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Summer of 89

Summary:

Eddie só queria aproveitar o primeiro dia de férias em paz, mas Richie não saía de sua cabeça.
Richie só queria se distrair e parar de pensar romanticamente em um dos seus melhores amigos, mas não esperava que teria em apenas um dia a pior e a melhor experiência de sua vida.

Notes:

Não sei usar as tags direito ainda, mas essa fic é totalmente fluffy soft fofa até porque eles são bebês <3 a única parte mais pesada é a cena com o Patrick. Procurei deixar o mais leve possível, mas olhem as tags e estejam avisados!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Silêncio.
O único som no ambiente era a voz distante da professora que, ainda, tentava passar alguma matéria e orientação enquanto suas explicações eram abafadas pelo tic tac do relógio.
O olhar de Eddie estava fixo no ponteiro vermelho que girava rapidamente, contando os segundos para que o sinal batesse. Seu pé batia no chão impaciente, ele roía as pelinhas do canto das unhas até sangrarem, ignorando completamente o esporro que levaria de sua mãe por aquela pequena automutilação. A impaciência o dominava. Parecia que estavam há horas naqueles cinco minutos finais.
Um chute na sua cadeira o fez pular com o susto e ele olhou pra trás, encontrando o olhar contrariado de Richie.
- Para de bater o pé - Richie sussurrou incomodado e Eddie precisou refrear a urgência de começar a bater os DOIS pés no chão.
- Não enche, Tozier - resmungou e virou pra frente de novo.
Agora, apenas a ponta do seu pé tocava o chão conforme ele balançava a perna pra cima e pra baixo. A ansiedade o consumindo.
Eddie odiava a escola. Apesar de ser um nerd, não era exatamente do tipo estudioso. Ele tirava as notas necessárias para que sua mãe não ficasse brava e aquilo era o suficiente, já que ela estava muito mais preocupada com a sua frágil saúde. O que era igualmente irritante. E a escola em si era um ambiente extremamente tóxico pra Eddie. Não no sentido literal do tipo que afetaria sua asma ou criaria bolhas na sua pele. Não. Tóxico do tipo que ele apanharia de algum otário - muito provavelmente Bowers - ou pior: receberia arroto de Huggins.
Só de lembrar do cheiro daquele bafo Eddie sentiu o refluxo arder em sua garganta.
Outro chute na sua cadeira o fez respirar fundo e fechar as mãos em punho.
Talvez Richie fosse o principal motivo pelo qual Eddie quisesse ir embora o quanto antes.
Estava se virando pra dar um soco em Richie quando o sinal bateu, o assustando.
Todos levantaram em um pulo, ignorando novas orientações da pobre professora.
Eddie pegou sua mochila e caminhou até Bill.
- O Bar Mitzvah do Stanley é nesse final de semana, né - comentou e Bill assentiu.
- O que exatamente acontece em um Bar Mitzvah?
- Eles cortam a ponta do piru dele fora.
- Na frente de todo mundo?!
- Mas aí não vai sobrar nada! - Richie se meteu na conversa e Eddie refreou uma risada.
- Idiota.
- Oi, gente - Stanley chegou, se espremendo entre Eddie e Bill.
- Stan, o que acontece em um Bar Mitzvah? Num é verdade que cortam a ponta do seu pau? - Eddie comentou e Stan revirou os olhos.
- Eu vou ler um texto em hebraico, fazer um discurso e virar um homem.
- Que merda - Richie exclamou - Pelo menos isso significa que você vai comer alguma gostosa?
- Sim, a sua mãe.
Eddie e Bill começaram a rir e Richie amarrou a cara.
- Babaca.
- Só tô fazendo você provar do próprio veneno - Stan deu de ombros e bateu na mão de Eddie em um cumprimento.
Richie revirou os olhos. Se arrependia todos os dias de ter apresentado aqueles dois. Era melhor quando Stanley era apenas seu amigo e os dois ficavam observando Bill e Eddie de longe.
Quando olhou pra frente de novo, Richie encontrou o olhar de Patrick Rockstetter nele. No mesmo segundo, um arrepio de desgosto desceu pela sua espinha. Conforme passavam perto do pequeno grupo de valentões, Patrick lambeu os lábios, ainda sem tirar os olhos de Richie, que refreou um tremelique e se encolheu pra mais perto de Bill. Tentou ao máximo não demonstrar o efeito que Patrick tinha sobre ele, mas era quase impossível. Preferia passar um dia inteiro fugindo e apanhando de Bowers do que passar por uma rua deserta com Patrick.
E Richie sabia exatamente o porquê, só não tinha coragem de comentar nada sobre.
