Work Text:
Chanyeol batia o pé no chão continuamente, como uma madame insatisfeita com um detalhe mínimo. Estava botando os neurônios para funcionar, e esse era um momento muito importante, muito importante… Balbuciando palavras desconexas, parecia um artista considerando os rumos que tomariam suas próximas criações — e com ele naquela pose, de braços cruzados, encarando o canto atrás da porta do dormitório, ficava difícil achar outra coisa.
Mas Chanyeol não era artista; na verdade, era um homem dos números — muitos números, muitos números —, então estava acostumado a sussurrar palavras repetidamente enquanto encarava um ponto fixo da decoração, em delírios matemáticos que adorava dissecar. Só que, para o seu azar, não tinha nem delírio, nem matemática; apenas uma pulguinha sugando o sangue atrás da sua orelha: Zhang Yixing estava tirando uma com a sua cara.
Claro! Era isso! Não tinha explicação melhor. Zhang Yixing, seu colega de quarto e amigo de longa data, adorava tirar uma com a cara de Chanyeol de vez em quando; e Chanyeol, sendo um rapaz simples e levemente influenciável, ingênuo em suas análises não matemáticas, quase sempre acabava caindo nas coreografias mentais de Yixing. Era exatamente o que estava acontecendo naquele momento. A menos que…
Não, não. Era isso: tiração de sarro. Era isso, não era? Só podia ser!
Chanyeol voltou ao estado anterior de criatura murmurante.
Se Yixing estava ou não lhe fazendo de palhaço, ele não podia dizer ainda, mas resolveu trabalhar com os fatos que já tinha — isso! Os fatos não mentem!
O problema é que os fatos estavam dizendo coisas que não deixavam Chanyeol dormir de noite, por isso, resolveu investigar a situação com toda a parcialidade do mundo, tentando entender corretamente tudo o que tinha acontecido (afinal de contas, os fatos sozinhos não dizem nada, você precisa interpretá-los).
Deitou na sua cama, fechou os olhos e retrocedeu. Deu play numa memória.
(...)
Havia um ou dois — ou dez — dias (o rapaz não tinha uma boa percepção de tempo), Chanyeol tinha chegado em casa com um buquê de rosas enorme nos braços, tapando o rosto, dificultando a simples tarefa de abrir a porta. Não parecia muito certo carregar aquele trambolho vermelho e verde que farfalhava sempre que Chanyeol precisava ajeitar o plástico. Se sentia uma personagem de filme de quem todos gostam, mas que nunca está exatamente feliz com a vida que tem.
Yixing demorou um pouco para perceber que o colega de quarto tinha voltado, concentrado demais em fazer alguma coisa tão barulhenta que Chanyeol conseguia ouvir mesmo que ele estivesse de fones.
Aquela era uma das milhares de desvantagens de dividir o dormitório com um músico: eles não param nunca . Ou, talvez, fosse uma característica particular do músico que Chanyeol levava a tiracolo, afinal, Yixing sempre foi um cara meio diferente: meio preguiçoso na hora de arrumar o seu lado do quarto, mas muito proativo na hora de varar a noite na frente do computador fazendo beats.
Milagrosamente, então — como se Deus tivesse enviado um de seus anjos para cutucar Yixing no ombro —, o músico voltou a atenção para Chanyeol, claramente tendo dificuldades para conciliar todas as tarefas que tentava fazer ao mesmo tempo. Largou os fones e foi ajudar o amigo.
— Uau — Yixing comentou, referindo-se às flores. — Quantas rosas. Você comprou?
— Não — Chanyeol respondeu, tentando recuperar o fôlego, entregando o buquê na mão de Yixing sem pensar duas vezes e soltando o resto dos seus pertences no chão. Não estava conseguindo respirar direito enquanto carregava as flores tão perto do rosto. — Eu ganhei de alguém, mas não sei quem. Não tem nome no cartão.
Yixing o encarou com uma cara engraçada — essas que os amigos fazem quando você se mete em alguma enrascada romântica —, e Chanyeol não conseguiu evitar o rubor colorindo o seu rosto de vergonha.
— Admirador secreto? — Yixing provocou, cutucando as flores em busca do tal cartão que Chanyeol tinha mencionado. Deu outro sorriso arteiro quando encontrou. — Ui, ui, olha que chique! Para o único carinha de exatas que eu gosto. — Riu. — Pretensioso, mas fofo. Tem um número no final, você não quer tentar ligar?
Chanyeol balançou a cabeça, desconcertado. Nunca que iria fazer uma coisa dessas! Morria de vergonha. Além do mais, o fato de não saber quem tinha lhe endereçado aquelas flores o deixava mais ansioso (conotação ruim) do que ansioso (conotação boa). A ideia de descobrir quem estava por trás daquela insinuação nada educada sobre pessoas de exatas serem chatas era ainda mais perturbadora.
Veja bem, Chanyeol era um cara simples, gentil, coração mole, manteiga derretida, educado, simpático, tudo isso e mais um pouco. Além disso, não costumava ligar tanto para namoro, beijinhos, saídas, cinema, encontros, anéis, declarações, posts no Facebook, roupas combinando, aniversários mensais e… Ok, ok, você me pegou! Ele ligava sim, um pouquinho, pra essas coisas, mas como a sua realidade era mais centrada nos seus amigos e estudos do que nos relacionamentos amorosos que ele nunca teve, fingia que não estava nem aí. Funcionava na maior parte do tempo, se você quiser saber.
Mas e se precisasse recusar a confissão de alguém?
E se acabasse não curtindo tanto a pessoa que tinha enviado as flores? E se fosse uma garota? Chanyeol era gay. Mas, e se fosse alguém tão distante da sua vida que ele não conseguisse processar o acontecimento direito? Pior: e se fosse um amigo muito próximo e as coisas ficassem esquisitas?
E se não fosse ninguém? Poderia ser uma piada de mau gosto de algum colega — só de pensar na possibilidade, Chanyeol já ficava vermelho tudo de novo. Que vergonha, que vergonha! Imagina achar que alguém gosta de você!
— Oi? — Yixing estalou os dedos na frente do rosto de Chanyeol, exatamente como nos filmes. — Tá me ouvindo?
— Tô sim, tô sim — Chanyeol repetiu, frisando a resposta com um balançar de cabeça insistente. — Não vou ligar pra ninguém.
— Por quê?! — Yixing quase gritou. Precisou limpar a garganta, porque a sua voz tinha saído meio esganiçada, meio travada, um pouco pega de surpresa. — Quer dizer, por quê?
— Ai, sei lá… — Chanyeol coçou a nuca. Sentou na sua cama, apreensivo, encarando Yixing sentado na sua cadeira de sempre, de frente para a escrivaninha, segurando as rosas como se elas fossem para ele. O fone era grande, amassava o cabelo de Yixing e deixava um topete engraçado na cabeça dele; pelo menos, Chanyeol achava engraçado. Yixing não achava nem um pouquinho de graça nas piadinhas que Chanyeol fazia, mas deixava mesmo assim.
— Beleza, então — Yixing disse assim que percebeu que Chanyeol não desenvolveria o assunto. — São bonitas, as rosas. Vai guardar elas?
— Vou — Chanyeol falou, levantando e abraçando as flores outra vez. — Vou procurar um vaso, já volto.
(...)
Depois daquele dia, Chanyeol não ouviu mais nada do mini estúdio de Yixing (lê-se: o lado dele do quarto) durante uns bons dias. Tinha estranhado — será que ele estava bem? Era raro não ver Yixing trabalhando num beat quando tinha tempo livre, mas se fosse ser honesto, Chanyeol não estava nem vendo Yixing direito.
Yixing só comia e dormia no dormitório. De dia, tirando as horas em que obviamente estava na sala de aula, se perdia em algum lugar do campus cujo nome Chanyeol não lembrou de perguntar. Estava sempre no telefone com os colegas de música, combinando uma festa ou algo do gênero, pelo que Chanyeol tinha entendido.
Numa terça-feira, ou algo assim, Yixing chegou ao dormitório no horário normal, logo depois da aula. Não disse uma palavra; foi direto para a escrivaninha rabiscar alguma coisa aparentemente importante. Chanyeol ficou olhando, curioso, da própria escrivaninha, como se Yixing fosse algum tipo de alienígena de comportamento duvidoso. Poderia não ser, mas estava agindo como um.
— Oi…? — Chanyeol disse, tentando ser perceptível sem assustar o colega de quarto.
