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Dizer que Sim

Summary:

Terceiro Doutor vai a uma prisão especial da UNIT visitar um velho amigo. Conflitos antigos e um eco de uma promessa de séculos voltam á tona que ele não está pronto para lidar... E talvez nunca estará.

Notes:

Essa fanfic levou uma quantidade absurda de tempo para ser escrita - para você ter uma noção, estou desde do ano passado escrevendo-a - e também é a primeira vez que escrevi fanfic da série clássica.

Escrevi Dizer que Sim inspirada na música Evidências, por isso o título. Então, eu recomendo que você escute essa música antes e depois de ler só para comer aquela cerejinha do bolo, ou pelo menos só depois de ler.

Enfim, espero que goste.

Work Text:

Era uma vez, uma árvore antiga de tronco grosso e raízes profundas. Até que um de seus vários galhos se bifurcou, e dali nasceram duas frutas gêmeas, uma em cada ramo. Elas cresceram juntas, uma olhando pra outra, uma na companhia da outra.

Apesar de crescerem juntas, serem frutos do mesmo galho, da mesma árvore, elas eram diferentes. Não muito, apenas o suficiente para seu potencial de consumo não ser o mesmo. Tipos diferentes da mesma fruta.

Diferentes porém iguais.

No primeiro dia da colheita, só uma foi tirada da árvore, colocada num transporte e mandada pra longe. Um mês despois, a outra foi colhida e mandada pra outro lugar. Assim, começou um longo período sem se encontrarem.

Mas agora vamos parar de falar de frutas e árvores. E em vez disso, falaremos de algo muito mais pé no chão e palpável a realidade: vamos falar sobre alienígenas.

O que difere um indivíduo do outro e, consequentemente, o indivíduo do coletivo é sua habilidade nata de ter experiências próprias, toda sua memória acumulada, todo pensamento irá se diferir dos outros de seu grupo. Por mais semelhante que seja, porque nada é igual a nada. A partir do momento que um par de indivíduos iguais olham para direções diferentes, vão deixar de ser iguais.

A partir do momento que dois alienígenas percebem uma caixa, um olha para além dela e enxerga vastidões inteiras de galáxias, o outro olha para dentro, enxergando a própria vastidão interna e percebe a complexidade inerente disso. Da caixa ou dele? Um pouco dos dois. Acontece que as galáxias estavam de bobeira, o que olhou para elas, viu um potencial na conquista do desconhecido e traçou seu objetivo. Acontece que dentro da caixa revelou problemas em que a sociedade dele vivia, o como tudo era tão enraizado e antigo, estava muito além do observador.

Então, ambos os alienígenas contaram um para o outro o que viram. Com o complemento de visões, concordaram o que estava ali, não estava certo e portanto, assim que pudessem, iriam sair do planeta para ver o universo. Era uma promessa bonita, muito forte e, a cima de tudo, era um pacto.

Eles caminharam pelas décadas e seguiram por alguns séculos, cada um focou tanto do que tinha enxergado no dia da caixa que, sem perceber, foram sugados por aquilo que não viram: o que viu as galáxias foi sugado pelos problemas de sua própria caixola e a alheia, já o outro foi seduzido pelo universo. De tanto querer manter os pés no chão, voou. De tanto querer voar, caiu sob a terra que o deu boas-vindas.

Assim, Doutor e Mestre nasceram.

Depois de muito fazer no planeta natal, depois de estudar raízes de Garllifrey a partir de algumas de suas contradições, pouco a pouco cresceu um sentimento de não adiantava ficar por lá, que por mais que ele tenha se formado nos conformes, não conseguia ter esperanças de ali pudesse voltar a ser um lugar onde se sentiria bem-vindo e confortável.

E agora o Doutor tinha uma neta para criar e plena consciência do que uma criação como futura senhora do tempo podia fazer com alguém a longo prazo.

A urgência de sair daquele lugar tornou-se insuportável.

Uma noite, daquelas cheias de estrelas, Doutor pensou em chamar o Mestre, se valia ainda a pena afinal. Fazia muito tempo que praticamente tinham parado de se falar. A separação inicial deles não foi com uma briga calorosa e intensa a respeito de moral, como quase todo mundo que veio a conhecer o Doutor especulou, porém sim pelo o mais cruel e frio fator de todos: tempo e distância.

