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Caminhava apressadamente, passando pelo extenso corredor vazio que dava direto em seu quarto. As batidas fortes da sola dura de suas botas de couro preto em seus solitários pés no chão, ecoavam pelo local. As janelas na lateral esquerda do castelo antigo jogavam luz natural, deixando o ambiente claro, podia ver as partículas de poeira flutuando pelo ar através da luz solar, vasos e estatuas na frente das janelas criavam sombras que se espalhavam pelo chão, obscurecendo o mesmo. Contava os minutos para voltar ao seu quarto solitário e escuro desde que acordara naquela manhã tediosa, passara o dia todo com uma irritante dor de cabeça latejando no cérebro, e fingir ser alguém que não era, não ajudava em nada. Por algumas vezes, sua falsa máscara bondosa quase caiu, porém, sendo ele quem é, conseguiu disfarçar tal deslize.
A cada passo que dava, o corredor parecia só aumentar de tamanho. Aquela maldita dor estava parecendo afetar seu cérebro. Seu caminhar, antes calmo, agora estava prestes a se tornar uma pequena corrida. Seus longos cabelos negros levantavam levemente com a brisa fraca que vinha das janelas abertas e por seus passos apressados. Não aguentava mais aquele dia enfadonho, julgava que este estava se tornando o dia mais aborrecido da sua vida. Teve que fingir mais uma vez, suportar ficar perto daqueles seres mesquinhos que viviam ali. Não via a hora de acabar com todos.
Finalmente chegara a maciça porta de madeira de carvalho-branco que dava entrada a seus aposentos. Não esperou nenhum segundo a mais para pegar as grossas chaves de ferro envelhecidas guardada no bolso direito de seu uniforme. Destrancou-a, e tão rapidamente quanto abriu, fechou a porta e se trancou dentro do cômodo, andou em direção a única janela ali presente e fechou as amplas e pesadas cortinas púrpura. Tirou as pesadas vestes brancas com detalhes azuis que davam forma ao uniforme que, pessoalmente, vestia a contragosto. Os tecidos eram grossos, quentes e reluziam fortemente contra a luz do sol, no mínimo irritante. A maioria de suas dores de cabeça era causada pela maldita roupa incomoda. Não via a hora de finalmente se rebelar e voltar para sua armadura negra.
Sentindo o ar frio bater contra seu corpo desprovido da parte superior do uniforme alvo, suspira cansadamente. “Finalmente sozinho, finalmente alguma paz...” sussurra para ninguém além de si mesmo.
“Sozinho... Tem certeza? Olhe novamente, Edrad” uma voz conhecida fala, era seu velho amigo, a solidão. Era estranho, de todos os seus imaginários, demônios internos. Solidão era o único que idealizara como homem. Ele era alto, pálido, com cabelos brancos, olhos eram azuis tão claros que chegavam a quase desaparecer em sua esclera, uma máscara tampava sua boca e nariz, e um tapa-olho preto com detalhes prateados escondia seu olho direito. Ele era misterioso, mas sempre esteve presente. Desde que se lembra, em toda sua vida, a solidão estava lá, ironicamente, o fazendo companhia.
“Você por aqui?” Deu um pequeno, quase imperceptível sorriso. “Acredito que eu deveria estar surpreso.” Disse com ironia ao estranho homem imaginário sentado numa cadeira perto da janela. O estranho conhecido não disse nada em resposta, apenas pendeu minimamente a cabeça para o lado, o ar frio que escapava pelas frestas das cortinas fazia os fios brancos rebeldes se moverem lentamente. A solidão não falou nada por um longo tempo, ao menos parecia ser um longo tempo para Edrad.
Já imaginando que nenhuma conversa viria da li em diante, vai em direção a sua cama, jogando-se na mesma, bagunçando os lençóis claros e o cobertor verde-escuro. Seus cabelos longos espalharam-se pela cama, criando um contraste visível entre o branco perolado do tecido que cobria o móvel, a pele levemente bronzeada e os cabelos negros quase sem brilho algum. Fitando a solidão, este permanecia sentado com as pernas cruzadas segurando um livro de capa vermelha na mão direita, estava obviamente o ignorando. Mentalmente, Edrad agradece por isso, pois não queria conversar de qualquer maneira. Naquele momento, a única coisa que desejava era que a maldita dor de cabeça desaparecesse. Fechando os olhos dourados, se concentrando no silêncio que preenchia o quarto, e com respirações lentas, Edrad adormeceu lentamente, caindo no mundo dos sonhos. Acordando algumas horas depois, a dor havia passado. Sentia-se mais leve sem o incômodo latejante em seu cérebro.
