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Depois de 20 anos de treinamento, Martína conseguia identificar uma forasteira sem precisar se esforçar muito. E a mulher - uma menina, quase - parada no meio da sala da casa de seus pais, de braço dado com o filho dos Bittencourt com aquele sorriso tímido e aquele brilho inocente no olhar com certeza era uma.
— Foi um evento simples, o Júnior decidiu casar logo lá na fazenda porque a tia da menina estava doente — a senhora Bittencourt aceitou a xícara de chá com um sorriso educado e calculado. A mãe de Martína sorriu de volta, quase um escárnio, enquanto analisava a menina na sala de cima a baixo com olhos severos. Indicou para que os três convidados se sentarem de frente às donas da casa, e fungou.
— Claro. Rústico, não? — comentou, erguendo a xícara de porcelana chinesa até os lábios.
Martína fingiu que limpou a garganta para segurar uma risada presunçosa. Nunca havia gostado dos Bittencourt, e ver a família arrogante dona de inúmeras fazendas de cacau amarrada à uma pé rapada - como toda a sociedade já havia deduzido - muito provavelmente por uma aventura mal calculada do herdeiro era, no mínimo, um bom assunto para as fofocas de chá da tarde.
Senhora Bittencourt abaixou o olhar, claramente constrangida e sorriu de volta. Júnior se soltou do braço da esposa, que piscou os grandes olhos um pouco acuada, e torceu o chapéu de feltro nas mãos. Martína precisou de toda sua força de vontade para não revirar os olhos para a cena patética. Recusou a xícara de chá que a empregada doméstica tentou lhe oferecer com um aceno e se ajeitou no sofá.
— E a noiva é muda? — ergueu uma sobrancelha, os olhos azuis brilhando de malícia. Sua mãe lhe deu um cutucão com discrição, mas a garota lhe ignorou, os olhos fixados com interesse na menina à sua frente. A menina lançou um olhar esquisito para sua sogra antes de responder.
— Não, senhora — a senhora Bittencourt inspirou forte e a menina arregalou os olhos num pedido rápido de desculpas — quero dizer… não, não sou muda. Me chamo Luciana, muito prazer.
Parecia um bichinho amestrado, Martína pensou, divertida. Entediada, ergueu-se de um salto, lançando um sorriso para sua mãe.
— Prazer, Luciana. Sou Martína. Vem, vamos deixar as senhoras se entenderem — se adiantou, pegando a mão de Luciana e a fazendo se erguer do sofá também. A garota desequilibrou um momento sobre os sapatos de salto - nunca devia tê-los usado, Martína riu mentalmente - e lançou um olhar assustado para o marido e a sogra. Júnior soltou um suspiro, erguendo os cantos da boca num sorriso falso e avisou a mãe que acompanharia as moças. Martína franziu o nariz, mas enganchou seu braço ao de Luciana e saiu sorrindo em direção ao jardim.
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Martína passou as mãos pelos arbustos do labirinto artificial no jardim do casarão, com um sorriso de canto.
— São Pedro do Esteio — repetiu a fala da menina ao seu lado, que tentava disfarçar o quão impressionada estava com a quantidade de flores e arranjos à sua volta — nome de cidade pequena.
— Mais que pequena, miúda — Luciana sorriu, os lábios cheios, naturalmente corados, se abrindo para deixarem à mostra os dentes brancos e apertando os olhos da garota — prefeitura, Igreja matriz e só. Além das fazendas em volta…
— Nem escola? — Martína ergueu as sobrancelhas, fingindo interesse.
— Nem escola — Luciana balançou a cabeça, rindo. Os ombros pequenos - ela toda era pequena, Martína observou - balançando pra cima e pra baixo, acompanhando sua voz — minha tia que me ensinou a assinar meu nome. Martína fez um bico, impressionada. Se virou para trás levemente, lançando um olhar debochado para Júnior e se certificando que ele as escutava.
— E você conseguiu ler o contrato de casamento, pelo menos? — virou-se novamente para Luciana ao ver Junior limpar a garganta, desconfortável. Luciana sorriu novamente, assentindo um pouco envergonhada.
— O meu marido me ajudou.
— O Junior — Martína repetiu, franzindo as sobrancelhas um pouco curiosa ao ver a menina abaixar o olhar ao som do nome do rapaz.
