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Martín suspirou, satisfeito, inclinando-se para frente enquanto sentia as pernas de Luciano se fecharem em volta de sua cintura. Os cabelos de Luciano roçavam seu rosto enquanto Martín beijava seu pescoço, sem pressa de acabar.
— Eu achei que essa fronteira não fosse abrir nunca, puta merda — Luciano gemeu baixo, segurando a borda da mesa da cozinha do apartamento de Martín, a mão livre agarrando os cabelos da nuca de Martín.
— Nada que nós não conseguimos compensar hoje. Amanhã. Depois de amanhã, semana que vem, mês que vem. — Martín pontuou cada frase com um beijo rápido — Você não vai mais embora mesmo, eu não vou deixar — Martín se afastou um pouco para poder encarar Luciano, que sorriu divertido com a expressão provocante do argentino.
— Se for ser assim o tempo inteiro — Luciano concordou, colando seu corpo ao de Martín ao passar os braços em volta de seu pescoço — depois eu mando qualquer coisa pro pessoal lá do trabalho.
— Assim e mais — Martín sussurrou, erguendo a barra da camiseta de Luciano, que gargalhou dos movimentos desajeitados de Martín, pela euforia. Ia ajudar, se interrompendo com um xingamento ao ouvir a porta de entrada de Martín ser praticamente esmurrada.
O argentino apenas resmungou, franzindo as sobrancelhas e segurando Luciano pelo queixo quando ele fez menção de olhar para a porta e se levantar. Não iria deixar nenhuma distração atrapalhar os dois, principalmente agora.
Para o seu azar, quem quer que fosse que estivesse esmurrando a porta também era impressionantemente determinado.
— Vocês estão vestidos, pelo menos? Eu não tô com cabeça pra ver barbaridade hoje — Sebastián irrompeu porta adentro, batendo a porta na parede tamanha pressa.
Martín soltou um grunhido de frustração e deixou a cabeça pender sobre o ombro de Luciano, que ajeitou a camiseta e pulou da mesa, sorrindo para Sebastián por cima do ombro de Martín.
— Eu não sei o que vocês dois aprontaram agora — Sebastián colocou os óculos na cabeça e apertou a ponte do nariz — mas eu já disse mais de uma vez que eu não quero ser arrastado pra essas- — gesticulou, o olhar gélido de indignação — bagunças.
Luciano empurrou Martín para o lado e se apressou para ir cumprimentar o amigo, sorrindo de orelha a orelha e lhe dando um beijo estalado na bochecha sem se importar com a aura assassina que ele emitia. Martín fez uma expressão exageradamente confusa para o irmão e cruzou os braços.
— Eu não tenho a mínima ideia do que você está falando, Sebastián.
— Ele acabou de me buscar no aeroporto, Sebas — Luciano comentou, com as mãos nos quadris — eu testemunho que dessa vez ele não tem culpa.
— O seu testemunho não vale de nada — Sebastián o olhou com desprezo — você deve estar metido nessa presepada, também. Não é possível.
Luciano e Martín riram, tanto da expressão furiosa de Sebastián quanto pela confusão. Sebastián bufou e saiu sem mais uma palavra do apartamento, pisando firme. Os dois estavam trocando olhares, dando de ombros, quando Sebastián voltou, puxando duas crianças que tentavam trocar socos pelo braço, tomando cuidado para que elas não se encostassem.
— Me explica que merda é essa, aqui — Sebastián colocou os dois meninos de frente para Luciano e Martín, arregalando os olhos.
Martín piscou seguidamente, confuso, e abriu a boca mas não conseguiu elaborar nada. Luciano olhou para Sebastián, depois para Martín, depois para os garotos. Então soltou uma risada frouxa, sem jeito.
— Mas são- — Martín apontou o dedo indicador, para os dois garotos.
— São a gente — Luciano murmurou, sem conseguir desviar o olhar das duas crianças, a imagem personificada de seus passados.
