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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-01-14
Words:
4,513
Chapters:
1/1
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2
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31
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3
Hits:
350

smoke and ashes in your blue eyes

Summary:

Neil deveria ser um efeito das drogas porque, a pesar de todas as mentiras, Neil parecia bom. E Andrew não merecia coisas boas.

Notes:

escrevi isso em 2020 (JESUS?????) e decidi reescrever algumas partes e repostar :)

aviso de conteúdo: menções sobre automutilação, violência, abuso de drogas e estupro

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

I. monsters

 

 Andrew odiava o escuro.

Quando pequeno, fechava os olhos e cantava baixo sua música favorita para fingir que o perigo não estava ali; ele inutilmente colocava o cobertor por cima de sua cabeça e sussurrava para si palavras de conforto e segurança.

Ao crescer, percebeu o quão estúpido era aquilo. Ele descobriu que, se quisesse ficar seguro, deveria se manter o mais quieto possível para que o pesadelo acabasse logo.

Os monstros sempre esperavam a noite cair para agirem. Eles esperavam o silêncio da madrugada, esperavam as luzes se apagarem, esperavam suas esposas dormirem, eles eram sombras silenciosas se esgueirando pelas brechas na penumbra.

Nem sempre os monstros de Andrew estavam embaixo de sua cama. A maioria das vezes, eles estavam por cima dele.

Houve algum momento, algo crucial aconteceu e então ele decidiu que não permitiria mais brechar abertas. Os monstros nunca iriam embora se Andrew não se livrasse deles.

Muito cedo, Andrew desenvolveu um sono leve, a escutar o menor dos rangidos das madeiras do assoalho. Ele deixava as luzes acesas, as portas trancadas, ele substituiu seu ursinho de pelúcia por algum objeto afiado para se defender.

Andrew não teve escolha, ele nunca teve nenhuma, a não ser levantar essas paredes e manter todos longe. Ele não poderia confiar em ninguém, não existiam pessoas boas, existiam pessoas que ainda não tinham tido a oportunidade certa.

Ele ainda era muito novo quando algo dentro dele se obscureceu. As luzes do seu quarto sempre estavam acesas, mas tudo era sombrio, vazio, dentro de Andrew.

Se entorpecer era como fogos de artifícios no Ano Novo, mas sem o barulho caótico e ensurdecedor (sua cabeça ficava perturbadoramente silenciosa com as drogas). As explosões eram coloridas, lentas e fortes demais para seus olhos, ele se distraia e se perdia nelas, ele sentia que se chegasse muito perto, poderia se queimar.

Ele nunca está realmente presente quando a droga corre pelo seu corpo. E ele não se importa com isso, sua realidade nunca nada além de uma desgraça e seu corpo é o último lugar que ele gostaria de estar. Ficar longe de tudo isso é quase uma benção.

Quando está sedado, os dias se tornam apenas lapsos de memórias questionáveis e frações de minutos equivalem há um cansativo e longínquo mês, ele se sente exausto o tempo todo. Seu relógio está quebrado, como todo o resto dele.

Andrew não se importava com nada, ele não se importava de estar deteriorando sem nem mesmo notar e se desgastando e morrendo, ele não se importava consigo mesmo. O único sentimento que existia dentro de si além de indiferença era ódio.

Isso era algo que ele tinha de sobra. Ódio. Ele realmente odiava Exy, assim como odiava as Foxes, assim como odiava todo o resto.

Levou semanas até lembrar da existência do mais novo fodido do time, levou meses até decidir o que estava sentindo. Andrew sempre se manteve consciente o suficiente para controlar e limitar quaisquer que fossem seus sentimentos, ele não se permitia não estar no controle total de si – porque por muito tempo ele não teve controle algum – então, quando permitiu que Neil entrasse, era porque sabia que desejava ter um pouco daquela chama para si.

Piromania: Obsessão por fogo, desejo incontrolável de causar incêndios, de ver algo queimar, de se sentir queimar.

Era isso o que Andrew sentia quando via Neil. Ele queimava como o inferno quando sentia o calor do corpo de Neil e a respiração quente em seu pescoço e nada queimava mais que seu sorriso de merda.

