Work Text:
Como diz o famoso ditado: falar é fácil, difícil é fazer. Faltavam dois dias para o encontro com Andrew, ou seja, dois dias para Neil se afundar em uma espiral crescente de ansiedade e inseguranças. Kevin estava de castigo há um dia e Neil já se sentia desesperado para falar com ele. Ele não acreditava que poderia fazer isso sozinho sem acabar fugindo para as colinas na primeira oportunidade. O primeiro e ainda atual problema se mostrou quando Neil tentou escolher um local para levar Andrew. As palavras “é melhor ser bom” ecoando em sua cabeça sem parar. Foi nesse momento que Neil começou a cair. Ele tentou pedir conselhos para sua família.
— Leve-o para um restaurante chique. Eu fiquei sabendo que um restaurante japonês abriu a três quarteirões daqui, ele está com ótimas avaliações na internet!
A intenção de seu tio Stuart era boa e a ideia não era tão ruim, mas Neil duvidava que Andrew fosse o tipo de garoto que iria querer ir a um restaurante no primeiro encontro. Ele também não sabia se ele gostava de comida japonesa e preferia não arriscar. Isso é coisa de velho , Neil conseguiu ouvir a voz de Kevin em sua cabeça e, em certo ponto, até concordava.
— Por que não vão a um fliperama? Na minha época…
Neil parou de ouvir imediatamente. Ele já ouvira esse papo antes e, de acordo com a sua experiência, Wymack parecia considerar esse encontro como um encontro casual entre amigos que ele costumava ter em fliperamas. A intenção não era ruim, Wymack só não era romântico o suficiente para conseguir ajudar Neil.
— Que tal um piquenique no parque? É ao ar livre e na natureza! Eu posso fazer bolinhos para você levar e suco. De que sabor Andrew gosta?
Abby continuou divagando sobre a lista de alimentos que poderia garantir para Neil. Ele a ouviu por educação e consideração à mulher mais velha, pois já desistira dessa ideia. Um piquenique parecia exagerado demais. Não era exatamente essa a palavra que ele usaria para descrever a opção, mas ele não conseguia pensar em nada melhor. Era só um sentimento que dizia que um piquenique com certeza não era uma boa ideia.
— Leva ele para o shopping! — gritou Kevin quando saiu de casa para colocar o lixo na lixeira. Abby deveria ter comentado algo sobre as dúvidas de Neil quando voltou para casa naquela manhã.
A ideia do amigo também não parecia ruim, mas Neil sabia que não era a escolha certa. Talvez ele estivesse sendo muito exigente ou só estivesse se auto sabotando, mas nenhuma das opções propostas, embora boas, eram boas o suficiente. Nada parecia ser bom o suficiente quando Neil pensava em Andrew. Neil tinha dois dias para se decidir e não surtar totalmente, entretanto, ele falhou nos dois requisitos. Sua última tentativa foi uma decisão baseada cem por cento no desespero: pesquisar no Google. Neil esfregou os cabelos, seus fios já naturalmente despenteados apontando em várias direções diferentes. O garoto respirou fundo e se levantou do sofá para ir para seu quarto e acabar logo com a humilhação. Stuart estava fora outra vez, Neil estava acostumado a estar sozinho devido às inúmeras viagens de negócios para fora do estado e até mesmo do país que seu tio fazia, mas dessa vez ele só havia saído para ir ao mercado, ele teria pouco tempo. Neil subiu as escadas de sua casa com pressa, ele quase caiu no quarto degrau no meio de sua afobação, mas conseguiu espalmar as mãos no quinto degrau antes de quebrar o nariz.
O quarto de Neil era comum se comparado a uma pessoa normal, mas se comparado ao quarto de um pré-adolescente era estranho. As paredes de cor bege estavam vazias, sem fotos ou posters pendurados. Sua cama, encostada na parede, não estava feita, mas também não estava bagunçada. Havia dois pares de tênis e uma mochila jogados de qualquer jeito no chão. Ele tinha uma escrivaninha marrom com um livro que ganhou de Abby, mas nunca passou do segundo capítulo, e um computador que julgava ser bom, mas que não costumava usar muito se não estivesse com Kevin. A televisão era melhor para assistir aos jogos de Exy, portanto Neil não tinha muita utilidade para um computador. Ele raramente seria usado se Kevin não gostasse de assistir vídeos de "tente não rir" no YouTube.
Stuart gostava de dar presentes desnecessários para Neil. O garoto se sentia desconfortável no início, mas ele não teve coragem de dizer nada sobre depois de descobrir que Stuart fazia isso para tentar compensar o tempo que ele esteve com seus pais biológicos. De alguma forma Stuart se sentia responsável pelos abusos de seus pais, o que não fazia sentido algum para Neil. Por isso o computador. E as roupas chiques no guarda-roupa. E também a estante preenchida por livros de fantasia, ficção e romance, e a coleção quase infinita de DVDs. Seus objetos pessoais nunca saíam do lugar, o quarto não parecia ser de um adolescente por Neil passar mais tempo na casa de Kevin do que na sua própria. E estava tudo bem. Stuart se sentia feliz presenteando Neil e seu sobrinho se sentia feliz por oferecer conforto ao seu tio com algo tão simples. Os dois lados ganham.
Neil olhou para a janela e viu os pés de Kevin fora da cama, pela sua posição Neil não conseguia vê-lo por inteiro, mas saber que ele estava ali era reconfortante. Neil sempre poderia invadir seu quarto, em pânico, ele lidaria com tio Wymack e tia Abby depois. A verdade é que falar com Kevin era a única coisa que o faria tomar uma decisão sem se sentir ansioso, ou era isso que ele pensava. Desviando o olhar, Neil ligou o computador e se sentou na cadeira giratória. Ele balançou distraído enquanto esperava.
Ao abrir o navegador ele travou por um momento pensando no que pesquisar. Como não ser um desastre total no seu primeiro encontro? Como fazer um garoto que você não conhece direito gostar de você? Como saber se você está tendo um ataque cardíaco ou um ataque de ansiedade? Por fim, ele digitou “como escolher um bom lugar para um primeiro encontro” se sentindo satisfeito consigo mesmo por algum motivo desconhecido. Cerca de setenta e seis milhões e quinhentos resultados apareceram.
O primeiro link foi uma página do WikiHow com cinco formas para escolher um bom lugar. O primeiro passo do método um dizia para pensar no que o seu parceiro quer. Neil franziu o cenho, era isso o que ele estava fazendo o tempo todo, pensando no que Andrew iria querer e no que iria gostar.
“Isto é importante, mesmo que mal o conheça ou então que já sejam amigos há algum tempo. Seu parceiro não vai aproveitar a ocasião se o encontro parecer impensado ou impessoal.”
