Work Text:
Todas as manhãs, Lily iria se levantar, tomaria um belo café da manhã com seu marido e seu filho, se vestiria, levaria Harry para a escola e, por fim, chegaria ao seu doce trabalho: a floricultura da família Evans.
Desde sua bisavó paterna, todos na família eram ensinados a serem floristas, e poderiam escolher trabalhar com isso durante sua vida. Seu pai havia passado seus conhecimentos para ela depois que ele resolveu que não era o que queria para si; mas a jovem ruiva decidiu abraçar seu legado e cuidar das flores.
A cada dia de seu trabalho, ela recebia diversas encomendas de flores e vendia vários buquês e coroas para apaixonados e enlutados, todos sempre a questionando sobre significados, combinações e fragrâncias, e trazendo as mais belas histórias de amor e companheirismo. Com a loira não foi diferente.
Era uma tarde comum, até que uma moça adentrou correndo a floricultura, ela parecia nervosa e apressada, então Lily rapidamente se dirigiu a ela com o intuito de oferecer-lhe ajuda. Acontece que a loira em questão estava desesperada para achar um bom presente para sua namorada para compensar seu atraso para o encontro com a mesma. Esse era um problema recorrente entre seus clientes.
Como de praxe, ela começou a questionar seus gostos e montar seu buquê de acordo com cada escolha da outra. Quando terminaram, a loira finalmente foi se despedir e pegou um cartão de visitas.
Horas depois, quando já havia tido seu encontro e estava só relaxando na cama, ao lado de sua namorada, Marlene — vulgo a loira — resolveu acessar o Instagram que havia no cartão da floricultura por pura curiosidade (e, convenhamos, ela achou a atendente até que bem bonitinha…), e, de lá, encontrou a conta da Lily em si e resolveu stalkear, só um pouquinho.
Flores, flores, uma criança, flores, um cara, flores, flores, um cara com uma criança, flores, uma moça com outro cara e outra criança, flores e mais flores e mais crianças e mais caras e mais moças…
E nos stories, tinha esse cara sendo marcado e na conta dele, ela chegou à óbvia conclusão de que ele era seu marido e o garotinho, era seu filho. Não poderia dizer que ela não ficou decepcionada, mas a vida que segue, não é mesmo? Não é como se Lily fosse a última mulher da Terra, e Dorcas ainda existia, e era perfeita.
Por outro lado, Lily também achara a loira muito bonita, e gostaria de vê-la novamente. Só precisava da oportunidade perfeita e de saber se ela era não-monogâmica também. Infelizmente, ela não tinha um cartãozinho para saber suas redes sociais, então precisaria aguardar até a encontrar novamente.
Como se o universo conspirasse para isso, pouco mais de uma semana depois, uma encomenda de flores foi feita para o prédio ao lado do escritório de Marlene. Por sorte, estava justamente em seu horário de almoço, e voltava de um restaurante próximo.
Era uma coincidência boba, mas Lily ficou feliz em vê-la, afinal, se não podia apreciar sua beleza por fotos, pessoalmente era melhor ainda.
Um dia, Lily pensou, talvez pudesse conversar com a loira novamente, e, então, a convidaria para sair. É, talvez um dia.
Ou, talvez, hoje mesmo. Sabe como é: o universo gosta de brincar com a gente.
Por acaso, Dorcas precisava de um tal substrato especial, e havia mencionado com Marlene, que, ao ver a ruiva, se lembrara de que ela, talvez, vendesse em sua floricultura esse tipo de produto, então, poderia matar dois coelhos com uma cajadada só.
— Oi! Tudo bem? Você é a dona daquela floricultura Evans, né? — Marlene iniciou a conversa, quando já estava próxima de Lily.
— Ah, oi! Sou eu sim. O que precisa? — apesar de não querer, ela teve que ser bem direta: o carregamento estava quase acabando e ela precisava acertar o preço com o cliente e voltar para o trabalho.
— Bem, se lembra de mim? A moça que tava atrasada pro encontro? Bem, a minha namorada precisa de um substrato pras plantas dela e eu não tenho a menor ideia de onde se vende isso, mas imaginei que você poderia saber, ou vender lá na sua loja.
— Lembro sim — um sorriso permeava o rosto da ruiva: não tinha como esquecer dela, nem se quisesse —. Temos vários substratos à venda, pode passar na floricultura se quiser. Caso precise, eu também posso verificar se algum outro lugar tem, se não tivermos.
Marlene agradeceria a Deus – se n'Ele acreditasse – por poder ver Lily duas vezes no mesmo dia, mesmo que provavelmente não fossem sair de verdade, poderia alimentar suas falsas esperanças e isso era quase tão bom quanto.
Horas depois, a loira já estava a caminho da floricultura e seu coração palpitava com a expectativa, mesmo com a questão de Lily ser casada, só vê-la já era um conforto.
