Chapter Text
Eu estou vestindo uma saia de tule rosa bebê na frente do colégio todo.
Vocês podem pensar que é a narração de um pesadelo, mas não, não é. Talvez seja, dependendo do ponto de vista, mas o que importa é que está acontecendo nesse exato momento. Na vida real. E tem presilhas de coração no meu cabelo. E crianças gritando em volta de mim. E eu estou segurando uma varinha de condão cheia de glitter. E tem asinhas rosa bebê presas nas minhas costas. E esse top rosa de lantejoulas pinica. Pinica muito .
Muito prazer, eu sou Park Jaehyung, e não tenho mais reputação nesse colégio.
Acho que, antes de mais nada, eu deveria dar uma explicação plausível de como eu passei de garoto-problema que só usa roupas uns três números maiores para projeto de fada-madrinha pagando mico na frente de dois mil alunos, e é isso mesmo que eu vou fazer, depois que eu conseguir apagar a abelha — tá mais pra batata mutante — que uma criança desenhou no meu rosto com caneta permanente.
— Tudo bem aí, Jae? Você sumiu, o professor mandou te procurar — a voz do meu primo ecoou nos meus ouvidos e junto com ela o meu instinto assassino também. Ergui a cabeça e me encarei no espelho do banheiro. Na verdade eu só tentei, porque não conseguia ver nada. Coloquei meus óculos e aí sim tive a visão clara do pedaço de fracasso com um borrão na bochecha esquerda que eu era naquele momento.
— Tudo ótimo, e vai ficar melhor ainda quando eu te enterrar debaixo de doze palmos no pátio do colégio. Como você ainda tem coragem de perguntar se eu tô bem, tem a porra de uma rola deformada desenhada na minha cara.
— Sem contar com o figurino.
— Cala a boca, Sungjin, a culpa é sua!
— Te livrei de uma expulsão — meu primo respondeu cruzando os braços e eu joguei água nele. Maldito, desviou. — Você tem que voltar pra lá, o combinado é de três horas.
— Que merda! Quanto tempo ainda falta?
— Só passaram vinte minutos.
— Quê?
Passei as duas mãos pelo rosto, frustrado. Me arrependi no segundo seguinte, quando olhei no espelho e vi que meu rosto inteiro estava borrado de azul. Agora eu entendo o desespero do Hulk do carnaval, porque esse azul não vai sair do meu rosto tão cedo. Acabei de virar um crossover de fada-madrinha com smurf. Um smurf grande e sem um pingo de dignidade, diga-se de passagem.
— Quer ajuda? — Sungjin perguntou se divertindo da minha situação.
— Quero que você suma, seu otário.
Ele ergueu as mãos em rendição e começou a andar em direção à porta.
— O professor quer você de volta lá no pátio o mais rápido possível — disse antes de sair.
— Manda aquele velho ir chupar prego! — Gritei antes de tirar os óculos de novo e voltar a esfregar meu rosto até ele arder pra tentar tirar aquele borrão azul que insistia em ficar grudado na minha pele.
Como vocês já puderam ver… Aquele é o Sungjin, meu primo — e culpado de tudo isso que está acontecendo.
Resumindo a história, eu não sou o que os professores chamariam de aluno exemplar. Sejamos francos, eu não chego nem perto disso. Mas, por outro lado, eu sou um cara muito esperto e que sabe aproveitar as oportunidades que a vida oferece. E uma dessas oportunidades foi conseguir a chave da diretoria, descobrir sem querer a senha do professor de física e meio que… alterar minha média pra uma nota azul? Ah, vai, isso não é nenhum crime, mas o diretor jurou que iria me expulsar porque não era a primeira vez que eu dava problema pra escola etcetera e tal — em minha defesa, instalar o vírus do Nicolas Cage no computador do diretor e substituir o sabonete do banheiro dos professores por creme de alho não eram coisas tão graves a ponto de serem consideradas dignas de expulsão!
Enfim, de qualquer forma, minha cabeça estava jurada e eu teria que procurar um novo colégio para conseguir terminar os últimos meses do ensino médio. Foi aí que aconteceu o desastre: Park Sungjin decidiu interceder por mim. Ele sabia que iria ter uma festinha para as crianças na semana seguinte e sabia que o diretor estava se descabelando pra encontrar alguma aluna que se prontificasse a ser a bendita da fada madrinha, e disse que caso nenhuma garota aceitasse, ele daria um jeito nisso.
Ninguém se prontificou.
Ninguém além de mim.
O combinado foi que se eu concordasse em ser a fada madrinha, o diretor benevolente iria fingir que nada aconteceu e eu poderia continuar estudando no colégio, nem suspensão eu levaria (mas minha nota em física já havia sido lançada e não tinha como mudar, então valeria a pena).
Valeria a pena , era o que eu pensava.
Olhando agora pra minha cara azul, meu figurino ridículo, essas presilhas no cabelo e as lágrimas rolando rosto abaixo eu percebo que não, não valeu a pena.
— Ei, tá tudo bem com você?
Essa pergunta já estava começando a me dar raiva. De verdade. Se mais alguém perguntasse isso eu ia dar uma voadora de dois pés e… Espera, meu cérebro é lento. Entrou gente no banheiro. Merda.
Só pra situar vocês, nesse momento eu estou sentado no chão do banheiro, encostado na parede e chorando igual um bebê enquanto abraço meus joelhos e espero pelo dia da minha morte.
— O que aconteceu? Você tá bem?