Ele quase revirou os olhos quando leu isso, mas se endireitou na cadeira quando leu a segunda frase.
“Pense no que já sabe sobre a pessoa. O que diverte seu parceiro? O que ele gosta de comer? O que detesta?”
Sorvete, pensou Neil imediatamente, mas eles já iriam a uma sorveteria. Neil bufou antes de fechar o site inútil sem vontade de ler o resto.
O próximo link pareceu mais promissor. Os melhores e piores lugares para um primeiro encontro. O site era bem organizado e possuía uma lista de sete lugares, cada item contendo seus prós e contras. Neil passou os olhos por cada item sem ler a descrição para descartar as opções improváveis. Ele retirou o item dois, bar, eles não tinham idade para irem a bares; o item quatro, show, Neil duvidava que conseguiria comprar ingressos de última hora; o item seis, casa de amigos, ele se recusava a escolher essa opção principalmente pelo fato de que Kevin é seu único amigo e ele esteve lá da última vez, sua presença, inclusive, foi um dos motivos para eles marcarem esse encontro; e o item sete, Neil escolheu retirar essa sem nem ler o resto por ler a palavra “sexo” na descrição. O sistema de eliminação deixou os seguintes itens:
- Restaurante:
Prós: é a escolha mais óbvia, um bom templo culinário. Nele você poderá mostrar sua educação à mesa, seu gosto por uma boa comida e ainda discorrer sobre assuntos diversos.
Contras: pode sair caro se você escolher um bom restaurante e também tem de se atentar para não querer ousar demais e levar a pessoa a um vietnamita que serve carne de cachorro apimentada. E mais, suas maneiras à mesa podem ser um tiro na culatra se estiver acostumado a usar palito de dente ou guardanapo no pescoço.
Neil se balançou novamente na cadeira e tombou a cabeça ligeiramente para a direita enquanto considerava. Essa foi a sugestão de seu tio e Neil a descartou por pensar que Andrew não iria gostar, ele ponderou mais uma vez a escolha antes de descartá-la pela segunda vez.
- Cafés:
Prós: ótima opção para poder ver se a pessoa realmente tem alguma química com você. É um local neutro que pode tanto se tornar uma experiência romântica ou ser tão sem graça que você vai fugir da chatice dela em menos de duas horas.
Contras: algumas pessoas o acham muito sem graça e bem entediante, por isso tenha em mente algum outro local para ir, se a coisa funcionar direito entre vocês.
Próximo, considerou mentalmente. Eles poderiam conversar para espantar o tédio, mas Neil não confiava em si mesmo para ter a certeza de que não iria entrar em pânico e travar completamente, além disso, Andrew não parecia ser a pessoa mais falante do mundo.
- Cinema:
Prós: dá para se brincar de amante à moda antiga, pegar na mão e deixar a pessoa repousar a cabeça em seus ombros e preparar seu caminho para depois do THE END. E lembre-se: cinema combina com algo a mais, seja bar, restaurante ou café.
Contras: primeiramente não se conversa. E depois, escolha bem o filme, pois seu acompanhante seguramente vai prestar a atenção em seu gosto e pode ser que não curta ver mais um capítulo da série Harry Potter, Pânico e Jogos Mortais ou, ainda, deteste filme de arte alemão com cinco horas de duração.
Neil mordeu a ponta do indicador enquanto tentava entender o que seria o “the end” e porquê ele estava em capslock. Seja lá o que significasse, a falta de necessidade de conversa seria vantajoso para ele caso surtasse. Ele anotou a palavra “cinema” na contracapa do livro que estava perto de si com um pedido de desculpas mental a Abby. Seria uma opção a considerar.
O site chegou ao fim e Neil só tinha anotado um dos lugares. Ele gemeu frustrado se afundando na cadeira. Neil se empurrou para trás com o pé e girou a cadeira até que ficasse de frente para a janela. Kevin continuava no mesmo lugar. Ele mordeu o lábio inferior e por fim tomou uma decisão, iria falar com Kevin de um jeito ou de outro. Ele precisava falar sobre isso com alguém. Manter seus pensamentos e sentimentos para si mesmo não estava fazendo nada para ajudá-lo, pelo contrário, só deixava-o mais inquieto à medida que o tempo passava.
Falar com seu tio estava fora de questão. Não que Neil não confiasse nele porque ele confiava. Ele confiava em Stuart com sua vida, de olhos fechados, incondicionalmente. Ele sabia que o homem o amava e queria o melhor para ele e moveria montanhas para mantê-lo seguro e bem, mesmo assim Neil se recusava a falar sobre problemas de namoro com seu tio. Problemas de namoro, Neil torceu o nariz ao pensar na palavra. Era esquisito, toda a situação era esquisita. Por que ele precisava passar por isso? Quem foi a pessoa mal amada o suficiente para inventar o relacionamento amoroso? Repugnante. Neil não precisava disso, ele nunca quis isso. Então qual era a explicação para a felicidade que sentiu no parque de diversões e o frio em sua barriga? Por que ele sentia essa necessidade de fazer Andrew feliz?
Neil se levantou de sobressalto empurrando a cadeira para trás com a força que fez, pulou pela janela aberta de seu quarto e foi até a janela de Kevin. Ela estava fechada, mas o garoto estava presente, meio deitado na cama com livros ao seu redor e um caderno apoiado na coxa. Ele estava fazendo o dever de casa e ergueu os olhos do caderno quando Neil bateu duas vezes na janela. Kevin semicerrou os olhos, ele encarou Neil por exatos dez segundos antes de voltar a atenção para o caderno em sua coxa. Neil arregalou os olhos e abriu a boca em choque. Kevin o estava ignorando de propósito. Ele apertou os punhos e bateu sem parar na janela como uma criança, determinado a ser ouvido. Mesmo que Kevin estivesse irritado, a julgar pelo vinco entre suas sobrancelhas, ele não fez nenhum movimento em reconhecimento, como se Neil não passasse de uma mosca fazendo barulho em seu ouvido, mas inofensiva.
— Eu te odeio muito, sabia? — disse com o conhecimento de que Kevin tinha escutado. — Você que me obrigou a fazer isso — e então ele começou a gritar. — Kevin, por que você está dizendo isso? A senhorita Dorothea é um pouco rígida, mas não é uma vagabunda megera!
Imediatamente Kevin levantou os olhos arregalados para Neil que sorria maliciosamente enquanto andava para trás sem desviar o olhar. Dorothea morava na casa ao lado de Kevin, ela era uma senhora irritante e estranha, raramente saía de casa e quando saía não fazia nada de bom além de falar mal sobre as pessoas da vizinhança e incomodá-las. Foram incontáveis as vezes que ela jogou seu lixo na porta da casa de Neil e também na de Kevin por pura birra. Sempre arrumava motivos para encrencar os garotos.
