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Respire. Você tem que respirar! Uma voz de sobrevivência gritava em seus ouvidos, ardia seus pulmões, ardia em sua garganta e o acordava, agonizante, de uma cena que não tinha cessado de reviver quando a exaustão tomava seu corpo r baixava sua guarda.
O terror que o fustigava era pior do que qualquer inimigo que já tivesse enfrentado, pior que a morte e o inferno de gelo onde já estivera. Era pior, muito mais insidioso, porque se escondia em seus pensamentos, se manifestava em seus pesadelos, o acordava no meio da noite com um grito mudo, sem voz, mal conseguindo respirar.
Empapado em suor frio e tremendo como uma folha ao vento, não tinha nem voz para acordar Milo, que dormia o sono dos homens justos ao seu lado na cama. Talvez fosse melhor assim, que ele continuasse ignorante de como Camus acordava ainda sentindo as marcas das mãos dele ao redor de seu pescoço, a vida se esvaindo até a escuridão tomar seus olhos. As mãos que conheciam cada parte de seu corpo, carda sarda espalhada em sua pele mais do que ele próprio. As mesmas mãos que correriam buscá-lo no escuro para saber o que estava acontecendo e como o machucaria quando recuasse ainda assustado, ainsa nas sombras do pesadelo que o visitava com cada vez mais frequência.
Não, não acordaria Milo, não estava disposto a revelar seus piores pesadelos a ele, a dizer como era o próprio escorpião o inimigo oculto em seus terrores noturnos. Era senhor do próprio corpo, da própria mente, fechou os olhos e se sentou na cabeceira da cama, tentando acalmar as batidas de seu coração e respirar.
No entanto, ainda tentava governar a si mesmo quando seu a mão dele encostar em seu ombro, algo ainda sonolenta mas tão firme e tão morna do universo em constante ebulição dentro do escorpião como sempre. E quanto mais os dedos se aproximavam da pele descoberta entre seu ombro e pescoço, mais o terror de minutos atrás o consumia, mais o puxava para a torrente de uma noite escura, sem estrela alguma, apenas a sensação da raiva e do ódio de Milo o sufocando com as mãos ao redor de seu pescoço.
Não o ouviu chamar por seu nome, ainda tinha os olhos fechados e os joelhos contra o peito para perceber que Milo acordava com um pulo e acendia a luz em sua cabeceira, tão assustado quanto o próprio aquariano. O sinal da luz contra suas pálpebras o fez abrir os oljhos e viu o exato momento em que Milo entendeu o que se passava com ele, o choque e o pavor refletidos nos olhos do outro tanto quanto o arrependimento. Havia um universo inteiro entre eles naquele momento, estrelas frias que se apagavam para sempre, estrelas mortas cuja luz ainda podiam ver na distância de anos-luz que existia ali, mas foi um momento apenas em que viu o laivo de dor no rosto cheio e bronzeado de Milo para que puxasse a mão dele de volta, entrelaçando seus dedos.
Ainda precisou de uma eternidade e meia para que conseguisse respirar melhor, para que sua voz, ainda que engasgada e fugidia, saísse amarga de sua própria garganta.
- Milo… - E embora tivesse conseguido apenas chamar o nome dele, podia ver as estrelas em ebulição por trás dos olhos do outro, a forma como ele não sabia se era melhor dizer algo, fazer algo, ou esperar o mundo de Camus voltar ao normal.
Mas quando é que voltaria? Voltaria algum dia? Não restava nem fiapos da memória de um dia ter vivido como uma pessoa normal: era uma constelação de agouro no meio do universo, tinha sido criado para rachar os céus, separar as estrelas, tinha matado na dicotomia mais hipócrita e mais humana: a guerra pela paz, não existia nada normal em seu mundo, não mais.
E se o único pesadelo que o atormentava eram as mãos da pessoa que amava ao redor seu seu pescoço, o ódio e a dor dos olhos dele enquanto tirava sua vida, talvez devesse considerar que era sorte não sonhar com todos os seus outros pecados, era sorte que ainda conseguia dormir.
Não precisou falar mais nada, Milo ainda cuidava dele mesmo em momentos como aquele, entendendo que o silêncio era tudo que Camus tinha a oferecer, que era também a forma como ele sabia amar e como ele sabia pedir por aquilo que precisava.
O beijo morno contra seus lábios frios tinha gosto de dor e de desespero, mas tinha gosto de vida, espalhava o calor do universo por seus braços e pernas, e quanto mais se abria e mais o outro se enroscava nele, uma confusão de estrelas em formação, mais o ar voltava em seus pulmões, mais humano se sentia, um pouco menos morto, um pouco mais vivo.
Beijou de volta como um afogado precisando de ar, suas unhas marcando as costas bronzeadas de Milo, suas pernas o envolvendo e o trazendo junto de si, como se ele fosse sua única salvação ou sua condenação.
(E ele era. Ele era...)
