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— Casamento — Martín comentou, encarando Sebastián e Daniel sentados no sofá à sua frente. Seus olhos azuis zuniam entre seu irmão e seu cunhado num ritmo meio alucinado que ele tentava disfarçar com o sorriso forçado — então, é sério, o negócio com vocês dois.
Os dois seguravam as mãos um do outro, olhando-se carinhosamente, e Sebastián deu de ombros antes de voltar a encarar Martín.
— Sempre foi, pra falar a verdade. Nós só estávamos esperando o momento mais adequado para oficializar tudo — Sebastián sorriu para o irmão antes de voltar-se novamente para Daniel, apertando carinhosamente a mão do namorado. Daniel assentiu levemente com a cabeça, olhando Martín atentamente.
— Espero que esteja tudo bem por você, Tíncho — Daniel pigarreou, a expressão séria como raramente ficava. Martín abriu os braços, suspirando com alegria.
— Você é amigo da família há tanto tempo, Dani, e namoram já há tempos, também. Não consigo pensar em ninguém melhor pra ser, oficialmente, meu cunhado.
Martín se adiantou, sentando-se entre os dois no sofá, e puxou ambos para um abraço apertado, ignorando os protestos fingidos dos dois.
— Tem outra coisa, Tíncho — Sebastián empurrou o irmão, ajeitando os óculos na ponte do nariz, que tinham ficado tortos por causa do abraço — nós dois queremos que você seja nosso padrinho.
— Nós ficaríamos muito honrados se você aceitasse — Daniel deu um tapinha nas costas de Martín, ainda abraçado ao amigo. Martín levou uma das mãos ao rosto, fungando descaradamente.
— Mas é óbvio que eu aceito — Martín choramingou, puxando o irmão e o cunhado novamente para mais um abraço apertado, rindo junto dos dois.
Sebastián deu um beijo na bochecha do irmão e cutucou levemente a lateral de seu corpo para que ele o soltasse. Ergueu-se do sofá, rindo, e ofereceu a mão para Daniel, ajudando-o a se desvencilhar do abraço de Martín.
— Eu sabia que você não ia perder a oportunidade de aparecer todo bonito no altar — Sebastián riu, abraçando Daniel pela cintura.
— Claro que não, ora. Eu vou ser a pessoa mais importante ali.
— Depois dos noivos — Sebastián ergueu as sobrancelhas.
— É, isso aí — Martín deu de ombros, cruzando as pernas e abanando uma mão num muxoxo.
Sebastián revirou os olhos, sorrindo de canto, e se dirigiu até a porta do apartamento, conduzindo Daniel pela cintura.
— Nós já vamos, Tíncho. Ainda temos que convidar o resto dos padrinhos.
Martín se levantou com um salto, adiantando-se até a porta.
— Mas já? Ah, não, Sebas, faz tanto tempo que vocês não vem aqui — Martín segurou a maçaneta, fazendo um biquinho descontente para o irmão. Sebastián deu um peteleco em sua mão e abriu a porta ele mesmo, indicando para que Daniel saísse primeiro.
— Eu vim aqui ontem. Aproveita esse tempo sozinho pra começar a pensar nas suas tarefas como padrinho.
— Estamos contando com você, hein, Martín — Daniel piscou pra ele do hall de entrada. Sebastián assentiu, solene, enquanto Martín sorria, alegre.
— Ele dá conta — Sebastián falou para o namorado por cima do ombro, antes de se voltar para o irmão — espero que ele dê conta de convidar o namorado misterioso dele pra fazer par no altar, também.
Sebastián arqueou uma sobrancelha, debochado, ao que Martín apertou os olhos para o irmão. Ele se encostou no batente da porta, forçando uma expressão calma. Cruzou os braços e deu de ombros.
— Ele é discreto, mas pra uma ocasião tão especial ele aparece — Martín fungou, cutucando uma cutícula solta no dedo.
Sebastián aproximou seu rosto do rosto de Martín, analisando-o atentamente antes de assentir lentamente e se afastar, desconfiado.
— Acho bom. Não quero meu altar desfalcado. Esse seu namorado esquisito. — Sebastián resmungou, indo apertar o botão do elevador.
— Deixa de atazanar ele, amor — Daniel sorriu, maliciosamente — o Tíncho só deve estar pensando em como ele vai nos contar que ele está namorando um feio.
Daniel e Sebastián riram da face vermelha de Martín, que falhou miseravelmente em esconder o próprio riso. Ele fez que ia chutar Daniel, que correu para dentro do elevador que tinha acabado de chegar, sendo seguido por Sebastián logo depois. Com um aceno, se despediu dos dois e fechou a porta, se jogando contra a mesma com um grunhido.
//
— Mas essa é uma notícia maravilhosa — Martín conseguiu escutar a voz do rapaz à sua frente por cima da cacofonia do escritório — o Sebastián deve estar radiante.
Martín inclinou-se para o lado a fim de encarar o rapaz, sentado atrás do computador na mesa vizinha à de Martín. Franziu as sobrancelhas, possesso, e tomou cuidado de manter a voz num tom adequado pro ambiente de trabalho embora quisesse virar a mesa do colega.
Não tinha muita intimidade com Luciano além das horas compartilhadas de trabalho e as eventuais idas ao restaurante executivo da esquina durante o horário de almoço, mas o rapaz gostava muito de ouvir histórias da vida alheia e Martín gostava muito de contar histórias da vida alheia (e o contrário não deixava de ser verdade), de modo que virou rotina entre os dois compartilharem informações e comentá-las entre si. Mas Martín já estava se arrependendo de contar essa notícia em específico.
— Maravilhosa, Luciano? Maravilhosa só se for na-
— Epa — Luciano riu, se inclinando pra ficar mais próximo de Martín e se fazer ouvir — olha a boca que estamos em horário comercial. E maravilhosa, sim, ele não gosta desse tal de Daniel? Então. Vai dizer que você não acredita em casamento? Todo romântico como eu sei que você é, pelas histórias que você conta...
— Claro que eu acredito em casamento — Martín pegou um pedacinho de papel em sua mesa e arremessou na direção de Luciano, que riu com a irritação do colega — você que não tá focando no ponto certo aqui. O Sebastián tá esperando que eu apareça no altar de braço dado com meu namorado — Martín frisou a última palavra, torcendo o nariz.
Luciano o encarou por alguns instantes, confuso, as sobrancelhas grossas unidas no centro da testa, antes de arregalar os olhos pretos e segurar uma gargalhada.
— Você não tem namorado — ele sussurrou para Martín, o tom de voz risonho, a expressão como se tivesse descoberto um segredo de Estado. Ele balançou negativamente a cabeça, os cabelos cacheados se agitando tamanha empolgação — meu amigo, você está perdido. Sem saída.
— Eu sei — Martín sibilou, os olhos faiscando na direção de Luciano — é o ponto que eu estou tentando resolver no momento. Dizer que meu namorado não conseguiu ir, mandar um presente no nome dele.
— Ou, e isso é só uma sugestão maluca — Luciano gesticulou exageradamente com as mãos, se inclinando na cadeira giratória do escritório — você poderia contar a verdade pro seu irmão e pro seu cunhado.
Martín estalou a língua, olhando Luciano de cima a baixo num muxoxo.
— Claro que não — Martín revirou os olhos, apoiando o queixo nas mãos — ele já vai casar antes de mim, mesmo sendo mais novo, invertendo toda a ordem natural das coisas, ignorando o equilíbrio do universo. Eu não posso aparecer lá no casamento solteiro, imagina.
Martín olhou pra mesa, certo, antes de erguer o olhar para Luciano na maior naturalidade. Luciano riu, balançando a cabeça sem entender muito bem, mas deu de ombros.
— E então o que você planeja fazer pra manter o Universo em ordem?
— ...Isso por enquanto eu não sei. Mas é questão de tempo.
Luciano riu ainda mais e voltou sua atenção para a tela de seu computador, se concentrando no seu trabalho e deixando Martín com seus pensamentos.
Que não eram poucos. Desde que Sebastián lhe fizera o convite para ser padrinho que Martín estava se ocupando em encontrar uma solução para seu dilema.
