Work Text:
São Paulo é uma cidade contraditória. Tanta gente e ao mesmo tempo tão vazia. Martín não era alheio a essa realidade particular das metrópoles, inclusive até estava acostumado - Buenos Aires, onde nascera, não era exatamente uma vila - mas ser estrangeiro em qualquer lugar já é solitário por si só.
Na selva de pedra, então.
Há três meses atrás, quando aceitou a vaga na firma de arquitetura em outro país, sem conhecer ninguém mas empolgado com a perspectiva de começar uma vida naquela cidade gigante, Martín ainda estava confiante de que ia levar tudo na tranquilidade.
Mas a cidade, o ritmo acelerado, os prédios rasgando as nuvens, as escadas infinitas dos metrôs, o foram engolindo. E Martín passou a fazer as coisas mais no modo automático do que com a empolgação inicial.
Acordava. Saía de casa e passava na padaria que ficava no andar térreo do prédio pra tomar uma xícara de café. Subia a rua até a estação de metrô e mergulhava no ar abafado do subsolo. Fazia as baldeações sem pensar muito, chegava no escritório e se matava de trabalhar até dar seu horário. E então fazia o caminho de volta, passava na padaria para pegar uma marmita pro jantar, voltava pra casa, fervia água para seu mate e dava seu dia por terminado.
Dia após dia, sem muita variação, salvo algumas brigas de frequentadores fiéis da padaria que se desentendiam depois de algumas garrafas de cerveja pelo fim da semana que Martín conseguia ver da sua sacada.
Até que o prédio do lado vagou apartamento.
O apartamento logo em frente ao de Martín, mesma altura de janela. Primeiro os jornais colados, por dentro, ao vidro sumiram, e o rapaz conseguiu ver uma mulher jogando água no chão e nos vidros da janela, limpando tudo. Quando Martín desceu na padaria para pegar seu café rotineiro, o senhor do balcão lhe contou que o apartamento tinha sido alugado para um jovem sozinho, vindo do interior. “Coitado”, disse o senhor, o riso fazendo os fios do bigode balançarem, “vai penar na capital”.
Penar, pensou Martín, rindo junto. E quem é que não pena nessa cidade? Quando terminou o café e passou pela frente do prédio vizinho no caminho para o metrô conseguiu ouvir uma movimentação nas escadas.
Só voltou a lembrar do acontecimento ao fim do dia, quando estava voltando e parou na padaria para pegar a marmita de sempre.
— Por pouco você não tromba o recém-chegado, ô, hermano — o moleque que montava as marmitas gritou para Martín por cima do fuzuê das pessoas no bar aproveitando o começo da noite — passou aqui pra deixar comida encomendada pro mês, também.
— Ninguém cozinha mais hoje em dia, vergonha — resmungou uma senhora, a voz rouca indicando anos de fumo, as suspeitas confirmadas pelo maço de cigarro jogado à sua frente, no balcão. O rapaz das marmitas deu de ombros.
— Sorte a nossa — ele debochou, entregando uma sacola para Martín.
— É o tempo — Martín respondeu a senhora, segurando um sorriso convencido ao notar o olhar carrancudo da velha mudar completamente ao ouvir seu sotaque — ninguém tem mais tempo para cozinhar, hoje em dia. Bem que eu gostaria.
— Não tem mulher em casa te esperando pra cozinhar pra você, não? — a velha perguntou, olhando Martín de cima a baixo. Ele riu, se divertindo com a atenção.
— Não tenho — exagerou uma expressão triste, ao que a velha fez um muxoxo de solidariedade.
— Nem homem? Porque hoje em dia, né… Um moço tão bonito, vê só… — olhou indignada para o rapaz das marmitas.
Estalando a língua, o moleque bateu a máquina de marmitex, irritado.
— Se a senhora quiser adotar o argentino avisa logo, senão deixa ele zarpar que tem mais gente pra atender.
