Work Text:
Olhando pela janela, Erwin Smith podia ver o sol e o céu azul. Era uma tarde de temperatura amena. O sol não estava tão quente e vez ou outra uma brisa entrava pela janela da sala de aula. O típico clima de outono. "Concentração, Erwin! Você precisa terminar essa explicação antes de começar a divagar", pensou o professor. Ele era alto e forte, seus cabelos loiros estavam bem penteados para o lado, usava camisa social branca de manga longa, colete de linho verde e uma calça preta de sarja.
Erwin havia passado a semana inteira afoito para que chegasse logo sexta-feira. Alguns alunos perceberam sua inquietação, então tentaram distraí-lo de várias maneiras. Ele recebeu balas, chocolates e até um creme para os pés que Gabi e Falco, dois de seus alunos, lhe deram. "Para o nosso professor de história mais legal", eles disseram. "Mas eu sou o único professor de história deles desde que entraram na escola", Erwin contestou mentalmente. Mais cedo, naquele mesmo dia, eles haviam questionado sua inquietação e ele apenas disse que estava ansioso para se encontrar com uma pessoa especial.
A semana anterior tinha sido inteira de provas, ele se dedicou quase integralmente ao trabalho e ficou muito satisfeito de ver bons resultados das suas turmas, pouquíssimos alunos ficaram com notas abaixo da média. Estes ele faria um plano de aula à parte e tentaria métodos diferentes, mas isso só na segunda-feira porque sexta-feira era o seu dia de descanso. O dia que se encontrava com ele. Na semana anterior Erwin não pôde ir ver a pessoa que tanto queria já que estava abarrotado de provas para corrigir, mas dizia para si mesmo que Levi não ficara chateado. Afinal, ele sempre parecia bem indiferente, o que machucava o professor.
O final da última aula já tinha chegado, o professor de história liberou a turma para que saíssem mais cedo já que o conteúdo do dia já tinha sido finalizado.
— Tchau, senhor Smith! — disse Udo, acenando e saindo da sala.
— Se cuida, professor! Até segunda! — disse Zofia, passando perto da mesa do professor e deixando um bombom. — As minhas notas melhoraram muito, obrigada!
Smith deu um sorriso sincero e apertou a mão da garota de rabo de cavalo.
— O mérito é todo seu — respondeu com um sorriso radiante.
Entregou um pacote pequeno de jujubas que sabia que ela gostava. Reforço positivo era um dos melhores métodos para lidar com ela, claro que cada estudante respondia de uma maneira diferente. Ela sorriu e saiu, comendo suas jujubas coloridas e açucaradas.
— Boa sorte com o seu encontro, professor! — gritou Gabi, acenando.
Erwin ficou um pouco constrangido, mas deixou passar. Acenou para a garota de volta.
— Tchau, professor! — disse Falco.
Os dois saíram da sala com Falco perguntando se a avó de Gabi poderia dar uma carona e se eles podiam passar a noite jogando videogame já o pai dela não estaria em casa.
Quando todos os alunos já tinham saído, Erwin saiu também e fechou a porta da sala de aula. Passou na frente de algumas salas que ainda estavam tendo aula, olhando para dentro de uma delas pôde ver Hange dando aula. Ele estava com seu cabelo castanho preso em um rabo de cavalo, mas já estava completamente bagunçado e o óculos quase caindo do rosto. Usava um jaleco branco meio sujo, calças de moletom cinza, uma camisa estampada com a fórmula da fotossíntese e crocs. Hange Zoe lecionava biologia para as turmas do ensino médio e últimos anos do fundamental. Estava falando muitíssimo empolgada sobre algum assunto que Erwin não fazia a menor ideia de qual era. Prestando um pouco de atenção ele conseguiu entender que era sobre Mendel, genética. Um dos seus assuntos favoritos e os alunos amavam o jeito animado dela.
O sinal para o fim da aula tocou, ele dispensou os alunos e Erwin entrou.
— Vamos no Ackerman's hoje? Eu pago — perguntou, sem cerimônias.
Ela o olhou séria e negou com a cabeça. Depois desviou o olhar e continuou arrumando seus materiais.
— Você tem que ser mais independente. Se quer ir, vai! — disse baixinho, enquanto terminava de arrumar suas coisas.
Ele colocou a bolsa no braço e olhou novamente para Erwin, agora não tão sério.
— Admite logo que você tá caidinho pelo baixinho ranzinza — ela disse soltando um riso sínico, como era de costume quando sentia que tinha razão.
— Não sei de onde você tirou essa ideia — o loiro respondeu prontamente.
"Pelos céus, Erwin! Seja menos óbvio.", pensou. Coçou o queixo e olhou para o chão, um sinal claro de nervosismo.
— Para de frescura, homem! — ela disse alto e dando um tapa estralado nas costas dele. — Você só tem que olhar nos olhos dele, segurá-lo e dizer "eu quero ficar para sempre com você, lindinho! Vamos casar e ter três filhos". Viu só? Simples!
Zoe segurou Smith pelos ombros e olhou nos olhos dele, como se estivesse tentando encenar o que ele deveria fazer.
Erwin não pôde resistir e gargalhou alto.
— Eu não falo assim.
— Não mesmo. E é por isso que vocês não avançam nunca. Seja direto com o que você quer, Erwin!
Ela apontou o dedo para ele, acusando. Era bem nítido que ela tinha razão, sempre tinha. Hange era um bom amigo, eles se conheceram na escola porque começaram a lecionar na mesma época, eram os professores novatos. Os anos passaram e ela se tornou uma amiga insubstituível, a única que realmente dizia o que ele precisava ouvir. Ela já estava cansada com a situação do amigo. Ouvindo-o suspirar por horas a fio a respeito de Levi. Sobre o cabelo, a tatuagem de asas que ele tinha nas costas, o semblante emburrado e outras várias coisas que já estavam tirando o professor de biologia do sério.
— Eu vou com você — ele disse, depois de alguns segundos calado. — Não aguento mais te ouvir com Levi pra cá e Levi pra lá. Só aceito ouvir sobre esse pintor de rodapé quando for pra me convidar pra ser o seu padrinho de casamento.
— Hange, você é o melhor — respondeu aliviado. — Tá bom! Eu admito que gosto dele.
— Finalmente! Sabe, você estaria perdidinho sem mim, o seu fiel escudeiro. Eu sou tipo o seu Sancho Pança.
— Ou o meu John Laurens.
Smith pegou a bolsa dela e saiu da sala carregando. Assim ela poderia trazer os livros sem ficar cheia de coisas e derrubando tudo pelo caminho, o que já era de costume. Ela pegou os livros e materiais restantes na mesa e seguiu o amigo.
— Você tá ligado que ele e o Hamilton, tipo, se pegavam horrores, né? — ele falou, enquanto fechava a porta.
— Fui eu que te contei isso. E não é como se a gente não tivesse feito isso também.
