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Iria ficar até a chuva passar e nada mais que isso — estava anoitecendo afinal de contas, e Sara não queria enfrentar o esquisito típico daquela região quando a lua dava as caras, ainda mais por conta própria. Quer dizer, embora Keiji, seu namorado, tenha se oferecido para acompanhá-la, a jovem se sentiria muito pior caso o fizesse voltar sozinho tão tarde da noite por sua conta. Preferiu, portanto, ir para casa o quanto antes.
Contudo, como obra do destino imprevisível, a tempestade do lado de fora parecia cada vez mais intensa e não dava mínimas pistas que iria acabar tão cedo.
Por entre a cortinas, enquanto buscava por algum sinal de mudança repentina de tempo pela décima terceira vez naquela noite, a garota espiava atenta o céu que, fechado de cinza escuro, presenteava os arredores com a interminável melodia das gotículas que caiam constantes no asfalto. Suspirou de decepção, tentando desviar de seus pensamentos as preocupações de como lidaria com aquele cenário. Era inevitável tentar buscar, mentalmente, algum modo de solucionar a problemática — apesar de que, nisso, tudo o que conseguia era mais motivos para suspirar.
De repente, em meio aos seus labirintos de ponderações, Sara percebe algo sobre a própria cabeça, um peso o qual teria a assustado se logo em seguida não fosse acompanhado por braços lhe envolvendo por trás. Tendo familiaridade com esse conforto, a ruiva sabia que se tratava do seu namorado encostando o queixo sobre ela. Sara nada fez senão apoiar uma das mãos em cima do antebraço dele, sem se dar o trabalho de desviar a vista da janela.
“Nada ainda?” o rapaz perguntou. Sua voz era dotada de meticulosa suavidade, já que, sabendo que a moça se carregava de pequenos estresses, Keiji sentia que precisava acalmá-la de algum modo.
“Nem um sinal”, Sara fecha a cortina de vez, separando-se do enlace de Keiji. Ela pega o próprio telefone e encara a tela por um momento, até suas sobrancelhas franzirem. Keiji, por sua vez, espia por cima do ombro dela, buscando entender o motivo de tal reação. Tratava-se da previsão do tempo. “Parece que vai durar bastante ainda…”
A garota se joga no sofá, espalhando seu corpo como se esse despencasse de cansaço e desistência, ao mesmo tempo que expulsou mais uma vez o ar antes dentro dos pulmões. Fitou o teto quieta, os olhos ainda carregados de aflição.
"Sabe, Sara…”, o rapaz levou a mão à própria nuca, “por que você não dorme aqui hoje?"
“O quê?” Sara engasgou com as próprias palavras que sequer tentaram ser ditas. Tal proposta a preencheu de nervosismo — mais do que já sentia devido às circunstâncias. No susto, pôs-se a sentar. “Ma-mas eu nem tenho outra roupa!”
“Olha só, dessa vez você tem uma desculpa para roubar uma das minhas camisetas.”
“Ha, muito engraçado…”
“Vai dizer que não gosta? Tudo bem, tem sempre a opção de ficar sem na--” O loiro tem a frase cortada por conta de uma almofada voando a toda velocidade em sua face. “Ouch, Sara! Assim você parte meu coração…”
“Você mereceu.”
“Cruel e direta. Gosto desse seu lado afiado, é bem sexy.” Sara revira os olhos devido ao falho flerte do mais velho, que ri da reação dela. “Enfim, vou preparar as coisas e, enquanto isso, você pode ir tomar um banho.”
“Ei, eu nem confirmei nada!”
“Confirme depois do banho então.”
“Keiji!” A garota tenta protestar antes que ele saísse de vez do cômodo.
“O que foi?” E, do jeito que era típico dele, Keiji se fez de sonso e sorriu.
Sara suspirou.
“Me dá uma toalha.”
E ele sorriu mais ainda.
“É pra já, madame.”
O gotejamento repetitivo dos gélidos pingos d'água no azulejo terminava salpicando na epiderme de Sara, trazendo irremediável arrepiar de seu ser — produto do claro choque de temperaturas. A garota respirou fundo antes de mergulhar de vez naquela chuva controlada, dando pulinhos agitados inconscientemente.