— É, hm… meu marido — afirmou novamente. Luciana ergueu o olhar, tentando disfarçar o desconforto e seguiu andando pelo caminho do jardim, cuidadosamente firmando os pés para não tropeçar nos saltos.
Martína lançou outro olhar para Júnior, ácida, e o rapaz o sustentou como se estivesse a desafiando. Inspirando decidida, Martína se adiantou até voltar a andar ao lado de Luciana, passando um braço por sua cintura e guiando a garota para fazer o mesmo. Luciana soltou um risinho surpresa, mas não retirou o braço.
— Sabe que eu gostei de você, Luciana? — Martína comentou, olhando por cima do ombro para arquear uma sobrancelha debochada para Júnior — Não sei se o seu marido já te avisou, mas a vida das famílias ricas nessa cidade é extremamente chata. Mas não se preocupe que eu vou me certificar de te guiar nesse ninho de cobras.
O filho dos Bittencourt chamou Luciana com voz severa antes que ela pudesse responder. A garota se afastou de Martína como se tivesse tomado um choque e ajeitou a parte de trás do penteado, se certificando que o chapéu e as mechas castanhas estavam todas no lugar. Deu um sorrisinho tímido e se apressou até o marido.
Martína cruzou os braços, erguendo a mão numa despedida silenciosa quando Luciana olhou por cima do ombro uma última vez, a barra do vestido balançando de um lado para o outro enquanto o marido praticamente a arrastava para a direção oposta.
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— Achei que você nunca aceitaria meu convite pra tomar um sorvete, Luciana.
Martína ajeitou o chapéu, o segurando pra evitar que o vento da praia o levasse. Luciana colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, incerta, sem olhar nos olhos de Martína. Mexeu a colher de madeira no sorvete de casquinha, tomando tempo antes de responder.
— Me desculpe, Mar- Tína — se corrigiu, sorrindo para a cara de irritação fingida que Martína fez — o meu marido não… nós estávamos ocupados com as obrigações de início do casamento. Dona Bittencourt também, ela tem sido tão gentil me ensinando como me portar, eu estou dando um trabalho pra ela — riu. Pro azar de Luciana ela sorria muito, e quase sempre de modo espontâneo, quando não era o caso ficava fácil de notar.
Falta de prática, Martína observou, uma hora ela aprende.
— A megera fica do seu lado com uma palmatória até você lembrar qual garfo usar, imagino — riu, maldosa, dando um pequeno cutucão em Luciana quando ela segurou o próprio riso — pode falar a verdade, ninguém gosta de sogra mesmo.
— Ela tem muita paciência — Luciana comentou, mas a sobrancelha arqueada arrancou um sorriso de Martína — ontem ela começou as aulas pra eu poder reconhecer as pessoas do círculo social. Sabe, por causa dos eventos que eu e meu marido vamos dar quando ele assumir as fazendas.
— Sei. O que ela disse de mim? — Martína perguntou sem rodeios, se apoiando na balaustrada de pedra da orla da praia, de costas para o mar. Luciana lhe olhou assustada. Encostou-se no balaústre ao seu lado, olhando as ondas, pensativa.
— Nós não chegamos ainda na sua família.
— Tenho certeza que chegaram sim, isso se não começaram por ela. O meu pai é o maior comprador do cacau dos Bittencourt, nós exportamos a safra pra Argentina. Se não fomos a primeira família de quem a megera te ensinou, ela está tramando seu fracasso.
— Tenho certeza que é o que ela gostaria mesmo — Luciana resmungou, mexendo no sorvete meio derretido em sua mão. Martína, se virou e sorriu, positivamente surpresa.
— Como?
— Eu não disse nada.
— Claro. Mas então, o que você aprendeu sobre mim?
— Ah, Tina — Luciana bateu os saltos no chão, ansiosa — contaram que… a verdade?
— Por favor — Martína sorriu de canto.
— A senhora Bittencourt, e o Júnior também, não acham que… você é uma boa companhia.
Luciana lhe lançou um olhar de desculpas, num pedido silencioso para que não se irritasse. Martína a encarou por uns instantes antes de soltar uma gargalhada alta, divertindo-se com a reação confusa da garota.