— Olha, Wymack, eu não quero causar problema nenhum. O senhor sabe que eu sou uma senhora educada que sempre tenta ajudar, mas isso eu não posso relevar. Sinto muito, tudo tem limite. Seu filho Kevin e aquele amigo esquisito dele estavam correndo para lá e para cá na rua. Rindo e gritando como loucos no meu quintal. Isso é inadmissível, pois eu sou uma mulher de idade que precisa de paz e sossego, o que infelizmente não está sendo possível.
Wymack obviamente ignorou Dorothea. Não era a primeira vez que algo assim acontecia e, depois que ela deu em cima de Wymack descaradamente na frente de Abby e de toda a família, o pouco de credibilidade que lhe restava se foi totalmente. No dia seguinte, enquanto ela usava uma mangueira para regar suas plantas, viu Kevin e Neil jogando no quintal e simplesmente os molhou como se fosse sem querer. Oh, pobre de mim. Velha e cansada demais para conseguir fazer algo tão simples. Sinto muito, sinto muito. Minha mão escorregou. Entretanto Neil e Kevin sabiam a verdade.
Neil sabia que ela estaria escutando e sabia que Kevin, já de castigo, não iria querer mais motivos para que seus pais ficassem bravos. Em um instante Kevin estava pulando a janela e tapando a boca de Neil com a mão.
— Você ficou louco? — sussurrou olhando para trás, tentando ver se Dorothea estava lá. — Estou aqui. Satisfeito?
— Muito — disse ao empurrar a mão de Kevin. — Eu não precisaria fazer isso se você não me ignorasse! — O olhou irritado e se sentou no chão vendo Kevin fazer o mesmo.
— O que você quer? Meus pais saíram, mas vão voltar logo.
— Preciso de ajuda com o meu encontro — disse em voz baixa, ele olhou para suas mãos juntas no colo e mordeu o lábio inferior.
— Eu não acredito que vocês marcaram um encontro e você não me contou. — Kevin suspirou como se tivesse sido traído. Neil revirou os olhos diante do drama.
— Eu só não tive a oportunidade de fazer isso. Eu queria muito falar com você. — Neil ergueu os olhos novamente.
— É surpreendente. Tipo, é o Andrew! — Ele balançou os braços com os olhos ligeiramente arregalados.
— Eu ainda não sei o que isso significa.
— Olha, ele só é o Andrew. Eu não tenho um jeito de explicar isso. Pelo que eu percebi, estou na escola há pouco tempo, ele não fala com ninguém e nem tenta falar. Ele tira as melhores notas e não estuda, ele ignora todos que tentam falar com ele. Nós fizemos um trabalho uma vez e ele simplesmente me disse o que fazer e no dia da apresentação apareceu com sua parte pronta, nós nem falamos sobre isso. Eu soube que uma vez um garoto tentou ser amigo dele e recebeu um soco.
— Ele deve ter merecido. — Insistiu, cruzando os braços, dessa vez Kevin que revirou os olhos.
— Olha, eu não estou querendo ser aquela pessoa chata que imediatamente começa a falar coisas ruins sobre a pessoa que você vai sair, eu quero mesmo te apoiar nisso então não vamos falar sobre o passado ou presente problemático de Andrew, por enquanto. Me fala como você está sentindo.
— Nervoso. E se der tudo errado? Ele disse que eu me visto e cheiro como um mendigo!
— Ele não falou sério. — Desconsiderou com um gesto de mão como se não fosse nada demais.
— Mas e se falou? E se eu fizer algo errado? E se ele se arrepender? E se ele perceber o erro que cometeu e nem aparecer? E se eu não gostar dele dessa forma? Você sabe que eu não gosto de meninos e nem de meninas!
— Considerando o seu surto, você gosta dele, sim, Neil.
Neil bufou, ele abriu e fechou a boca diversas vezes tentando encontrar as palavras certas para explicar o que se passava em sua mente.
— Não é assim. Eu só quero que ele goste de mim — disse, falhando em conseguir demonstrar seus surtos internos e verdadeiros sentimentos.
— Da mesma forma que você gosta dele? — Kevin ergueu uma sobrancelha.
— Eu… — Neil fechou a boca sem saber como responder, ele obviamente não tinha pensado por esse lado.
— Olha, Neil. Eu disse que não ia ser aquela pessoa chata, mas dessa vez eu preciso. — Neil o olhava com os olhos arregalados, sem piscar, com medo de que se o fizesse perderia um maravilhoso, incrível e filosófico conselho, ele nem sabia porquê esperava isso considerando que era Kevin que estava falando. — O Andrew é estranho e fechado, ele não gosta de ninguém. Às vezes eu acho que ele não gosta nem do próprio irmão. Mas ele viu algo em você e gostou disso, se não ele não teria te chamado para um encontro em primeiro lugar.
— Nós só nos conhecemos há quatro dias — disse inutilmente.
— O tempo é só um número. Confia em mim, vai dar certo porque ele já gosta de você. — Ele sorriu tentando tranquilizar Neil.
— Kevin, é melhor não ser você que eu estou vendo na casa da árvore! — Kevin pulou ao ouvir a voz de seu pai. Neil olhou para a entrada da casa e viu Wymack e Abby juntos com expressões nada agradáveis em seus rostos.
— Merda, eu tenho que ir. Vai que é tua, Neil! — Kevin correu de volta para seu quarto como se nada tivesse acontecido, deixando Neil para trás sozinho com seus pensamentos, com cara de peixe morto e nenhuma revelação espontânea. Ele estava oficialmente ferrado.
Os dois dias se passaram rapidamente, mais rápido do que Neil desejava, infelizmente ele não poderia parar o tempo as suas próprias necessidades e desejos pessoais. Seu dia começou como qualquer outro dia em sua vida, um desastre. Para começar, seu despertador não tocou no horário que deveria e Neil acordou com uma cara amassada de sono, olhos inchados e uma mancha de baba escorrendo por sua bochecha. É válido apontar que em seu estado dormente, entorpecido pela névoa confusa do sono e a desorientação ao acordar, ele se esqueceu do seu encontro. Isso resultou em seu desespero atual que se iniciou quando ele percebeu que não lembrava o horário do encontro, ou se Andrew iria buscá-lo, ou se ele que deveria ir buscá-lo. Ele percebeu que eles não haviam combinado nenhum detalhe e ele não possuía modos de contatar Andrew.
— Ainda acho que ele deveria usar um terno — disse Stuart, franzindo o cenho enquanto olhava para seu sobrinho andando de um lado para o outro. Neil usava uma camiseta preta com o símbolo do Batman no peito, foi um presente dado por Wymack no aniversário de dez anos do garoto. Escolhida especialmente pelo surpreendente amor de Neil pelo herói. Ele adorava essa camiseta e escolheu usá-la para tentar acalmar seu nervosismo.
