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Language:
Português brasileiro
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Published:
2022-11-22
Words:
2,259
Chapters:
1/1
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119

I won't tell.

Summary:

chan fazia isso. jisung o pegava encarando, sempre alerta com os olhos de chan em sua direção. era como se ele buscasse algo. uma confirmação. uma espécie de eu não posso estar imaginando isso. jisung esperava pelo dia em que chan tivesse sua revelação, se perguntava qual parte de tudo isso - seus gestos, sua voz, seu olhar, o jeito como se comportava perto de chan - qual parte seria a principal confirmação que chan tanto precisava.

jisung não tinha a menor intenção de revelar o segredo.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

"changbin não vem?" 

jisung entrou no estúdio surpreso por encontrar apenas chan. pensava que seria o último a chegar, de novo.

"não. hoje é só você e eu." 

chan continuava de costas para ele, ajustando alguma música, focado apenas na tela e em seus dedos clicando os vários botões e teclas. não iria desviar o olhar para reconhecer que jisung chegou. não iria lhe dar atenção. 

jisung senta no sofá e tem um momento breve de lucidez. changbin não vem. ele não contava com isso, ele não se preparou para passar uma noite inteira, madrugada adentro, sozinho com chan. mas changbin não vem. jisung está muito consciente dos sons de incontáveis cliques, ele se pergunta como chan ainda não quebrou alguma coisa quando ficava assim. a respiração frustrada do rapaz entregava o que jisung precisava saber, mesmo sem palavras.

então, hoje changbin não vem. jisung vai ter que lidar com um chan frustrado e cansado e tão incrivelmente atraente quando aborrecido com algo. 

ótimo.

"qual o problema?"

chan respira fundo jogando a cabeça para trás, olhos fechados, e é como se seu corpo se dissolvesse na cadeira. 

"isso não tá saindo do jeito que eu quero e eu não sei como fazer que saia." 

"hm, há quanto tempo você tá aqui?" 

chan gira a cadeira ficando de frente a ele. finalmente, olhando o garoto.

"e isso é importante por...?"

jisung não esconde o aborrecimento, revirando os olhos. 

"ah dá um tempo. eu não preciso explicar, você sabe que tem que fazer pausas. você não tá conseguindo porque tá tentando demais."

às vezes, ao ver chan, jisung sentia-se suspenso no tempo. ele sempre usava as mesmas cores: preto. ele sempre usava as mesmas roupas: uma regata, uma bermuda, um boné. sempre tinha o rosto pálido, exaustão dissipando por seus poros. não importava o quando, o como, o onde, chan continuava o mesmo e jisung sentia ambos: aprisionado nessa realidade alternativa criada pelo estado imutável de chan; liberto para existir nessa bolha no tempo com ele. 

jisung não consegue pontuar as fases que viveu com chan. é como um borrão, estagnado e esquecível, rápido demais para tocar. talvez, se pudesse categorizar chan de alguma forma - por cores, por estilo, por cheiros -, talvez, se pudesse prender um momento específico em sua memória e ignorar todo o resto. talvez conseguiria mudar seus sentimentos por ele também. 

"se a gente não vai trabalhar, vamos fazer o que?" chan pergunta. não é realmente uma questão, ele está entregando nas mãos do garoto. 

o que você quiser fazer, vamos fazer. 

"eu vim até aqui, não vou embora agora. " não posso ir embora agora, não quando changbin não vem. não quando hoje somos só você e eu. "também não vou sair daqui, cansado demais pra me mover." 

chan sorri. jisung pode falar qualquer baboseira e chan sorri. é bom.

"a gente pode só...ficar aqui então." jisung faz um barulhinho em concordância. "vou deixar uma playlist tocando e diminuir as luzes. você gosta escuro né?" 

"uhum."

com as luzes baixas, jisung podia ver chan iluminado apenas pela tela do monitor. 

eram raros os momentos em que ficavam a sós. chan nunca estava em casa e quando estava, ou jisung estava dormindo ou todos os outros se juntavam para tentar cuidar um pouco do líder, pelo menos se assegurar de que estivesse bem alimentado. que estivesse bem, na medida do possível. o estúdio era um dos poucos lugares que poderia encontrar chan sozinho, mas no estúdio existia changbin. os três sempre trabalhando juntos. às vezes, jisung tinha a impressão de que changbin era o que passava mais tempo com chan. 

isso o fazia sentir falta do comecinho, os dias de trainees que passava horas e horas com chan, o primeiro adotado pelo líder. não tinham nem uma salinha legal assim, mas sentia falta da companhia dele, de ter sua atenção unicamente para si, indivisível. depois vieram os outros e jisung não poderia estar mais contente vendo a alegria de chan em finalmente formar um grupo, seu grupo. mas as coisas ficaram mais corridas, mais exaustivas, mais tensionadas. e aí chegou felix...

não é como se jisung não gostasse de como as coisas são, não entenda mal, jisung ama os garotos, ama poder dividir essa paixão e esse sonho com eles, ama que se encontraram. mas ele sente falta de chan. sente falta de não precisar dividir a atenção do rapaz com mais alguém. foi difícil se acostumar com isso, ainda mais naquele período em que estourava fácil, reagia fácil. e então chegou felix e chan...só não estava mais lá. não como antes. 