Martín gargalhou, tamborilando no balcão e lançou uma piscadela charmosa para a velha. Saiu da padaria acenando para os rostos familiares dos frequentadores do local e subiu as escadas que davam acesso ao seu prédio, olhando rapidamente para o prédio do lado, dessa vez sem ouvir nenhuma movimentação.
Entrou em casa soltando um suspiro cansado habitual, e largou as coisas no chão perto da porta, fazendo uma anotação mental para recolher tudo depois. Colocou a comida em cima da pia e de pronto preparou a chaleira no fogão.
Ia se dirigindo em direção ao banheiro quando parou no lugar, virando-se na direção da janela da sala ao escutar uma movimentação. Estranhou, estava muito cedo ainda pra que os bêbados na padaria se desentendessem. Desabotoou a camisa social até o meio do peito e abriu a janela, uma expressão curiosa no rosto.
O som da música tipicamente oitentista invadiu o cômodo, vindo diretamente do prédio à frente. Martín franziu as sobrancelhas, se lembrando só naquele momento do novo morador do apartamento. Se apoiou no batente da janela, aproveitando a brisa leve que naturalmente se formava, mesmo não estando tão alto assim, e também a música. Na janela à frente, quase como numa tela de televisão, Martín conseguiu enxergar por entre as folhagens na sacada o interior da sala, ainda desorganizada da mudança. Apertou os olhos, inconscientemente, tentando forçar a vista para enxergar melhor à distância, conseguindo distinguir apenas uma lata de cerveja apoiada sobre uma caixa que fazia as vezes de mesinha de centro, no meio do cômodo.
Enquanto Martín observava curioso a cena, um rapaz jovem, apenas de short, saiu do corredor em direção à sala. Ele parou virado de costas para Martín, que ficou encarando como quem assistia a um filme as suas costas fortes, os músculos sob a pele escura se contraindo enquanto ele discutia alto no telefone e gesticulava energicamente. Falava tão alto que sua voz invadia o apartamento de Martín, assim como a música.
Martín só se deu conta que estava encarando quando o rapaz fez menção de se virar e o argentino quase tropeçou ao se afastar da janela, como que saído de um estupor, e fingiu que estava agindo normalmente e não como uma velha fofoqueira. Já encostado no fogão - a chaleira já estava gritando - Martín se inclinou ligeiramente, disfarçando, só o suficiente para ver o rapaz puxar as cortinas num solavanco, abafando o som e encerrando a transmissão da “cena”.
/
Ele escutava muita música dos anos 80, Martín percebeu. Brasileira, estrangeira. Às vezes tocava umas músicas mais novas ou mais antigas, e em momentos específicos - geralmente no domingo - um samba, que ele fazia questão de cantar junto. Mas geralmente era rock dos anos 80, os sintetizadores e as guitarras inabaláveis, não importava o dia.
Numa sexta-feira particularmente exaustiva, Martín se encostou na janela ao chegar do trabalho, equilibrando um cinzeiro no parapeito. Acendeu um cigarro, largou o maço no rack da tv e ficou olhando a rua. E, ocasionalmente, esticando o olho até a janela aberta à frente.
O vizinho, além de sempre escutar música oitentista, sempre deixava a janela aberta. Talvez por causa das plantas. A sala de estar era cheia delas.
Martín pendeu o corpo um pouco para a frente, olhando o topo da cabeça das pessoas que passavam pela calçada do prédio, os casais, os grupos, os lobos solitários. Tragou fundo, sentindo a fumaça na garganta e ergueu levemente o corpo, se deparando com os olhos atentos do rapaz do apartamento à frente o encarando. Ele sorriu levemente num cumprimento silencioso, sem mostrar os dentes, e terminou de sacudir a toalha de cozinha em suas mãos antes de dar meia volta e sumir da vista de Martín, antes que o argentino pudesse responder o cumprimento.
