Chapter Text
— Embora essa seja a gárgula mais recente do colégio, o método usado para esculpi-la é do século passado — frente à estátua de uma criatura alada na parede, Malleus mantém um tom sereno em sua voz. — Veja bem, os detalhes são mais refinados quando comparada às gárgulas da era moderna.
Ao lado dele, Silver ouve com atenção.
No entanto, um cansaço repentino faz o foco do rapaz humano se dispersar segundo a segundo. Com as pálpebras quase se fechando, só lhe resta balançar a cabeça para escapar da armadilha do sono.
Ao cruzar os braços ele sente-se frustrado, pensando que é um péssimo momento para a sonolência perturbá-lo.
O príncipe feérico é um homem de poucas palavras, mas que se torna eloquente quando fala sobre o quão fascinantes são as gárgulas, desde sua origem e simbolismo até a apreciação de suas formas esculpidas.
Silver apenas deseja admirar o brilho de entusiasmo nos olhos esverdeados, e ouvir mais daquela voz profunda, sempre pronunciada com seriedade, se tornar empolgada conforme explica detalhe por detalhe.
Malleus parece tão radiante em compartilhar algo que o deixa feliz, que Silver não pretende perder um único segundo. Pelo seu mestre, o jovem está determinado a vencer o cansaço.
Contudo, antes que ele perceba, seus olhos já estão fechados enquanto sua cabeça tomba para o lado.
— O artista-
Draconia para no meio da frase ao sentir o amado aconchegado em seu ombro. É previsível que ele durma em uma situação como essa.
— Silver, acorde — o feérico chama um tanto severo.
— Ah! — o rapaz humano desperta em segundos, logo endireitando a postura. — Sinto muito pelo descuido, meu senhor.
— Se observar as gárgulas é tedioso para você, apenas vá em frente e diga — um suspiro escapa, o semblante sério. — Creio que Lilia tenha lhe ensinado a ser sincero com seus sentimentos.
Malleus sabe que a sonolência de Silver é incontrolável em qualquer ocasião, porém é tão divertido provocá-lo apenas para obter uma reação adorável.
— N-Não! — os olhos de aurora se arregalam, um tanto desesperados. — Meu senhor, eu jamais pensaria que estar ao seu lado é tedioso. Por favor, me perdoe se eu o magoei.
O príncipe sorri internamente, é irresistível como o jovem cavaleiro se apressa em corrigir o seu erro. Tão amável.
— Já que estava tão concentrado no nosso passeio pelo clube, conte-me o que você aprendeu hoje sobre gárgulas.
Silver sente um rubor espalhando-se em suas bochechas. A verdade é que ele estava mais focado no próprio Malleus do que nas estátuas.
Apesar da vergonha, seu olhar permanece firme, nunca ousando desviá-lo diante do seu mestre.
— Mesmo que o meu senhor me explique durante horas sobre gárgulas, não acho que serei capaz de entendê-las tão bem. Mas escoltá-lo várias vezes pelo clube me fez perceber o porquê de Malleus-sama gostar tanto delas.
Draconia leva o indicador ao queixo, intrigado.
— É mesmo? Minha atenção é toda sua, continue.
Silver coça a nuca, formulando seus dizeres.
— Como posso dizer... Sinto que Malleus-sama se identifica com as gárgulas. Lembro que o meu senhor me ensinou que a aparência assustadora delas é proposital, porque o dever das gárgulas é proteger dos maus espíritos — ele tenta colocar a honestidade que habita seu coração na forma de palavras. — O meu senhor também é temido pela sua aparência intimidadora e o seu poder, mas as pessoas não veem como ele pode ser gentil.
Silver se recorda dos sussurros amedrontados pelos corredores, dos passos apressados para que não cruzem o mesmo caminho que o feérico. Ele pensa em como é injusto que seu mestre seja julgado sem ao menos o conhecerem.
— Quando o meu pai e Sebek foram capturados pela noiva fantasma, você queria resgatá-los embora estivesse de mãos atadas, e no Halloween você também protegeu Yuu e Grim daqueles Monstros Magicam. Eu queria que todos vissem como Malleus-sama é protetor como uma gárgula — por fim, ele sorri de maneira branda.
O príncipe só pode encará-lo com os olhos arregalados. Ele entreabre os lábios, mas seus dizeres ficam presos na garganta.
— Meu senhor? Eu disse algo errado? — o semblante de Silver se torna preocupado. — Desculpe, eu me-
Malleus interrompe ao tocar o lindo rosto diante dele. Dedos enluvados acariciam a pele em um gesto delicado, e os olhos esverdeados encontram os de aurora. Um olhar sereno, mas que carrega o peso das palavras que não podem ser ditas.
— Ah, minha doce criança — ele reprime um 'tolo' da frase. — Se entre nós dois há uma gárgula, esse alguém é certamente você. A gárgula que zela por mim.
Malleus envolve a cintura de seu amado cavaleiro, o abraçando apertado. Silver estende a mão para devolver o gesto, porém hesita. Demonstrações de afeto como essa são reservadas para momentos a sós.
Contudo, se Draconia deseja abraçá-lo sem se importar com olhares alheios, o rapaz não negará a vontade de seu querido mestre. Finalmente, ele retribui a carícia, o seu calor se misturando ao de Malleus conforme se aconchega contra o peitoral dele.
— Silver, jure para o seu futuro rei aqui e agora — o feérico o aperta um pouco mais forte. — Que você vai permanecer como a minha gárgula até o fim.
A voz do príncipe está tão perto, e ainda soa tão distante, como se falasse para um futuro que somente ele pode enxergar. Silver está incerto se compreende o que há por trás de tais palavras, mas foi uma ordem lhe foi confiada.
Se for para proteger o seu precioso mestre, Silver continuará afiando a lâmina de sua espada.
— Prometo que me tornarei uma gárgula que afasta os maus espíritos de Malleus-sama.