O primeiro pensamento realmente tinha sido contar toda a verdade. Dizer para Sebastián que não havia namorado algum. Mas só de visualizar a expressão de pena que o irmão iria lhe oferecer, Martín sentia o estômago revirar. Desde que ele e Daniel tinham engatado um romance firme, Sebastián tinha desenvolvido essa mania de sentir pena da solteirice de Martín.
E Martín odiava que sentissem pena dele. Essa opção estava descartada, portanto.
Mas pra sua infelicidade nenhuma outra solução lhe parecia viável fora do plano puramente abstrato.
A única forma de sair dessa situação sem maiores complicações seria se um namorado perfeitamente adequado pra encaixar nas histórias que contava pra Sebastián caísse do céu, de uma hora pra outra.
— Eu vou sair pro almoço, você vai ficar aí remoendo seu destino ou vem comigo? — Luciano apoiou-se com o quadril na mesa de Martín, com os braços cruzados. Martín estalou a língua, um som de irritação, e fez que não com a cabeça.
Martín ficou observando Luciano sair em direção ao elevador do andar, resmungando a sua própria sorte. Um namorado caído do céu, era o que precisava. Não era pedir demais. Encarou a mesa estranhamente bem organizada de Luciano — Martín nunca entendeu como uma pessoa tão expansiva e espontânea podia ser tão obcecada por organização — e suspirou. Caído do céu ou materializado do nada.
Uma ideia completamente irracional surgiu em sua mente quando Martín ergueu a cabeça e viu Luciano ainda parado em frente ao elevador, apertando o botão impacientemente. Fechou os programas no computador, desligou a tela de qualquer maneira, agarrou o casaco e seus pertences e levantou-se de pronto da cadeira, zunindo em direção ao elevador.
— Eu vou junto — controlou a voz e a respiração ao parar do lado de Luciano, para não transparecer a euforia maníaca que estava sua mente — não aguento mais a luz fluorescente desse escritório maldito.
— Rapaz, nem me fale — Luciano riu, exclamando quando o elevador abriu, finalmente.
//
Luciano soltou uma gargalhada alta, fazendo todos os presentes no pequeno restaurante se virarem para encarar com curiosidade a mesa em que ele estava sentado junto com Martín.
— Seria uma farra, imagina? Que coisa louca — Luciano balançou a cabeça, levando o copo de cerveja aos lábios. Martín forçou uma risada para acompanhá-lo, embora tenha saído mais como um gemido de sofrimento que qualquer outra coisa.
— Louca, né… Doideira.
— Convencer alguém a se passar por seu namorado, pensa — Luciano se recostou na cadeira, encarando Martín com os olhos arregalados — acho que isso já foi até enredo de novela.
— E deu certo? Na novela. — Martín se inclinou um pouco para frente, se ajeitando no assento, desconfortável.
— Ah, deu. Mas novela é novela, né? Tem que abraçar a história.
Martín assentiu devagar, olhando para Luciano de soslaio. Crispou os lábios por um momento antes de tomar coragem, pigarreando.
— Então pode dar certo na vida real, não acha? A vida imitar a arte, ou vice-versa.
Luciano parou o copo de cerveja no meio do caminho até sua boca, encarando Martín por cima deste. Apertou os olhos, pensativo e logo em seguida torceu o nariz, estalando a língua.
— Nah, acho que não. Uma chance em um milhão, pra não ser totalmente pessimista. — Terminou o resto de cerveja que tinha no copo, de um gole só, estalando os lábios — Mas por que a pergunta, hein? Você não está pensando em-
— Não — Martín franziu as sobrancelhas, encolhendo os ombros — não, é loucura, realmente — Martín tamborilou os dedos na mesa do restaurante, mordendo o lábio inferior — a não ser qu-
— Você está pensando nisso sim — Luciano bateu na mesa, rindo da expressão de Martín — rapaz, eu não achava que você fosse tão descompensado assim, não. Sem ofensa, só… É uma ideia descompensada, você precisa admitir.
Martín sorriu fracamente, desabotoando a gola da camisa polo.
— É, um pouco, sim. Mas é o único caminho que eu consegui pensar que não envolve falar a verdade.
— Que seria algo péssimo — Luciano ergueu as sobrancelhas, debochando um pouco.
— Terrível — Martín reforçou, empurrando com o garfo o restinho de comida que tinha no prato — fora de cogitação. Então a única saída que me resta é aparecer acompanhado. E fingir.
Luciano murmurou, sinalizando que tinha entendido, e apoiou o queixo na mão.
— Aparentemente você já está decidido — o rapaz comentou — só te falta agora achar o namorado, então?
— “Só” — Martín repetiu, com um escárnio — o principal, no caso. Eu pensei em, sei lá, contratar uma firma de acompanhantes? Mas acho que cobrariam muito caro e eu não tenho todo esse dinheiro. Ou um ator, também, mas esbarra no mesmo problema… Mas também não consigo pensar em ninguém conhecido que aceitaria entrar numa dessa — Martín suspirou meio exageradamente, inclinando a cabeça para baixo de maneira calculada.
Luciano assentiu, pensativo. Colocou o restante do conteúdo da lata de cerveja no copo e cruzou os braços.
— Me paga o aluguel do terno e garante que eu vou comer e beber livremente no casamento que eu te poupo o trabalho de procurar alguém pra esse negócio.
Martín endireitou a coluna na rapidez de um espasmo, controlando o rosto para não parecer muito surpreso com a facilidade de tudo.
— A sério? Você aceitaria?
— Já aceitei, não aceitei? — Luciano arqueou uma sobrancelha — Faz tanto tempo que eu não vou numa festa de casamento, e eu sempre gostei de festas de casamento. Depois que as obrigações acabarem, você conta uma lorota que eu te dei um pé na bunda e ninguém precisa ficar sabendo da verdade.
— Mas não vai ser só a festa — Martín deslizou o prato para o lado e se apoiou na mesa, encarando Luciano, incerto — tem os outros preparativos pré-casamento. Você vai ter que aparecer como meu namorado nessas coisas também.
— Eu só não vou fazer obrigação nenhuma de Padrinho, essas coisas chatas de arrumar salão, planejar recepção — Luciano fez uma careta, sorrindo logo em seguida — fora isso, por mim tranquilo.
Martín recostou-se na cadeira, sorrindo abertamente, aliviado. Mais fácil do ele pensou que seria.
— Ótimo — estendeu a mão por cima da mesa, assentindo como um verdadeiro homem de negócios quando Luciano a segurou com firmeza, selando o acordo com uma risada jovial — só mais uma coisa.
— O que seria?
— No fim de tudo você não vai me dar um pé na bunda. Nem hipoteticamente. Eu que termino meus relacionamentos.
Luciano revirou os olhos, sorrindo, e se levantou avisando que ia ao banheiro por um instante antes de voltarem pro escritório.
Martín já nem sabia porque antes estava tão desesperado.
//
A campainha do apartamento tocou estridente e prolongada, fazendo Martín inconscientemente correr em direção da porta, apressado. Abriu a porta com um solavanco e ofereceu uma expressão irritada ao visitante.
— Era pra você estar aqui há mais de hora — sibilou entre dentes, o nervosismo palpável quase como uma nuvem pairando sobre sua cabeça.
Luciano balançou uma mão, despreocupado, entrando no apartamento puxado pelo braço por Martín.
— Eu atrasei um pouquinho só, nada que eu não atrase no escritório, você devia ter previsto — Luciano parou no meio da sala, analisando descaradamente o apartamento de Martín — e seu irmão ainda não chegou, chegou?
— Ainda não — Martín cruzou os braços, esfregando as mãos nos antebraços numa tentativa de acalmar os nervos — mas eu queria repassar as coisas com calma antes dele-
— Vai dar tempo, vamos — Luciano se sentou no sofá, cruzando as mãos sobre o colo, atento — às diretrizes.
Martín riu involuntariamente da naturalidade de Luciano, e olhou para cima, forçando a mente. Antes que conseguisse decidir por onde começar, no entanto, perdido entre a quantidade de coisas que queria repassar, a campainha tocou novamente.
