, e então se prontificou a apresentá-los. — Byun, esse é Sehun, meu primo, ele é novo na escola. E, Sehun, esse é Baekhyun, capitão da equipe de atletismo.
— Muito prazer! — O garoto baixinho sorriu travesso, olhando incisivamente para o rosto do Oh.
Sehun não sabia descrever exatamente o que aquilo queria dizer , mas ele sentiu uma energia intensa. Não era boa, nem ruim, mas intensa, muito intensa. Ele apertou as alças de sua mochila nervosamente, a presença de Baekhyun era alarmante, mesmo em silêncio; era o que o seu famigerado sexto sentido o fazia sentir. E aquilo pesou muito quando a breve imagem de si mesmo se revirando em sua cama de madrugada, angustiado e ardendo em febre, repetindo o nome do menino que acabara de conhecer, surgiu em sua mente. Foram apenas dois segundos, mas o suficiente para criar todo e qualquer tipo de apreensão contra aquele rapaz. Byun Baekhyun tinha cheiro de problema; um enorme problema. E o melhor a se fazer seria ficar longe dele, porque Sehun não queria descobrir o real viés daquela energia que formigava seus dedos... Tinha medo do que aquilo poderia representar.
— Oi — respondeu curto e grosso, sem uma real vontade de manter um diálogo.
— Olha só, cara... — Chanyeol desviou o rumo da conversa ao notar a introspecção do menino. — Pode não parecer, mas Sehun é muito inteligente. Mesmo sendo um ano mais novo, ele vai ser nosso colega, Byun, você acredita nisso?
— É mesmo? — Baekhyun riu, ainda olhando para Sehun, que àquela altura já tinha desviado o olhar para o chão. Estavam os três parados no corredor, e a todo momento alguém passava para cumprimentar os dois atletas.
— Sim, ele aprendeu a ler mais cedo que as outras crianças, é um garoto precoce! — O feiticeiro quis morrer quando seu primo confundiu prodígio com precoce.
— Sehun é precoce, é? — Na tentativa de ser amigável com o aluno novo, Baekhyun fez aquela piadoca, mas, aparentemente, Sehun não gostou. Porque o garoto não respondeu absolutamente nada, apenas saiu de perto. O Byun se sentiu um pouco culpado com a possibilidade de ter causado algum desconforto, chateou-se, é claro. — O seu primo é um pouco bravo... Será que eu ofendi ele?
— Ah, não se preocupa, é o jeitinho dele... Ele é tímido, sabe? Mas Sehun é um amorzinho, ele só não sabe demonstrar. Não se preocupa, pra ofender ele, é só falando da mãe.
— Entendi... Mas ele realmente parece ser um docinho por baixo daquelas roupas pretas e da carinha emburrada.
— É sim! — Talvez Sehun tentasse matar Chanyeol se soubesse do que ele estava prestes a fazer, mas o loiro estava disposto a enfrentar o risco. — Eu preciso da sua ajuda pra enturmar ele... O menino não tem muitos amigos, só um coelho de estimação. Seria muito legal se ele tivesse um pouquinho de vida social aqui na escola.
— Deixa comigo!
(...)
Escusado será dizer que o lugar predileto de Sehun na sala de aula era a última mesa da fileira, encostadinho à parede. Era o seu refúgio, onde ele podia escorar a cabeça, fechar os olhos e ninguém notaria que ele estava dormindo, porque seus cabelos agiam como uma perfeita camuflagem — inclusive, claro, para os fones de ouvido. Aqueles que acreditavam que Sehun mantinha aquela cabeleira longa e bonita unicamente por conta da estética, estavam redondamente enganados, aquele cabelão também trazia skills extremamente úteis para a sobrevivência no ambiente escolar. E, claro, um feiticeiro de cabelo comprido carregava uma grande aura intimidante; Severus Snape, Grigorij Rasputin — os livros de história tratam como uma mera crendice, mas o monge siberiano era sim um feiticeiro —, figuras marcantes na ficção e na história. Entretanto, Sehun pretendia diferir deles na índole, não queria ter uma conduta controversa e questionável.
Mas aquilo só era útil para dormir encostado à parede quando ele não podia simplesmente usar a mesa para cochilar. Porque, convenhamos, há sempre uma ou outra aula em que o professor não dá a mínima para o que você está fazendo, ou em que ele apenas não percebe quando tem alguém puxando um ronquinho. O sexto sentido de Sehun o fazia perceber os momentos propícios para isso, e ele precisava de, pelo menos, uns dois dias para se habituar e saber em que aulas poderia dormir ou não. Ele era muito observador e não se colocaria em exposições desnecessárias em um terreno que ele ainda não conhecia bem. Portanto, passaria algum tempo analisando as reações dos professores diante de ações de seus colegas. Assim, poderia traçar os limites do que podia ou não fazer. Por exemplo, alguns professores não permitem que você masque chiclete na sala de aula, então bastava ficar atento a alguém com o hábito de mascar chiclete; se jogasse no lixo antes de determinada aula, e só abrisse outro depois que ela terminasse, já era possível saber que aquele professor era tão rígido que cuidava até mesmo de algo tão inofensivo. Logo seria impensável mexer no celular, ouvir música ou dormir em sua presença. Essa era a tática de Sehun para permanecer despercebido até o fim do semestre, se nenhum professor o repreendesse, não lembrariam que ele está lá. É claro que, considerando o histórico de brigas e conflitos do garoto, existem exceções bem claras: em situações de humilhação, ele mandaria à merda qualquer regra social. Como quando, incentivado pelos amigos que ridicularizavam Sehun por sua “solidão” na escola, aquele moleque roubou seu chocolate; nesse caso, o Oh gostava de mostrar um belo motivo para que não pensassem em perturbá-lo. Em qualquer outro momento, ele optava pelo anonimato, fugia do foco.
Enquanto a professora de matemática não chegava, Sehun estava com seus fones e com o celular em mãos. Ninguém que o conhecia saberia disso algum dia, mas ele tinha uma fan account no Twitter dedicada à Selena Gomez. Talvez esse fosse um segredo maior do que os seus poderes. Naquela conta, ele não usava seu nome, não era louco de publicar qualquer foto sua ou dos lugares que frequentava, não falava da cidade em que morava, não falava sobre acontecimentos de sua rotina, nem mesmo deixava evidenciado seu gênero, ele tentava neutralizar toda e qualquer frase. Por exemplo, se queria dizer que estava ansioso, substituía por “a ansiedade tá me matando”. Sehun era muito esperto, sabia como agir para não ser reconhecido na internet por qualquer pessoa que o conhecesse. É interessante dizer que, enquanto seus colegas entravam na sala de aula e buscavam por alguma mesa, o Oh fazia um tuíte sobre como ele achava o Justin Bieber um artista medíocre. Claro, um de seus traços de personalidade era falar mal do Justin Bieber e da Demi Lovato — na verdade, ele só falava mal do Justin, apenas tinha um pequeno desgostinho pela cantora, apesar de achar seu trabalho bom. Era engraçado, porque, definitivamente, ninguém que olhava para aquele garoto com um visual que mais se assemelhava a um anarquista maconheiro seria capaz de imaginar que o conteúdo em seu celular era resumido à rivalidade entre divas pop e outras coisas do tipo.
Ele apenas tirou os olhos do telefone quando viu que Chanyeol e Baekhyun se aproximavam. Seu primo se sentou na mesa ao lado, enquanto Baekhyun ocupou a mesa da frente. Sehun estranhou, claro, mas preferiu ignorar, e voltou a dar atenção ao seu feed. Ele sabia que Chanyeol ficaria com aquela história de tentar enturmar o menino na cabeça por alguns dias. Mas era questão de tempo até que ele desistisse, Sehun não era alguém que cedia tão fácil assim. Porém, quando desviou rapidamente o olhar para frente, viu que Baekhyun estava virado para trás, e o encarava com um sorrisinho sutil. O moreno se assustou, é óbvio.
— O que foi? — Ele tirou um dos fones que usava.
— Você é bonito.
Ao contrário da postura imponente, que beirava o intimidante, Sehun era, na verdade, uma pessoa que ficava com vergonha muito facilmente. Nessas situações, havia duas possibilidades: ou ele se calaria e faria o possível para dar a entender que ele estava pouco se fodendo para o comentário, ou ele responderia de um jeito bem agressivo — na maioria das vezes, uma ameaça física mais incisiva. Nenhuma das duas reações significava desconforto ou indignação, isso geralmente era expresso por um soco — apenas se fosse um moleque o assediando, é claro, ele ainda tinha algum senso de convivência —, simplesmente isso, sem ameaças ou avisos prévios; o que não era o caso. O Byun não era inconveniente ou repulsivo, tampouco desrespeitoso, apenas simpático demais ao ponto de deixar Sehun confuso.
E ele odiava não ter controle sobre alguma situação.
— Tá — respondeu, e voltou a olhar o celular, assim não teria que encarar o rosto de Baekhyun.
A única coisa que Sehun nunca conseguia esconder, entretanto, era o rubor em suas bochechas. Por mais que ele tentasse, nunca tinha qualquer controle sobre isso.
— Você tem Twitter? — perguntou o baixinho, antes que o outro pudesse colocar o fone novamente.
— Não tenho.
— Eu tive a impressão de ver você rolando a timeline.
— Você viu errado. — A resposta de Sehun foi curta e grossa.
— Ah, mas eu não te julgaria, Hunnie... — Aquele apelido alarmou o Oh, que largou o telefone e franziu o cenho no mesmo instante. Quem aquele cara pensava que era? Quem aquele cara pensava que Sehun era? — Sabe, às vezes eu vou ao shopping e ando naqueles bichos com rodinhas e as crianças choram porque elas querem andar também, mas eu alugo por duas horas. Tem gente que julga, porque acha que aquilo não é pra minha idade, mas eu não tô nem aí!
E por que ele conseguia soar tão adorável falando um absurdo daqueles?
— Nunca mais me chame assim — rosnou para o menor, e provavelmente não foi ouvido, porque a professora entrou na sala e chamou a atenção de todos.
— Depois a gente conversa, Hunnie! — Baekhyun deu dois tapinhas no ombro de Sehun e se virou para frente.
(...)
Sehun não diria que sua semana foi cansativa, muito menos desgastante. Ela apenas foi... Atípica. De alguma forma, ele se viu acostumado com a falação de Baekhyun. A cada dez ou quinze minutos, o baixinho se virava para trás para fazer alguma piada galanteadora — muitas delas eram bizarras, vale apontar, como quando Baekhyun disse que Sehun era tão lindo que o fez ter um ataque de asma. Não é surpresa que ele tenha respondido, todas as vezes, com resmungos mandando que ele calasse a boca, rosnados, ou até escondendo a cara na mesa para fingir que estava dormindo — porque, na verdade, Sehun apenas não queria que o outro visse suas bochechas vermelhas. Mas, mesmo com as reações irritadiças, aquelas gracinhas de Baekhyun deixavam o seu dia um pouquinho mais feliz. Ele não admitiria isso para si mesmo, muito menos para o Byun, mas achava aquilo... Engraçadinho.
E, claro, ele já perdeu as contas de quantas vezes ameaçou bater em Baekhyun depois de ser chamado de Hunnie.
Aquela semana também foi um tantinho atordoada. Porque Chanyeol insistiu inúmeras vezes para que Sehun fosse à maldita festa que ele daria sexta à noite. Porque aquele era, religiosamente, o dia em que seus pais iam ao motel. Não é preciso dizer que o Oh recusou cada um dos convites. E ainda ameaçou o primo com a sua tesoura sem ponta quando ele sugeriu que Sehun fosse à festa para pegar Baekhyun. O garoto tinha um posicionamento bem claro a respeito de festas: uma exposição que ele preferia evitar. Talvez não fosse saudável isolar-se do mundo de tal forma, vendo tudo como uma ameaça, mas ele realmente preferia não ter que lidar com o pior. A única explicação que deu a Chanyeol foi: não tinha a menor vontade de ver adolescentes bebendo e se agarrando.
Por isso, naquela noite de sexta-feira, às dez horas, ele já estava em seu moletom velho e calças de abrigo, prontinho para dormir. Cordelia estava na sala, consumindo conteúdo de baixa qualidade na televisão, como sempre. E seus pais já deviam estar indo dormir também. Seria mais uma noite normal... Se alguém não tivesse tocado a campainha. Sehun teria atendido, se já não estivesse estendendo seus cobertores para deitar, então sua mãe foi atender. Péssima decisão. Em menos de um minuto, ele ouviu batidas na porta do seu quarto. Pelo som, pôde reconhecer sua mãezinha, e logo foi atendê-la.
— Sehun, seu primo está dando uma festinha... — Pronto, Chanyeol tinha apelado à Sra. Oh, que era quem mais queria ver o filho saindo de casa um pouquinho. — Ele quer muito que você vá lá... Por que você não tira umas horinhas?
— Ah, eu não tô muito a fim de ir, mãe...
— Está sim. — Sem muita cerimônia, Sooyoung entrou no quarto do menino e foi direto ao armário para pegar calças jeans, depois pegou a jaqueta de couro e deixou as duas peças nas mãos de Sehun. — Não pense em voltar antes da meia-noite.
— Mas eu não quero ir, mãe... — O moreno começou a fazer manha, quase choramingava.
— Você precisa sair de casa e seus pais precisam transar. Vamos unir o útil ao agradável, ok? Vá se divertir um pouquinho.
Depois do que sua mãe disse, Sehun entrou em uma verdadeira crise existencial. Era verdadeiramente bizarro ter o fato de que seus pais faziam aquilo reafirmado... Quer dizer, pais não transam! Ele ficou encarando o nada por alguns segundos, e Sooyoung já tinha saído de lá. Pior do que ser expulso de casa porque os seus pais queriam ter um momento íntimo, era ter que ir a uma festa de Chanyeol. Pior do que tudo isso, uma festa cheia de gente da escola nova. Mas, pior ainda, uma festa com Byun Baekhyun, que tinha que aparecer com piadas ruins e cantadas horríveis. Sehun odiava achar graça naquilo.
Ele se vestiu sem a menor disposição. Como sempre, a jaqueta de couro foi peça fundamental em sua skin, porque era lá que ele carregava a sua varinha; já que ele sabia que não era irresponsável como seu primo, e que ninguém iria apalpar suas roupas e acabar encontrando o objeto mágico. Para a sorte do Park, sua irmã já havia renunciado aos seus poderes para ficar com um mortal. Porque as chances de Chanyeol se tornar o feiticeiro da família eram mínimas, considerando a sua imprudência e negligência em relação à magia. Por Deus, ele era alguém que usava seus poderes em público, por exemplo, para ir bem em provas, ou para fazer surgir um enorme pote de sorvete para os amigos. Sehun definitivamente não sabe como as pessoas daquela escola ainda não descobriram que aquele garoto era um feiticeiro.
Ao cruzar a sala, viu que Cordelia já sabia o que estava acontecendo, porque ela riu bem alto, e só ganhou alguns resmungos em resposta. Sehun pedia forças ao universo, porque o único encantamento que ele poderia usar para se livrar daquela situação seria aquele que faria sua mãe concordar com tudo por seis horas. Assim, ela concordaria em não o obrigar a ir naquela festa. Entretanto, talvez ele tivesse sua varinha confiscada por umas duas ou três semanas. As regras de seus pais sobre não usar feitiços de persuasão eram bem rígidas, e Sehun até concordava, ainda mais quando se trata de um encantamento do livro dos Feitiços Proibidos. Mas parecia não ser tão má ideia assim usar algum feitiço bem sacana para se vingar de Chanyeol, que o esperava na porta com o sorriso mais filho da puta possível.
— Eu te odeio — disse ao mais velho, enquanto trancava a porta da casa. — Eu te odeio muito, Chanyeol.
— Não odeia não, Sehun. — Ele puxou o primo pela mão, arrastando-o empolgado para atravessar a rua.
— É sério, você vai me pagar por isso.
Sehun pensava que não teria merda nenhuma para fazer em uma festa dessas, que apenas ficaria vagando sem rumo por aquela casa com uma latinha de refrigerante na mão, enquanto tentava desviar de casais se amassando por todo canto, e gente bêbada se empurrando. E ele descobriu que estava completamente certo, quando entrou na casa de Chanyeol e percebeu que aquilo atendia exatamente às suas péssimas expectativas. Seriam duas horas bem frustrantes. Sua sorte, naquele momento, era ter seu celular junto... Ou não. Assim que Sehun desbloqueou a tela, percebeu que tinha pouca bateria. Seriam duas horas bem tortuosas.