Erwin sussurrou a última parte da frase e viu Hange ter uma crise de riso no meio do corredor.
— Aquilo foi só pra fortalecer a amizade, Erwin!
Os dois foram até o estacionamento da escola numa conversa intensa sobre John Laurens e Alexander Hamilton terem sido amantes.
— E aquela parte da carta que ele diz pro Laurens ir ver a noite de núpcias dele? Ah, por favor! Tá na cara que eles sentavam para caralho um no outro.
Neste momento, Hange já estava com os nervos a flor da pele, falando extremamente alto e empolgado.
— Quem foi ver a noite de núpcias de quem? — uma voz conhecida perguntou.
Olhando ao redor viram Moblit com seu cabelo castanho repartido ao meio, como sempre. Estava esperando Hange para dar uma carona já que toda sexta-feira ele saía mais cedo do trabalho no consultório e vinha buscar o namorado.
— John Laurens. Ele e Hamilton claramente tinham um caso — respondeu Hange, indo em direção a Moblit.
Aparentemente ela não tinha notado a presença dele até então. Eles se cumprimentaram com um selinho e um abraço. Smith esticou o braço para dar um aperto de mão, mas o médico ignorou e abraçou o professor de história. Moblit sempre foi bem grudento com todo mundo.
— É impressão minha ou você ficou mais forte, Erwin?
— Ele anda malhando mais, por que será? — disse Hange.
Os dois começaram a apertar o braço, peito e costas de Erwin. Estavam no estacionamento em plena luz do dia. O professor de história estava começando a se desesperar com a ideia dos boatos que surgiriam se os vissem naquela situação.
— Vocês podem, por favor, fazer isso em outro momento?
Ele tentou parecer impaciente, mas falhou miseravelmente. Na verdade, estava muito feliz que alguém havia notado que seus músculos tinham crescido. Mas não queria que seus alunos ou outros colegas de trabalho vissem ele e os amigos com suas brincadeiras.
Conversaram trivialidades por algum tempo, então o casal ofereceu uma carona para o amigo que aceitou de bom grado. No caminho, obviamente, eles falaram sobre Levi. Marcaram um horário para que Smith fosse buscá-los, já que hoje ele iria dirigir. Eles sempre revezavam quem dirigia para que os outros bebessem sem problemas. Para o loiro, a parte mais difícil seria ter que encarar Levi completamente sóbrio.
O casal deixou Erwin em frente ao seu apartamento e se despediram. Não era um prédio luxuoso e nem grande, na verdade, a maioria dos moradores eram pessoas solteiras ou casais sem filhos. Por sorte, quando entrou no saguão, o elevador já estava esperando, o loiro apertou o botão cinco e as portas se fecharam. Não ter que esperar o elevador era uma pequena alegria diária que Erwin adorava ter.
Abriu a porta do apartamento e entrou. Jogou sua bolsa para o lado e deitou no sofá suspirando alto. "Vamos nos encontrar hoje", pensou. Sentiu a mão ficar suada só de imaginar dizer a Levi que o amava. Conversavam sobre muitas coisas, mas nunca sobre relacionamentos e amor. Sua mão tremia de ansiedade e sentia um frio enorme na barriga. Resolveu beber água para se acalmar e tentou pensar em outra coisa. Mandou uma mensagem para Hange perguntando que música ele iria cantar no karaokê. Ele respondeu que ainda estava pensando nisso. No Ackerman's, o bar que frequentavam e era onde Erwin encontrava Levi, tinha um karaokê que Hange adorava. Quase sempre ela dava um showzinho e na maioria dos casos arrastava o amigo para cantar junto. Estavam longe de serem bons cantores, mas o que valia era a diversão.
Pegou o celular e abriu as mensagens com Levi. As últimas tinham sido enviadas há uma semana, desde então não teve coragem de falar nada. Erwin tinha dito que não iria encontrá-lo naquela noite e foi respondido com um curto e simples "ok". Levi era naturalmente direto e não dava voltas para dizer as coisas, mas algo deixou o homem angustiado com a resposta. Se lembrou do dia que Levi pediu seu número como quem comenta sobre o tempo, com uma naturalidade incrível e sem cerimônias, Erwin quase engasgou com a bebida. Uma parte dele queria acreditar que seus sentimentos eram correspondidos. Escreveu "espero te ver hoje ;)" e enviou. Deixou o celular no sofá e foi para o banheiro tomar banho. O apartamento não era grande, tinha sala de estar, banheiro, cozinha, quarto e varanda. Era o suficiente para ele.
Após o banho, sentou no sofá e colocou em um canal totalmente aleatório para matar o tempo. Sua mente estava longe, a voz do narrador do documentário sobre ursos panda sequer estava sendo ouvida por ele. Sentiu fome e decidiu pegar alguns pedaços do bolo caseiro que Moblit tinha dado para ele no dia anterior.
Quando viu que já estava dando a hora de buscar Moblit e Hange, foi procurar a roupa que usaria. Depois de algum tempo pensando, decidiu colocar uma calça de sarja cinza escuro, uma camisa preta listrada de manga longa que marcava bem o seu peitoral malhado e seu cardigan. Colocou seu colar no pescoço e deu um beijo no pingente, o colar tinha corrente dourada e um pequeno pingente verde esmeralda. Demorou algum tempo no espelho arrumando o cabelo que, por fim, ficou exatamente igual. Borrifou um pouco de perfume no pescoço e deixou os três botões de cima da camisa abertos ostentando o colar.
Pegou seu celular na esperança de ler uma resposta de Levi, mas nada. Ele visualizou a mensagem, mas não respondeu, o que deixou Erwin ainda mais agoniado.
Guardou seus pertences e saiu do apartamento em direção a garagem para pegar o carro. Era um conversível na cor cinza. Erwin não gostava de coisas chamativas e coloridas, nem fazia questão de coisas chiques e modas. Para ele, quanto mais discreto fosse, melhor. O carro tinha um pomo giratório no volante e era adaptado para que ele pudesse dirigir tranquilamente com seu único braço.
Seguiu para a casa de Zoe, não era muito longe e o trânsito estava fluindo bem. Chegou rapidamente, cerca de dez minutos. Estacionou o carro na frente da pequena casa, deu um leve toque na buzina para avisar que havia chegado e logo avistou sua amiga saindo pela porta.
— Cinderela, a carruagem chegou! — gritou Hange. Ele estava vestindo uma calça caqui de cintura alta, camisa preta estampada com folhas e flores e sobretudo bege.
Logo Moblit passou correndo pela porta enquanto tentava calçar seu sapato. Ele vestia calça jeans escuro, camisa caqui e um sobretudo preto. Fechou a porta e correu até a namorada. Os dois falaram alguma coisa que Erwin não conseguiu ouvir, então jogaram um pedra-papel-tesoura. A professora jogou pedra e o médico jogou papel. Moblit comemorou e Hange fez um bico de descontentamento.