Os quatro continuaram andando até a entrada da escola, onde jogaram seus materiais no lixo em um clássico ritual de começo de férias.
- Pra onde a gente vai primeiro? - Eddie questionou, botando a mochila nas costas novamente.
- Eu vou treinar - Richie respondeu, fazendo Eddie franzir o cenho.
- Treinar o quê?
- Street Fighter. Tô quase batendo o recorde da máquina do arcade!
Eddie revirou os olhos e negou com a cabeça.
- Você realmente pretende passar seu verão inteiro preso dentro de um arcade?
- Prefere que eu passe comendo sua mãe?
- Vai tomar no seu cu! Nojento!
Richie riu, sempre satisfeito em incomodar Eddie.
- Eu tenho que ir pra igreja - Stan disse - Ainda preciso treinar muito hebraico pra sábado. Vocês vão, né?
- Vamos sim - Bill garantiu e ele e Stan sorriram - Mas eu também não vou poder sair com vocês. Prometi que ia levar Georgie na natação.
- Você nem dirige! - Richie retrucou.
- É porque minha mãe não quer deixar ele sair sozinho ainda.
- Ele não tá com, tipo, dez anos?
- Sim, mas ele ainda é muito bobinho.
- Cara, com dez anos eu já ia sozinho no arcade.
- Pois é, mas realmente não posso. Nos vemos amanhã?
- Claro!
Todos se cumprimentaram e, ao que Stan e Bill foram embora, Richie e Eddie se encararam.
- Você vai pro arcade comigo? - Richie perguntou.
- Nem se fosse o último lugar no planeta - cuspiu e saiu andando, deixando Richie pra trás.
- Depois não reclama se chegar em casa e me ver com a sua mãe! - gritou e Eddie apenas ergueu o dedo do meio.
Richie riu e seguiu na outra direção, indo para o arcade.

Eddie foi pra onde sempre ia quando seus amigos estavam ocupados e ele não queria ficar sufocado em casa: a linha de trem abandonada.
Ele caminhou pela rua Neilbolt, completamente deserta, com casas inabitadas caindo aos pedaços, cercas enferrujadas e apodrecidas e restos de ferro velho pelos gramados secos e mal cuidados.
Apesar do cenário desagradável, aquela área deixava Eddie em paz. Era como se fosse o único lugar que ele pudesse colocar seus pensamentos em ordem.
Não que uma criança de treze anos tivesse muito o que pensar, mas, ultimamente, a carga de estresse em sua vida só vinha aumentando e, apesar de ter ótimos amigos, não se sentia confortável em compartilhar os problemas de casa com eles. Todos tinham famílias tão bem estruturadas, pais casados, um relacionamento comum com seus filhos, nada muito problemático ou sufocante. Era simples. Tudo que Eddie sempre sonhou em ter, mas, mesmo sem o pai, nunca conseguiu.
Teoricamente, ter um parente a menos pra te controlar era pra tornar tudo menos rígido, mas era o exato oposto. Sua mãe o sufocava tanto que Eddie sentia que realmente ia morrer com falta de ar se não saísse correndo de casa.
Ou, talvez, fosse apenas sua asma.
De qualquer forma, o campo aberto e desprovido de pessoas, animais e flores cheias de pólen era o lugar perfeito pra Eddie passar horas apenas com os seus pensamentos.
O clima estava ameno, um vento fresco agitava seu cabelo conforme ele subia a pequena colina até a linha de trem.
Eddie sentou sobre os trilhos e, dali de cima, teve uma visão razoável daquele lado da cidade. Queria esquecer de tudo, mas um alguém em específico teimava em não deixá-lo em paz nem mesmo dentro de sua própria cabeça. Eddie não queria pensar em Richie, especialmente em seu momento de paz, mas seu cérebro parecia não querer obedecê-lo e seu coração doía por não estar perto dele.
Patético.
Eddie rosnou, cerrou os olhos e abaixou a cabeça, respirando fundo três vezes antes de levantar dali, caminhando decidido ao lugar que ele menos queria ir.
Felizmente sua casa ficava no caminho, então passou pra pegar sua bicicleta. Não que ele quisesse chegar mais rápido, apenas se sentia cansado e com falta de ar.
Deu uma sugada em sua bombinha e subiu na bicicleta, chegando no arcade em poucos minutos.
Eddie ainda ficou um tempo parado ali na frente, segurando o guidão de sua bicicleta com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos.
Então ele desceu e entrou no arcade.