Ele até tentou ficar no sofá da sala, lendo uma das revistas de decoração que a mãe de Chanyeol assinava — desde que Youngmi perdera a competição do feiticeiro da família para o pai de Sehun, sua maior paixão era a decoração de interiores, era um amor muito mais do que pela magia, um interesse inusitado, mas compreensível. Porém ele só conseguiu folhear três ou quatro páginas, porque um casal bem inconveniente resolveu se enfiar ali naquele sofá para se agarrarem. Ele ficou puto, é claro, e saiu batendo os pés para bem longe dali. Talvez pudesse ficar em paz no quarto de Chanyeol, onde não teria música alta, gente amontoada, e ainda tinha um Playstation foda para ele jogar. Não se importava nem um pouco se teria que expulsar algum outro casal de lá, ele queria paz.
Sehun ficou feliz ao entrar no quarto do seu primo e ver o cômodo vazio. De fato, a música ficava mais abafada no segundo andar, e isso deixava o ambiente muito mais agradável. Chanyeol o perturbaria mais tarde ao saber que ele tinha se trancado no quarto para jogar? Sim, com certeza. Entretanto, ele não ligava o suficiente, então apenas pegou o controle do videogame e colocou o primeiro jogo que encontrou dentro do aparelho. Era Mortal Kombat, e Sehun até que se divertia jogando contra o sistema. Mas, obviamente, seus momentos de tranquilidade nunca duravam muito, sempre tinha que acontecer algo para frustrar o pouquinho de plenitude que ele achava que iria ter. O mesmo casal de mais cedo, aquele do sofá, entrou no quarto aos agarros, e ambos se assustaram quando viram o garoto com cara de poucos amigos e um péssimo humor sentado no chão, de pernas cruzadas, enquanto os olhava com uma perfeita cara de morte. Era como se, através daquela encarada, Sehun prometesse que iria consumir com suas almas. Eles não queriam ficar lá para aborrecer o rapaz, por isso saíram correndo. Porém, não pense que isso significou um pouco de paz para o Oh. Estava muito longe disso.
Porque, logo depois, quem adentrou aquele quarto foi Byun Baekhyun, com o sorriso travesso de sempre e uma latinha de cerveja na mão. E, além de estar puto com Chanyeol por deixar que estranhos mortais circulassem por uma casa de feiticeiros, ele queria que Baekhyun desse o fora dali. Não havia um motivo consistente para isso, no entanto. O negócio é que Sehun estava de mau humor, e queria se dar ao direito de ficar sozinho e emburrado; se Baekhyun estivesse por perto, ele iria ficar tímido e com umas pontadinhas no estômago por conta de todas as cantadas ruins. E sentir essas coisas, para ele, era motivo suficiente para fugir do Byun em toda e qualquer situação. Em outras palavras, ele se interessava um pouquinho por aquele mortal e ficava feliz em sua companhia, mas se achava um grande estúpido por isso, e negaria de todas as formas, até que tudo se reduzisse a um mero surto. Porque, claro, jamais se perdoaria se criasse qualquer vínculo com um mortal. Portanto, permaneceu com sua expressão ameaçadora, torcendo para que Baekhyun entendesse que deveria dar o fora dali.
— Já falei que te acho uma gracinha? — O baixinho perguntou, depois de fechar a porta.
Sem esperar por aquilo, Sehun ficou confuso. Quebrado & confuso. Ele não soube como reagir, ficou com vergonha, então apenas se virou para a televisão novamente, e pediu forças a qualquer energia regente que pudesse ouvi-lo. E ele viu que não tinha muita saída quando Baekhyun pegou o outro controle e se sentou ao seu lado no chão. Sehun soube que seria uma longa noite.
— Vou jogar com você um pouquinho.
— Tá — respondeu o mais novo, nem adiantava tentar protestar contra.
Novamente, péssima decisão. Na primeira partida, Sehun ganhou, ainda que a risada nada contida de Baekhyun o distraísse. Porém, na segunda partida, o Byun começou a ficar um pouquinho mais desinibido — talvez, ter a sua competitividade instigada o deixasse mais solto —, e se inclinava para o lado de Sehun a cada vez que se concentrava em executar golpes seguidos no jogo, e o moreno ficava um pouco em pânico quando ele chegava tão pertinho. Ele até acabou deixando o controle cair quando a cabeça dele se escorou em seu ombro. Aquele garoto não era alguém que sabia lidar com contato físico, de jeito nenhum, até para abraçar Chanyeol, o moleque que cresceu junto com ele, era uma luta imensa. O ponto é: ele sabia que Baekhyun nem percebia o que estava fazendo, e certamente era acostumado a agir assim com os amigos. E, com tudo isso, Sehun acabou perdendo a segunda partida.
Mas, pelo menos, gostou de sentir o cheirinho do cabelo de Baekhyun. Por Deus, como ele era patético.
— Hunnie... Você perdeu! — Baekhyun falou em seu típico jeito escandaloso, mas não carregava qualquer deboche. — Como você conseguiu? Eu sou horrível nesse jogo.
— Meus dedos já estão doendo — mentiu. Não era louco de dizer que estava nervoso na presença dele.
— Ah, entendi... Pode deixar que eu pego leve com você agora, gatinho. — Não bastando o galanteio barato, ele ainda teve a ousadia de beijar a bochecha do maior.
Aquilo foi o estopim para Sehun entrar em tela azul. Seu queixo caiu, seus olhos se arregalaram e seu rosto inteiro começou a arder. Se estivesse em pé, já teria corrido de volta para a sua casa, e estava pouco se fodendo se sua mãe o xingaria por isso. Acontece que estava sentado, e suas pernas não conseguiriam se erguer. Quando Baekhyun voltou a atenção para a tela, Sehun tocou com a ponta dos dedos onde havia sido beijado. Estava fervendo. As pontas dos dedos formigavam, como quando seus poderes se concentravam ali e a magia precisava ser liberada de alguma forma. E, se antes ele tinha perdido, a terceira, quarta e quinta partidas foram mais feias ainda. Ele estava todo errado, coitadinho, não conseguia nem pensar nos movimentos que tinha que fazer no controle. No final de cada uma delas, ele ganhava outro beijinho na bochecha, e um “Você consegue, Hunnie!”, que o deixava mais nervoso ainda.
Merda! Baekhyun descobriu sua vulnerabilidade, sem nem perceber, e insistiu nela.
Porém, depois de ganhar a sexta partida, o baixinho pausou o jogo e olhou para Sehun bem atentamente.
— Você tá perdendo de propósito? — perguntou com seu típico sorriso brincalhão.
— Do que você tá falando? Por que eu faria isso? — Sehun respondeu com mais palavras do que o normal, fugindo de seu padrão monossilábico, e talvez isso tenha o denunciado um pouco.
— Ah, Hunnie, você não precisa perder de propósito para ganhar um beijinho... — Baekhyun ficou sobre seus joelhos e se inclinou na direção do mais novo até seus rostos ficarem bem próximos. — É só você pedir, dou quantos você quiser.
Tanta vergonha sendo acumulada e uma sugestão bem cara-de-pau fizeram Sehun sentir a necessidade de reagir. Por isso, não pensou muito antes de agarrar a gola da camiseta de Baekhyun com as duas mãos e empurrá-lo contra o chão, logo ficando sobre seu corpo. Ele fez o possível para expor sua melhor cara de irritação.
— Escuta aqui, você tá de brincadeira com a minha cara?! — rosnou, como sempre.
— Uau! — O Byun riu. — Você já tá em cima de mim no primeiro encontro? Eu gosto da sua atitude...
— Isso não é um encontro, seu idiota! — Sehun segurou o tecido com mais força. — De onde você tirou essa ideia estúpida?
Baekhyun até faria outra piadinha bem ambígua para responder, mas a porta do quarto sendo aberta sem qualquer discrição chamou a atenção dos dois. Era Chanyeol, abraçado a uma garota, e ele se assustou com o que viu no chão. Quer dizer, a sua interpretação do que presenciava era bem... Inusitada. Sehun estava sobre seus joelhos, no chão, agarrado à camiseta de Baekhyun, que estava entre as pernas do Oh. Somando 2+2, você tem 4!
— Caramba! — Ele gritou, mas logo cobriu a própria boca, arrependendo-se pela falta de sutileza. — Desculpa por interromper, já estamos saindo!
Antes mesmo que Sehun pudesse começar a dizer incessantemente que não era aquilo que Chanyeol estava pensando, seu primo saiu de lá com a garota e fechou a porta. Era exatamente aquele tipo de situação que ele evitava em festas. Por isso, ficou em choque quando olhou para baixo e viu que, naquela posição em que ele e Baekhyun estavam, até podia parecer outra coisa... Como ele queria morrer. Sem dizer mais nada, ele saiu de cima do outro rapaz, e fugiu dali aos tropeços. Ignorou completamente quando ouviu seu nome sendo chamado, apenas queria se trancar em seu quarto, de onde ele nunca deveria ter saído. Entrando em casa, cruzou a sala correndo; Cordelia perguntou como tinha sido a festa, ele apenas respondeu com “um desastre”, e foi direto para o seu refúgio.
Depois de fechar a porta, ele pôde voltar a respirar. E, encostado à madeira nobre, ele sentiu outra vez o frio na barriga que o atingiu quando ele percebeu que estava em cima de Byun Baekhyun.
(...)
Um final de semana não foi suficiente para digerir a vergonha daquela noite. Sehun passou dois dias consumindo qualquer bobagem na internet, apenas para se distrair e esquecer que tinha sentido coisas que não devia por um mortal. Era constrangedor saber que, em menos de uma semana naquela escola, ele já conseguiu trair um de seus maiores princípios e deixou que um mortal se aproximasse. Sehun não podia mentir, se Baekhyun fosse um feiticeiro, um anjo, um vampiro... Qualquer ser mágico, ele já tinha dado uns beijos naquele garoto. Independentemente de sentimentos, Baekhyun era um cara bonito, engraçado — por mais que o Oh não quisesse admitir —, e que se interessava por ele. Apesar de toda a frieza externa, Sehun tinha seu lado mais... Carente, para usar um termo mais delicado.
Mas não era esse o caso; Baekhyun era um humano normal, e Sehun teria graves problemas se acabasse se apaixonando por ele. Por isso, fazia o possível para afastá-lo, tinha medo de se encantar por aquela figura irritantemente adorável. E ficaria completamente perdido se isso acontecesse. O estranho era que, por mais que ele fosse grosso e respondesse sempre da forma mais ríspida possível, Baekhyun achava graça naquele jeito “marrento” de Sehun e insistia em ficar por perto. Era como um garimpeiro entrando em uma mina escura e fria, sem saber com o que teria que lidar, mas otimista, buscando por alguma preciosidade. Baekhyun estava certo de que, em algum momento, encontraria, mas Sehun não queria ter algo a oferecer. Ainda que, por enquanto, o que o Byun buscasse fosse a sua amizade. Sehun sentia raiva de Baekhyun porque, em sua cabeça, não fazia o menor sentido aquele moleque imprudente se aventurar a se aproximar de alguém que acabara de conhecer e que não demonstrava qualquer reciprocidade. Sehun sentia raiva de Baekhyun porque ele nem mesmo se importava com a gigantesca possibilidade de ser rejeitado continuamente, a cada cantada ruim, a cada piada ambígua, sem nem encontrar uma pequena abertura... Parecia se divertir com aquilo. Sehun sentia raiva de Baekhyun porque queria não se importar com o pior, assim como ele.
E era o fato de se importar tanto que o fazia querer fugir daquele cara. Uma semana, e ele já estava em crise.
Por isso, nem ousou abrir as dezenas de mensagens que Baekhyun mandou no sábado e no domingo. Mas ele pôde ver, a partir das notificações, que ele mandava vídeos com legendas como “Olha isso, é um gato dando um tapa em uma morsa!”, coisas sem muito sentido. E Sehun ficava muito bravo por gostar daquele senso de humor duvidoso. Quando pensava nisso, a sua frustração era tamanha que ele só queria pensar em qualquer outra coisa. Então esfregava seus cabelos nervosamente e ficava resmungando até outro assunto roubar sua atenção. O problema, porém, foi quando teve que fazer isso na frente de Chanyeol, no caminho para a escola, enquanto ele falava empolgadamente de um incrível filme que assistiu sobre um modelo coreano que vivia na Itália, teve sua sextape vazada e teve que esconder na vinícola da família, na Toscana, onde se apaixonou pelo sommelier. Se Sehun estivesse prestando atenção, teria rido da cara de Chanyeol por se emocionar tanto com uma história que lembrava o filme da Hannah Montana. Mas ele sequer sabia sobre o que o Park estava falando, e só conseguiu fugir daquele loop angustiante sem sua mente quando teve os pulsos agarrados pelo primo.
— O que é isso, Sehun? Você tá arrancando o seu cabelo?!
— N-não... — respondeu um pouco desorientado, tinha sido arrancado de seus pensamentos de forma bruta. Chanyeol, claro, estranhou quando o mais novo gaguejou, isso não era nada comum.
— O que aconteceu, cara?
— Eu tô preocupado, só isso. — Sua voz soou baixa, ele se recusava a entrar em detalhes.
— Preocupado com o quê?
— Desde quando eu tenho que ter um motivo pra ficar preocupado?! — Sehun fechou as mãos em punho e quase gritou com o outro. — O que você tá insinuando?!
— Calma, Sehun... — Chanyeol tocou seus ombros tensos com cuidado, fazendo com que ele relaxasse aos pouquinhos. Ele não entendia mesmo o motivo para Sehun surtar daquela forma. — Não tô insinuando nada.
Eles já estavam chegando na escola, o que aumentava a força do conflito interno do Oh, ainda mais quando ele viu Baekhyun entrando no estacionamento com a sua lambreta azul. Ele preferiu ignorar, continuou andando com Chanyeol até a entrada, e, se possível, ficaria o dia inteiro calado. Acontece que, bastou que ele pisasse no corredor da escola para que todos os olhares se voltassem para ele. Todos. E um garoto com quem ele nunca conversara na vida, mas sabia que se chamava Yifan e que era do time de basquete, foi em sua direção.
— Cara, não acredito que você pegou o Byun! — O cara deu um tapão em seu braço. Sehun, que não era muito fã de contato físico, ficou sem saber como reagir. — Você é foda, parabéns!
O moreno ficou confuso em um primeiro momento, mas depois ficou puto — na verdade, estava muito sem jeito, mas escondia isso tentando mostrar o quanto estava puto. Um maluco que ele nem conhecia direito estava inventando coisas ridículas a seu respeito. Se não tivesse pensado na decepção que seus pais sentiriam por ele, novamente, arrumar uma briga, Sehun teria dado um soco em Yifan ali mesmo.
— Você é ignorante?! — devolveu, e seguiu andando, não tinha tempo para uma estupidez daquelas.
Entretanto, conforme ele caminhava entre aqueles corredores, mais pessoas surgiam para parabenizá-lo por “pegar Byun Baekhyun”, o que não fazia sentido nenhum. Não apenas porque não era tão difícil assim ver alguém caindo na lábia do capitão do time de atletismo, na verdade, se havia um consenso naquela escola, entre garotos e garotas, era justamente Byun Baekhyun, apenas. Mas também porque aquilo não tinha acontecido! Ele não pegou Baekhyun — embora, no fundo, a vontade existisse. Sem entender aquela situação, a primeira conclusão coerente que surgiu em sua cabeça foi que o baixinho só podia ter inventado aquilo e espalhado para a escola inteira.
— Eu vou matar aquele salva-vidas de aquário... — rosnou e começou a andar na direção do estacionamento. Naquele momento, a decepção de seus pais parecia não pesar tanto assim.
— Ei! — Chanyeol segurou seu braço. — Por que você quer bater no Baekhyun?!
— Ele inventou pra escola inteira que me pegou!
O Park encolheu os ombros e olhou para os dois lados. Talvez estivesse prestes a encarar a morte, e ela vinha na forma de um feiticeiro cabeludo que usava coturnos e couro para ninguém desconfiar que, em seu fone, tocava as músicas mais românticas da Selena Gomez.
— É... Sehun... — Ele tocava seus indicadores um no outro, nervosamente, quase não tinha coragem para falar.
— O que é?!
— Não foi ele não...
— Como assim? — Com o cenho franzido, Sehun se aproximou mais do primo, o que o fez recuar até suas costas tocarem um dos armários na parede.
— Então... É que naquela noite eu tava um pouquinho bêbado e pode ser, ou não, que eu tenha dito pra todo mundo que vocês estavam no meu quarto se pegando... — Depois de um riso de desespero, ele se encolheu ainda mais, enquanto rezava para aquele fogo nos olhos do menor diminuísse.
— Você fez o quê?! — Sehun gritou e acertou um soco no armário, bem ao lado da cabeça de Chanyeol, que não era tão burro quanto parecia e saiu correndo no mesmo instante. Se aquele punho conseguiu amassar uma porta metálica daquela forma, não queria estar lá para ver o que faria com o seu rosto.