Berner apertou o rosto de Zoe entre suas mãos e beijou-lhe o nariz. Os dois sorriram e caminharam até o carro de Smith.
— Falou com Levi? — foi a primeira coisa que Hange falou ao entrar no carro e se sentar no banco de trás.
— Ele não me respondeu.
Moblit sentou no banco do passageiro e cumprimentou o amigo com um abraço. Erwin facilmente deduziu que o pedra-papel-tesoura tinha sido para decidir quem iria no banco da frente. Sorriu com este pensamento. Seus amigos eram dois patetas e conseguiam ser divertidos até nas menores coisas.
— Será que ele ficou puto pelo bolo da semana passada? — perguntou Moblit.
- Não sei, ele é sempre meio frio por mensagens.
— É o que você pensa, Don Juan. Ele deve estar só esperando uma chance pra te monopolizar — falou Hange, em seguida sentou completamente largado.
Estavam indo a caminho do bar enquanto conversavam. Erwin era um bom e prudente motorista, então chegariam em mais ou menos vinte minutos. Diferente de quando Hange dirigia, neste caso eles chegavam em dez minutos.
O carro parou no farol e Moblit usou a oportunidade para dizer algo que há muito rondava sua cabeça.
— Erwin, você tem medo de um relacionamento com ele?
Moblit estava com as mãos suando e não teve coragem de olhar para Erwin enquanto falava. Sentiu uma mão indo de encontro ao seu joelho, onde recebeu dois tapinhas. Olhou para o amigo e o viu sorrindo.
— Não é medo exatamente, eu só nunca quis um relacionamento. Até agora — respondeu Smith, divertido. — Eu tenho mais medo de tomar um fora do que outra coisa.
Esse tópico já era uma coisa que ele pensava com certa frequência. Erwin nunca teve um relacionamento amoroso na vida e não por falta de oportunidades. E, olhando em retrospecto, ele sempre foi a pessoa que colocava um ponto final antes mesmo de começar. Foi assim com Hange, eles saíram poucas vezes e antes mesmo que alguma coisa pudesse nascer, Smith disse que deveriam parar por ali. Com Mike, seu colega de quarto na faculdade, também aconteceu a mesma coisa. Inclusive foi Erwin quem o apresentou para a atual esposa, Nanaba, que era sua amiga desde os tempos de escola. Ele foi até padrinho de casamento dos dois. Nunca se sentira a vontade com a ideia de um relacionamento romântico. Sentia uma angústia sufocante apenas com a ideia, parecia errado e desconfortável. Mas agora era diferente, com Levi as coisas pareciam se encaixar melhor. Não era sufocante, era simples e natural, como respirar.
Estacionou em frente ao estabelecimento em uma vaga exclusiva para pessoas com deficiência. A fachada do bar era toda trabalhada em madeira e tinha um letreiro brilhante escrito "Ackerman's"
Caminharam até a porta dupla de madeira e adentraram o local. Ao entrarem, se sentiram em casa. Ao lado direito estava o tão amado karaokê, logo na frente o balcão e na esquerda os banheiros. O ambiente era bem rústico com as mesas, cadeiras e chão em madeira. Pelo salão tinham diversas mesas de tamanhos diferentes, estavam quase todas cheias com pessoas conversando e bebendo. Hange deu dois tapas leves nas costas de Erwin.
— Você prometeu pagar pra mim hoje, lembra?
O professor sequer teve tempo de reagir, sua amiga já estava indo em direção ao balcão para pedir alguma bebida. Quem estava atendendo no bar era Mikasa, uma garota de vinte e um anos com cabelos curtos e escuros. Ela estava usando seu uniforme que era composto por uma calça social preta, camisa vermelha e gravata borboleta preta.
Moblit entrelaçou seu braço no braço de Erwin e o puxou até uma mesa redonda com quatro cadeiras vagas. A mesa era a mais próxima do karaokê. Desde que chegaram, Smith procurava com o olhar por Levi, mas não o encontrava. Algum tempo depois, Hange apareceu com três bebidas.
— Gin com pitaya e limão para o meu amorzinho — Ela disse, colocando a taça com uma bebida rosada na frente de Moblit.
— Vodka com maracujá para mim — Ela colocou o copo com bebida amarelada na sua frente.
— E por último, mas não menos importante. Para o motorista da noite, suco de abacaxi com hortelã — Ele colocou o copo comprido com uma rodela de abacaxi na frente de Erwin.
Logo começaram uma discussão sobre qual música cantariam naquela noite.
— Eu já tenho uma planejada — disse Moblit.
Os dois professores se entreolharam e deram de ombros, o médico não era muito de cantar, mas dessa vez parecia animado com a música escolhida.
De repente, sentiu mãos frias cobrirem seus olhos e um sussurro em sua orelha fez seu coração acelerar.
— Adivinha! — disse.
Não precisava de muito para saber quem era.
— Acho que é um cara muito bonito que vai me pagar uma bebida na semana que vem.
Erwin nem esperou uma resposta, segurou uma das mãos com a sua e beijou os dedos gelados de Levi.
— Que resposta horrível — resmungou o homem mais baixo.
Smith se virou para olhá-lo e foi abençoado por uma visão divina, de acordo com ele.
Levi usava seus óculos de grau que se encaixavam perfeitamente em seu rosto redondo, uma camiseta branca simples, echarpe xadrez, jaqueta preta, uma calça preta bem justa que destacava as suas curvas e coturno preto para fechar com chave de ouro.
— E aí, amigo? Como vai? Senta aí! — Moblit disse educadamente.
— Bem e vocês?
O mais baixo se sentou na cadeira entre Smith e Berner, pegou o copo de suco que estava ao seu lado e deu um gole.
Erwin reparou que desde que havia chegado, Levi não o olhou nos olhos. A conversa continuou com algumas amenidades e Hange fazendo piadas sobre a estatura do rapaz. Ele geralmente retrucava, mas hoje estava especialmente quieto. Ou será que era apenas a imaginação de Erwin vendo coisas que não existiam?
No karaokê, um trio de amigos tinha terminado de cantar. Tinham seus vinte e poucos anos, pareciam estar bêbados em nível considerável. A morena de cabelo preso em rabo de cavalo era, sem dúvidas, a que estava mais "altinha" pois sequer conseguia cantar no tom. Já o garoto de cabeça raspada estava se apoiando nos amigos para se manter em pé. O outro rapaz, loiro de undercut, parecia o mais sóbrio entre eles, mas errava a letra por pura falta de habilidade. Foi um grupo divertido de se observar cantando Mamma Mia.
— Bom, acho que está na minha hora! — exclamou Moblit.
O rapaz levantou da cadeira e foi direto para o pequeno palco onde ficava o karaokê. Passou alguns segundos procurando a música e quando estava pronto, virou para a sua pequena plateia que era formada por seus amigos, seu namorado e os outros clientes do bar.