— Ah, oi, Chanyeol. — Yixing sorriu, virando-se para encarar Chanyeol por um instante, exibindo a covinha na bochecha. — Foi mal, eu tive uma ideia do nada, precisava pôr no papel antes de esquecer. Como foi o dia?
Subitamente, Yixing, que tinha passado dias e dias distante, ocupado, produzindo, encontrando amigos, tinha os dois olhos escuros pregados nos dois olhos escuros de Chanyeol.
Chanyeol não era um cara pequeno; tinha mais de um e oitenta, mania de falar alto e uma falta consistente de coordenação motora. Todavia, era um molenga. Não sabia lidar com toda a atenção, ainda mais quando Yixing parecia tão radiante e investido em saber como tinha sido o dia de Chanyeol. Como foi o dia, Chanyeol? Ele não sabia responder. Tinha esquecido.
— Terça-feira — Chanyeol respondeu, no impulso. Yixing riu e Chanyeol quis esconder o rosto debaixo da terra.
— Verdade, foi terça-feira o dia inteiro até agora — Yixing entrou na onda, meio debochado, meio entretido. — Quer ver um filme hoje? Eu fiquei sabendo que entrou uma comédia nova na Netflix que é muito boa.
Chanyeol assentiu, então disse:
— Pode ser. Que horas?
— Quando você quiser. — Yixing deu de ombros, depois pegou a folha em que tinha rabiscado a ideia de mais cedo, enfiou dentro de um caderno, jogou o caderno numa gaveta e foi tomar banho.
Chanyeol ficou encarando a gaveta quando Yixing foi embora, como se efetivamente pudesse abrir um buraco na madeira, ou ler através dela o que tinha naquele papel. As mãos de Chanyeol coçaram e os seus olhos arderam de curiosidade, mas ele não era um enxerido — o que não significava que não era um sonhador. Ficou pensando que tipo de ideia era aquela por um tempão antes de voltar para a sua tarefa.
Finalizou todas as contas, matemáticas, funções, adições, radiciações e outras formas de tortura que estudava, fechou as apostilas e guardou tudo no seu devido lugar. Limpou a escrivaninha, organizou a mesa, ficou de pé e quase se assustou com o contraste.
O dormitório era bem pequeno, não tinha como negar, mas parecia ficar menor ainda quando Yixing perdia o controle da bagunça que morava do seu lado. Roupa, caderno, livro, violão — tudo amontoado em lugares específicos, ou espalhado por lugares aleatórios —, nada tinha paz na mão de Yixing. Mas o lado de Chanyeol era um brinco, viu? Ninguém podia reclamar.
E Yixing, às vezes, se mesclava à bagunça e desaparecia, entuchado no próprio mundinho de notas musicais, escalas e beats. Chanyeol não fazia a mínima ideia de como definir noventa por cento daqueles termos.
Um milhão de anos depois, dada a natureza demorada dos banhos de Yixing, Chanyeol já tinha juntado as duas camas e até separado o salgadinho para comerem enquanto viam o tal filme engraçado. Yixing saiu do banheiro surpreso.
— Eita — Yixing disse. — Você foi rápido.
Chanyeol riu, então respondeu:
— Você falou tão bem do filme que eu quis ver logo.
— Eu nem sei se vai ser tão bom assim… Levando em conta que quem me indicou foi o Baekhyun e ele tem riso frouxo, pode ser tanto uma comédia genial quanto, sei lá… um filme do Adam Sandler.
— Respeita o Adam Sandler! — Chanyeol bradou, dando com um travesseiro na cabeça de Yixing.
— Ai! — Yixing fingiu que tinha doído.
— Foi mal — Chanyeol pediu, encolhendo os ombros, pondo a mão na cabeça de Yixing como se estivesse se certificando de que não tinha matado o amigo. Quando Yixing começou a rir, Chanyeol lhe deu um tapa na nuca para compensar.
Deitaram na cama com o notebook mais ou menos dividido entre os dois. Só pelo título do filme, Chanyeol já tinha sacado que talvez não fosse um filme tão bom, mas não disse nada, e em silêncio permaneceu durante os vinte primeiros minutos. Não tinham rido nenhuma vez.
Num momento muito constrangedor, a mão de Chanyeol tocou sem querer na mão de Yixing.
Chanyeol não sabia direito o que estava fazendo: se queria pegar o chocolate que estava ali perto, em cima da cama; ou se, quase dormindo, planejava pausar o filme chato para descansar em paz. De um jeito ou de outro, deu com a mão na mão de Yixing e não soube esconder o susto que levou com o toque inesperado. Pediu umas desculpas destrambelhadas.
— Tá tudo bem, Chanyeol — Yixing falou, abrindo um sorriso enorme e bagunçando o cabelo de Chanyeol para encher o saco. Desligou o filme, então, entendendo que ninguém estava interessado nele. — Você sabe que eu não ligo pra essas coisas, né? Tipo, não que eu não me importe, mas eu não me importo… — Yixing fez uma pausa, sem saber como se expressar direito. — Tipo, não me importo se acontecer, sabe? Tipo, eu não vou achar nada de ruim, mas também não vou necessariamente…
— Eu entendi, Yixing — foi a vez de Chanyeol rir.
Yixing era daquele jeito quando estava nervoso: não sabia o que dizer. Era fofo, e Chanyeol secretamente adorava ver a cara dele todas as vezes em que aquilo acontecia, mesmo depois de tanto tempo.
Quer dizer, não que Chanyeol e Yixing se conhecessem havia muito tempo, mas nem havia pouco tempo também — tá vendo? Tudo é meio relativo!
Se conheciam havia uns dois, três anos. Na verdade, esse número depende se você conta o “conhecer de vista” como “conhecer”. Se sim, então são três anos. Se não, então são dois; dois anos de amizade e de divisão de quarto. E de alguns incidentes com refrigerante quente e cheio de gás, mas isso é outra linha do tempo.
Voltando ao assunto principal:
— Ei, esse fim de semana a gente vai fazer uma reunião, sabe? — Yixing começou. — Um rolê mesmo, eu e uns amigos da minha turma. Quer ir?
— Claro — Chanyeol concordou sem nem pensar. — Depois me fala que dia e que horas, pode ser? Vou escovar os dentes, tô com sono.
— Mas já? — Yixing debochou. — Nem é meia-noite ainda!
(...)
No dia da tal reunião que Yixing tinha mencionado, Chanyeol resolveu acordar cedo para adiantar algumas coisas da faculdade. Passou um bom tempo mergulhado nos números, fazendo cálculos, rabiscando folhas de papel; tão concentrado que tinha até esquecido que tinham um lugar para ir. Só foi lembrar quando viu Yixing arrumando o violão para levar para o quarto de Baekhyun e Kyungsoo.
Pulou da cadeira e foi procurar alguma coisa para vestir — nada muito arrumado, mas também nada muito desleixado. Enquanto refletia sobre o visual, Yixing manuseava umas folhas de papel suspeitas demais — Chanyeol deveria ter prestado atenção naquilo, mas deixou escapar, muito concentrado no dilema moral de escolher uma cor de casaco.
Mal sabia Chanyeol que voltaria para o dormitório como uma pessoa completamente diferente… bem, não tão diferente assim. Na verdade, Chanyeol voltaria ainda mais Chanyeol — preocupado e pensante —, se é que isso era possível.
A cena do crime se desenrolou de uma forma muito perspicaz — parando pra analisar, foi tudo muito bem calculado. O dormitório de Kyungsoo e Baekhyun (ou Baekhyun e Kyungsoo, o narrador ainda não decidiu qual dos dois soa melhor) já estava entupido de estudantes de música e outros loucos quando Yixing e Chanyeol chegaram.
Baekhyun era uma pessoa muito aberta, extrovertida e engraçada na frente dos amigos; Kyungsoo poderia ser descrito da mesma forma, mas numa intensidade menor. Chanyeol não era do círculo da galera “de músicas”; ele era “de exatas”, naturalmente odiado pelos estudantes de ciências humanas, mas tinha muito mais amigos nos cursos de História e Filosofia do que na sua amada Matemática.
Todos se acomodaram rapidamente; tinha todo tipo de porcaria pra comer, e Chanyeol agradecia, porque preferia encher a barriga do que entrar nas conversas da galera de Filosofia — nada contra! Mas que raios é uma “falácia”? Chanyeol achava que sabia o que significava, mas do jeito que Sehun falava, parecia impossível de entender.