//
— Como isso aconteceu? — Luciano sussurrou, aflito, olhando vez ou outra por cima do ombro para observar com fascinação as mini versões sua e de Martín. Sebastián deu de ombros, ainda aborrecido. Os três adultos haviam se refugiado na cozinha da agitação infantil e das discussões incessantes dos meninos para tentar raciocinar.
— Foi o que eu vim aqui tentar descobrir. Eu sinceramente achei que vocês dois tinham algo a ver com isso.
— E porque teríamos, criatura? — Martín juntou os dedos na frente do rosto, ralhando em voz baixa com Sebastián.
— Porque sempre que dá problema por aqui a culpa é de um de vocês ou dos dois juntos, já é senso comum — Sebastián ralhou de volta, erguendo as sobrancelhas.
— Justo, embora cruel — Luciano cruzou os braços — mas como foi que você esbarrou com a gente- com eles- com o que quer que essas criaturinhas sejam?
— Eu estava no sítio, o Dani conseguiu viajar pra ir até lá — Sebastián comentou, observando os dois garotos sentados na sala trocando olhares raivosos — tô há quase dois dias com esses demônios dentro do carro tomando cuidado pra que não se matem.
— Isso explica quase nada — Martín resmungou, pensativo — de onde essas criaturas vieram, como vieram parar aqu- EI!
Martín se adiantou, ralhando, agarrando sua mini versão pela cintura e o erguendo com facilidade no ar, para longe da mini versão de Luciano, chutando e golpeando o ar.
— Eu esqueci dessa parte do nosso relacionamento na época — Luciano murmurou, com uma sobrancelha arqueada.
— Sorte que o Martín tem prática de ter que lidar comigo e com o Dani desde sempre — Sebastián suspirou — olha, eu sei tanto quanto vocês. E, sinceramente, já vi muita coisa esquisita na vida, mas isso eu não…
— Não consigo pensar em explicação plausível também — Luciano mordeu a boca — e o que a gente faz agora?
— Eu não sei — Sebastián balançou a cabeça, observando com um sorriso de canto Martín ralhando com os dois meninos na sala — eu estou num hotel aqui perto com o Dani, vou fazer umas ligações, ver se acho alguma coisa. Qualquer coisa, não me chamem — arregalou os olhos.
Luciano balançou negativamente a cabeça freneticamente.
— Ah, não — o brasileiro estalou a língua, tentando entrar no caminho de Sebastián que já se dirigia pra porta com um sorrisinho — você vai despachar essa criançada aqui e voltar pra sua lua-de-mel fora de época com o Daniel?
— Você faria o mesmo, Lu — Sebastián cantarolou, zunindo pela porta da frente sem culpa.
— Cretino. Pior que faria mesmo — Luciano resmungou de braços cruzados, franzindo o cenho para a visão do amigo quase correndo pelo corredor do andar até o elevador. Jogou a cabeça para trás, soltando um gemido de sofrimento e se dirigiu, a contragosto, para a sala.
— ...que isso, parecem dois bichos, eu não posso virar de costas um segundo que- Luciano!
— O que foi que eu fiz? — Luciano perguntou, chegando à sala confuso. Martín se virou para ele, uma expressão desesperada no rosto e revirou os olhos.
— Não você, o outro Luciano.
— Ah — o brasileiro exclamou, simplesmente, piscando os olhos negros para a cena surreal à sua frente. Trocou o peso entre os pés, tentando controlar a expressão ao ver um dos garotos vindo em sua direção. A versão miniatura de Martín parou à sua frente, os olhos azuis semicerrados o analisando de cima a baixo, o ar arrogante ensaiado causando uma sensação enervante de dejá-vu em Luciano.
— Quem é você? — mini-Martín perguntou, desconfiado, olhando esquisito para o seu Luciano e depois para o Luciano adulto. O brasileiro piscou, olhando para Martín num pedido de socorro não verbal, mas o rapaz apenas deu de ombros, observando curioso a cena.
— Eu sou… bom, eu sou o Luciano. Ou Brasil, fica a critério de quem estiver falando — respondeu incerto. O garoto à sua frente cruzou os braços.
— Luciano é ele — apontou para trás, e mini-Luciano lhe estirou a língua por um milésimo de segundo — não tem como você ser Luciano também.