As primeiras notas da música começaram a tocar, Erwin jurou que seus ouvidos o estavam traindo, mas não. Moblit realmente ia cantar When I Kissed the Teacher, do ABBA.
— Everybody screamed, when I kissed the teacher... — ele começou.
Hange estava com os olhos brilhando e com um leve rubor nas bochechas. Levi parecia confuso, então Erwin resolveu explicar. Ele se aproximou e sussurrou para o homem ao seu lado.
— Hange é professor de biologia.
Levi deu um sorriso de canto e Erwin, mais uma vez, teve seu coração acelerado. Raramente falavam sobre si mesmos, o que causava uma certa angústia no professor, mas como hoje ele estava determinado a levar as coisas para frente, resolveu que seria um bom momento para expor uma coisinha ou outra.
— A gente dá aula na mesma escola há alguns anos. Conheci ela até antes do Moblit.
O rapaz se surpreendeu com a declaração inesperada.
— E você é professor do que? Artes? — perguntou Levi com um leve deboche, bebericando o suco de Erwin.
— Na verdade, história. Por quê? Acha que não combina comigo?
— Sendo sincero, acho que combina sim — respondeu o mais baixo, com um pequeno sorriso no rosto.
O homem bateu de leve o copo, se levantou de supetão e colocou seu óculos na mesa. Erwin e Hange olharam para ele, ambos confusos, mas ele ignorou os olhares e seguiu para o palco onde Moblit fazia sua performance. Ele pegou o outro microfone, Berner concordou com a cabeça e deixou a estrofe seguinte para o rapaz.
— When I kissed the teacher, couldn't quite believe her eyes... — Levi deu sequência na música.
Hange e Erwin adoraram ver os dois rapazes cantando e fazendo danças improvisadas no palco, com direito a Moblit girando Levi e alguns passos mal sincronizados. Chegando ao final da música, eles desceram do palco e foram para a mesa que Zoe e Smith estavam.
Moblit sentou no colo da namorada, ela não conseguia e nem queria esconder a empolgação no momento. Então Berner contornou o pescoço dela com o braço direito e lhe deu um beijo. Já Levi, chegou bem perto do rosto de Erwin, o bastante para sentirem a respiração um do outro e o puxou pelo colarinho da camisa. Levi, mais uma vez, sem olhá-lo nos olhos. Erwin estava sentado enquanto Levi estava em pé, se inclinado, o que fazia a franja cobrir seus olhos. Erwin queria muito tirar a franja da frente, mas preferiu deixar Levi finalizar a performance. O professor fechou os olhos, esperando o beijo que não veio, ao menos não da maneira que esperava. Na verdade, ele ganhou um beijo na bochecha. Erwin abriu os olhos e fez um bico de desapontamento. Mesmo que ele não gostasse muito de beijar em público, um único selinho não faria mal.
A música acabou, a plateia composta por mais ou menos vinte clientes batia palmas e assobiava, parabenizando os dois cantores.
Eles se sentaram, completamente exaustos.
— Olha, eu realmente não estava esperando por isso — disse Smith, sorrindo.
— Nem eu. Vocês foram ótimos lá! — exclamou Hange, abraçando fortemente Moblit.
— Levi, seus óculos! — lembrou Erwin.
O professor pegou os óculos com a mão, o abriu e colocou no rosto do rapaz que estava ao seu lado. Levi sentiu seu rosto esquentar levemente pelo breve toque dos dedos de Erwin. Smith aproveitou a oportunidade para acariciar seu rosto, ainda na esperança que ele o olhasse nos olhos.
— Acho que vou pegar mais alguma coisa pra beber — disse Levi.
Mas antes que pudesse levantar, um homem de meia idade apareceu cumprimentando todos na mesa, era Kenny, o dono do bar.
— Curtindo a noite, moçada? — perguntou.
Kenny Ackerman estava na casa dos cinquenta, vestia um chapéu, camisa vermelha e calça preta, exatamente como Mikasa, porém sem a gravata. Ele colocou uma mão no ombro de Erwin e a outra no ombro de Levi.
— Tudo ótimo, senhor Kenny. Obrigado! — respondeu Moblit.
— Eu te vi lá no palco, garoto! Você deveria cantar mais vezes.
Moblit sorriu, envergonhado.
— Esse drink é maravilhoso! Você tem que dar um aumento pra Mikasa — disse Hange, terminando de beber até a última gota da sua vodka.
— Ela é incrível mesmo! Até o Uri diz que os dela são melhores que os meus — o Ackerman parecia orgulhoso.
Uri, o marido de Kenny, não frequentava muito o bar e os amigos só o viram algumas vezes. Eles sabiam que Kenny e Uri eram casados há muito tempo.
— E você, Erwin? Aproveitando a noite? — perguntou Kenny com um olhar sugestivo e apontando com a cabeça para Levi.
Smith riu alto e Levi fingiu ignorar.
— Tá tudo ótimo, senhor! — respondeu o professor.
— Tudinho mesmo? — insistiu o dono do bar.
— Kenny, deixe os garotos! — disse uma voz calma.
Todos os presentes da mesa olharam juntos para a direção da voz e viram um homem baixo e magro, de cabelos grisalhos e olhos claros. Era Uri. Ele não vestia o uniforme do bar, pelo contrário, usava saia comprida e colorida, um cardigan bege e uma camiseta simples com "melhor pai" escrito em letras coloridas. Com semblante gentil, se aproximou e beijou a bochecha do marido.
— Vá trabalhar e deixe Levi aproveitar o quanto puder, sim? —Uri falou, levando Kenny para longe.
— Até mais tarde, moçada! — gritou o Ackerman.
Levi decidiu levantar para ir buscar algumas bebidas, mas sentiu sua camiseta ser levemente puxada.
— Eu vou com você! — disse Erwin.
— Ok! Ei, quatro-olhos! Não canta antes da gente voltar — falou Levi.
— Sim, senhor! — respondeu Hange, batendo continência. Moblit riu.
Os dois rapazes foram na direção do bar, onde Mikasa estava preparando as bebidas. Eles pararam na frente do balcão e esperaram ela terminar a bebida que já estava preparando para um outro cliente. Ele era bonito, tinha ombros largos e vestia roupas casuais.
— Aqui está, Onyankopon. Aproveite a noite! — Mikasa disse, colocando duas taças com bebida clara para o homem a sua frente.
— Muito obrigado! Tenha uma boa noite! — respondeu o rapaz com um sorriso e, em seguida, provando da bebida. — Você é incrível, Mikasa!
Onyankopon, como Mikasa o chamou, acenou com a cabeça para Levi e Erwin, sorriu e se retirou. Caminhou até uma mesa, não muito longe do bar, onde se sentou com uma moça loira bem alta. Entregou uma das taças para ela e continuou bebendo da sua.