— Merda — lançou um olhar irritado em direção à porta e depois em direção à Luciano — eu avisei pra você chegar na hora.
— Martín, relaxa — Luciano sussurrou, arregalando os olhos e falhando em esconder o riso — vai dar tudo certo. Na pior das hipóteses seu irmão vai descobrir que você é doido, só.
Martín passou as mãos pelo cabelo loiro, ansioso, e parou uns segundos em frente à porta para controlar a respiração antes de forçar um sorriso alegre e abrir.
— Que demora pra abrir essa porta hein — Sebastián comentou erguendo sugestivamente as sobrancelhas, sorrindo de canto, enquanto beijava o rosto do irmão rapidamente — ocupado com a companhia? — abaixou o tom de voz, cutucando o tronco de Martín enquanto esticava o corpo, tentando ver a sala mas sem sucesso, a visão bloqueada pela parede do hall de entrada.
Daniel, que vinha logo atrás, empurrou o noivo para o lado, também tentando dar uma espiada.
— Devia estar decidindo se essa apresentação ia acontecer mesmo ou não — piscou para Martín, rindo e a voz também um sussurro, cúmplice ao noivo.
— Vai sim — Sebastián respondeu Daniel — eu não saio daqui sem isso acontecer.
Martín engoliu em seco, torcendo para que os dois não tivessem percebido - ou se tivessem, que pensassem que era um nervosismo normal da situação - e girou nos calcanhares, indo pra sala. Os dois o seguiram, cochichando entre si descaradamente. Chegando na sala, Martín arregalou os olhos para Luciano, que se pôs de pé momentos antes de Sebastián e Daniel aparecerem por trás de Martín.
Luciano sorriu, charmoso, assim que viu os dois, se adiantando e estendendo a mão para Sebastián.
— Você deve ser o Sebastián, você e seu irmão são iguaizinhos — Luciano comentou, o tom de voz simpático e os olhos brilhando alegres, se virando para Daniel logo em seguida — e você deve ser o Daniel. O Martín fala muito de vocês dois.
Martín se mexeu discretamente, se colocando atrás do casal e arregalou os olhos, uma expressão quase maníaca no rosto, avisando silenciosamente para Luciano tomar cuidado. Luciano cruzou o olhar com ele mas agiu como se não tivesse acontecido, continuando com naturalidade.
Sebastián ajeitou os óculos no nariz, olhando Luciano de cima a baixo não tão discretamente quanto pensou, e sorriu.
— Imagino. E você é o namorado misterioso.
— Luciano, prazer — o rapaz riu. Colocou as mãos no quadril, descontraído. Daniel parou ao lado do noivo, passando o braço pelos ombros de Sebastián e sorriu simpático para Luciano, sendo mais discreto na inspeção rápida que fez do rapaz.
— A gente já estava suspeitando que você era ilusão do Martín — Daniel comentou, lançando um olhar levemente irônico para o amigo, que estava encostado ao balcão que separava a sala da cozinha, como se quisesse se camuflar à parede. Luciano riu novamente, com uma desenvoltura que enervava Martín.
— Nós só estávamos esperando o momento certo de fazer as coisas. Nós dois somos muito reservados, não é… Tinho? — arriscou o apelido, sorrindo incerto para o companheiro de farsa. A pequena pausa felizmente não foi percebida pelo casal, apenas por Martín, porque foi acompanhada de uma micro expressão de Luciano lhe pedindo colaboração na mentira. Apressado, Martín desencostou do balcão e se colocou ao lado de Luciano, dando um tapinha em seu braço.
— Isso — Martín sorriu amarelo — reservados e discretos.
Sebastián ergueu as sobrancelhas, meio cético - em sua opinião Martín era tudo menos reservado, mas preferiu deixar passar porque acabara de conhecer Luciano e não queria assustar o rapaz com uma discussão entre irmãos ali. Daniel assentiu lentamente, também um pouco cético, mas sorriu abertamente, satisfeito.
— Então — Daniel se jogou no sofá sem muita cerimônia, indicando para que Luciano o acompanhasse — como vocês se conheceram?
— No escritório — Martín se apressou em responder, rindo para disfarçar a rapidez e o tom de voz incomuns — as nossas mesas ficam uma na frente da outra, a amizade surgiu e… se tornou outra coisa depois, enfim.
Luciano se sentou lentamente, trocando olhares significativos com Martín enquanto virava o tronco para falar com Daniel.
— É, o Martín não pôde resistir ao meu charme natural, passando tanto tempo olhando pra minha cara por cima do computador — o rapaz brincou, passando a mão pelos cabelos cacheados numa graça. Os outros três sorriram, Sebastián e Daniel rindo da brincadeira de Luciano e Martín forçando o riso, ainda tenso.
— Que romântico — Sebastián comentou, cruzando os braços e olhando para o irmão — realmente a sua cara, romance de trabalho. A troca de olhares, as escapadas proibidas em ambiente comercial…
— Ha… é… Algo do tipo — Martín assentiu, vagamente. Luciano piscou, assentindo também, os lábios apertados um contra o outro numa careta meio constrangida.
— Olha, eles ficaram envergonhados — Daniel riu, jogando a cabeça para trás — que fofo.
— Fofo — Sebastián concordou, alternando entre o rosto levemente vermelho de Martín para a expressão sem graça de Luciano, uma interrogação silenciosa nos olhos. Deu de ombros quase imperceptivelmente e abriu um sorriso alegre, indo se sentar no braço do sofá, ao lado de Daniel — fico feliz. E agora que esse assunto está resolvido, por enquanto, vamos direto ao que nós viemos tratar aqui, que a transferência de trabalho do Dani de volta pro Paraguai nos forçou a fazer uma pequena mudança de planos.
— Mudança de planos? — Martín perguntou, genuinamente interessado, esquecendo por um momento a própria tensão ao ver as expressões de preocupação disfarçada nos rostos de Sebastián e Daniel.
— O casamento vai ter que ser feito em um mês — Daniel explicou, colocando uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha, ansioso — mais do que isso nós perdemos o prazo de mudança pro Paraguai e daí…
— Mas o casamento ia ser só ano que vem — Martín franziu o cenho, confuso.
— Pois é — Sebastián riu de nervoso — por isso você vai ter que ser excepcionalmente bom no seu papel de padrinho.
Sebastián puxou o celular do bolso, chamando Martín com o dedo indicador, e desatou a mostrar agendas, contatos de cerimonialistas, menus de buffets.
Quando finalmente a “reunião” terminou e Martín se viu se despedindo do irmão e do cunhado e fechando a porta, se encostou na mesma e suspirou de alívio. Sentiu os músculos do pescoço se relaxarem um pouco e correu até a sala, encarando Luciano e rindo livremente. Luciano sorriu para ele, jogado confortavelmente no sofá.
— Deu certo? — perguntou, coçando a cabeça.
— Deu — Martín sorriu, soltando o ar dos pulmões de uma vez — bom, por enquanto. Nós temos um mês inteiro ainda desse circo.
Luciano assentiu, batendo as mãos nas pernas e se levantando. Estalou a língua, se aproximando de Martín e lhe dando um tapinha no braço, brincalhão.
— Eu disse que ia dar tudo certo. Embora eu continue achando doideira, e que seria mais fácil só contar a verdade pro seu irmão. Ele me pareceu tranquilo.
— Sem chance.
— Foi o que eu imaginei. Nesse caso, até amanhã no escritório, meu bem — Luciano riu, erguendo as sobrancelhas sugestivamente e se dirigiu pra porta — eu realmente deveria tentar esse negócio de ator, não acha? Largar a provação em vida que é aquele escritório.
Torceu o nariz para Martín, que riu, concordando. Martín o acompanhou até a saída, se despedindo, e quando fechou a porta fez uma pequena dancinha de vitória.
Agora, só precisava enfrentar o resto do mês.
//
Martín olhou o relógio no pulso pela milésima vez, trocando o peso entre os pés em frente ao restaurante. Soltou um xingamento ao ver Luciano descendo do banco de trás de um carro que encostou rapidamente à calçada e se apressou para praticamente puxar ele pela mão para fora do veículo. Luciano praguejou, batendo a porta do carro meio desajeitado e alisando a roupa.