A galera de música — Yixing, Jongdae e Kyungsoo — só tinha uma atividade possível, aparentemente: cantar. Jongdae estava querendo cantar uma da Britney desde o começo, mas Kyungsoo não lembrava a letra de Toxic, então se contentaram com outras músicas. Yixing estava mostrando as autorais que tinha guardadas, já que elas eram um sucesso entre os amigos, mas, num determinado momento, uma coisa estranha aconteceu.
Yixing começou a cantar uma música que Chanyeol nunca tinha ouvido — nem mesmo nas noites em que Yixing passava acordado, trabalhando em letra, melodia, beats e outras formas de incomodar um Chanyeol que tentava dormir. A música só tinha o violão, a voz de Yixing e uma letra linda…
E suspeita.
— Não há nada como o seu sorriso — Yixing começou; por enquanto, estava tudo normal. O eu lírico da canção parecia feliz por cantar para a pessoa que amava, uma declaração singela e direta. — As flores que eu mandei, você nem pensou em me ligar, mas eu não me importo — era como o pré-refrão começava. — Eu não me importo… não me importo de tocar na sua mão, não me importo de não ser quem mora no seu coração. Não me importo com os filmes ruins, se eu estiver assistindo com você, e eu sei que eu não sei dizer, mas eu quero fazer você saber: eu não me importo de te amar... — Yixing prolongou a melodia no violão antes de finalizar o refrão com: — pra sempre.
O cantor não tirava os olhos das cordas do violão, e ninguém tirava os olhos de Yixing. Pareciam hipnotizados pela música.
— Eu… — Yixing voltou a cantar, sinalizando o início do segundo verso, mas ele parecia incerto. Errou uma nota. — Eu não sei se… Peraí, esqueci a letra.
Todos riram da confissão de Yixing, que largou o violão por um instante para procurar o papel com a letra da música. Tirou as anotações do bolso e colocou em cima de uma das pernas, mas ou o papel não ficava ou Yixing simplesmente não conseguia se lembrar da melodia. Àquela altura, todo mundo já tinha se distraído da música, rindo e fazendo piada, mas alguns até tentaram ajudar Yixing a lembrar a melodia que ele mesmo tinha composto.
Entretanto, Chanyeol não estava ali; quer dizer, continuava fisicamente no mesmo lugar, mas sua cabeça já estava pra lá de Bagdá. (Eu entreguei a minha idade agora, não entreguei?)
(...)
Sim, os fatos estavam realmente dizendo coisas que não deixavam Chanyeol dormir de noite. No dia seguinte ao incidente no dormitório de Baekhyun e Kyungsoo, Chanyeol olhava para o teto como se a tinta branca lhe pudesse revelar todos os segredos da humanidade. Dica: não era isso que estava acontecendo.
Na verdade, quanto mais olhava para o mesmo ponto indistinguível do teto do seu quarto, mais burro Chanyeol se sentia. Precisava chegar a uma conclusão.
Yixing não estava se declarando pra ele através da música, estava? Não podia ser! Mas eram muitas referências… as rosas, o telefonema que Chanyeol não fez, o toque inesperado de mãos, todo o discurso sobre não se importar — todas as peças do quebra-cabeça se encaixavam perfeitamente. Você vê, né, leitor?
Pensando racionalmente por um segundo, Chanyeol lembrou das flores — mortas, àquela altura —, e do bilhete que tinha vindo nelas. Só precisava ligar para o número e descobrir quem estava por trás daquelas palavras. Só precisava discar e descobrir se todas aquelas coisas bonitas que Yixing havia cantado eram para ele ou não.
Mas nem lembrava mais onde tinha colocado o bilhete — lembrava sim, só estava com medo de achá-lo —, por isso resolveu levantar da cama e se preparar para um pouco de investigação.
A fim de descobrir se Yixing realmente tinha cantado uma música sobre ele, Chanyeol resolveu comer pelas beiradas.
Literalmente.
— Cara, sai pra lá com esse sanduíche! Cê vai sujar o meu trabalho! — Yixing reclamou quando, mais tarde naquele dia, Chanyeol chegou muito perto da área de trabalho dele enquanto jantava um Burger King.
— Não é um sanduíche — Chanyeol respondeu com ênfase, para despistar, e se afastou imediatamente. Yixing parecia concentrado. — Tá fazendo o quê?
Um segundo de silêncio.
— Nada — Yixing falou, dando de ombros e olhando para Chanyeol com naturalidade enquanto escondia debaixo da mão os rabiscos do seu bloco de notas. — É uma letra de música, mas ela ainda tá meio bagunçada — Yixing emendou quase instantaneamente, meio nervoso.
— Ah — Chanyeol tentou disfarçar. — Ei, eu tava pensando, né…
Yixing voltou toda a sua atenção para Chanyeol, pronto para ouvir o que quer que o estudante de matemática dissesse em seguida, mas Chanyeol não fazia a mínima ideia do que diria em seguida. Olhou para o lanche que estava comendo, como se pedisse ajuda, mas nada clareou a sua mente.
— Tava pensando se a gente poderia sair… — foi o que Chanyeol conseguiu pensar. — Tipo, qualquer dia desses.
— Claro! — Yixing quase pulou da cadeira. — Onde você quer ir? Quando? De dia ou de noite? Você prefere cinema ou parque?
Silêncio sepulcral.
Chanyeol estava sob pressão, mas Yixing parecia tão animado que ele quase esqueceu, por um momento, que aquilo se tratava da sua missão secreta para desvendar o mistério das letras de música. Sim, Chanyeol estava numa missão!
Mas ainda não sabia o que responder.
— O que você preferir — Chanyeol disse, optando por não decidir nada. — Quer dizer, eu só queria dar uma saída mesmo, pra espairecer… — acrescentou, tentando deixar aquele assunto que tinha puxado do nada um pouco menos suspeito. Yixing franziu as sobrancelhas, visivelmente confuso. — Tipo, sabe, andar um pouco, e como você tá sempre por aqui… achei que seria uma boa te chamar.
Yixing, então, desfez a cara de garoto perdido. Deu uma risada de quem tinha sacado tudo, e Chanyeol secretamente desejou que tivesse sido só impressão sua.
— Eu tô sempre por aqui porque eu moro aqui — Yixing provocou, cruzando os braços, um sorriso arteiro colorindo a cara. — Mas ok, vamos sair qualquer dia, qualquer hora…
— É — Chanyeol concordou, ainda segurando o lanche, mas sem realmente lembrar de que o tinha na mão.
— Pode ser agora?
— Oi?
— Agora — Yixing tentou explicar, mas não tinha como ser mais direto. Fez um gesto vago com as mãos e Chanyeol quase engasgou.
— Beleza, então — concordou, sem muita opção.
(...)
Chanyeol terminou o sanduíche no caminho para qualquer que fosse o lugar para onde Yixing estava andando. Apenas concentrou-se no seu lanche, e quando ele acabou, concentrou-se em achar uma lixeira para jogar os guardanapos fora.
O moletom de Chanyeol estava todo sujo de molho e farelo, mas a sua consciência ficou leve depois de duas batidinhas inúteis que deu em cima da estampa de unicórnio.
Os dois rapazes andaram, andaram e andaram, até que pararam na entrada de um parque de diversões.
— Cara…! — Chanyeol exclamou, surpreso. — Eu nunca fui num parque de diversões. Não sei nem como funciona.
— É simples: você entra e se diverte — Yixing respondeu, achando que estava arrasando nas piadas. Chanyeol revirou os olhos, mas sorriu, dando uma colher de chá para o colega de quarto metido a comediante.
Assim que entraram, a primeira coisa que Yixing fez foi arrastar Chanyeol para uma daquelas barracas de tiro ao alvo, segurando na manga do casaco do amigo, que era alto, mas nem por isso, rápido. Não deu nem tempo de olhar em volta direito, admirar as luzes — ainda que elas ficassem meio embaçadas por detrás da miopia de Chanyeol —, olhar as pessoas, encarar a roda gigante, procurar o carrossel no meio de tantas atrações tão inéditas, mas tão nostálgicas.
No tiro ao alvo — outro clássico —, Chanyeol acertou um ou dois bichinhos de madeira que ficavam dançando, debochados, para os atiradores de primeira viagem. Yixing estava tendo algum problema com o seu protótipo de arma, mas os dois não ficaram tanto tempo assim naquela barraquinha para que ele aprendesse a manuseá-lo. Não ganharam nada.