— Boa noite, Mikasa! — cumprimentou.
— Erwin! É bom te ver! — respondeu a garota.
— Me vê o de sempre e um suco maracujá pra ele — disse Levi, sem cerimônias.
— Claro! — respondeu Mikasa.
Smith achou que Levi foi um pouco áspero, já que sequer cumprimentou a bartender. Mas talvez eles já se conhecessem bem o suficiente para pular formalidades. Julgou que fosse a segunda opção, já que Levi sempre pareceu conhecer bem demais as pessoas que trabalhavam no bar. Anteriormente, Uri havia dito para Kenny deixar Levi aproveitar a noite, o que levou Erwin a crer que eles eram, no mínimo, bem familiarizados.
Mikasa virou de costas para pegar alguns utensílios e começar a preparar as bebidas. Erwin resolveu usar a oportunidade para conversar com Levi.
— Achei que você tinha ficado chateado por semana passada — confessou.
— Não fiquei, imaginei que você estava ocupado. Agora que sei que você é professor, tenho certeza — respondeu.
Erwin riu.
— Bom saber, fiquei achando que sim já que você não respondeu a mensagem que te mandei hoje.
Levi franziu o cenho e pegou o celular.
— Merda! Achei que tinha respondido. Porra. Me desculpa! Não sei onde eu ando com a cabeça.
— Não tem problema. Fico feliz em saber que você não me odeia — disse Erwin, com um tom divertido. Levou a mão aos cabelos de Levi e fez um afago.
— Eu não te odiaria por um motivo tão idiota — respondeu Levi, com a bochechas vermelhas.
Logo a porta do bar foi aberta, então os dois olharam instintivamente. Dois homens entraram pela porta, um deles tinha aparentemente vinte e poucos anos, estava com o cabelo castanho preso em um coque samurai, vestia roupas largas e escuras. Já o homem ao lado, parecia um pouco mais velho, era loiro, barbudo e usava óculos.
Erwin viu o rosto de Levi ser tomado por uma expressão de raiva que nunca tinha visto antes. A cada passo que eles davam o rapaz parecia que ia explodir.
— Levi? — Erwin chamou.
Ele colocou a mão no ombro do homem mais baixo, na tentativa de chamar a atenção para si. Não funcionou. Levi continuava fitando intensamente os dois homens. A tensão no ar se tornou quase palpável quando o homem loiro barbado avistou Levi. A expressão do homem era de completo horror.
O professor não precisava ser nenhum especialista em leitura corporal para perceber que aquelas pessoas não se davam bem. Pensando em mediar a situação, desceu a mão lentamente até entrelaçar seus dedos com os de Levi. Abaixou sua cabeça até a altura da orelha dele.
— O que foi? — sussurrou.
Levi foi rapidamente tirado de seu transe pela voz melodiosa que ouvira ressoar tão próxima. Ao seu lado, poucos centímetros de distância, Erwin parecia estar preocupado. Os seus pelos da nuca arrepiaram levemente por sentir a respiração de Erwin tão próxima da sua orelha. Aquilo adicionou um pingo de felicidade em seu coração.
— Está vendo aquele barbudo com cara de macaco com um cabeludo fedido do lado? — Levi disse, apontando com o dedo indicador, sem nenhuma discrição, para os dois homens.
O loiro não pôde evitar de soltar um riso baixo pela forma que Levi descreveu aquelas duas figuras. O barbudo cutucou o rapaz de coque e sussurrou alguma coisa. Ele olhou com cautela na direção de Levi e logo desviou o olhar.
— O cabeludo fedido, Eren, namorou a minha prima quando eles eram mais novos, mas eu nunca fui com a cara dele. E o barbudo, Zeke, que é irmão dele, ficava ajudando eles a saírem escondidos do meu tio.
Levi nunca tinha falado tanto sobre sua vida pessoal de uma vez só, provavelmente ele se deu essa liberdade já que Erwin fez o mesmo mais cedo. E o professor, como um bom fofoqueiro, estava adorando ouvir.
— E pra piorar, eles participaram de um desafio idiota e quase foram presos.
Smith arregalou os olhos e Levi, que se não estivesse tão puto só de lembrar da situação, acharia graça da expressão.
— O desafio era roubar uma mercearia, foram os dois e um outro amiguinho bobão deles. Por sorte o dono Hannes é conhecido do Kenny, então por isso não deu queixa.
O loiro estava tão imerso na história que nem reparou quando Mikasa apareceu com as duas bebidas prontas.
— Aqui está, rapazes!
— Obrigado, Mikasa! — agradeceu Erwin.
— Levi — disse a garota, entregando o whisky com gelo.
— Obrigado, prima! — respondeu Levi, casualmente.
Erwin, mais uma vez, arregalou os olhos. Intercalava entre olhar para Levi e para Mikasa, buscando semelhanças físicas entre eles. Os primos acharam graça da situação e riram baixinho.
— A gente não se parece, nem adianta procurar — a bartender assegurou, sorrindo.
Levi só percebeu que ainda estavam de mãos dadas quando Erwin desfez o laço de seus dedos lentamente para então pegar o copo de suco. Ele olhou para a própria mão e sentiu um vento gelado bater. Assim que seria quando a noite acabasse? Não, hoje não! Estava determinado a colocar um ponto final ainda hoje. Engoliu em seco, reuniu toda a coragem que tinha e procurou os olhos do professor. Os olhos azuis e profundos que o lembravam o mar. Mas não teve tempo de encontrá-los, visto que duas moças alvoroçadas chegaram como furacões.
— Mikasa! Mikasa! Você viu quem chegou agorinha? Eu não acredito na cara de pau daqueles dois — a garota animada falou rapidamente.
— Francamente, espero que Levi dê outra surra no Zeke — a moça séria de cabelos castanhos disse.
Erwin reconheceu a loira como sendo Historia, a outra bartender que trabalhava no Ackerman's. Já a outra era um mistério.
Levi percebeu que seria impossível ter uma conversa ali em frente ao bar, então pegou seu copo e o de Smith e fez sinal para voltarem pra mesa.
— Então, você deu uma surra no barbudo? — perguntou Erwin, em tom de provocação.
— Ymir é exagerada, foi só um soco.
Smith soltou uma risada baixinha que fascinou Levi.
— Me lembre de nunca puxar briga contigo.
— Eu nunca te bateria, Erwin! Só se você me pedisse — disse Levi, com um sorriso atrevido.
Erwin instantaneamente sentiu seu rosto esquentar e colocou a mão sobre a boca. Levi se orgulhou da reação que conseguiu tirar de Erwin. Logo chegaram na mesa e se sentaram com o casal de amigos.
— Voltaram finalmente! Erwin, preciso falar com você — exclamou Hange.
Erwin acenou. Se aproximou de Levi, passou os dedos pelo brinco na orelha dele.
