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O Tear das Parcas

Summary:

"Escutai tu, fugaz fanfarrão
Um rei ofuscante, mãos no tear
Seu é o caminho na escuridão
Vem o destino, teu para roubar
Um fiapo de vida, tua redenção
Tochas e flechas, sua vida a guiar
Amargos inimigos, tudo arruinarão
A esperança em três, iremos fiar"

Nesta história, acompanhamos Mitch Faircreek - este jovem meio-sangue numa jornada enquanto ele tenta fugir de seus problemas e acaba emaranhado numa profecia junto a dois inusitados novos amigos, que se veem forçados a enfrentar uma ameaça terrível ao poder supremo das Parcas, as Deusas do destino. Em uma aventura recheada de romance, comédia, mistério e ação, Mitch Faircreek e seus amigos embarcam numa aventura que pode muito bem decidir o destino de todas as coisas vivas.

Notes:

Olá pessoal, eu sou E. Marck - nas redes de fanfic conhecido como Taifu-no-me, Halloweeny ou Joshua de Vine - e trago a vocês mais uma aventura mitológica no mundo fantástico de Percy Jackson e os Olimpianos. Para quem está lendo uma história minha pela primeira vez: Gosto de fazer histórias no Riordanverso com personagens originais desde os catorze anos de idade.
Quem já leu minhas coisas sabe que tenho umas boas sagas já escritas de pura aventura, romance LGBTQIA+ e exploração de temas novos, leiam se bem desejarem, elas não afetam diretamente esta aqui (Embora se virem algo diferente do cânon, é por causa das mudanças que fiz).
A última história que publiquei foi "O Último Luar", que é cronologicamente anterior a esta, se passando por volta de 2-3 anos antes. O protagonista, inclusive, é um dos personagens secundários: Mitch Faircreek, filho de Laverna, deusa romana dos charlatões e do roubo.
Enfim, sem mais delongas, nos veremos nas notas finais - onde sempre tenho à disposição links com músicas e um glossário breve. Até mais e boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Mitch está fugindo de novo

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

I - Mitch está fugindo de novo

 

Mitch não queria hot-dogs, especialmente se fossem oferecidos por cinocéfalos no meio do metrô de Nova York. Quem colocava chucrute nos benditos hot-dogs, gente? Pelo amor de Júpiter. Estadunidenses eram malucos, definitivamente.

O garoto se mexeu, inquieto como sempre, debaixo de uma placa que indicava direções gerais e estações onde o metrô pararia. Seus olhos escuros feito grafite fixaram-se por alguns segundos na parte que dizia Long Island… Alguma coisa, as letras começaram a flutuar por alguns segundos e ele tentou se concentrar.

Ter a mente agitada era algo difícil, e todo meio-sangue como ele tinha que lidar com isso.

E paciência, Deuses, esse não era seu forte.

- Vai querer ou não? - perguntou o cinocéfalo, sua face igual a de um buldogue de pelagem cor-de-creme. Ele usava um avental e um boné, a face transluzia com a Névoa, com uma feição de um homem bem feio. - São dois dólares, colega.

O cheiro do hot-dog, por mais nojenta que a mistura parecesse, encheu as narinas do semideus. Havia uns pãezinhos com as salsichas dispostas, aquecidas numa chapa diante dele.

Tão perto.

- Hã… - Mitch tateou os bolsos da calça, achando um par de denários romanos, a moeda do Acampamento Júpiter. - Serve isso?

O buldogue moveu a cabeça e apontou para o carrinho - Dracmas e dólares (Apenas). Que mundo injusto, Nova York estava bem longe do domínio do Acampamento Júpiter. Ele talvez conseguisse trocar os denários por alguns dracmas, mas não via nenhum entreposto para isso. Só não fora pior que em Boston, onde lhe pediram ouro vermelho - o que quer que aquilo fosse.

- Perdão amigo, só denários. - seu estômago roncou, a cabeça pesava com o cansaço incessante dos últimos dois dias cruzando o país.

Não foram dias fáceis.

- Vou circulando então. Boa viagem. - o cinocéfalo deu de ombros e pegou o carrinho, andando pelo chão imundo de granito e grunhindo algo em Grego Antigo. Mitch deu um passo para o lado e estendeu sua mão brevemente, um gesto suave no mesmo instante que o vendedor tirou os olhos dele. A luz sobre eles piscou por meio-segundo.