A perseguição se iniciou, Chanyeol corria pela própria vida entre os corredores daquela escola e Sehun ia logo atrás, caçando seu primo como um lobo caçava um veado. Todos olhavam assustados para aqueles dois garotos que saíam se perdendo pelos corredores. O Oh tentava decidir entre todas as dezenas de ideias que ele tinha para matar Chanyeol, que tentava pensar em pelo menos um jeito de fugir dali para não levar uma surra. Mas, infelizmente, ele não foi muito inteligente, porque virou em um dos corredores que não tinham saída. Ele soube que iria morrer no instante em que notou que ficaria encurralado. Então apenas se abaixou no chão e tentou cobrir a cabeça com os braços. Sehun se aproximava com a fúria de mil vespas assassinas. Porém, antes que pudesse chegar mais perto, algo o impediu.
— Hunnie!
A voz de Baekhyun ecoou pelo ambiente e Sehun paralisou no mesmo lugar. Ele não conseguia virar para trás e nem seguir em frente para bater na praga que ele chamava de primo, somente ficou parado, olhando para frente, enquanto o pânico o consumia. É verdade, ele não tinha pensado no que fazer caso Baekhyun interagisse com ele. Chanyeol aproveitou a segunda chance que recebeu da vida e saiu correndo dali no mesmo segundo. Sehun, apesar de estar sendo consumido pelo desespero, suspirou pesado, tentando encontrar um pouquinho de força para agir.
— O que você quer? — respondeu, finalmente se virando para o Byun.
— Parece que todo mundo acha que a gente se pegou. — Ele riu e se aproximou do mais novo.
— Isso é coisa do Chanyeol! — devolveu agressivamente. — Ele fica louco quando bebe e entende tudo errado!
— Mas podia ter rolado... — O baixinho ofereceu um sorriso sugestivo e Sehun tremeu por um instante, seu rosto estava começando a esquentar. — Quer dizer... A gente podia ter se pegado.
Ele não podia permitir aquela afronta!
— E quem disse que eu quero pegar você?! — esbravejou o Oh, novamente fechando as suas mãos em punho, estava nervoso e, mais uma vez, seus dedos começaram a formigar. Ele não sabia explicar por que isso acontecia diante daquela presença nefasta.
— Suas bochechas vermelhinhas me dizem isso, Hunnie. — Baekhyun provocou, e isso foi o suficiente para Sehun sair dali resmungando todos os tipos de xingamentos possíveis para Byun Baekhyun e suas próximas gerações.
(...)
Quarta-feira era sempre o pior dia da semana para Sehun. Não o leve a mal, ele era alguém super adepto às referências sobre usar rosa ou preto nas quartas — como um bom adolescente do século XXI —, acontece que aquele dia era o mais pesado, com mais aulas maçantes e mais tarefas. O horário do almoço chegou como um alívio. Ele se sentou em uma das mesas redondas no refeitório, e que todos evitavam porque, bem... A carranca de Sehun assustava um pouquinho as pessoas. Menos Chanyeol e Baekhyun, que sempre apareciam para almoçar com o garoto. Mesmo tendo a maioria das iniciativas de puxar assunto completamente ignoradas, porque Sehun colocava seus fones e fingia que estava vendo qualquer outra coisa. E, novamente, não o leve a mal, sozinho ele era um serzinho de muita educação com Chanyeol — relevando sua natureza agressiva — e sabia conduzir uma conversa. O motivo para aquela introspecção era bem específico: Byun Baekhyun. Não queria dar abertura para ele, e ainda ficava idiota perto daquele cara, então o melhor era ficar calado e não falar com ninguém quando ele estivesse junto.
— Que bonitinho, comendo vegetais! — Chanyeol, com toda a sua delicadeza, tirou os fones que o garoto usava. — Vou falar pra você, essas coisas me dão vontade de vomitar, se eu colocar uma cenoura na boca eu vou botar todo o meu café da manhã pra fora. Acho muito nojento, mas é saudável, então continue comendo!
— Muito obrigado pelos ricos detalhes, Chanyeol. — Sehun largou o garfo sobre a bandeja e então bebeu um pouco d’água. Se o Park queria desmotivá-lo a comer vegetais, tinha alcançado isso com o seu relato fétido. — Agora eu perdi a fome.
— Que falta de cavalheirismo, cara! — Baekhyun repreendeu o amigo. — Vou mostrar como se faz... — Ele se virou para Sehun com seu sorriso mais sacana. — E aí, tá a fim de ver o cenourão?
Pronto, era só o que faltava. Sehun se afogou com a água que bebia, e nem isso o impediu de sentir uma pontada no estômago com o convite pervertido. Ele tossia desesperadamente, com a mão cobrindo a boca, e os outros dois rapazes acertando tapas em suas costas incessantemente, até que ele conseguisse respirar. Não era nem preciso dizer o tamanho da sua vontade de sair correndo dali. Aquela era a pior reação possível para uma das gracinhas de Baekhyun. Inevitavelmente, uma imagem indecente surgiu em sua mente e ele só queria bater a cabeça na mesa até esquecer o que acidentalmente tinha imaginado. Naquela situação, o rubor no rosto era o menor dos seus problemas.
— Isso é ser cavalheiro?! — Chanyeol apontou para Sehun, especificamente para as bochechas que pegavam fogo. — Você deixou o menino com vergonha, olha, ele até se engasgou.
— Quem é que tá com vergonha aqui?! — O Oh agarrou o primo pela gola da camiseta e tentou soar intimidador, mesmo com aquela carinha nervosa de quem foi pego no pulo.
— Você não tá com vergonha? — Baekhyun se inclinou em sua direção. — Então a proposta te atrai?
— Eu odeio vocês! — Sehun empurrou a bandeja com o seu almoço e deitou a cabeça na mesa. Não tinha mais qualquer condição para comer. Ele teria ficado lá, com a cara escondida, até poder sair correndo sem tropeçar por conta do nervosismo. Porém, Baekhyun cutucou suas costelas insistentemente e ele teve que se levantar. — O que é, porra?!
O baixinho apenas apontou para frente e Sehun olhou na direção indicada. Tinha uma garota lá, não era da sua turma, devia ser do segundo ano. Ela tinha duas tranças, usava óculos redondos e vestia roupas consideravelmente bonitinhas. O moreno diria que ela era fofa. Ela o encarava, como se esperasse que Sehun dissesse algo, mas ele não diria absolutamente nada. Apenas a olhava de volta, tentando entender o que diabos ela queria com ele. A menina somente deixou uma cartinha sobre a mesa e saiu correndo dali. Era uma folha de caderno dobrada no meio com uma figurinha de coração, seu conteúdo, talvez, já fosse bem previsível.
Sehun abriu mesmo assim. Estava escrito “Você tem o cabelo mais bonito que eu já vi” e, logo abaixo, um número de telefone. A letra era inegavelmente impecável.
— Que bonitinho! — Baekhyun apertou a bochecha de Sehun, que só fechou os olhos e bufou frustrado.
— Não — resmungou e enfiou a cartinha na mochila, não era louco de deixar aquilo dando sopa perto daqueles dois, era capaz de mandarem uma mensagem para a menina e marcarem um encontro sem dizer nada a ele. Também não teria a indelicadeza de jogar fora na escola, porque ele até podia ser ranzinza, mas tinha um coração e sabia que seria muito chato se ela encontrasse a carta em alguma lixeira, portanto, faria isso em casa.
— Ah, mas eu entendo ela... Porque a minha vontade era chegar com a mão de mansinho, assim... — Conforme Baekhyun falava, sua mão serpenteava pelo ombro de Sehun, até chegar à nuca, e então embrenhou seus dedos entre os cabelos sedosos. O moreno não reagiu, não pensou em reagir, só ficou parado, mesmo sentindo arrepios. — E puxar esse cabelão.
Sehun não processou exatamente o fato de que Byun Baekhyun estava com a mão enfiada em seus cabelos, nem que estava o galanteando de uma forma completamente baixa. Tudo o que sabia é que alguém que o fazia sentir umas coisinhas bem intensas estava fazendo algo que o fazia sentir mais coisinhas bem intensas, e que estava gostando. Por alguns segundos, não existiu parte racional nele, somente emotiva. Ele só se deu por conta do que estava deixando o Byun fazer quando sentiu um puxão fraquinho e um arrepio bem mais intenso. Em resposta, encolheu os ombros e segurou o pulso de Baekhyun. Sabia que estava, novamente, muito vermelho. Seus dedos se aqueceram absurdamente ao redor do braço alheio e formigaram um pouquinho mais intensamente do que nas outras vezes.
— Você tá muito perto de me fazer te dar um soco, garoto — disse firmemente, então pegou sua mochila e saiu de lá.
Estava com calor, muito calor. E continuar perto daquele moleque não ajudaria em nada. Ele foi ao banheiro, lavou o rosto e se sentiu um pouquinho mais calmo. Era difícil definir o que aquelas gracinhas de Baekhyun significavam para ele. Por mais que respondesse com agressividade, elas não o deixavam constrangido, ele achava engraçado e até ficava um pouco boiolinha. O ponto era: não queria desmanchar a pose austera — ainda que ela já tenha perdido sua credibilidade. De qualquer forma, nem conseguia ficar bravo de verdade com Baekhyun.
E, claro, falando no motivo de seus mais recentes surtos, deu de cara com ele assim que saiu do banheiro. Parecia até que o esperava.
— Hunnie... — chamou com o apelido que Sehun já desistira de fazê-lo parar de usar, e que até se acostumara a atender. Porém, não tinha qualquer tom de brincadeira, qualquer um diria que ele estava envergonhado. — Me desculpa.
— Pelo quê? — devolveu confuso, embora começasse a ter uma ideia do que se tratava.
— Pelas brincadeiras de hoje... Eu acho que fui longe demais, não queria te deixar desconfortável. Só queria me aproximar de você, te fazer rir um pouquinho...
Sehun suspirou pesado, não esperava ter a iniciativa de ser franco com Baekhyun. Mas imaginava que ele devia estar se sentindo culpado depois de ter feito brincadeiras como aquelas... Uma tinha conotação sexual e a outra teve contato físico. Novamente, mesmo que Sehun não tenha visto maldade ou que não tenha se incomodado, sua reação não transmitia aquela interpretação. Era compreensível que Baekhyun tenha entendido aquilo como um desconforto e que quisesse se desculpar. Na verdade, era até admirável que ele tivesse aquele senso de pedir desculpas ao achar ter passado do ponto.
— Tá tudo bem. — Ele não tentou desviar o olhar. — Não me deixou desconfortável.
— Mesmo? Você parecia muito bravo quando saiu da mesa...
— É que eu não sei reagir muito bem quando eu tô com vergonha... — confessou baixo, mas, ainda assim, muito mais alto do que ele gostaria de confessar algum dia. — Não me incomodei com o negócio da cenoura... — Ele riu, um pouquinho nervoso, mas sincero. — Mas vai com calma.
— Tudo bem, tudo bem, prometo que vou maneirar nas piadas... Nem vou enfiar a mão no seu cabelo sem mais nem menos.
— Na verdade, eu não ligo pra isso. — Sehun disse “não ligo” porque ainda não tinha coragem de dizer “eu gosto disso”. Por mais que ele fugisse de abraços, um carinho na cabeça era sempre bem-vindo.
— Então eu posso te dar um cafunézinho de vez em quando?
O feiticeiro definitivamente não conseguia crer no que iria responder.
— ...Pode.
E o Sehun que insistia e gritava para não dar qualquer abertura para aquele mortal de cabelos cor-de-rosa se contorcia em seu interior. O Oh apenas preferia não pensar muito sobre o que tinha feito, ou iria começar a se achar terrivelmente patético — novamente.
(...)
A paz de Sehun, nas noites de sábado, era tomar uma taça de vinho, encaixar o travesseiro massageador em seus ombros e relaxar em sua cama. De olhos fechados, ouvindo música e, de vez em quando, falando sobre qualquer bobagem com a sua coelha. Seus pais normalmente saíam para jantar, e ele não se importava em ficar sozinho. Na verdade, não era como se ele saísse de seu quarto para qualquer outra coisa que não fosse buscar comida. Aqueles momentos recarregavam muito mais suas energias do que uma noite de sono, era revigorante. Naquelas noites, não existia nenhum problema e sua maior preocupação era ter que se levantar para apagar a luz quando quisesse dormir. Isso em qualquer situação normal. Acontece que aquela não era uma situação normal, Sehun andava idiota e estúpido por causa de um garoto que transbordava a sensibilidade que nele faltava, tinha galanteios muito canalhas, um sorriso bonito e dedos que faziam um cafuné gostoso em sua cabeça.
Às vezes, quando escondia a cara na mesa para dormir durante a aula, Baekhyun não demonstrava qualquer timidez ao enfiar os dedos finos e compridos na sua cabeleira sedosa. Se Sehun pretendia dormir, teria que deixar aquela ideia de lado, porque só ficava com as pernas moles e o coração batendo meio errático dentro do peito, não tinha como dormir. Por fora, ele era como um gato: não gostava de mostrar que não queria que ele parasse com o carinho, então fingia que estava dormindo, estático, para que Baekhyun não pensasse em tirar a mão dali. Porém, por dentro, ele era um cachorro rabugento que se derretia com uma coçadinha atrás da orelha. Entretanto, ele ainda tinha um orgulho grande o bastante para não virar a barriga para cima e pedir por mais carinho.
E, com aquele aparelho massageando os ombros, ele só conseguia lembrar de como era mais satisfatório ter os dedos de Baekhyun fazendo pequenas trancinhas desleixadas em seu cabelo, para então desmanchá-las. Que merda, chegava a ser vergonhoso ele estar vulnerável daquele jeito diante de um mortal, sendo que, há duas semanas, sua maior certeza era que não deixaria um mortal se aproximar... Agora, estava daquele jeito, ficando extremamente bobo por uns carinhos na cabeça. Mas ele tinha algo bem claro: não passaria disso. Ele até podia ser um pouco amigo de Baekhyun, podia achar graça em suas cantadas ruins, podia ter uma vontade secreta de beijá-lo e podia, também, ficar todo boiola por um cafuné; mas não passaria disso. Ele ainda tinha noção do perigo que a proximidade de um humano comum poderia representar. E não era somente porque iria sofrer caso se apaixonasse por ele, pois não estava disposto a abrir mão dos seus poderes por ninguém. Mas também, porque ele tinha um segredo a zelar. Não era possível mensurar o caos que seria, caso Byun Baekhyun, um mortal, descobrisse que ele era um feiticeiro. Ele não confiava em ninguém para dividir algo tão importante como aquilo.
Por isso, em alguns momentos, ele acreditava ser melhor se afastar completamente; sem mais flertes, sem mais gracinhas, sem mais cafunés, sem nada. Porque Baekhyun escalava aquela montanha que os separava de pouquinho em pouquinho, como um alpinista que enfrentava o frio rigoroso do Everest, mas que sorria, porque estava determinado a chegar ao topo e ver o que havia no outro lado e parecia não se importar com o tempo que levaria, ou se as roupas não o aqueceriam o suficiente no percurso. Aquilo assustava Sehun, não de uma forma ruim, mas de uma forma intensa, porque ele jamais imaginou que alguém gostaria de ficar por perto, mesmo sendo recebido com tanta frieza. Ele queria fugir de todo e qualquer sentimento que pudesse surgir, porque ele sabia que seria muito fácil se apaixonar por Baekhyun.
Em sua caixa de som, tocava My Dilemma — não surpreendentemente, da Selena Gomez —, e aquilo conseguia traduzir um pouquinho do que Sehun sentia, mas muito mais do que ele gostaria de ouvir de alguém. Principalmente a parte que dizia “uma parte de mim quer você, a outra quer te esquecer”. E aquilo era, de um jeito terrivelmente caótico, muito condizente com a realidade. A parte de Sehun que queria ficar perto de Baekhyun era aquela que dizia que estava tudo bem receber uns carinhos, mas que o deixava se aproximar cada vez mais, bem aos pouquinhos. E a parte que queria esquecer Baekhyun, era aquela que fazia de tudo para não demonstrar qualquer reação positiva e que o respondia da forma mais afiada possível.
Sehun enfrentava um enorme dilema.
— Para de franzir a testa, garoto. — Cordelia saltou para perto do Oh e deu dois tapinhas em seu rosto. — Vai criar rugas.
— Ah, eu nem notei... — Ele esfregou seus olhos e massageou sua testa com cuidado. — É que eu ando muito nervoso.
— E o motivo, claro, é aquele menino de cabelo rosa... Não é? — A coelha desligou o travesseiro e o tirou dos ombros do rapaz. — Já rolou uns beijinhos?
— Não, claro que não! — respondeu. — E nem pode rolar.
— Por quê?
— É sério? — Sehun bufou frustrado. — E se eu me apaixonasse por ele? Seria uma dor desnecessária.