A primeira coisa que viu foram as luzes néon piscando pra todos os lados, o atordoando. Em seguida, ouviu a voz de Richie gritando em comemoração. Eddie seguiu naquela direção e seus passos pararam subitamente quando ele viu que Richie não estava sozinho. Tinha um garoto jogando com ele e não era ninguém que Eddie conhecesse, mas Richie parecia conhecê-lo muito bem já que dava tapinhas nas suas costas e sorria pra ele ao fim de cada partida.
Eddie sentiu o rosto esquentar até sua nuca suar e precisou da bombinha novamente. Quando o jato refrescante dilatou suas vias respiratórias, Eddie viu o olhar de Richie se virar em sua direção e, na mesma hora, o sorriso dele desmanchou pra uma expressão de surpresa.
Eddie continuou onde estava e, involuntariamente, olhou pro menino ao lado de Richie.
Richie seguiu seu olhar e seus olhos arregalaram antes dele olhar pra Eddie de novo e abrir a boca pra dizer alguma coisa que Eddie nunca ouviu, pois deu meia volta e saiu de lá o mais rápido possível. Ele ouviu a voz de Richie o chamando e o ignorou, começando a correr assim que passou pelas portas do arcade.
Richie ainda o seguia, então Eddie não arriscou parar pra pegar sua bicicleta, apenas seguindo pela calçada e tentando se afastar dele o mais rápido possível. Seus olhos ardiam assim como seu pulmão. Eddie não podia correr muito. Seus ouvidos explodiam com as batidas altas do seu coração e ele fechou os olhos, sequer pensando no caminho que estava seguindo, apenas querendo fugir de tudo aquilo. De Richie, dos seus sentimentos, da sua vida sufocante. Tudo era demais. Eddie precisava de ESPAÇO.
Parou subitamente ao tropeçar e cair direto no chão, batendo com o queixo no asfalto e o ralando ali.
- Ai… - resmungou, virando devagar pra não se ralar mais.
Eddie olhou pra trás e viu que Richie não estava mais ali. Devia se sentir aliviado que o tombo não havia atrapalhado na sua fuga, mas algo dentro do seu peito dizia que tinha alguma coisa muito errada. E Eddie odiava ignorar sua intuição então, mesmo a contra gosto, ele voltou pelo caminho que havia vindo.
Não andou nem três quarteirões antes de ouvir um choro baixo. Seus passos pararam de súbito antes de virar no próximo beco. Estava escuro, o poste daquela rua não funcionava e Eddie sentiu um calafrio descer pela sua coluna. Sem fazer um barulho sequer, ele espiou pra dentro do beco e viu uma silhueta grande de frente pra parede. Mais um soluço de choro e o coração de Eddie deu uma palpitada.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo ali.
- Cara… não.
A voz de Richie entrou pelos seus ouvidos e, no mesmo instante, Eddie ficou totalmente em alerta. Era ele que estava chorando? Mas aquela pessoa era grande demais para ser Richie… a não ser…
- Relaxa, Tozier - uma voz familiar e rouca disse - Você vai gostar, eu prometo.
Eddie sentiu sua respiração parar no mesmo instante. Era Patrick Rockstetter. Mas onde estava Henry? E Huggins? E Victor? Aquilo não fazia sentido. E ele não parecia estar batendo em Richie.
- Não - a voz de Richie soou trêmula e Eddie sentiu seu corpo inteiro gelar.
Nunca ouviu Richie soar tão… amedrontado e inseguro antes, nem mesmo quando eram ameaçados pelo grupo todo de Bowers Richie se acovardou e, agora, ele parecia com mais medo que nunca.
A próxima coisa que Eddie ouviu foi um zíper e aquilo era o que faltava pra ele gritar e entrar no beco.
Eddie não disse nada em seu ato “heróico”, apenas deu um berro incoerente devido seu desespero de imaginar o que estava prestes a acontecer.
Patrick deu um pulo pro lado enquanto tentava fechar suas calças e só então Eddie conseguiu ver a silhueta pequena de Richie encolhido contra a parede. Não dava pra ver se ele estava machucado, mas Eddie aproveitou o atordoamento de Patrick pra agarrar o pulso de Richie e sair correndo com ele dali.
Os dois correram. E correram. E correram mais um pouco.
Eddie mal sentia seus pés no chão ou seus pulmões ardendo, ele só pensava em se afastar daquele lugar. O único ponto que ele se mantinha firme era sua mão no pulso de Richie, em um agarre tão forte que deixaria marcas depois. Eles corriam tão rápido que a rua parecia um borrão e só pararam quando suas pernas, simplesmente, não aguentaram mais.
Estavam no Barens. Próximo à ponte do beijo.
