Work Text:
Meio cigarro queimava no cinzeiro, sua fumaça subia em espiral pelo ar, espalhando o cheiro do tabaco pelo cômodo. Mesmo que fumasse apenas quando os nervos o afligiam, o rastro da nicotina, impregnado em suas cortinas e no couro das lombadas dos livros, não escondiam de ninguém que Severo Snape era um fumante ocasional. Foram poucas as tragadas necessárias para aplacar sua agitação por mais um pesadelo com as presas de Nagini lhe rasgando a carne do pescoço. Para quem teve a garganta dilacerada, era uma bênção – ou talvez, uma ingratidão – hoje, fumar.
Naquelas noites insones, sua cicatriz adormecida voltava ao rubor de outrora, e até o leve roçar na gola de algodão lhe causava incômodo. Ele não sabia se a dor era real ou apenas mera lembrança, despertada e revivida por um sonho ruim. Com um maneio para espantar o arrepio em sua espinha trazido pelo pensamento, sorveu o último gole de Uísque de Fogo, sentindo o ardor reconfortante descer por sua garganta, que em outros tempos, não suportava nem o sofrimento de tomar o caldo do St. Mungus, sem nem poder gritar de dor, pois sua voz o havia deixado.
— Maldita cobra. — resmungou.
Puxou a manga longa de sua blusa até a palma da mão, e com o pulso encoberto, esfregou a superfície envernizada do tampo do piano, apagando o vestígio da marca redonda do copo na madeira, antes de pousá-lo vazio ao lado do cinzeiro. Ele bem sabia que Hermione odiava as manchas de copos na madeira. O apego que ela tinha aquela velharia, ele não entendia. Não era como se ela soubesse mais do que meia dúzia de notas – o que era surpresa, afinal, era uma das poucas coisas que a Sabe-Tudo não sabia. E os dedos calejados de cortar, amassar e triturar ingredientes de poções de Severo, já não lembravam mais do que uma ou duas canções, ensinadas por sua mãe antes dele ingressar em Hogwarts. Arriscou uma nota si bemol; e como se fosse novamente um menino, compartilhando o pequeno banquinho do piano vertical com sua mãe, deixou as pontas de seus dedos percorrerem as teclas de marfim e ébano, levados pela nostalgia, preenchendo o ambiente com Chopin.
Mergulhado na melodia serena, não ouviu os passos suaves no assoalho, que indicavam que Hermione fora acordada pela música ou pelo vazio ao seu lado na cama. Sentiu as mãos pequenas em seu peito e os lábios quentes em seu rosto, tirando-o de seu transe.
— Não consegue dormir? — perguntou ela, enquanto sentava-se ao seu lado.
Ele balançou a cabeça. — Desculpe se a acordei.
Hermione não precisava perguntar, pois sabia que o monstro debaixo da cama, às vezes, rastejava para os sonhos de seu marido, fazendo-o suar e se debater em seu terror noturno.
— Continue. Gosto de ouvi-lo tocar. — sorriu, incentivando-o.
Deitou a cabeça no ombro dele e o observou voltar a dedilhar com graça as teclas do piano, deixando-se levar pela placidez que aquelas notas traziam, como um bálsamo para acalmar os sonhos ruins.