Um suspiro deixou a boca do garoto, os dedos trouxeram um hot-dog quentinho à boca assim que o vendedor sumiu entre pilastras, o movimento agitado da noite em Manhattan os envolvendo.

Mitch mastigou devagar e grunhiu: - Nada mau. 

[...]

Enquanto Mitch estava no vagão do metrô, ele pegou algo de sua bolsa. 

O garoto olhou para trás de súbito, vendo o reflexo de sua feição magricela, alta e esguia contra o vidro. Ele estudou seus arredores e viu que só havia mais três pessoas no vagão, todas despreocupadas em seus celulares. Lhe pareceu seguro.

Mitch sacou seu diário, um caderninho marrom que se agitava entre seus dedos fugazes. Do bolso, tirou uma caneta e se permitiu respirar fundo, contando até dez bem devagar em latim. Seus pés agitados logo foram percebidos, ele se permitiu parar o movimento e contar de novo.

- Unus, duo, tres, quattuor… - murmurou, sentindo seu coração mais calmo e a sensação formigante entre os dedos parando. - … octo, novem, decem. 

Mais um respirar fundo.

Ele se pôs a escrever, como fazia quando estava nervoso.

Caro Lance, eu fiz aquilo de novo. 

É, eu roubei de mais um inocente. Sei que é uma daquelas coisas que me acostumei a fazer ao longo dos anos, mas dessa vez eu realmente precisei. Estava com fome e apenas peguei um hot-dog, só isso. Não roubei as jujubas do cara que me vendeu a passagem, ou as chaves bonitas de uma criança que vi correndo pelo Central Park, ou mesmo o anel de casamento que aquele taxista em Jersey pegou pra me mostrar, ele já deve ter pedido o namorado dele em casamento a essa hora, cara maneiro.

Ah, do que eu falava mesmo?

Mitch parou para ler suas palavras, deixando sua mente viajar por elas e vendo as letras ficarem bagunçadas de novo. Ele se frustrou e grunhiu, batendo a perna contra o chão fortemente, mas não desistiu.

Ele leu de novo, e de novo.

E voltou a escrever.

Certo, eu ando bem melhor em controlar a cleptomania de sempre, é difícil ser filho de Laverna, sabe como é, né? Estou a caminho do Acampamento Meio-Sangue agora, mas me atrasei com alguns contratempos (Foram ciclopes, da última vez). Espero que o pessoal lá seja legal mesmo. Queria lhe dizer que sinto saudades da Terceira Coorte - Ouvir Laura reclamando de manhã, me divertindo com Liv e você, Chefia, no fim de semana em Alameda, certamente farão falta. Mas acho que esse verão aqui no Acampamento vai me fazer bem, eu acho.

Quando você receber isso, eu provavelmente já estarei curtindo a vida boa dos gregos. Espero falar contigo em breve.

De seu irmãozinho do coração, Mitchel A. Faircreek. 

Mitch fechou seu diário e se encarou pelo vidro.

Havia espinhas contra seu rosto sardento, o cabelo espichado parecia uma erupção ruiva. Ele abraçou seu casaco preto, estampado com um pequeno raio e encostou a cabeça no vagão.

Estava mais calmo, percebeu.

Ele se permitiu relaxar e se espreguiçar, sem querer cotovelando uma senhora negra ao seu lado.

- Oh, perdão. - ela apenas negou com a cabeça e voltou a atenção para o celular. Mitch murmurou: - Bem, Nova York podia ser bem pior.

Mitch pôde se imaginar escrevendo para Lance - E isso, meu querido, é o que chamamos de tentar o destino!

Um baque estrondoso ecoou pelo vagão.

Os mortais presentes se entreolharam.

Mitch fechou os olhos e respirou fundo, a mão já buscando seu pingente de pulso. O fecho tinha uma pequena caveira.

Outro barulho, algo como metal contra metal. E algo mais estridente em seguida - Um piado. 

Mitch se pôs de pé. O vagão deixou o subterrâneo e revelou a forma reluzente da cidade de Bridgehampton por alguns instantes. Letreiros e casas iluminadas se mostrando enquanto o vagão rumava para mais um túnel.

Naquele instante, Mitch fitou a janela e engoliu em seco.