Até a mais fortes das pontes, até o mais resistente dos muros podem ser desgastados pela mera passagem de tempo sem a devida manutenção. Segundo após segundo, década após década. A felicidade torna-se melancolia morna, o pior momento de uma vida torna-se uma memória vaga e adormecida.

Tempo não é o remédio, é um corrosivo.

Espaço e tempo constroem e corroem todas as relações e sentimentos.

O que sobrou foi a sensação de uma promessa há muito perdida no próprio tempo.

Deveria perguntar se ele queria ir junto? A pergunta o deixava ansioso, mais ansioso do que gostaria. Se é que ansiedade é desejada. Era mais pela possibilidade de fazer isso do que a resposta em si, e tudo que viria depois. Será que ele queria fazer isso? Será que ainda fazia sentido? E o mais importante: será que conseguiria ignorar o eco de uma promessa inocente quase tão antiga quanto sua própria existência vibrando na cabeça, caso não fizesse?

O Doutor respirou fundo e cruzou pela porta de casa pela última vez, com sua neta adolescente logo atrás o acompanhando. Horas depois, ele deixa Garllifrey sentindo um peso nos corações.

Sem intenção de voltar.

...

Dois rostos e um exílio depois, o Doutor, agora com cabelos brancos cheios, roupas de babados e sempre com um terno de veludo elegante, tinha ganhado o hábito de atravessar o oceano, de uma ilha para outra, para visitar um velho colega prisioneiro. Quando se é Senhor do Tempo, você conhece tudo que é tipo de pessoa. Acontece que o criminoso em especial era alguém que conhecia antes de sequer se chamar Doutor. Antes de sequer ele se chamar de...

- Você tem certeza que quer ver o Mestre? - o vigia pergunta na sala de entrada da prisão de segurança máxima designada especificamente para o Mestre - Quer dizer, sei que cê vem aqui toda semana o visitar mas ainda não entendi o porquê de insistir tanto. Sabe que ele não vai sair daqui, né?

- Sim, sei sim. Muito obrigado. - fala enquanto entrega os documentos necessários da UNIT para ter acesso à cela de Mestre. - É por eu o conhecer tão bem, que sei do que ele é capaz. Venho aqui pra verificar a tua segurança, não a dele. - o homem devolve os documentos após fazer algumas anotações, o Doutor guarda no bolso interno do casaco. - Tem certeza que não notou nada fora do comum? Nada estranho, mesmo? Sabe que nada é nada de mais e...

- Doutor, tá tudo nos conformes. Não precisa perguntar isso toda santa vez que vem aqui. - o homem abre a porta - Você sabe o caminho e os procedimentos. Vou avisar pra um dos meus seguranças te levar pra sala de visitas.

O senhor do tempo entra, atravessando uma série de corredores estreitos - cruzando com o segurança no caminho -, havia câmeras por todo lugar, além de uma na própria sala de visitas.

- Olá, querido Doutor, - o Mestre se levanta ao vê-lo e se senta assim que ele o faz - a que devo a honra?

O Doutor não responde. Por alguns segundos, ele apenas fica observando o ambiente e ao próprio prisioneiro.

- Como anda o exílio? - acrescenta ele de forma sempre casual e educada.

- Tive que impedir um esquema dos daleks de fazerem uma das conferências de paz que a UNIT protege de dar errado. - ele responde de forma igualmente casual - Eu e Jo descobrimos que eles tomaram a Terra, no futuro, e queriam ter certeza de nada iria impedir que isso acontecesse, anacronicamente falando.

- Esses tais de daleks sempre foram muito inseguros em relação às suas próprias conquistas. É por isso que evito trabalhar com eles. Então, o que aconteceu? Imagino que tenha conseguido os impedirem, já que não ouvi nenhuma notícia da Terra ser dominada por daleks.

- De certa forma, sim, - o Doutor desvia o olhar, pensativo - mas não chamaria de vitória.

Um momento breve de silêncio se passa pela sala vazia. O Mestre levanta as sobrancelhas, levemente curioso.

- O prédio da reunião foi explodido. - completa de forma meio bruta, dava pra notar a decepção e vergonha no tom de voz e olhar vago do visitante encarando a mesa. Por de baixo da mesa, dava pra sentir um joelho balançando. O Doutor estava visivelmente inquieto.

