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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-11-22
Completed:
2022-11-22
Words:
3,773
Chapters:
2/2
Comments:
1
Kudos:
26
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3
Hits:
272

Human Behaviour

Summary:

Helmholtz se encontra imerso em seus questionamentos sobre o sentimentalismo humano e como seu mundo inevitavelmente oprime qualquer um de sentir seus instintos humanos de forma natural, tal como o amor.

Chapter Text

Entre os sentimentos humanos, sempre haverá um que nos fará fazer coisas sem pensar, o impulso da emoção e o livre arbítrio é o que torna algo vivo e humano, inclusive o amor.
Amor é um termo versátil demais para ser simplificado em um só definição, amamos coisas diferentes e por razões diferentes. As pessoas amam ir ao cinema, algumas amam aprender, outras amam ser Alfas e a maioria ama a Soma. O amor era material ou com base no lazer e no privilégio. Mas esse sentimento nunca foi diretamente associado com pessoas, porque amar era obsceno.
Em tese, o amor havia morrido a muito anos.
Helmholtz havia uma ideia do que poderia amar, e concluiu que era apenas um gostar muito intenso. Exemplificando essa ideia: Amava escrever. Simples assim.
Não havia como definir mais exemplos a este conceito tão simples.
Ele pensou em Lenina e em como está se encaixava no quesito amar soma e amar sua casta, além de toda a porcaria material e estética que a garota tanto presava. Helmholtz constatou que imaginar a definição de amor de uma pessoa como ela seria assumir a definição de todas as pessoas que conhecia, pois sabia perfeitamente que não havia nada nesse mundo para ser gostado se não fosse pela influência dos alto falantes que sussurravam nos ouvidos das crianças que um dia ele e seus companheiros foram, sendo instruídos cuidadosamente pelas Hipnopédias para se adequar aos gostos gerais da sociedade no qual moldava seus próprios valores, produzindo cada vez mais pessoas com ideias iguais, sem a chance de discordar ou ter a liberdade real de se expressar se não dentro dos limites morais dos tempos presentes.
Ele sabia disso, era ele quem escrevia essas lavagens cerebrais.
No final, talvez amor seja o afeto pela essência de algo, e não pela estética ou o prazer proporcinado por tal coisa. Talvez fosse esse tipo de pensamento que deixasse o escritor longe da felicidade cegante que seus companheiros vivem.
Helmholtz se encontrou imerso no assunto, de fato interessado em aprender mais sobre sentimentos, mesmo sabendo que suas questões atuais podiam o levar a um declínio social muito rápido.
Desde que conheceu John, Helmholtz foi introduzido á um estranho mundo onde as pessoas se casavam, tinham filhos e passavam boa parte ou a vida toda com apenas uma pessoa, coisa do Velho Mundo que eram completamente hilárias, apenas pelo fato de serem vivíparos se “apaixonando” era de se debruçar rindo, inconscientemente repugnando as ideias não ortodoxas impostas por seu mundo.
Embora estranhasse no começo a realidade de John, respeitava-o muito.
Era um homem sábio e muito equilibrado. Mais sábio e equilibrado do que muitos Alfa—Mais que houvera conhecido na vida. O próprio Bernard era um sujeito propenso a tal comparação de certa forma, sendo até mesmo engraçado ver aquela miniatura de Alfa—Mais se exaltando de forma espalhafatosa.
A imagem de um Bernard irritado surge em sua cabeça e Helmholtz não pode deixar de sorrir.
Bernard lhe causava sensações estranhas, havia vezes em que se sentia extremamente compadecido pela insatisfação de seu amigo com a sociedade, embora fosse um tanto vergonhoso ver o outro homem chorar enquanto praguejava suas frustrações, Helmholtz podia senti-lo, podia entendê-lo mesmo que não passasse nem metade do que lhe era dito, mas entendia com certa melancolia a dor não se sentir parte daquele mundo. E haviam outras vezes que sua companhia não passava de uma distração muito inconveniente. Helmholtz simplesmente não conseguia ver nada de errado com Bernard, como ele mesmo tanto clamava. Não se importava que fosse 8 centímetros mais baixo que o restante dos alfas, não se importava que questionasse o bom senso e a ética de todas as pessoas que conviviam. Na verdade, eram todas essas diferenças que faziam Bernard ser o Bernard. Ser diferente era o que lhe tornava tão especial e era justamente o que mais atraiu a atenção de Helmholtz desde o princípio, portanto não aguentaria ver seu único amigo se submeter ás normas que diz tanto achar injusto, como aconteceu certa vez, deixando Helmholtz completamente abalado, temendo perder o único amigo com quem realmente partilhava um laço afetivo, coisa que não teria com mas ninguém, nem mesmo com todas a mulheres que já saiu.