— Desculpa, Sehun, mas isso não faz sentido pra mim. — Ela pegou um dos biscoitos de chocolate que o garoto levou para o quarto e já começou a roer o doce. — Isso é por causa dos seus poderes?
— Sim! Eu não me imagino renunciando aos meus poderes para ficar com alguém... Independentemente de qualquer sentimento.
Cordelia suspirou e pulou até chegar perto da caixinha de som, que ainda tocava as músicas de Sehun, e a desligou. Precisava ter uma conversa séria com aquele moleque.
— Eu vou ser honesta com você. Eu entendo completamente que seus poderes são importantes para você, eles dizem quem você é. Eu me sinto assim também, porra, quantos coelhos podem falar? Isso é importante pra mim. — Sehun tomou um susto quando ela tirou, de uma das gavetas do armário, um pacote de cigarros, que ele não tinha ideia de que estava lá, o que confirmava a sua teoria, a princípio absurda, de que a sua coelha era fumante. Ele ficou em choque, sem saber se tomava aquilo dela ou se tentava entender como ela conseguiu aquilo, e ainda escondeu com as meias dele por sabe-se lá quanto tempo. A sua indignação aumentou ainda mais quando ela pegou o isqueiro que Sehun tinha guardado na escrivaninha. — Só que...
— Você tá ficando louca?! — interrompeu sua amiga-filha-madrinha. Ele tirou o cigarro e o isqueiro das patas de Cordelia antes que ela pudesse acender e colocou tudo no topo da estante, junto com o restante do maço, onde sabia que ela não conseguiria pegar, depois veria como jogar aquilo fora sem seus pais verem, porque é claro que eles não iriam acreditar se ele dissesse que aquilo pertencia à sua coelha. — Quer ter um câncer de pulmão e morrer?!
— Caso você não se lembre, graças a você, eu sou imortal. — Ela revirou os olhos e Sehun ainda tentava entender como diabos podia um coelho fumar. — Mas, como eu tava falando, Sehun, quando você se apaixona por alguém, algumas coisas que pareciam ser a sua maior prioridade acabam se tornando um pouco... Questionáveis. Você entende? É como naquelas histórias clichês em que os protagonistas querem ficar juntos, mas um deles está prestes a ir para o país em que sempre sonhou viver, então ele desiste de ir porque o amor que ele sente pela outra pessoa é mais forte e blá blá blá. Isso é real, cara!
— É, mas eu não tô em uma história clichê, eu tô na vida real!
— Não conte com isso... — Cordelia riu e roubou o telefone de Sehun para jogar Candy Crush. — Se você tem interesse naquele garoto, eu acho que você deve dar uma chance pra ele. Pode ser a melhor coisa que vai acontecer na sua vida, e eu tenho certeza de que você vai sofrer muito menos do que ficar se perguntando, quando você estiver velho e amargurado na sua imortalidade solitária, como poderia ter sido se você tivesse tentado. Vou te dizer o motivo pra você não se ver abrindo mão dos seus poderes, é porque você nunca sentiu o que é o amor de verdade, e, quando você sentir, vai perceber que uma questão dessas não é o mais importante para você ser feliz. Mas ainda é muito cedo pra você surtar pensando nisso, meu amigo, você conhece o garoto há duas semanas, vai que ele é fã do Justin Bieber?
— Isso seria imperdoável... — Ele brincou.
(...)
Setembro chegou e com ele as temperaturas começaram a baixar um pouco; o outono se aproximava. Sehun estava bem, sua cabeça estava um pouquinho mais no lugar. Ele já podia trocar mais de três palavras com Baekhyun sem ficar vermelho ou ameaçar dar um soco nele na saída — normalmente isso acontecia depois de cinco minutos de conversa e não passava de uma forma de manter a pose, porque ele não conseguiria dar um único tapa naquele rostinho bonito do Byun, palavras de Sehun para si mesmo. Porém, conversavam mais quando precisavam de ajuda em alguma matéria. Às vezes em matemática, porque Sehun tinha um pouquinho de dificuldade, e Baekhyun era incrivelmente bom, portanto, a ajuda era bem-vinda. Só que sempre terminava com o baixinho fazendo alguma piada sobre somarem suas bocas e multiplicarem beijos, o que resultava em um Sehun vermelho seguido de um “Cala a boca, Baekhyun!”. E, às vezes, era em química, porque não é nem preciso dizer que um feiticeiro aplicado seria excelente naquela disciplina, e ele não se incomodava em ajudar Baekhyun. Porém, como já era de se imaginar, terminava com o mais velho flertando com Sehun com o típico “E a química entre nós?”, o que, novamente, causava mais rubores e ameaças de agressão física.
E, claro, os cafunés continuaram e Sehun seguia fazendo o maior esforço para não demonstrar que ficava todo derretidinho.
No entanto, ele nunca se abria a respeito de sua vida. Não dizia o que ele gostava de ver na televisão, o que gostava de comer, o que gostava de ouvir, o que gostava de ler; não falava que tinha uma coelha de estimação, não falava sobre seus pais, não falava nem mesmo se estava tendo um bom dia. Mesmo recebendo perguntas incessantes, fugia de todas elas. Na verdade, não era como se ele se recusasse a responder, apenas se limitava a respostas monossilábicas, sim ou não, para qualquer assunto. Baekhyun, ao contrário, não calava a boca por um único segundo, era uma forma de encorajar Sehun a se soltar um pouquinho mais. O Byun dava detalhes até demais, sobre como gostava de comer a gema do ovo frito primeiro, com uma colher, para depois comer a clara; ele falava sobre como detestava coco porque a textura o incomodava, e outras coisas tão... Específicas. Também falava sobre as brigas de seus vizinhos por causa do terreno. Sehun gostava muito de ouvir sobre tudo, apesar de não dizer isso em voz alta. Um único porém o intrigava: Baekhyun nunca falava sobre sua família. E ele também não tinha coragem para perguntar.
Desde a primeira semana de setembro, a anterior, especificamente, eles se aproximaram muito. E isso, claro, atordoava Sehun, mas ele já não conseguia evitá-lo. Quando via aqueles olhos brilhando ou o sorriso de quem tinha aprontado algo, estava perdido, não tinha o que fazer. Ele gostava de ter Baekhyun por perto e apenas torcia para que ele não insistisse em escalar aquela maldita montanha até o final, ou em seguir garimpando aquela mina, porque estava começando a ficar sem defesas e acabaria deixando aquele cara entrar. E o estrago seria terrível e doloroso.
Aquela última semana foi leve, apesar de todos aqueles sentimentos bizarros bagunçando o coração de Sehun. Na sexta-feira, ele até tinha acordado mais feliz, mas isso jamais seria externado, a carranca sempre estava lá. Ele tinha uma reputação a manter! Quando chegou à escola, com Chanyeol, já foi abandonado, porque seu primo foi se enroscar com alguém atrás da escola e não quis dizer com quem. Foi engraçado, ele nunca tinha visto aquele moleque tão sem jeito por algo que parecia ser tão normal para ele. Então Sehun seguiu sozinho pelos corredores, distraído com a música que tocava em seus fones e com o livro de história em uma das mãos. Teria um teste mais tarde e ele era prudente o suficiente para revisar o conteúdo pelo menos um pouquinho antes da aula.
Mas o universo parecia agir bem contra a sua vontade e colocava Baekhyun em seu caminho nos piores momentos. Se ele pensasse mais uma única vez naquele garoto, iria entrar em colapso. Sem olhar por onde andava, acabou esbarrando no baixinho, que também era outro tapado que mexia no celular enquanto caminhava. Naquilo, o livro e o telefone de Sehun foram parar no chão, nem mesmo os fones conseguiram impedir a queda. Ele até tentou se abaixar para pegar suas coisas, mas Baekhyun foi mais rápido. Acontece que, para o seu azar, a tela acendeu quando o Byun segurou seu celular... E dava para ler o que ele estava ouvindo — e tinha que ser justamente Naturally, não é nem necessário dizer de quem. Aquele foi um péssimo dia para ter escolhido seus pops mais melosos para ouvir. E, como se não bastasse, o papel de parede era uma edição aesthetic da sua maior diva em tons de violeta. Sehun não soube o que fazer ao ter seu ladinho fanboy descoberto.
— Não sabia que você curtia esse tipo de música... — É óbvio que, ao ter uma brecha, ele tentaria desenvolver aquele assunto com o moreno. — Você tem meio cara de anarquista, ou esses caras que saem quebrando carros em protestos, alguma coisa assim.
— Baekhyun, fica quieto — pediu, voltando a andar e tentando não prestar tanta atenção no rosto que pegava fogo.
— Eu achava que você ouvia tipo Rage Against The Machine, Ramones, essas coisas... — Baekhyun foi caminhando ao lado do maior. — Nunca ia sonhar que você gosta da Selena Gomez.
— Cala a boca — Sehun rosnou.
— Na verdade, eu acho você fofo.
Não era a primeira vez que Baekhyun conseguia quebrar Sehun, e nem a última vez em que o mais novo não sabia como reagir. Então ele agarrou o outro pela gola da camiseta e o prensou contra o armário na parede. Aquilo acabou atraindo o olhar de algumas pessoas ao redor, mas o Oh não notou.
— Quem é que você tá chamando de fofo?! — esbravejou, e sentiu mais uma vez aquele friozinho na barriga quando Baekhyun deu risada.
— É a segunda vez que você faz isso comigo, Hunnie... Você tem uma pegada bem agressiva, eu gosto disso.
O primeiro impulso de Sehun foi largar Baekhyun, para então sair correndo e se abrigar no banheiro, enquanto xingava aquele moleque por deixá-lo tão idiota. Entretanto, assim que se virou, viu o diretor ali, os observando. Ele engoliu em seco, talvez estivesse diante de um grande problema. Porque alguém deve ter pensado que ele realmente iria bater no Byun, e por isso o diretor estava lá.
— Quero os dois na minha sala, agora mesmo.
(...)
É claro que Sehun estava puto. Muito puto. Para a sua sorte, o diretor nem mencionou falar com os seus pais, mas ele não acreditou quando Baekhyun disse a ele que estavam “apenas brincando” no corredor; na verdade, ele estava crente de que os garotos estavam brigando e nada o convenceria do contrário. Honestamente, havia um lado positivo na postura intransigente do diretor, isso significava que a escola tinha, de fato, tolerância zero a agressões, logo era um dos motivos para não se presenciar o bullying naquele ambiente. Porém, ainda assim, aquele castigo foi uma merda, com todas as letras. Eles teriam que limpar a sala de ginástica nas sextas-feiras, depois que os treinos terminassem, por três semanas. Provavelmente, isso tinha sido ideia do zelador... Nada contra o cara, Kyungsoo era muito gente boa. Mas ele era um pouquinho preguiçoso às vezes, e o diretor sempre tinha que mandar outra pessoa limpar aquela sala, porque se recusava a trabalhar em um lugar tão quente, dizia que era um local insalubre. E quando alguém pensava em insistir, ele respondia que era do sindicato e não precisava se submeter àquilo. Só que ele se trancava na mesma sala para fumar no horário de almoço. Entretanto, quando ele resolvia limpar algo, deixava um brinco, dificilmente alguém faria aquilo melhor do que ele.
E não tinha como fugir... A tarefa de limpar aquele lugar abafado e que fedia a suor juvenil seria de Sehun e Baekhyun pelas próximas três semanas. Começando naquela exata sexta-feira em que receberam o castigo. Como deveriam fazer isso depois que os treinos terminassem, Sehun teve que esperar Baekhyun na pista em que a equipe de atletismo treinava, ao redor do campo do time feminino de futebol — aquela escola era realmente rica em termos de esportes. E não era surpresa alguma aquele moleque ficar de gracinha o tempo inteiro. Sempre que podia, virava-se para a arquibancada e acenava de um jeito nada sutil para Sehun, que erguia a mão meio sem vontade para retribuir, enquanto mexia no telefone. De vez em quando, Baekhyun fazia um coração com as mãos e recebia um dedo médio em resposta.
O treino não chegou a levar uma hora e o Byun já correu na direção do amigo quando terminou. Ele parecia estar extremamente cansado, o suor intenso e a respiração pesada denunciavam isso, mas ele sorria. Sehun endireitou a coluna quando ele se sentou ao seu lado, e, ao olhar mais adiante, viu que todos da equipe estavam indo para o vestiário... Enquanto Baekhyun estava lá.
— Você não vai tomar banho? — perguntou despretensiosamente.
— Eu vou, mas eu espero todos saírem... Aquilo fede quando tá cheio de gente, prefiro ir depois. — Algo naquela resposta não convenceu o mais novo, mas ele preferiu não questionar.
Sehun ficou lá, vendo qualquer bobagem em seu telefone, enquanto ouvia os inúmeros assuntos aleatórios que Baekhyun sempre trazia. Demorou uns quinze minutos para o último garoto sair do vestiário, e assim o baixinho foi se banhar. O Oh ficou reflexivo durante o tempo em que aguardava pelo outro rapaz, perguntava-se sobre o real motivo para não tomar banho no vestiário enquanto havia mais gente lá, porque ele já ouviu Baekhyun falando o bastante para reconhecer quando ele estava sendo sincero ou não. Seria vergonha? Não, aquele carinha era bem desinibido, não devia ser isso. Não importa o quanto tentasse pensar, nenhuma opção parecia fazer sentido para Sehun. Ele deixou aquela história de lado quando o garoto voltou, e logo eles foram para a maldita sala de ginástica.
Sehun compreendeu totalmente o fato de Kyungsoo se recusar a trabalhar naquele lugar. Aquela sala não era só abafada, era um forno e fedia a mofo. Era meio óbvio que aquele ambiente seria um pesadelo, as janelas estavam fechadas e eram bloqueadas por tábuas de madeira, que já estavam podres. Como alguém conseguia treinar lá dentro? Nem mesmo com a temperatura mais fresca daquele dia foi possível não sentir calor, o moreno ficava angustiado só por estar lá dentro. Sendo inteligente, ele teve a iniciativa de acabar com aquele cheiro insuportável. Tirou a jaqueta de couro com cuidado e guardou dentro da mochila — não era idiota de deixar a peça que abrigava sua varinha dando sopa por aí.
— Você é fortinho, Hunnie... — Baekhyun brincou, gostou da visão que teve quando Sehun ficou apenas com uma regata branca; somada às calças jeans e aos coturnos, aumentava alguns pontinhos na sua skill de pitelzinho. — O que vai fazer?
— Abrir as janelas — respondeu simples, prestes a arrancar a primeira tábua, mas estranhou quando olhou para trás e viu que Baekhyun estava saltando na cama elástica. — Você vai ficar brincando?
— Não, vou ver você abrindo as janelas, me parece um entretenimento muito atraente. — Ele parou de pular e se sentou com as pernas dobradas no tatame. — Vai ser um apoio emocional.
Sehun somente revirou os olhos e voltou ao que pretendia fazer. Com muita força, conseguiu quebrar a madeira que bloqueava a primeira janela, porque não havia a menor possibilidade de desencaixá-la. Quando ele conseguiu, o Byun bateu palmas e comemorou. Sehun ficou puto, porque aquele palhaço já deveria estar limpando o chão. Sem pensar muito, foi atrás do esfregão, e então o levou para Baekhyun, que estava virando estrelinhas no tatame, quase como uma criança.
— Enche o balde com água, coloca um pouco de sabão e esfrega o chão — ordenou uma única vez, enquanto segurava o pulso de Baekhyun com cuidado e colocava o cabo do utensílio em sua mão. O atleta, entretanto, largou o esfregão e segurou Sehun pelos braços, para depois derrubá-lo com uma tranquinha nas pernas. Ele ficou abaixado ao lado do menino, que arregalou os olhos por conta da proximidade em que estavam.
— Sabia que também lutam judô aqui? — Baekhyun riu, mas acabou tomando um susto quando Sehun conseguiu derrubá-lo, assim invertendo a posição em que estavam. Outra vez sentiu aquele formigamento nos dedos, nunca entendia o motivo para isso acontecer quando estava muito perto ou encostava em Baekhyun, mas algo nele estimulava a sua magia, o que significava que algum poder ele tinha sobre Sehun.
— Se você não pegar aquela merda de esfregão agora mesmo, eu quebro a sua cara. — Dito isso, levantou-se e voltou para a janela, onde ainda tinha algumas tábuas para arrancar.
— Hunnie, posso fazer uma pergunta? — O menor desistiu de ficar enrolando nos aparelhos de ginástica e começou a limpar preguiçosamente o chão.
— Não.
— Vou fazer mesmo assim — respondeu, manuseando aquele esfregão com a menor disposição possível, estava com sono. — Por que você saiu da sua antiga escola assim... No meio do ano?