O Mestre deixa escapar um riso silencioso com a notícia. Um riso genuíno.

- Você realmente se apegou à esses humanos. Ficar tanto tempo preso nesse planetinha não te fez bem, Doutor. Você sabe disso. Acho engraçado que conseguiu se acostumar com eles mesmo estando tão preso aqui quanto eu. - mais um momento de silêncio que se estende por vários segundos - Fala sério, você arranjou um emprego! Nossos professores iriam se surpreender com isso. Quanto você é pago?

- Pouco, na verdade... - ele pausa para realmente considerar a questão por um único instante - ... ou nada. Mas o dinheiro nunca foi muito importante, meu trabalho na UNIT é mais uma troca de favores que faço com o Brigadeiro. Ele guarda a minha TARDIS enquanto não consigo concertar ela, me dá o laboratório mais avançado pra época e, em troca, eu o ajudo a resolver os problemas constantes que... bem, todas as espécies parecem causar aos humanos, inclusive eles mesmos. Nunca vi uma espécie tão despreparada pra lidar com qualquer coisa como eles.

- Emprego numa organização militar... Você realmente deveria tá desesperado por alguma coisa pra fazer durante esses anos, hein?

- É fácil d'eu me entediar - o Doutor dá ombros.

Mais uns instantes de silêncio percorreram a sala.

- Sabe, eu não entendo o porquê de você não aceitar vir comigo, - Mestre comenta olhando quase fixamente para o Doutor, que por sua vez lhe dirige o olhar - dividirmos o universo... Reinarmos, juntos. - a última palavra dita bem mais baixa que o normal, quase como um desejo. Um pensamento vago.

- Reinar? - o Doutor endurece - É sempre sobre isso, né? Você tem essa obsessão toda por poder, um poder absoluto e totalitário. Você acha que eu recuso todo esse poder simplesmente por ser muito? É por ser absolutista por essência, isso vai diretamente contra tudo que quero trazer pro universo. Eu tenho ativamente lutado contra isso e ajudado civilizações inteiras a se rebelaram contra totalitarismo. - o Doutor para e respira fundo, sentindo seus peitos doerem no processo, como se tivesse se esquecido de puxar fôlego antes de falar. Sentia cada músculo de suas costas se tensionar até o momento que sentiu pontadas de dor. Ele cruza os braços. - Tenho amigos que me deixaram só pra dedicar o resto de suas vidas para a recuperação de algumas dessas civilizações, inclusive... - um nome forma na boca dele mas não é dito, um nome pelo qual prometeu seguir, um nome pelo qual prometeu voltar. Um nome que prometeu amar. E amou como tinha amado poucas coisas em sua vida.

Susan.

Falando em promessas...

- Poder - Mestre começa a dizer, ainda soando calmo e casual - fala como se tivesse medo. Poder nunca fez nada com quem o usa, porque é um conceito abstrato. E como todo conceito abstrato, ele não existe de verdade, apenas se um grupo de pessoas acreditarem que existe e que alguém o possui. "Poder" só existe através da validação coletiva. - ele deixa as palavras chegarem aos ouvidos do visitante e depois passarem na sala - É tipo dinheiro. Só tem valor, exerce influência e é legítimo se existirem um grupo de pessoas que acreditam nisso e agirem de acordo. Se não, - ele bate com as mãos nas coxas - é só um monte de papel e metal com números aleatórios. - ele volta a encostar na cadeira. - Mas, você insiste em se apegar a termos técnicos - ele dá ombros - como se termos significassem alguma coisa, e não o que se faz por eles. Vejo que os humanos dessa época estão particularmente inclinados para o totalitarismo. Termos são só palavras, né?

São só palavras, né?

O Doutor suspira com a consciência pesada. A força de hábito sugeria para que continuasse a rebater, discutir sociologia. Ter esses embates morais com seu velho amigo eram sempre interessantes, porém o que sentia era um desânimo geral misturado com a vergonha de não ter conseguido ganhar completamente sob os daleks.

A que custo ele perdeu?

Quantas vidas custaram uma derrota?

Quantas ainda vão custar?

Cada erro dele, cada passo mal calculado, cada segundo demorado eram vidas queimando.

E se juntarem-se para governar uma porção do universo, poderia fazer planos a longo prazo que impactariam a vida de trilhões de seres vivos. Porém se errasse, seus erros seriam esmagadores, sufocantes. Insuportáveis. Mas ao menos, seria ele tentando... não é???

