Chapter Text
Joui tinha um objetivo claro em sua vida: ele queria ser um atleta.
O esporte sempre foi algo que chamou sua atenção, mesmo que não fosse de agrado aos seus pais. Eles preferiam que ele se focasse em algo mais lucrativo, que herdasse o negócio da família no Japão e continuasse a linhagem dos Jouki com louvor.
Acontece que Joui sempre pensou muito diferente deles, constantemente se envolvendo em discussões sem fim em relação ao seu futuro na família. Mesmo que ele não suportasse mais essas disputas diárias que no final nunca davam em nada, ele era muito orgulhoso pra abaixar a cabeça e aceitar as imposições ridículas que eles insistiam em fazer. Aquela era a sua vida, o seu futuro, não o dos seus pais, e ele gostaria de poder seguir a carreira que quisesse e gostar do que quisesse gostar sem ter eles se metendo no meio o tempo inteiro.
Ele viveu a infância inteira com a rigidez que os seus pais o impunham no Japão, e fazia quase dois anos que eles haviam se mudado para o Brasil.
Apesar da xenofobia (que não era pouca, aliás, mas ele já havia aprendido a lidar), ao longo do tempo Joui percebeu o quão mais fácil era viver ali. o Brasil era um país bem diferente do Japão, e ele sentia que podia ser bem mais expressivo e fazer as coisas do jeito que gostaria ali. Ele havia feito mais amigos e não tinha mais seus pais sempre pegando no seu pé, já que desde que haviam se mudado, eles estavam cada vez mais ocupados com o trabalho que mal tinham tempo para incomodá-lo tanto.
Sua rotina era uma coisa completamente diferente agora, montada por ele, com o objetivo de evitar os pais e ao mesmo tempo se manter em forma.
Ele acordava antes de todo mundo, comia uma coisinha leve e se alongava nos jardins dos fundos. Depois saia pra correr e só voltava 20 minutos antes de ir pra escola, o que só dava tempo de um banho e um pouco de proteína antes de meter o pé de novo.
Depois da escola seus pais não estavam em casa, então ele tirava esse tempo pra sair com seus amigos e relaxar, sempre de olho no horário pois precisava estar em casa às 6 em ponto. Nesse horário fazia algum exercício, depois voltava pra casa, tomava banho, jantava, estudava e ia dormir.
Só encontrava seus progenitores rapidamente pela manhã e durante o jantar, no qual ficava em silêncio e respondia as perguntas genéricas com respostas mais genéricas ainda, sem fazer muita questão.
Já que a casa era grande, era muito mais fácil fugir deles.
Um dia, enquanto pedalava no final da tarde como de costume, decidiu ficar um tempo a mais do que normalmente ficaria. A empregada que tomava conta da sua casa (uma moça adorável, diga-se de passagem) havia o avisado que seu pai pretendia ficar até mais tarde no escritório, então demoraria mais a voltar. E sua mãe estava visitando os parentes, então não tinha problema.
Isso foi no primeiro ano deles no brasil, e joui tinha uns 14 anos. Ele não era inteiramente uma criança, mas ainda era um pouco cabaço, então nunca tinha ido mais além que o normal no percurso. Dessa vez, ele decidiu arriscar, saindo da rua onde morava e indo longe no seu bairro.
As casas eram simples mas charmosas, com alguns sobrados e apartamentos mais endinheirados aqui e ali, mas nada tão chamativo como a sua própria casa (ainda achava grande demais pra uma família de 3 pessoas).
Joui se guiava pelas placas e pela luz amareladas dos postes, pedalando tranquilamente e aproveitando o passeio. O sol se punha lentamente atrás de si e o ar puro da noite já invadia seu pulmão agradavelmente, transformando uma semana de frustrações com seus pais em apenas uma boba memória passageira. Nessa época ele ainda tinha dificuldade de lidar com eles, e achava que os devia mais do que o normal.