Uma forma de metal o fitava da janela - Bronze reluzente e um bico afiado. Uma águia imensa de olhos flamejantes. O garoto titubeou para trás e viu os mortais se agitando para longe.

Ela piou alto e explodiu a janela com um golpe de suas garras, causando pânico generalizado.

[...]

Esse era o terceiro autômato só essa semana.

Um autômato era defeito ou coincidência.

Dois? Era estranho e tal, mas monstros sempre perseguiam meio-sangues, certo?

Mas três?! Ele se convenceu de que estava sendo caçado.

E ele nem sabia por quais dos crimes que cometera estava sendo perseguido.

SCRII! - piou a águia de metal, abrindo as asas afiadas de bronze e se lançando contra o semideus.

Os mortais amontoaram-se nos limites do vagão, Mitch se jogou para frente e rolou para longe das garras do bicho.

Ele sacou seu pingente do pulso no meio do movimento e se colocou de pé novamente. Em sua mão, a corrente fez um nó e se tornou um cabo prateado, as sombras todas no movimento do vagão se aglutinaram na forma de uma lâmina curva de quarenta centímetros feita do metal escuro do Mundo Inferior - uma sica feita de Ferro Estígio.

O monstro avançou de novo, mas Mitch desenhou um arco no ar com a cimitarra e abriu um talho no metal do torso, que retiniu e faiscou. Óleo jorrou do ferimento e a criatura rosnou, como se doesse. 

Robôs poderiam sentir dor? Mitch não sabia dizer se sim.

O autômato disparou a cabeça para frente, o metal se projetando como uma mola e bicando o filho de Laverna bem no ombro. Sangue voou no chão enquanto ele cambaleava para trás e xingava alto, o ferimento pulsando de dor como se aberto por uma faca.

A criatura avançou com asas em riste, girando-as em torno do próprio corpo como um ventilador da morte.

Mitch recuou e viu a criatura avançando, repartindo as vigas metálicas de apoio e fazendo tanto barulho quanto um aparador de grama possuído pelo Diabo. Os gritos das pessoas ecoavam contra seus ouvidos e fizeram o garoto engolir em seco - aquela coisa poderia não ser capaz de feri-los com o bronze celestial, mas transformaria aquele vagão em tirinhas de metal para pegá-lo.

Os pedaços dos assentos voaram por toda parte, Mitch queria poder se jogar nas sombras e desaparecer, era um dom dos filhos de Laverna rasgar a escuridão e usá-la como atalho.

Mas ele precisava de trevas para isso.

A águia o fitou com um olhar assassino - Uma voz robótica ecoou em meio a seus piados e as hélices-asas da criatura: - Sem escapatória dessa vez, larápio! 

Mitch estalou a língua e fitou as lâmpadas, o bicho se jogou na sua direção na mesma hora em que ele saltou e deu um golpe certeiro que explodiu as lâmpadas mais próximas. Em um breve momento de escuridão, um vão se abriu no próprio ar, seu corpo se tornou escuro e sumiu em um piscar de olhos.

Uma coisa para ser ressaltada - Mitch não era como um filho de Plutão ou Hades, não tinha domínio de verdade sobre as trevas. Sua mãe, a Deusa Laverna, era a senhora dos charlatões, ladrões e todos os que se aproveitavam da escuridão para realizar crimes.

Então quando Mitch deixava seu corpo se misturar a escuridão, não era como se ele tivesse controle exato para onde sairia.

E no instante seguinte, o garoto foi ejetado da lateral do vagão, rolando nos trilhos e se chocando contra a parede de concreto. 

O monstro ao longe, surgiu na janela e voou aos berros na sua direção, enquanto o trem se movia a centímetros do filho da deusa dos ladrões, passando tão rente a seu corpo que poderia arrancar sua carne em um movimento em falso.

A águia piou alto e veio em sua direção. 

Mitch viu o fim dos vagões no instante em que ela deu um rasante voraz em sua direção, garras em riste e os olhos riscando a escuridão do túnel com réstias flamejantes.

Ele se moveu, o corpo ainda envolto por trevas e reluzindo nas extremidades como seu cabelo feito de bronze cintilante naquela forma espectral. O ar se encheu com breu enquanto ele se movia, velozmente deslizando adiante como uma assombração com uma lâmina curva que parecia berrar contra o ar.