Sehun suspirou pesado, não teve força para quebrar mais madeira nenhuma quando aquilo surgiu à sua memória. Era algo que o chateava muito por alguns motivos. Sentia que era um incômodo para os seus pais por conta da quase expulsão, e isso colocava a questionar a sua capacidade até mesmo como feiticeiro, ele se via em uma posição de irresponsabilidade. E, de vez em quando, parecia que estar naquela escola era uma forma de lembrá-lo de sua falta de senso de convívio. Ele tinha dificuldades para controlar a raiva e até mesmo encontrava nela um meio de defesa emocional... Talvez seja algo que surgiu depois de se fechar tanto e fugir de criar vínculos com qualquer um que não fosse de sua família, ou que não fosse um feiticeiro. A terapia era algo realmente muito recomendável em sua situação, mas ele pediu a seus pais uma última chance e disse que, se não conseguisse melhorar, procuraria o melhor terapeuta do mundo mágico — não era doido de procurar ajuda com um mortal, quando sua vida se resumia à feitiçaria e ele não poderia falar sobre isso.
Apesar de todo o peso que aquela questão assumia, Sehun se sentiu confortável para adentrar superficialmente o assunto com Baekhyun.
— Eu brigava demais — disse, e foi até o amigo com o outro esfregão, iria limpar o chão junto a ele. — Então eu bati em um cara que gostava de me perturbar para fazer os amigos rirem, e ameaçaram me expulsar.
— Entendi... E nas duzentas vezes em que você disse que ia bater em mim, você realmente queria me bater ou...?
— Não, nunca quis bater em você de verdade. — Resolveu ser sincero. — Eu gosto de você.
Baekhyun ficou quietinho por alguns segundos, sorria bobo diante de um coração tão bom. Então decidiu dizer algo, mesmo sabendo que provavelmente seria xingado da forma mais hostil possível.
— Você pode ser bem brigão e estressado... Mas eu acho você um docinho.
Estranhamente, Sehun não respondeu absolutamente nada, nem mesmo resmungou. Ele só deixou que o cabelo escondesse a cara, absurdamente vermelha, enquanto continuava limpando o chão. Quem olhava não diria que ele estava um caos internamente, nem mesmo repararia nas mãos ligeiramente trêmulas. Aquele garoto estava em um certo nível de desespero, porque percebia que o alpinista tinha resistido à parte mais fria da montanha e estava cada vez mais próximo do topo; também era notável que o garimpeiro tinha atravessado a camada mais densa de pedra, e que estava muito perto de encontrar a ametista mais brilhante. Sehun se sentia vulnerável diante de Baekhyun, e isso o assustava, ao mesmo tempo em que trazia uma sensação que ele jamais experimentara; e que era indescritivelmente prazerosa.
O que lhe roubou a atenção, em meio a tamanho surto, foi a voz do motivo do surto, cantarolando animadamente para incomodá-lo.
— Well, I can dance with you, honey, if you think it’s funny. — Ele fez questão de cantar bem alto, perto do ouvido de Sehun. — Does your mother know that you’re out?
Sehun riu. Pela primeira vez perto de Baekhyun, não tentou segurar o riso. Achou engraçado o gosto questionável, porém totalmente apreciável. Abba era um de seus prazeres secretos. Mas eles tinham trabalho a fazer, então acertou a bunda do rapaz com o esfregão, para que ele ficasse quieto e voltasse a limpar o chão.
(...)
— Hunnie, eu tô cansado... — Baekhyun murmurou, então se agarrou à cintura de Sehun enquanto andavam e enterrou a cara em seu braço. Sehun ficou tenso, não era acostumado com esse negócio de contato físico, mas não era desagradável. — Me carrega nas suas costas.
Era outra sexta-feira, mais uma semana tinha se passado, eles estavam muito mais próximos do que Sehun achava que deveriam. Ele conseguia perceber isso pelo simples fato de sentir-se à vontade para dividir um pouquinho de sua vida com Baekhyun. De forma superficial, mas dividia. Contou sobre as brigas mais idiotas em que se meteu na outra escola, falou um pouquinho sobre os filmes que gostava de ver... Mas nunca era muita coisa além disso. E o Byun seguia falando sobre tudo, menos sobre a sua família. Às vezes, Sehun se perguntava se ele tinha problemas em casa, se tinha um relacionamento ruim com os pais, ou se não os tinha por perto... Era difícil deduzir, mas ele torcia para que não fosse nada grave, e talvez não fosse mesmo, porque Byun Baekhyun era alguém que transbordava despreocupações, podia ser que apenas não via muito interesse em falar sobre sua família.
Naquele dia, o treino da equipe de atletismo foi cancelado, a pista e o campo estavam sendo reformados para que a escola pudesse sediar as competições regionais. Então, sem terem muito o que fazer — Sehun não tinha o que fazer, de qualquer forma, a não ser olhar o treino de Baekhyun —, estavam indo ao ginásio. O time de basquete estava praticando, então Chanyeol estava lá. Por que não dar uma força ao moleque?
— Não vou te carregar.
— Ah, por favor, Hunnie... — insistiu.
— Não.
— Mas se eu ficar muito cansado depois de andar até o ginásio, eu não vou conseguir te ajudar a limpar a sala de ginástica.
— Você já não ajuda! Mais brinca nos aparelhos do que limpa alguma coisa...
— Pois então, se você me carregar, eu te ajudo!
— Vá à merda.
Assim que entraram no ginásio, Baekhyun já deu seu grito mais indiscreto para Chanyeol, que retribuiu com uma empolgação ainda maior. Sehun entendia porque eram melhores amigos, dividiam o mesmo neurônio. E ele acabou rindo um pouquinho quando o treinador os repreendeu pelo tumulto. O baixinho foi prudente e calou a boca, seguindo para a arquibancada ao lado de Sehun, mas não recebia muita atenção, já que o Oh estava concentrado em algo em seu telefone. Como ele não conseguia parar quieto por um único segundo, ficou balançando as pernas até, pelo menos, ganhar um olhar confuso do mais novo.
— Você tá bem? — perguntou Sehun.
— Que bonitinho... — Baekhyun apertou a bochecha do colega, que fechou os olhos e bufou em frustração. — Tá se preocupando comigo.
— Cala a boca.
— Olha aquilo lá. — Rapidamente mudou de assunto e apontou discretamente para um ponto específico do ginásio, onde Yifan tentava roubar a bola de basquete das mãos de Chanyeol —, aquele cara intimida o seu primo.
Sehun espremeu um pouco as pálpebras, na intenção de enxergar melhor o que se passava naquela partida, especificamente entre os dois rapazes. Chanyeol, enquanto tentava fugir da marcação do Wu, parecia estar nervoso, talvez até um pouquinho em pânico, o que acabou contribuindo para que ele acabasse perdendo a bola. Yifan, então, fez uma cesta. No intervalo que se iniciou, o garoto se aproximou de Chanyeol, sussurrou algo, bateu em sua bunda e saiu de perto. O capitão do time se sentou no chão e bagunçou os cabelos.
— O que foi isso? — Sehun cobriu a boca para esconder o riso. — Achei que Yifan fosse hétero.
— Hétero? Tem semanas que esses dois tão se agarrando atrás da escola, o time inteiro já sabe.
— Por que aquele maldito do Chanyeol escondeu isso de mim?!
— Ele acha que tá conseguindo esconder de todo mundo... — Baekhyun gargalhou. — Esses jovens de hoje são engraçados.
— Realmente — respondeu, e voltou a dar atenção ao seu celular, mas o teve arrancado pela mão do Byun. — O que foi, porra?
— E você, quando vai parar de tentar esconder que é apaixonadinho por mim, hein?
— Cala a boca, Baekhyun. — Sehun rosnou, então pegou seu telefone de volta.
— Você não me respondeu... — continuou pentelhando.
— Eu não sei nem de onde você tirou essa ideia estúpida, garoto.
Baekhyun, então, segurou o queixo do amigo com delicadeza e se inclinou sutilmente em sua direção. Não era a primeira vez que ele via o mais velho tão de perto, mas nunca se acostumaria com o quanto aquele moleque era bonito. Cada detalhe parecia ter sido desenhado para combinar perfeitamente, e aquela era uma beleza que intimidava Sehun. O pior era quando ele olhava para a boca rosada, com os lábios delineados e visivelmente macios, a vontade de beijar Baekhyun aumentava dolorosamente. Nessas situações, ele se via obrigado a desviar o olhar para qualquer outro lugar, enquanto prendia a respiração.
— Você não me engana, Hunnie.
— Quando é que você vai parar de me chamar assim? — Com a destra levemente trêmula, ele segurou o pulso do Byun para afastar a mão dele de seu queixo. Não podia permitir aquela proximidade quando o que mais tentava evitar era ceder ao desejo de beijá-lo. Porque, aí sim, tudo estaria perdido e ele estaria em um enorme problema.
— Quando eu puder te chamar de amorzinho — devolveu com um sorriso travesso e recebeu um empurrão fraco em resposta.
— Eu juro, Baekhyun, eu não conheço alguém mais insuportável do que você.
— Shh! — Ignorou a fala do maior, talvez nem tenha ouvido, e colocou o indicador na frente de seus lábios, sinalizando para que ele se calasse. — Fica quieto, Hunnie, o jogo já começou outra vez.
Sehun se sentia patético por agir daquele jeito com Baekhyun. Nada do que ele fazia conseguia sustentar a pose fria diante do serzinho de cabelos cor-de-rosa, era quase como se ele fosse capaz de ler os reais sentimentos do Oh e sabia exatamente o que fazer para provocar cada um deles. E, acima de tudo, sentia-se patético porque estava... Vulnerável, simplesmente isso. Era bem essa palavra que martelava em sua cabeça e que o fazia ter uma terrível dor no estômago quando escutava Vulnerable, da sua diva pop preferida. Porque ele era masoquista o suficiente para buscar algum refúgio daquela montanha-russa emocional justamente naquelas canções que diziam muito mais do que ele gostaria de ouvir. E aquela era um tapa na sua cara.
Com a mente turbulenta, Sehun preferiu passar o resto do tempo em silêncio, apenas olhando para Baekhyun, que assistia ao jogo distraidamente. Provavelmente, ele não sabia que suas expressões faciais traduziam muito bem as suas emoções a cada vez que alguém roubava a bola da mão de Chanyeol, ou quando o melhor amigo conseguia fazer uma cesta. Era engraçado, dava para entender muito bem tudo o que acontecia naquela partida apenas olhando para o rosto de Baekhyun.
Naquela tarde, o treino teve que terminar um pouquinho mais cedo, porque Zitao levou uma bolada na cara tão forte que acabou quebrando o nariz. Foi tenso de ver, porque deu para escutar o som dos seus ossos. Verdadeiramente angustiante. A maioria dos meninos do time foi ao vestiário, mas uns três permaneceram por lá, incluindo Yifan e Chanyeol. Sehun não sabe dizer o que deu na cabeça de Baekhyun, mas ele resolveu segurar seu pulso e puxá-lo pela arquibancada, até chegarem ao Park.
— Grande jogo, meu amigo! — Bateu nas costas do loiro. — Será que dá pra você me emprestar a bola?
— Ei, isso aqui é um instrumento sério, Byun! Pra que você quer?
— Pra fazer uma aposta com ele! — Sorrindo como uma criança arteira, ele apontou para Sehun, que franziu o cenho em confusão. — E preciso que você seja o nosso crupiê.
— Ah, então tudo bem! — Chanyeol jogou a bola para o amigo. — Qual vai ser a aposta?
— Que história é essa?! — Sehun esbravejou. — Eu não concordei com isso não!
— Nessa escola não se rejeita uma aposta, Sehun... — Ele se aproximou do primo e tocou em seu ombro, tentando falar de um jeito bem imponente, mas apenas pareceu um idiota. — Você pode se tornar um bichinho de estimação.
— Vocês dois estão assistindo animes demais, eu não tenho nada pra apostar com ninguém.
— Aí é que você se engana, Hunnie! — Baekhyun estava empolgado demais, o que era mais um sinal dado a Sehun para que ele fugisse daquela ideia. — Vai ser bem simples, nós dois vamos tentar fazer cestas, quantas vezes quisermos, quem conseguir fazer dez cestas em menos tempo, ganha.
— E o que eu ganho com isso?
— Se eu ganhar, você me paga um sorvetinho quando terminarmos de limpar a sala de ginástica. Se você ganhar, eu te pago um sorvetinho.
— Não quero.
— Tá com medo de perder, é? — O baixinho riu. — Eu nem sou do time de basquete!
— Eu não ligo, não quero jogar isso.
Havia um motivo gritante para que Sehun não aceitasse aquela aposta. E era mais do que esperado, ter um encontro com Byun Baekhyun só daria uma abertura ainda maior para aquilo que ele mais precisava evitar... Criar vínculos. Certo, ele já tinha uma proximidade com aquele garoto, isso era inegável, mas avançar ainda mais seria perigoso, aumentaria drasticamente as chances de Sehun acabar se apaixonando. E apaixonar-se por um mortal ainda era o maior dos seus pavores.
— Faça isso pela Selena Gomez! — Baekhyun insistiu.
— O que a Selena Gomez tem a ver com isso, seu idiota?
— Se você não jogar, vou automaticamente entender que você é fã do Justin Bieber.
Aquilo parecia não fazer sentido — de fato, não fazia —, mas Sehun conhecia aquele rapaz o suficiente para saber que ele o perturbaria por, pelo menos, uma semana com essa história de ser fã do Justin Bieber. O Oh teve que pensar, dentro de poucos segundos, em uma estratégia extremamente complexa para lidar com a situação. E começaria pelo seu poder de negociação.
— Eu jogo com você. Mas, se eu ganhar, eu vou para a minha casa sozinho pra dormir, sem sorvete.
— Tudo bem!
— E pode ir jogando aí, eu vou dar uma mijada e já volto.
Sehun foi correndo para o banheiro mais próximo, precisava se esconder para fazer aquilo que pretendia. É óbvio que ele achava uma irresponsabilidade imensurável utilizar a magia em espaços públicos, mas ele não tinha mais a que recorrer. Porém, também não era como se ele fosse estúpido o suficiente para deixar que alguém percebesse qualquer coisa atípica. Até mesmo seu jeito de correr foi calculadíssimo, para que acreditassem que ele estava apertado. Sehun era um garoto muito inteligente, não duvide disso jamais. Por sorte, estava sozinho, já que todos os atletas estavam no vestiário tomando banho. Então, ele respirou fundo e tirou a varinha do bolso da sua jaqueta. Ele precisava ficar atento e aguardar. Para não ser pego no pulo, trancou a porta do banheiro e depois subiu na bancada da pia para espiar pela janela. Baekhyun era bom naquilo, e isso o deixava verdadeiramente puto. Sehun tinha que esperar até que ele acertasse a última cesta, para então fazer o que pretendia.
— Calanan Canises — recitou o feitiço e agitou sua varinha, no momento em que a bola atravessou a cesta de basquete, assim não notariam o abalo no objeto por conta da magia lançada.
Aquele feitiço tinha a função específica de fazer com que a bola acertasse no local desejado quando arremessada, por isso precisava aguardar que Baekhyun terminasse de jogar para lançá-lo. Dessa forma, Sehun certamente acertaria todos os lances, mesmo que mirasse muito mal por conta da pressa. Aquilo era trapaça? Sim, mas ele não se importava. Como diriam os personagens de uma importantíssima obra japonesa de ficção: a culpa é de quem foi enganado. E ele preferia muito mais trair seus princípios enviesando uma bola de basquete do que traí-los beijando Byun Baekhyun. Sehun saiu do banheiro como se nada tivesse acontecido e voltou para a quadra. Chanyeol já estava pronto para cronometrar o tempo com seu telefone e Yifan já segurava a bola para o Oh. Não é necessário dizer que ele acertou absolutamente em todas as suas tentativas. E, assim, ganhou de Baekhyun por uma diferença de cinquenta segundos. Como ele não era louco de deixar uma bola viciada disponível para que os atletas treinassem, ele precisava dar um jeito de torná-la inutilizável. E como era conveniente carregar um canivete no bolso da jaqueta.
— Caras, o diretor tá vindo pra cá muito puto! — Ele gritou, apontando para a entrada do ginásio.
No tempo em que os garotos se distraíram tentando localizar o diretor, Sehun usou seu canivete para rasgar a bola de basquete e, então, a jogou na direção da arquibancada; ela acabou se perdendo entre os bancos altos de madeira. Entretanto, ele não foi cuidadoso o suficiente para se certificar de que ninguém estava olhando... Porque Chanyeol conhecia muito bem aquele feitiço, assim como conhecia seu primo bem o bastante para saber que ele era absolutamente péssimo no basquete, então ele ficou bem atento a cada passo do moreno e não caiu naquele truque de distração barato. Ele viu Sehun rasgando a bola.