Ele parou e desceu da bicicleta, puxando a garrafinha de água e bebendo enquanto andava pela calçada. Ele a guiava segurando seu guidão ao seu lado, enquanto observava mais calmamente as bonitas flores da vizinhança. A rua estava vazia e o único barulho era a corrente da bicicleta, mas mesmo assim era acolhedor.
Joui deu uma pausa em sua caminhada, ligando a luz da sua bike para não ocorrer nenhum imprevisto no percurso de volta. Quando ele estava prestes a sair e voltar para casa, um barulho incomum chamou sua atenção.
Ele virou a cabeça e encontrou uma figura escurecida pela noite, parecia estar com uma das mãos no bolso e na outra um regador de jardim. Joui percebeu que essa era uma silueta masculina com uma postura bem curvada, mas que molhava as plantas no quintal com muita calma.
Agora prestando mais atenção, ele também notou que aquela casa era a com maior variedade de flores em comparação com o resto da vizinhança, tendo também uma cerca viva ao redor do terreno e um portão de grade dividindo o quintal da rua.
Era bonito. Definitivamente um lugar muito bonito.
“EI!” a pessoa que antes regava as flores estava agora virada pra frente, e gritou pra si, parecendo irritado. “Tá fazendo o que aí encarando a minha casa?!”
O garoto tomou um susto, levando os olhos automaticamente em direção a voz.
“A-Ah, peço perdão!” Joui deu um passo pra trás, sentindo o nervosismo correr por suas veias.
Ele não queria parecer esquisito, só estava curioso com as flores.
“Já estou de saída, sinto muito pelo transtorno!" Ele se curvou em sinal de respeito, apertando o guidão da bicicleta com mais força.
“Sei. Vai caçar tua turma, ou eu chamo a polícia!" Ele gritou, puxando o celular do bolso.
Ele também parecia nervoso, e a sua voz era meio familiar.
“Não, não, por favor!” Joui travou sua cara num sorriso amarelo, se desesperando ainda mais. “Eu só me distraí com uma coisa, eu não quis-”
Pera.
Um click estalou na cabeça de Joui, fazendo aquela pessoa não parecer mais só meramente familiar. Com aquele cabelo preto bagunçado e aquela postura horrível…
Joui fez uma expressão confusa. “...Cesar??”
Isso pareceu ter deixado - o agora reconhecido - Cesar em ainda mais pânico “Ok, quem caralhos é você e como você sabe o meu nome???”
“S-Sou eu, o Joui! Da escola!” O adolescente se explicou rapidamente, e quando viu o garoto da sua idade abaixar o telefone ele suspirou aliviado.
Eles se encararam de uma distância razoável, Cesar bastante desconfiado e Joui muito, muito nervoso. Ele realmente não queria causar problemas, muito menos deixá-lo assustado.
“...Joui? O japonês?" Cesar falou depois de um tempo em silêncio.
“Sim! Exatamente, graças a deus...” sussurrou a última parte com um suspiro.
“E o que você tá fazendo aqui?”
“Eu moro aqui perto, tava só andando de bicicleta.” ele respondeu, apertando o sininho no guidão como forma de comprovação. “Eu juro que só me distraí com as flores.”
Joui viu cesar fechar os olhos e suspirar fundo, “Tá, ‘peraí."
Joui ficou parado no lugar enquanto Cesar se aproximava em passos largos, carregando uma expressão meio cansada no rosto.
Era mesmo Cesar. Isso era bom, pelo menos era um rosto conhecido numa confusão estranha como essa.
"Oi" Joui disse e acenou sem força assim que o colega parou em sua frente, apenas a grade do portão os separando.
"...oi" Após dar uma olhada direito no rosto de Joui, ele desviou o olhar.
"Desculpa pelo-"
"Desculpa o-"
Eles começaram juntos e pararam no mesmo momento, ficando em um silêncio esquisito.
"...você primeiro." Joui deu um sorriso constrangido, desviando os olhos com vergonha.
Cesar assentiu, coçando a garganta "Desculpa a desconfiança, eu... eu não tenho experiências boas com pessoas desconhecidas paradas na frente do lugar onde eu moro."