Eddie não conseguia respirar, sentia que desmaiaria de exaustão, mas então ouviu mais um soluço vindo de Richie e uma nova descarga de adrenalina lhe deu fôlego pra respirar fundo e se virar pra ele. Sua mão ainda segurava o pulso de Richie com firmeza. Eddie simplesmente não conseguia afrouxá-la. Era como se, se o fizesse, corria o risco de que Richie escapasse e entrasse em perigo novamente.
- Rich… Richy - chamou sem fôlego e ouviu o choro dele em resposta antes de Richie desabar no chão.
Eddie sentiu seus olhos ardendo, por mais que ele não soubesse exatamente ainda o que estava acontecendo. Só sabia que Richie estava mal. Muito mal. Porque Richie Tozier nunca chorava nem se acovardava.
- Richie - Eddie disse, agora mais firme, e se agachou, segurando o rosto de Richie com as mãos - Olha pra mim - pediu, mas Richie virou o rosto antes de abaixá-lo contra os joelhos dobrados.
O corpo dele todo tremia de medo, não era só pelo choro. Eddie sentia que ele mesmo desabaria a qualquer momento, mas não podia. Não ali.
- Richie, por favor - implorou, se levantando e segurando no cotovelo dele - Ainda não estamos seguros aqui… precisamos descer o rio!
Richie não respondeu.
Eddie engoliu o choro. Seu queixo latejava com o arranhão. Suas pernas queimavam de tanto que havia corrido. E seu coração parecia que ia se despedaçar. Mas ele sabia que Richie estava muito pior.
Ainda não havia assimilado o porquê, mas tinha certeza.
A adrenalina lhe deu forças e Eddie conseguiu, muito desengonçadamente, pegar Richie no colo. Apesar de ser um pouco mais alto, ele era bem mais magro, então não foi tão difícil assim.
Eddie desceu o Barrens devagar, cuidando pra não cair e acabar machucando Richie que, agora, chorava contra o seu peito.
Pareceu uma eternidade, mas finalmente chegaram no seu esconderijo.
- Espera aqui, Rich - Eddie disse baixinho, o colocando no chão delicadamente antes de abrir a porta.
Dessa vez, Richie se arrastou e desceu as escadas sozinho. Ainda bem, pois não tinha como Eddie carregá-lo ali.
Só depois que fechou a porta e acendeu o pequeno lampião que havia ali foi que Eddie viu o estado de Richie. Ele não parecia machucado, mas seu rosto estava inchado de chorar, placas avermelhadas se espalhavam pelo seu nariz, bochechas e clavículas por ele ser branco demais e ele não tinha mais seus óculos. Eddie não sabia em qual momento eles o haviam perdido, mas aquela era a menor de suas preocupações naquele momento.
- Rich - chamou delicadamente e Richie soluçou, voltando a chorar.
- Não olha pra mim, Eddie - cobriu o rosto com as mãos e virou de costas pra ele.
- Richie…
Eddie não sabia o que dizer. Não sabia sequer o que fazer. Sentia que não devia tocar em Richie sem que ele demonstrasse que era aquilo que queria. Assim, aos poucos, a realização do que poderia ter acontecido o atingiu. Eddie sentiu sua garganta fechar e seu queixo tremeu, mas ele não sentia que aquele era seu momento de chorar. Richie ainda precisava dele.
- Eu… desculpa - Richie pediu de repente e Eddie piscou algumas vezes, tentando afastar as lágrimas.
- Pelo quê, Richie?
- Eu– por não ter ido com você… por ter preferido ficar jogando com… o Adrian.
- Adrian? Ah… - só agora Eddie havia lembrado o que tinha acontecido antes do seu tombo - Tudo bem…
Eddie não se importava mais com aquilo. Tudo que ele queria era confortar Richie, mas sentia que devia conceder à ele aquelas desculpas. Qualquer coisa para acalmá-lo.
- Desculpa não ter ido jogar com você - pediu depois de alguns segundos de silêncio - Eu… precisava espairecer um pouco e o arcade não era exatamente o lugar pra isso.
- Você queria se ver livre de mim - Richie disse, sua voz quase voltando ao normal, não fosse a fungada que ele deu depois.
Eddie sentiu um sorriso querendo surgir no canto dos seus lábios e o escondeu quando Richie olhou por sobre o ombro. Ele sorria em meio as lágrimas quase secas e aquilo fez o peito de Eddie se comprimir ainda mais. De novo, precisou engolir o choro.
- Eu não tô vendo nada, mas tenho certeza de que você tá sorrindo - Richie disse estreitando os olhos.
- Bem que você queria, Tozier - conseguiu se obrigar a dizer sem voz de choro e realmente sorriu ao ver o sorriso de Richie.