— Cuidado aí, que eu passei dez minutos escolhendo minha roupa pra esse almoço, meu recorde — ajeitou as pulseiras no braço, encarando Martín com as sobrancelhas grossas levemente franzidas.
— Dez minutos é seu recorde? De velocidade? — Martín perguntou, a voz levemente debochada.
— Sim, nunca demorei tanto pra escolher uma camisa — Luciano disse num tom de voz convencido. Martín riu e ele lhe lançou um olhar ofendido — de nada, ok? Eu fiz esse esforço porque você estava praticamente arrancando seus cabelinhos dourados ontem no escritório com esse almoço.
— Dez minutos dificilmente é uma eternidade pra escolher roupa — Martín sorriu irônico, com uma sobrancelha arqueada. Balançou a cabeça em seguida, focando a mente no problema atual — e eu não estava “arrancando meus cabelinhos”, eu estava - ainda estou - pensando só no modus operandi que vamos ter que ter hoje. O almoço é com a família toda.
Luciano arregalou os olhos e assoviou, impressionado.
— Entendi — assentiu, concentrado. Bateu com a mão no ombro de Martín, suavizando o olhar — mas se acalma. Deu tudo certo quando você me apresentou pro seu irmão, não deu? O segredo é não mentir, só enfeitar a verdade.
Martín murmurou e girou nos calcanhares, indo em direção ao restaurante, torcendo as mãos. Luciano se apressou atrás dele, segurando seu braço quando os dois pararam logo antes de entrar.
— Eu acho que você poderia inventar um… um apelido pra mim. Eu inventei um pra você da última vez, acho que fica mais crível — Luciano sugeriu, meio incerto. Martín o encarou, piscando meio confuso antes de assentir.
— Claro, concordo. Nós deveríamos entrar de mãos dadas, também. Se você não se importar — apressou-se em dizer.
Luciano olhou para a mão que Martín oferecia com uma expressão estranhamente neutra, antes de sorrir como de costume e agarrou a mão de Martín com a sua.
— Não me importo. Que comece o show, parceiro. Merda pra você — o rapaz sorriu, e Martín de repente se sentiu muito consciente do calor da mão de Luciano contra a sua e da proximidade dos dois no momento.
— Merda pra você, também — respondeu depois de engolir em seco.
Os dois ajeitaram a postura, e entraram no restaurante empurrando juntos a porta alta de madeira. Martín parou um instante no balcão da recepcionista, que os levou até a mesa comprida no fundo do salão, o tom de voz dos integrantes claramente destoando do resto dos presentes no restaurante.
— Demorou mais que o normal, hein, Tíncho — alguém na mesa exclamou, tirando risos dos outros presentes. Martín deu um meio sorriso, irônico. Olhou de canto para Luciano, que lhe ofereceu uma piscadela tranquilizadora, seguro.
— No casamento ele vai demorar mais que eu e o Dani — Sebastián se levantou de seu lugar, indo cumprimentar o irmão e Luciano com um abraço — eu guardei o lugar de vocês.
Sebastián praticamente os rebocou pelo braço até dois lugares do lado de sua cadeira. Daniel acenou simpático de seu lugar no centro da mesa comprida. Martín se sentou, puxando Luciano consigo, consciente de todos os olhos curiosos que pesavam sobre si.
— E quem é esse? — um rapaz perguntou finalmente, analisando Luciano. Martín se ajeitou no assento, colocando as mãos sobre a mesa.
— Ah, pessoal, esse é o Luciano. Meu… meu namorado — Martín sorriu, tentando dar firmeza nas palavras. Um sonoro “ah” de entendimento foi dito pelos familiares presentes, alguns em tom sugestivo outros em tom de brincadeira.
— E o seu namorado não fala? — uma garota brincou, se erguendo para se inclinar por cima da mesa e beijar o rosto de Luciano, cumprimentando-o — Prazer, Micaela, prima do Martín. Esse é Manuel, meu namorado — apoiou-se nos ombros do rapaz que havia falado antes, a expressão meio carrancuda ainda olhando Luciano com uma curiosidade severa — pode soltar ele, Tíncho. A gente vai se comportar, ele não vai querer fugir, não.
Martín olhou confuso para Luciano, que ria, encantador. Notou que ainda estava com os dedos entrelaçados aos de Luciano e então os soltou, desajeitado, sentindo as pontas das orelhas esquentarem levemente.
Enquanto Luciano e Micaela engataram uma conversa, Martín xingou o irmão mentalmente pela disposição dos lugares. Seria mais fácil se estivesse sentado perto de familiares com quem tinha menos intimidade, Micaela e Manuel o conheciam muito bem, eram amigos há tempos - além de parentes, no caso de Mica. Contava que Daniel e Sebastián não iriam lhe dar trabalho pelo menos hoje, ocupados com serem os anfitriões do almoço, mas não contava com as perguntas disfarçadamente intrometidas de Micaela ou com o olhar penetrante e analítico de Manuel.
— Há quanto tempo vocês namoram? — Micaela perguntou num tom de descontração, que Martín sabia que era apenas um disfarce, a garota estava já montando toda uma linha do tempo para discutir com Manuel depois.
Luciano piscou uns momentos e se virou para Martín, forçando uma expressão que disfarçasse o desespero momentâneo pelo furo no roteiro de sua história
— Seis meses. Não é, Lucho? — Martín respondeu apressado, forçando a mente para lembrar da história toda que tinha inventado para Sebastián. Trocou um olhar significativo com Luciano, que logo assentiu, concordando.
— Tudo isso? E você não pensou em apresentar ele antes pra gente? — Manuel perguntou, encarando Martín. O rapaz abriu a boca, em silêncio, piscando incerto.
— Seis meses num vai e vém — Luciano respondeu, dando um tapinha na mão de Martín sobre a mesa, sorrindo charmoso para Micaela e Manuel — a coisa ficou séria mesmo há mais ou menos um mês atrás.
O casal assentiu, Micaela com os olhos brilhando de astúcia e Manuel com a expressão desconfiada. Martín sorriu, passando segurança, e segurou a mão de Luciano, sorrindo. Micaela parou na metade da próxima pergunta investigativa que ia fazer ao ouvir chamarem seu nome do outro lado da mesa, e Martín conseguiu ver com canto de olho Luciano suspirar aliviado. Desviou o olhar de Manuel, evitando o olhar do amigo e se virou para Luciano, aproveitando para levantar o cardápio em frente dos dois e bloquear a visão dos presentes.
— Bom apelido, Lucho, bonitinho. É difícil essa sua prima, hein — Luciano comentou, em voz baixa, mexendo na gola da camisa, nervoso — não deixa passar uma vírgula.
— É, ela é. Mas pelo que eu vi conseguimos contornar qualquer problema — sussurrou, fingindo ler atentamente o cardápio — e acho que não vamos passar estresse com mais ninguém, os dois são os que mais iriam querer saber da minha vida.
Luciano assentiu, murmurando. Ergueu uma sobrancelha, uma expressão de dúvida nos olhos.
— Seus pais? Eles também vão ficar bem interessados, não?
— Ficariam, mas pra nossa sorte eles não vão conseguir vir. Eles moram na Europa, o casamento está muito em cima, o meu pai não faz questão… — Martín resmungou, não conseguindo evitar o tom de voz amargo que saiu. Luciano o olhou de uma forma curiosa, mas apenas soltou uma exclamação de alívio.
— Acho que menos mal — Luciano comentou. Uma mão abaixou o cardápio abruptamente, surgindo de trás, e Micaela surgiu entre os dois, sorridente.
— Tíncho, eu vou roubar seu namorado por um instante. A tia Mercedes achou ele bonito, quer ver de perto.
— Ah, não, Micaela, vai apavorar o Luciano — Martín resmungou, nervoso com a perspectiva de deixar Luciano sozinho, preocupado com o andamento da farsa. Luciano riu, lhe lançando um olhar parecido ao seu, indicando que tinha a mesma preocupação mas com um ar mais confiante.