Joui negou com a cabeça. "Não, tá tudo bem. Eu que peço perdão por ter te assustado."
"Tudo bem." O cabeludo abanou com a mão em um gesto de não foi nada.
Cesar e ele não eram próximos, mas sabiam da existência um do outro. Ambos estudavam na escola ali perto, onde Joui havia sido recentemente matriculado. Era bem difícil se enturmar, principalmente quando as pessoas o encaravam e sussurravam como se ele não entendesse o que eles diziam, mas Cesar era um dos poucos que não havia feito nada disso.
Ele só ficava na dele, quieto. Nenhuma piadinha xenofobica ou comentário desconfortável. Eles até se cumprimentaram nos corredores uma vez.
"Então... É você que cuida dessas flores?" Joui perguntou quebrando o silêncio, curioso demais para se segurar.
Cesar pareceu ter se perdido em pensamentos por um momento. "Que? Ah, não, são da minha mãe. Eu só rego de noite quando ela saí."
Joui assentiu, interessado. "São muito bonitas."
"É. Ela se esforça." Cesar mexeu com a cabeça, trocando o peso de um pé pro outro logo em seguida. "Eu ajudo às vezes, mas não sei plantar nada."
"Ooooh..." Joui estava meio encantado, observando as folhas bem cuidadas da cerca viva enquanto conversava. "Mas você tem um pouco de experiência pelo menos?"
Ele deu de ombros. "Bom, acho que dá pra dizer que sim."
Cesar sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível. Mas ainda fez o coração de Joui saltar em uma batida por um momento.
O japonês sorriu também. "Isso é legal."
"Mhh" Cesar murmurou "Nem tanto. Mas eu nunca te vi por aqui perto."
O rosto de Joui se abriu em uma expressão surpresa pela mudança de assunto abrupta. "Oh, eu me mudei recentemente. Eu queria conhecer o bairro melhor, então acabei aqui." ele deu de ombros.
"Você é do Japão, né?" Ele perguntou, parecendo interessado. Isso animou Joui, que assentiu rapidamente. "E porque você se mudou? Se não se importa com a pergunta."
Joui chacoalhou a cabeça, "Não me importo. Foi uma coisa em relação ao trabalho dos meus pais. Não sei dos detalhes, mas eu gosto do Brasil."
Cesar levantou uma sobrancelha, "Certeza?"
"Mhh, sim?" Joui tombou a cabeça pro lado. "Porque não?"
"Ah, bom, cê sabe." Cesar desviou o olhar e enfiou as mãos dentro do bolso do moletom. "Você é diferente. O pessoal normalmente implica, principalmente quando se trata de aparência."
"Ah..." Joui deu um sorriso constrangido. "Bem, não dá pra dizer que é fácil. As pessoas não foram as mais... receptivas, eu acho." ele coçou a nuca, refletindo sobre sua falta de amigos.
Cesar deu de ombros mais uma vez, e Joui notou que talvez pudesse ser uma mania. "Sei como é. Viviam tentando grudar chiclete no meu cabelo quando eu comecei a deixar crescer."
Cesar mexeu nas mechas do cabelo em frente ao rosto. Joui observou como o cabelo preso de Cesar parecia agradável ao olhar.
Joui sorriu.
"Ele é bem bonito!" Ele afirmou, quase automaticamente, porque realmente pensava isso.
Cesar ficou instantaneamente bem vermelho, pelo que dava pra ver pela luz do poste. E Joui só se tocou do que tinha dito depois que a merda tinha sido feita.
Ele também enrubesceu, arregalando os olhos.
"ah-"
"m-mh."
"e-eu-"
"eh-"
Eles balbuciaram mais algumas coisas sem sentido até um silêncio estranho se formar, deixando Joui ainda mais constrangido e Cesar ainda mais vermelho.
"Ish, isso foi do nada." Joui deu uma risada constrangida, que Cesar acompanhou com menos intensidade. "Desculpa, as vezes eu esqueço de pensar antes de falar."