- Você não aguentou nem uma tarde e já foi pro arcade atrás de mim - deu de ombros, passando as mãos no rosto e limpando as lágrimas e catarro que ainda tinham ali - Por que você é tão obcecado, Eddy?
Eddie deixou uma risada escapar pelo nariz e achou melhor entrar na brincadeira de Richie. Sabia que ele estava querendo fugir do assunto e achou melhor dar o tempo que ele precisava.
- Eu fui atrás de você pra acabar com a tua raça no Street Fighter!
- Bem que você queria, Kaspbrak - retrucou com o que ele mesmo havia dito antes e Eddie não conseguiu evitar a risada que escapou.
- Idiota!
Os dois riram e, quando o silêncio se instaurou novamente, Eddie encarou Richie, vendo que ele olhava na sua direção com um sorriso doce nos lábios.
- Eu amo te fazer rir, mas odeio não poder te ver sorrindo - Richie disse e Eddie sentiu seu coração errar uma batida.
- Bip bip, Richie - soltou mais rápido do que seu cérebro conseguiu calcular uma resposta coerente.
- Desculpa… - Richie pediu, mas ainda sorria.
Eddie sentiu seu rosto esquentando e arregalou os olhos quando Richie deu os passos necessários pra chegar até ele. Com o desnivelamento do chão, Eddie estava mais alto. Por estar entre ele e o lampião, sua sombra impediu que ele visse bem o rosto de Richie.
- Aqui - Richie pegou na mão de Eddie e subiu onde ele estava, fazendo ele dar meia volta e os dois pararam ao lado do lampião.
A luz trêmula e amarelada fazia as sardas de Richie parecerem formigas minúsculas dançando pelo seu rosto. Seus olhos ainda estavam úmidos e seu nariz vermelho, mas o sorriso no rosto dele era genuíno.
- Agora sim consigo te ver direito - disse e levou a mão pro rosto de Eddie.
Richie sempre tentava tocá-lo e Eddie sempre batia na sua mão para afastá-lo, mas dessa vez ele deixou. Os dedos de Richie eram frios, mas o toque deles na sua bochecha fez o rosto de Eddie queimar. A surpresa foi evidente no semblante de Richie quando ele percebeu que Eddie não o havia impedido dessa vez.
- Então eu precisava ser quase assassinado pra você me deixar tocar em você? - questionou e recebeu um soco no peito.
- Cala a sua boca, filho da puta - ralhou e Richie riu - Eu não tô brincando, Tozier. Não é pra fazer palhaçada com isso. Eu fiquei realmente assustado!
- Medo de me perder? - Richie sorriu, seus olhos olhando diretamente nos de Eddie.
- Vai tomar no seu cu! Eu já mandei você parar de brincar!
- Eu não tô brincando…
O sorriso de Richie foi se desmanchando até o brilho nos seus olhos sumirem. Ficou tão opaco que parecia que o lampião havia se apagado. Eddie sentiu medo de tê-lo magoado, mas a mão de Richie ainda no seu rosto, com o polegar acariciando de leve sua bochecha dizia que não. Ele só precisava esperar.
Depois do que pareceram horas Richie respirou fundo e se sentou no chão. Eddie o seguiu, sentando de frente pra ele. Estavam de pernas cruzadas e seus joelhos se tocavam. Eddie sentiu falta do toque da mão de Richie no seu rosto, então pegou as mãos dele nas suas.
- Nunca vi dedos mais gelados, parece que vai necrosar! Me dá aqui pra esquentar isso - ralhou em tom de esporro e Richie sorriu, deixando que Eddie tentasse cobrir suas mãos com as dele, sem sucesso.
- Eu te amo - pensou alto e sentiu sua garganta fechar na mesma hora.
Pensou que Eddie gritaria com ele, xingaria e o deixaria ali, indo embora irritado. Mas ele não fez isso. Eddie ignorou seu olhar, fingindo não ter ouvido e focando em ainda aquecer suas mãos. E Richie foi grato por isso.
- Obrigado… por… hoje - Richie disse com dificuldade e Eddie engoliu em seco, parando de esfregar suas mãos e erguendo o rosto pra encará-lo.
- Você não precisa falar sobre isso se não quiser.
- Eu preciso… isso tá me consumindo há meses.
- Tá bem… então fala.
- Mas você tem que me prometer duas coisas.
- O quê?
- Uma que não vai contar pros outros. Nem pro Bill.
- Por quê? Você sabe que eles entenderiam e ajudariam a te proteger.
- Eu não quero ser protegido.
- Richie.
- Eddie, por favor… eu não quero.
Eddie virou o rosto e apertou as mãos de Richie entre as suas. Ele entendia o sentimento, mas não achava certo deixar Patrick sair impune daquilo.