— Supera isso, Stuart, ele só tem onze anos — respondeu Abby dando um sorriso reconfortante para Neil, o garoto arregalou os olhos e murmurou um agradecimento baixo à mulher antes de voltar para sua crise. Kevin revirou os olhos observando-o. Ele tinha sido liberado do castigo naquele dia porque Abby pensou que Neil deveria ter o apoio de sua família e Wymack não era louco o suficiente para contrariar sua esposa. Um homem é capaz de fazer tudo se uma mulher bonita for muito malvada com ele. — Não se preocupe, querido, vai dar tudo certo!
— Eu nem lembro do que a gente combinou! — Abby lhe deu um olhar de advertência e ele baixou sua voz ao perceber que estava gritando. — Eu não lembro se deveria buscar ele ou se ele que está vindo. A propósito, como ele saberia meu endereço?
— Eu passei para ele. — Kevin levantou a mão e Neil olhou para ele em choque.
— E você não pensou que seria uma boa ideia me contar isso antes? — esbravejou, incrédulo. Se Kevin tinha dado seu endereço a Andrew significava que ele iria buscá-lo, nada de pânico, Neil só precisava esperar por ele. Ele mordeu o lábio inferior e passou a mão nos cabelos, Wymack deu um tapa de leve em sua mão.
— Pare com isso, vai bagunçar seu cabelo. — Neil abriu a boca sem reação, mas baixou sua mão, preferindo não comentar nada sobre.
— Não acredito que meu filho vai ter seu primeiro encontro, eles crescem tão rápido! Ontem mesmo ele corria só de cueca pela casa se recusando a vestir as calças — exclamou Abby segurando o rosto de Neil em suas mãos e o olhando com carinho. Neil quase revirou os olhos com a informação desnecessária, mas ficou em silêncio, deixando Abby estudar seu rosto.
— Eu sou o seu filho? — queixou-se Kevin com a voz fina de indignação.
— Não seja ciumento, Kevin, eu amo os meus filhos igualmente e você está cansado de saber disso. — O rosto de Neil adquiriu uma coloração vermelha quando Abby beijou sua bochecha, uma sensação quente em seu peito.
Ele ficou parado e deixou a mulher lhe abraçar forte, seu tio olhando-os com um sorriso suave em seu rosto cansado. Com o rosto escondido no ombro de Abby, Neil se permitiu respirar fundo, absorvendo o cheiro familiar de bolo que lhe trazia a lembrança nostálgica das tardes, antes de precisarem ir para escola, quando eles poderiam ficar em casa o dia inteiro assistindo a desenhos animados e brincando, e no final da tarde, comer o delicioso bolo de chocolate quentinho que Abby fazia para eles. Ele se permitiu aceitar o conforto oferecido, por mais passageiro que fosse.
Quando Abby lhe soltou ela passou a mão suavemente no rosto de Neil e voltou sua atenção ao restante da família, eles conversavam entre si completamente alheios à crise do garoto. Neil inspirou e expirou diversas vezes tentando se acalmar, ele dizia a si mesmo diversas vezes “não há motivos para ficar tão nervoso, você vai ficar bem! É só um garoto de doze anos, ele não vai te matar”. Eventualmente, após muitas repetições, ele conseguiu acalmar seu coração apenas para voltar à situação inicial quando a campainha tocou. Neil arregalou os olhos e olhou para Abby que sorria animada em sua direção e fazia um sinal positivo com as duas mãos. Neil estufou o peito e respirou fundo uma última vez antes de andar até a porta.
Cada passo dado em direção a porta fazia seu coração tropeçar, ele agradecia muito por estar usando uma camiseta preta porque assim Andrew não iria ver como ele estava suando. Quando Neil abriu a porta ele teve certeza de que se esqueceu de como respirar. Andrew estava parado com as mãos nos bolsos das calças, diferente do dia em que se conheceram, quando ele usava um moletom, ele usava uma blusa fina de mangas compridas da cor azul claro. Seus cabelos loiros pareciam ter sido arrumados, mas bagunçados logo depois.
— Oi — conseguiu dizer com a voz esganiçada. Andrew olhou Neil de cima a baixo enquanto o mais novo permanecia congelado, tentando descobrir como respirar novamente sem parecer que correu uma maratona.
— Neil — disse em cumprimento. — Não sabia que você gostava de Batman.
— É — foi o que conseguiu responder. Andrew não disse mais nada e Neil também não. Ele gritava consigo mesmo em sua cabeça. Diga alguma coisa, idiota, mas nada saía. Ele foi poupado de sua vergonha quando Stuart apareceu.
— Andrew, certo? Eu sou o tio de Neil, Stuart. — Neil pigarreou e Stuart franziu o cenho. — Tomem cuidado e não cheguem tarde. Eu sei onde você mora, Minyard, se algo acontecer com o Neil…
— Certo, certo! Não precisamos disso, não é? — Abby interveio com um sorriso, colocando a mão no ombro de Stuart e apertando levemente. — Divirtam-se, meninos! Cuidado ao atravessar a rua.
Abby era mãe, Neil sabia que ela não os deixaria sair antes de dizer para terem cuidado, mesmo assim ele sorriu para a mulher, agradecido por ter sido poupado da tamanha humilhação do papo de pai. A porta foi fechada e os garotos se encararam sem saber o que dizer.
— Essa sorveteria fica longe? — perguntou Neil, sem graça.
— Não, é perto. — Não era perto.
Os garotos andavam na calçada lado a lado. Neil era incapaz de andar em linha reta por minutos seguidos, por isso seu braço encostou no de Andrew de vez em quando, entretanto o loiro não disse nada sobre isso e não tentou afastá-lo. Neil pensou que fosse se sentir ansioso e preocupado, dando a si mesmo a responsabilidade de manter uma conversa, mas ao contrário do que pensou não sentiu essa ansiedade. Neil não sentia que deveria dizer algo, o silêncio era confortável, era bom não se sentir pressionado. Era essa a sensação que Neil tinha quando estava com Andrew. Mesmo com o pouco tempo em que ficaram juntos, estar ao lado dele lhe trazia a sensação de liberdade que ele não conseguia sentir com mais ninguém além de Kevin. Neil se sentia idiota ao pensar nisso, mas sorria consigo mesmo um pouco envergonhado.
Eles andaram por mais ou menos vinte minutos. Neil olhava ao seu redor procurando a tal sorveteria, mas não havia nada. Talvez seja naquela rua, pensou. Mas não foi. E nem na próxima. Neil engoliu mais de vinte maldições que ele com certeza diria se estivesse com Kevin, mas era Andrew lá. Ele não abriria a boca para reclamar por mais que estivesse cansado, suando e com o início de uma dor de cabeça.