— Eu sou duro na queda, Tinho, não se preocupe.
Micaela saiu arrastando Luciano para o outro ponto da mesa, disparando a falar, decidida a tirar quantas informações conseguisse do rapaz.
Martín olhou em volta pelo restaurante e viu que um dos banheiros ficava próximo ao canto da mesa onde Micaela tinha levado Luciano. Pediu licença, andando o mais rápido que podia para lá, pensando em pelo menos tentar se comunicar com Luciano de longe.
— Espera, eu vou com você — Manuel ergueu a voz, logo atrás de Martín.
Martín amaldiçoou até a quinta geração de Manuel, em silêncio, mas sorriu. Da porta do banheiro conseguiu ver Luciano conversando animado com Micaela e uma senhora idosa, que o segurava pelo rosto.
— Ele não parece mal, esse Luciano — Manuel comentou, ao entrarem no banheiro. Martín virou-se rapidamente para ele, piscando confuso.
— Ah, é. Ele é uma boa pessoa — respondeu simplesmente, incerto do que o amigo queria dizer.
— Mas meio confuso, não? Seis meses de vai e vem. Imagino que tenha sido da parte dele, não parece com você — Manuel ergueu a voz ao se dirigir ao mictório, se fazendo ouvir.
Martín bateu as mãos uma contra a outra.
— Foi meio que o fluxo natural das coisas, só — inventou rápido — o Luciano nunca namorou e… nada de… nenhum problema.
Manuel lavou as mãos, em silêncio, e ao terminar se virou, encarando Martín. Dessa vez seus olhos eram preocupados, bondosos.
— Eu só pergunto porque… Ah, Martín, você é intenso. Você sabe tão bem quanto eu. Eu só fico preocupado de você estar entrando numa coisa que não é recíproca.
Martín soltou o ar, aliviado. Sorriu abertamente para o amigo, se aproximando dele para segurá-lo pelo rosto.
— É recíproco — mentiu, tranquilizando o amigo — e é sério. Pode ficar sossegado.
Manuel apertou os olhos por um instante, mas assentiu com um muxoxo.
— Bom, nesse caso, acho que eu vou ter que me esforçar pra ser simpático com esse cara. Ele sorri um bocado, não? — fez uma careta.
Martín riu alto, apertando as bochechas do amigo e lhe dando um beijo brincalhão no topo da cabeça.
— Azar o seu, quem mandou ser azedo desse jeito e só se envolver com o extremo oposto.
Manuel o xingou e saiu do banheiro, rindo discretamente. Martín demorou um pouco mais, para reforçar a mentira de que tinha ido usar o sanitário.
Saiu, procurando Luciano com os olhos, ansioso. O achou ainda no mesmo lado da mesa, agora rodeado por mais parentes de Martin, tia Mercedes a postos ao seu lado o olhando como que hipnotizada. Manuel estava parado ao lado de Micaela, e assentiu a cabeça para Martín quando o viu sair do banheiro, antes de sorrir fracamente para algo que Luciano falava.
— Coitado, dessa eu escapei. Os benefícios de ser conhecido de infância da família toda — Daniel riu, se aproximando de Martín. Sebastián, ao seu lado, abraçou o corpo do noivo com um sorriso travesso.
— A Micaela ainda tentou te investigar, quando nós começamos a namorar. Pro azar dela não tinha nada de novo.
Os três riram, olhando a cena à frente, Micaela encarando todos os movimentos de Luciano com olhos de águia.
— Acho que ele vai se dar bem na família. A tia Mercedes parece que se apaixonou por ele — Sebastián pendeu a cabeça pro lado, pensativo.
— É, também acho — Martín concordou, olhando o irmão de rabo de olho.
— Ela iria ficar arrasada se vocês voltassem à história do relacionamento vai e vem.
— Nós ouvimos a conversa — Daniel explicou, olhando a expressão confusa e levemente indignada de Martín — e é só uma preocupação normal de família, não precisa virar um tomate de nervoso.
— Aparentemente todo mundo se importa com o meu pobre coração de manteiga — Martín resmungou — o Manu também perguntou.
Sebastián cutucou a barriga do irmão mais velho, implicando de brincadeira.
— E você deveria agradecer, a gente só está tentando cuidar do seu coração mole, ingrato.
— O Manuel está até sorrindo pra ele, olha. Deve ter passado na verificação — Daniel riu — mas eu acho que você deveria ir lá salvar o seu namorado, a tia Mercedes daqui a pouco engole ele.
Martín concordou, meio sorrindo meio aflito, e disparou até Luciano, sorrindo para ele numa pergunta silenciosa se tudo estava correndo como planejado. Luciano sorriu de volta, tranquilo e por consequência tranquilizando Martín também.
No fim do dia, ao se despedirem da família, Martín agarrou a mão de Luciano, anunciando que já ia acompanhá-lo até o carro. Puxou o rapaz pelo restaurante, se esquivou dos protestos dos parentes e passou pela porta de madeira com um respiro.
Quando ia soltar a mão de Luciano e deixar de lado o teatro, voltando à postura normal, o rapaz apertou a mão dele, num aviso, segurando com força.
— Ainda não — disse entre dentes, sorrindo — estamos sendo observados.
Martín olhou por cima do ombro, flagrando dois primos seus conversando com a recepcionista do restaurante, disfarçando. Riu amargo, balançando a cabeça negativamente. Luciano riu junto, olhando a tela do celular.
— Já que meu carro chega e podemos acabar a cena — colocou o celular no bolso, se aproximando um pouco de Martín a fim de conseguir ver a porta do restaurante — até que não foi tão difícil. A sua prima diminuiu o ritmo quando chegou mais gente. E a tia Mercedes me alugou.
— A tia Mercedes tem um fraco por jovens bonitos e sorridentes — Martín riu, enfiando a mão livre no bolso. Luciano se empertigou.
— Vou tomar como elogio — olhou de soslaio para Martín — o seu amigo também é barra. Tive que inventar algumas coisas na hora pros comentários dele.
— Eu também — se virou pra Luciano — aliás, pra construção da personagem: eu posso ter insinuado que nós estamos num patamar bem sério depois de muita indecisão sua.
— Eu sou o solteirão com aversão a compromisso que foi fisgado, então? — Luciano arqueou uma sobrancelha.
— Por aí — Martín deu de ombros — eu que não poderia ser, eles iam saber na hora que é mentira. E você disse que nós éramos uma coisa instável.
— Foi o que eu consegui inventar na hora, ué — Luciano resmungou, sem realmente se incomodar — meu carro chegou. E — olhou por cima do ombro de Martín — nós ainda estamos sendo observados.
Martín murmurou.
— E o que tem?
— Tem que um relacionamento num patamar bem sério não se despede sem mais nem menos. Eu vou ter que te dar pelo menos um beijo no rosto.
Martín o encarou, piscando. Sentiu novamente a ponta das orelhas esquentarem, o calor se espalhando um pouco para as bochechas e a ponta do nariz, sem que pudesse controlar.
— Ah — respondeu simplesmente, sem se mover.
Luciano lançou um olhar rápido para os parentes na frente do restaurante, certificando-se que ainda estavam ali os observando, se colocou na ponta dos pés e inclinou-se a fim de deixar um beijo rápido na bochecha de Martín. Num movimento desajeitado que tentava acompanhar o de Luciano, Martín virou o rosto um pouco demais, fazendo os lábios dos dois se encostarem.
Luciano se afastou de súbito, a expressão um pouco envergonhada, mas forçou um sorriso logo depois.
— Desculpa.
— Não, tudo bem — Martín se apressou em responder, segurando a voz para se manter impassível — tudo pelo bem do "teatro", né?
Luciano concordou, o sorriso estático, e soltou a mão de Martín suavemente, caminhando em direção do carro parado na calçada.
Martín girou nos calcanhares e sorriu sarcástico para os parentes que fingiram estar muito interessados no verniz da porta de madeira do restaurante, de uma hora pra outra.