— Já volto — Erwin sussurrou.
Ele saiu antes de poder ver a expressão no rosto de Levi, mas tinha certeza que agora estavam quites. Então eles foram juntos na direção do banheiro. Passaram pelo bar onde Mikasa estava preparando as bebidas e conversando com as duas garotas. Os dois irmãos que Levi falou mais cedo tinham escolhido uma mesa um pouco afastada para sentar e estavam conversando.
— Eu quero pedir Moblit em casamento — disse Hange ao chegarem no banheiro.
— Hange, isso é ótimo! O que planejou?
— Aí é que tá, meu amigo! O plano era levar ele pra jantar hoje e colocar o anel na sobremesa.
Zoe explicou que esse era o plano inicial, mas quando Erwin pediu para irem ao Ackerman's ele decidiu mudar o plano, porém não tinha tido outra ideia de como pedir Moblit em casamento ainda. Ela pensou em propor depois de cantar no karaokê, mas não sabia qual música escolher. Pensou em colocar o anel dentro da bebida, mas seria perigoso. Moblit gostava de coisas grandes e românticas, ele sabia disso.
Erwin parou e pensou um pouco, ele não era a pessoa mais romântica do mundo. Mas com um pouco de esforço lembrou de uma música que era divertida e seria ideal para o pedido.
— Gimme! Gimme! Gimme! — Erwin disse.
Hange abriu um sorriso e pulou para abraçar o amigo.
— Ela é perfeita, Erwin!
No momento do abraço, Eren entrou no banheiro e olhou de canto para Erwin. Smith, se sentindo extremamente intimidado pela forma como o rapaz olhou, aconselhou que saíssem e fossem colocar o plano em prática. Mikasa ainda estava no bar, mas agora estava só. Erwin e Hange pararam no bar e ela resolveu pedir duas margaritas por conta de Erwin. A bartender rapidamente preparou o pedido.
— Duas margaritas, Hange!
— Obrigado!
Mikasa chamou Erwin e aproximou a mão da boca como se fosse contar um segredo.
— Ele passou a semana toda falando de você.
Erwin esperava qualquer coisa, menos isso. A garota piscou para ele e sussurrou um "boa sorte!". Quando eles chegaram na mesa ouviram Moblit e Levi falando sobre qual era a marca de sabão favorita de cada um. Ok, era um tópico estranho, mas ele e Hange já tiveram piores.
— Eu e o bonitão aqui vamos cantar, pessoal! Se preparem! — disse Hange.
Ela colocou os dois copos na mesa, tirou o sobretudo e arrumou o cabelo.
— Hange, meu bem! Levi queria mostrar uma coisinha pra gente antes. Tem problema? — Moblit disse.
Erwin, buscando uma resposta, olhou para Levi que se limitou a olhar para ele e assentir com a cabeça. Mas para Erwin foi o suficiente já que Levi finalmente tinha o olhado nos olhos. Logo Kenny chegou junto de Ymir e Historia, eles tiraram o karaokê e colocaram um piano no lugar, mas não foi um processo rápido. Neste meio tempo, o grupo de amigos jogou conversa fora, só que agora Levi parecia muito mais ativo.
— Hange, Erwin me contou que vocês dão aulas juntos — comentou Levi.
— Contou? Pois é! Quanto tempo faz, Erwin?
— Talvez uns dez anos.
— E como é dar aula para adolescentes por tanto tempo sem poder atirar uma cadeira neles? — perguntou Levi.
Qualquer pessoa faria essa pergunta em tom de brincadeira, mas ele parecia sério.
— Eles têm dias e dias, sabe. Mas no geral não é tão ruim — disse Erwin, terminando seu suco de maracujá.
— Ele só fala isso porque é o professor queridinho da escola — disse Hange, fazendo careta. — Mas é verdade. Os pirralhos até que são divertidos.
— Então você se dá bem com eles? Legal. — disse Levi olhando para Erwin.
— Fica tranquilo, ele vai ser um ótimo pai. — alfinetou Moblit.
Hange deu uma risada nasal "Eu ia falar a mesma coisa", sussurrou. Levi se virou para o casal e mostrou o dedo do meio. Quando terminaram de trazer o piano e fazer os ajustes, Kenny parou em frente ao bar.
— Boa noite a todos! Hoje é uma noite especial, por isso teremos uma pequena mudança. Então convidem alguém para dançar e curtam o momento.
As luzes foram diminuídas apenas para dar o clima certo. Levi deu um tapinha nas costas de Moblit, levantou e foi em direção ao piano. Erwin acompanhou cada ação de Levi, do levantar da cadeira ao sentar no banco em frente ao piano. Ele tirou a jaqueta, a echarpe e o óculos e os colocou ao seu lado no banco. Quando os dedos longos e finos se pousaram sobre as teclas e as primeiras notas foram ouvidas, Erwin teve certeza que se apaixonou novamente.
Os clientes estavam levemente acanhados inicialmente, mas aos poucos foram se levantando para dançar. Uma pena para Erwin, pois a única pessoa com quem ele queria dançar, naquele momento, estava proporcionando a melhor melodia que já passou pelos seus ouvidos. Hange e Moblit levantaram juntos, mas antes de saírem da mesa, Berner se aproximou de Erwin e, discretamente, mostrou uma caixinha aveludada. Erwin entendeu na hora do que se tratava e riu sozinho. Os dois patetas escolheram o mesmo dia para pedir um ao outro em casamento.
Erwin observou mais pessoas se juntarem para dançar, além de seus amigos. Kenny, assim que Levi começou a tocar, já tinha pegado seu marido pela mão e estavam dançando num ritmo lento. Uri com a cabeça escostada no peito de Kenny e Kenny com o queixo sobre a cabeça de Uri. Ymir e Historia também dançavam juntas e faziam passos mais bem elaborados do que apenas "dois pra cá e dois pra lá". Elas intercalavam os passos com Ymir rodando Historia no próprio eixo.
Erwin queria observar atentamente seus amigos, não queria perder o momento exato que o pedido acontecesse. Mas seu olhar navegou para outro lugar. Os dedos habilidosos de Levi passeavam pelas teclas com suavidade, os lábios estavam entreabertos e os olhos fechados, ele parecia completamente relaxado. Erwin foi surpreendido quando Levi abriu os olhos e o fitou diretamente. A distância entre a mesa e o piano não passava de quatro metros, algumas pessoas passavam dançando entre eles, mas Erwin sentiu como se só existissem os dois. Ele voltou para a realidade quando lembrou dos seus amigos e rapidamente começou a procurá-los. Eles não estavam tão longe, mas ainda sim ele levantou, se dirigiu para perto do piano para vê-los melhor e ainda poder ficar perto de Levi.
— Hange também quer pedir Moblit em casamento hoje — Erwin disse.
Levi ergueu as sobrancelhas. Olhou rapidamente para Erwin, mas sem perder as notas.