Aquelas perguntas já estavam me dando agonia, mas quem disse que eu tinha coragem de responder?
— Ei. Park Jaehyung — Oxe, como ele sabe meu nome?
— Uhum, tô sim, pode ir embora — respondi abafado por estar com o rosto escondido enquanto rezava esperando que ele saísse, mas como vocês sabem que nada tá dando certo pra mim, ele fez exatamente o oposto.
— Eu te ouvi chorando.
— Não era eu, era uma perereca. O banheiro é cheio de pererecas.
— Aquilo não parecia um choro de perereca. Nem um pouco.
— Mas era choro de perereca, tá me achando com cara de mentiroso? — Levantei o rosto para mandar minha encarada sinistra e amedrontadora e só então lembrei que minha cara estava toda azul… grande dia.
O cara na minha frente se assustou mas não riu. Achei legal da parte dele. Se ele risse eu iria chorar mais ainda.
— Eu acho que posso ajudar com seu rosto.
— Vai arrancar ele da minha cabeça?
O cara de cabelo vermelho — ainda não sei o nome dele, então vou chamar de pica-pau — deu risada pela primeira vez, tirou um frasco de álcool líquido de dentro da mochila e se agachou na minha frente.
Não me pergunte por que o pica-pau carrega álcool casualmente na mochila, nem eu quero saber.
Ele tirou o próprio casaco e derramou uma boa quantidade de álcool na manga.
— Passa no seu rosto. Cuidado com os olhos — me entregou a manga encharcada e eu olhei pra ele desacreditado. Ele tava realmente cogitando que eu passasse álcool no rosto?
— Tá maluco, e se meu rosto queimar e começar a derreter? — Devolvi a blusa pro pica-pau-biruta e foi a vez dele me olhar desacreditado.
— Prefere ficar com o rosto azul?
— Entre perder o rosto e ficar com ele azul o que você acha que eu prefiro?
— Você não vai perder o rosto, Jaehyung. Deixa que eu mesmo faço isso — ele começou a esfregar a manga do moletom no meu rosto e eu já podia sentir minha pele aos poucos se dissolvendo. Maldito pica-pau-biruta-extrovertido, não pedi pra ninguém passar álcool na minha cara.
Meu Deus, eu acho que eu sou alérgico a álcool.
— Pica-pau, para, para para — falei já meio desesperado.
— Me chamou de quê?
Merda, meu cérebro não funciona direito.
Bom, pelo menos ele parou de esfregar o bendito álcool na minha cara.
— Não te chamei. Acho que você tá ouvindo coisa — respondi.
— Você chamou sim. Eu escutei claramente você me chamando de pica-pau.
— Endoidou.
— Para de mentir, eu ouvi! — O maldito pica-pau-biruta-extrovertido-e-puto esfregou a blusa com mais força na minha cara.
— Tá, tá, desculpa! Eu não sei seu nome e foi a primeira coisa que pensei quando vi seu cabelo vermelho, desculpa! Agora por favor, para de esfregar isso no meu rosto porque eu acho que tenho alergia a álcool, ai meu Deus!
— Ai meu Deus! — O pica-pau gritou, eu gritei também e o banheiro virou uma gritaria. Meu rosto estava derretendo, só pode ser isso.
— O que foi, o que aconteceu com meu rosto?
— Nada. Foi só o troco por ter me chamado de pica-pau.
Se aquele cara na minha frente era o pica-pau, então eu era naquele momento o próprio Leôncio. E eu seria capaz de enfiar dez boliñas de gorfe goela abaixo daquele ruivo salafrário que quase me fez mijar nas calças, tamanho susto que eu levei.
— Que merda, caralho, eu tenho alergia a muita coisa, pensei que eu tivesse morrendo de verdade — falei colocando a mão sobre o peito (onde eu vestia um top rosa de lantejoulas, não podemos esquecer).
O pica-pau — que enrolação, ainda não sei o nome dele — lavou a manga do casaco na torneira da pia e dessa vez despejou uma boa quantidade de sabonete nela ao invés de álcool.
— Me desculpe. Eu sou o Younghyun, muito prazer — olhou rapidamente pra minha roupa enquanto esfregava a blusa no meu rosto —, e eu não estou nem um pouco a fim de saber porque diabos você tá vestido de fada.
— Estamos quites então — respondi, olhando de soslaio pra dentro da mochila do tal Younghyun —, porque eu estou zero interessado em saber que porra você tava fazendo com um frasco de álcool líquido na mochila. Vai botar fogo na escola, maluco?
— Não, eu-
— Shhhhh, falei que não estou interessado — respondi fazendo minha melhor expressão de indiferença. — Você não vai botar fogo na escola, vai?
— Você quer saber ou não? — Ele perguntou um tanto quanto impaciente. Ah, é, vai ficar puto? Vem tranquilo, irmão.
— Não.
— Ótimo, então. Terminei. Saiu bastante — ele disse se levantando e lavando de novo a manga — agora toda azul — na torneira da pia.
— Obrigado. É… — levantei do chão e ajeitei os óculos no rosto. Me olhei no espelho. Infelizmente o sabonete não conseguiu lavar a minha cara de derrotado. — O que você vai fazer com esse frasco de álcool? — Apontei pra mochila do pica-pau e ele deu só um sorrisinho enquanto colocava ela nas costas. Eu sou realmente um puta curioso.
— Vou botar fogo na escola — deu uma piscadinha pra mim e saiu do banheiro.
Ele tava brincando, né?