Era algo novo, diferente. Ele nunca pensou que poderia apreciar coisas que antes eram direcionadas a ele com uma perversidade horripilante quando era criança. Mas aquilo no rosto de Neil era diferente, era bom, certo.

Ele tentou manter uma distância segura de tudo isso, porque ele estava congelado por dentro, para que nada pudesse sobreviver dentro dele, e estava fora de cogitação deixar a luz do sol aquecer o que, por tanto tempo, esteve hibernando.

Mas Andrew era atraído pela bondade como insetos são atraídos pela luz, e quando ele enfim notou o que estava acontecendo, ele já estava orbitando ao redor daquilo. Foi assim com Renee. Apenas com menos intensidade.

Eles compartilhavam a mesma luz acolhedora, a mesma coragem ardente e a irracional vontade de viver, havia uma sede neles de tomar o que lhe foi tirado o direito: a sua liberdade.

A única diferença entre os dois eram os malditos olhos azuis.

Os olhos de Neil não eram como o oceano. Andrew não confiaria em algo que não conhecia completamente e que não tinha noção da profundidade. Ele jamais entraria em algo sem saber que pode tocar o chão com seus pés. 

Os olhos de Neil tinham o exato tom de azul do céu próximo ao amanhecer, uma bagunça monocromática mostrando aos poucos o brilho de algo maior que estava por vir. Carregava o conforto de mais um pesadelo chegando ao fim. Andrew podia descobrir todos os segredos do universo naqueles olhos.

Andrew já havia desistido, ele era um corpo que esperava o dia de ser enterrado, todos sabiam disso. Todos, menos o novato com síndrome de herói.

Ele tinha um olhar cheio de expectativa toda vez que fitava o rosto inexpressivo do loiro, como se buscasse alguma fagulha de alma perdida naquela casca vazia.

Ele conhecia os humilhantes olhares suplicantes por ajuda, daqueles que iam até Andrew para que ele pudesse resolver o que fosse num passe de mágica. Não era dessa forma que Neil o olhava, Neil não queria ser apenas salvo, Neil queria mais. Neil queria ajudar Andrew a encontrar sua alma.

Seria estúpido se ele tentasse, sua alma estava morta e enterrada assim como sua mãe a mulher que ele matou.

Mas ele não deixou de se sentir estranho e na defensiva. A última vez que alguém o viu como uma pessoa, ele era uma criança, buscando por uma família. E ele deveria saber, mesmo com seus oito anos, que ninguém o trataria tão bem se não houvesse um motivo por trás disso, onde há fogo, há fumaça (ele deveria ter percebido, ele deveria ter fugido).

Andrew não precisava de uma família agora, não precisava de ninguém. Nunca precisou. Era ele quem protegia e mantinha a todos seguros, já que ninguém pôde fazer isso por ele quando foi necessário.

Ninguém nunca questionou seus motivos. Havia uma regra silenciosa estabelecida que obviamente o novo jogador decidiu não obedecer.

Neil perguntava.

De alguma forma, as motivações e ações de um drogado eram louváveis para Josten, aquela raposa buscava sentido em alguém que havia se perdido em si mesmo há um longo tempo, e isso irritava o goleiro.

Andrew quase ficou feliz quando descobriu que Josten logo estaria morto.

Seria menos problema, manteria os seus a salvo e, de quebra, as confusões que o atormentaram por semanas desapareceriam num sopro.

Mas ao invés disso, ele decidiu ajudar.

Andrew não estava sendo altruísta ao estender a mão e protegê-lo, não mesmo, ele jamais diria isso. Andrew estava, acima de tudo, curioso.

Ele queria descobrir como Neil ainda tinha forças para lutar, porque Minyard havia desistido das batalhas e vivia para se esconder, com suas cicatrizes cobertas pelas braçadeiras e se dopando para que todo o resto sumisse. Ele preferia estar bêbado em sua subsistência ordinária a enfrentar seus problemas. Ele já havia lutado o suficiente.

