Chapter Text
A garota de onze anos corria pelas construções decrépitas. Invadia janelas, pulava pelos telhados. Até o dia anterior, ela faria esse caminho com um sorriso no rosto; neste ela não tinha a mesma animação. Graças a Mal, ela tinha um ranço na garganta que não conseguia tirar.
A garota chegou numa costa da ilha. Ela sempre olhava para trás para garantir que não era seguida. Por sorte, Harry e Gil estavam muito ocupados destruindo uma loja.
Ela pulou n'água e nadou até um conjunto de rochas que era divido no meio pela barreira criada pela Fada Madrinha. A menina de pele escura e cabelo cacheado chegou, sentou numa das pedras e esperou. Ela ficou de costas para o bloqueio mágico com uma raiva ebuliente.
— Uma? – ela ouviu seu nome alguns minutos mais tarde.
Ela conseguiu abrir um sorriso quando se virou para a garota do outro lado da barreira.
— Hey, Mel-Mel – ela tentou não mostrar sua decepção e raiva; mas foi mal sucedida.
— Você não parece feliz.
— Eu sou uma vilã, Mel. Eu nunca estou feliz.
— Ontem você estava – a garota de pele clara anunciou – Pelo visto a escolha não foi muito bem.
Uma bufou.
— Mal disse que eu não sou má ou forte o suficiente para fazer parte da gangue dela. Nem ela nem nenhum dos piratas.
— Sinto muito, Uma. – Melody pensou nas palavras antes de continuar – Por que vocês não se tornam sua própria gangue de piratas?
— Eles são mais fortes! Eles já têm um território enorme.
— Mas com sua própria gangue, você seria a líder.
Essa ideia despertou um brilho na pequena vilã. Todos da ilha a conheceriam por seu nome, não pelo nome de sua mãe; se isso conseguisse acontecer obviamente. Ela se desanimou.
— Eu não poderia competir com a filha da…
Uma parou em suas palavras. As meninas fizeram um acordo desde o dia em que se conheceram: nunca citar o nome dos pais de quem quer que seja. Elas não queriam que sua amizade fosse abalada por descobrir quem era o pai da outra.
Melody entendeu que ela diria o nome de um vilão. Ela tomou a fala:
— Mas não foi você quem disse que não somos nossos pais? Se esperar que ela seja igual à mãe é o mesmo esperar que eu seja igual a minha. Não somos cópias deles.
Ainda que Melody não dissesse muito sobre seus pais, Uma sabia que a princesa não gostava de ser comparada a sua mãe que – como a amiga a descrevera – era graciosa e linda. A garota de pele escura chegava a rir, ela não via problema em não ser graciosa, não era importante na ilha. A personalidade determinada, positiva e até irônica de Melody eram o suficiente para a híbrida. E nem de longe Uma a achava menos que bonita, não importa o quanto Melody dissesse que a mãe era mais.
— Ela vive com a mãe e outros vilões. Toda a vilania transborda no cortiço em que ela vive. – ela não esperaria a garota responder – Só que isso não é importante hoje.
A princesa juntou as sobrancelhas. Uma sorriu com o canto da boca.
— Mês passado você disse que faltava exatamente um mês para a o seu martírio pessoal. E é hoje.
Uma gostou como a amiga mostrou surpresa. No primeiro mês que começaram a conversar, Uma tinha reclamado que os aniversários na ilha são trotes e ritos de passagem; nada de presentes ou festas. Na vez seguinte que se encontraram, Melody tinha feito uma tiara com as conchas mais bonitas de sua coleção. Como a pirata queria ser a rainha da Ilha dos Perdidos, Melody achou mais que apropriado.
Era a primeira pessoa, além de Harry, a lhe dar um presente. Ela não contava os dos garotos que Harry forçava a lhe entregar algum tributo. Era a vez de Uma retribuir.
Melody também não gostava de seu aniversário. Ela definitivamente detestava ser o centro das atenções; por isso não gostava de festas em homenagem a ela.
— Não, Uma. Eu não quero nada.
Não adiantou, a menina já tinha um sorriso aberto desafiador e tirava algo do bolso.
— Pode não querer, mas você vai ganhar um presente de aniversário.