Depois de séculos eles chegaram à sorveteria. Neil respirou aliviado ao ver o letreiro do estabelecimento. Não havia muitas pessoas sentadas do lado de dentro e nem do lado de fora, apesar de terem mesas suficientes em ambas posições. O local era aconchegante por assim dizer. Uma música que Neil não conhecia tocava em volume agradável, não muito alto, para não incomodar ninguém, e nem muito baixo, impossibilitando que os clientes ouvissem. As paredes eram pintadas em tons de um azul quase tão claro quanto a camisa de Andrew. Havia quadros e desenhos pendurados nas paredes. Uma longa vitrine com potes coloridos de sorvete e uma grande máquina atrás do balcão. Por último, um dos detalhes que Neil mais gostou, havia uma mesa quadrada, ela era diferente das outras porque sua superfície era cheia de canecas e materiais de pintura. Algumas crianças estavam sentadas nela, sorrindo e customizando suas canecas coloridas com desenhos de animais.
— Você não paga por elas — disse Andrew, de repente. — Funciona assim: a partir do momento que você compra um sorvete, não importa o preço, você ganha o direito a uma caneca. Você pode pintá-la como quiser e depois levar para casa ou deixá-la aqui. As que ficam estão ali.
Andrew apontou para uma estante que Neil não tinha notado antes. Havia uma fileira das mais variadas e bonitas canecas coloridas.
— Isso é legal. — Neil sorriu e olhou para Andrew. O loiro o observava com atenção e quando seus olhos azuis pousaram em seu rosto ele desviou o olhar com as bochechas avermelhadas.
— Sim, tanto faz. — Coçou a nuca antes de acrescentar. — Podemos fazer isso depois de tomar o sorvete.
O sorriso de Neil ficou maior e ele assentiu mesmo sabendo que Andrew não iria ver por já estar se movendo em direção ao balcão. Uma mulher com um sorriso gentil e cabelos castanhos presos em um coque os atendeu. O crachá amarelo pendurado em seu peito dizia "Lydia".
— Olá, Andrew — cumprimentou, Neil desconfiava que o loiro ia ao local regularmente, agora ele tinha certeza de que suas suspeitas estavam certas. — O que eu posso fazer por vocês?
— Eu quero uma tigela grande com os sabores de chocolate, menta e flocos. Pode colocar calda de chocolate também e confetes. — Ele olhou para Neil em silêncio, Lydia fez o mesmo. O garoto franziu o cenho até que percebeu que eles estavam esperando ele fazer seu pedido.
Neil percebeu tarde demais que ir a uma sorveteria com Andrew significava que ele teria que tomar sorvete. Ele não era fã do alimento, na verdade, Neil não gostava de nenhum tipo de doce. Mas ele não queria dizer isso a Andrew e fazê-los saírem do lugar porque Neil não gostava de sorvete. Ele analisou a vitrine por alguns segundos antes de se decidir e olhar para Lydia.
— Eu quero uma casquinha de morango.
— Conhece as regras, querido. Vai sair em um instante. — Lydia sorriu e começou a preparar seus sorvetes.
— Regras? — perguntou Neil, confuso, enquanto seguia Andrew para uma das mesas vazias.
— Esqueci de mencionar, só podemos mexer nas canecas depois de terminar o sorvete. Prevenir a bagunça e o desperdício, a maioria das pessoas que fazem isso são crianças. — Neil assentiu, fazia sentido.
— Você vem sempre aqui?
— Essa cantada é péssima. — Bufou Andrew.
— O que? — perguntou Neil, genuinamente confuso. Andrew revirou os olhos.
— Nada, esqueça. Sim, eu venho muito aqui. O sorvete é bom. — Deu de ombros.
— Você customiza canecas quando vem aqui? — perguntou sorrindo.
— Não. — Neil o olhou sem acreditar, com um sorriso convencido em seu rosto. — Tudo bem, eu fiz isso uma vez no aniversário do meu irmão e faço todos os anos no aniversário da minha mãe.
— Aaron, e a mulher que te buscou na escola. — Andrew ergueu uma sobrancelha. — Kevin me disse que você tinha um irmão chamado Aaron e eu vi vocês indo embora pela janela do ônibus.
— Bom, é. Aaron e a mulher que nos buscou na escola. O nome dela é Bee.
— Bee? Tipo abelha?
— É um apelido, idiota, o nome dela mesmo é Betsy.
— Oh, saquei. Faz sentido.
Nesse momento Lydia apareceu com os sorvetes, a tigela de Andrew e a casquinha de Neil. Os olhos de Andrew brilharam ao ter a tigela posta a sua frente. Neil segurou sua casquinha tentando manter a careta longe de seu rosto. Tudo estava indo bem, ele não podia estragar tudo. Neil tentou muito, ele não queria ferrar com o clima confortável entre eles, mas não conseguiu evitar a careta ao levar o sorvete à boca. Ele implorou a todos os deuses que lembrava, mas isso não impediu os olhos rápidos de Andrew.
— Você não gosta de sorvete? — perguntou, uma carranca se formando em seu rosto.
— Não é isso, eu… — Tentou buscar uma desculpa convincente, mas a expressão no rosto de Andrew lhe mostrava que era uma pergunta retórica. Ele já sabia a verdade. — Tudo bem, eu não gosto de sorvete — admitiu olhando para a mesa.
— Por que não disse nada? Eu não acredito que você mentiu para mim. — Sua voz mostrava o quanto ele estava chateado com isso.
— Eu não menti para você!
— Mentir por omissão também é uma forma de mentir, Neil. Não acredito que você fez algo que não queria porque achou que eu queria, você é idiota por acaso?
— Eu… — Ele abriu a boca, mas nada saiu. Seu rosto ficou quente. — Sinto muito, Andrew.
Andrew pegou a casquinha da mão de Neil, murmurando que ele não precisava mais comer. Neil cruzou os dedos em seu colo, os lábios apertados. Ele se sentia envergonhado. Neil não tinha a intenção de mentir, ele só queria que tudo desse certo. Ele só queria fazer Andrew feliz. Mas ao invés disso, só conseguiu deixá-lo chateado e bravo. Ele tinha estragado tudo. Neil sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, era inevitável, mas não sabia que doeria tanto. Na verdade, sim, ele sabia. Ele só carregava a esperança de que, de alguma forma, tudo fosse dar certo e ele não precisasse sentir isso. Neil não olhou para Andrew após isso, humilhado demais para encará-lo.
