Work Text:
Maki ouvia os sons de metais se chocando, de forma arrítmica e acelerada, sem nenhum tipo de técnica por trás dos movimentos. Ela só queria que seus pensamentos parassem de a assombrar. E era por isso que estava no campo de treinamento naquele momento. Mesmo que estivesse com seus músculos latejando e com sua visão desfocada, Maki continuava a se movimentar da mesma forma que o faria caso estivesse se sentido bem.
Embora estivesse viva, Maki não tinha saído ilesa na batalha que havia travado há alguns dias na fronteira com o reino inimigo. Ainda que tivesse sido liberada da enfermaria algumas horas atrás, as feridas adquiridas no confronto ainda estavam presentes. A região estava dolorida, a impedindo de pensar em outra coisa além do que havia acontecido.
O sangue que havia secado em suas palmas e dígitos ainda estavam a assombrar, assim como a visão do corpo mole de seu companheiro de time, agora sem vida, que ela segurava no colo. Quem deveria ter recebido o golpe naquela batalha era a Zenin, e não ele.
Ela que deveria estar morta. Eram as suas cinzas que deveriam estar derramada no campo de batalha onde havia perdido, e não as dele.
Maki era uma Zenin, uma guerreira renomada em seu reino. Sua família era reconhecida por todos como heróis da terra. Guerreiros fortes, que não temeriam as ameaças e trariam tranquilidade para o povo. Aquilo deveria ser o que Maki representaria. Mas, não importa o quanto tentasse, ela não conseguia honrar seu sobrenome.
Ela deveria ser responsável por seus companheiros. Todavia ela havia falhado mais uma vez, deixando com que seu companheiro tivesse morrido em seu lugar, recebido um golpe que era seu. A sensação estranha em seu estômago apenas aumentava toda vez que pensava nisso.
A Zenin nem tinha conseguido comparecer no funeral de seu colega caído. E isso era o que mais a frustrava.
Ela balançou a espada mais forte, sentindo uma pontada em seu abdômen. Maki precisava ficar mais forte para honrar sua família. Uma dor não poderia pará-la naquele momento. Não quando as letras ácidas de seus tios ainda eram frescas em sua mente.
Há alguns dias, havia recebido uma carta infeliz de seu clã, a cobrando e culpando pela perda de mais vidas do que o planejado. Maki era uma inútil, e deveria se esforçar o mínimo para pelo menos não manchar o nome dos Zenins — era o que dizia os papéis, reflexos de algo que ela mesma pensava.
Apesar dos seus pensamentos lhe consumindo, Maki foi capaz de perceber os passos se aproximando por suas costas. Mas ela não se virou, pois suspeitava quem seria a pessoa, e seu palpite foi confirmado imediatamente quando a voz profunda se pronunciou:
— O que está fazendo aqui a essa hora, senhorita Zenin? — Maki achou que tinha escutado um certo tom de deboche na voz de Nobara. — Não deveria estar na enfermaria ainda, para que suas feridas não se abram novamente?
Imediatamente, a Zenin se virou. A vermelhidão se tornando mais presente em suas bochechas claras, em um claro sinal de irritação. Para reforçar sua expressão, ela franziu as sobrancelhas e semicerrou os olhos, a espreita para que pudesse gritar com Nobara ao mínimo sinal de deboche.
— Não é da sua conta.
Maki baixou a lâmina de sua espada, apoiando-a no chão, esperando uma reação de Nobara.
— Eu não esperava que fosse me responder. Que bela surpresa.
A Zenin conseguiu sentir sua testa se franzindo, acompanhada de uma repentina dor de cabeça. Ela odiava como a mulher parecia sempre ter a resposta na ponta da língua.
Nobara deu um sorriso largo, o qual Maki percebeu de imediato o tom brincalhão — talvez debochado —, enquanto pegava uma espada de madeira desgastada do chão. Assim que tomou em suas mãos o objeto, deu um primeiro passo à frente, seguido de alguns outros, parando apenas quando estava próxima de Maki.
— O que você quer?
— Eu vim te ajudar — A Kugiseki falou, levantando a espada.
Maki apenas olhou para a mulher, com as íris cheias de desdém, antes de dar-lhe as costas. Ela não queria aceitar que era inferior.
Receber ajuda seria o mesmo que concordar totalmente que ela nunca seria o suficiente para a sua família.
Por isso, Maki voltou a desferir golpes no objetivo à sua frente. Pelo menos assim não teria seu orgulho despedaçado.
— Não preciso da sua ajuda. Então pode ir embora — Zenin falou.
Apesar de não estar olhando para Nobara, sua atenção não se desviou por nenhum segundo da outra. E, com isso, ela soube que a Kugiseki não havia se movido mesmo que estivesse sendo ignorada.
— Eu acho que é mais produtivo treinar comigo do que descontar sua raiva em algo inanimado.
Maki congelou por alguns segundos, com pensamentos acelerados tornando-se presentes. Como Nobara sabia que ela estava irritada? Ela queria perguntar, mas sua boca não se moveu.
E ela não sabia se a sua reação inesperada era por seu orgulho exacerbado, ou pela expressão séria no rosto da mulher.
Maki apenas bufou, encarando Nobara por alguns segundos, antes de continuar:
— Se insiste tanto, então vou aceitar sua ajuda. Mas não fique triste quando eu te derrotar! — A Zenin jogou a espada de metal para o lado e pegou uma de madeira enquanto gritava.
Em resposta, Nobara deixou seus lábios se erguerem num pequeno sorriso.
— Eu não vou perder para alguém que está ferida. E não pense que eu vou pegar leve apenas por isso.
Enquanto levantava a espada de madeira, Maki segurou seus lábios a fim de impedí-los de se erguessem em um sorriso bobo, mas sincero. Pelo menos, durante seus momentos com Nobara, — fossem apenas conversas ou treinamentos — ela sentia que podia se esquecer de seus pensamentos e inseguranças.
Escondendo sua gratidão pela Kugiseki, a Zenin colocou uma expressão irritada e focada no rosto, com as sobrancelhas franzidas e os lábios torcidos numa linha horizontal. Talvez, mais tarde — caso seu orgulho não se tornasse um empecilho — ela iria transformar sua gratidão em palavras para a mulher.
Apesar do jeito áspero de Nobara, Maki sentia em seu peito sensações que não sabia descrever. Mas esperava que, com o tempo, conseguisse decifrar seus próprios sentimentos com a ajuda da mulher. Afinal, foi a Kugiseki que a ajudou tantas vezes, mesmo sem saber que ela era o único apoio de Maki.