— Achei que vilões não davam presentes. A não ser que fossem uma armadilha ou venenos. – a princesa brincou
— Exatamente, Mel-Mel. – Uma respondeu em mesmo tom. – Então não abuse de minha boa vontade.
Melody riu. A pirata tirou do bolso algo coberto com um pano. Entre as rochas e dividida pelo domo, havia uma poça d'água, onde Uma colocou a trouxa e a empurrou. Havia tempo que ambas as meninas descobriram que poderiam passar coisas pela água, assim como os peixes passavam pela barreira. Só pessoas e objetos de médio a grande porte eram impedidos. Elas nunca testaram algo mágico.
Do outro lado, a garota de pele corada pegou. Abriu o tecido molhado e se iluminou com o que viu. Era uma pulseira de corrente pouco valiosa. Havia contas azuis e verdes nas laterais e pequenas conchas penduradas. Entre elas, havia uma concha maior com uma estampa roxa.
— É lindo! – a menina exclamou – Você quem fez?
— Não julgue, artesanato nunca foi meu forte. – Uma sentiu as bochechas aquecerem.
— Mas eu adorei! – Melody respondia em verdadeiro entusiasmo enquanto a colocava no pulso.
O sorriso aberto de Melody esquentava o coração e a fazia a sorrir impensadamente como uma boba. Ela tirou outra pulseira de seu bolso. As missangas e as pequenas conchas eram diferentes, mas concha maior era idêntica.
— Essa é a minha – ela disse – As conchas fazem par.
Ela viu a princesa enrubescer. Uma sempre achou fofo seu rosto corado.
— Você fez uma pulseira para que uma não se esqueça da outra?
Uma virou o rosto para o lado para esconder seu constrangimento.
— Eu fiz uma para mim porque achei que a sua ficou bonita. Mas pense o que quiser.
Melody riu. Uma nunca admitiria um sinal de amizade entre as duas e ambas sabiam disso.
— Obrigada – a aniversariante disse por fim.
Elas conversaram trivialidades. Normalmente sobre como foi o dia, o que elas encontraram no mar ou na costa. Uma evitava dizer sobre os assaltos que o trio fazia.
Mais tarde e sem mais nada para o que dizer, as meninas olharam para o início do pôr do sol. A pirata sempre se perguntava se essa imagem era mais bonita do outro lado da barreira.
— Imagina como seria maravilhoso conhecer o mar inteiro – disse Melody sem desviar o olhar – Sem se preocupar com nada que deixa pra trás.
— Você tem mais chance disso que eu – Uma disse cabisbaixa.
A garota viu uma pontada de culpa na princesa.
— Desculpa, Uma. Não pensei antes de dizer. – ela ficou quieta por um momento – Se bem que também não me sinto tão livre.
Uma também sabia dessa história, ela conseguiu forçar a amiga a falar uma vez. Melody era perseguida por uma bruxa em busca de vingança contra os pais. Por causa disso, seus pais a limitavam de sair de casa e monitoravam seus movimentos. Em nada as fadas ou as pessoas boas que usavam magia puderam fazer para rastrear a vilã.
— Você poderia conversar com sua mãe. Até onde eu sei, as pessoas de Auradon são muito mais compreensíveis.
— Claro – ironizou a princesa – Ela iria fazer uma fest…
Melody travou por uns instantes.
— A festa! – exclamou.
Uma riu.
— Você esqueceu sua própria festa de aniversário?
— Desculpe, Uma. Eu tenho que ir. – Melody colocou sua bolsa com conchas no ombro e se jogou na água.
— Tente não quebrar nada. – a pirata brincou.
— Tente não sentir tanto minha falta – Melody respondeu em igual ânimo na água.
Uma revirou os olhos e viu a menina desaparecer na água. Melody sempre conseguia deixá-la com um sorriso casto, ainda que a filha de Úrsula jamais o dissesse alto.
——
Uma abriu os olhos com surpresa. Levantou-se desgostosa enquanto punha a mão na cabeça. Não tinha nada melhor para sonhar?
Sua tripulação capturou o rei no dia anterior, ela conseguiu baixar a guarda de Mal e tinha o novo quarteto feliz de Auradon em sua mão. Ela conseguiria ou a varinha e sair daquele pesadelo ou mataria Ben. Tantos sonhos perfeitos que poderia criar e sua mente traiçoeira teve que trazer uma memória de Melody?