Martín se empertigou sem perceber, coçando o peito nu meio desconcertado, e pendeu a cabeça tentando avistar o vizinho novamente. Ele ia pensar que era um antipático. Sem sucesso, Martín resmungou baixinho antes de tragar o cigarro até o fim, largar a bituca no cinzeiro e se esticar até o rack para pegar mais um no maço.
Quase deixou o cinzeiro cair janela abaixo ao voltar a se encostar no parapeito e quase poder jurar que o vizinho só se colocou a varrer o chão porque Martín agora estava olhando para ele.
/
— Você não acha que você deveria, sei lá, começar a sair? — a voz de seu irmão ressoava no celular encostado na orelha de Martín, largado no sofá da sala — Toda vez que eu te ligo você conta as mesmas coisas, a sua rotina não muda. Você vai ficar doido assim.
— Rotinas geralmente não mudam, Sebas, é meio que a característica definitiva do conceito — Martín resmungou, olhando o teto. Alcançou a cuia de mate que estava no chão, levando a bomba aos lábios, sorvendo com calma — e eu estou bem.
Martín se pôs de pé, ainda com a bomba de mate nos lábios, e começou a andar pelo apartamento num movimento automático, forçando-se a se concentrar nas preocupações do irmão mais novo com seus hábitos reclusos. Olhou por cima do ombro ao escutar os acordes a esse ponto já conhecidos de um rock brasileiro.
— Ele ainda vai ganhar uma multa, o som nessa altura e ainda é quarta — Martín murmurou, sorrindo consigo mesmo.
— Como? — Sebastián parou o turbilhão de palavras que vinha falando, confuso.
— O vizinho. Não te contei? O vizinho do prédio ao lado, contei sim — Martín caminhou com cuidado até a sala, perto da parede do corredor para não dar na cara.
— O seu reality show particular? — Sebastián riu — contou.
— É — Martín riu de volta — fazia tempo que ele não colocava música, eu estava até estranhando.
Martín parou no meio da sala, meio de lado para a janela, mas olhando diretamente para a sala do vizinho, sem sinal dele.
— Vai ver ele realmente levou uma multa — Sebastián comentou, brincando. Martín abriu a boca pra responder, se interrompendo ao ver o rapaz no apartamento à frente irromper como um raio na sala, também ao telefone, aparentemente esbravejando com a pessoa no outro extremo da linha.
Ele parou com uma mão no quadril, as grossas sobrancelhas pretas franzidas, quase uma linha única na testa, e continuou esbravejando. Sebastián continuava falando qualquer coisa na orelha de Martín, embora ele não estivesse mais prestando atenção.
O vizinho notou Martín o observando e ergueu o braço livre num gesto exasperado. Imitou uma boca com a mão e fez uma careta, rindo logo depois, mostrando os dentes brancos e esticando os lábios cheios. Martín assentiu fracamente, sorrindo.
O rapaz saiu marchando do campo de visão de Martín, que piscou um pouco perdido antes de voltar a realmente escutar a voz do irmão chamando sua atenção pelo telefone.
— Martín, você me escutou? O Daniel quer saber quando ele pode ir aí ficar na sua casa, ele sempre quis visitar São Paulo.
— E a minha casa por acaso é hotel, pro Daniel vir passar temporada aqui? — Martín ralhou, embora sorrisse. Começou a andar pela casa de novo, sorvendo alto na bomba do mate — Por que, quando ele planeja vir?
/
Ainda não tinha conseguido decifrar o que o vizinho fazia da vida, o rapaz parecia não ter rotina. Enquanto Martín saía todos os dias no mesmo horário e voltava no mesmo horário, o vizinho vez saía de casa antes dele, vez Martín estava pronto e a janela do rapaz nem aberta tinha sido ainda. Alguns dias quando Martín chegava, o apartamento da frente estava todo aceso, em outros dias só ouvia a porta batendo e o assovio do rapaz tarde da noite, quase madrugada.