— É a cara deles.
E então Levi voltou sua atenção para o piano, mas com um sorriso pequeno nos lábios.
— Ele me pediu para tocar.
— Desconfiei que fosse isso. A conversa sobre sabão estava, digamos, estranha.
Eles sorriram e se olharam rapidamente. Pouco tempo se passou, então eles viram Moblit sussurrando algo no ouvido de Hange. Ele parecia surpreso, tateou os bolsos e tirou uma caixinha aveludada. Moblit também pegou a caixinha que trouxe e os dois se olharam, sorriram e se abraçaram. Poucas pessoas ao redor perceberam o que aconteceu, as outras estavam mergulhadas em seus próprios mundos. Hange e Moblit colocaram os anéis nos dedos anelares um do outro e trocaram um beijo apaixonado.
Erwin demorou para perceber que algumas lágrimas desceram, lágrimas de pura felicidade, ele as secou com a manga de seu cardigan. Levi continuou tocando por mais algum tempo e Moblit e Hange ainda estavam dançando. Erwin pegou seu celular e rapidamente enviou uma mensagem para seu pai. Na mensagem dizia: "Boa noite, pai! Achei que ia gostar de saber que Hange e Moblit estão noivos". Logo a resposta de seu pai chegou, estava escrito: "Fico feliz por eles, espero que me convidem para o casamento. E você, como está com aquele rapaz? Me mostre uma foto dele". Erwin respirou fundo. Moblit e Hange que contaram ao seu pai sobre Levi, ele não pretendia contar nada antes de estar tudo oficializado.
Levi finalizou a música e foi aplaudido por todos do bar. Erwin sorriu para ele e apontou para o lado de fora do bar. Antes de saírem, eles passam por Hange e Moblit que estavam no meio de um bolo de pessoas os parabenizando.
— Olha só! Não é que o menino leva jeito — disse Kenny, dando tapas estralados nas costas de Moblit.
— Kenny! — repreendeu Uri. — Meus parabéns, espero que sejam muito felizes!
— Sabe, há quase trinta anos, neste bar, eu pedi o homem mais lindo do mundo em casamento. Por isso, eu garanto que vocês serão felizes — disse Kenny.
Hange e Moblit agradeceram as palavras de Kenny e Uri e os abraçaram. Hange viu Levi chegando e pulou em cima dele.
— Você toca piano também? Por Darwin, será que tem algo que você não faça? — falou Hange, enquanto agarrava Levi.
— Meus parabéns, Hange e Moblit! — disse Levi, ignorando completamente o elogio de Zoe por não saber como responder.
— Parabéns, amigos! — disse Erwin.
— Hange e eu conversamos e a gente queria pedir algo a vocês — disse Moblit, apertando um pouco os dedos, inquieto.
— Vocês aceitam ser nossos padrinhos? — perguntou Hange, mordendo os lábios, apreensiva.
Levi e Erwin se entreolharam. Levi parecia hesitante, mas Erwin segurou a mão dele numa tentativa de tentar passar segurança.
— Claro que sim! E você, Levi? — disse Erwin.
— Por mim tudo bem — respondeu Levi.
Os quatro amigos se abraçaram. Por mais que Levi tente negar mais tarde, ele deixou algumas lágrimas caírem.
— A gente vai tomar um ar e já volta — disse Levi, puxando Erwin pela mão.
Erwin olhou para o bar e viu que Mikasa estava conversando com Eren. Ele estava com os dedos cruzados e de cabeça baixa e ela pareciam concentrada no que ele dizia.
— Queria falar comigo? — perguntou Levi, quando chegaram na parte de fora do bar.
Tinham vários carros estacionados nas vagas, inclusive o de Erwin. A temperatura tinha caído, estava ficando tarde.
— Droga! Esqueci minha jaqueta — resmungou Levi.
Levi fez menção de voltar para dentro, mas Erwin colocou a mão no seu ombro. Ele retirou o cardigan e colocou sobre os ombros de Levi que se deixou ser abraçado pela lã quentinha. Cheirou o tecido de forma nada discreta e sentiu o cheiro do perfume que Erwin usava.
— Meu pai disse que queria ver uma foto sua, acredita? — começou Erwin.
— Você contou de mim para o seu pai? — Levi perguntou, chocado.
— Foram os dois lá, na verdade — disse Erwin, aprontando para dentro do bar. — Mas eu pretendia contar.
— Bom, se ele quer me conhecer você pode trazer ele aqui algum dia.
— Ele mora longe, do contrário já teria vindo por conta própria — Erwin riu.
— Minha mãe também quer te conhecer — disse Levi baixinho.
Erwin revisou a frase várias vezes mentalmente para garantir que não estava enganado.
— Na verdade, foi difícil para caralho convencer ela a não vir hoje — Levi disse, rindo um pouco.
Erwin também riu um pouco.
— Ficaria feliz em conhecer sua mãe — disse Erwin.
— Sério? Porque ela tá em casa agora com a minha filha, a gente pode ir.
Levi levou alguns segundos para perceber o que dissera. Erwin piscou algumas vezes, parecendo processar a informação.
— Qual o nome dela? — perguntou Erwin, gentilmente.
— Da minha mãe ou da minha filha?
Erwin riu alto e se encostou na parede do bar.
— Era o nome da sua filha, mas pode ser o da sua mãe também.
— O nome da minha mãe é Kuchel e o da minha filha é Gabi.
— São nomes bonitos.
Erwin pegou o celular, abriu as mensagens com o pai e apertou na câmera frontal. Ele virou de costas para que Levi aparecesse na foto. Levi timidamente entrou no enquadramento, se aproximando mais de Erwin. Ele enlaçou os braços ao redor da cintura de Erwin e sorriu. Smith tirou a foto e rapidamente enviou para seu pai. A foto ficou realmente boa, era a primeira foto que tiravam juntos, com certeza viraria sua tela de bloqueio.
Levi não viu motivos para quebrar o contato, então permaneceu abraçado ao mais alto. Deitou a cabeça sobre o peito de Erwin e inspirou um pouco de perfume. Erwin, por sua vez, guardou o celular e começou a passar a mão pelos cabelos de Levi.
— Você vai bagunçar meu cabelo, Erwin — resmungou Levi, olhando para cima.
Erwin permaneceu com a mão no lugar. Ele estava hipnotizado demais para lembrar de mexer os dedos, visto que Levi estava olhando tão intensamente para si. Droga! Erwin amava tanto Levi, mas achava que era um pouco cedo demais para declarar isso em você alta. A franja do cabelo, caindo sobre a testa, os olhos pretos e profundos eram detalhes que Erwin poderia olhar para sempre. Ele deixou a mão descer lentamente dos cabelos para a nuca. Já Levi, começou a apertar um pouco mais o abraço e se colocou nas pontas dos pés. Erwin se inclinou o suficiente para finalmente encostarem os lábios suavemente. O beijo não se prolongou muito, foi a maneira que encontraram de transmitir seus sentimentos quando as palavras faltaram. Ainda teriam muito a discutir, óbvio. Mas, por enquanto, o beijo lavou suas dúvidas e inseguranças. Foi calmo e delicado, suas línguas, já há muito conhecidas, se enrolavam e desenrolavam. Levi finalizou o beijo com uma mordida de leve no lábio inferior de Erwin, que suspirou aliviado.