Neil era o oposto. Ele se escondia para estar vivo, ele fugia para se encontrar e se agarrava a qualquer oportunidade de se sentir vivo, livre e real. Ele não cansava.

  Andrew o odiava.

Odiava como Neil era grato pela vida de merda que tinha, porque de alguma forma, fazia Andrew querer pensar em olhar de uma forma menos pessimista a sua vida, isso durava pouco segundos, e logo ele substituia esse pensamento para "Foda-se Neil Josten e sua estupidez", afinal, aquele garoto era apenas um homem morto que esqueceram de pôr uma bala na cabeça.

Andrew odiava tudo o que não podia controlar. Por isso ele se odiava acima de tudo.

Demorou muito tempo para Minyard aceitar podia se atrair por pessoas (por homens.), mas ele tentou por uma barreira nisso, e quando ele ultrapassou essa barreira e começou a encontrar caras que não se importava de saber o nome, ele fez uma outra regra para nunca sentir nada por eles, era algo fácil, algo que ele conseguiria fazer sem nenhum esforço.

Só que Neil perguntava e o olhava nos seus olhos e elogiava suas defesas sem querer nada em troca. Ninguém nunca havia feito isso antes.

Andrew era completamente racional. Ele sabia que não podia ser nada mais que uma carência que nunca foi suprida na infância, ele tinha um conhecimento muito amplo de Psicologia para saber que um ser humano tratado a vida inteira como algo se cativaria ao primeiro que o tratasse como alguém.

Ele tinha consciência disso e, ainda assim, não mandou Neil embora.

Andrew queria se sentir estúpido e inconsequente uma única vez, ele estava cansado de sentir medo das sombras do seu passado.

Às vezes ele se perguntava o porquê de não poder levantar suas mãos para tentar tocar o céu ao menos uma vez. Ele sabia que era distante e inalcançável, mas ele não podia ao menos tentar? Talvez Ícaro não tenha se arrependido em sua queda, talvez morrer tenha sido um pequeno sacrifício necessário para provar o sabor do sol, talvez valha a pena ir além se isso significar ir aonde ninguém nunca chegou.

De qualquer forma, que mal faria? Andrew estava em queda por tanto tempo que ficaria aliviado de sentir o impacto do fim.

Quando sentiu o toque quente em sua pele ao ter seu cigarro tomado pelo outro, Andrew percebeu que Neil levou um pouco de si foi também.

  Foi a primeira vez que algo seu foi levado sem dor.

A fagulha lenta queimando a nicotina nos dedos machucados do garoto era o suficiente para explodir toda a maldita pólvora em sua cabeça.

Era o mesmo efeito, ele percebeu. A fumaça vagarosa que Neil soltava de seus pulmões como se fosse seu último suspiro, que se espalhava pelos céus e pelos seus olhos azuis enevoados deixavam Andrew entorpecido, o gelo dentro de si parecia rachar, tudo dentro dele se quebrava e então remendava por si só e ele se sentia perdido, como as pílulas.

E quando o cigarro estava diante de seus olhos claros, era como o sol encontrando o mar, era como o fim de uma noite, o fim do mundo, era o fim de Andrew.

A maior parte da vida de Andrew fora um completo borrão em sua mente pelas drogas, mas Andrew tem toda a certeza de que cada momento compartilhado sob o céu noturno naquele telhado estarão para sempre gravadas em sua memória colapsada.

  Que clichê patético.

 

II. cigarretes

 

  Talvez ele tivesse sido amaldiçoado.

Porque essa merda acontece periodicamente num looping. Ele se sente confiante e seguro, ele acha que pode dormir com seus dois olhos fechados e com a porta destrancada, mas então um vulto aparece, as cicatrizes do seu passado voltam e o cortam e o violam, então nada mais é passado e lá está ele no fundo do poço mais uma vez.

Andrew gostaria de acreditar quando dizia a si mesmo que não se importava, que ele não era mais a criança que chorava ao ver monstros, que nada mais pudesse atingi-lo.

Era sempre igual, sempre o mesmo sentimento aterrorizante e doloroso, não importa o quão drogado esteja.