Nem mesmo na padaria o pessoal sabia, quando Martín perguntou - “uma curiosidade só, nada importante”, ele havia dito quando o moleque das marmitas sorriu malicioso ao ouvir o questionamento. Ele nunca pegava a comida no mesmo horário, só passava lá quando queria.
Não tinha rotina, mas tinha alguns hábitos.
Quartas e domingos assistia ao futebol, às vezes sentado na frente da televisão, às vezes da cozinha, mas com o volume da tv alto o suficiente para que Martín escutasse a transmissão, assim como os ocasionais palavrões que ele soltava. Flamenguista, pelo que Martín conseguiu adivinhar do que ouvia. De sexta a domingo não chegava em casa antes das duas da manhã.
— Bem que o seu irmão comentou que você está precisando sair mais, como que você sabe disso tudo?
O rapaz na chamada de vídeo encarava Martín com uma expressão de julgamento no rosto, da tela do computador. Martín xingou, rindo, e colocou uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha, dando de ombros.
— Não é nada demais, Manuel, não é como se eu fosse um stalker doido. É só que ele é barulhento, deixa a janela aberta sempre e mora bem de frente pro meu apartamento — Martín explicou, meio sem graça — Como uma tv, sabe, que a gente deixa ligada para som ambiente? Alguma coisa a gente acaba absorvendo.
Manuel apertou os olhos um momento, mas deu de ombros, resmungando qualquer coisa antes de sorrir timidamente para Martín. O argentino colocou o notebook na mesinha de centro da sala e se jogou no sofá.
— Eu não acho que você seja um stalker doido, só acho que você está sem o que fazer. Você não está trabalhando? — Manuel provocou, erguendo uma sobrancelha. Martín lhe lançou um olhar convencido, puxando uma mesa de desenho montada no canto da sala, a posicionando de forma que Manuel conseguisse ver o desenho no papel preso pelas presilhas da prancheta.
— É só o que eu tenho feito — Martín empurrou um pouco a mesinha de centro da sala para enquadrar melhor o desenho na chamada de vidro. Uma fachada de um prédio com elementos neoclássicos feito em grafite, as linhas de finas e limpas saltando em meio aos rascunhos de perspectiva — o escritório é mais voltado para projetos de interior de casa, apartamento, esse tipo de coisa. Mas no meu tempo livre eu consigo praticar, criar uma coisinha…
Um assobio impressionado fez o argentino erguer os olhos do desenho, confuso, e interromper sua explicação de sua ideia. O rapaz do prédio da frente se apoiava com quase metade do corpo para fora da sua janela, apertando os olhos para enxergar o desenho que Martín segurava à frente do computador, e à frente da janela também, sem perceber.
— Foi você que fez isso aí? — o rapaz colocou as mãos em volta da boca, fazendo a voz grossa, agora numa cadência meio mole - meio bêbada, Martín notou - chegar até dentro da sala de Martín. O argentino lançou um olhar rápido para Manuel, na chamada de vídeo, antes de assentir energicamente para que o vizinho pudesse entender.
— Muito bonito — o vizinho ergueu o polegar para ele, sorrindo abertamente, os olhos quase sumindo em dois risquinhos. Martín nunca tinha visto alguém sorrir tão grande daquele jeito — muito bonito mesmo.
Martín abriu a boca para responder, e o rapaz se inclinou um pouco mais pra frente numa tentativa de conseguir escutar com mais clareza.
— Luciano, seu doido! Vai voar janela abaixo — um outro rapaz puxou o vizinho - Luciano, Martín pensou consigo - para dentro da janela, ralhando em voz alta tão arrastada quando a de Luciano, os olhos arregalados — vem, vem pro quarto logo.
Luciano riu, leve, dando um selinho no rapaz e o empurrou para fora do campo de visão proporcionado pelo batente da janela. Ele se virou para encarar Martín de novo, sorrindo como antes.