— Graças a Deus. Se a resposta fosse diferente eu me deitaria nos trilhos do bonde. Mas porquê? Pra eu saber os meus acertos.
— A senhora Bittencourt acha que você não sabe seu lugar, te acha irreverente. Que você ter cortado o cabelo é uma indecência. E que você se pinta demais, como uma- — mordeu a língua, franzindo as sobrancelhas.
— Como uma rameira — Martína riu, jogando a cabeça para trás — ótimo. Confesso, talvez eu passe um pouco de rouge demais, às vezes. Mas realça meus olhos, o que posso fazer.
Luciana observou, curiosa, Martína rindo livremente até que não conseguiu mais segurar a própria risada. A garota ergueu a mão para cobrir a boca, a luva de tecido branco translúcido contrastando com a pele escura.
— Desculpe, Tína. Eu juro que não concordo com nada disso, juro — Luciana conseguiu falar, num fio de voz, recuperando o fôlego depois da crise de risos.
— Eu sei, querida — Martína tocou seu ombro a tranquilizando. Tirou o chapéu e se abanou, praguejando o calor. Sorriu, travessa e segurou o braço de Luciana — já nadou no mar?
Luciana negou com a cabeça, confusa. Martína a puxou pelo braço, zunindo pelas escadas que davam acesso da calçada para a areia da praia. Luciana soltou um grito estridente de surpresa, rindo e Martína riu junto, estranhando o sentimento confortável na boca de estômago ao ver Luciana correndo para por os pés na água.
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O livro que Martína segurava foi ao chão quando a garota teve um sobressalto com a empregada irrompendo pela porta da sala visivelmente aflita.
— O que é, mulher, por deus — Martín reclamou, se esticando no divã para alcançar a taça de conhaque apoiada numa mesinha ao seu lado sem precisar se levantar. A empregada torceu as mãos, nervosa.
— A senhora Bittencourt, dona Martína. Está na sala, pediu licença para entrar.
— O que a velha quer? Ai, Florência, o dia está tão bom, mande ela embora, sim?
— Não essa senhora Bittencourt, a outra. A esposa do-
— Luciana! — Martína levantou com um salto. Agarrou o robe jogado no encosto do divã, cobrindo a combinação que usava e sorriu, ansiosa — Eu já disse que ela não precisa nem ser anunciada, peça pra ela entrar logo, vai.
Sem responder, a empregada saiu apressada, voltando segundos depois com Luciana atrás de si e uma expressão de alarme no rosto. Martína franziu as sobrancelhas, preocupada, uma sensação pesada no peito. Assim que a empregada saiu da sala batendo a porta, Luciana se lançou em seus braços, soluçando, e Martína sentiu-se desesperar.
— Ele vai me mandar embora, Tína. Ele vai me deixar, eu tenho certeza — Luciana soluçou, molhando o robe de Martína. Meio perdida, Martína segurou nos braços de Luciana e a afastou um pouco para poder olhar seu rosto, enquanto a guiava para se sentar no divã.
— Quem vai embora? Do que você está falando? — colocou uma mecha do cabelo de Luciana para trás de sua orelha, segurando o queixo da menina para que ela olhasse para si.
— Júnior, o Júnior vai embora. Ele não me procura, mal olha pra mim. Ontem nós tivemos uma briga porque eu já devia… Eu já devia estar grávida, Tína, já se passaram meses e nada ainda. Ele até está dormindo em outro quarto, eu não sei mais- Eu estou fazendo tudo errado, tudo.
Martína negou enfaticamente com a cabeça, indignada.
— Você não fez nada de errado, Luchita, olha pra mim — Martína segurou os ombros da garota, carinhosamente — por que seria culpa sua?
— Tem que ser — a garota soluçou, os olhos negros parecendo ainda maiores com o efeito das lágrimas — ele não gosta de mim, Tína. Desde o começo. Esse casamento aconteceu pra evitar um escândalo e eu pensei que com o tempo- mas ele não gosta de mim. Tenho certeza que ele me acha uma ignorante, uma caipira horrível, deve ter vergonha de ser casado comigo — afundou o rosto nas mãos, as luvas abafando o resto de sua fala.
— Luciana, para — Martína a sacudiu, rindo de nervoso. Sentiu o peito torcer com a visão de Luciana desolado como estava, a luz habitual apagada quase por completo — dizem que os casamentos são assim mesmo, eu imagino que seja assim.