É como paralisia do sono: Seu corpo está imobilizado pelo diabo que está em cima de você e tudo o que sua mente pode fazer é gritar, gritar até que tudo acabe. Mas nenhum som sai pela sua boca.

Andrew realmente não sabe como permanece lidando com todos os seus traumas. Bee usava palavras do tipo "corajoso" e "valente" quando se referia a ele, Andrew revirava os olhos e substituía-os por "covarde" e "fraco" por não dar um fim definitivo a esse ciclo amaldiçoado.

Por muito tempo fechar os olhos era doloroso demais, mas quando precisou mantê-los muito bem abertos ao ter Neil em sua frente, ferido e destruído, após o sequestro, ele descobriu que aquilo chegava bem perto.

Ele não sabe quando e nem como, mas em algum momento, perder Neil era como ser deixado no escuro.

A vida ainda era uma grande merda, mas quando Josten estava presente, ela era um pouco mais suportável.

Andrew ainda não precisava de ninguém, porém ele queria Neil.

Algumas sessões longas e silenciosas foram necessárias para que Minyard reunisse coragem – ou o que quer que fosse – para dizer à psicóloga que gostar de Neil era demais para ele.

Ele já tinha problemas o suficiente para três vidas, se preocupar com Neil e com seu bem-estar acabaria com o resto de sua sanidade.

Bee sabia que não era apenas isso – nunca era "apenas isso", era um emaranhado de pensamentos espiralados confusos e caóticos que formavam a mente de Andrew.

Era sobre os monstros. Sempre acabava sendo sobre eles. Andrew aprendeu a se defender antes mesmo de aprender a amarrar seus cadarços corretamente, ele tinha mais facas em seus braços que dedos em suas mãos, ele construiu fortalezas ao seu redor de mármore bruto para que fosse claro que aquele era um território hostil e todos deveriam manter distância.

Mas sua hostilidade sumiu tão rapidamente que pareceu nunca ter existido quando se deparou com o sorriso, as cicatrizes e todo o resto. Ele apenas deu a Neil uma escada para subir a muralha que os separavam, tudo o que Josten precisava fazer era ter cuidado com a altura de tudo aquilo.

Bee dizia que sua confusão era louvável e que estava tudo bem sentir algo por alguém. Ela não nomeou o sentimento, mas Andrew ainda assim se sentiu coagido.

Ela não entendia, ninguém entenderia. Ele passou a vida fugindo daquele tipo de coisa e não acabaria bem se ele parasse de correr agora.

Ele tentava ignorar a voz repulsiva em sua cabeça que dizia coisas como "Talvez você goste de ser tratado como algo, no fim das contas" e "Há diferença, Andrew? Realmente há alguma diferença entre isso e o que faziam com você?"

  A diferença era Neil, ele sabia disso.

Mas nem sempre essa resposta parecia ser o suficiente, e às vezes ele queria distância, às vezes seu maldito cérebro o sabotava e o fazia acreditar que deveria ter algum receio de Neil.

Isso o deixava ainda mais irritado. Não era justo com Neil, não ele, a ser comparado a um monstro. Neil merecia alguém que confiasse nele de olhos fechados, que aceitasse suas mentiras quando ele não podia contar suas verdades.

Andrew ainda não se sentia seguro em retirar suas facas debaixo do travesseiro, por isso que ele não ofereceu imediatamente um espaço da sua cama para Neil. Ele não confiava em seus olhos para distinguir Neil de todas as sombras no meio da noite.

Não era sua culpa, Minyard não se lembra uma única vez que não se sentiu ameaçado com alguém novo. Aquele era seu instinto mais primitivo. Ele precisou temer qualquer presença — qualquer presença masculina, principalmente — para que pudesse passar dos doze anos e ele não era alguém que largava facilmente seus hábitos. Neil não era mais o novato agora, mas o território que eles estavam entrando era inexplorado e delicado, ele tinha certeza de que Neil não se moveria se Andrew não lhe desse uma bússola e um mapa, mas Andrew não sabia para onde ir.