O eco de uma promessa perdida volta a tremer em seu crânio. Algumas coisas nem o tempo mais apático e frio podia corroer.

Ele tinha prometido voltar por Susan do mesmo jeito prometera viajar com o senhor do tempo a sua frente, mas são só palavras, né? Termos não significam nada.

Não é?????

- Meu querido Doutor, você tá pensando com tanta intensidade que eu consigo sentir teus pensamentos. Pelo amor de Rassilon, se recomponha. Nossa, seu tempo na Terra realmente acabou contigo.

- Não é como se eu não tivesse tentando sair desde do primeiro dia que cheguei, sabe? Mas. Eu. Não. Consigo. Por causa do concelho maldito e suas leis sem pé nem cabeça. Sabe duma coisa? Você tava errado: eu não tô tão preso aqui quanto você, eu tô muito mais. Pelo menos, cê ainda tá com suas memórias intactas pra pilotar sua TARDIS, comigo... nem isso. E tem um circuito de decolagem faltando!!

- Bem, o da minha não tá... - o prisioneiro arqueia as sobrancelhas, sugestivo e um esboço de um sorriso divertido no rosto.

Doutor suspira pesadamente.

- Não queria abandonar minha TARDIS aqui.

- Sabe, doutor, às vezes, nem você pode vencer.

Diferentes, porém iguais.

O visitante fica com um olhar vago, reflexivo.

Vamos nos distanciar um pouco da cabeça do conselheiro científico da UNIT para ter uma visão geral melhor:

A situação é que o Doutor está emocionalmente exausto e sobrecarregado. Fazem décadas desde da última vez que sentiu um fluxo tão grande de tantas emoções negativas no seu cérebro e tudo isso estava sendo demais para ele. Desde o início do exílio, ele vive estressado, desconta sua frustração em seus amigos, funcionários da UNIT, e sinceramente, em qualquer cabeça teimosa que tiver de convencer algo. Ele passou a lutar, imobilizar e até desmaiar as pessoas quando perde a paciência com elas e as passa considerar um obstáculo.

Ficar preso na mesma época por tanto tempo era estressante demais, muito além do que imaginara. Ele se esquecera do quanto o tempo linear era devagar, lento, quase paralisado. Tudo demorava para acontecer. Os dias não passavam, as horas não circulavam. Até as invasões extraterrestres custavam para aparecer, quando apareciam, não conseguia se divertir tanto quanto antes e as derrotas passaram a persegui-lo desde da vez, no primeiro ano de exílio, que o Brigadeiro mandou matar uma quantidade enorme de silurianos adormecidos, sem chance de defesa.

O garllifreyano não estava somente preso àquela época, ou àquela esfera flutuante condenada ficar zanzando ao redor de outra esfera flutuante cheia de explosões de hidrogênio que, um dia, consumiria cada outra esfera flutuante daquele canto da galáxia.

Não. Não era só isso.

Era, acima de tudo, voltar a estar preso dentro de uma lógica desnecessária e extremamente hierárquica. Regras demais, comprometimento de menos. E não existia nada mais hierárquico no universo que militares.

Era como se depois de séculos de fuga de Garllifrey, - um lugar do qual ele fugiu pelos mesmíssimos motivos que ele odiava a lógica militar - ele tivesse voltado a ficar preso lá. Fora tão longe para no final acabar preso de volta a hierarquia desnecessária e de baixo das asas das leis dos senhores do tempo.

Então, sim, ele andava estressado. E tinha motivos de sobra para estar constantemente impaciente, só que a culpa não era de nenhum daqueles terráqueos. O problema - ou ao menos, um deles - é que não dá para ficar racionalizando suas emoções o tempo todo quando tudo o que quer é descontar em alguém.

Outra prova de que estava de volta ao seu ponto de partida, onde tudo começou, é que, do outro lado da mesa, estava o Mestre lhe oferecendo tudo que ele sempre quis, seu plano desde o começo: sua TARDIS e uma companhia para fugir de um planeta estressante, cheio de problemas que quase considera sua casa, já que não consegue pilotar uma TARDIS por conta própria.

Iguais, mas diferentes.

Porém nada era como antes, nunca poderia ser de novo pois ele viveu duas vidas inteiras desde da última vez, algumas decepções e mágoas são grandes demais para serem superadas.