— Olha, na verdade eu concordo — Luciano afirmou, de olhos arregalados — mas eu sou eu sim. Por mais… ridículo… que isso possa soar. Martín? — chamou meio desesperado. Martín coçou a cabeça, desviando o olhar da sua versão infantil, que agora tinha os olhos gélidos colados em seu rosto, assim como a versão infantil de Luciano, que o olhava num misto de atenção e timidez.
— Ele é mesmo o Luciano, assim como eu sou Martín e… — esticou a mão para os meninos — vocês também são Luciano e Martín. Parece loucura mas…
— É loucura — Luciano sussurrou. Martín arregalou os olhos para ele.
— Mas com certeza tem uma explicação pra isso tudo. Nós só precisamos pensar.
Mini-Luciano piscou os olhos, encarando Luciano com curiosidade, antes de se virar para Martín e dar um puxão da barra de sua camisa.
— Meu padrinho me contou uma história assim um dia — disse em tom de segredo, animado, virando-se de costas para Luciano e mini-Martín — ele disse que conseguia falar com o próprio reflexo sem precisar de espelho.
— Brittania — Luciano deu um soco na palma da mão, olhando animado pra Martín. O argentino torceu o nariz, numa careta.
— Ah, puta que pariu.
Os meninos riram, olhando travessos para Martín e Luciano revirou os olhos.
//
— Afasta o celular, pai, eu só estou conseguindo ver seu nariz — Luciano pediu, forçando paciência ao falar com a videochamada. Estava sentado numa cadeira na sacada do apartamento, Martín sentado no braço da cadeira, ao seu lado, e os dois vez ou outra lançavam um olhar nervoso para as crianças na sala.
Tinham conseguido impedir que os meninos se atracassem mais de uma vez apesar das provocações constantes, os deixando com liberdade total para controlar os canais da televisão, que os dois encaravam encantados, os olhos arregalados.
Vez ou outra mini-Luciano ainda empurrava mini-Martín com o ombro, rindo travesso e mini-Martín resmungava, dividido entre parecer comportado ou voar no pescoço de mini-Luciano, mas tudo estava aparentemente sob controle.
— Já falei que não gosto dessas coisas, você poderia ligar como todo mundo — Afonso resmungou na tela do celular, finalmente aparecendo por inteiro, o cenho franzido — olá, Martín. Você está na casa do Luciano, imagino.
— Na verdade, ele veio pra Buenos Aires — Martín sorriu educado, se segurando para não rir da expressão de sofrimento de Luciano.
— Então ele já pode viajar. E não pensou em vir me fazer uma visita.
— Pai, pelo amor de deus, nós estamos numa emergência aqui, depois eu te ligo de novo pra você dar seu surto de carência. O Arthur está aí com você? — Luciano empurrou Martín para fora do limite da câmera do celular, tentando chamar a atenção de Afonso para si.
— Emergência? — o tom de Afonso mudou automaticamente, e ele se aproximou do celular, preocupado — O que o Martín fez? O que você fez? Vocês estão precisando de ajuda, eu consigo um avião e chego aí amanhã no mais tardar-
— Eu não fiz nada, nem o Luciano — Martín se prontificou a responder, sorrindo estaticamente e engolindo em seco — mas nós realmente, realmente, precisamos conversar com o Inglaterra.
Afonso ergueu as sobrancelhas, impressionado.
— Se até você quer conversar com ele. É sério. Um minuto.
Luciano suspirou, ansioso, e olhou novamente para as duas crianças. Pelo vidro da porta da sacada, parecia que os dois estavam em um aquário, ou qualquer ambiente controlado assim, tornando tudo mais surreal. Martín se inclinou, apoiando o peso contra as costas de Luciano.
— Aparentemente eles sossegaram um pouco — Martín comentou, observando os meninos deitados no tapete da sala, rindo da tv.
— Televisão realmente é uma benção — Luciano riu — eu não lembrava de nós sermos tão difíceis assim.
— Porque a gente raramente se encontrava. Mas eu lembro de uma vez que você quebrou meu nariz.