A sica encontrou um vão entre os mecanismos e desenhou um talho diagonal com o movimento do semideus, ele ressurgiu das trevas, ofegante e viu a criatura partida encontrar o chão em um baque seguido de uma explosão.

Seus passos o levaram até os destroços.

O garoto ofegou baixinho e observou a cabeça meio-partida do monstro. Um de seus olhos o fitou, falhando em brilhar por alguns segundos e apagando.

- Eba! - disse, agarrando-o entre os dedos longos e finos.

O brilho o encantou por alguns segundos, ele mordeu o lábio inferior e sufocou uma risada.

Memórias fluíram para sua mente depois de estudar o objeto, como acontecia as vezes quando o filho de Laverna roubava algo. Um homem coberto de ouro, um trono reluzente e um conhecido rei de coroa resplandecente o encarando de um enorme salão.

- Merda. - murmurou, enfiando o olho no bolso e sentindo uma pontada de dor no ombro, o sangue ainda manchando sua forma e fazendo-o ofegar. - Ô beleza, hein. 

Ele caminhou por mais alguns minutos, achando a saída do túnel e se enfiando em mais um terminal em Bridgehampton - que não teria ônibus rolando depois da meia-noite, para seu azar.

O filho de Laverna caminhou por horas a fio.

Ele mastigou uma barra de cereais em East Hampton. 

Se escondeu em alguns becos ao ver empousai bêbadas saírem de um pub em Springs e foi rumando pelo bosque extenso que era a reserva natural de Napeague.

Mitch mordiscou seu último cubículo de ambrosia e sentiu o gosto do chá preto que costumava tomar em Langley, na Inglaterra. Ele se perguntou como Rhys estava esses dias, talvez tivesse morrido, velho como era.

As perguntas em sua mente foram sumindo conforme o garoto teve que subir uma íngreme colina. Ele definitivamente estava no lugar certo, pois poucos locais na costa de Long Island tinham uma estátua da Deusa Minerva - não, aquela era Atena - que daria inveja a algum farol.

O sol riscava o horizonte, com a aurora dedirrósea colorindo o céu e fazendo Mitch estreitar os olhos. Seus ossos estavam moídos, o ferimento embora estancado ainda doía.

Ele passou pelo arco de entrada que indicava ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE , vendo o vale mais impressionante de sua vida: Inúmeros segmentos de construções em padrões gregos e uma luminosa estátua de ouro, marfim e prata que replicavam a feição serena da Deusa da sabedoria.

O garoto assobiou, dedilhando o olho do autômato e respirando fundo.

A forma de um homem foi vindo em sua direção. Demorou até que o cérebro repleto de sono de Mitch Faircreek conseguisse distinguir que era na verdade um grande centauro se aproximando.

- Olá, criança. - cumprimentou o homem, que tinha uma feição barbuda bem-aparada e olhos castanhos gentis. Ele tinha as mãos repousando em um casaco de brim. - Você está perdido?

- V-você deve ser Quíron, certo? - disse o britânico, recebendo um assentir do centauro. - O nome é Mitchel Faircreek.

Ele arrancou uma carta para o centauro. O selo contendo um SPQR reluzia em roxo e dourado contra a luz do dia que começava a raiar.

Quíron estudou a carta por alguns segundos, Mitch caminhou até a Atena Parthenos e se sentou em sua base.

O centauro assentiu para si mesmo e disse: - É, me parece tudo nos conformes e… - ele parou, reparando que Mitch dormia sobre as mãos, esparramado e já roncando.

Quíron deu de ombros e murmurou:

- Algumas coisas nunca mudam.

MITCH.

Notes:

*Glossário*
- Laverna - A deusa romana (de origem etrusca, na verdade) do roubo e dos charlatões. É uma deusa do submundo, louvada por ladrões na literatura romana.
- Autômato - Uma criatura mecânica feita de bronze e imbuída com magia.

*Links*
- Playlist de Mitch Faircreek, o Fugaz Fanfarrão - https://open.spotify.com/playlist/06xwj8LHARWTwizJhNhud3?si=c914379f30684af7

É isso pessoal, espero que se divirtam com as aventuras deste britânico larápio. Ele tem muito a viver por aqui e quem sabe nós viajemos juntos para alguns cantos inexplorados da mitologia greco-romana. Simboraaa!