Mesmo que, de leve, ainda tremesse, logo seu corpo se acostumou com a corrente frígida o percorrendo.
A mente, por outro lado, estava mais chocada que a própria pele da jovem, arrepiada em sinapses nervosas que levavam aos mesmos pensamentos. A sugestão de Keiji… Não tinha sequer cogitado essa opção. Na verdade, talvez estivesse fora de seu mapa de alternativas, por isso se surpreendeu quando o rapaz veio com a ideia.
Ficar e dormir, só os dois... Teriam chegado tão rápido nesse estágio do relacionamento?
Bem, pelo jeito sim, visto que o loiro estava lá fora arrumando as coisas para eles dormirem. Por isso, não há nada com que se preocupar.
Exceto, é claro, com o fato de que Keiji só tinha uma cama.
Teriam que... dormir juntos.
Sara nunca tinha feito isso com ninguém, embora supunha que deveria ser algo normal para ele, que sugeriu com tanta naturalidade. Ainda assim, estava inquieta. Imaginar-se lado a lado, a noite toda, na mesma cama, tão próximos, tão juntos, tão íntimos...
E se… acabasse acontecendo alguma outra coisa? Afinal, são nessas situações que os casais mais tem privacidade para…
“Meu deus...” Sara deixa escapar de seus lábios, sentindo o contraste da água fria no rosto, que queimou em vermelhidão. Seu peito, de um segundo para o outro, estava cheio de batidas frenéticas; parecia que, a qualquer momento, o coração pularia para fora de seu corpo de tão agitado. Não estava pronta para nada do gênero, não mesmo!
Fechou o chuveiro depressa, sacudindo a cabeça para afastar aquelas ideias extravagantes, e logo saiu para se vestir. Teve sorte de não precisar cruzar caminhos com o rapaz, seria ainda mais constrangedor olhar para ele pensando naquelas coisas.
Passou a cabeça para dentro dos muitos tecidos daquela camiseta que lhe deram. Parou por um instante, levando o tecido ao nariz: foi impossível não se deixar levar pelo aroma que incensava o algodão. Era… tão bom, quase entorpecente; E ela o conhecia, era o cheiro de dele; cheiro do corpo de Keiji, corpo esse ao qual estaria lado a lado, a noite toda. Tão suave e, simultaneamente, quase tão intenso e envolvente quanto um afrodisíaco.
Deixou os panos caírem sobre seu corpo, tocando gentilmente sua pele, dos ombros até o início das coxas; contornando, em algumas regiões, colados as curvas do seu corpo feminino. Sara desfruta da sensação de leveza circundante a anatomia dela, cada centímetro dos tecidos, o contato direto com seu nu, inspirando uma última vez aquele aroma tão familiar.
Keiji.
A garota realmente gostava dele. Talvez, não tivesse problema em se entregar assim para o homem, da mesma forma que fazia com os tecidos da camiseta que vestia. Deixar acontecer, semelhante a como a gravidade, inevitavelmente, deixava que o algodão fosse de encontro à superfície de seu ser num enlace suave.
Talvez Sara estivesse apenas pensando demais. Uma hora ou outra, iam chegar àquele estágio. Não havia nada de anormal, nada que deveria ser tão preocupante.
Mas, ainda assim, se imaginar ao lado dele, na mesma cama, a noite toda; apenas os dois, tão próximos, tão livres e, ao mesmo tempo, distantes de quaisquer julgamentos; o cheiro dele, do corpo dele logo ali, o contato da sua pele, o calor de um abraço, a sensação de um beijo tão indecente...
“Hey, Sara”, aquela voz a tira do próprio transe, num susto notável, “Calma, sou só eu.” Ele ri com deboche, deixando o lençol que trazia sobre a bancada, e Sara, mesmo negando-se a fitar o namorado devido ao rubor do seu rosto, sabia que ele carregava um semblante descontraído. “Está tudo pronto lá dentro, você pode ir na frente."
“Certo”, responde, logo limpando a garganta com um gole seco. “Hm, Keiji, na verdade…”
“Hm?”