— Por causa do Sebastián, provavelmente.
— Provavelmente — Martín sorriu, amargo.
As vozes vindas da videochamada chamaram sua atenção, e os dois se ajeitaram a tempo de Afonso aparecer novamente, com o marido a tiracolo.
— Luciano, meu rapaz, como vai? Martín. — Arthur ergueu as grossas sobrancelhas, na sua simpatia comedida de sempre. Martín resmungou em resposta, sem sorrir, e Luciano lhe deu um cutucão na coxa disfarçadamente.
— Na verdade, Arthur, vou mais ou menos — Luciano riu artificialmente, tentando não parecer muito desesperado ao sentir o olhar preocupado do pai sobre si, atrás de Arthur — você… você ainda pratica suas magias?
— Claro — o rosto de Arthur se iluminou, e ele sorriu mais abertamente que o usual — menos do que eu gostaria desde o começo da Idade Moderna, mas meu grimório continua atualizado.
Martín, fora câmera, fungou debochado, murmurando um “bruxa velha” baixinho que Luciano torceu para que Arthur não tivesse escutado.
— Que bom, que bom — Luciano respondeu, tentando formular uma pergunta que não levantaria desconfianças — e você ainda tem o feitiço do reflexo? Eu lembro que você me falava dele quando eu era pequeno.
— O feitiço que eu usava para conversar com Britannia — Arthur assentiu — tenho. Mas é um feitiço relativamente avançado, rapaz, você está treinado o suficiente pra tentar?
— Não é exatamente por isso qu-
— Tio Arthur! — a porta da sacada foi aberta com violência, e a versão infantil de Luciano zuniu até a direção dos dois rapazes com os olhos brilhando, rindo.
— Bom, agora foi tudo pra porra mesmo — Martín suspirou, olhando para baixo, para mini-Luciano, que se enfiou entre os dois à procura da voz de Arthur.
Arthur e Afonso pararam de olhos arregalados olhando para Luciano e sua cópia lado a lado na tela do celular. Afonso se aproximou da tela, tentando enxergar com mais clareza.
— Luciano? — arriscou, apertando os olhos.
— Sim? — os dois Lucianos responderam, o mais novo encantando com o aparelho e o mais velho com uma careta.
— Luciano, volta aqui, a caixa- — mini-Martín saiu também para a varanda, eufórico, e parou ao ver o outro garoto o chamando animado perto de si. Se aproximou cauteloso, ainda olhando desconfiado para os dois adultos, mas ao ver a videochamada no celular seus olhos brilharam.
— Antonio? — chamou animado ao avistar Afonso. O português arregalou ainda mais os olhos, mas soltou uma risada carinhosa. O Martín atual se mexeu no braço da cadeira, desconfortável.
— Não, menino, acho que você não me conhece. Pelas minhas contas, pelo menos…
— Não conhece, o Antonio nessa época dizia que você era um monstro marinho — o argentino respondeu, ácido e Afonso riu.
Arthur olhava a cena fascinado, enquanto os quatro, Luciano e Martín, cada um com sua versão infantil, o olhavam com atenção. Martín e Luciano com expressões claras de pedido de ajuda no rosto.
— Acho que agora podemos dispensar as explicações — Luciano comentou, franzindo o nariz.
— Formidável — Arthur sussurrou, balançando de leve o corpo enquanto coçava o queixo — vocês os invocaram do passado?
— É o que nós gostaríamos de saber — Martín respondeu impaciente, apertando os olhos — eles apareceram do nada. E quando o Luciano- o Luchito, o- o garoto aqui mencionou que você tinha contado de um feitiço de reflexo ou coisa assim…
— Nós concluímos que poderia ser algo da sua alçada aí — Luciano completou, ajeitando mini-Luciano em seu colo e se afastando para que mini-Martín sentasse ao seu lado.
Arthur deu de ombros, assentindo.
— Pode ser que seja, vou olhar meu grimório, com certeza acho algo — disse, se afastando. Voltou logo depois com um livro grosso em mãos, algumas páginas soltas — embora eu não ache que seja o feitiço de reflexo, mas sim algum eco temporal.
