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O dia havia amanhecido tão nublado quanto no início da semana, com ameaça de tempestade, dizia o jornal. Era uma sexta-feira e Kenny não podia estar mais irritável pelo tempo. Era dia de sair, mas o tempo não ajudava nadinha! Havia sido assim durante a semana inteirinha. Se Stan não fosse um cara de paciência, ele e Kenny teriam discutido em todos os benditos dias daquela primavera. Se tivesse dado duas semanas esporádicas de sol era muita coisa.
- Urg, eu odeio esse tempo!
Quantas vezes Kenny já havia dito isso? Stan chutava ser a vigésima, porque depois da décima sexta vez ele acabou perdendo suas contas, não que ele fizesse muita questão de contar também… O que ele iria fazer? Jogar na cara de Kenny na próxima estação quantas vezes ele havia reclamado das nuvens, da sensação térmica, da umidade e das vezes que havia chovido? Haha! Até parece que o namorado se importaria. “Passado é passado, Sanly, se liga nesse sol de Verão, lindão! Não tem nem o que reclamar”... Bom, pelo menos havia sido assim no ano passado, e no outro antes daquele.
Kenny estava jogado pelo chão da sala, enquanto ignorava a televisão. Resmungando para Deus e as formigas, que eventualmente andavam pelo chão para tirar uma lasquinha do biscoito que estava em sua mão, já havia horas de como o tempo nublado era terrível e como acabava com sua vida. Um drama que não acabava mais, validado em três longos meses.
Do contrário de McCormick, Marsh adorava aquele tipo de tempo, e era seu favorito, dizendo só de passagem. O sol não queimava seus olhos às oito da manhã, estava mais frio e úmido que o normal, não tinha um ataque de asma durante a primavera e gostava de ver Kenny irritado com o que ele não podia mudar. O beiço e as sobrancelhas torcidas na cama logo de manhã alegravam seu dia em 99,9%, sem contar como ficava fácil ter a atenção de Kenny com poucos gestos. Como ficavam mais em casa tinham encontros improvisados em qualquer canto, Stan e Kenny adoravam essa "única" parte.
- É uma pena, porque a previsão do tempo diz que o sol só vai aparecer sexta que vem, e é só um “talvez”, Bem - Stan nem se importou com o drama de Kenny em agarrar seus tornozelos, quando se sentou numa das poltronas de dois lugares, olhando diretamente para a televisão… Mais uma toca de guaxinins com sintomas de raiva encontrada no centro da cidade; tsc, era o que? O quinto caso? Aterrorizante, será que era um possível atentado?
E lá vieram mais resmungos, eles não iriam acabar tão cedo… Afinal, o dia havia acabado de começar e as aulas de Kenny seriam apenas a tarde, e Stan estava de férias do serviço... Seria um dia perfeito para um encontro, ou um piquenique no lugar deles do condomínio, mas o tempo estava feio demais para o McCormick considerar sair do chão da sala.
- “uma pena”, ‘cê tá adorando isso que eu to ligado, Stanley! Absurdo! Absurdo! Eu to seriamente pensando em sacrificar você para o Deus Sol, sabia?!
O sorriso de Stan era terrível, como alguém poderia sorrir num tempo daqueles?! Não passava sequer uma resposta na cabeça do namorado, às vezes Stan era uma incógnita para Kenny… Como alguém gostaria de um tempo sem graça que a qualquer momento a luz poderia cair pela droga de um raio acertar a hidrelétrica?! Talvez Stan fosse gótico demais para o entendimento de Ken, talvez ele fosse um maldito masoquista por gostar de um tempo tão sofrido quanto aquele.
Stan tentava não rir mantendo um sorriso torto, ou Kenny faria o mesmo discurso de como o sol isso e aquilo! Bom… o de sempre. Para evitar a fadiga, preferiu puxar as cobertas abandonadas do garoto revoltado, que estavam desleixadamente em cima do sofá, para se proteger do frio que entrava pela persiana que desmazeladamente cobria a janela metade aberta.
Ken havia decidido que os tornozelos de Stan não eram tão interessantes assim e os soltado para enfim deixá-lo se deitar em paz. Era verdade que ele estava uma pilha de reclamações, ele mesmo mal se suportava em dias nublados, mas o que ele poderia fazer? Se não falasse nada ficaria mais ranzinza ainda. Deus, no último ano ele chegou até a se comparar com Kyle num dia normal! Terrível! A situação não era mesmo das melhores.
Em mais dois segundos de tédio, o universitário se sentou de costas para o sofá e jogou para trás, para apoiar sua cabeça na barriga de seu amadinho namorado gótico masoquista.
Stan apreciou quando Kenny se recostou nele, ao mesmo tempo que sentiu o baque em seu estômago, havia doído, mas não se deu pela retaliação de Kenny. Adorava esses momentos de silêncio e “paz” entre eles, o tempo estava ótimo para tirar um descanso… O loiro que era tão animado odiava esse pensamento, mas ele faria o que? Tomar um banho de sol? Não era possível, não na primavera. Ficaria apenas ali seguindo o que Stan faria.