Se encaminhou para a loja, e ensaiava em sua cabeça o roteiro de falas que havia construído em sua mente durante a tarde.
— Boa tarde! — ela entrou na loja e, imediatamente, cumprimentou.
— Boa tarde! Que bom que voltou. Os substratos ficam por aqui, me acompanhe, por favor. — Lily estava visivelmente animada com a presença de Marlene, o bom humor transbordava em suas palavras.
As duas foram juntas até a seção de substratos, e, durante uns dez minutos, o mundo parecia ser só delas. Nada mais importava do que estar alí, uma com a outra. Era assustador, também, pensar nisso. As duas tinham medo da outra não querer nada consigo, mas imaginavam uma realidade paralela onde queriam. Mal sabiam que viviam nessa mesma realidade.
Depois de um tempo, puderam ouvir o som de um carro estacionando em frente ao local, e um menininho – que Marlene reconheceu das fotos que vira no instagram – vinha correndo apressado, acompanho de um homem que devia ser seu pai.
— Mamãe! Mamãe! — o pequeno corria como se não houvesse amanhã e pulava no colo de Lily.
— Harry, como foi o dia na escola, meu amor? — A ruiva, ainda ciente da presença de Marlene ao seu lado, tentava agir com naturalidade frente ao filho, mas sentia que falharia a qualquer segundo.
— Ah, oi, querida, achei que já tinha fechado a loja, não queria te atrapalhar com os clientes. Vou com Harry para os fundos, ok? — James sempre sabia identificar os sentimentos de Lily, mesmo quando esta tentava escondê-los.
Ela agradeceu, e voltou seu olhar para a loira, que fingia prestar atenção no rótulo de algum produto qualquer.
A situação ficara inegavelmente estranha, até que Marlene finalmente decidiu que deveria tomar alguma iniciativa em relação a isso.
— Sabe, Lily – posso te chamar de Lily? — recebeu um aceno em resposta, então continuou, nervosa — eu sei que a gente se conhece há pouco tempo, mas eu realmente 'tava interessada em você. Me desculpa por isso, por favor. Eu sei que você é casada, e tals, mas ao invés de eu ficar fingindo que tô aqui só pelo substrato, 'cê toparia sair comigo? É idiota te perguntar isso, eu sei – até por causa de teu marido ou namorado, sei lá –, mas eu precisava perguntar mesmo que eu vá receber um belo de um "não".
Tudo isso saiu da boca de Marlene o mais rápido possível, para evitar que acabasse ficando com vergonha no meio e desistindo.
Surpreendentemente, o discurso foi bem recebido pela outra, que começou a sorrir incontrolavelmente.
— É claro que eu quero — o sorriso permanecia quando ela começou a explicar —. Eu também queria te chamar para sair, mas 'tava com medo de você ser, tipo, monogâmica e acabar me achando uma louca. É difícil, às vezes.
— Bem, eu não sou monogâmica e parece que tu também não, né? Fico feliz que a gente tenha conversado. E sobre a gente sair, me passa seu número para a gente combinar certinho? — Já tinha perdido a vergonha na cara há um tempo, então não custava abusar um pouquinho mais.
Ir ao parque assistir um desfile de flores definitivamente era o melhor presente que Lily poderia receber, e o melhor encontro que podia imaginar.
Marlene era incrível, e disso não tinha dúvidas, desde aquele dia, quando começaram a conversar horas e horas a fio por mensagens. Pareciam duas adolescentes bobas, isso sim.
Estava tudo indo maravilhosamente bem. Lily conhecera Dorcas alguns dias antes, e já haviam se aproximado bastante. Marlene sinceramente não achava que elas acabariam ficando juntas também, mas conseguia imaginar perfeitamente uma bela amizade entre elas.
Harry gostava de Marlene, o que, para a loira, era um grande elogio.
Depois do encontro no parque, Lily resolveu convidar Marlene para um almoço na casa de seus amigos, dali uma semana, na expectativa de se aproximarem mais.
Durante esse tempo, James também havia encontrado um rapaz e a esperança de que os dois tivessem mais relacionamentos, depois de tanto tempo só entre eles, era legal, mesmo que para muitos possa parecer negativa.
Marlene planejava o pedido de namoro junto com Dorcas, que parecia mais que animada para a oficialização do relacionamento das duas. Deveria ser perfeita, e realmente foi.
Em um belo dia de verão, quando a loira e a ruiva tomavam um sorvete na praça, e, aparentemente do nada, Marlene tirou uma caixinha da bolsa, e abriu-a mostrando um belo anel, com toda coragem que reunira nos últimos dias, disse o que tanto ensaira, tentando focar simplesmente nas flores em seu cabelo:
— Lily Evans, namora comigo?