Não tinha montanha-russa e o carrossel estava fechado, mas ainda tinha algodão-doce e uma roda gigante. A noite parecia um filme, ou um livro adolescente, ou um sonho, ou um delírio que Chanyeol teve enquanto ouvia música no transporte público. Honestamente, poderia ser muita coisa, mas a dor de barriga inoportuna que atingiu Chanyeol enquanto a roda-gigante balançava era real demais para não acreditar nela.
— Se eu vomitar, promete que não vai rir de mim — o rapaz pediu, com a mão na barriga, como se segurasse o enjoo lá dentro. Yixing, ouvindo aquilo, só conseguiu rir.
Mesmo com as interferências do seu sistema digestivo nada romântico… quer dizer, nada aproveitador de momentos simples com amigos da faculdade… Chanyeol ainda estava se sentindo a própria Mariah Carey no clipe de Fantasy. (Sim, foi só nisso que ele pensou a noite toda.) Debaixo do céu cansado de um dia que já passou, olhando a cidade lá embaixo, girando e girando… Parecia mesmo algo fantástico.
Yixing comia o algodão-doce que dividiam meio desajeitadamente, e parecia absorto numa realidade paralela, porque nem ouviu quando Chanyeol perguntou o que ele queria fazer depois.
— Eu não achei que você fosse notar — Yixing revelou enquanto saíam da roda gigante. Chanyeol não entendeu.
— Notar o quê?
Yixing tropeçou na sombra de alguém, ou numa pedra muito pequena, e caiu com a mão esquerda no chão e a mão direita, segurando o algodão-doce, flutuando no ar. Chanyeol deixou escapar um grito de surpresa misturado com uma risada destrambelhada.
— Tá tudo bem? — Chanyeol perguntou, puxando Yixing pelo braço imediatamente.
— Tá sim, foi nada não — Yixing o assegurou. — Vamos comer um cachorro-quente?
(...)
Onde foi que Chanyeol tinha se metido, hein?
Onde tinha se metido? foi a única coisa em que pensou quando chegou ao dormitório ao lado de Yixing, ainda gastando as risadas das piadas que tinham inventado juntos. Foi uma noite boa — foi uma noite ótima —, e Chanyeol só lembrou de todo o propósito daquele encontro quando voltaram para o quarto que dividiam.
Era estranho sair com alguém e não se despedir, mas, no fim das contas, voltarem pelo mesmo caminho. Mais estranho ainda quando essa pessoa é o seu amigo e você está tentando descobrir se ele tem uma quedinha por você; por isso, Chanyeol fingiu uma diarreia e se trancou no banheiro para pensar.
Estava se sentindo péssimo pelo ótimo tempo que tinha passado ao lado de Yixing. Alguma coisa em si clamava para que Chanyeol pegasse o celular e ligasse para o primeiro contato que visse em busca de algum conselho de amigo, mas a parte racional do seu cérebro disse que era melhor não. Ele ainda nem sabia se estava certo ou alucinando! Além do mais, Yixing poderia estar usando os seus momentos como inspiração, mas não necessariamente significando que ele sentia alguma coisa por Chanyeol, né? A arte é subjetiva!
(Grande parte “racional” do cérebro, essa.)
Sem muita perspectiva, Chanyeol sentou sobre a tampa fechada do vaso sanitário e vagou pelo celular, pensando em todos os detalhes insignificantes. Foi parar no YouTube, e como se a internet soubesse exatamente aquilo que estava sentindo, o título do primeiro vídeo que viu era 9 coisas que as pessoas fazem quando estão extremamente atraídas por você.
Chanyeol arregalou os olhos, depois olhou em volta, como se pudesse estar sendo observado, mas estava sozinho no banheiro. Óbvio. Balançou a cabeça, pôs o volume no zero e ligou as legendas do vídeo, só pra matar a curiosidade. Boa parte de si estava com medo de que o primeiro tópico do vídeo fosse “pessoas escrevem músicas muito específicas quando gostam de você”, e esse pensamento fez com que ele hesitasse por um instante.
Que ridículo! Chanyeol fez questão de estabelecer consigo mesmo que Yixing era hétero e nunca haveria a possibilidade de que gostasse dele. Não foi a melhor coisa para dizer a si mesmo, mas parecia certo.
Deu play no vídeo de um jeito ou de outro.
Enquanto o vídeo rodava, desceu para os comentários, como qualquer ser humano normal faria. O primeiro deles dizia: está curioso para saber se o seu crush também gosta de você? Veja esse vídeo!
Chanyeol fechou o vídeo imediatamente. Ridículo! Ele não tinha um crush em Yixing; mas e se passasse a ter? E se a ilusão de ser desejado simplesmente fizesse surgir uma paixonite que nem sequer estava lá antes?
Chanyeol tinha medo das consequências. E se acabasse no fundo do poço por causa de algo que nem existia na realidade? E se a sua própria mente o levasse para o trágico fim da sua amizade?
Ou, pior: e se nada daquilo chegasse a, realmente, exceder os limites da sua própria cabeça e ele precisasse lidar com o fardo de ser um idiota ao mesmo tempo em que fingia estar tudo bem?
(Talvez Chanyeol não fosse tão ruim em filosofia quanto acreditava.)
(...)
Quando acordou no outro dia, Chanyeol era outra pessoa.
Levantou, arrumou as coisas, tomou banho, pôs a mochila nas costas e foi para a aula como se não tivesse surtado na noite anterior. Estava bem disposto, até; tinha desistido.
Era uma coisa que fazia com frequência: se preocupava excessivamente com uma coisa, mas depois pensava se tudo aquilo valia mesmo a pena. A resposta era óbvia: nada vale a pena, a vida é apenas um vazio que tentamos preencher! E, de alguma forma, o pensamento o consolava. Se nada tem significado e o universo existe por acaso, então por que se preocupar com coisas tão mundanas que só o corroem por dentro?
Chanyeol era um ótimo niilista — se é que o termo se aplica…
Quando saiu, Yixing ainda estava dormindo. Parecia ter passado a noite em claro outra vez, porque estava de roupa, deitado de bruços em cima da coberta, como se tivesse caído ali por acaso e dormido só pela conveniência. Quando voltou, Yixing ainda estava lá, mas acordado dessa vez.
Durante algum tempo, o silêncio contínuo entre os dois se manteve. Ninguém dizia nada que não fosse necessário, como se nada tivesse acontecido; ou, melhor: como se algo tivesse acontecido.
Chanyeol estava progressivamente mais cansado a cada aula que não conseguia estudar direito no fim de semana, esgotado psicologicamente para qualquer tipo de interação humana. Ia da aula para o dormitório, do dormitório para a aula, rezando para que conseguisse sobreviver àquela semana ouvindo apenas o mesmo álbum, de novo e de novo.
Já Yixing, parecia nem estar ali. Saía sempre numa correria, chegando em cima da hora em todas as aulas, e chegava sempre muito cedo; ficava concentrado nos seus trabalhos e dormia apenas quando não conseguia mais manter os olhos abertos. Honestamente, aquele poderia ser apenas o mesmo Yixing de sempre, mas Chanyeol insistia em pensar que tinha alguma coisa de diferente.
Talvez estivesse ficando louco.
(...)
— Chanyeol? Tá tudo bem?
Chanyeol piscou, voltando à realidade subitamente. Kyungsoo o encarava, incerto, preocupado com a falta de atenção do amigo.
— Tô sim — Chanyeol respondeu. — Por quê?
— Eu perguntei se você tinha alguma outra aula hoje — Kyungsoo repetiu.
— Ah, não tenho, não. — E balançou a cabeça para os lados, tanto para acentuar a resposta quanto para ver se conseguia focar na realidade por mais alguns minutos antes de entrar em piloto automático outra vez.
— Vamos indo almoçar, então?
Sem outra escolha, Chanyeol concordou.
Kyungsoo não era de insistir em assunto nenhum, então a maior parte do trajeto foi em silêncio. Chanyeol não sabia exatamente para onde iam, mas pelo visto estavam rumando para um dos McDonalds levemente distantes do seu bloco. Droga. Todo mundo adorava ficar por lá, mas ninguém nunca comentava sobre o quão cansativo era ter que ir até lá.