— É o treinador, seu míope! — Baekhyun deu risada e Yifan arregalou os olhos depois de ver aquele cara pequeno não tendo qualquer hesitação em responder o cara mais amedrontador da escola daquela forma.
— Ah, eles são parecidos — respondeu Sehun.
Chanyeol jogou a sua mochila nas costas e esperou que os outros dois colegas de time fossem para o vestiário, e que Baekhyun se distraísse com o apito do treinador que estava perdido em cima do banco, então puxou seu primo pelo braço, até a sala em que os troféus das equipes da escola eram guardados. Sehun já tinha uma noção do que se tratava, mas escolheu se fazer de desentendido.
— Eu sei o que você fez — declarou o Park.
— Eu ganhei uma aposta, e daí?
— Não tenta mentir pra mim, eu te conheço! — Apontou o dedo no rosto do mais novo. — Você lançou um feitiço naquela bola.
— E qual é o problema? — Sehun deu de ombros. — Era só um jogo idiota... Você não tem a decência de não usar magia pra ir bem nos jogos de verdade? Eu também tenho.
— Por que você fez isso?
— Porque eu não quero pagar sorvete pra ninguém...?
— Ah, é mesmo? Se você quer usar magia, então vamos usar magia. — Chanyeol tirou a varinha de dentro de sua mochila, pronto para recitar um encantamento. — Uns têm a bondade, outros a maldade, agora todos falam a verdade!
Aquele encantamento servia para fazer com que as pessoas dissessem exatamente o que estavam pensando. Quando jogado em um mortal, podia durar por dias, mas, em um feiticeiro, durava poucos minutos. E Sehun não poderia ter ficado mais puto com isso.
— Por que você fez isso? — repetiu a pergunta.
— Porque eu tenho medo de me apaixonar por aquele garoto e acabar sofrendo por não querer abrir mão dos meus poderes.
Chanyeol riu, e o menor nunca quis tanto sumir de algum lugar.
— Se aquele garoto se apaixonar por você, Sehun, você vai precisar de muito mais do que magia pra fazer ele se afastar.
O loiro saiu da sala e Sehun, indignado, foi atrás dele. Chanyeol precisava reverter aquele encantamento antes que alguém perguntasse algo comprometedor. E se, por acaso, ele abrisse a boca para Baekhyun e dissesse tudo aquilo que não podia dizer? Que era um idiota boiola por ele e que queria muito dar uns pegas nele, mas que não fazia isso porque tinha certeza de que iria acabar se apaixonando, e isso seria um grande problema porque, pasme, ele era um feiticeiro, e feiticeiros não podem ficar com mortais. Ele iria entrar em colapso se Chanyeol não revertesse aquilo.
— Ei, seu desgraçado! Você não vai reverter o encantamento?
— Por quê? Vai passar em uns dois minutinhos.
— Seu idiota, eu tenho que ir pra sala de ginástica com Baekhyun.
— É mesmo, é? — O Park continuou andando, Yifan o esperava na entrada do ginásio. — Boa sorte com isso!
Sehun, de tão irritado, chutou a parede e acabou resmungando de dor, porque foi otário e não pensou que poderia acabar machucando o seu pé. Logo depois, Baekhyun apareceu com as suas mochilas e o mais alto apenas se perguntava como aquele cara conseguia sorrir o tempo inteiro, era como se não tivesse uma única frustração em sua vida. Como alguém que estava prestes a limpar a sala de ginástica podia estar tão feliz?
— Obrigado. — Sehun disse baixo, e colocou sua mochila nas costas.
— De nada, Hunnie! — Novamente, Baekhyun o chamava com aquele apelido, mas o motivo para o Oh ficar tão vermelho não foi esse. Acontece que o baixinho segurou sua mão e o puxou para fora do ginásio. Talvez ele tenha feito isso sem notar, e provavelmente não notaria. Para a sorte de Sehun, Baekhyun andava mais a frente, então não pôde ver o pequeno sorriso que surgiu no rosto do moreno. Aquele negócio de sentir borboletas na barriga era tão estúpido. — Tô pensando em entrar para o time de basquete, assim eu posso te vencer na próxima. Será que eu ia ficar bonito com aquele uniforme?
Em dias normais, Sehun o mandaria calar a boca, ou então responderia com um belo e firme “Como é que eu vou saber?”. Mas havia um pequeno probleminha... Ele ainda estava sob o efeito do encantamento de Chanyeol e não podia controlar a própria língua.
— Você tá sempre bonito.
Baekhyun parou de andar e se virou para trás, com um sorriso ainda maior do que o normal, seus olhos sorriam juntos.
— Que bonitinho! — Ele apertou uma das bochechas de Sehun, e deixou um beijo na outra. O feiticeiro, claro, corou mais e mais a cada segundo. Então Baekhyun voltou a andar, puxando o menino junto. — Agora eu tenho um bad boy fã de diva pop de estimação!
— Cala a boca, Baekhyun...
— Hunnie, posso cantar uma música pra você?
— Não.
— Deixa, vai... Você vai gostar — insistiu.
— Não.
— Tá bem, vou cantar! — Ele ignorou totalmente a resposta do mais novo, que suspirou e revirou os olhos. — If you change your mind...
— Baekhyun... Não. — Sehun tentou fazer Baekhyun ficar quieto, não porque não gostava de ouvi-lo cantando, mas sim porque ficaria boiolinha. Na verdade, quando ele vinha com aquela conversa de cantar para Sehun, sempre deixava teatral ao nível de uma perfeita serenata.
— I’m the first in line.
— Abba? De novo isso?
— Honey I’m still free… — cantou bem pertinho do ouvido de Sehun, e ganhou um empurrão fraco. — Take a chance on me!
— Baekhyun, o que você quer pra calar a boca? — O garoto parou de andar e segurou o menor pelos dois ombros.
— Não sou um homem facilmente vendido, faça a sua proposta, Oh Sehunnie...
— Por que você sempre tem que me chamar assim?! — Sehun até quis discutir, mas sabia que não adiantaria nada, então apenas respirou fundo e tentou ser diplomático. — Se você ficar sem cantar uma única música até terminarmos de limpar a sala de ginástica, eu te pago um sorvete.
É, ele desperdiçaria todo o trabalho que teve para ganhar aquela aposta.
— Não. — Baekhyun cruzou os braços e virou a cara com um biquinho emburrado. — Você rejeitou a minha companhia para tomar um sorvete mais cedo, então não quero.
Às vezes não havia jeito de compreender o que se passava na cabeça de Byun Baekhyun.
— Eu desisto de tentar te entender, garoto. O que você quer?
— Você é péssimo com negócios, cara. — Ele se afastou de Sehun e o encarou por alguns segundos, com muito cuidado. — Vira de costas pra mim e tira a mochila.
— Por quê?
— Só faz, Hunnie! — Um pouco sem vontade, ele fez o que Baekhyun disse, ainda tentando ter alguma ideia do que estava acontecendo. — Fica com as pernas retas e inclina seu tronco pra frente, como se você fosse tocar os seus pés.
— Que porra é essa...? — Novamente, Sehun seguiu as instruções, então percebeu que estava com a bunda virada para o Byun. — O que é isso, seu idiota?! Você tá querendo olhar pra minha bunda?
— Adoraria, mas não é esse o intuito agora. — Sem qualquer aviso prévio, ele correu e saltou em cima das costas do rapaz, que quase caiu no chão, mas conseguiu se equilibrar com Baekhyun em sua garupa. — Se você me carregar até a sala de ginástica, eu fico duas horas sem cantar absolutamente nada.
— Tá, que seja! — De alguma forma, Sehun conseguiu pegar a sua mochila no chão, e o menino em suas costas, pelo menos, teve a gentileza de segurá-la.
— O seu cabelo é muito cheiroso. — Baekhyun cheirou a cabeça do amigo, então sorriu, fechou os olhos e se encostou nele. Sehun era um exemplo perfeito daquilo que era tão fofo que dava vontade de apertar.
— Cala a boca, Baekhyun — resmungou, sentindo uma acelerada violenta dentro do peito.
(...)
Aquela manhã estava mais fria do que o comum, mas Sehun sentiu o corpo inteiro esquentar quando as mãos de Baekhyun seguraram a sua cintura e o empurraram até que suas costas tocassem a parede. Sua respiração falhou por alguns segundos e suas pernas ficaram tão moles que ele sentiu que poderia cair a qualquer momento. O sorriso do Byun, daquela vez, não era minimamente travesso ou brincalhão, era o mais tendencioso que ele poderia mostrar. Sehun tremeu, nunca estaria totalmente preparado para aquela imagem, e aquele sorriso estar tão perto de sua boca não ajudava em nada. Tudo só aumentava a sensação de estar sendo um verdadeiro idiota, mas ele já não conseguia mais achar aquele sentimento maior do que a vontade de beijar aquele garoto. Essa sim era terrível, e o consumia absurdamente.
— Como eu vim parar aqui...? — Sehun sussurrou, suas mãos agarraram à gola da camiseta de Baekhyun e seus olhos se fecharam, ele não tinha forças para continuar encarando o mais velho. — Por que eu tô aqui com você? Não era pra eu ter deixado isso acontecer.
— Porque você quer, não precisa ter vergonha.
— Eu não devia... Eu sou um imbecil.
— Shh...
Com a mão serpenteando estrategicamente pelo corpo do moreno, os dedos de Baekhyun, por fim, acabaram se embrenhando entre os cabelos compridos e macios. Justamente o ponto fraco de Sehun, que se sentiu à beira de uma queda perigosíssima quando os lábios alheios encontraram os seus. Aquilo era devastador, e a primeira forma que ele encontrou para conseguir lidar com algo tão intenso foi apertando os ombros de Baekhyun. Em meio ao beijo, o que mais derretia o Oh era aquele carinho que ganhava na cabeça. Era o mais real daquilo tudo, aquilo que ele sentia com maior precisão... Porque foi a única coisa que permaneceu quando ele abriu os olhos e o sonho se findou. Ele estava na sala de aula, apertando firmemente as bordas de sua mesa, enquanto — não surpreendentemente — ganhava mais um dos cafunés de Byun Baekhyun, que estava distraído com algum livro e, ainda assim, não tirava a mão da sua cabeça.
— Porra — resmungou.
Olhando ao redor, pôde ver que o professor de literatura estava lá, o que significava que ele tinha apagado por mais de uma hora. Entretanto, era quase como se não houvesse um professor lá dentro, porque estava um verdadeiro caos. Poucos alunos estavam lendo o que o velho tinha mandado, a maioria gritava e atirava bolinhas de papel entre si. Mas também não era como se o professor desse a mínima, ele estava muito bem entretido com uma revista sobre máquinas agrícolas. Nada muito atípico para uma quarta-feira.
Tinha adentrado um sono profundo naquela aula e, talvez, isso tenha acontecido porque ficou as últimas noites conversando com Baekhyun até tarde por mensagem. Nada íntimo, apenas o Byun mandando vídeos de um humor de qualidade duvidosa, as piores cantadas possíveis, e Sehun retribuindo com xingamentos e ameaças. Não o culpe, nas raras vezes em que ele tinha coragem para desenvolver um assunto com Baekhyun, ele não sabia fazer isso; então simplesmente pedia ajuda em questões de matemática, mesmo não precisando, ou oferecia ajuda com a tarefa de química. Entretanto, não bastava ter apagado na aula como nunca, ele ainda sentiu algo estranho em seu cabelo — além dos dedos do baixinho, porque ele já estava mais do que acostumado com a presença deles ali. Sendo inteligente, utilizou o celular como espelho e viu que aquele maldito sentado à sua frente fez diversas chuquinhas em seu cabelo, usando elásticos de dinheiro.
— Baekhyun, é sério, eu ainda vou te dar um soco! — Tirou a mão dele de sua cabeça, então começou a desfazer aquela obra de arte.
— Você acordou, Hunnie! — Ele sorriu, então largou o livro que lia e se virou completamente para o amigo. — Você ficou uma gracinha assim, sabia?
— Vá à merda.
— Eu concordo com ele, Sehun. — Chanyeol interveio. — Até tirei uma foto.
— Você o quê?! — Sehun bateu na mesa em surpresa.
O Park, então, tirou o telefone do bolso e enviou para o primo a fotografia que havia feito. Nela, Sehun estava adormecido sobre os livros, com a boca aberta e cheio de chuquinhas nos cabelos. Ele não pensou duas vezes antes de tirar proveito do primeiro momento de distração de Chanyeol para roubar o aparelho de sua mão e apagar a foto. Ele sabia rosnar de um jeito que repelia qualquer tentativa de recuperar o celular.
— Eu também tirei uma foto. — Baekhyun riu. — Você vai roubar o meu telefone também?
— Não... — O garoto resmungou, então tirou o último elástico que estava preso em seu cabelo, depois atirou todas as borrachas em Baekhyun.
— Você acorda tão bonitinho... — Sehun corou diante da fala do colega. — Com a carinha amassada, os olhos inchados...
— Cala a boca. — Ele murmurou, então enterrou a cara na mesa outra vez, usando seus braços como travesseiro.
Era possível dizer que Sehun queria voltar a dormir? Até era, porém não era aquilo que mais se aproximava de suas reais e maiores intenções. Dito isso, devemos considerar dois grandes fatores: em primeiro lugar, sabemos que Oh Sehun era um tímido incurável e que a sua necessidade de esconder qualquer traço de vulnerabilidade — sobretudo bochechas vermelhas — era gritante; sendo assim, aquela era uma forma muito conveniente de ocultar o rubor em seu rosto. O outro fator, igualmente importante, era que ele apreciava — porque se recusava a dizer que amava, mesmo sendo essa a verdade — muito os cafunés que recebia de Baekhyun, cada um deles; e deixar a cabeleira exposta daquela forma era sempre um convite para o Byun enterrar seus dedos ali. A combinação desses dois pontos criava um terceiro fator: para Sehun, era impensável demonstrar que gostava tanto daquilo. De jeito nenhum, ele tinha uma pose para manter, a imagem de alguém que rejeita carinho... Mas que, no fundo, fica completamente perdido quando o recebe.
O que era mais conveniente do que fingir que dormia, portanto?
No entanto, ele não foi tão convincente assim, porque foi questão de poucos minutos para Baekhyun se aproximar e sussurrar em seu ouvido algo que o afetou durante o resto do dia:
— Eu sei que você não tá dormindo.
(...)
Justo quando Sehun se acostumou a esperar o fim dos treinos para limpar a sala de ginástica com Baekhyun, aquela seria a última sexta-feira em que o fariam. Ele não queria confessar, de forma alguma, que sentiria falta daqueles momentos. Não queria confessar que sentiria falta de ouvir Baekhyun cantando para perturbá-lo, nem que sentiria falta de vê-lo procrastinando o trabalho para ficar brincando com aquelas enormes bolas de pilates. Ele já sofria por não poder aproveitar aquelas situações como realmente gostaria, queria poder entregar a si mesmo, mas não podia... Era a porta para uma dor futura que ele não precisava atravessar. Portanto, iria se contentar com a amizade do Byun e apreciaria aquela tarde em silêncio, apenas para se recordar depois como era irritante ter que limpar praticamente tudo sozinho, porque aquele moleque só sabia correr, pular, cantar e gritar. Na verdade, ele até ajudava de vez em quando... Depois de muita insistência da parte de Sehun, é claro. De qualquer forma, era muito bom.
Novamente, estava na arquibancada do campo, observando o treino de atletismo e, vez ou outra, torcendo para um dos times em que a equipe de futebol feminino se dividiu para jogar. Baekhyun, sendo discreto como sempre, acenava e fazia inúmeros corações para o amigo, que sempre retribuía com um lindo dedo do meio, nada fora da normalidade. E a treinadora teve que puxar a orelha do garoto várias vezes para que ele se concentrasse no treino e parasse de ficar chamando a atenção de Sehun. Foi engraçado ver Baekhyun encolhendo os ombros assustado e correndo para fazer o que ela mandava.
Sehun não se orgulhava em admitir isso, mas aproveitou aquela horinha para adiantar as tarefas de química. Só que... Por que não se orgulhar disso? Era uma demonstração da dedicação do Oh, mesmo que ele dormisse em quase todas as aulas. Sim, com certeza era um ótimo exemplo de proatividade. Entretanto, o que não o orgulhava era o motivo para fazer aquilo. Seus últimos motivos para absolutamente tudo o que tem feito nas últimas semanas se resumia facilmente em duas palavras: Byun Baekhyun. Ele tomava uma fração da sua mente. E, naquela tarde, ele adiantava as tarefas de química com a desculpa de mandar uma mensagem à noite perguntando se ele queria as respostas. Sehun não tinha nem a decência de admitir para si mesmo que encontrava as mínimas desculpas para falar com Baekhyun porque gostava dele.
