Work Text:
“Me diga o nome de um herói que foi feliz.”
Miller nunca consegue passar dessa frase.
Há quase cinco meses ela tenta terminar de ler o livro; há quase cinco meses ela chega na mesma página e encara as mesmas palavras como se elas fossem algum tipo de ofensa pessoal.
Miller sabe o que acontece no resto do livro - a narrativa conta como Aquiles foi enviado à corte de outro rei, vestido com roupas de donzela e escondido entre as damas de companhia de uma princesa estrangeira até que Pátroclo o reencontrou e eles navegaram de cabeça erguida para Tróia. Ela leu livros sobre mitologia grega o suficiente no orfanato para saber como termina, como sempre termina - Pátroclo morto e Aquiles de luto decidindo que o mundo dos vivos já não lhe pertence mais. Ela sabe até que Aquiles jurou que seria o primeiro herói a ser feliz, após listar todos os modos como os outros heróis não o foram, num momento em que seus olhos conseguiram se desgrudar da sentença fatídica.
Ela também sabe por que continua agarrada a esse trecho.
“Me diga o nome de um herói que foi feliz.”
L já era, do jeito dele. E L teria sido ainda mais, se tivesse voltado do Japão.
L teria derrotado mais um criminoso e teria voltado a seus arquivos em busca de mais um caso a resolver, e Miller teria ligado para ele para repreendê-lo por tê-la deixado ficar sabendo do feito pela televisão em vez de avisá-la pessoalmente, e ele teria dito que queria algum doce qualquer que não tinha encontrado no Japão e perguntaria - do jeito que ele sempre perguntava, como se não houvesse uma interrogação no final e ele estivesse do lado dela, observando e comentando - se ela continuava sujando o chão de vermelho quando pintava.
E ela diria que talvez. E ele seria feliz.
E ela seria feliz. Preocupada, cansada, pés manchados de vermelho. E feliz.
Seria. Futuro do pretérito. Possibilidade passada.
Talvez fosse assim com todo herói, com todo Aquiles - todas as chances de ser feliz no passado, e a tragédia final que soterra os bons momentos mas leva seu nome à glória. E para os que ficam para trás, as histórias. E a falta de respostas.
Ao lado dela, Valentina mia e, decidindo que era sua hora de monopolizar as atenções, lhe dá uma cabeçada no quadril.
- Que foi - Miller diz com um suspiro, jogando o livro em cima da mesa de centro e deixando que ela suba em seu colo. A gata se ajeita, e o pelo dela é macio nos dedos de Miller, e a luz do sol da tarde que entra pelas frestas da persiana enche a sala de luz pálida e sombras finas. O apartamento nunca pareceu tão vazio.
Miller joga um dos braços sobre os olhos, e deixa as lágrimas virem.