Andrew comeu ambos os sorvetes e esperou por Neil na entrada da sorveteria enquanto ele pagava sua metade da conta. Lydia ofereceu um sorriso apoiador para ele, por algum motivo isso só o deixou pior do que estava antes. Ele sabia que a intenção da mulher era boa, mas não conseguia evitar se sentir assim. Neil olhou para a mesa das canecas com melancolia ao andar em direção a saída. Pelo visto, Andrew também não estava mais no clima para isso. Neil não podia culpá-lo, ele tinha estragado tudo.
— Onde vamos agora? — perguntou Andrew quando Neil parou ao seu lado.
Neil franziu o cenho, completamente confuso. Ele pensou que, após a situação com o sorvete, Andrew fosse querer ir embora e nunca mais ver Neil.
— Cinema — disse a primeira coisa que veio à sua mente. Neil estava atordoado demais para pensar em outra coisa.
O loiro não respondeu e deixou Neil guiá-los para o cinema. Eles andaram em silêncio e diferente da primeira vez era um silêncio preenchido por desconforto. A carranca de Andrew estava pior, e a vontade de Neil de se jogar no primeiro bueiro que visse na rua maior.
Mesmo negando a ideia de Kevin eles acabaram mesmo indo ao shopping, grande parte por ser um dos únicos lugares na cidade com um cinema, o outro era longe demais e Neil duvidava que Andrew fosse querer passar mais tempo do que necessário com ele. A metade do encontro tinha tudo para dar errado e realmente deu tudo errado. Quando chegaram no cinema, Neil lembrou-se de que tinha esquecido de olhar os filmes em cartaz no site e que teria que escolher um aleatoriamente. O problema estava aí, todos os filmes em cartaz daquele horário tinham classificação para dezoito anos. Nenhum funcionário com senso deixaria os dois entrarem.
Neil engoliu em seco e olhou para Andrew que olhava para os cartazes com uma expressão difícil de ler. No balcão do cinema um dos funcionários os encarava com atenção, sem tentar disfarçar, como se eles fossem correr para a sala do filme a qualquer momento.
— Parece que não podemos assistir — disse sem graça.
— Você não escolheu o filme antes? — perguntou como se fosse a coisa mais óbvia a se fazer e todo mundo soubesse disso, e deveria mesmo ser.
— Eu esqueci. — Andrew suspirou e começou a andar de volta para a saída. Neil o seguiu.
Andrew parecia mais aborrecido do que antes, se é que isso era possível. Neil apertou os lábios. Ele tinha que dizer alguma coisa, tinha que se desculpar por antes e ter certeza de que Andrew não o odiava. Ele tinha que dizer algo. Mas, mesmo sabendo todas as coisas que ele deveria dizer, foi isso que saiu de sua boca:
— Qual a sua fruta preferida? Eu gosto de bananas.
— Você sabia que bananas podem te matar por radiação? — respondeu Andrew olhando para Neil com uma sobrancelha arqueada.
— Como é que é? — perguntou com a boca aberta em choque.
— Pois é, a banana é uma fonte boa de potássio, mas também tem uma chance de ter Potássio-40, que é um isótopo radioativo completamente normal de se achar na fruta. Comer uma banana dessa te garante 0,1 microSieverts.
— Sieverts? — A cabeça de Neil girava, tentando absorver todas as informações que saíam sem parar da boca de Andrew.
— É uma medida que serve para calcular risco de doenças causadas por radiação, especialmente câncer, sendo também chamada de "dose equivalente". Um Sv seria 5.5% de chances de câncer, crescendo linearmente — Andrew falava tudo com muita tranquilidade, como se não fosse completamente estranho uma criança de doze anos saber todas aquelas coisas de cabeça.
— Quantas bananas precisamos comer para ter esses 5.5% de chance?
— Uma banana é igual a 0,1 microSv. 0,1 microSv seria 0,0000001 Sv. E 1 Sv é igual a 10.000.000 bananas. Ou seja, para você ter uma chance de 5.5% de desenvolver câncer você precisa comer dez milhões de bananas. E ainda dá para piorar.
— Como? — Acompanhar tudo era difícil, mas entender era mais complicado ainda.
— Olha, com dois Sv você já fica aberto a intoxicação radioativa severa. Com quatro Sv ainda há chance de sobrevivência desde que você faça tratamento, mas os danos muitas vezes podem ser irreversíveis. Com oito Sv, a pessoa vai morrer com certeza.
— Quantas bananas é preciso comer para chegar em oito Sv?
— Exatamente 80.000.000 de bananas, literalmente oitenta milhões de bananas. Mas, vale ressaltar que a radiação por banana é facilmente eliminada do corpo por calor e pelo xixi, então tudo isso teria que ser feito provavelmente em menos de uma hora. Então não coma oitenta milhões de bananas em menos de uma hora.
Inesperadamente, Neil começou a rir. Não coma oitenta milhões de bananas em menos de uma hora, como se ele fosse conseguir fazer isso.
— Eu nunca conseguiria comer oitenta milhões de bananas, Andrew. Como você sabe tudo isso? — perguntou impressionado. Neil nunca conseguiria decorar tudo aquilo sozinho.
— Eu tenho uma boa memória — disse erguendo o canto da boca.
— Você é muito inteligente. — As bochechas de Andrew ficaram vermelhas novamente.
Neil devolveu o sorriso e foi isso. Por breves segundos, o clima confortável do início do encontro estava lá, mas ele se foi tão rápido quanto chegou. A carranca de Andrew voltou e Neil se sentiu péssimo novamente. Ele precisava fazer algo. Neil nunca perdoaria a si mesmo se estragasse isso.
— Posso te levar para um lugar? — Andrew parou de andar enquanto considerava. — Você pode ir embora se não gostar e nunca mais olhar para a minha cara. — Com isso ele assentiu.
O caminho que tomaram era longe do centro e não era conhecido por Andrew, mesmo assim ele seguiu Neil em silêncio. Confiando ou só tendo confiança em si mesmo para acabar com Neil. Seja como for, eles caminharam em silêncio. Neil estava determinado a se desculpar. O lugar para onde foram era o colégio de Neil, Andrew franziu o cenho ao vê-lo, mas continuou em silêncio enquanto seguia Neil para a parte de trás do lugar.
— O que é isso? — perguntou quando Neil parou em frente a uma caixa. Havia um pote de água ao lado.
O garoto não respondeu, em vez disso, se agachou no chão e tirou um gato de dentro da caixa. Era um filhote de olhos dourados e pelo branco. Andrew se agachou ao seu lado e conseguiu mais dois gatinhos dentro da caixa, deitados em um cobertor dobrado.