“Nós… vamos dormir na mesma cama?” A pergunta soou como um sussurro, escapando entre seus lábios num sopro. As pálpebras do rapaz se arregalaram no mesmo instante, quase como se conseguisse ler os pensamentos da garota e as insinuações por trás daquela fala tímida.
A responsabilidade pesou em seus ombros. Não imaginou que uma proposta trivial levaria Sara a chegar a tais conclusões — ou que, se o fizesse, a deixaria assim. Toda a aura dela exalava ansiedades, nervosismos. Keiji, mesmo que no fundo achasse fofo da parte da mais nova, ele não conseguia pensar em outra coisa senão levar a própria mão ao pescoço para dissipar a culpa.
“Eu posso dormir no sofá se você preferir…” sugeriu.
“N-não!” Sara responde como um corte. “É sua casa, você deveria dormir na cama!”
“Se você você diz…” Keiji suspira. Segundos se passam sem nenhum olhar trocado ou palavras palavras proferidas. O silêncio que se alastrou trazia consigo um clima constrangedor — foi como se, momentaneamente, fossem desconhecidos um do outro. “Eu… vou indo para o quarto então.”
“Espera, Keiji!” ela se exalta. “Eu... na verdade…”
E diante daquele homem, Sara queria pedir uma coisa, deixar que suas vontades fossem esclarecidas para que pudesse lidar com os anseios que perturbavam sua mente juvenil.
Todavia, encontrar com tais íris taciturnas fez aqueles lábios rosados se unirem formando uma linha de tensão, impedindo que as palavras escapassem de uma vez da garganta da jovem. Sara desviou o olhar, visando esconder o constrangimento de sua expressão, massageando a palma da própria mão como se isso anulasse a ansiedade que a prendia a mais segundos torturantes daquele cenário.
Ela respirou fundo. Não tinha nada a perder. Buscou toda coragem que acelerava seu coração, e trouxe as palavras presas até a ponta de sua língua:
“...tem como me dar um cobertor?”
Não, não era isso que ela queria dizer.
“Bem,” e pelo modo que o homem suspirou, ela teve certeza que não era isso o que ele esperava ouvir “você pode ficar com esse lençol aqui. Eu pego outro no armário.”
“Certo, obrigada...”
“Boa noite, Sara”
“Boa…”
Entretanto, um "fique comigo" ou um "durma ao meu lado" pareciam pedidos complicados demais para sua língua gesticular; e desejos ousados demais para seu coração falar em voz alta.
Desse modo, Sara aceitou o destino inevitável daquela noite. Foi para seu canto, enrolou-se no cobertor e deitou no sofá. O cômodo ficou escuro, mas Sara não ousava fechar seus olhos — nem conseguia por sinal, pois o cheiro dele estava incensado naquela camiseta, e lembrar-se dele a deixava tão acordada quanto cafeína faria.
Seu corpo estava quente, muito quente, mas não era por conta dos cobertores. Mesmo assim, jogou-os de lado, levantando-se daquele sofá desconfortável sem mesmo pensar.
Talvez de fato nem estivesse pensando. Talvez suas pernas moviam-se por si mesmas. Talvez se tratava de uma decisão irracional de um plano mal detalhado, uma atitude impulsiva que Sara dificilmente recorreria numa situação normal.
A jovem caminhou corredor à dentro até se encontrar frente à porta do quarto de Keiji. Estava encostada, não precisou nem de um empurrão para ser aberta.
O quarto era quase tão escuro quanto o próprio corredor — só não tanto devido à luz da lua que invadia por debaixo das cortinas. E ali, deitado na cama tão espaçosa, estava ele, solitário, com as costas viradas para a entrada do cômodo.
O ar escapa dos pulmões de Sara, antecipando aquela aproximação suave que comandou suas pernas fazerem. Das solas dos pés, subiu o arrepio derivado dos passos delicados contra o piso frio; passos esses tão meticulosos que nem sequer ela mesma pôde ouvir.