— Não entendi nada do que você explicou agora há pouco na sua língua enrolada aí — Luciano deu de ombros, a expressão no rosto meio que um pedido de desculpas — mas o desenho ficou muito bonito, mesmo.
E fechou as cortinas, gritando pelo rapaz que estava em sua companhia.
Martín piscou, voltando o olhar para Manuel, que começou a rir de sua expressão perdida.
— O personagem do seu reality da vida real interagiu com você? — o amigo ria — Isso não é meio contra as regras?
Martín riu junto, dando de ombros.
— É, acho que é.
/
O cheiro do almoço sendo preparado se espalhava pelo apartamento de Martín o fazendo sorrir, orgulhoso. O rapaz se movia rápida e precisamente pela cozinha, cozinhando por intuição mas muito seguro do que fazia, com anos de prática. Se abaixou e apertou o botão que ligava a luz do forno, cantarolando positivamente ao ver as bolhas no queijo gratinado.
Tirou a milanesa do forno e a soltou com cuidado sobre o fogão, mordendo o lábio pensativo. Sabia o que faltava para dar o toque final.
Jogou o pano de prato sobre o ombro nu, e foi assobiando até sua pequena horta, na varanda. Pequena mas completa, todos os temperos de sua infância ao alcance da mão. Um presente de sua mãe quando se mudou de Buenos Aires pra São Paulo.
— Sabe que eu tento manter uma dessa aqui na cozinha, mas os temperos nunca vão pra frente? — Martín teve um sobressalto, virando-se para a direção da voz de Luciano, da janela do rapaz.
Luciano estava encostado na janela, o queixo apoiado na mão e olhando simpático para Martín, o canto dos lábios cheios erguido num meio sorriso. Martín se recompôs, dando-se um sacolejo mental, e sorriu de volta, com os temperos em mãos.
— Ela prefere ar fresco, quando eu deixei a horta na cozinha ela ficou meio triste — Martín respondeu, se aproximando do guarda corpo. Apoiou o quadril no vidro, assentindo meio sem jeito. Luciano fez um “ah”, também meio sem jeito, e coçou a nuca.
— Desculpe ficar espiando. É o que o cheiro chegou aqui — explicou, dando de ombros. Martín sorriu de orelha a orelha, orgulhoso.
— Ah, obrigado. É milanesa, receita de família.
Os dois ficaram se encarando por um momento, sem saber o que pensar da conversa fiada. Martín lembrou-se da milanesa sobre o fogão, esfriando, e ergueu a mão se despedindo cortês e virando o corpo, pensando no almoço.
— Sobre ontem — Luciano começou a falar, fazendo o argentino parar e girar nos calcanhares, uma expressão confusa no rosto — eu queria me desculpar, também. Gritar na janela tarde da noite, imagina. Papelão, né.
Martín piscou, e então deu uma risada frouxa, recordando. Balançou a mão, despreocupado.
— Não tem nada que se desculpar — Martín apoiou a mão vazia no quadril — você não fez nada demais. Se nenhum vizinho reclamou do barulho — ele riu, erguendo as sobrancelhas.
Luciano pareceu relaxar na janela, rindo de volta.
— Fico feliz, não queria que você tivesse se sentido… invadido, sei lá.
— Não, não me senti.
— Que bom — os olhos negros de Luciano brilharam. Ele molhou os lábios, indicando o apartamento de Martín com a cabeça — qualquer dia eu peço umas dicas sobre a horta.
Martín assentiu, rindo baixo. Observou com atenção Luciano sorrindo e erguendo uma mão, enquanto puxava as cortinas da janela da sala, espiando uma última vez antes de sair de cena.
/
Martín xingou alto quando a capa de chuva vagabunda que comprou na saída do metrô, pego de surpresa pela chuva torrencial que caía, rasgou.