O Marsh não conseguia tirar os olhos de Kenny, ele estava relaxado, era isso mesmo? Mas não duraria muito tempo, Kenny era assim, movido de frustrações e momentos… Stan também estava pensando em como os cabelos do McCormick eram macios, e estavam bem ali dando sopa… Stan não conseguiu não dá-los atenção.
Em dois minutos intruso de carinhos e afagos Kenny já havia voltado para um cochilo preguiçoso, Stan abobado fez o mesmo sem ter intenção de pregar os olhos, em poucos instantes a televisão se desligou sozinha, e então a única coisa que podia ser ouvida no apartamento eram roncos moderados e suspiros pesados.
O tempo fechado continuava lá fora, sem sinal de melhora, a cada instante que passava parecia que as nuvens escuras se juntavam mais e mais, era quase que uma benção os dois terem caído no sono, ou Kenny não descansaria até ver o tempo cessar.
–
Stan foi quem acordou primeiro, quando o primeiro trovão foi ouvido de longe… Jesus, era muita benção para um dia só, uma maravilha de tempo! Ken não poderia acordar sem que seu humor caísse para o negativo, ele odiava chuva, quando o garoto morava com os pais as goteiras eram insuportáveis, a casa era uma enorme goteira, não havia um lugar que não molhasse, e o frio que fazia era terrível sem um aquecedor que prestasse ele se juntava com Karen e Kevin para se amontoarem com suas cobertas para enganar o frio… Stan entendia completamente os motivos da falta de prazer de Kenny pelo tempo lá fora, enquanto quando ele era pequeno ligava seu aquecedor na temperatura mais quente que poderia aguentar e dormia no chão gelado, livre de goteiras e qualquer dificuldades… Ele teria aceitado Kenny e seus irmãos em sua casa se o amigo na época não fosse tão orgulhoso e independente, o que o McCormick mais odiava era pena, ele não se sujeitaria a uma situação que Stan tivesse dó dele, não se ele pudesse evitar.
Enfim, os tempos agora haviam mudado, mas o desprazer ainda estava ali, seus irmãos compartilhavam da mesma opinião, mas todos já em moradias que eles faziam questão de correr de goteiras e problemas relacionados a aqueles tempos antigos.
Stan olhava para Kenny se lembrando de todas as vezes que o namorado mostrava a cabeça para fora da janela, para xingar o céu e suas nuvens de chuva, não havia como esquecer a multa que eles haviam levado por Kenny ter brigado com o tempo às sete da manhã de domingo, enquanto Stan estava morto e sepultado na cama depois de uma noite inteira de bebedeira que o namorado não quis acompanhar.
Riu sozinho quando lembrou de abrir a correspondência e ver 250 dólares na carta vermelha colorida a mão por giz de cera, por uma folha tirada de um caderno de colégio, com o melhor dos motivos… Stan achou seriamente que era o golpe de uma das malditas crianças do prédio para comprar drogas, mas quando foi tirar satisfação com a síndica, era realmente um bilhete sério… E ela havia feito pessoalmente… Uau.
Por um momento havia se esquecido totalmente de Kenny recostado em si, se assustou mais uma vez quando a respiração do namorado pesou, deveria ser mais cuidadoso.
Ele precisava se levantar, então aquela era a hora. Cruzou os dedos para que Kenny não acordasse durante o processo… E havia sido um sucesso.
Quase que milagrosamente Stan conseguiu desvencilhar a cabeça de Kenny de seu estômago sem qualquer reclamação, e assim que se levantou parou por cinco segundos para retirar um pouco da tenção e admirar o namorado mais lindo do mundo babando de boca aberta nos joelhos do sofa, com seus dentes separadinhos, cheio manchas de sol espalhadas pelo rosto e cabelos desgrenhados como eram naturalmente, Stan não conseguia olhar a imagem viva sem abrir um sorriso de idiota apaixonado, Kenny era… Tão apaixonante(?), Deus, Stan não tinha nem palavras para descrever como se sentia com Kenneth ao seu lado, era coisa de outro mundo, palavras que descreveriam não haviam sequer sido inventadas em seu idioma.
Involuntariamente sua mão fez caminho até a feição do namorado, Kenny era tão magnético… Mas então veio o segundo badalo e seu braço se recolheu para trás.
Quando o estrondoso som do segundo trovão se fez presente, o Marsh correu para fechar as cortinas e janelas, desligar os eletrônicos da tomada, e as luzes que haviam esquecido ligadas. Do jeito que os dois garotos tinham sorte, era capaz de todo o apartamento queimar durante a tempestade e o seguro não cobrir nem as lâmpadas que queimariam.