Se Andrew falasse tudo isso, Neil entenderia, sabia que sim, mas Andrew era alguém que preferia morrer a falar.

Ele enlouqueceu quando percebeu que a declaração com o sorriso bonito e olhos brilhantes eram um adeus. Andrew jurou protegê-lo, e ele o teve tirado de suas mãos bem na sua frente.

Porque, naquele momento, Andrew lembrou que Neil era quem iria morrer antes que ele falasse.

Andrew passou tanto tempo pensando em sua morte prematura, causada por alguma eventualidade entediante, que se esqueceu por um segundo que havia uma mira bem na nuca de Neil o tempo todo. 

Andrew ficou cego pelo ódio, pela raiva, dor e desolação, ele não parou até encontrá-lo, e quando ele o reencontrou, todo o mundo se inclinou quando ele caiu de joelhos em frente a um ensanguentado Neil.

Seu sangue esfriou e ele percebeu o quanto sentiu falta do calor, dos olhos, das perguntas, dos cigarros trocados e da paz, mesmo que ele tenha ficado sem isso apenas por alguns dias.

Andrew não conseguia se imaginar perdendo tudo isso permanentemente.

Ele nunca teve nada para chamar de seu em toda sua vida e aquilo que eles tinham, era dele. Andrew não poderia deixar algo assim escapar.

Pela primeira vez, sua mente estava silenciosa em sua total sobriedade, o mundo havia explodido em chamas e tudo o que restara era aquele pequeno pedaço de chão abaixo deles os sustentando, os mantendo um contra o outro, e Andrew não poderia se importar menos, tudo o que ele queria era cuidar de Neil.

Aquilo que ele sentia, o coração acelerado, as mãos frias, a garganta seca e o olhar desfocado não era abstinência pela falta de Neil, como droga, era muito similar, mas o nome era completamente diferente: aquilo se chamava felicidade.

  Andrew havia tido esperança , e lá estava o milagre diante de si. Neil estava vivo.

Os segundos pareciam ter ficado mais lentos e ele não sabia quanto tempo estavam daquela forma, era um efeito estroboscópico, ele sabia, porque sua luz estava em sua frente, piscando viva e corajosamente.

O debate incessante em sua cabeça finalmente chegou ao fim e aquele era o veredicto: Neil nunca mais iria embora ao menos que fosse de sua vontade.

Andrew respondeu um enorme "foda-se" mental para Aaron e todas as vezes que ele disse que ele destruía tudo o que amava.

  Porque Neil estava bem.

 

III. and lights

 

  Depois daquele ano, as coisas ficaram parcialmente melhores.

Andrew não se importava mais com as sombras e com os monstros, Neil poderia ser a luz constante que manteria a escuridão longe enquanto ele tentava ser a sua própria. Pela primeira vez ele não se sentiu fraco por não conseguir enfrentar tudo sozinho, ele se sentiu bem porque sabia que Neil estaria ali e seria o que Andrew precisasse.

  Ele queria o mesmo para Neil.

Neil nunca pediria nada a Andrew e ainda agradeceria qualquer mínimo afeto vindo do loiro. Andrew verdadeiramente o odiava.

Porque Neil não deveria agradecer por ser amado, Neil não deveria se contentar com migalhas e sorrir como uma criança ao receber palavras grosseiras de Andrew como se fossem palavras de profundo carinho.

Aquilo deveria ser cansativo, ninguém aguentaria tantas regras e obstáculos e cautela para receber em troca um afeto tão limitado.

Neil diria que está tudo bem, que Andrew não deve provar nada a ele. Andrew sabe disso e ele realmente está pouco se fodendo para o que Neil acha. Andrew quer provar a si mesmo que consegue.

Que consegue permitir Neil entrar, que consegue ser alguém que Neil se apoie quando seus problemas forem pesados demais, que possa fazê-lo sorrir e corar sem que uma pequena ponta de insegurança surja em seu olhar. Ele quer que Neil o queira pelo maior tempo que for possível.