Só não se desesperou ainda mais porque quando ficou debaixo de chuva, a camisa social colada ao corpo, já estava quase na porta da padaria embaixo de seu prédio.
— Olha aí, o outro azarado — ouviu a risada alta do menino das marmitas, acompanhado dos presentes espalhados pelo balcão, a padaria mais cheia que o normal, com todos se refugiando do quase dilúvio que caía lá fora. Martín sorriu, meio irritado, chacoalhando o cabelo na porta para tirar o excesso de água e não pingar pelo estabelecimento.
— O menino ali ainda tem desculpa porque acabou de chegar, não acostumado com os caprichos da cidade — o dono da padaria indicou com a cabeça, atrás do caixa — você já era pra ter aprendido, não, hermanito?
Martín acompanhou com o olhar o movimento do homem e fungou ao avistar Luciano encostado ao balcão de marmitas, rindo enquanto observava o menino fechando os recipientes junto da senhora que sempre ficava ali, com seu copo de cerveja e um maço de cigarros. Levou alguns segundos para processar a cena, compreendendo o fato de que Luciano era uma pessoa real e não o personagem de uma cena que via vez ou outra pela janela.
Despertou dos pensamentos quando o moleque assoviou, acenando com a mão.
— A sua eu já deixei pronta, amigo.
Martín abriu um sorriso automático e se aproximou, acotovelando as pessoas amontoadas dentro do espaço insuficiente da padaria.
— Obrigado — Martín parou ao lado de Luciano, olhando para ele de canto de olho com rapidez antes de voltar-se para o moleque. Estendeu o braço, com dificuldade devido à quantidade de pessoas, e agarrou a sacola que o rapaz lhe oferecia, com um sorriso educado, antes de voltar ao seu trabalho, apressado.
— Poxa, e a minha? — Luciano reclamou bem-humorado ao lado de Martín, fazendo o argentino olhar para baixo, para a altura do rosto de Luciano, observando seu rosto com curiosidade — Eu tô aqui esperando há tempos já.
— O Martín vem todo dia, na mesma hora e sempre pede a mesma coisa, ué. Quem mandou ser desorganizado — o moleque riu. A velha ao lado dos três fez um muxoxo.
— Mais um sem mulher em casa para fazer comida pra ele. Como é sozinha a vida dos jovens hoje em dia, não? Que tristeza. E tão bonito, também, igual ao outro…
Luciano deu uma gargalhada, e lançou um olhar divertido para Martín, fazendo graça do tom exageradamente triste da velha. Martín sorriu fraco, sentindo o rosto esquentar. E, contra a justificativa lógica que ele deu a si mesmo, não tinha nada a ver com o calor abafado da padaria.
O menino logo passou uma sacola para Luciano, que pagou ali na hora, despediu-se de todos e se enfiou no monte de gente em direção à saída. Martín o seguiu com o olhar, sem reação por uns instantes, antes de ter um estalo e se despedir desajeitadamente dos conhecidos.
Fez o que pôde para sair rápido da padaria, mas quando finalmente conseguiu passar pela multidão e parar na porta de entrada apenas o suficiente para não sair na chuva que ainda caía forte. Passou os olhos pela calçada, forçando para focar o olhar devido à chuva, e inconscientemente suspirou decepcionado ao não ver Luciano em lugar algum.
/
Depois do encontro acidental com Luciano, Martín se pegava olhando para a janela de seu vizinho com muito mais frequência.
Dependia da sorte, - ainda não tinha conseguido decifrar a rotina do vizinho. Na verdade estava quase se convencendo que ele não tinha rotina alguma - algumas vezes conseguia espiar Luciano dançando na sala ao som das músicas dos anos 80 que sempre colocava para tocar.