Aproveitado o silêncio que ainda fazia presença no cômodo espaçoso, vira-se na cama, esticando o braço esquerdo até o criado mudo de ferro e vidro ao seu lado, alcançando a superfície lisa da mesma, tateia com a mão a procura de uma garrafa envelhecida. Sem esforço algum, pega a tal garrafa repleta de um líquido âmbar, levando o mesmo a boca. A bebida amarga parecia queimar sua garganta, mas ele não liga, parecia gostar da sensação de ardência e amargura na língua. Nem se incomodou a oferecer ao seu amigo na janela, sabia que o mesmo não aceitaria. Assim continuaram os dois homens no silêncio. Edrad bebendo e solidão lendo atentamente. Os minutos passavam, a noite caia lentamente deixando o mundo lá fora no escuro, que trazia consigo criaturas terríveis que se escondem nas sombras durante o dia. A embriaguez se aproximava cada vez mais do homem deitado. Até que a voz do estranho homem de cabelos brancos que continha o livro em mãos quebra silencio do local.
“Preparem-se.” Diz, citando uma palavra do livro que lia, a voz grossa e ligeiramente rouca da solidão, abafada pela máscara que usa, ressoa pelo grande quarto tomado pela escuridão.
“Todos vocês. Soldados fracos, generais orgulhosos, burguesia avarenta, clero hipócrita e nobreza cretina. Preparem-se para o que virá em breve.” Diz Edrad, dando continuidade a frase do livro. Era seu preferido, contava a história de um revolucionário insatisfeito com a sociedade em que viva. Soltando uma alta gargalhada divertida. Agora meio bêbado, começara a pensar nos detalhes do que faria com as pessoas do reino após o início de sua rebelião. Vinha planejando esse momento por anos a fio. Sabia exatamente o que fazer. Chegado a hora, ele avançaria, atacaria, mataria a todos. Ele sozinho começando pelos nobres, como tanto sonhou em anos, enquanto seu fiel e bem armado e preparado exército aniquila os soldados e generais daquela terra.
Deitado em sua grade cama, posta no centro do cômodo pertencente a ele. Mesmo com a escuridão cercando o quarto, ele encara o teto acima de sua cabeça, pensando em como a morte reinará num futuro próximo, na chuva de sangue cairá em cada lugar em que seus pés tocarem o chão, em como ele vai dançar e cantar como uma criança, em cima dos corpos de todos aqueles malditos hipócritas que se dizem boas pessoas, os culpados por sua atual quase paranoia. “Bando de porcos arrogantes” diz sua mente sombria, relembrando dos momentos mais terríveis de sua vida, que passou nas mãos dos tais nobres.
“Preparem-se” repete ele em auto e bom som, pois sabia que ninguém o escutaria através das grossas paredes de pedra e mármore, revestidas de madeira. Vivendo debaixo do teto do inimigo, e os idiotas nem se quer imaginavam sua verdadeira natureza destrutiva e raivosa, repleta de desprezo e amargura. “Preparem-se, pois por onde Edrad Velrans passar...” diz dando um sorriso predatório, seus dentes brancos a mostra.
“A morte ira reinar” uma sensual voz feminina termina sua frase em seu lugar, sussurrando em seu ouvido esquerdo. Fechando os olhos dourados, com sua mente, sentiu dois pálidos braços finos e macios abraçando seu corpo. Era ela, a morte em pessoa, sempre ao seu encalço. Ela veio até ele mais uma vez. O seu demônio imaginário que estava quase diariamente de sua vida miserável, seguindo-o. Várias vezes com impaciência, ele perguntou a mulher se ela não tinha outras vidas para ceifar por aí, e sempre recebia a mesma resposta, um sorriso divertido e um silêncio irritante. Não é como se ele desgostasse dela, mas preferia passar a maior parte de seu tempo, sozinho, lidando com seus planos. Ter uma mulher abraçando-o quase sempre poderia ser irritante às vezes.
“Sim. Eles que se preparem, pois, quando eu me rebelar, o caos e desespero vão chegar para aquele bando de porcos.” Bêbado, ele grita com uma alegria quase infantil, rindo com vontade, ergue o punho direito no ar. A mulher imaginaria ao seu lado parecia compartilhar de seu entusiasmo.
Ainda no canto mais afastado do quarto, perto da única janela do cômodo, sentado mesma cadeira de madeira escura e veludo vermelho, com o mesmo livro em mãos, a solidão revira os olhos claros ao ver aquela cena.