— Um inferno? — Luciana ergueu a cabeça, as sobrancelhas grossas unidas, emoldurando a expressão de tristeza que pintava seu rosto. Martína pendeu a cabeça, se aproximando da amiga, seus rostos muito próximos um do outro.
— Tenho certeza de que a culpa não é sua, não tem como ser. Você é uma mulher encantadora. E linda. Qualquer um seria feliz por estar casado com você.
Luciana fez um muxoxo de tristeza. Encostou-se no colo de Martína, soluçando baixinho de tempos em tempos como uma criança que havia se machucado durante uma brincadeira.
Martína sentiu a respiração acelerar, e forçou seu peito a se movimentar com naturalidade, levando a mão para acariciar os cabelos de Luciana. Mesmo atordoada como estava, não tinha um fio fora de lugar. Tudo muito bem controlado por grampos e pelo mousse capilar, como tinha sido ensinada quando chegou à casa dos Bittencourt recém-casada.
Muito diferente da imagem natural, dos cachos apontando para todos os lados, que Martína se lembrava do dia na praia. Na ocasião até brincara com Luciana, que a garota parecia uma visão saída do mar, a combinação colada ao corpo curvilíneo e aqueles olhos enormes, e Luciana rira. Combinava bem mais com ela do que a imagem de tristeza jogada sobre o colo de Martína.
— Luchita, meu bem — Martína suspirou, inclinando o corpo por cima do de Luciana — minha amiga, minha querida, o que eu posso fazer pra você deixar de ficar assim?
— Me fazer deixar de ser eu — a garota respondeu baixinho — me fazer ser adequada pra essa vida.
— Isso nunca — Martína forçou a voz, passando a mão com carinho pelos cabelos de Luciana — eu não mudaria você nunca.
Luciana mexeu no colo de Martína, virando-se até conseguir olhar para o seu rosto.
— Desculpe vir aqui fazer essa cena patética, Tina — Luciana ergueu a mão, acariciando o rosto de Martína num movimento tímido, então riu, amarga — a minha sogra diria que eu não tenho dignidade nenhuma.
Martína deu de ombros, colocando a sua mão sobre a mão de Luciana, sorrindo carinhosamente.
— Porque ela é uma bruxa velha que não tem ninguém que goste dela.
Martína sentiu o aperto no peito diminuir quando Luciana soltou uma gargalhada alta, as lágrimas aos poucos secando em seu rosto. Observou o rosto de Luciana com curiosidade, se perdendo nos olhos molhados da garota. Luciana inspirou fundo, respondendo o olhar com intensidade. Só então Martína notou o quão perto estavam uma da outra, ainda curvada por sobre Luciana.
Entrelaçando seus dedos aos de Martína, Luciana puxou com delicadeza o rosto de Martína para baixo, roçando seu nariz ao nariz arrebitado da garota num movimento rápido.
— Obrigada, Tína — sussurrou, os olhos negros colados aos azuis — por ter sido minha amiga desde que eu cheguei aqui.
Martína pensou em responder.
Ao invés disso, simplesmente acabou com a ínfima distância que tinha entre ela e Luciana, colando seus lábios quase que por uma fração de segundo, antes de soltá-los, incerta, testando a reação da garota. Luciana não disse nada, nem se mexeu, apenas olhou para Martína, curiosa.
Arriscando, Martína voltou a juntar seus lábios aos de Luciana, soltando uma exclamação de surpresa quando sentiu Luciana corresponder abaixo de si, movendo a mão que estava na bochecha de Martína até sua nuca. Martína pousou uma mão no pescoço da garota quando Luciana deslizou a língua para dentro de sua boca com um suspiro satisfeito.
Luciana enlaçou o outro braço no pescoço de Martína, erguendo-se um pouco a fim de se sentar e puxando-a contra si, e Martína sentiu um arrepio percorrer o corpo ao sentir os bordados do vestido de Luciana roçarem contra sua pele, coberta apenas pelo fino tecido do robe e da combinação de seda.
Martína quase protestou fisicamente quando Luciana apartou o beijo e sentou-se muito reta, no lado oposto do divã.