— Esses são os gatos da escola, bom, são os filhotes da gata da escola. Eles não tem um nome porque estão para serem adotados, mas o pessoal da escola quis nomeá-los. — Olhou para Andrew por um momento antes de continuar. — Rebeca achou que não seria uma boa ideia dar um nome legal só para mudarem depois, então esse é o gatinho um, aquele marrom é o gatinho dois e aquele branco é o gatinho três — disse apontando para os gatos a que se referia.
— Esses são nomes horríveis para gatos. — Neil bufou, brincando com o gato em suas mãos.
— Não tive muita escolha nisso.
— Por que você me trouxe aqui? — Neil deu de ombros.
— Você pode adotar um gato.
— Você está me dando um gato? — Franziu o cenho. O gato branco da caixa subiu no colo de Andrew. Ele tinha os pelos totalmente branco e olhos heterocromáticos. Um azul e outro parecia verde. — Por que?
— Porque é isso que as pessoas fazem em encontros — disse enquanto sorria.
— Eu te dei uma raposa de pelúcia e você me deu um gato. É muito diferente. Isso não é nem um pouco justo, Neil.
— Então você não gostou.
— Eu não disse isso, não ponha palavras na minha boca.
— Qual vai ser o nome dele? — perguntou animado olhando para o gato no colo de Andrew. Ele estava miando, com as patas nos ombros do garoto.
— Ele vai me dizer quando estiver pronto. — Neil deu risada.
— Ele precisa de um nome!
— Ele vai me dizer quando estiver pronto! — repetiu para que Neil calasse a boca.
— E que tal um apelido? Pode ser Pipoca.
— Que bom que você não teve escolha nos nomes dos gatos, eles poderiam ter um destino pior do que gatinho um, gatinho dois e gatinho três.
— Dá um nome legal para ele então.
— King — disse olhando para o gato, Neil sorriu. — Bee vai gostar dele.
— Sua mãe.
— É — disse mesmo que não tivesse sido uma pergunta. — Aaron vai reclamar como sempre faz, mas vai ajudar a cuidar dele.
— Eles são legais? Sua mãe e seu irmão, quero dizer.
— Sim — Andrew olhou para Neil por alguns segundos, ele parecia decidir se falava mais alguma coisa ou não. — Aaron e eu somos adotados. Bee nos pegou quando tínhamos quatro anos. Ela é uma boa mãe, a melhor que poderíamos ter. Eu me importo com ela.
"Aaron é um bom irmão. Não nos damos bem sempre, mas ele está sempre lá para mim assim como eu estou sempre lá para ele. É difícil às vezes e temos momentos ruins, mas os momentos bons são mais frequentes do que os ruins."
— Deve ser legal ter um irmão. Eu sou filho único. Kevin é o mais próximo de um irmão que eu vou chegar.
— Você mora com seu tio. — Neil se surpreendeu que Andrew ainda se lembrasse disso. — E seus pais?
— Meus pais não são pessoas boas. — Escolheu suas palavras com cuidado. Andrew o observava com atenção. — Eles me machucaram antes, meu tio me tirou de lá antes que algo pior acontecesse. Moro com ele desde então. Ele não é meu pai, mas é algo próximo disso. — Neil sorriu. — E então tem os Wymack-Winfield-Day. Eles são a minha família de verdade, não os meus pais, mas eles. Eu faria tudo por eles e sei que eles fariam o mesmo por mim.
— Você e Kevin são muito próximos. Você fala muito sobre ele.
— Sim, somos melhores amigos. Kevin é tudo para mim. — Andrew desviou o olhar. — O que foi?
— Nada. — Neil franziu o cenho, mas não insistiu.
King saiu do colo de Andrew e voltou para a caixa para brincar com seus irmãos. Os garotos olharam para eles em silêncio.
— Desculpe por ter mentido — disse com a voz baixa.
— Tudo bem.
— Eu só queria deixar você feliz.
— Você não tem que fazer algo que não quer só para me deixar feliz, é idiotice.
— Tudo bem. — Andrew desviou os olhos dos gatos.
— Eu quero te beijar, Neil. Sim ou não?
— Você está me perguntando? — perguntou arregalando os olhos.
Neil se lembrou dos programas de televisão que assistira onde o par romântico da mocinha simplesmente a beijava. Ele pensou que fosse ser assim, mas Andrew lhe surpreendeu mais uma vez.
— É óbvio que sim. Eu não vou te tocar se você não permitir. Não vou fazer nada com você sem um explícito "sim".
— Eu não… — Ele pensou por breves segundos. — Tenho que te contar uma coisa.
— O que foi?
— Eu não gosto de garotas. Mas também não gosto de garotos. Eu nunca me senti assim por ninguém, não sei como é o sentimento além do que o que eu vi em filmes. Eu não quero começar algo com você que eu não possa continuar.
— Não é um pedido de casamento, Neil. Você pode me dizer "não" se você quiser.
— E se eu quiser dizer "sim"? — Umedeceu os lábios, Andrew encarou a ação.
— Então é um "sim" para mim. Neil, sim ou não?
— Sim — respondeu com firmeza, certo de que era aquilo que ele realmente queria.
Andrew segurou a nuca de Neil com uma das mãos. Ele acariciou os fios de cabelo no lugar e se aproximou devagar, puxando Neil levemente. Seus olhos no rosto do garoto o tempo todo, dando tempo para ele se afastar, observando seu rosto em busca de qualquer sinal de hesitação. Sem encontrar nenhum, ele fechou os olhos e juntou seus lábios em um selinho rápido. A coisa toda não durou mais do que dez segundos, mas foi o bastante para tirar todo o ar do pulmão de Neil e deixá-lo mole. Neil suspirou quando Andrew se afastou. O loiro abriu a boca.
— Sim — disse antes que Andrew tivesse a chance de formular a pergunta.
Eles juntaram seus lábios novamente. Neil não tinha experiência nenhuma na área, mas Andrew parecia ter noção do que estava fazendo e Neil se sentiu confortável seguindo seus movimentos, deixando-o controlar o beijo. Neil tinha medo de não sentir nada, de começar algo que ele não pudesse terminar, mas ele nunca tinha ido a um encontro com Andrew. Tudo era diferente quando era ele.
— Posso te tocar? — perguntou quando se afastaram.
— Sim — Neil começou a perguntar "onde", mas Andrew lhe respondeu antes que ele pudesse terminar de falar. — Em qualquer lugar.
Com a permissão vocal explícita, Neil tocou o rosto de Andrew com a ponta dos dedos. Ele não conseguia acreditar que estavam fazendo isso. Ele não conseguia acreditar que estava beijando Andrew. Com a forma como as coisas aconteceram na sorveteria, Neil pensou que não teria mais nenhuma chance. Ele embalou o rosto de Andrew com as mãos e fez carinho lá, sorrindo feliz. Ele juntou seus lábios suavemente, sentindo seu rosto ficar quente ao se afastar e encontrar os olhos castanhos do loiro.