Ou o ouvia rindo ao telefone, rindo com amigos na sala, rindo sozinho ao ver televisão. Ria muito. E bonito, também. Martín nunca havia gostado de pessoas expansivas demais, que riam demais, que eram demais, (Sebastián sempre lhe chamou de hipócrita, “o sujo falando do mal lavado”, mas Martín se dava esse direito) mas a risada de Luciano não lhe irritava, pelo contrário. Mesmo conseguindo ouvir o rapaz de outro prédio.
Uma das únicas vezes que se incomodou ao ouvir o barulho de Luciano foi quando suas risadas passaram a ser acompanhadas. Não por amigos, nem pelo barulho da televisão, mas por uma outra voz masculina. Durante um tempo, sempre que Martín conseguia pelo acaso ver Luciano pela janela, via também um outro rapaz.
Nesse período Luciano não conversou mais com ele pela janela. Até o dia em que Martín o viu abrir as cortinas e arremessar o celular num ataque de fúria.
— Se você ainda não recebeu nenhuma multa por causa de música alta, dessa vez chega uma notificação na sua porta, com certeza — Martín comentou, meio rindo, dobrando-se sobre o guarda-corpo e enxergando o celular de Luciano espatifado numa sacada alguns andares abaixo.
O rapaz ergueu os olhos tingidos de fúria, perdido, antes de se dar conta que Martín havia falado. Fungou, passando a mão pelos cabelos, tentando se acalmar antes de responder. Martín continuou o encarando, curioso, e Luciano deu um sorriso que mais parecia uma careta de dor.
— Feio, né — suspirou, depois de um tempo mordendo o lábio inferior, pensativo. Martín deu de ombros.
— Depende do motivo. Já fiz pior.
— Do que jogar o telefone pela janela pra não ouvir o pé na bunda?
Martín coçou a mandíbula.
— Telefone não… mas já estourei um farol de carro. O pé na bunda já tinha sido dado, aliás.
Luciano arregalou os olhos, incrédulo. Quando Martín assentiu, confirmando, o rapaz gargalhou, jogando a cabeça para trás. O argentino sorriu, satisfeito, ao ouvir a risada de Luciano soando clara até sua varanda.
— Sem querer ofender, mas agora eu até acho que jogar o telefone pela janela foi uma reação básica — Luciano se apoiou no batente da janela, de braços cruzados — mas você não parece o tipo de pessoa que faria isso.
— Não? Por que? — Martín perguntou, curioso. Luciano deu de ombros, meio sem graça.
— Não pense que eu sou esquisito, ok? Mas olhando você pela janela você parece um cara… certinho. Chega sempre na mesma hora, come na mesma hora. O pessoal da padaria até diz que você pede o mesmo cardápio sempre — Luciano gesticulou, e Martín sorriu de canto.
— Você tem me vigiado, vizinho?
— Juro que não — Luciano riu mais uma vez, apertando os olhos — mas a janela fica aberta, o som viaja… alguma coisa a gente absorve, né?
Martín riu, se divertindo.
— Alguma coisa a gente absorve — repetiu, assentindo. Pendeu a cabeça para o lado, olhando Luciano à distância com atenção. Luciano se mexeu no lugar, irrequieto, também encarando Martín, que mesmo com a distância dos prédios conseguia sentir o peso de seu olhar sobre si.
— Se eu deduzi certo — Luciano começou, incerto — você não sai muito.
— Trabalho bastante, ainda não conheço tanta gente aqui. Além do pessoal do escritório, quero dizer — Martín respondeu, curioso com o tom de Luciano. O rapaz assentiu, mordendo a boca.
— Então, talvez — Luciano deu de ombros, calculando um desinteresse charmoso — da próxima vez que a gente se esbarrar na padaria eu te convide pra sair. Conhecer a cidade junto.
— Quem sabe — Martín o fitou com intensidade, sorrindo de canto.
O rapaz riu, satisfeito. Apertou os lábios e fechou as cortinas lentamente, lançando um último olhar travesso para Martín. Martín se apoiou no guarda-corpo, pensativo, sorrindo.
Quem sabe.