- Então eu vou ser obrigado a matar ele sozinho. Tá - concluiu e ouviu Richie dar uma risada.
- Meu herói.
- Fala a outra promessa, Tozier.
- Você vai ter que prometer que, se precisar, vai desabafar comigo também.
- Quê?!
- Eu tô confiando em você o segredo mais profundo da minha curta vida. Nem mesmo o Stanley sonha com isso.
- Até porque, se ele sonhasse, já teria matado Patrick com as próprias mãos.
- Isso não vem ao caso…
- Não vou te pressionar pra falar sobre isso, imagino como deve ser difícil, mas eu preciso que você me garanta que vai buscar ajuda depois que a gente sair daqui.
Richie ficou calado e Eddie o encarou irritado.
- Richie - chamou em tom de advertência.
- Eu… você sabe que eu não posso.
- Por que não?
- Vão pensar que eu sou gay. Ele nunca chegou a fazer nada e… se eu falar alguma coisa e não puder provar… Eddie, vai ser muito pior - a voz de Richie tremeu e as mãos de Eddie apertaram nas dele.
- Tá… tá, eu– você tem razão. Desculpa…
- Não é a primeira vez que ele tenta fazer alguma coisa comigo… você sabe que ele tá sempre passando a mão nas meninas mesmo na sala de aula.
- Sei… eu já vi… mesmo a Greta tem medo dele. Mas achei que ele só fazia isso com meninas.
Richie negou com a cabeça.
- Ele faz com meninos também, só que escondido, pra ninguém saber. Ele fazer isso com meninas é considerado coisa de homem e todo mundo meio que ignora. Mas, se vissem ele fazendo com menino, ele se tornaria o viado da cidade.
- Talvez isso fizesse ele parar…
- Ele não vai parar…
As mãos de Richie suavam e Eddie começou a fazer carinho nos nós dos dedos dele com os polegares, tentando acalmá-lo.
- Ele… tentou passar a mão em mim uma vez que eu estava voltando tarde do arcade, depois da hora de fechar.
- Quando isso?
- Já tem tempo, foi no recesso de primavera. Eu consegui empurrar ele e corri pra casa, mas… ele continuou me olhando de um jeito nojento na escola… eu sabia que ele tentaria alguma coisa de novo e venho fugindo dele desde então.
- Como ele conseguiu te pegar hoje?
- Eu… me descuidei. Quando vi você correndo pra fora do arcade, não sei, senti que precisava ir atrás de você… você parecia ter ficado realmente chateado, apesar de eu não fazer ideia do motivo.
Eddie sentiu suas bochechas queimarem.
- Continua - pediu.
- Eu tava correndo atrás de você tão preocupado que não percebi ele na entrada do beco. Quando vi já tava sendo puxado e ele me jogou na parede…
- Você não precisa descrever se não quiser.
- Eu não vou… ele não fez nada demais, na verdade.
- Fez sim. Se você não deixou ele fazer, qualquer coisa é demais - Eddie exclamou, apertando as mãos de Richie nas suas.
- Sim, mas… eu não consegui empurrar ele dessa vez. Eu tava cansado de correr e preocupado com você, fiquei com medo que se eu corresse talvez ele te encontrasse e levasse você pra um beco. Muitas possibilidades passavam pela minha cabeça e nenhuma delas era boa. Então eu só fiquei lá… e tentei argumentar com ele. Você chegou bem na hora que eu tava perdendo as forças e ia… eu ia ceder.
- Richie, não…
Richie deu de ombros.
- Não é como se eu também não fosse gay - falou tão baixo, que parecia não querer que Eddie realmente ouvisse.
Mas ele ouviu.
Seu queixo tremeu novamente, mas, dessa vez, Eddie deixou que as lágrimas escorressem.
- Isso não tem nada a ver, seu idiota - disse com voz de choro, fazendo Richie encará-lo assustado.
- Eddy…
Eddie piscou, expulsando as lágrimas.
- Não é só porque você é gay que você vai ficar com qualquer nojento que tentar alguma coisa com você!
- Eu sei, Eds… falei da boca pra fora, desculpa…
- Nunca mais repete isso e, muito menos, cogita deixar alguém se aproveitar de você! Ouviu, Tozier?!
- Sim, senhor.
- Idiota - ralhou e Richie riu.
- Você me ama, spagheddie.
- Te odeio. Nunca senti tanta vontade de te socar antes na vida!
- Agora é a sua vez! Por que fugiu pras montanhas mais cedo?
Eddie suspirou, soltando as mãos de Richie e as apoiando no chão, relaxando suas costas pra trás.
- O mesmo de sempre… não aguento mais minha mãe.