A pirata esfregou o sono dos olhos, estava deitada em sua cama. Ela estava no mesmo velho quarto decorado com conchas e corais. O cheiro de peixe morto e fritura da cozinha da mãe, no andar debaixo, era particularmente enjoativo quando Uma acordava.
Contudo logo tudo iria acabar, ela pensou. Uma dominaria a terra e os mares. Ela finalmente seria livre.
A imagem de Melody voltou a sua mente. Seu sorriso honesto, seus olhos claros brilhantes e seus ombros e bochechas coradas.
Uma rosnou para si mesma. Sentia orgulho e si mesma por passar meses sem pensar na princesa. Na sereia, vale lembrar. No início, sua falta foi arrebatadora; só que ela conseguiu direcionar a angústia e fúria dentro dela para seus objetivos na ilha. Sua raiva ebuliente se voltou contra as gangues – uma em específico. Aquela tristeza fraca – ela ousava admitir que existisse no início – foi dizimada.
Ela tentou esquecer Melody a todo custo e com o tempo ela teve êxito. Entretanto havia dias que essa garota voltava a sua mente já naturalmente perturbada. Isso a fazia se sentir mal, abalada e tinha raiva de si mesma por sentir isso.
Ela olhou para as conchas amarradas em móbile. Havia uma pequena concha azul que não chamava atenção perto das outras. Esta vinha da coroa que Melody tinha lhe feito. Quando Uma a jogou contra a parede, essa foi a única do conjunto a continuar inteira. Uma a tinha pendurado junto das outras e disse que iria se esquecer de onde essa veio. Não funcionou.
A vilã fez a higiene e trocou de roupa. Ela ajoelhou-se sem pensar ao lado de sua cama e tateou a parte interna, entre a madeira e o colchão. Encontrou o que procurava: a pulseira que fazia par com a de Melody.
Uma não tinha ideia de porque a guardou, provavelmente a princesa já tinha se livrado da dela. A garota pensou que talvez serviria para impulsionar sua raiva sobre Auradon. Ainda que ela já tivesse rancor do continente e tudo o que ele representava, ela não conseguia sentir isso enquanto olhava para a bijuteria. Ela tinha desgosto, com certeza, e jamais admitiria a tristeza.
Ela olhou para a janela, já tinha amanhecido. Uma colocou a pulseira no bolso. Ela desceu as escadas, pegou uma maçã e não se importou em se despedir de sua mãe. Ela seguiu pelas ruas imundas, o cheiro de esgoto e sal era forte e pequenos ladrões corriam preparados para o próximo golpe. Ela entrou num prédio cuja entrada já tinha perdido o batente. Era um caminho que só ela e alguns membros de sua tripulação conheciam. Uma subiu ao terceiro andar e entrou em um dos quartos. Ela pulou da janela destroçada até a janela do prédio da frente. Esse prédio era infestado de ratos e insetos, como o anterior, alguns mendigos se aventuravam a viver lá; porém em sua maioria era desértico.
Uma chegou onde era suposto ser uma cozinha, abriu uma geladeira que havia décadas que não funcionava. Dentro dela havia um buraco no chão com escadas.
Ela descia já com a idealização que comandaria Auradon. O mundo saberia seu nome, ela se repetia.
“Ah, então eu seria mais uma escrava para você”. Uma se lembrou da voz sarcástica de Melody.
Merda, ela se repreendeu. Era só não pensar naquela garota.
O cheiro de mofo atingiu suas narinas, ela finalmente chegou ao fim dos degraus. Este era o seu esconderijo para os reféns; para aqueles que enfrentam sua gangue, não pagam o que devem ou que têm informações necessárias. A única luz vinha de cima, de um ralo com grades da rua. Quando chovia, a água caia pela abertura e tornava o chão inundado e incomodante para os capturados.
Sorte para o eleito da vez que não caiu um pingo de gota do céu e o fedor da infiltração estava aliviado, embora Uma quisesse que ele sofresse mais. O rei dormia sentado na quina do cômodo preso aos grilhões. Os piratas disseram que ele não parava de gritar na noite anterior, como se alguém daquele lugar oferecesse ajuda.