As duas se ergueram, tímidas, analisando a reação uma da outra com atenção. Martína enrolou o dedo no fio do robe, mordendo o lábio.
— Obrigada, de novo, por me ouvir — Luciana disse, calma, como se nada tivesse acontecido. Sorriu, inocente, se apressando e dando um beijo amigável no rosto de Martína antes de sair da sala.
Martína desabou no divã assim que Luciana saiu, encostando a porta com delicadeza ao passar. Olhou para o nada, meio perdida, subitamente lembrando da taça de conhaque abandonada na mesinha. A agarrou e acabou com o conteúdo de um gole, deitando com violência no divã e puxando a barra do robe por cima da cabeça, sentindo o mundo girar.
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— Um brinde — Júnior anunciou para os presentes sentados à longa mesa de banquete da casa da família Bittencourt, cheio de si. Lançou um olhar para Luciana, sentada à sua direita com um sorriso comportado, de aprovação mas vazio de carinho — ao meu herdeiro.
A mesa irrompeu em comemoração, a matriarca da família tomando um gole de champanhe com ar arrogante. Martína arregalou os olhos, procurando o olhar de Luciana com um certo desespero, mas assim que encontrou a garota abaixou o olhar, a evitando.
— Então era esse o motivo desse jantar misterioso — o pai de Martína gargalhou, erguendo-se ao seu lado para caminhar até a ponta da mesa, até Júnior — pensei que fossem notícias de negócios.
— Não hoje — Bittencourt sorriu — minha esposa finalmente me deu uma alegria que eu pensei que nunca sentiria.
Luciana passou o jantar todo calada, só reagindo quando interagiam com ela. E sem erguer os olhos, concentrada no prato intocado. Quando o serviço acabou e os presentes se levantaram para tomar uma bebida, Martína se aproximou sorrateira de Luciana, a cutucando nas costas.
A garota teve um sobressalto, suspirando ao se virar e dar de cara com Martína.
— Parabéns — Martína conseguiu se forçar a falar, torcendo pra que Luciana tivesse conseguido ouvir sua voz fraca mesmo com a música que tocava no rádio e as risadas do ambiente — acho que é isso que se diz nessas ocasiões.
— Geralmente — Luciana esticou os lábios, tentando um sorriso, a mão já inconscientemente pousada na barriga. Martína encarou a mão de Luciana sentindo um gosto amargo na boca, mas piscou os olhos com força e quando os abriu novamente era a própria imagem da felicidade.
— Não tive irmãos, mas como somos amigas vou me considerar titia — comentou em tom alegre, fingindo não ver o lampejo de dor que passou pelos olhos de Luciana — sei bem que o seu marido nunca me aceitaria como madrinha.
— Depois de um ano esperando esse molequinho, claro que eu não entregaria ele pra qualquer um batizar — Bittencourt apareceu por trás de Luciana, inclinando um copo de uísque nos lábios e olhando com certo desprezo para Martína. Luciana olhou por cima do ombro para o marido com um olhar irritado.
— Eu acho que a Tina seria uma ótima madrinha.
— Que bom que ainda vamos ter tempo para decidir isso, não é, meu bem? — riu, se afastando. Martína torceu o nariz para as costas do homem, voltando sua atenção para Luciana ao sentir sua mão repousando em seu pulso.
— Nós vamos para a Fazenda Matriz, durante a gravidez — aproveitando o estardalhaço para poder falar com tranquilidade. Martína a conseguia escutar como se só estivessem as duas na sala — o médico da família que recomendou. Por causa dos ares mais puros.
Tinha muita prática em manter sua pose, mas ao ouvir as palavras de Luciana, Martína precisou de todas as forças para não deixar transparecer como verdadeiramente se sentia. Que queria protestar e dizer que não, Luciana não iria para longe com aquele idiota arrogante, que elas iriam caminhar pela orla todos os dias e que Martína iria ajudar Luciana a bordar babadores e meias diminutas com a maior boa vontade do mundo mesmo tendo certa aversão a essa história toda de gravidez.
Em vez disso, Martína assentiu, com um sorriso convincente.
— Se o médico recomendou, não é? É melhor seguir o que ele disse.
— Tina.
— Vocês voltam logo que o bebê nascer? Sem falta.
— Sem falta — Luciana assentiu, apertando os lábios.