- Você parece que tem trinta anos prestes a sair de casa falando isso.
- Otário! Mas… é como eu me sinto mesmo. Treze anos convivendo com ela já é demais… eu queria ter uma família como a sua.
- Como a minha?! Por quê?!
- Seus pais tão juntos e parecem ser tranquilos.
- Meus pais são péssimos! Meu pai nem sabe quantos anos eu tenho, só quer saber de ver meu boletim no final do ano e, se eu tiver uma nota menor que 9, eu apanho. Minha mãe é até legal, faz umas comidas gostosas, mas ela passa mais tempo no telefone com as amigas do que realmente se importando com o que eu tô fazendo.
- E isso não é bom? Você tem liberdade.
- Liberdade demais se torna negligência, Eddie. Se eu chego machucado em casa, independente de ser por um tombo ou por apanhar do Bowers, eu ainda levo esporro e tenho que me cuidar sozinho porque “já sou bem grandinho pra isso” - fez aspas com as mãos - Não é só porque meus pais tão juntos e não me entopem de remédios que eles são perfeitos não!
- Eu… nunca tinha parado pra pensar nisso.
- Se eu não te conhecesse, teria inveja da sua mãe. Por te conhecer, sei que ela extrapola em te controlar demais, mas eu não reclamaria de chegar em casa e ter alguém sentindo minha falta ali - deu de ombros.
Eddie sentiu seu peito comprimir. Richie fazia tanta coisa pra chamar a atenção e era tão irritante, mas, agora, ele entendia o motivo.
- Me sinto um idiota por ter desabafado sobre o segredo da minha vida agora, Tozier, parabéns - debochou e Richie riu.
- Não quero que você pense que tô diminuindo sua dor! - colocou a mão no joelho de Eddie e sorriu - Só quero que você entenda que nenhuma família é perfeita. E algumas são realmente muito ruins, tipo as nossas - admitiu e Eddie riu - Entendo você precisar de um tempo sozinho por se sentir sufocado, mas… agora espero que saiba que, se precisar, eu posso te ouvir reclamar da sua mãe também.
- Se eu estiver precisando de paz, a última pessoa no mundo que eu vou procurar é você, Richie, mas obrigado.
Richie riu.
- Justo…
Um silêncio confortável se instaurou. A mão de Richie que ainda estava no joelho de Eddie começou um carinho suave, lhe causando arrepios.
- É melhor eu ir… - Eddie disse, mas sem fazer movimento nenhum pra levantar.
- Não quero ir - Richie admitiu, erguendo o rosto pra encarar Eddie.
Seus olhares se encontraram e o coração de ambos falharam por milésimos de segundo.
- Pretende dormir aqui, Tozier?
- Não tenho nem perna pra andar de volta pra casa. E minha bicicleta ficou no arcade.
- A minha também! Puta que pariu.
- Parece que vamos ter que dormir os dois aqui - Richie sorriu e Eddie virou a cara, suas bochechas corando.
- Eu vou dormir na rede, você dorme no chão - Eddie falou e levantou.
Richie riu e ficou de pé também.
- Espera, Eds - chamou, segurando na mão de Eddie e fazendo ele encará-lo - Obrigado… mesmo.
- Pelo quê, Tozier? Dormir no chão não é favor nenhum.
- Por ter me livrado de um problemaço… e por ter me ouvido sem julgamentos.
- Quem disse que eu não te julguei? - ergueu uma sobrancelha e Richie riu.
- Justo… Posso te pedir mais uma coisa?
- O quê?
- Um abraço.
- Você não tá tirando com a minha cara não, né, Richie?
- Eu juro…
O sorriso doce no rosto de Richie, apesar de não ser comum, era genuíno. Eddie sentiu seu rosto queimar e, pra que Richie não percebesse, ele logo envolveu os braços na cintura do outro. Richie sorriu e abraçou Eddie de volta, encaixando o rosto no ombro dele e inalando seu cheiro de hortelã e cânfora. Ironicamente, era uma combinação gostosa e refrescante.
O abraço demorou mais do que qualquer um dos dois poderia imaginar. Quando foram se desvencilhar, seus rostos passaram tão perto um do outro que suas bochechas se roçaram. Richie parou a centímetros de Eddie e o olhou nos olhos.
- Posso te contar outro segredo? - Richie perguntou e Eddie trancou o maxilar ao sentir o hálito dele contra o seu rosto.
Eddie jamais admitiria, mas o cheiro de chiclete de tutti frutti vindo da boca de Richie era muito convidativo.
- Pode - foi tudo que disse pra não deixar transparecer nada em sua voz.