Apressado, antes que o terceiro trovão batesse na porta, as luzes do corredor já haviam sido acesas, o apartamento havia ficado escuro como a noite, não havia como não ligar pelo menos uma lâmpada. E voltando para a sala, Stan se esticou antes de fazer sua tarefa favorita com sua noivinha desacordada aos pés do sofá.
O sono de Kenny era muito leve, mas sempre se permitia descansar mais algum tempo de olhos fechados; Stan estava ciente, mas naquele instante que voltava a olhar para seu colega de apartamento e quarto, parecia um sono tão genuíno… Mas ele seriamente não havia acordado com o som do trovão? Era quase impossível.
- Kenny… Ken? - Sussurrou de primeira, e deixou que sua voz aumentasse um grau na segunda vez. Bom, parecia que ali estava sua resposta, Kenny estava verdadeiramente dormindo, ou lhe fazendo de bobo, era sempre uma opção.
As mãos de Stan se movimentaram à frente de qualquer outra coisa, colocando cuidadosamente os braços de Ken envolta de seu pescoço. O louro ainda não havia prestado nenhum sinal de consciência, mas não era com que Stan se preocupava, o que passava em sua cabeça era se conseguiria carregar seu namorado até o quarto deles… Afinal, ele ainda estava molenga por ter acabado de acordar, e nem havia sido acordado por querer… Força era um negócio complicado aquelas horas da manhã…? É, sim, manhã. Onze horas ainda é cedo em suas férias.
As mãos de Stan logo pularam para as coxas de Kenneth, para sem nem esperar um segundo a mais dar o impulso que faltava para que Kenny se instalasse em seu colo, seus braços.
Do jeito que Kenny foi pego ele ficou, dando de contribuição apenas um suspiro de encher os pulmões vazios. Stanley sentiu todo seu corpo arrepiar, o ar quente que Kenny inspirava e expirava debaixo de suas orelhas eram sempre uma tentação, não importava a situação.
Quando percebeu que Kenny não acordaria, ele continuou a andar pelo corredor com toda a sua força de vontade, ele era forte, mesmo não se garantindo em carregar Kenny por 12 curtos passos.
Durante metade do caminho teve que impulsionar Ken para cima… realmente, ele estava fora de forma durante aquelas férias.
Assim que chegou ao batente da porta, ao final do corredor, ele agradeceu a todos os santos por não ter deixado seu namorado cair como um pudim no chão e nem acordar.
Stan foi rápido em mover a maçaneta e abrir a porta, daquela forma o barulho era de uma vez, naquela porta que mais rangia que tudo, talvez devesse passar um olho ali para evitar situações como aquela. Fechou da mesma forma que abriu… Urg, um barulho realmente horrível.
Kenny, enfim, se mexeu, apertando seus braços em volta de Stan como se fosse um boneco de espuma. Os olhos azuis se esbugalharam olhando pelo chão do quarto… Certo, não havia nada em que ele tropeçaria, ok. Kenny o estava matando sufocado, ele precisava ser rápido.
Nos próximos dois segundos que se passaram, o dorminhoco já estava estirado na cama, sem esboçar coisa alguma, mas ainda segurando Stan pelo pescoço e cintura, com se ele fosse seu ursinho de pelúcia gigante… O que não era de tudo mentira, Stan era o melhor dos ursinhos.
- Kenny, filho da puta, eu sei que você está acordado - Stan sussurrou na orelha de seu “dono”, nem um ursinho de pelúcia aguentaria todo aquele enforcamento.
O moreno ouviu a risada de Kenny em seu pescoço, mas não houve mais nada, como se nem tivesse dito nada, se bobeasse, Kenny diria a ele que havia alucinado sua risada assim que “acordassem”.
Stanley tentou de todas as formas se desvencilhar, mas foi tudo em vão, até Kenny lhe puxar para o outro lado da cama o abraçando como um maldito coala. Stan se deu por vencido durante alguns instantes e se deitou como Kenny havia “proposto”. Encaixado no lado que o ombro de Kenny se escondia no travesseiro. Kenny também havia se remexido na cama, desvencilhado sua perna para que ficasse entre as coxas de Stan, era um lugar maravilhoso, quente e lhe esmagando a perna, confortável era o nome, sem dizer que seus lábios haviam “sem querer” se juntado aos de Stan lentamente “apenas para melhorar suas posições”… Os lábios haviam tido uma câimbra?! Bem, Stan pouco se importou apenas devolvendo preguiçosamente o toque para se enterrar no travesseiro.
Um dos braços de Stan havia decidido que ficaria pendurado sob a cintura do McCormick, e em poucos segundos o tempo estava copiando segundos atrás… Estavam serenos em mais um cochilo naquela manhã. A única coisa que se escutava por ali eram altos suspiros e roncos moderados, com as janelas e portas fechadas o início da chuva não foi escutado… Assim que acordassem, a única amostra que teriam daquele tempo seria o asfalto molhado.