"no que tá pensando?" chan o resgata de suas memórias, sentando-se a seu lado no sofá. uma garrafa em mãos. 

"que eu vou ouvir reclamação do hyunjin quando voltar pra casa. não quero lidar." 

chan riu baixinho. "só isso?"

jisung não estava totalmente mentindo. ele pegou no sono no quarto de hyunjin e, no desespero de chegar aqui sem um atraso gigante, vestiu-se e deixou suas roupas espalhadas pelo chão. ops.

"aham...só isso." jisung se atreveu a assistir o rosto de chan, buscar algo. "pra que a garrafa?"

"ah, eu tenho ela aqui. é a mesma de quando a gente-"

"mentira!" jisung interrompeu entusiasmado "a que a gente roubou?"

"shhh, a gente pegou emprestado." 

chan tinha isso nele. esse quase desespero sempre que iam fazer algo errado. jisung via como um charme. mais uma das várias coisas que o faziam querer beijá-lo.

"tá, pra que?"

"a gente pode..."

"você nem bebe." a reação quase imediata de chan murchando todo ouvindo jisung era o suficiente para fazê-lo se arrepender de ter uma boca que funciona antes que o cérebro. "mas é, a gente pode." sorriu. 

chan não surgia com ideias assim do nada. ele precisava estar num certo nível de felicidade ou frustração. agora só tinha espaço para o último. 

jisung, chan e changbin roubaram- pegaram emprestado a garrafa de soju numa aventura pelos corredores da empresa para comemorar a conclusão da última title track. tomaram um shot e foi o suficiente para botá-los para dormir.

changbin não está aqui hoje.

 

jisung gosta de ouvir chan cantar. gosta ainda mais de ouvi-lo cantarolar baixinho enquanto ocupado, distraído ou tão focado em algo que nem percebe que o faz. meia garrafa depois, chan segue cantarolando a mesma música pela quarta vez, sua voz e a respiração de jisung sendo os únicos sons existindo por agora. ninguém notou quando a playlist acabou, rindo e conversando sobre qualquer coisa que não fazia diferença. quando a conversa aquietou, o silêncio era confortável. jisung sentiu que, pelo menos por um tempo, a frustração de chan tinha ido embora, o que restava era um sorriso cansado nos lábios e os dedos batendo sem parar na cadeira. 

o silêncio era confortável, mas jisung sentia a atmosfera pesada, uma tensão prestes a romper. ele se pergunta se chan sentia também. 

a playlist chegou ao fim, mas agora jisung desejava que alguma música enchesse o ar de novo, dando voltas e voltas pela sala, tocando os fiozinhos arrepiados na nuca. talvez jisung não percebesse cada movimento de chan. não percebesse o jeito como ele o olhava agora.

chan fazia isso. jisung o pegava encarando, sempre alerta com os olhos de chan em sua direção. era como se ele buscasse algo. uma confirmação. uma espécie de eu não posso estar imaginando isso. jisung esperava pelo dia em que chan tivesse sua revelação, se perguntava qual parte de tudo isso - seus gestos, sua voz, seu olhar, o jeito como se comportava perto de chan - qual parte seria a principal confirmação que chan tanto precisava. 

jisung não tinha a menor intenção de revelar o segredo. 

vivendo de um jeito tão limitado como viviam - horários, lugares, alguém sempre assistindo -, não existia muito espaço para privacidade. mesmo em casa, não existia espaço para ter algo só dele. um segredo. jisung gostava disso, gostava de ter algo tão seu e unicamente seu que ninguém poderia roubar ou pegar emprestado. ninguém poderia intervir. ele nem sabia exatamente o que era que sentia por chan, mas sentia , platônica ou romanticamente não fazia muita diferença, o que sentia por chan pertencia apenas a jisung. talvez os outros já soubessem, changbin definitivamente sabia como de praxe. jisung não se importava que soubessem, que especulassem, ele nunca iria dizer. e era tão mais divertido assim.

por isso chan o olhava da maneira que o olha por tantas vezes, talvez ele saiba. jisung nunca se deu o trabalho de esconder. nunca ligou de ser descoberto, não por chan. 

por vezes pensava em revelar, seria justo que chan parasse de achar que estava imaginando, parasse de se sentir culpado por estar vendo jisung dessa forma. seria justo que ele soubesse que é desejado e sobre esses outros sentimentos bagunçados, mais românticos que platônicos quanto mais a garrafa esvazia. 

mas jisung sabe que chan não sente o mesmo. mesmo sendo doloroso de lembrar às vezes, ainda era bom e muito gostoso gostar assim de chan. sentir todas essas coisas esquisitas vendo chan sorrir contando a mesma piada tosca pela décima vez. era o suficiente só estar perto dele. suficiente poder dividir momentos como esse com ele. 