“O príncipe Ben não é mau, eu acho. Ele só não anda com boas pessoas.” A voz de Melody voltou a assombrá-la.
A vilã estalou a língua. Virou-se para o lado da entrada, onde havia uma mesa e uma cadeira. Um de seus piratas estava sentado com a cabeça jogada na mesa.
— Acorde, Jeff – ela ordenou.
O pobre jovem acordou num salto.
— Sim, capitã – ele bocejou e tentou se mostrar disposto.
— Vá comer algo e se preparar para meio-dia.
Ele acenou com a cabeça e se retirou. Uma sentou cadeira com suas pernas sobre a mesa. Ela mordeu a maçã que estava na mão. Sua expressão mostrou estar intragável, ela teve o azar de pegar uma fruta bem podre. Ela já imaginava os banquetes que teria no continente.
“Eu queria te mostrar tanta coisa, Uma” A filha de Ariel continuava persistente em sua mente. Ela rosnou, desistiu de procurar alguma parte comestível da fruta e a largou no chão.
As lembranças estavam mais irritantes que qualquer dia. Hoje era para ser seu dia de glória, por Hades! Uma sentia o mundo em sua mão, ou ela governaria ou veria o reino ruir com a morte de Ben.
“Você é legal, Mel-mel”. Agora era sua própria voz infantil ressoando em sua mente, ela se lembrava de forçar um tom descontraído. “Quando eu dominar o mundo, não deixarei que toquem você”.
Uma riu para sua versão mais nova. Ela tinha sido estúpida por ter fé em alguém de Auradon. Sempre que ela tinha esses devaneios com a princesa, ela se forçava a lembrar de seu último encontro, um dia depois do aniversário de doze anos de Melody. Não foi triste, na verdade, foi a maior esperança que a garota tivera na vida.
“Até hoje” ela comentou em sua mente enquanto sorria sadicamente para o rei a sua frente. Como puderam escolher um soberano tão fraco, ela não entenderia.
Inconscientemente, Uma havia pegado a pulseira do bolso e dedilhava os pingentes. Quando ela chegar a Auradon, ela acabará vendo Melody novamente. A pirata queria poder atacar a garota como qualquer criatura miserável do continente, só que ela não sabia como enfrentá-la.
“Melody é uma traidora, duas caras e egoísta”, ela mastigava em sua mente “Ela te deixou esperando e se esqueceu de você, Melody é tão ruim quanto os vilões. Você deveria só não dar o pior tratamento, porque existe a corja da Mal”
Os pensamentos deveriam impulsionar sua vilania e crueldade; porém ela sentiu a ameaça falsa até em sua mente. Ela se lembrava dos sentimentos que ela tinha quando Melody comentava que alguém a destratou, Uma sentia vontade de quebrar os ossos de qualquer pessoa que tentasse magoar a amiga. Só que a sereia também a magoou e muito.
Esses sentimentos a deixavam confusa. Ela era a rainha da Ilha dos Perdidos e em breve de Auradon, ela não deveria se preocupar com alguém que a desviasse de seus objetivos quando ela estava tão próxima.
— Pelo rancor no rosto de minha capitã – Harry comentou vindo de trás o que a fez dar um leve pulo na cadeira – Sinto que ela está planejando algo muito divertido para Mal e seus escudeiros.
A garota se estressou com a súbita aparição; mas ela jamais admitiria que levara um susto e também jamais diria sobre Melody. Então apenas forçou um sorriso.
— Digamos que eu tenho algumas coisas para dizer às criancinhas de Auradon. – Bom, isso não era mentira.
Harry respondeu com um sorriso sádico e tirou das costas uma bandeja, havia frutas cortadas numa vasilha e torradas num prato. Uma suspirou de alívio. Afinal alguém cuidava dela, pelo menos o suficiente. A única pessoa com quem ela poderia realmente contar, era ela mesma – a vilã agradecia a Melody por isso.
— E quanto ao bobo da corte ali? – pediu Harry enquanto a pirata comia seu café da manhã. – Eu quero ter um pouco de diversão.
Uma sorriu triunfante para o rei adormecido depois para seu imediato.
— Eu deixo você usar o gancho nele ao meio dia.
Finalmente seu foco desviava da sereia.