Pensou se poderia falar com Kyungsoo sobre o que o afligia. Quer dizer, poder, poderia, mas será que se sentiria bem depois daquilo? Kyungsoo também era seu amigo. O problema era Chanyeol achar que, talvez, não valesse tanto a pena falar sobre um problema que ele nem sabia se era real. Negar e ignorar ainda era a solução mais barata para ele.
— Você tem alguma aula ainda hoje? — Chanyeol devolveu a pergunta para Kyungsoo quando estavam quase chegando, só para preencher o vazio.
— Daqui umas duas horas — Kyungsoo respondeu. Breve. Contemplativo.
Suspeito.
Quando chegaram, havia uma rodinha de pessoas conhecidas sentadas na área externa: muitos estudantes de música e meia dúzia de futuros filósofos e matemáticos malucos.
Yixing parecia estar posicionado bem no meio, num enquadramento cinematográfico perfeito, segurando o violão velho que arrastava para cima e para baixo, sorrindo para o que restava da graça de alguma piada que tinha ouvido mais cedo.
Chanyeol olhou para Kyungsoo, mas o rapaz fingiu não perceber. Não era a sua intenção desconfiar de alguma coisa, ou bolar cenários mirabolantes — como já tinha se cansado de fazer —, mas Chanyeol não conseguia ignorar a sensação de que algo tinha clicado dentro da sua cabeça. Por isso, fez questão de se sentar bem ao lado de Yixing, como se o desafiasse. Se alguma música saísse dali…
— Eu vou tocar a que eu terminei de escrever ontem — Yixing, afobado, soltou. Chanyeol encolheu no lugar, como se murchasse, perdendo toda a marra que tinha construído durante um milissegundo, mas mantendo a curiosidade intacta.
Yixing limpou a garganta e deixou a primeira nota flutuar pelo ambiente; todos os estudantes pararam por um segundo para ouvir — alguns até interrompendo o fluxo natural de um almoço universitário cansado.
Por sorte, a tal música que Yixing tinha terminado no dia anterior era algo genérico sobre emoções e caixas de música. Nada familiar ou arriscado; nada que fizesse Chanyeol pensar em coisas.
Foi meio decepcionante.
— Quanto tempo você levou nessa música? — Chanyeol tentou fazer a pergunta soar casual quando, finalmente, interromperam a cantoria para almoçar.
Entretanto, com a sua percepção de tempo nada linear, acabou lhe escapando que, entre a primeira música que ouviu Yixing cantar naquele dia e aquele exato instante, já tinha se passado um bom tempo.
— Qual música? — Yixing retornou, um olhar confuso enfeitando o seu rosto enquanto ele mastigava uma folha de alface.
— Aquela da caixa de música.
— Ah… — Yixing ficou vermelho. Fez uma pausa para engolir a comida antes de responder. — Na verdade eu escrevi a letra em pouco tempo. A melodia que me pegou mesmo… mas ela não é muito elaborada, no geral. Acho que não foi tanto tempo. Você gostou?
— Achei interessante — Chanyeol disse, dando de ombros.
— Qual nota você daria pra ela? — Yixing devolveu, fazendo uma cara contemplativa meio cômica.
— Três estrelas — Chanyeol soltou, no ato, fazendo o número com os dedos. Yixing riu. — Muito abstrata, não entendi nada.
— Ué, é sobre emoções e uma caixinha de música.
— Eu entendi, não sou burro!
— Mas como ela é abstrata, cara? — Yixing pôs uma mão na cintura desajeitadamente.
Chanyeol decidiu não elaborar, deixando a conversa naquele limbo de brincadeiras sem rumo.
— Eu tenho outra música — Yixing anunciou, terminando o almoço e pegando o violão mais uma vez. Chanyeol revirou os olhos; Jongdae tirou o celular do bolso e começou a gravar.
A música começou a tocar, como se tivesse vida própria, e Yixing passou um bom tempo brincando com as cordas do violão antes de cantar o primeiro verso, mas quando começou, foi como se tudo tivesse parado por um instante.
A tal música era sobre parques de diversões, algodão-doce e as estrelas lá em cima; e enquanto cantava as linhas extremamente contextualizadas, Yixing olhava diretamente para Chanyeol.
ALGUNS (VÁRIOS ) DIAS ANTES
Yixing encarava a folha de papel com um olhar extremamente cuidadoso, como se a estivesse desafiando. Cutucava a bochecha com a ponta da lapiseira, botando as ideias para funcionar, mas nada saía.
— Chama ele pra sair — Kyungsoo sugeriu, fazendo uma cara de quem queria ajudar, mas não sabia exatamente como.
— Ah, claro, como eu não pensei nisso antes?… — Yixing foi sarcástico.
— Faz uma serenata pra ele — Baekhyun, aluno de filosofia infiltrado no bloco de música, arriscou um palpite.
— Ótima ideia! — Yixing, não ironicamente, anotou a ideia na folha.
— Ah, qual é! — Kyungsoo reclamou. — Tá considerando a ideia dele? Quantas pessoas o Baekhyun já namorou pra saber alguma coisa sobre isso?
— E quantas pessoas você já namorou? — Jongdae abriu a boca só para pôr lenha na fogueira.
Kyungsoo encolheu os ombros.
— Várias... — mentiu.
— Ok, ok, eu vou anotar a ideia de todo mundo, então — Yixing disse, tentando apaziguar a situação.
— Compra flores pra ele — Jongdae acrescentou.
— Escreve uma música — Baekhyun lançou.
— Hm… — Kyungsoo pensou. — Você pode levar ele pro cinema.
— Isso! Um filme!
— Ou um passeio no parque.
— Compra um presente.
— Faz uma surpresa!
— Faz um vídeo muito específico.
— Escreve uma equação pra ele, ele deve gostar dessas coisas.
— Compra dois colares combinando e diz que é coisa da amizade, vai que…
— Calma! — Yixing ergueu as mãos, atordoado com a quantidade de informação. Fez os três amigos ficarem quietos e, de uma vez só, riscou tudo o que já tinha escrito. — Acho que eu vou pensar nisso sozinho. Mas obrigado pelas ideias.
E foi embora correndo.
Quando chegou ao dormitório de tarde, Chanyeol estava dormindo em cima das anotações dele, debruçado sobre a escrivaninha. Acordou o amigo delicadamente e pediu para que fosse dormir na cama. Chanyeol abriu os olhos com dificuldade e precisou de tempo para compreender a situação, mas no fim das contas, acabou caindo na primeira cama que viu pela frente — a de Yixing — e dormindo instantaneamente.
Yixing o cobriu e, silenciosamente, começou a traçar seus planos para confessar a Chanyeol o fato de que gostava muito, muito, muito dele.
Precisava de um plano porque não era um cara necessariamente muito corajoso. Não queria assustar o amigo, nem afastá-lo, nem se confessar de um jeito que parecesse que ele não ligava — ou que ligava demais. Para Yixing, seria ideal apenas deixar as pistas para trás, de modo que Chanyeol as captasse e fizesse o que quisesse com a informação.
Spoiler: não deu certo.
(...)
As flores tinham ido vergonhosamente mal, já que Chanyeol se recusou a ligar para o número no cartão e nunca mais tocou no assunto, nem nas flores. As coitadas quase morreram de sede, e no outro dia, morreram afogadas. Nenhum dos dois sabia tomar conta de flores, então as rosas murcharam e apodreceram, levando consigo toda a energia que Yixing tinha para tentar expressar seus sentimentos. Tinha até comprado um chip novo para aquele plano!
Talvez precisasse mudar de estratégia… ou de ideia.
— Não sei, não, acho que é melhor deixar isso quieto — Yixing disse para um Jongdae muito concentrado no assunto.
— Acho que vale a pena tentar mais um pouco, mas com coisas menos mirabolantes dessa vez — Jongdae respondeu, arrumando os óculos no rosto. — Você sabe que pode só falar com ele, né? O Chanyeol é um cara super de boa, além de que não é novidade que ele é gay. Não tem razão prática pra você ter medo de falar na cara dele.
Yixing bufou e virou os olhos, mais de frustração do que de incômodo. Jongdae estava certo, infalivelmente certo.
— Eu escrevi uma música — Yixing falou, dando continuidade no assunto, mas numa direção diferente. — Sobre ele. Tava muito confuso, então botei tudo numa letra.
— Canta pra ele. — Jongdae deu de ombros. — Talvez seja uma boa forma de expressar os seus sentimentos.