"N-Não, tudo bem..." Ele balançou a cabeça. "Eu só não tô muito acostumado com elogios... Valeu."
‘Pois devia estar!’ Joui se segurou de dizer, ‘Você é bem bonito.’
Mesmo que pensasse isso, e mesmo que contasse das vezes que se pegava observando Cesar amarrando o cabelo naquele coque embolado que ele fazia quando estava muito quente, isso só seria invasivo, e desconfortável. E Cesar além de parecer ser alguém interessante e que Joui adoraria se aproximar, também era obviamente uma pessoa muito introvertida.
O japonês não queria assustá-lo.
"Você também tá legal..." Ele ouviu Cesar sussurrar com timidez, e fingiu não ouvir. Mesmo que seu peito tenha se esquentado agradavelmente com o elogio.
Se um silêncio fosse se formar naquele momento, foi completamente cortado pelo telefone de joui gritando no bolso de sua calça.
O asiático puxou seu celular do bolso, surpreso, dando de cara com o contato do seu pai bem grande na tela de "chamada".
"Ah, com licença!" Ele se desculpou, sendo recebido com um gesto de não me importo educado vindo de Cesar. Joui atendeu.
Assim que colocou o telefone no ouvido, soube que teria problemas.
"Joui Jouki!" Seu pai, um sério empresário Japonês, grunhiu do outro lado do telefone, parecendo extremamente irritado.
O garoto encolheu os ombros automaticamente, afastando um pouco o celular do ouvido. Nessa época, o máximo que ele fazia era se defender, mas nunca com tanta convicção quanto eles. Joui não tinha confiança.
"Pai, oi." ele cumprimentou, "Eu to... Terminando minha rotina de exercícios."
"Era pra você estar de volta à 20 minutos atrás, Joui." o garoto começou a ficar nervoso. Não tinha reparado que tinha passado tanto tempo assim.
"D-Desculpa, eu desviei um pouco do caminho." Joui virou de costas pra Cesar, regulando seu tom de voz. "Já estou voltando."
Ele sempre ficava mais vulnerável quando se tratava daquele homem. Não queria demonstrar isso na frente de Cesar.
"Desculpas não reparam erros, Joui." Seu pai começou o sermão. "Você sabe que-"
"Pai, já tô a caminho, nós conversamos em casa." Ele interrompeu, farto dessa baboseira de sempre.
Seu pai elevou o tom de voz "Joui Jouki-!"
"Tchau pai" E desligou.
Ele ficou uns segundos encarando a tela do celular, que dizia "chamada encerrada"
‘Merda’ ele pensou ‘o que foi que eu fiz’
"Joui?" Cesar o tirou de seus pensamentos, o encarando com curiosidade. "Tudo bem ai?"
"Ah, Cesar-kun!" o honorífico saiu tão naturalmente como o japonês estava acostumado. "Sim, na verdade... tenho que ir."
Cesar corou, desviando o rosto pra baixo pra tentar disfarçar. "A-Aé? Puxa..."
"É..." Joui suspirou de olhos fechados. "Desculpa de novo pelo inconveniente. Não queria te assustar, nem te tirar esse tempo."
"Ah, não tem problema." Cesar o acalmou, dando um pequeno sorriso calmo. "Você... Você é na verdade um cara bem legal, Joui."
Por dentro, Joui estava nas alturas. Por fora, ele só deu um sorriso.
"Digo o mesmo de você, Cesar-kun! Espero que possamos ser amigos"
Cesar deu de ombros. "Quem sabe."
Joui deu uma risadinha, subindo na bicicleta. "Quem sabe. Te vejo amanhã na escola?"
Um calor agradável se formou no fundo do estômago de Joui enquanto ele esperava a resposta.
"...Claro." Cesar deu de ombros novamente.
Joui sorriu grande, acenou e foi.
Cesar acenou de volta, pensando em como aquele garoto estranho fora estranhamente gentil.