//
Na segunda-feira seguinte, Martín saiu apreensivo do elevador do escritório, se surpreendendo ao ver Luciano sentado à sua mesa dentro do horário. Inconscientemente estava contando que o colega iria atrasar como de costume, pra poder ensaiar uma explicação sobre o que havia acontecido no final de semana passado ao fim do almoço.
Luciano o ouviu chegando e se inclinou para trás, olhando Martín quase de ponta cabeça e lhe ofereceu um sorriso cordial.
— E aí?
O cumprimento simpático, mas num tom de voz neutro demais fez Martín responder incerto, tentando analisar a expressão corporal de Luciano para adivinhar como proceder.
— Oi — respondeu baixo, tomando coragem — ah, Luciano, sobre sábado e o… o beij- — sussurrou, olhando em volta para se certificar que não estavam sendo ouvidos - nem precisava, tamanha a baderna sonora do escritório, mas sua paranoia não lhe dava descanso.
— A sua prima me achou no Instagram, você acredita? — Luciano o interrompeu, e Martín não teve certeza se o rapaz o tinha escutado ou não — Uma figura, me mandou mensagem dando boas vindas à família e tudo o mais, disse que no almoço não deram espaço pra ela falar sossegada, imagina! — riu, balançando a cabeça — Seu irmão também.
Martín apenas soltou uma risada frouxa, olhando para Luciano, curioso.
— Então você não vê problema em continuar com a... com a coisa toda?
— E porquê veria? Correu tudo bem, não correu? Aconteceu alguma coisa depois que eu fui embora, você foi desmascarado numa cena dramática ou coisa assim? — Luciano ergueu as sobrancelhas enquanto digitava qualquer coisa, prestando atenção no computador, sarcástico.
— Não, ninguém me desmascarou. Eu só pensei que por causa do-- Bom, se por você está tudo bem, continuamos então.
— Uhum — Luciano assentiu, sem olhar para Martín diretamente.
Martín entortou os cantos da boca para baixo, satisfeito que não teria que mudar nada nos seus planejamentos e voltou sua atenção também para o trabalho, deixando Luciano em paz por enquanto. Só levantou os olhos da tela do computador horas depois quando um alarme em seu celular soou estridente, chamando sua atenção.
Se apressou para desligar o alarme sonoro, olhando a tela e xingando de leve. “Prova de Traje”, com várias exclamações, no calendário compartilhado que tinha com Daniel, Sebastián e o cerimonialista do casamento.
Atirou um elástico pela mesa, acertando o peito de Luciano, que levantou o olhar levemente irritado.
— O meu namorado tem compromisso no horário de almoço — Martín disse, simplesmente, levantando o celular para que Luciano pudesse ler o alarme, com olhos apertados.
— Puta merda, que desespero, quanta exclamação.
— Hm — Martín concordou, torcendo o nariz — por isso é bom a gente aparecer lá e não atrapalhar nada, o doido do cerimonialista é capaz de cortar os nossos pescoços.
Luciano riu, olhando no relógio e se esticando, estalando os ossos da coluna.
— Então é bom a gente já sair, não? Depois eu penso numa desculpa pro RH.
Desligou tudo com uma rapidez de anos de prática, e chutou a cadeira para longe, o casaco no braço. Martín estalou a língua, divertido, e agarrou seus pertences enquanto procurava o endereço do ateliê no celular.
Os dois ficaram em silêncio na descida de elevador, um silêncio incomum que fazia com que Martín lançasse olhares furtivos para Luciano de segundo em segundo, tentando decifrar qualquer coisa em seu rosto. Achava que o rapaz iria pelo menos mencionar o beijo acidental que haviam dado, mas parecia que ele nem tinha pensado nisso.
Martín pensou.
Não tanto a ponto de ficar preocupado ou coisa do tipo. Mas pensou, como não.
Os lábios de Luciano eram macios, os cachos de seu cabelo, que roçaram em Martín por um milésimo de segundo, tinham cheiro de xampu e ele mesmo cheirava a perfume amadeirado e sabonete.
Qualquer um pensaria.
— ‘Bora, irmão, pelo endereço que você passou a gente consegue ir a pé — Luciano estava parado já fora do elevador, segurando as portas automáticas enquanto encarava Martín.
Martín concordou vagamente e saiu do elevador com o celular em mãos, aberto no aplicativo de GPS.
//
Luciano soltou um assobio ao olhar os modelos de ternos na vitrine do ateliê, o bom corte e bons tecidos denunciando o provável preço.
— Espero que você lembre do acordo, hein, Tinho — cutucou Martín com o cotovelo, erguendo as sobrancelhas. Martín soltou um gemido de sofrimento.
— Eu pago o aluguel do terno — resmungou, torcendo o nariz — vou matar aqueles dois.
Entraram no ateliê-loja observando hipnotizados o ambiente em volta, só não ficaram estáticos olhando a decoração porque uma moça baixinha se aproximou zunindo, um sorriso de orelha a orelha para os dois.
— Bem vindos, você deve ser o irmão de um dos noivos — se colocou atrás de Martín, a mão firme o empurrando para o fundo da loja enquanto puxava Luciano pelo braço com a outra mão, na direção de um salão redondo rodeado de araras de ternos, onde estavam Sebastián, Daniel e um outro homem que parecia a beira de um colapso — eu sou Carla, vou cuidar da prova de vocês.
— Pelo amor de deus, que precisamos arranjar tudo isso hoje! — o cerimonialista exclamou, batendo incessantemente num tablet apoiado em seus joelhos, sentado na poltrona no meio do salão, agarrando no braço de Sebastián ao seu lado.
Daniel se aproximou dos dois, arregalando os olhos.
— Que bom que não atrasaram, senão o homem ali ia se desesperar e eu ia ser obrigado a esganar ele com uma dessas gravatas superfaturadas — disse entre dentes, fazendo Martín e Luciano rirem. A vendedora pigarreou e puxou uma arara com ternos pré-selecionados para perto dos dois.
— O seu irmão fez a gentileza de escolher esses modelos pra você, querido — ela adiantou Martín para a arara, apressada, e logo se virou para Luciano, o medindo mentalmente — e como vocês dois são os padrinhos, vão entrar juntos, nós vamos escolher um terno que combine pra você. Ok?
— Perfeito — o cerimonialista exclamou de seu lugar, e Martín podia jurar que viu o olho de Daniel tremer num espasmo — vocês tem uma hora, enquanto isso eu vou ligar para o buffet, preciso resolver algumas coisas e cortar algumas cabeças.
O homem passou zunindo por todos, segurando um aparelho bluetooth na orelha enquanto se despedia com um piscar de olhos. Sebastián soltou o ar pelo nariz com força, se levantando.
— Foi o único que aceitou fazer tudo em um mês — se explicou, afagando o braço do noivo para conter seus nervos — vem, Luciano, eu vou te ajudar a separar algumas coisas também.
Luciano sorriu, piscando para Martín travesso antes de se afastar com Sebastián, que falava sem parar sobre cortes, modelos, gravatas e modelos de meias com a vendedora a seu encalço.
Martín escolheu três ternos do que parecia ser uma infinidade de vestimentas na arara e foi para o provador. Vez ou outra enquanto se vestia, afastava um pouco a cortina do provador para espiar Luciano e Sebastián sozinhos entre as araras, conversando.
— Deixa de ser ciumento, homem — Daniel se aproximou sorrateiro, risonho, fazendo Martín dar um sobressalto.
— Não é isso — se apressou em explicar, ansioso. Puxou a cortina do provador, abrindo para poder enxergar Daniel — é só qu-
— O Sebastián gostou dele. De verdade — Daniel se encostou na parede oposta, olhando Martín de cima a baixo e assentindo com aprovação — eu sei que isso é importante pra você.
Martín olhou no espelho, sentindo um gosto amargo na garganta.
— É, é importante sim — desviou os olhos do reflexo ao notar o olhar estranho que Daniel lhe lançava, pendendo a cabeça para o lado ao ouvir seu tom de voz meio desgostoso.
— Então, tudo certo, não? Logo vocês dois estão se juntando também.
Martín ajustou o colarinho da camisa social, sufocado.
— Pois é, tudo certo.