Yixing concordava nas ideias, mas não nos métodos. Por isso, fingiu que não era com ele enquanto cantava uma música sobre o seu crush, bem na frente do seu crush, usando de referência momentos tão específicos que só alguém muito lento não entenderia o que Yixing quis dizer.
Chanyeol não entendeu o que Yixing quis dizer.
Yixing andou o caminho todo de volta ao dormitório, do lado de Chanyeol, nervoso e apreensivo com o que aconteceria. Ninguém disse nada, e Chanyeol parecia meio perturbado por um pensamento incessante, mas nada tão forte que o fizesse vocalizar as suas dúvidas.
Esse incômodo poderia ser qualquer coisa. Chanyeol poderia nem ter ouvido a música de Yixing, de tão distraído. Talvez — Yixing pensou antes de dormir — a ideia de ter alguma coisa com o seu colega de quarto fosse tão impensável para Chanyeol, que ele nem concebeu a ideia de que o sorriso de que Yixing falava era o dele.
Yixing chorou no banho, mas não foi nada muito grave.
Ai, olha, isso tá muito complicado, foi o que Kyungsoo respondeu no grupo quando Yixing enviou uma mensagem muito longa explicando em detalhes como se sentia.
Não vou ler isso, Baekhyun confessou. Parabéns por vocês dois. Ou foi mal pelo que aconteceu. Boa noite.
Só fala com ele, Jongdae pressionou. Não vai custar nada.
Mas e se custar, hein, Jongdae?! Ninguém pensa no artista que tem medo de dizer que gosta do amigo… Sacanagem, pô!
Foi por isso que, tal como Chanyeol, Yixing decidiu fingir que nada tinha acontecido.
(...)
Yixing estava muito concentrado ignorando suas obrigações enquanto trabalhava no seu problema quando ouviu um ruído suspeito muito perto do seu ouvido.
Era Chanyeol, dois olhos arregalados e a boca cheia de comida, o encarando como se esperasse que alguma mágica acontecesse. Yixing até levou um susto — por um momento, tinha esquecido que o objeto das suas constantes divagações era uma pessoa real, e morava com ele.
— Cara, sai pra lá com esse sanduíche! Cê vai sujar o meu trabalho! — Yixing reclamou.
— Não é um sanduíche — Chanyeol respondeu quase imediatamente, dando um passo para trás, voltando ao normal. — Tá fazendo o quê?
Um segundo de silêncio.
— Nada — Yixing disse, dando de ombros e olhando de relance para a sua mesa. Rapidamente, pôs o braço em cima do bloquinho de notas. — É uma letra de música, mas ela ainda tá meio bagunçada — Yixing emendou, o coração batendo mais do que o normal, com medo de ser pego no pulo pensando em jeitos de dizer para o seu colega de quarto o quão perfeito e beijável ele era.
— Ah — Chanyeol disse, parecendo não perceber a aflição de Yixing, o que era bom. — Ei, eu tava pensando, né…
Sinos soaram na cabeça de Yixing e ele imediatamente pôs os olhos em Chanyeol, como se esperasse por alguma coisa específica
— Tava pensando se a gente poderia sair… — Chanyeol completou a frase, e Yixing precisou prender um sorriso para não parecer desesperado. Ele tinha notado? O plano tinha funcionado? — Tipo, qualquer dia desses.
— Claro! — Yixing quase pulou da cadeira, enérgico e feliz. Sua cabeça já estava longe, planejando os mínimos detalhes de todas as coisas que faria nas próximas vinte e quatro horas a fim de mostrar para Chanyeol que o que sentia era verdadeiro. — Onde você quer ir? Quando? De dia ou de noite? Você prefere cinema ou parque?
Silêncio sepulcral. Yixing começou a questionar se eles estavam pensando na mesma coisa.
— O que você preferir — Chanyeol disse, esquivo. — Quer dizer, eu só queria dar uma saída mesmo, pra espairecer… — acrescentou, indo numa direção completamente diferente daquilo que Yixing, visivelmente confuso, esperava. — Tipo, sabe, andar um pouco, e como você tá sempre por aqui… achei que seria uma boa te chamar.
Yixing, então, trocou a cara de garoto perdido por uma risada de quem tinha sacado que tudo não tinha passado de um mal-entendido, tentando não transparecer a sua decepção.
— Eu tô sempre por aqui porque eu moro aqui — Yixing respondeu, internamente desejando que aquilo nunca tivesse acontecido, sem querer efetivamente fazer algo a respeito. — Mas ok, vamos sair qualquer dia, qualquer hora…
— É — Chanyeol concordou, dando de ombros levemente, se movendo como se estivesse com alguma coisa pinicando as suas ideias, de um jeito tão característico que Yixing conseguiria notar de longe.
Sejamos sinceros, Chanyeol era uma pessoa única.
Ele tinha, no geral, uma aparência comum, mesmo que a sua altura assustasse um pouco. Era meio tímido com gente estranha, meio estabanado com copos de suco muito cheios, e também tinha mania de ouvir a discografia inteira da Mariah Carey sempre que algo muito bom acontecia — ou simplesmente quando queria se sentir como um adolescente outra vez. Era gentil, compreensivo e bonito. E muito inteligente.
Parando pra pensar, é bem óbvio: Chanyeol era uma pessoa única e Yixing estava caidinho por ele, quase como se esses dois eventos estivessem interligados, conectados. Chanyeol existe e, por consequência inevitável do destino, Yixing acha isso a melhor coisa do mundo.
Talvez as coisas pudessem só permanecer desse jeito. Talvez Yixing não precisasse arriscar, talvez não valesse a pena perturbar a paz de uma relação que já é incrível. Mas isso seria justo?
Yixing não queria ter problemas, dilemas, pensamentos de tirar o sono, mas também não queria ser injusto. E, sendo o mais justo dos justos, Chanyeol era alguém por quem Yixing faria qualquer coisa.
Uma ou outra música a mais não doeria.
— Pode ser agora?
— Oi?
— Agora — Yixing tentou explicar, mas não tinha como ser mais direto. Fez um gesto vago com as mãos e Chanyeol quase engasgou.
— Beleza, então.
TEMPO ATUAL
— Eu desisto — Yixing disse, dramaticamente atirando seus cadernos sobre a mesa da biblioteca.
— Shhh! — fez a bibliotecária, do outro lado da sala.
— Silêncio, cara — Baekhyun pediu. — Vão chutar a gente daqui se você fizer muito barulho.
— Deviam chutar você daqui — Yixing retrucou.
— Tá desistindo do quê? — Jongdae perguntou. — Se for do curso, eu também já pensei nisso.
— Tô desistindo do Chanyeol — Yixing respondeu, sentando e imediatamente abaixando a cabeça.
— Mas você já pelo menos tentou alguma coisa? — Jongdae disse.
— Cara, você esqueceu das músicas que ele escreveu?! — Baekhyun falou. — E das flores!
— Isso não conta — Jongdae dispensou a fala de Baekhyun com um gesto vago. — Yixing, você sabe que eu apoio tudo o que você fizer, mas honestamente não sei se dá pra você desistir de algo que você nem tentou ainda.
Yixing ergueu a cabeça, os olhos vermelhos depois de uma noite mal dormida.
— Quando a gente foi pro parque de diversões... — Yixing divagou, preso às memórias, com um sorrisinho flutuando no rosto. — Foi incrível. Mas depois tudo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido, sabe? É como se ele estivesse tão perto, mas tão, tão, tão longe… — Fechou os olhos. — Acho que isso não vai dar certo. Essas músicas não vão levar a nada e eu sou muito medroso pra ser mais direto.
— Quer que eu fale com ele? — Baekhyun perguntou. — Eu posso fazer ele pensar mais nas letras, talvez alguma coisa clique. Tipo, se eu soltar uma frase de efeito… aí, sei lá, conectar com a situação. Entende o que eu tô dizendo?
— Sendo bem sincero, não — Yixing disse. — Deixa isso pra lá, não precisa fazer nada. Eu posso lidar com isso.
— Aham — Jongdae debochou, mas logo em seguida uma lâmpada se acendeu acima da sua cabeça. — Ei, Yixing, você chegou a citar a Mariah Carey nas suas músicas?
— Ô se eu citei — Yixing respondeu com uma risada cansada. — A penúltima que eu cantei, sobre emoções e caixas de música: literalmente os álbuns favoritos dele da Mariah. Emotions e Music Box.
— Talvez ele não tenha reparado.
— Jongdae, só o que ele fala são esses álbuns. Não tem como ele não ter reparado.