Analisando em retrospecto, foi o beijo mais calmo que trocaram.
— Levi, já te falei que você tem o melhor beijo do mundo? — sussurrou Erwin, fazendo carinho no rosto de Levi com os dedos.
— Caralho! Você não deve ter beijado muita gente — respondeu Levi, em tom de deboche.
— Não deixa de ser verdade, mas não invalida meu ponto.
— Calma, calma! Quantas pessoas você beijou antes de mim?
— Quatro, eu acho.
Levi arregalou os olhos.
— E eu achando que você era um conquistador.
Os dois riram.
— Eu poderia dizer o mesmo de você — disse Erwin.
— Quando eu era jovem, agora não mais.
Erwin riu baixinho, envolveu o braço ao redor de Levi e deitou a bochecha sobre a cabeça dele.
— Agora você é um pai de família, né? — comentou Erwin.
— Exatamente — disse Levi, rindo um pouco. — Queria ter te contado sobre ela antes, mas eu não sabia como começar.
Erwin apenas beijou suavemente o topo da cabeça de Levi e sentiu o cheiro do condicionador.
Passaram algum tempo em silêncio, aproveitando a companhia e o calor um do outro. O celular de Erwin vibrou, sinalizando que seu pai havia respondido. Ele respondeu com vários emojis de corações diferentes e uma mensagem. Erwin deu um riso baixo.
— Meu pai respondeu "vocês formam um casal lindo" e pelo menos uns cinquenta corações.
— Você concorda com ele? — perguntou Levi.
— Claro! Só não somos o casal mais lindo do bar porque perdemos para Kenny e Uri.
— Você tem toda razão! Meus tios são o casal perfeito.
Erwin, mais uma vez na noite, sentiu seu cérebro rodar as engrenagens para compreender a situação. Sentiu sua cabeça dar um nó e que mais nada fazia sentido.
— Um minuto. Kenny e Uri são seus tios? — Erwin perguntou. — E a Mikasa é sua prima?
— Sim — respondeu Levi como se fosse óbvio. — A gente tem literalmente o mesmo sobrenome.
— Mas eu não sei o seu sobrenome.
Dessa vez, Levi que pareceu extremamente surpreso.
— Eu nunca te contei? — perguntou Levi, hesitante.
Erwin negou com a cabeça e Levi sentiu seu rosto esquentar, foi tomado por um constrangimento enorme. Parecia se questionar sobre como nunca havia falado seu sobrenome ou mencionado sua família.
Ele se lembrou do dia que conheceu Erwin. O loiro estava parado no balcão conversando e rindo com seus amigos. A forma como ele sorria e sempre parecia bem humorado acabou fazendo com que Levi fosse atraído por ele, como um imã. Ele continuou vindo ao bar e Levi continuou observando-o. Na terceira vez que o loiro foi ao bar, Historia encorajou Levi a falar com ele, ela garantiu que o homem era solteiro e muito divertido. Tudo aconteceu tão rápido e tão naturalmente, parecia que se conheciam há anos. Tudo fluiu tão bem que Levi esqueceu completamente de falar seu nome completo.
— Tudo bem! Você nem sabia com o que eu trabalhava até hoje — disse Erwin, tentando consolar Levi.
— É verdade! Mas, sei lá, acho que fui devagar demais — suspirou o Ackerman. — A propósito, eu administro um café.
— Bom, eu acho que a gente teve o ritmo ideal. E eu adoraria provar o seu café qualquer dia.
— Olha, você pode vir qualquer dia. Das sete às cinco estamos abertos, segunda à sábado — disse Levi, passando as mãos pela nuca e pescoço de Erwin. — Mas como eu sou o dono, posso abrir uma exceção.
— Eu adoraria! — disse Erwin, sorrindo. — Onde fica?
— Aqui! — Levi respondeu e aprontou para o letreiro do bar. — De dia é meu café e a noite é o bar do tio Kenny.
Erwin sorriu e deu um selinho em Levi.
— Eu virei sim.
— Agora, só pra não ter mais dúvidas sobre a minha família, presta atenção! — disse Levi.
Começou por Kenny e Uri, explicou que eles estavam juntos há muito tempo e quando Kuchel engravidou de Levi, a convidaram para viver com eles, pois seria mais fácil cuidarem juntos da criança. Historia, filha de Kenny e Uri, nasceu muitos anos depois, então Levi, com seus doze anos, participava ativamente dos cuidados da prima, aprendendo a trocar fraudas e brincando com ela quando os adultos precisavam de descanso. Kenny e Kuchel tinham outro irmão, pai de Mikasa que faleceu em um acidente quando ela tinha oito anos. O que levou a garotinha a ir morar na "Mansão Ackerman", como Historia costumava chamar a casa quando era criança. Elas tinham a mesma idade com a diferença de meses, então cresceram como irmãs e Levi, apesar de mais velho, as via da mesma maneira. Quando Levi fez vinte e cinco anos, decidiu adotar uma criança, no caso Gabi, com sete anos. Então, há cerca de quatro anos, Historia começou a namorar Ymir, foi aí que a família recebeu seu último membro, até agora.
— Isso é incrível, Levi! — disse Erwin. — E vocês moram todos juntos até hoje?
— Sim! Bizarro, né? — respondeu Levi.
— Eu não acho. Na verdade, eu sempre quis fazer parte de uma família grande, já que eu sou filho único e meu pai nunca se casou.
— Bom, você pode fazer parte de uma, Erwin. Se você quiser.
Erwin sorriu e abraçou Levi. Continuaram abraçados até Levi puxá-lo para mais um beijo, mas dessa vez, um pouco mais intenso. As mãos não ficaram paradas como da última vez. Levi passava as mãos pelo braço, costas e peito de Erwin, onde encontrou o colar de pingente verde. Já Erwin, puxava de leve o cabelo de Levi, fazendo-o suspirar.
— Me diz uma coisa, qual é a do colar? — perguntou Levi, sussurrando.
— Um presente do meu pai quando eu me mudei. Herança de família.
— Parece bem especial.
— Me faz lembrar de casa — respondeu Erwin, acariciando os lábios de Levi.
— Você precisa visitar seu pai com mais frequência — Levi sussurrou, enquanto puxava Erwin para mais um beijo.
— Eu posso te levar da próxima vez — disse Erwin, tocando gentilmente os lábios de Levi com os seus.