- Eu sempre quis que meu primeiro beijo fosse com alguém que eu amasse - disse e o coração de Eddie deu cambalhotas.
Se não estivessem ainda abraçados, Eddie teria desabado no chão com toda certeza.
- Você vai me pedir caridade uma hora dessas, Tozier? - brincou, querendo acabar com o clima que se instaurou, mas Richie apenas riu.
- Acho que sim… será que você poderia realizar o sonho desse pobre nerd fracassado?
- Eu tô te fazendo favor demais hoje. Tá tudo contabilizado e eu vou cobrar depois!
- Vou estar esperando ansiosamente.
Eddie virou o rosto pra esconder o sorriso idiota que o invadiu por puro nervoso, mas Richie viu e segurou seu queixo, com cuidado pra não tocar no machucado.
- Amanhã vamos lá em casa pra fazer um curativo nesse queixo.
- Por que EU iria pra SUA casa cuidar da minha SAÚDE, Tozier?
- Quer mesmo sua mãe perguntando como você se machucou?
Eddie bufou irritado.
- Combinado, idiota. Mas sem gracinha!
- E o meu beijo?
Eddie virou o rosto e olhou pra Richie de rabo de olho de cima a baixo antes de suspirar, segurar no queixo dele e tocar suas bocas. Os lábios de Richie eram muito macios, o que surpreendeu Eddie ao ponto dele se afastar rapidamente e encará-lo assustado. Richie o olhou de volta confuso.
- Eu fiz alguma coisa de errado? - questionou.
- Bip bip, Richie - disse, segurando na gola da blusa dele e grudando seus lábios novamente.
Não teve língua. Nenhum dos dois sabia muito bem o que estava fazendo e não queria que caminhasse pra algo desastroso, então se mantiveram apenas tocando seus lábios e estalando alguns selinhos vez ou outra. Eddie envolveu o lábio inferior de Richie com os seus e fechou os olhos, apreciando a maciez deles uma última vez antes de se afastar, sem fôlego. Ele pegou a bombinha e cobriu a boca de Richie quando ele ameaçou dar uma risadinha.
- Sem gracinha, Tozier - ralhou quando voltou a respirar - Quem implorou por um beijo meu foi você!
- E eu não me arrependo nem um pouco.
- Idiota.
- Boa noite, meu anjo - Richie se inclinou, estalando um beijo na testa de Eddie e se afastando pra sentar no chão novamente.
A mão de Eddie segurou na de Richie, impedindo que ele sentasse ali.
Os dois foram pra rede e cada um deitou numa ponta, com suas pernas se enroscando umas nas outras.
- Aliás, onde você perdeu seu óculos? - Eddie questionou depois que se acomodaram.
- Ele caiu quando você me puxou pra gente fugir do beco.
- E agora?
- Certeza que o babaca do Rockstetter quebrou ele de ódio. Mas eu tenho outros em casa, não tem problema.
- Seus pais não vão brigar?
Richie sorriu com a preocupação de Eddie.
- Um pouco… mas eu tô acostumado.
- Quer ir pra ferrovia da rua Neilbolt comigo amanhã? - Eddie chamou depois de alguns segundos de silêncio.
- Tá me convidando pro seu lugar de paz secreto?
- Deixa pra lá.
- NÃO! Quero ir sim!
- Idiota.
- Amanhã então combinado, primeiro rolê na minha casa pra pegar meu óculos e fazer curativo no seu queixo, passada na delegacia porque, com certeza, sua mãe vai tá lá pra reportar seu desaparecimento e depois partiu pro nosso primeiro encontro.
- Quem disse que é um encontro, seu otário?
- Você também não disse que não era, meu spaghetinho.
- Vai dormir e não enche meu saco, Tozier.
- Meu beijo te conquistou, eu sabia que isso ia acont– AI! - choramingou depois de levar um chute.
E aquele foi o recado que faltava pra Richie calar a boca e, finalmente, dormir.
O verão daquele ano foi inesquecível por diversos motivos:
O Bar Mitzvah de Stanley, onde ele quase jogou o Torá pro alto e disse na frente de todo mundo que não queria fazer parte daquilo.
Bill conseguiu conquistar sua independência (seu pai comprou um carro e sua mãe passou a levar Georgie nos lugares).
Eles fizeram novos amigos: Mike, Ben e Bev, agora sendo capazes de encarar o grupo nojento de Bowers.
Eddie enfrentou um valentão sozinho pra salvar Richie.
E Richie se declarou pro garoto que ele era apaixonado desde os dez anos de idade. E foi correspondido.
1989 foi o ano dos Losers.

Notes:

Espero que tenham gostado! Tenho mais de onde veio essa <3