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Luciana não voltou no tempo planejado. Os ares da fazenda eram melhores do que o esperado, e as notícias de suas outras duas gestações logo chegaram à sociedade com as fofocas e opiniões de sempre.
Assim como as notícias da viuvez de Luciana, repentina e inesperada e trágica como qualquer viuvez com tão pouca idade. Briga de bar, disseram uns, acerto de contas por ter ido atrás da mulher errada, disseram outros. Martína não se importou em apurar os fatos, a parte que lhe interessava era comum a todas as versões contadas nos chás da tarde das senhoras. Luciana voltaria, com três crianças a tiracolo, cuidar da papelada de propriedade das fazendas, plantações e do casarão na capital muito em breve.
No dia em que sua mãe lhe informou que iria até a casa da família Bittencourt participar da recepção de Luciana, Martína sorriu, sentindo o peso em seu peito que virara seu acompanhante diminuir minimamente.
— Uma tragédia, menina — a mãe de Martína disse, num tom pesaroso obrigatório ao dar um beijo no rosto de Luciana — viúva tão nova, uma tragédia.
— Deus sabe o fardo que cada um aguenta — Luciana respondeu simplesmente, vestida de preto dos pés à cabeça. Tomou cuidado para não sorrir demais ao avistar Martína, mas a sombra do sorriso enorme que Martína lembrava com perfeição transparecia no canto dos lábios. Martína deu um passo à frente e deu um abraço apertado em Luciana, que a enlaçou com os braços, retribuindo carinhosamente.
Martína se demorou, confortável nos braços de Luciana, A garota descansou o queixo em seus ombros, com um suspiro.
— Eu estava com saudade — Luciana disse simplesmente, quando a mãe de Martína se afastou.
— Eu também. As fofocas das comadres ajudaram. Mas não se pode levar uma fofoca à praia — brincou, controlando a respiração. Luciana riu disfarçadamente, olhando em volta para se certificar que ninguém havia percebido, querendo evitar o escândalo de quebrar o luto antes da hora.
— Seu marido não te acompanha à praia?
— Não me casei, Luchita. Nem pretendo.
Luciana apertou os lábios, um brilho travesso nos olhos. Foi interrompida pela empregada da casa antes de responder, soltando uma exclamação carinhosa ao pegar no colo o bebê que a mulher lhe trazia.
— Verinha — Luciana apresentou, acariciando a bochecha do bebê, que encarava Martína com os mesmos olhos grandes e expressivos de Luciana. Martína não conseguiu evitar de sorrir, erguendo um dedo e exclamando satisfeita quando a bebê o agarrou com uma mão gordinha.
— Ela é um encanto — Martína riu, sacudindo os ombros quando a pequenina soltou um gritinho de alegria ao inspecionar um anel em seu dedo.
— Vai ser minha única companhia, agora. Os meninos vão ficar ocupados com os tutores, era o desejo do falecido.
— Mas e sua sogra? Não que ela seja companhia decente, nunca foi — Martína fez uma careta, sorrindo quando Luciana a advertiu com os olhos, sem severidade real.
— Vai morar na fazenda — Luciana deu de ombros — disse que vê o fantasma do filho nas paredes da casa. Eu discordo, mas se ela quer se mudar, quem sou eu pra protestar.
Martína assentiu lentamente, brincando com a bebê e olhando de canto de olho para a expressão travessa no rosto de Luciana.
— Verinha ainda não foi batizada — comentou, observando a filha fazer festa para Martína — e eu ainda lembro de quando disse que você seria uma ótima madrinha.
— O Júnior não aprovaria — Martína riu.
— Deus o tenha, mas problema dele. Não há nada no testamento sobre isso que eu precise obedecer — Luciana torceu o nariz.
— Nesse caso, eu aceito o convite.
— A madrinha tem responsabilidades muito grandes. Ela precisa participar da criação das crianças na ausência dos pais.
Martína piscou os olhos, virando-se para Luciana, uma pergunta silenciosa nos olhos.
— Um dos pais já está ausente, como você bem sabe — Luciana continuou, a encarando significativamente. Martína sorriu de canto, sentindo o rosto esquentar — e o casarão é grande, tem muitos quartos vagos.
Luciana sorriu, piscando inocentemente e Martína não conseguiu segurar a risada.