Cada rompimento, cada desapontamento era um passo na direção oposta um do outro até que a distância se tornou insuperável, até que, um dia, simplesmente parou de negar a existência dela e passou a agir de acordo.

Mas mesmo assim...

Diferentes, porém iguais.

Se nada era como antes, se a distância era insuperável, se algumas mágoas são grandes demais... Por que continuava sendo afetado pelos pedidos do Mestre? Por quê se via sequer hesitando em negar?

Ou será que hesitava em aceitar?

Cada promessa não cumprida era uma derrota que vinha o assombrar. Cada arrependimento, cada dúvida.

Bem sútil e gentilmente o Mestre toca nas mãos dele, um gesto que poderia ter passado despercebido até por ambos. Independente disso, o toque ajudou o Doutor a ser trazido de volta para o presente, para a sala de visitas da prisão no meio de uma ilha.

Às vezes, nem ele consegue ganhar.

- Acho que você tem razão. Nem sempre consigo o que eu quero, mas independente do que eu quero ou não, o exílio é a nossa realidade compartilhada. O que de fato temos. E não dá pra fugir disso... por enquanto. - o Doutor levanta as sobrancelhas ambiguamente. Aquela regeneração dele tinha tornado-se especialista em falar uma coisa porém deixar outra no ar.

Era uma ambiguidade divertida de ser pega e até doce, por um lado. Ela significava que 1) os joguinhos entre os dois continuariam e não vão acabar tão cedo e 2) por mais que continuasse negando a partilha do universo, não estava pronto para aceitar a vida que lhe era oferecida mas também não estava completamente certo de negar.

De volta ao status quo. Doutor e Mestre testando até onde eles eram diferentes e até onde eram iguais.

Os frutos iguais do galho bifurcado se reencontraram depois de anos separados, mas não estavam preparados para voltar a serem uma unidade.

O Mestre continua olhando para seu velho amigo, visitante, inimigo, companheiro, sente um fundo de satisfação ao olhar nos únicos olhos familiares para ele no planeta inteiro. Pensou em tudo que já foi e poderá ser. O futuro é uma promessa: uma que pretendia manter a palavra. Talvez não hoje, não amanhã, um dia. Talvez depois de fugir da prisão e o homem a sua frente se soltar das amarras dos senhores do tempo.

Tudo isso iria passar.

Se ele ainda se agarrava a sua crença, talvez o Doutor também fizesse. Aliás eles não são tão diferentes assim.

O Mestre sente a mão de seu antigo amor relaxar por baixo do toque da dele.

Não consegue segurar um pequeno sorriso diante do sentimento. Lá na prisão, estava sendo a primeira vez que eles conseguiam realmente conversar desde que o Doutor fugira de Garllifrey. Desde que a promessa de dois jovens alienígenas que tinham um universo inteiro para explorar além da caixa fora quebrada.

- É, por enquanto. Porque agora eu tô preso nesse lugar cheio de câmeras de segurança e guardas... Que má educação minha, eu nem te ofereci água. - responde tentando ao máximo, com sucesso, manter o tom casual despreocupado na voz mesmo que refletisse em nada a realidade de ambos no momento.

Era como funcionava: tinham que manter o joguinho de pé em nome não do orgulho, mas da falta de (auto)confiança para baixar completamente a guarda, mesmo estando completamente sozinhos. Alimentando assim uma rivalidade que apesar de existente, era muito menos séria do que parecia. Um pouco de manter as aparências, um pouco de diversão.

Cá entre nós, era quase uma loucura que eventualmente se tornaria insustentável de disfarçar as evidências enquanto, aos poucos, eles estravam numa espiral de negação. Nenhum deles realmente acreditavam nas mentiras que contavam a si mesmos e um ao outro, mesmo que lá no fundo soubessem da verdade. Porém, como a verdade era muito mais complicada de lidar, eles caminhavam assim sobre os próprios empecilhos que colocavam no caminho.

Os ombros do Doutor relaxam um pouco.

Um pensamento em comum surgiu na cabeça dos dois senhores do tempo quase simultaneamente, uma sensação.

Verdade, como senti saudades disso.

O que já haviam esquecido é que as mãos continuavam lá paradinhas uma sob a outra.

- Isso seria muito bom, na verdade.