— Um eco o que? — Martín fez uma careta.
— Eco temporal — Arthur repetiu, olhando por baixo das sobrancelhas para Martín, aborrecido, enquanto passava os dedos pelas páginas do grimório — como uma manifestação física de uma memória, ou pensamento muito forte.
Luciano e Martín assentiram lentamente, olhando entre si sem entender. Arthur soltou uma exclamação triunfante e bateu palmas, pousando o grimório sobre o balcão em sua frente. Esticou o braço, olhando para Afonso e o português lhe passou papel e caneta. Arthur anotou rapidamente algumas coisas, dobrou o papel, e o deixou no balcão fora das vistas da câmera.
— Siga as instruções do papel no seu bolso, meu rapaz — sorriu para Luciano — é um feitiço relativamente simples. Até o pequenino aí conseguiria — ergueu as sobrancelhas, apontando para o que Luciano supôs ser sua versão. Mini-Luciano riu, se inclinando de súbito e quase derrubando o celular.
— Tio Arthur, o senhor e papai vão demorar muito a voltar? Eu passei o dia no porto ontem e perguntei, mas não souberam me responder — os olhinhos negros do menino brilhavam, e Luciano limpou a garganta, olhando com uma severidade inconsciente para Afonso na videochamada.
— Ah — o português pigarreou, desviando os olhos da tela — em breve, filho, em breve chegamos. Lá pela época da…
— Da colheita — Arthur completou, forçando naturalidade no sorriso.
— Vem nada — mini-Martín fez um muxoxo, empurrando o ombro de mini-Luciano numa provocação maldosa — você fica sozinho igual à mim, sempre. Eu sei.
— Isso não é da sua conta — mini-Luciano respondeu, pulando do colo de Luciano e saindo atrás do Martín criança, que já havia entrado como uma tormenta na sala, rindo alto.
Afonso riu, cruzando os braços.
— Exatamente como eu me lembro — o português comentou, divertido. Arthur concordou, apoiando-se em seu ombro.
— Sim, eu também. Você realmente nunca vinha na época prometida — Luciano sorriu, irônico. Martín lhe deu um aperto leve no ombro, apertando os lábios e o rapaz sorriu, simpático — coisas do passado.
Afonso se mexeu no lugar, concordando. Seus olhos suavizaram, carinhosos.
— Coisas do passado. Vão vocês dois cuidar dos seus assuntos, então. Amanhã ligo e conversamos sobre a sua recém liberdade para viajar e quando você vem pra cá — ralhou, de brincadeira, desligando a ligação.
Luciano respirou fundo, colocando a mão no bolso e tirando um papel dobrado de seu interior. Martín se pôs de pé, esfregando as mãos.
— Ao trabalho, então.
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— Caramba, Luciano, para quieto no lugar — Martín resmungou, meio rindo, puxando mini-Luciano pela mão para sentar na cadeira ao lado de mini-Martín, sobre o desenho no chão da sala — nisso você não mudou nada — soltou o ar, parando perto de Luciano, olhando-o com carinho.
Luciano riu de volta, encostado no móvel da tv que ele e Martín haviam afastado para conseguir espaço para o feitiço. Levantou o papel que Arthur lhe mandou até a altura dos olhos, franzindo as sobrancelhas, concentrado.
— Você sabe fazer magia também? — mini-Luciano perguntou de sua cadeira, inclinando-se para frente e balançando os pés — Igual o tio Arthur?
Luciano abaixou levemente o papel, e balançou uma mão, dando de ombros.
— Dependendo do feitiço.
— Então… eu também sei fazer magia, né?
— Acho que sim? Se você quiser aprender — Luciano sorriu de leve — eu comecei na sua idade. Quer dizer, na nossa idad- nessa idade aí que você está.
— Eu também sei fazer magia? — mini-Martín perguntou, esperançoso, olhando encantado para Luciano e depois para Martín, arqueando uma sobrancelha.