Em pouco tempo, deitou-se ao lado do homem adormecido, encolhida de timidez. Não lembrava o quão grande e inabalável ele poderia parecer de perto, quase como um muro humano que, de tão largo, impedia que a pouca luminosidade que vinha da janela chegasse até o rosto da garota. Apesar de tudo, Sara não se intimidava por aquela grandeza — aliás, jamais o faria e disso tinha certeza. Porque ela conhecia aquele grandalhão; ela confiava nele e por esse motivo queria estar ali com ele, lado a lado, a noite toda.
Sara agarrou hesitantemente a camisa que Keiji usava, enterrando seu rosto nas costas do rapaz.
E então, ela fechou os olhos e...
Inspirou.
Permitiu que aquele aroma nostálgico invadisse suas narinas, guiando suas memórias numa sensação de conforto e alívio que tanto almejava. Seu coração ainda estava inquieto, mas o corpo parecia ter se acostumado com o pulso acelerado. Talvez até nem fosse de nervosismo, e sim de alegria, pois Sara estava feliz de ter tido coragem para se levantar; estava feliz por estar envolvendo seus braços na cintura dele, enquanto escutava de perto quão calma e serena era a respiração do amado.
Poderia passar o resto da noite assim. Adormecer e acordar ao lado dele — sim, isso seria perfeito.
Porém, inesperadamente, houve uma movimentação na cama. Em pouco tempo, Sara estava presa a um abraço de Keiji, que virou o corpo somente para isso.
A garota não conseguia mover um músculo, muito menos respirar. Faltava-lhe espaço, faltava-lhe ar, pois tudo à sua volta era ele: o peito dele, os braços dele, o cheiro dele. Sara ficou com tanta vergonha que achou que fosse derreter naquele enlace de tão quente que seu corpo estava.
“Vejamos só,” ele começa, estampando um sorriso preguiçoso e sem sequer se dar trabalho para abrir os olhos. “uma invasora furtiva entre nós, huh?”
“A-achei que estivesse dormindo…!”
“E é ainda pior do que eu imaginava… Tentando me atacar enquanto eu dormia…” Keiji fala com um tom sério, embora que, em seu rosto, o sorriso fosse firme “...é um tanto sangue frio da sua parte, senhorita.”
“Keiji!”
“Tô só mexendo contigo” Keiji ri “Você é fofa, sabia?”
Sara não conseguiu responder. Ela deveria ter considerado a possibilidade dele acordar! Encolheu-se mais ainda de vergonha.
“Ei, ei, o que foi?” Keiji guiou o queixo da jovem à sua direção.
Sara se sentia tão pequena perto dele; tão frágil, tão vulnerável e, ao mesmo tempo, tão segura na firmeza de seus braços. Ela não o respondeu com palavras, analisou aquela mão que lhe tocava e como passou a envolver toda sua bochecha, ainda de cabeça abaixada. Não ousaria encará-lo nos olhos.
A palma do rapaz quase engolia o rosto da mais nova, mas, ainda assim, transbordava gentileza no modo que a segurava tão ternamente.
Sara queria um dia ser um porto seguro para Keiji, assim como sentia que ele era para si.
"Ei, Keiji" pela primeira vez naquela noite atípica, havia confiança no jeito que Sara o chamou.
"Um?"
"Eu te amo."
A ruiva nem notou que estava de olhos fechados, e que seus lábios beijavam gentilmente a palma do seu amado tão próxima do seu rosto. Um gesto simples, suave, de pouco contato, apenas o macio de sua boca pressionando contra a mão do rapaz.
Tão ordinário, tão genuíno, Sara sequer imaginou que Keiji iria se constranger daquele jeito (ou que tais tons de rosa eram capazes de colorir as bochechas do seu namorado um dia.)
“Falando essas coisas tão repentinamente, huh?” O loiro desviou o olhar “Desse jeito, você me derrete de tanta fofura.”
“Keiji!”
Bem, talvez fosse culpa da sua ingenuidade juvenil ou da sua inexperiência com tudo aquilo, e por isso a garota não havia percebido: ela já era o porto seguro para ele.
“Heh…” Keiji ri e, então, segura o queixo da mais nova entre seus dedos, admirado por aquele mundo que cabia entre o indicador e polegar, pouco antes de se aproximar para beijá-la “Eu… também te amo, Sara.”
Keiji a amava de verdade. E era grato por tê-la ao seu lado.