— Eu sabia que tinha feito uma boa escolha, e olha que eu lembrava só de como você tinha ficado na formatura da faculdade — Sebastián exclamou vitorioso ao entrar no provador, com Luciano logo atrás de sim, carregando as vestes nos braços — não ficou bonito, Luciano?
Se virou para trás, encarando Luciano nos olhos, atento. O rapaz encarou de volta por um milésimo de segundo e logo desviou o olhar, olhando para Martín, para o chão, para o teto, para Martín.
— Muito bonito, sim. Caiu muito bem — sorriu, entrando no provador ao lado logo depois.
Sebastián trocou um olhar malicioso com Daniel, que balançou negativamente a cabeça, rindo.
— Que graça, todo envergonhado — comentou, piscando para Martín — eu gosto dele. Nós vamos esperar lá fora, depois vocês mostram como ficou o resultado. Decência pelo amor de deus, tá, Tíncho.
Martín corou, e lhe mostrou o dedo, rindo. Assim que a porta bateu, ouviu o barulho das argolas da cortina do provador de Luciano sendo puxadas com violência.
— Vem cá, sua família é rica, ou o que? Você trabalha por hobby? — sussurrou indignado — Olha o preço desse terno — se virou, erguendo a camisa mostrando a etiqueta no cós da calça social.
Martín olhou para baixo, encarou por alguns instantes a bunda de Luciano muito próxima de sua perna, mas desviando o olhar - não sem certa força de vontade -, e xingou ao ver a quantidade de zeros na etiqueta.
— Essa história de casamento derreteu o cérebro do meu irmão, não é possível. Tem outros?
— Tem, calma, deixa eu trocar. E torcer pro preço ser melhor.
Luciano saiu do provador desabotoando a camisa, e Martín sem querer espiou as costas fortes do colega de trabalho, os músculos se movendo enquanto ele tirava a camisa e erguia os braços para alcançar uma outra pendurada no cabide. Luciano mexeu um pouco a cabeça e Martín desviou o rosto com tanta velocidade que quase sentiu vertigem, se pondo a ajustar os botões nos punhos para disfarçar.
— Pronto, esse é o mais barato — Luciano saiu do provador, ajeitando a calça — não ficou feio, ficou?
Martín se virou, engolindo em seco de surpresa ao ver Luciano se olhando no espelho do provador logo ao seu lado. Passou os olhos lentamente pela figura do colega, registrando como a camisa se esticava em seus ombros e como o tecido da calça social se agarrava às suas coxas quando ele se movia.
— Não ficou ruim, não — respondeu fracamente, limpando a garganta.
Luciano sorriu, olhando para Martín pelo espelho e assentiu.
— Acho que estamos prontos então, não?
Ofereceu o braço para o colega e saiu do provador, sob exclamações de surpresa e elogios dos outros.
— Por mim nem precisa provar mais nada — Daniel afirmou, sentado no sofá bebendo água num copo decorado. Sebastián concordou com a cabeça, rodeando o irmão e Luciano.
— Eu sou muito bom pra escolher as coisas, não acham? De primeira, meu olho é muito bom.
— Sim, amor, um mestre da percepção e da observação — Daniel concordou sem o mínimo resquício de ironia, e Martín forçou uma careta de tédio.
Luciano deu uma voltinha no lugar, erguendo as sobrancelhas, brincalhão.
— Sabe que concordo? Fiquei mesmo bonito nisso aqui, e olha que nem gosto de terno.
— Ficaram — a vendedora corrigiu, puxando Martín pela mão para que ele ficasse ao lado de Luciano e ela pudesse analisar a visão do conjunto — é fácil quando o casal é bonito assim, vocês parecem que se complementam.
Luciano e Martín conscientemente evitaram se entreolhar e apenas sorriram amarelo, Martín plenamente consciente dos olhos de seu irmão sobre si.
— Não vão nem precisar de muitos ajustes, que sorte — a vendedora comentou mais consigo mesma que com os quatro, agachada para mexer na barra da calça de Luciano.
Daniel resmungou, comemorando e dizendo alguma barbaridade sobre o cerimonialista, se pôs de pé e bateu com as mãos uma na outra.
— Então, finalizamos, não? — lançou um olhar esperançoso para o noivo, que depois de ponderar um pouco deu de ombros.
— Acho que sim. Antes da gente acabar tudo, uma foto de recordação. Vai, Daniel, não vai demorar nem meio minuto.
Posicionou Martín e Luciano como queria, pegando o celular no bolso traseiro do jeans, clicando repetidamente na tela do celular.
— Você realmente ficou bem no terno — Martín comentou, ao se aproximar de Luciano para a foto — eu nunca imaginei você de terno completo, não parece muito a sua praia-
— Não é — Luciano respondeu rápido, sorrindo de leve para Martín enquanto o olhava de cima a baixo — mas obrigado.
— AH! Como é bom trabalhar com clientela bonita! — os cinco se viraram para a porta do ateliê, encarando o cerimonialista que estava parado com a mão na boca, emocionado — nem vou ter trabalho dirigindo o fotógrafo.
Martín soltou uma gargalhada alta, tanto pelo comentário do cerimonialista quanto pela reação de Daniel.
//
Martín se jogou no sofá da sala, com o telefone colado na orelha.
— Sebas, eu sei. Não, eu se- Sebastián!
Luciano se sentou no outro canto do sofá, o observando com uma expressão curiosa. Martín revirou os olhos, esticando a mão para pegar uma das latas de cerveja que o rapaz tinha em mãos.
— Os nervos matrimoniais — Luciano ergueu as sobrancelhas, sorrindo ao escutar o estalo da lata de cerveja abrindo, depois de Martín desligar o celular.
— Os surtos matrimoniais — Martín resmungou, abrindo a sua e dando um gole longo — ele é doido apesar da aparência careta, mas eu nunca achei que chegasse a esse ponto.
— Dá um desconto pra ele, o chefe do Daniel estava reclamando outro dia da demora da viagem. O mundo também não está facilitando pro coitado.
Martín suspirou concordando, então franziu as sobrancelhas e se virou para encarar Luciano, confuso.
— E como você sabe disso?
— Nós conversamos, ué, eu e Sebastián — Luciano deu de ombros — eu converso com ele, o Dani, a Micaela. Menos o Manu, ele nunca responde nada. Algum deles arranjou meu número, passou pros outros e assim foi.
— Ele não responde mesmo, ele não gosta muito de se comunicar — Martín respondeu encarando curiosamente Luciano.
— Pois é. A gente se deu bem. Vai ser uma pena quando o casamento passar e a gente tiver que “terminar” — fez as aspas com os dedos, os lábios esticados num sorriso triste — eles são bacanas.
— São — Martín resmungou, olhando para a lata de cerveja.
O casamento seria no final da semana, e tinha chamado Luciano para repassar o roteiro da história de casal dos dois. Iam encontrar muito mais parentes do que no almoço, alguns muito mais inconvenientes e muito mais xeretas. E Martín não queria por tudo a perder logo agora.
Inclusive, a tábua com nomes dos familiares - mais próximos e mais distantes, indicados por grau de parentesco e proximidade - que havia feito para preparar Luciano estava esquecida em cima da mesa da sala, depois de muito trabalho de memorização e histórias da família de Martín e latas infindáveis de cerveja.
Mas precisava confessar pra si mesmo que tinha esquecido de uma parte crucial do plano.
Da parte em que, tudo dando certo, na melhor das hipóteses, assim que saísse da festa de casamento com Luciano a encenação toda caducava, e eles voltariam a ser meros colegas de trabalho com uma intimidade que se reservava ao período comercial de nove às seis.
Sentiu o estômago girar ao encarar a realidade.
— São bacanas sim — repetiu — mas não sei se foi inteligente você ter pegado intimidade com eles assim — Martín disse devagar, levemente incomodado com o amargor sutil nas palavras — você podia ter deixado alguma coisa escapar durante as conversas, sei lá.
— Não deixei — Luciano o tranquilizou, encostado no braço do sofá — nem foram conversas muito profundas, foi só… ah, eles estavam querendo conhecer o seu namorado, né? Normal.
— É, normal.
A parte do fato de que nada naquela situação era normal.