— O Jongdae tem um ponto — Baekhyun interferiu. — Eu acho que se ele tivesse percebido, ele teria relacionado. Tipo, eu não falo muito com ele, mas pelo pouco que a gente já conversou, eu sei que ele é, tipo, obcecado pela discografia da Mariah Carey.
— Talvez ele tenha raciocinado que as músicas referenciam os momentos de vocês, mas não tenha clicado ainda que… bem… é uma declaração — Jongdae concluiu.
Yixing achou a ideia ridícula.
— Por que eu ia fazer uma música que dê tantas pistas, mas que não signifique necessariamente que eu quero beijar ele?
— Por que você não simplesmente fala com ele?
— Jongdae, eu já pedi pra você parar com isso!
— “Isso” o que, raciocínio lógico?
— Faz uma última música — Baekhyun, então, disse, com uma voz importante. Pôs a mão sobre a mão de Yixing, como uma senhorinha sábia dando um conselho valioso para a personagem principal de um filme. — Uma que fale exatamente sobre isso. Uma muito óbvia. Depois, age como se ele tivesse percebido mesmo se ele não tiver percebido, mas de um jeito meio sutil. Deve resolver.
— Isso foi muito específico e levemente esquisito — Yixing comentou, tirando a mão de baixo da mão de Baekhyun com rapidez. — Vou fazer isso, mas sem a última parte.
(...)
Chanyeol tinha voluntariamente decidido não ir às aulas naquela segunda-feira.
Acordou, mas não saiu da cama, e ouviu Yixing se aprontando e perguntando se ele não ia também. Chanyeol simplesmente disse hoje não e voltou a dormir, mas o sono não durou muito.
Depois, passou a encarar o teto, contemplando a eventual consequência das suas ações impensadas.
Tapou o rosto com as mãos imediatamente, antes mesmo de conjurar o pensamento que o faria ficar com vergonha. Tentou pensar em outra coisa, mas não deu certo. Teve um mini surto meio feliz, meio preocupado, como se aceitasse um fato triste com tranquilidade. Spoiler: o fato em questão não era triste nem Chanyeol estava tranquilo.
Caramba, ele achava Yixing meio bonitinho! Quer dizer…
Matematicamente falando, claro , olhando para as estatísticas, e segundo a derivada do grau de variação das opiniões dentro da hipotenusa do quadrado hiperbólico imaginário… Yixing era um grande gostoso. Que alma viva tinha coragem de negar? Chanyeol não seria capaz, mas admitir o fato o fazia querer rir de nervoso.
Porque Yixing era tão lindo que Chanyeol até perdia os sentidos. E não apenas externamente, Yixing era lindo no geral — em média. De acordo com todos os dados que Chanyeol tinha recolhido durante árduos meses encarando Yixing no olho, pensando… meu colega de quarto tem características interessantes…
Chanyeol era tão ruim em aceitar seus sentimentos. Façamos uma pausa; tome um café, leitor, isso aqui vai demorar.
(...)
Chanyeol poderia dizer que tinha chegado a uma conclusão.
A conclusão em questão era a de que ele odiava existir, e por isso chorou durante 10 minutos enquanto assistia um episódio aleatório de Modern Family. Não sabia exatamente por quê.
Algumas horas depois do almoço, deitou de novo na sua cama e pensou consigo mesmo: as músicas, obviamente inspiradas em momentos que Yixing compartilhou com Chanyeol — logicamente falando —, significavam alguma coisa? Como “Yixing dizendo que gosta de Chanyeol indiretamente”?
Era óbvio que sim, mas Chanyeol ainda não queria correr o risco. Além do mais, se realmente fosse aquilo, o que tinha que fazer? Perguntar para Yixing se ele gostava dele? Confessar os próprios sentimentos? Isso não faz sentido!
Se aquela era uma forma de Yixing demonstrar que gostava dele, era uma péssima ideia. Se o escritor de músicas românticas gosta tanto assim de Chanyeol, ele que venha falar isso na cara dele! É, é isso aí!
Chanyeol não aguentou a curiosidade, procurou por entre os papéis que deixava espalhados dentro da gaveta e encontrou o bilhete que — havia tanto tempo que até foi esquecido —, tinha vindo junto com as flores que ganhara de um admirador secreto. Aquele número tinha que desembocar no celular de Yixing, de um jeito ou de outro.
Discou o número atentamente, pôs o telefone na orelha e rezou. Tocou, tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Chanyeol bufou.
Não tinha nada que pudesse fazer naquele momento; apesar de não ter feito muito, sentia como se já tivesse feito tudo o que poderia. Talvez devesse focar mais em esquecer o problema de uma vez por todas, mas já tinha tentado configurar a sua cabeça para executar aquela ação, só que falhou.
Então, muito que dramaticamente, Chanyeol se preparou para fazer o contrário: iria assumir seus sentimentos.
Levantou da cama e tomou para si uma pose corajosa, olhando para frente como se avistasse um futuro grandioso — mas tudo o que via era a porta e não estava muito afim de sair naquela hora. Como um covarde, voltou para debaixo das cobertas num piscar de olhos. Ficou lá até se conciliar com a própria indecisão.
Precisava se arriscar de vez em quando. Sim, gostava de Yixing de um jeito muito cafona, mas precisava dar um desconto a si mesmo. Chanyeol não merece todo esse ódio, Chanyeol pensou, assim mesmo, na terceira pessoa. É, é, o Chanyeol pode sentir coisas! Mesmo que sejam coisas românticas pelo colega de quarto… Acontece.
(...)
Portanto, assim que Yixing voltou das aulas, a primeira coisa que Chanyeol fez foi tomar uma atitude. Levantou da cama, apontou um dedo acusador para o rosto do seu colega de quarto e, meio atrapalhadamente, proferiu as palavras:
— Eu sei o que você tá fazendo.
Yixing, pego de surpresa, deu um passo para trás e tirou os fones de ouvido, confuso. Chanyeol, então, perdendo a coragem, deu uma risada pra disfarçar. Voltou a sentar na sua cama.
— Você me deu um susto — Yixing disse, pondo uma mão em cima do coração. — Você disse alguma coisa? Eu não ouvi nada.
— Não, não, não falei nada, não — Chanyeol respondeu. Pôs, então, um dedo na boca para roer a unha.
— Eu fiz uma música — Yixing anunciou, tirando o violão da capa, e Chanyeol pensou que fosse morrer.
— Outra música?! — Chanyeol indagou, incrédulo com o fato de um estudante de música fazer músicas. Já estava farto daquela mania de Yixing de pôr melodia em tudo. Estava ficando louco! Louco!
— Sim, é isso o que eu faço, Chanyeol. — Yixing sorriu. — Quer ouvir?
— Não — Chanyeol falou, pondo o cobertor sobre a cabeça, mas mudando de ideia logo em seguida. Não poderia fugir, poderia? Além do mais, estava um pouco curioso. — Toca aí essa geringonça.
Yixing riu, então sentou na sua cama desarrumada e olhou para algum lugar no teto, quase como se rezando para não errar um acorde ou esquecer uma palavra da letra. Parecia nervoso, quase tanto quanto Chanyeol.
— Escuta, eu tô falando com você — a música, rápida e energética, começou num segundo. — Você só finge que não vê ou realmente não chegou a perceber? Escuta, eu tô te dizendo, eu tô te encarando, mas você não vê.
Yixing estava determinado: se não fosse ali, não seria nunca. Numa grande pausa entre o verso e o pré-refrão, olhou Chanyeol nos olhos, mas ele desviou o olhar imediatamente.
Talvez Chanyeol realmente soubesse, mas quisesse ignorar porque, bem, não tinha interesse. Se esse fosse o caso, Yixing precisaria dizer algumas outras coisas que não tinha incluído naquela letra quando a escreveu em uma hora numa aula vaga, com um recorte de melodia velho que achava que tivesse perdido.
Pôs a cabeça pra funcionar, deu meia-volta e iniciou outro verso — a transição foi horrível, mas Chanyeol não entendia nada de música, então achou que aquilo fosse normal.
— Mas escuta, se isso for demais ou se você não for capaz de me retribuir, não se aborrece; eu não ligo, eu não mordo, mas é difícil não saber se você… — E já que estava ali, improvisando, fez uma gracinha: — Me quer, ou não… me quer, ou não… me quer… ou não, ou não, ou não…
— Eu entendi, não precisa continuar — Chanyeol confessou, no meio da música, fazendo Yixing congelar.