Ele também aproveitou a ausência do baixinho e a sua mochila dando sopa logo ao lado para finalmente se vingar de todos os pintos que aquele maldito desenhou em seus livros. Segurando o riso, ele pegou o caderno de Baekhyun e desenhou um pinto pequenininho em cada uma das folhas. Fez a lápis, mas o outro definitivamente não teria paciência para apagar página por página. Talvez ele pensasse duas vezes antes de encher seus livros com desenhos obscenos novamente. Parecia até uma criança de dez anos que ria da palavra pênis no livro de ciências. Além do mais, seria engraçado ver Baekhyun demorando a notar todas aquelas surpresinhas no meio do seu caderno de inglês.
Sehun já tinha guardado a arma do crime na mochila do mais velho, e agiu como se nada tivesse acontecido, quando o treino acabou e ele andou em sua direção. Baekhyun estava extremamente suado e sua pele brilhava de um jeito tão bonito que o Oh, estranhamente, tinha vontade de passar os dedos pelo pescoço do rapaz. Não havia nenhum motivo racional, era apenas um impulso. Ele sentiu que, se não tivesse colocado as mãos embaixo das coxas, teria feito o que pretendia sem nem perceber. Baekhyun se sentou ao seu lado e quase se afogou enquanto bebia desesperadamente a água fria em sua garrafa metálica.
Os outros garotos da equipe já tiraram as camisetas e foram correndo para o vestiário. Mesmo com as temperaturas diminuindo gradativamente, o calor que estavam sentindo após tanto esforço físico devia ser insuportável. Porém, novamente, Baekhyun continuou lá, ao lado de Sehun, esperando que todos saíssem antes de ir tomar o seu banho. Ele resolveu testar o menor mais uma vez, ainda não conseguia se convencer com a resposta que recebeu no outro dia. Entretanto, se capturasse qualquer sinal de desconforto, jamais tocaria no assunto novamente.
— Por que você não toma banho com os outros?
— O vestiário fica muito cheio, aí tenho que ficar esperando em um lugar que não tem nem espaço pra trocar de roupa direito. Prefiro esperar aqui.
Sehun ficou quieto, sabia que ele não estava sendo honesto, porque... Bem, sua resposta foi outra há duas semanas. Mas o moreno não ousaria questioná-lo sobre, não queria constrangê-lo por algo que nem mesmo era da sua conta. No entanto, uma nova preocupação surgiu: e se havia acontecido algo para ele não querer ficar no vestiário na presença da equipe? Quer dizer, Sehun não desconfiava de nada muito grave, Baekhyun estava muito longe de ser alguém que se calava quando outra pessoa o fazia algum mal. A suposição era mais sobre alguma briga ou desentendimento. Independentemente do que era, ele não se sentia à vontade para falar sobre isso com Sehun, ou teria dito a verdade. O que restava ao Oh, portanto, era respeitar e não voltar a perguntar a respeito.
Eles ficaram quietos por mais tempo do que parecia confortável. E aquilo foi angustiante para Sehun.
— O que você tava fazendo com o meu caderno, Hunnie? — O baixinho soltou despretensiosamente, quebrando o silêncio entre os dois.
— Eu não tava com o seu caderno.
— Tava sim, eu vi. — Ele riu.
— Eu desenhei pintos nele.
— Mas que filho da puta... — Baekhyun mostrou sua melhor cara de indignação. — Eu vou tirar o coração que eu coloquei no seu contato.
— Como se eu desse a mínima pra isso. — Sehun espreguiçou os braços e apoiou as costas no degrau atrás de si.
— Eu sei que no fundo, bem no fundinho, você me ama. — Ele provocou, então ficou em pé, seus colegas começaram a sair do vestiário e ele seria o próximo a ir para lá.
Sehun bufou, frustrado, assim que percebeu que Baekhyun estava em uma distância segura. Ele se sentia extremamente imbecil por não saber nem como agir direito na presença daquele menino. Por Deus, ele teve que trazer novamente um assunto que ele já deveria ter entendido, em um primeiro momento, que não deixava o outro confortável. Sehun só queria parecer um completo babaca para Baekhyun, mas tinha medo de que fosse possível concluir isso através de suas atitudes insensíveis e grosseiras; o que pode soar extremamente contraditório... É que ele queria ser visto como um babaca, mas não queria machucar Baekhyun no caminho. Ele queria consertar aquela situação do melhor jeito possível... E sabia que não conseguiria por meio de palavras, só de pensar em expressar sentimentos sua pressão caía. Resolveu, então, que o faria por meio de atitudes, pequenas gentilezas. Portanto, ficou atento a qualquer oportunidade que poderia surgir para que ele demonstrasse o mínimo de consideração em relação a Baekhyun — por mais que não pudesse tê-lo do jeito que realmente gostaria, pelo menos preservaria aquela amizade.
E a tal oportunidade pareceu ter caído do céu quando o celular do Byun começou a tocar dentro da mochila. Já tinha uns cinco minutos que ele tinha entrado do vestiário e talvez ele não voltasse a tempo de atender. Sehun verificou quem o ligava, estava escrito mãe. Com a possibilidade de ser algo importante, e querendo ser gentil, ele desceu a arquibancada com pressa, pretendia levar o telefone até o amigo. Acontece que a chamada acabou antes mesmo que ele pudesse se aproximar da porta do vestiário. Mesmo assim, daria o aparelho a ele e o avisaria que sua mãe tinha ligado. Lidaria depois com os apertos que receberia na bochecha por ter se preocupado com ele.
O rapaz não pensou muito antes de entrar lá, pronto para chamar pelo nome do mais velho. Porém, assim que deu um passo além da parede que ficava ao lado da porta para impedir a visão do lado de fora, Sehun paralisou no mesmo lugar. Ele tinha a imagem de Baekhyun de costas para si, procurando algo em seu armário, já de calças jeans, mas sem camiseta. Sua falta de reação não foi por observar o corpo do garoto em si — que era muito atraente, aliás —, ele nem prestou atenção muito bem. O que roubou o seu foco foi algo que ele jamais viu antes, em todos esses anos vivendo entre mortais. Baekhyun tinha duas cicatrizes verticais nas costas, uma de cada lado, eram realmente grandes, mas isso não era o mais chocante de tudo... Elas brilhavam. E não era algo sutil, como um pouquinho de glitter nas mãos das crianças da educação infantil depois de encherem uma cartolina com o pó dourado. Não. As cicatrizes do Byun brilhavam intensamente, como se vários diamantes emitissem a própria luz. Mas era um brilho azul, e isso só tornava tudo mais bonito.
Era lindo... Foi a visão mais bonita que Sehun já teve em sua vida. Baekhyun era divino.
Era como se seus dedos sentissem o impulso de tocar as costas de Baekhyun, algo o atraía, tal qual uma força magnética. Eles estavam começando a ficar quentes e a formigar muito intensamente, como quando ele usava algum feitiço, mas era muito mais forte do que todas as outras vezes em que sentiu algo assim perto de Baekhyun. Sehun perdia um pouco o controle de seus poderes quando alguma emoção dentro de si o dominava e ele estava exposto a algum tipo de desequilíbrio químico — geralmente exposição à magia externa —, ficava muito mais forte do que o normal. É comum que feiticeiros, até os doze anos de idade, não tenham muito controle sobre a magia, seus poderes são instáveis até que eles se desenvolvam completamente, então muitos precisam de luvas ou até pulseiras de plástico para inibi-los — não há um motivo conhecido, mas o plástico impedia que feiticeiros liberassem seus poderes. Acontece que essa mesma instabilidade tomava conta do Oh quando ele se encontrava em situações emocionais como aquela, e algo em seu entorno parecia estimular a sua magia mais do que nunca. Ele não sabia dizer o que estava sentindo, mas foi forte o suficiente para os seus olhos marejarem e sua boca ficar seca.
Acidentalmente, o poder que saiu de suas mãos acertou a porta de um outro armário que estava aberto, fazendo com que ele se fechasse abruptamente. Com o som alto e repentino, Baekhyun acabou pulando por conta do susto, talvez tenha pensado que foi culpa do vento. Sehun teve agilidade o suficiente para sair correndo do vestiário sem ser notado. Então buscou a parede mais próxima, onde apoiou o corpo e encostou sua cabeça. Uma única lágrima rolou por seu rosto, enquanto ele segurava o celular do baixinho com força contra o próprio peito. Sentia seu coração acelerado como nunca, chegava a doer. Ele só conseguia pensar no quanto estava ferrado.
Porque algo que Baekhyun o fez sentir era tão forte a ponto de desestabilizar a magia que existia nele.
Demorou quase um minuto, mas Sehun conseguiu se acalmar. Sua respiração se normalizou e ele conseguiu recuperar o controle sobre os seus poderes. Depois disso, voltou para a arquibancada, pois preferia não estar por perto quando Baekhyun saísse do vestiário. Não sabia como reagiria ao encontrar seu rosto e precisava de tempo para processar aquilo. Sehun não sabia explicar absolutamente nada do que viu lá dentro, e, vindo de um feiticeiro, é porque se tratava de algo muito além da sua compreensão já expandida. Seu coração ainda saltava violentamente e diversos questionamentos surgiam em sua mente. O que aquilo significava? Pensando um pouco mais, ele chegou à conclusão de que Baekhyun provavelmente não tomava banho na presença dos colegas porque queria esconder as cicatrizes.
Talvez, por ser uma figura mística, considerada fictícia para qualquer humano comum, Sehun não teve medo do que viu, nem achou absurdo. Ele viu tanta beleza naquela particularidade do Byun... Doía saber que ele precisava esconder uma parte de si, porque ninguém naquele mundo teria qualquer capacidade de ver como o que era: algo belo.
Com seus pensamentos o atordoando, Sehun enterrou o rosto entre os joelhos, enquanto bagunçava os próprios cabelos. Ele reagiu dessa forma quando descobriu que era levemente vulnerável a Byun Baekhyun. Reagia assim novamente ao perceber que, na verdade, ele se encontrava totalmente à mercê daquele garoto. Tão afogado naquele loop em que explorava a própria situação totalmente fodida, ele gritou ao sentir uma mão tocando o seu ombro.
— Calma, Hunnie, o que aconteceu?! — Baekhyun se abaixou e tocou o rosto do mais novo com cuidado. — Por que você tá arrancando o seu cabelo?
Sehun não conseguiu dizer absolutamente nada, apenas continuou olhando para Baekhyun. Ele sabia que estava evidente que ele tinha chorado — o que ele nem sabia explicar o motivo para ter acontecido.
— Você tava chorando?! Tá tudo bem?!
— E-eu... — O moreno respirou fundo, esfregou os olhos, e então sentiu que podia dizer algo. — Eu bati o saco sem querer.
Quando o menor gargalhou, Sehun suspirou aliviado. Pelo menos uma mentira sua conseguiu soar convincente.
(...)
Sehun ficou quieto durante todo o trajeto até a sala de ginástica, mesmo sendo obrigado a carregar Baekhyun nas costas. Manteve-se calado, e voltou a responder o garoto com apenas sim ou não. Porém, daquela vez, não era na intenção de cravar qualquer afastamento, ou algo do tipo. Ele estava agindo daquele jeito porque não sabia como agir; confuso, mas era a grande verdade. Ele não sabia o que pensar sobre o que viu, além do êxtase que o deixou tão sensitivo diante de uma imagem tão bonita... Foi como se tivesse sentido tanta admiração que só queria enterrar a cara no seu travesseiro e chorar. Não havia palavra cabível para explicar o que ele experimentou. Foi algo que o desestabilizou de todas as formas possíveis, começando por seus poderes.
Sendo o feiticeiro aplicado que era, sabia como contornar imprevistos em relação à magia. Então ele carregava alguns anéis de plástico na mochila, eles eram transparentes, mas o suficiente para inibir um lançamento espontâneo de seus poderes. Ele os usaria pelo menos naquela tarde, enquanto estivesse perto de Baekhyun. Ainda estava muito emotivo e era melhor não arriscar. Provavelmente voltaria ao normal até segunda-feira. Nova lição: feiticeiros precisam ter um enorme controle sobre suas emoções. E ele aprendeu isso da forma mais intensa possível. Outra coisa que descobriu é que limpar podia ser uma excelente distração e fuga de pensamentos turbulentos.
Ele cumpria com a sua função tranquilamente, mais calmo, com os cabelos amarradinhos de um jeito quase desleixado e os braços pálidos e quase sem músculos expostos pela regata branca. Eis que uma voz o arranca de sua própria mente.
— Hunnie, por que você está tão quieto? — Baekhyun findou o silêncio que já durava quase uma hora, sem parar de esfregar o chão. — Seu saco ainda tá doendo?
— Não — respondeu —, eu só tô com sono.
— Sono? Eu canto pra você, aí o sono passa!
Sehun suspirou pesado, não tinha mais com o que subornar aquele moleque para que ele não cantasse outra música do Abba. Portanto, confiou que ele apenas atenderia ao seu sincero pedido de silêncio.
— Não, de novo não.
— Você vai gostar dessa música, Hunnie — continuou pentelhando, um sorriso brincalhão dançando em seu rosto.
— Eu juro, se você abrir essa boca pra cantar uma única música eu jogo água em você. — Ele ameaçou firmemente, apontando o esfregão para o menor.
— Love me or leave me…
— Eu avisei. — Sehun murmurou enquanto o rapaz cantava, então começou a andar em direção à torneira no outro lado da sala. Pretendia encher seu balde com água limpa antes de jogar naquele maldito, porque se jogasse água suja ele ficaria fedendo, depois se abraçaria no mais novo com toda a sua melosidade inerente e deixaria Sehun fedendo também.
— Make your choice, but believe me… — Assim que notou que o moreno voltava com um balde cheio de água na mão, ele começou a correr pelo local, fugindo do banho. Mas é claro que não pararia de cantar. — I love you... I do, I do, I do, I do, I do.
Como o Byun não era bobo nem nada — não o tempo inteiro, pelo menos —, ele foi com o seu balde até a torneira. Assim, teria com o que se defender de um ataque. Todavia, tal perigo não intimidou Sehun, que correu até o amigo e o molhou um pouco. Não jogou muita água, apenas o suficiente para molhar parte de sua camiseta. No mesmo instante, retribuiu o golpe, mas sua força foi desbalanceada, e ele jogou, na cara de Sehun, um pouco mais — muito, talvez — de água do que recebera. Com os cabelos molhados e os olhos pegando fogo, o feiticeiro declarou guerra contra Baekhyun. Então começou a correr atrás dele com o seu balde.
— Filho da puta, desgraçado! — gritou, e o outro apenas gargalhou. — Eu te odeio, Baekhyun!
— Você nunca vai conseguir me odiar! — Ele devolveu, então conseguiu desviar de Sehun e jogar mais água nele.
— É muita covardia você correr, você é da equipe de atletismo, seu idiota! — Agora, conseguiu jogar toda a água do balde em Baekhyun e ainda jogou o balde em sua direção, mesmo sabendo que não conseguiria acertar, porque ele tinha uma mira de merda e dependia de feitiços.
Baekhyun até pretendia molhar Sehun por inteiro — por mais que já fosse agradável o suficiente ver a regata branca colada naquele corpinho e os cabelos longos molhados —, mas um barulho vindo da grande porta de metal os alarmou. Alguém com a chave estava entrando lá, só podia ser o zelador. Sem pensar muito em boas opções, Sehun agarrou o pulso de Baekhyun e correu para dentro da pequena salinha onde ficavam os colchonetes velhos e outros equipamentos de ginástica que já estavam quebrados. Escondidos entre uma estante e uma mesa, eles ficaram calados, pois poderiam se foder muito por terem feito uma bagunça enorme com água onde deveriam somente limpar.
— Mas que merda esses pirralhos fizeram aqui? — Ouviram a voz de Kyungsoo, estava completamente puto com o caos encontrado, eles acabaram rindo silenciosamente. — Essa escola tá me saindo pior do que alimentar pavão e limpar vômito de adolescente delinquente. Jongin, você estava certo, seu burguês filho da puta.
Ouvindo aquilo, Sehun se encontrou extremamente confuso. Ele se perguntava com o que diabos Kyungsoo trabalhava antes de ser zelador para ter que alimentar pavões e limpar vômito de adolescentes delinquentes. Talvez ele trabalhasse em um zoológico. Bom... Era o mais provável.
— Eu não vou limpar isso aqui, que se foda! — Mais reclamações por parte do zelador, que não sabia que estava sendo ouvido. — Essa criançada de hoje em dia não presta nem pra esfregar um chão.