Neil fechou os olhos de novo quando Andrew se aproximou, seus narizes se roçaram quando o loiro se inclinou levemente para a sua direita e encaixou seus lábios. Após alguns segundos com as bocas encostadas, Neil sentiu a língua de Andrew tocar seus lábios suavemente, sem pressionar. Ele abriu a boca devagar, nervoso com o novo contato, mas confiando em Andrew. Suas línguas se encostaram com calma. Andrew não tinha pressa alguma em seu beijo e isso acalmava o nervosismo de Neil. Tudo fluiu com calma. Neil teve receio de não estar fazendo isso direito, mas os suspiros ocasionais de Andrew e a forma como ele apertava a nuca de Neil com seus movimentos lhe trazia confiança de que estava fazendo algo certo.
Andrew se afastou e Neil abriu os olhos, pensando que o momento tinha acabado, mas Andrew deu mais dois selinhos em seus lábios. Ele beijou sua bochecha e depois a linha da mandíbula de Neil e começou a se afastar definitivamente. Sentindo-se corajoso, Neil impediu Andrew de se mover levando as mãos para seus cabelos. O loiro ergueu as sobrancelhas por um segundo em choque, mas se manteve parado. Neil moveu os dedos em seus fios macios e puxou Andrew para frente. Primeiro ele beijou sua bochecha e depois seus lábios. Andrew suspirou baixinho quando a boca de Neil tocou a sua. Neil sorriu com sua reação e continuou beijando suavemente seus lábios. Então ele fez algo que Andrew não esperava, ele pegou a mão do loiro que estava em sua nuca e a beijou olhando Andrew nos olhos.
— Neil, eu não sou uma princesa — murmurou passando os dedos da mão livre na nuca de Neil.
— Mas fala como uma. — Andrew bufou e revirou os olhos. Neil sorriu quando ele engoliu em seco.
— Provavelmente deveríamos ir para casa.
— Sim — seus lábios se moveram contra a mão de Andrew quando ele respondeu.
— Sua família vai ficar preocupada.
— A sua também.
— É. — Neil afastou o rosto da mão de Andrew. Seus cabelos loiros estavam mais bagunçados do que antes. Seu rosto vermelho e seus lábios levemente inchados. Sua respiração saía desregulada. Neil sorriu com a visão, ele não duvidava de que estava no mesmo estado. Andrew semicerrou os olhos. — Alguns minutos a mais não matam ninguém — disse antes de juntar suas bocas. Neil sorriu contra seus lábios, com a certeza de que não iria querer estar em nenhum lugar além desse.
A volta para casa foi tranquila. Infelizmente o zelador da escola apareceu no momento em que os garotos se beijaram, ele estava lá para tratar dos gatos e encontrar dois pré-adolescentes se beijando com certeza não estava em seus planos ou desejos pessoais. Após isso, eles foram obrigados a se separar e ir embora. Neil carregava o gato de Andrew com um sorriso divertido em seu rosto enquanto King brincava com ele. Eles chegaram rápido a casa de Neil. O interior estava escuro, mas ele sabia que Kevin, Stuart, Abby e Wymack estavam lhe esperando. Ele entregou o gato para Andrew.
— E então? — Ele perguntou, ajeitando o gato em seus braços.
— O que quer dizer? — perguntou confuso.
— Você disse que não gostava de garotas, nem de garotos.
— Sim. — Pensou por alguns segundos. — Eu não gosto de garotas, nem de garotos, eu gosto de você, Andrew. Só você.
— Eu não entendo isso. — Franziu o cenho.
— Você não precisa entender, mas é a verdade.
— Certo. — Ele ficou em silêncio. — Eu também gosto de você, Neil. E tire esse sorriso idiota do seu rosto idiota agora.
— Você disse que gosta de mim também, não consigo não sorrir com isso — disse enquanto dava risada. Andrew revirou os olhos. — Isso significa que estamos namorando? Tipo namorado e namorado?
— Eu estou tentando fugir dessa coisa de "garoto conhece garoto, garoto chuta garoto, garoto tem dúvidas de seu valor como ser humano". — Neil riu, sem entender.
— Isso é um sim?
— Você quer namorar comigo, Josten?
— Sim. — Andrew cerrou os olhos.
— Me pergunte de novo no segundo encontro. — O sorriso de Neil aumentou, ele entendeu o que Andrew estava fazendo.
— Certo, Minyard. Conte com isso!
Ao entrar em casa, Neil foi bombardeado por perguntas de sua família. Como foi? Você está bem? Andrew foi bom para você? Foi divertido? Felizmente para Neil, Abby pensava que ele precisava descansar. Ela o deixou ir após responder a uma pergunta.
— Nós gostamos dele ou o odiamos?
— Nós gostamos dele — respondeu com um sorriso, sem nem parar para pensar.
O sorriso brilhante que Abby lhe deu poderia competir com o próprio Sol. Neil deitou em sua cama sentindo-se um idiota por não conseguir parar de sorrir. Ele tocou seus lábios com o rosto vermelho e então seu coração, sentindo seus batimentos fortes.
Desconhecido
Ei
Da próxima vez vamos jogar boliche
Neil deu risada ao ler a mensagem na tela de bloqueio do celular.
Eu nunca joguei :v
Drew
É divertido
Vai ser mais divertido ainda vencer você
Ha. Ha
Como se você fosse conseguir
Não te disseram que eu sou muito competitivo?
Drew
Pelo visto ainda tenho muito o que descobrir sobre você
E é fofo você acreditar que pode me vencer
(ง'̀-'́)ง
Neil riu mais alto com o emoticon.
Drew
King está fazendo jus ao seu nome, ele já tomou conta da casa inteira
Seu irmão está enchendo o saco?
Drew
Óbvio que está
Ele acha que eu não vi ele conversando com o King com aquela voz besta que a gente faz para falar com animais e bebês
Minha mãe por outro lado adorou ele, quer até que ele durma na cama com ela
Ainda bem que esse gato gosta mais de mim, tem que ser assim também né, tirei ele do lixo
Ele não estava no lixo????
Drew
Ele estava em uma caixa, era lixo
Ele tinha uma cama e água
O tio Mark cuidava dele
Drew
Mark é o nome do zelador? Puta que pariu, não combina nadinha com ele
E ele estava largado lá, sozinho, com frio e sem amor
Estava no lixo sim
(-_-)
Eles passaram horas conversando. Neil agradeceu mentalmente por não ter aula no dia seguinte. Por mais que o início do encontro não tenha sido bom, no fim tudo se resolveu. Neil conseguiu se desculpar e ele até se divertiu. Tudo valeu a pena no final e Neil mal podia esperar para ver Andrew de novo.