Luciano notou sua inquietação, apertando a lata de cerveja inconscientemente, e lhe deu um chutinho leve com a ponta do pé.
— Vai dar certo, mano. Fica tranquilo.
— Eu sei, eu sei que vai dar certo. É só que- — Martín se interrompeu, mordendo o lábio. Deu de ombros — eu me acostumei, acho. Com… enfim… com isso tudo.
Luciano o encarou, os grandes olhos negros colados aos de Martín. Mas indecifrável. E Martín se encolheu internamente, apreensivo com o que Luciano poderia pensar com o que tinha dito.
— Eu acho que entendo — Luciano sussurrou, depois de alguns momentos em silêncio, olhando para a lata de cerveja em suas mão, girando-a de um lado pro outro — foi divertido.
Martín murmurou, em concordância.
— Foi. Vai ser uma pena quando acabar tud-
— Eu não queria que acabasse tudo, pra falar a verdade — Luciano respondeu, baixo, ainda sem olhar para Martín.
Martín sentiu um vazio no estômago, ansioso. Olhou para Luciano, sem saber ao certo se esperançoso ou apenas curioso com a fala do colega.
— Mas foi… foi o combinado. Acabar tudo depois do casamento do meu irmão e seguir a vida normalmente como se nada tivesse acontecido. Não é?
Luciano mordeu o grosso lábio inferior, assentindo com o olhar fixo em nada. Ergueu os olhos, observando o rosto de Martín, a sua expressão mista, e parou.
— Acho que foi.
A voz dele era incerta. Martín, sem saber ao certo porque, lembrou do almoço. Não, não do almoço. Do momento em que se despediu de Luciano em frente ao restaurante. Do beijo acidental.
Quando seguiu o olhar de Luciano teve certeza que ele lembrava exatamente do mesmo momento.
O rapaz colocou a lata de cerveja na mesa da sala, ao lado das outras, e engatinhou até ficar com o nariz quase colado ao nariz de Martín.
— Martín — Luciano sussurrou, e Martín conseguiu sentir o calor de seu hálito contra seus lábios — você quer seguir o combinado? Sem mudar nada?
O cheiro era o mesmo, o mesmo que Martín lembrava. Xampu. Sabonete. Um perfume amadeirado. Martín se perguntou se as outras lembranças eram verdade também. Se os lábios eram tão macios quanto sua memória.
Se inclinou, colando os lábios aos de Luciano, que cambaleou um pouco para trás de surpresa, mas se recuperou de pronto, soltando um gemido satisfeito. Eram macios, sim, como na memória. E não só.
A língua de Luciano que passou entre seus lábios para encontrar a de Martín também era extremamente agradável. Quente, convidativa. E se movia de uma maneira que o fazia ter vontade de nunca mais soltar o rapaz.
Infelizmente, para Martín, foi Luciano quem o soltou. E o encarou com aqueles olhos grandes arregalados, em silêncio. Sua expressão mudou completamente, e ele agora tinha uma máscara de culpa no rosto.
— Desculpa. Ah, droga. Desculpa, Martín, de verdade, eu-
— Que? — Martín perguntou, abobadamente, lento pelo efeito do álcool. Quando Luciano se levantou de súbito, calçando os sapatos e indo para a porta numa velocidade impressionante para alguém que tinha bebido tanto quanto ele, Martín sentiu o peito torcer — Desculpa pelo que, espera aí… Luciano-
A porta bateu antes que ele conseguisse sequer levantar do sofá.
//
Sentou em sua mesa no escritório com os óculos escuros protegendo os olhos, ressecados pela ressaca, da luz. Dessa vez Luciano tinha se atrasado como de costume, graças a deus.
Martín ainda não tinha ensaiado propriamente como ia perguntar o que inferno tinha acontecido no dia anterior. A primeira opção, sacudi-lo pelo pescoço e exigir uma explicação estava fora de cogitação. A segunda, sentar na mesa dele e puxá-lo pelos ombros para um beijo intenso, mais intenso do que o anterior, também.
Estava à procura de uma terceira opção quando viu Luciano sair de dentro do elevador do escritório, sorridente como sempre. Até avistar Martín sentado na mesa em frente à sua.
Luciano colocou as suas coisas em cima da mesa, oferecendo um sorriso forçado para Martín, mas sem dizer nada. Mudo. E mudo por quase duas horas, sem intervalo, Martín contou no relógio.
Luciano se ergueu com algumas folhas em mãos, indo em direção à sala de xerox, conscientemente olhando para o chão durante todo o movimento para não cruzar o olhar com Martín.
Martín o seguiu com o olhar, certificando-se de quem mais ninguém tinha intenção de ir até a salinha diminuta onde ficava a copiadora do escritório e zuniu como uma flecha até lá. Preparando todo um discurso em mente.
Ao ouvir a porta abrir, Luciano começou um cumprimento alegre, parando na metade e ficando em silêncio ao se virar e dar de cara com Martín o encarando, os olhos azuis faíscando.
Martín bateu a porta e puxou a máquina de fotocópias para segurar a porta, com as mãos na cintura.
— Não foge de novo, não — Martín resmungou, olhando pra Luciano, que simplesmente se apoiou na copiadora e riu, debochado.
— Se eu quiser sair não é você que vai me impedir, Martín, sinceramente.
— Talvez, mas de qualquer maneira uma hora ou outra você vai ter que explicar porque você saiu correndo ontem do meu apartamento. A gente trabalha um de frente pro outro, pelo amor de deus.
Luciano cruzou os braços, em silêncio, apenas franzindo as sobrancelhas em resposta. Martín bufou.
— Você não pode me beijar como você beijou ontem, ter um surto de consciência e simplesmente sair — gesticulou, desajeitado — como se tivesse cometido um crime capital.
— Você me beijou, corrigindo.
— Foi uma continuação do beijo no restaurante, da no mesmo! E lá você me beijou.
Luciano se mexeu no lugar, desconfortável, resmungando em voz baixa ao tentar acompanhar o raciocínio torto de Martín.
— Pode ser, mas de qualquer maneira. Foi um erro, tanto meu quanto seu, em momentos diferentes. A gente confundiu as coisas, Martín — Luciano explicou, a voz calma, como se tivesse toda a disposição do mundo para tentar fazer Martín compreender.
Dessa vez foi Martín quem apenas cruzou os braços, indicando com o olhar para que Luciano continuasse. O rapaz suspirou.
— Você se acostumou com a situação. Eu me acostumei com a situação. A gente se deixou levar demais pela… atmosfera da coisa. No fim de tudo ia doer demais.
— Então você resolveu ter esse surto de consciência um dia antes do fim — Martín perguntou, gélido.
— Antes tarde do que nunca — Luciano suspirou, olhando Martín com os olhos tristes.
— Não. Tarde demais. Eu não quero mais seguir o combinado, eu podia estar bêbado mas não estava burro, eu disse o que disse não foi à toa.
Luciano soltou um gemido meio sofrido, socando a copiadora de frustração.
— Bem que o Sebastián falou que você é insuportável, meu deus do céu — Luciano praguejou. Martin sorriu, sarcástico.
— Você inclusive já fala mal de mim com o meu irmão, não dá mais pra simplesmente fingir que não tá acontecendo nada.
Luciano riu, meio desesperado. Martín se aproximou dele, movendo-se sorrateiro como um gato, sorrindo charmoso.
— Pensa pelo lado bom, você não vai precisar parar de falar com ninguém. Além do claro benefício de poder me beijar de novo sem ter um colapso moral.
Luciano passou as mãos pelos cabelos cacheados, rindo. Colocou as mãos no quadril, conformado e deixou que Martín depositasse um beijo de leve em seus lábios. Abriu um sorriso contra os lábios de Martín.
— Pelo menos amanhã a gente já não vai precisar mentir.
— Mais ou menos — Martín fez uma careta se afastando um pouco — porque agora eu preciso pensar num plano pra contar essa história toda pro Sebastián sem ele querer me internar.
Luciano riu, soltando um palavrão, e Martín riu junto, olhando pra baixo, para o rosto de Luciano, satisfeito.