— Precisa que eu saia? — O sussurro é tão fraco e lento que Andrew demora um pouco até ter a certeza de que não foi apenas uma voz do seu subconsciente, ele lentamente desvia o olhar do teto branco para a cama.

E aí está Neil, cabelos vermelhos como vinho eternamente bagunçados, piscando sonolento e contendo um bocejo, perceptivelmente imóvel, com as mãos descansando embaixo da cabeça.

Havia uma distância de quase dez centímetros entre os dois. Aquelas enormes paredes do passado se resumiam agora àquilo. Dez centímetros invisíveis que poderiam ser destruídos por apenas um "sim".

Ele demora alguns minutos para formular uma frase, voltando a encarar o teto, sentindo sua garganta fechar.

— Preciso que você fique. — As palavras são estranhas em sua boca.

Andrew não gosta de falar além do necessário, orações sucintas e de objetivo claro eram o suficiente, essa era a função da língua: comunicar e compreender, apenas. Ele não entende como transformaram algo tão simples e útil nessa besteira chamada declaração. Falar não deveria deixar ninguém apreensivo e com a pulsação cardíaca acelerada.

Não seria necessário declarar nada se as pessoas fossem verdadeiras em ações. Andrew seria poupado dessa atual situação.

— Tudo bem. — Neil retira uma mão de baixo de sua cabeça e olha questionador para Minyard, a resposta à pergunta silenciosa foi um acenar rude e positivo. — Não irei a lugar nenhum. — Descansa o polegar no pulso pálido e riscado do outro, acariciando em pequenos círculos disformes, de olhos fechados, como se ele ainda estivesse dormindo e tudo aquilo fosse um sonho.

  Poderia ser.

Andrew não está com as braçadeiras naquele momento, a porta está destrancada e, ainda assim, ele se sente seguro.

— Eu te odeio. — O tom é tão suave que ele acha que errou a última palavra. — Odeio. — Repete, porque quer ter a certeza de que utilizou aquela palavra (e porque ele definitivamente odiava).

Seu semblante se fecha e quer subitamente socar o rosto bonito de Josten, aquela situação era totalmente sua culpa. Se ele não fosse tão abominavelmente parecido com Nicky quando se trata de sentir e demonstrar, tudo estaria certo. Mas não, Neil veio à Terra para atrapalhar a paz de Andrew, Neil tinha que gostar daquela coisa estúpida chamada diálogo.

Diálogos eram para idiotas que não tinham neurônios o suficiente para deduzir – o que definitivamente era o caso de Josten.

— Eu sei disso. — Um sorriso simples surge tão lindamente na sua face amassada que Andrew se pergunta se deveria beijá-lo antes ou depois de bater nele.

A pequena carícia de Neil desliza até a palma da mão do loiro, parando e esperando que Andrew avaliasse e decidisse se Neil deveria continuar ou não.

  Vê? Aí está as coisas que devem ser deduzidas.

Neil se mantém acordado mesmo que seja quase quatro da manhã, para ter a certeza de que Andrew está bem; está a dez centímetros de distância mesmo que secretamente aprecie dormir abraçado e suas unhas sempre estão curtas para que jamais arranhe Andrew acidentalmente.

Ele pediu ajuda de Matt para desmontar e juntar as duas camas de solteiro do dormitório para que sempre houvesse espaço entre eles caso fosse necessário, mesmo que nunca fosse necessário.

E Andrew cedeu o lado da cama que encosta na parede para Neil mesmo que apreciasse o frio em suas costas, porque aquela era a sua forma de proteger Neil mesmo enquanto dormissem, o escondendo da porta que ficava diante deles e o mantendo seguro. Ele sempre preparava café o suficiente para duas canecas, comprava agora os cigarros que ele percebeu ser os preferidos de Neil, às vezes participava do treinamento extra mesmo que O Viciado em Exy não pedisse.

Deveria estar claro que o que quer que eles tinham era mais que recíproco. Andrew não precisava de palavras idiotas saindo da estúpida boca de Neil para confirmar nada, eles eram óbvios e claros.

— Está tarde. — Andrew está tagarela essa noite, Neil provavelmente está esperando o pior.