Ninguém disse mais nada por alguns segundos. O silêncio era tão grande que Yixing precisou fazer o dobro do esforço para produzir algum som:
— Desculpa…? — pediu, hesitante. — Q-Quer dizer, você… sei lá, talvez eu tenha cruzado a linha? — Yixing tentou fazer sentido, mas não sabia como a situação estava. Estavam bem? Mal? Tinha ganhado um namorado ou perdido um amigo?
— Espera…! — Chanyeol exclamou, fazendo um gesto de pare com as mãos, como se só então é que tivesse clicado. — Você realmente tava fazendo as músicas sobre mim?
Yixing piscou antes de responder:
— Não tava óbvio?
Chanyeol precisava de um tempo a sós com a sua própria falta de autoconfiança. Por isso que, naturalmente , saiu correndo do dormitório.
(...)
Yixing fechou os olhos e respirou fundo. Que situação…
Pôs o violão de lado porque não tinha mais música para tocar, então pegou o celular e ligou para Jongdae imediatamente a fim de reportar o seu fracasso. O amigo merecia ser o primeiro a saber.
— Alô — atendeu uma voz que não era a de Jongdae.
— Baekhyun? Tá fazendo o que com o celular do Jongdae?
— A gente tá jogando banco imobiliário e eu sou o banco, os jogadores não podem se distrair. Tá precisando de alguma coisa urgente? — E no instante em que Yixing ia abrir a boca para se explicar, ouviu um barulho de estática altíssimo que interrompeu até os seus pensamentos mais inconscientes. — Devolve isso! Oi, Yixing, eu tô aqui. Ligou por quê?
— Tá podendo falar, cara? — Yixing perguntou, meio acanhado.
— Tô sim — Jongdae respondeu, parecendo menos irritado do que antes. Yixing ainda ouvia risadas no fundo.
— Só queria dizer que deu tudo errado mesmo. Eu cantei a última música e o Chanyeol saiu correndo. — Yixing riu da própria desgraça, tentando disfarçar a decepção que se aproximava depois que o choque passou. — Acho que eu vou chorar…
— Cara, que barra… sinto muito mesmo. Mas assim… — e Jongdae parou de falar, subitamente interrompido por alguma coisa que Yixing não podia ver nem ouvir.
— Tá tudo bem? — Yixing perguntou.
Do outro lado da linha, Jongdae passava o telefone para Baekhyun e corria para onde Kyungsoo estava, segurando a maçaneta da porta aberta e olhando diretamente para Chanyeol, ofegante e confuso.
— Vocês sabiam? — Chanyeol perguntava, mas Kyungsoo não conseguia fazer nada que não fosse olhar para os lados nervosamente.
— A gente sabia — Jongdae respondeu, aproximando-se, preparadíssimo para fazer um controle de crise efetivo. — Mas não fica chateado, é que…
— Então por que não me falaram? — Chanyeol interrompeu, frustrado.
— Desculpa, Chanyeol, mas isso era uma coisa que só o Yixing poderia fazer — Jongdae explicou. — Vem, entra. O que foi? Você quer conversar?
Enquanto Jongdae tentava acalmar o visitante inesperado, Kyungsoo não fazia nada, Sehun afastava o tabuleiro do jogo para criar espaço na cama e Baekhyun se escondia no canto do quarto, agachado, se apoiando no armário com uma mão e segurando o celular de Jongdae com a outra, tentando distrair Yixing. Não sabia por que estava se escondendo, mas Jongdae tinha dito para ele tomar conta da situação, e esse era o único jeito que ele conhecia de fazer algo assim.
— O Chanyeol tá aí? — Yixing perguntou, do outro lado da linha, pensando que raios estava acontecendo. — Ele tá bem?
— Não — Baekhyun respondeu imediatamente. Yixing se levantou, mas depois sentou outra vez. — Quer dizer, não sei. Espera um pouco, só um segundinho.
Mais barulho de estática, e Yixing simplesmente desistiu. Desligou a ligação e rezou para que tudo estivesse bem e para que ele não tivesse, sei lá, traumatizado Chanyeol. Dois minutos depois, o celular tocou. Yixing ergueu uma sobrancelha, mas atendeu mesmo assim.
Enquanto isso, Jongdae sugeria que Chanyeol fosse ao banheiro do quarto de Kyungsoo e Baekhyun para jogar uma água no rosto e se acalmar. Chanyeol, meio confuso porque não tinha nem chorado, resolveu acatar a sugestão silenciosamente. A água, pelo menos, ia ajudá-lo a esfriar o rosto, quente da vergonha que estava sentindo.
Jongdae fechou a porta assim que Chanyeol pisou no banheiro, talvez para dar ao rapaz uma maior privacidade.
Chanyeol suspirou, então encarou seu reflexo no espelho. É, talvez precisasse de alguma privacidade para contemplar a sua burrice em paz. Como ia fazer para explicar para Yixing que, apesar de ter corrido dele como um covarde, na verdade correspondia aos seus sentimentos?
Chanyeol balançou a cabeça, tentando espantar a humilhação daquela perspectiva. Enxaguou o rosto, secou, pensou num jeito educado de ir embora sem parecer que tinha surtado e pôs a mão na maçaneta para abrir a porta.
Jongdae estava empurrando a porta, do outro lado, e Chanyeol precisou exercer o dobro de força só pra abrir uma frestinha.
— Calma, calma! Já tô saindo! — Jongdae disse, fazendo Chanyeol esperar mais alguns segundos antes de ser libertado.
Quando finalmente conseguiu sair do banheiro, Yixing estava parado bem na sua frente, e a silhueta de Jongdae saía correndo para fora como se achasse que era invisível.
Ficaram parados, em silêncio (e foi constrangedor), mas no fim das contas, eles riram da situação.
— Desculpa ter te assustado com as músicas — Yixing pediu.
— Você não me assustou — Chanyeol deu de ombros, depois sorriu. — Na verdade, eu só não achei que fosse ser real. Achei que fosse coisa da minha cabeça, mesmo que fosse meio óbvio.
— Meio óbvio?
— Eu não sei como funciona a cabeça de um músico, ok? Vai que essa fosse a sua forma de se inspirar?
— Você confiou demais numa heterossexualidade que eu nem tinha. — Yixing riu, e Chanyeol escondeu o rosto atrás das mãos.
— É que se fosse piração minha, ia ser pior pra mim.
— Pior por quê?
— Porque eu ia falar com você e ser rejeitado de um jeito patético — Chanyeol confessou, tirando as mãos do rosto e internamente pensando de onde é que veio essa vontade de chorar? Ela estava aí o tempo todo? Mas, sem tempo para remoer uma dor imaginária, engoliu o nó da garganta e disse: — Você podia só ter dito diretamente, né? Ou, sei lá, colocado meu nome na música… ou uma referência à Mariah Carey, eu sempre pesco todas.
— Espera aí, esse tempo todo você sentia a mesma coisa por mim? Mas não disse nada?
— Não foi bem assim…
— E eu coloquei referências à Mariah Carey, sim !
— Quando você fez isso?!
— A música sobre emoções e caixas de música, lembra? Que você debochou de mim?
— Hã? — Chanyeol entortou a cabeça, confuso. Dois segundos depois, ele entendeu, e seus olhos aumentaram de tamanho ao mesmo tempo em que ele dizia: — Meu… Deus! Emotions e Music Box! São meus dois álbuns favoritos!
— Viu? Eu fiz a lição de casa direitinho.
Chanyeol deu uma última risadinha boba, então pausou e arregalou os olhos outra vez ao reparar num detalhe importante. Apreensivo por antecipação, disse:
— E agora? O que acontece?
— O que você quiser. — Yixing deu de ombros. — Não tem nada que a gente deva fazer, especificamente.
— É que eu não sou muito bom nessas coisas… quer dizer, eu nunca... — E Chanyeol fez um gesto vago, depois recolheu a mão e tentou articular uma frase sem morrer de vergonha. — Sabe? Namorei. Nem nada do tipo. Na vida.
Yixing sorriu, compreendendo a situação.
— Não tem problema, a gente descobre o que fazer no meio do caminho. Enquanto isso, quer assistir um show da Mariah comigo hoje?
— Você tá mesmo empenhado em me pegar, eu hein.
Yixing não conseguiu prender a gargalhada.
(Iria fazer outra música sobre isso mais tarde.)
