Work Text:
Em todos nossos encontros em minha livraria, em meio a roteiros de livros e álcool, nós costumávamos conversar a noite inteira.
Você se acomodava em meu sofá, sempre seu, e enchia nossas taças de vinho pela metade, inconsciente do quão atencioso e doce era nesses momentos e agia como se não tivesse percebido o afeto que eu o lançava nessas ocasiões.
Você entendia meu sorriso e eu entendia seu silêncio.
E toda vez que eu falava em romance, seus olhos se estreitavam e você gargalhava.
Seus olhos me evitavam e um sorriso mais largo do que era apropriado se esticava em seu rosto. Tentava seu melhor, mas ainda parecia nervoso.
Você tentava mudar de assunto. Troçava. Me chamava de sentimental e dizia que as coisas que eu falava eram besteiras e ,mesmo que sua fala não ofendesse nem um pouco, me entristecia.
Falávamos de tudo, menos de nós.
Ficávamos assim. Nos provocando, nos desafiando e eu torcia que você fosse mais corajoso, mas estava ciente de minha própria covardia e aceitava ela como não aceitava a sua.
Às vezes, um silêncio transbordante de significado ficava entre nós. Bastava que eu olhasse para o seus olhos para que nos entendêssemos e nós costumávamos confortar um ao outro com olhares cheios. Seus ombros encolhiam e lá estava o sorriso de novo. Mais fechado, desconfortável. E você costumava soltar alguma piada para nos fazer rir.
Em um acordo silencioso, decidíamos deixar a conversa ir embora apesar das coisas que não ousamos dizer.
Você ainda usava seus óculos ,mas seus olhos eram brilhantes o suficiente para que eu conseguisse vê-los por trás da lente escura e acho que deve ter percebido sua desvantagem quando parou de vez de me encarar uma noite.
Certa vez, eu tinha dito que te amava e você riu.
Disse que, para mim, não faria diferença alguma dizer aquilo para um coelho chinchila ou para você. Me falou que eu era sempre assim. Um ser romântico e cheio de amor, que não entendia o significado daquela frase como você conseguia entender.
Só que estava errado, Crowley.
Quando eu insisti, você foi mais teimoso, chegou a me repreender com frases duras e chegou a me implorar para que não brincasse com você daquela forma. E você, querido, parecia tão quebrado que eu quis engolir minhas palavras e me submeter a sua mentira. Felizmente ,eu não fiz.
Nós derramamos algumas lágrimas naquela noite, você se lembra ?
Daquela vez, foi você quem falou de amor, mas você estava chorando.
Você me entregou seu coração e eu não ousaria quebrá-lo porque, naquela noite, tudo que eu acreditei se revelou uma verdade imutável e foi lindo.
Quando eu voltei a falar de amor, encostamos nossas testas uma na outra enquanto nos abraçávamos.
Daquela vez, nós dois rimos.
Rimos porque éramos dois tolos.
Nós rimos porque estávamos aliviados.
Felizes por algo que ,no fundo, sempre tivemos certeza.
Nós nos beijamos. Nosso primeiro beijo.
Meu coração festejou e acreditei que não poderia ser mais feliz que aquilo, mas você ainda tinha planos para nós.
Do seu jeito, você descobriu como me apaixonar mais e ,beijando minha pele, você me sussurrava declarações melosas de amor como bençãos e eu unicamente as sentia.
Eu me sentia tão amado, Crowley, que a menor menção daquele momento me faz encher os olhos. Eu soluçava.
Você sorria com carinho. Me olhava de uma maneira que nunca se permitiu antes e ,daquela vez, nossos olhos se sustentavam porque sabíamos que o que queríamos.
Nós nos queríamos.
Amávamos.