— Bom, eu não sei — Martín cruzou os braços — o Antonio era bem anti-magia. Inquisição Espanhola e tudo o mais… — foi abaixando a voz, reclamando quando Luciano lhe deu um tapa de leve no braço, indicando a expressão desapontada em sua versão infantil. O garoto logo substituiu o desapontamento por uma expressão de superioridade, erguendo o queixo.
— Se o Antonio não gosta, eu também não.
— Você não precisa seguir o Antonio em tudo — Martín comentou, sorrindo de canto — pelas minhas contas logo, logo ele nem vai mais ser assim tão importante — O garoto o olhou, confuso, mas não respondeu, ergueu ainda mais o queixo. Luciano riu.
— Você também não mudou quase nada, Tinho. O nariz empinado é o mesmo.
— Metido — mini-Luciano resmungou, olhando de canto de olho para o garoto ao seu lado — você não quer aprender magia porque é um medroso, isso sim.
Martín e Luciano de pronto se adiantaram sobre os garotos, cada um segurando sua cópia para impedir que eles começassem mais uma briga física.
— Chega — Luciano exclamou, logo depois de empurrar os meninos de volta em suas cadeiras — vamos acabar logo com isso.
Luciano memorizou as palavras em língua desconhecida anotadas no papel, o guardando no bolso em seguida para ter as mãos livres. Se colocou à frente dos meninos e abriu os braços.
— E agora? — mini-Martín perguntou, tentando disfarçar a voz apreensiva. Martín olhava Luciano com os mesmo olhos azuis preocupados.
— Vocês vão voltar pra casa. Vai ficar tudo bem. — Luciano assegurou, sorrindo. Respirou fundo e entoou as palavras desconhecidas, a sonoridade familiar aos seus ouvidos de tanto observar Arthur ao longo dos séculos.
Fechou os olhos, torcendo pra que desse certo, só os abrindo novamente ao ouvir Martín ao seu lado soltando a respiração, surpreso.
— Deu certo? — Luciano perguntou, incerto, abrindo um olho e sorrindo ao espiar as cadeiras vazias.
— Pra nossa sorte. O que você fez?
— Sei lá — admitiu, passando a mão pelos cachos negros, aliviado — mas pelo menos eles sumiram. Voltaram pro passado, não sei.
Martín deu de ombros, assentindo. Tirou as cadeiras do centro da sala, colocando-as de volta no lugar e se jogou no sofá, puxando Luciano para que ele caísse por cima de si.
— Eco temporal — Martín murmurou, pensativo — nunca tinha ouvido falar.
— Nem eu — Luciano se aconchegou no peito de Martín, olhando atentamente para ele — e que acontece por “força do pensamento”. Esquisito.
Martín pousou os olhos em Luciano, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto.
— Eu pensei bastante em você nesses últimos tempos, quase todo dia — disse em voz baixa, satisfeito ao ver o sorriso se formando nos lábios de Luciano — desde que nós passamos da fase de tentar se matar à primeira vista que não ficamos tanto tempo sem se ver.
— E um dia você bebeu muito vinho, teve uma crise de choro e pensou tanto em mim que criou um fenômeno sobrenatural — Luciano riu, debochado. Martín estalou a língua, fingindo irritação.
— Você realmente perdeu o jeito pra responder as minhas declarações de amor indiretas, hein — Martín cutucou a barriga de Luciano que riu alto, dando um beijo leve na ponta do nariz de Martín.
Os dois sorriram, os rostos próximos, e Martín enfiou uma mão nos cabelos de Luciano, segurando sua cabeça no lugar para depositar um beijo lento em seus lábios.
— Já pensou se nós pudéssemos ter filhos? — Martín separou o beijo abruptamente, olhando para o nada, pensativo — Seria mais ou menos como hoje, não?
Luciano franziu as sobrancelhas, balançando a cabeça negativamente.
— Tendo esse risco, que bom que não é uma possibilidade, imagina aguentar um surto dramático seu e da sua versão miniatura ao mesmo tempo, eu ia morrer.
Martín fingiu uma cara ofendida e Luciano riu novamente, beijando-o novamente e se ajeitando para sentar em seu colo.