"como você prefere ser chamado?" jisung quebra o silêncio, retomando a conversa anterior em que diziam várias das coisas que não tinham permissão para dizer. tudo o que ficaria enterrado nessas paredes.

chan parece confuso por um instante, tentando decifrar a que jisung se refere. 

"quando você tá com alguém..." jisung tenta esclarecer, ainda envergonhado em falar sobre isso, mas com o álcool queimando as bochechas não consegue conter a curiosidade. 

o rapaz arregalou o olhos brevemente, surpreso com a pergunta. os dois mantêm contato visual em silêncio e jisung acha que não vai ter uma resposta até-

"eu sempre prefiro meu nome."  é tão baixo que, se jisung não tivesse os ouvidos treinados e aguçados a qualquer barulho relacionado a chan, não conseguiria ouvir. 

jisung desvia o olhar, ciente de chan ainda fixado em seu rosto. ele fecha os olhos jogando a cabeça para trás no sofá, testa o nome na boca, inaudível.

chris.

é a chris que ele se refere, não chan. jisung sabe disso porque é assim que ele sempre se apresenta, assim que ele sempre responde fora das câmeras. chan é bom, seus amigos todos o chamam dessa forma, ainda é seu nome. mas não é esse nome que ele cresceu ouvindo, não é o nome que ele tem quando está sozinho. não é o nome que jisung o chama.

nunca chamou. 

chan, channie, hyung. 

não chris.

jisung testa o nome, queria poder chamá-lo assim. queria que significasse algo. jisung não queria ser mais uma pessoa chamando seu nome. queria- precisava que chan quisesse ouvir de novo. em seu estado inebriado, jisung acaba deixando escapar "chris" em um sussurro, sua voz o despertando do transe que havia entrado imaginado como seria se- como deveria ser- como-

ele abre os olhos e procura por chan. o rapaz está de cabeça baixa agora, segurando a garrafa com uma das mãos enquanto brinca com o gargalo com a outra. a ponta de suas orelhas estão vermelhas e jisung não consegue lembrar se estavam assim há poucos minutos atrás. 

"acho que a gente devia ir pra casa." chan diz, ainda olhando para o chão. 

jisung não quer ir para casa, não agora que está tão confortável ao lado de chan depois de tanto tempo, a sós. 

"por que?" e ele soa como uma criança pedindo mais cinco minutos para brincar.

"não sei...descansar." 

jisung sabe o que chan está fazendo. ele quer pôr um fim nisso, seja lá o que for. ele quer parar de pensar no que isso significa para jisung. 

esse é um dos problemas com o chan. de alguma forma ele sempre acaba tomando a culpa para si. se jisung confirmasse o que ele tanto precisa saber, chan não iria sossegar, não iria parar de pensar. talvez isso só piorasse as coisas, mesmo que soubesse que é desejado desse jeito, chan iria procurar motivos para se desculpar. como se ele tivesse feito algo em algum momento para enganar jisung, um truque que o fizesse se apaixonar por ele, talvez ele até sentisse que se aproveitou do mais novo em algum momento e buscasse exatamente o que fez sem intenção. ele perderia o sono com isso e depois passaria a pensar que ele deve ter feito de propósito na verdade e por isso ele é uma pessoa ruim e jisung não merece e-

uma outra parte de chan, ficaria triste e frustrado por não conseguir dar o que jisung quer. mais culpa e mais sentimento de insuficiência para ele. ia se sentir insuficiente por não conseguir ser para jisung quem ele precisa ser. 

e jisung não quer que chan passe por nada disso, não quando tudo o que ele sente por chan é tão bonito e gostoso. tão quentinho e esquisito. um enigma suspenso no ar, uma bolha suspensa no tempo que jisung gosta tanto de estar. 

"a gente pode ficar só mais um tempo?"

eu não quero pensar no amanhã. eu não quero ser outra pessoa amanhã. não quero ser assistido. 

de alguma forma, jisung sentia que chan compartilhava do mesmo sentimento. do mesmo sentimento de que, por agora, os dois poderiam apenas ser. chan levantou a cabeça para encontrar jisung novamente, olhos cheios de dúvida que dissipou ao pousarem no rosto do garoto. chan sempre sendo tão tão fraco…tão fraco por ele. olhos cheios de carinho por jisung.

"a gente fica o tempo que você quiser, ji."

 

Notes:

eu queria escrever uma história curta com o tema de amor não correspondido um pouco diferente do que sempre acho por aí, uma história em que a pessoa não correspondida pode se divertir com isso também.