Kyungsoo saiu de lá aos resmungos e bateu a porta de metal. Sehun e Baekhyun riram como duas crianças bobas, e assim que viram que estavam sozinhos, pararam de conter as gargalhadas. O baixinho estava agarrado ao braço de Sehun e escondia a cara ali, enquanto tentava parar de rir e voltar a respirar normalmente. Demorou um pouco, mas eles conseguiram se acalmar, mesmo que a adrenalina da situação ainda os deixasse um pouco agitados. Quando o atleta levantou a cabeça, foi um enorme problema, porque os olhos de Sehun acabaram se perdendo no rosto vermelho — de tanto que tinha rido — que estava tão perto do seu, e ele foi novamente quebrado por uma lágrima solitária que rolava pela bochecha do menino. Ela brilhava, assim como as cicatrizes em suas costas, e talvez Baekhyun nem tivesse notado. Sem conseguir controlar o impulso, Sehun levou a mão ao rosto do amigo e secou a lágrima com o seu polegar, depois se firmou ali com a maior delicadeza possível. Seus dedos formigavam e aqueciam por conta da magia que lutava para sair, mas seus anéis de plástico eram suficientes para impedir qualquer acidente.
Baekhyun fechou os olhos, sem dizer absolutamente nada, e segurou a cintura do mais novo. Sehun sentiu seu corpo inteiro tremer, e não conseguia resistir à vontade de permanecer ali, tão próximo ao outro. Ainda com o rosto do Byun entre suas mãos, ele cedeu ao que pretendia fazer há muito tempo e acariciou com cuidado a pele macia. Baekhyun continuava calado e Sehun não conseguia pensar em mais nada. Acabou fechando os olhos também e procurou ansiosamente pelos lábios do garoto à sua frente. Nada passava por sua mente além da necessidade de beijar Baekhyun, aquilo o corroía. Se em algum momento ele gritou para si mesmo, enfiando uma enorme colher de sorvete na boca, que precisava de toda e qualquer distância de Byun Baekhyun, ele já esquecera completamente. Se em algum momento ele tomou para si a certeza de que ter qualquer envolvimento com aquele garoto era uma imprudência sem tamanho, ou um tiro no próprio pé, ele também não lembrava. Porque, naquele instante, não havia qualquer racionalidade, só existia o Oh Sehun que queria aproveitar tudo o que Byun Baekhyun tinha a oferecer. Ele se sentiria um grande estúpido por isso mais tarde? Com certeza. Mas aquela preocupação não foi grande o bastante, dentro daquela sala, para ser maior do que a vontade que o consumia. Que viesse a consequência mais tarde, por enquanto, aquilo compensava.
O beijo não se iniciou com muita calma, Sehun partiu com certa força — compreensível, afinal já se conteve há tanto tempo —, e Baekhyun acompanhou o ritmo por algum tempinho. Uma constatação era importante: o beijo de Baekhyun tinha um gostinho de mel, e isso era incrível. Ele acariciava a cintura e as costas de Sehun, vez ou outra deixava um aperto aqui e ali, mas foi ao notar um suspiro do rapaz que ele tomou uma atitude maior. Empurrou Sehun com cuidado, até que suas pernas tocassem a mesa de madeira e ele se sentasse ali. Baekhyun se enfiou entre suas coxas e o Oh agradeceu por estar sentado, porque suas pernas ficaram terrivelmente moles.
— Você é lindo... — Baekhyun confessou, próximo ao ouvido de Sehun, enquanto deixava alguns beijinhos inocentes em seu pescoço. Naquele momento, não havia qualquer preocupação a respeito da corrente com a chave que ele carregava. — O homem mais bonito que eu já vi.
— Você também é... — O outro respondeu e, sem conseguir pensar muito, apenas deslizou uma das mãos sobre o tecido que cobria as costas de Baekhyun, e não foi o suficiente para matar a vontade de deslizar os dedos pelas cicatrizes que brilhavam em sua pele. — Muito. — Sem conseguir conter a própria fala, acabou confessando o que lutava para guardar. — Merda, eu gosto muito de você.
Depois, uma mão bobinha se embrenhou entre os cabelos amarrados e soltou o elástico que os mantinha presos; Sehun teve que se agarrar à camiseta que o colega usava quando sentiu um puxão mais forte ali. Ele gostou daquilo muito mais do que devia. Claro que foi ainda mais perigoso quando ele ganhou uma apalpada na bunda, foi aí que ele se empolgou e prendeu Baekhyun entre suas pernas para que eles ficassem mais próximos. Ambos começavam a ficar mais e mais inebriados naquilo, e Sehun, sem ter muito senso do seu maior princípio — que era, novamente, não se envolver de qualquer forma com um mortal —, deixou que seu tronco cedesse aos poucos e ele se deitou naquela mesa, ainda ganhando beijos e mordidas no pescoço. Ele descontava tudo apertando os ombros de Baekhyun, que logo enfiou a mão embaixo da regata do maior, e bastou sentir aqueles dígitos frios na barriga para que Sehun ficasse duro sob seus jeans. Baekhyun logo ficou do mesmo jeito, o Oh pôde sentir isso entre suas pernas, e isso o deixava mais louco.
E isso foi um grande problema. Porque, quanto mais animado ele ficava, mais suas mãos esquentavam, mais poder se acumulava em seus dedos e mais difícil seria para que os seus anéis conseguissem conter tanta magia. Um deles acabou se partindo ao meio e seus poderes acabaram escapando e acertando a pequena claraboia de vidro, que quebrou em vários pedaços. E isso foi o aviso que trouxe Sehun novamente à realidade, e que o fez parar no mesmo instante e se levantar. Baekhyun também se assustou com o barulho e se afastou minimamente de Sehun, que respirava ofegante, e não acreditava mesmo no que tinha feito. O Byun se preocupou ao ver o olhar perdido do moreno.
— Hunnie, tá tudo bem? — sussurrou.
— Sim, e-eu só... — Ele saltou da mesa e foi para longe do amigo. — Eu tenho que ir pra casa.
Sehun correu para fora daquela salinha, mas Baekhyun o seguiu e conseguiu pegá-lo de surpresa ao abraçá-lo por trás. O feiticeiro paralisou no mesmo segundo, sentindo o seu coração ainda aceleradíssimo. Ele fechou os olhos e tentou segurar o choro, doía saber que não podia se permitir ter aquele cara do jeito que ele queria sem abandonar uma parte de si. Uma parte que ele não conseguia pensar em abandonar. Estava pronto para segurar o braço de Baekhyun para tirá-lo de si, mas, antes que pudesse fazer isso, a voz que tanto o encantava chamou a sua atenção.
— Deixa que eu te levo pra casa — pediu o baixinho.
Sehun suspirou pesado, era fraco e não conseguia dizer não.
— Tudo bem...
Novamente, permaneceu calado o tempo inteiro, enquanto Baekhyun não parou de falar por um único instante. Mesmo quando estavam em sua lambreta e o barulho da moto, somado ao do trânsito, tornou suas palavras quase incompreensíveis, ele continuou falando. Não era como se Sehun fosse entender algo, de qualquer jeito, sua mente estava um caos imensurável, ele apenas continuou agarrado à cintura do menor e torceu para que aquelas borboletas em seu estômago morressem, porque era realmente doloroso quando elas se agitavam a cada vez que Baekhyun dava risada. Sehun estava muito fodido.
Quando chegaram à casa do mais novo, o Byun parou sua lambreta na calçada, sob a sombra de uma árvore. Sehun desceu segurando firmemente a mochila em suas costas, ainda tinha medo de acabar usando seus poderes acidentalmente. A ideia era simplesmente murmurar um tchau e ir para dentro de casa afogar a própria estupidez e fraqueza em uma garrafa de vinho, enquanto Cordelia ouvia suas maiores frustrações — por mais que elas viessem de suas maiores vontades. Mas Baekhyun não deixou que ele simplesmente fosse embora. Segurou Sehun pelo braço e o puxou para outro beijo, e ele, sem saber resistir àquele serzinho de cabelos rosados, não tentou fugir. Beijou aquele garoto com o mesmo carinho de mais cedo, porque ele tinha o poder de roubar qualquer fio de racionalidade que ainda podia existir em Sehun.
Outro anel acabou se quebrando, e sua magia escapou até atingir o pneu de um carro estacionado no outro lado da rua, a borracha estourou no mesmo instante. Baekhyun se assustou com o barulho, mas não viu a causa disso. Sehun, temendo que seus poderes estragassem mais alguma coisa, ou que machucassem alguém — principalmente Baekhyun —, viu que precisava muito correr para dentro de casa. Ainda sentia as emoções o dominando e o desequilíbrio químico afetando a sua magia, e ficar perto daquele moleque não ajudaria em nada.
— Eu tenho que ir! — anunciou, então se desvencilhou dos braços do amigo e fugiu para a segurança de seu lar.
Não era Baekhyun o perigo... Sehun é quem ficava perigoso perto dele. Havia algo naquele garoto que o desestabilizou de vez. Na verdade, ele sentia aquele formigamento chatinho nos dedos na presença do Byun desde que o conheceu, mas foi piorando gradativamente. Até chegar aquela tarde em que, depois de perceber que Baekhyun era simplesmente algo mágico, quase que surreal de tão belo, foi que algo mudou em seus sentimentos e seus poderes fugiram de seu controle de vez. Deveria pedir ajuda à sua mãe? Talvez, precisava achar uma forma de controlar a sua magia perto daquele rapaz. Mas não o faria, lidaria com aquilo do seu jeito. Ele torcia para que fosse somente uma crise, algo que pudesse ser contido em dois ou três dias, e que era apenas questão de acostumar-se.
Tinha que ser isso.
Quando olhou ao redor, na sala da sua casa, viu que Cordelia estava sentada na janela, olhando para o lado de fora. Sehun tossiu alto para chamar sua atenção e ela saltou de susto.
— Sehun, aquele garoto é bonito! — Ela foi pulando até o menino. — Você se deu bem!
— Você tava espiando a gente?!
— Não só ela. — Sehun se virou para a cozinha, de onde ouviu a voz de Chanyeol, ele batia um bolo do lado da janela. — Desculpa, mas foi muito engraçado ver você todo boiola quando ele apertou a sua bunda. Que pegada, hein... Meu amigo, você está em excelentes mãos.
É, ele não podia negar, Byun Baekhyun tinha uma pegada muito gostosa. Só de pensar ele ficava com calor. Mas não devia mudar o seu foco!
— O que você tá fazendo na minha casa, porra?!
— Sua coelha me trata melhor do que você e me chama pra ver televisão com ela, e daí?
— Vai embora, Chanyeol!
— Não, tô fazendo bolo.
— Mas que caralho, não tenho paz nem em casa! — Sehun saiu batendo os pés até o seu quarto, de onde não queria sair nunca mais.
(...)
A chuva era intensa naquela madrugada, mas, para Sehun, era ainda mais, porque o som das gotas caindo se assemelhava a pedras atingindo tudo ao seu redor. Ele estava agitado, não teve um sono minimamente normal desde que se deitou para dormir. Acordava o tempo inteiro, mas não despertava completamente, apenas abria os olhos e ficava sem noção de tempo e espaço, não conseguia nem mesmo entender que estava deitado em sua cama para dormir. Se Cordelia, pelo menos, ficasse ali à noite, poderia dar uns tapinhas na cara de Sehun para que ele acordasse, tomasse uma água, um calmante e voltasse a dormir decentemente. Mas ela virava a noite assistindo televisão na sala, então não estava nem ciente do estado caótico que o feiticeiro enfrentava.
Os trovões eram estrondosos e a luz emitida pelos raios invadia o quarto do garoto através da enorme janela de vidro ao lado da cama. O feiticeiro se sentia atormentado com isso e se revirava sob o lençol, murmurando coisas incompreensíveis. Suas pernas se enrolavam no tecido vez ou outra, para depois Sehun chutá-lo para longe, e mais tarde puxá-lo novamente para cobrir seu corpo. Ele não sabia dizer se sentia frio ou calor. Parecia ser calor quando ele ansiava por um pouco de ar batendo em seu rosto e seu estômago revirava. Parecia ser frio quando seus braços se arrepiavam e suas mãos ficavam trêmulas. Era uma sensação febril completamente angustiante.
Por mais que o barulho da chuva e dos trovões soasse absurdamente alto em sua mente, algo conseguia enlouquecê-lo mais ainda: uma música. Era assustador, porque uma música que ele gostava tanto não deixava seus pensamentos em paz por um único segundo naquela noite, a ponto de perturbá-lo e deixá-lo à beira da insanidade. Era o refrão insistente e repetitivo de Bad Liar, e, se ele estivesse em um estado maior de consciência, ele teria gritado para afastar aquela canção. Mas isso não seria o suficiente para que ele conseguisse se acalmar... Nem de longe era o único motivo para tamanha agitação.
Seu coração batia acelerado e o suor molhava seus cabelos por um motivo já conhecido... Você já sabe que era por causa de Baekhyun. Nos breves minutos em que Sehun conseguia atingir um estado de sono mais profundo, sonhava com o rosto daquele garoto. Quando abria os olhos e se encontrava em uma situação que estava entre o sono e a consciência, ele via a imagem do rapaz ali em seu quarto; fosse sentado na ponta da sua cama, fosse na escrivaninha, fosse do lado de fora da janela... Podia vê-lo em todo lugar, e seguia chamando por seu nome em murmúrios. Sehun estava alucinando, mas não podia dizer que isso o aterrorizava. Baekhyun não era uma figura que o causava medo, mas sim que despertava seus sentidos mais ansiosos.
Porque o medo, na verdade, era da dor que sentiria por não poder ter alguém que já desejava tanto... E isso não é sobre uma vontade exclusivamente carnal, não, tornou-se algo que ocupava espaço em seu coração. Feiticeiros não podem, não devem, ficar com mortais. Isso significaria trair os próprios poderes, portanto deveriam renunciar a eles se estivessem, de fato, dispostos a passar o resto da vida ao lado de um humano comum. Sehun tinha tanta afeição por quem era, sua magia era aquilo que o definia, a coisa mais importante em sua vida. Ele ansiava pelo momento em que honraria o legado de sua família com contribuições relevantes para os demais feiticeiros... E isso jamais aconteceria se ele largasse tudo por alguém.
Para isso acontecer, não poderia entregar seu coração a Baekhyun.
E algo que doía muito, nisso tudo, era a possível visão do Byun em relação a isso. Sehun não tinha a mínima intenção de dizer que eles não podiam ficar juntos porque era um feiticeiro — nem havia permissão para revelar algo assim. Ele não pretendia dizer absolutamente nada, na verdade, apenas afastá-lo silenciosamente e torcer para que todo e qualquer sentimento que Baekhyun pudesse nutrir por ele se dissolvesse com tempo. Torcia também para que Baekhyun não o procurasse, porque a última coisa que ele queria fazer era ter que falar qualquer coisa para magoá-lo o suficiente para que nunca mais voltasse a falar com Sehun... Mas ele via isso como sua única alternativa, caso não conseguisse manter o garoto distante como deveria, e como definitivamente não queria. Doía não poder dizer a verdade, doía a possibilidade de fazê-lo sofrer tanto quanto Sehun sofreria.
Doía, acima de tudo, saber que teria uma imortalidade pela frente para pensar no único ser que o fez sentir algo de verdade, que o fez sentir vida dentro de si, e que ele teve de dizer Adeus. Porque ele também sentia tanto medo de abrir mão da sua magia, parte da sua identidade, e mergulhar tão profundamente em um sentimento tão intenso. 6 semanas e ele já estava tão envolto por todas aquelas sensações bizarras que Baekhyun o causava, o que aquele menino não poderia fazer em um tempo maior em sua vida? Doía não poder se dar ao luxo de descobrir. Porque não seria capaz de mantê-lo como um amigo... Acabaria destruído toda vez que olhasse em seus olhos e visse aquele brilho do qual ele teve que fugir.
— Baekhyun... Eu não posso — sussurrou, virando o corpo pela enésima vez na cama, e enterrando a cabeça no travesseiro. Dessa vez, se agarrou ao lençol e escondeu o rosto ali.
Em algum momento, a chuva parou, e mais nenhum trovão surgiu para perturbar Sehun, nem os raios que clarearam o cômodo inteiro. Ainda com as nuvens escuras cobrindo o céu, o sol começava a nascer e trazer um pouco de claridade. Foi só aí que o coração do Oh ficou menos alterado dentro do peito, que o calor cedeu ao frio — o que obrigou o rapaz a puxar o cobertor que tinha jogado para o canto da cama —, e que suas pernas pararam de se agitar sob o lençol. Sehun sentiu que finalmente poderia fechar os olhos e descansar com tranquilidade... Depois de uma madrugada inteira de um loop insistente em sua cabeça.
— Eu não posso me apaixonar por você... — sussurrou pela última vez, antes de apagar definitivamente por conta do cansaço.
E era tarde, ele já estava apaixonado.
“What could possibly happen next?
O que pode acontecer depois?
Can we focus on the love?
Podemos nos concentrar no amor?
Paint my kiss across your chest
Pinte meu beijo em seu peito
Feel the art, I’ll be the brush
Sinta a arte, eu serei o pincel”
Selena Gomez – Bad Liar