— Ou muito cedo. — A resposta faz Andrew revirar os olhos. — Está tudo bem?

O abajur de luz fraca ilumina a parte limpa do rosto moreno de Neil e provavelmente deveria ser incômodo dormir todos os dias com a luz diante dos olhos, mas ele não se importa com aquilo, assim como não se importava com o persistente peso do olhar de Andrew enquanto tenta pegar no sono, ele está acostumado a tudo isso depois de tantas noites compartilhadas.

Para Andrew, Neil é como um objeto sagrado que deveria ser venerado todas as noites – não que algum dia ele admitirá isso.

Os olhos castanhos e vazios adoram silenciosamente a extensão de pele dourada, os fios ruivos como folhas de outono e a paz etérea que seu corpo exala.

Ele se sente verdadeiramente agradecido por Neil nunca pedir por mais dele, porque aquilo que Andrew o oferece é absolutamente tudo o que ele tem para dar.

Bee diria que não é verdade, que constantemente Andrew está entregando mais e mais chaves para Neil, e que, se eles chegaram até ali, foi por meio de um longo processo que Andrew se permitiu passar. Bee diria que ele tinha que se dar mais créditos.

Neil até poderia não querer mais, mas Andrew anseia por isso. Ele quer um futuro, um futuro agora não tão distante quanto o céu, um futuro com Neil.

Se ele atualmente consegue dormir mesmo sem facas embaixo de seu travesseiro e permite ter alguém em sua cama, ele quer acreditar que poderia também amar alguém e se sentir bem com isso, sem medo de ser machucado.

Os frios dedos de Andrew abrem a mão cálida de Neil e as entrelaça, experimentando a sensação e não deixando de notar o relaxar dos ombros de Neil.

— Viciado. — Acusa, mesmo sentindo que uma parte de si também esteja mais calma com contato. — Obrigado. — Minyard diz a contragosto, franzindo o nariz com a palavra desconhecida em seus lábios.

Por mais que tudo estivesse silencioso àquela hora da manhã, os segundos seguintes parecem perturbadoramente mais silenciosos.

Surpreendentemente Neil se torna muito desperto e se senta na cama como se um fantasma tivesse aparecido.

Ele parecia mais assustado agora que em qualquer outro momento que Andrew quase o matou. O mais velho precisou conter qualquer esboço de uma risada.

Os olhos azuis estavam arregalados e a boca entreaberta, ele soltou a mão de Andrew e os dez centímetros entre eles se transformaram em milhas.

  Por isso Andrew odiava falar.

Ele cerrou os olhos, observando o medo no olhar, o maxilar travado, a respiração desregulada e ele soube que usou a palavra errada. Então ele descobriu.

Andrew havia dito que Neil nunca deveria usar "por favor" com ele e em troca, ele não associou o significado de "obrigado" com "adeus". Droga, dele teria que usar mais de sua incrível habilidade vocal para assegurar Neil.

— Eu não estou indo embora. — Deixa claro, sentindo sua língua queimar pela verdade. Não é apenas Neil que não irá a lugar nenhum.

— Okay. — Sussurra, se aproximando, frágil e desconfiado, como um gato de rua. — Devo saber o motivo disso? — Andrew pensa em dizer não ou apenas ignorá-lo, mas ele precisava dizer.

Andrew é agradecido pelo tempo, pela devoção e sorrisos, por Neil continuar ali mesmo que estivesse no escuro e sem saber para onde deveria dar os próximos passos, ele agradecia o carinho, os cigarros e a esperança em seus olhos.

Ele desvia o olhar para o abajur que se mantinha aceso todas as noites até encontrar as palavras.

— Por deixar a luz acesa. — Sussurra um pouco frágil demais, se amaldiçoando por isso.

Neil se acende, seu sorriso brilhando como a lua que ainda estava lá fora e suas mãos estão quentes enquanto todo o corpo de Andrew está frio quando diz "sim" a algo que nunca foi perguntado.

Ele fecha os olhos e a escuridão não o assusta.

Notes:

:D