Talvez isso fosse...poderia ser amor?
Intrigado com a ideia, Helmholtz decidiu afastar esse pensamento por ora, não havia vergonha nenhuma em amar um amigo, mas não tinha certeza que tipo de amor seu coração estava apontando.
Helmholtz deduziu que com a chegada de John, era possível que Bernard também tivesse pensamentos sobre a identidade de sentimentos que nunca lhes foi ensinado a lidar. Bernard ria freneticamente com as histórias do selvagem, como um dia Helmholtz riu e consequentemente desdenhou, mas sabia que no fundo o jovem psicólogo também se sentia tentado em explorar suas emoções como nunca imaginou que poderia ser capaz depois de ler mais desses livros proibidos do Velho Mundo.
Esses questionamentos vieram desses livros antigos, levando Helmholtz e Bernard para breves comparações com o mundo moderno. Era tudo tão diferente que cada realidade precisava ser posta uma do lado da outra, apenas para concluir que antigamente, da paixão mais genuína para o crime mais cruel, tudo era movido pela emoção humana. Ódio, Inveja, Saudade, Felicidade...
Amor.
Apontando essas diferenças, fez Helmholt perceber que o cotidiano sistemático que o deprimia foi o mesmo que acabou com a vida de John, que possuía todas essas sensações arcaicas e por isso foi punido pela pressão de ser diferente, de ser único, de ser humano.
Por causa do terrível fim de John, Helmholtz passou noites mal dormidas ao pensar que sua sociedade houvera destruído a mente e a dignidade de um dos seus únicos amigos. Isso sim fez Helmholtz sentir—se deprimido.
O sentimento de deprimência, este andava de mãos dadas com a ansiedade e a insegurança, as vezes até mesmo com a paranoia, completamente o oposto do amor, um sentimento otimista que aquecia seu interior e que não exigia da necessidade da Soma.
Helmholtz considerou, mas não quis tomar Soma nenhuma, queria fazer um experimento consigo mesmo, queria deixar seus sentimentos florescerem e desabrocharem conforme a estação, sem o controle de nada que pudesse filtrar seu pensamentos do seu verdadeiro eu. Mesmo que esses sentimentos fossem negativos.
A ideia de amor ainda perpetuava sua mente e se perguntava se realmente amava aquilo que a vida propôs para ele, porém constatou com amargura que não. Novamente, era tudo uma simulação do que a sociedade queria que ele gostasse, programando uma série de coisas para que todos as associassem da forma que eles diziam para você associar, e isso começou a deixar Helmholtz com raiva.
Nunca gostou da ideia de ser controlado ou limitado, porém sabia que a vida toda tem sido assim.
Pensava que direcionar o amor a uma só pessoa, por mais absurdo que fosse, e até mesmo riu disso, era melhor do que passar todas as noites com pessoas diferentes que nem levavam seus pensamentos em, gostos ou sentimentos em consideração, mas aqueles que se agarram a uma só pessoa são mal vistos e causam estranheza nos outros a sua volta. Assim como alguém que não se relaciona com ninguém. Se lembrou mais uma vez de Bernard e imaginou se este concordaria ou ouviria com compreensão seus pensamentos obscenos. Provavelmente iriam rir da ideia, poderiam ter quem eles quisessem. Porém esse era o problema, Helmholtz não queria ninguém, há quem diga que Helmholtz tem a vida perfeita, mas não ele smplesmente não suporta as pessoas e Bernard nunca conseguiria ninguém. Talvez a única coisa na qual realmente quisesse priorizar e manter por perto seria a companhia um do outro. Helmholtz pensou, com certa vergonha, que ele e Bernard possivelmente continuariam se encontrando e sendo amigos até o fim de suas vidas, tal como todos aqueles relacionamentos Monogâmicos que tanto achou cômico e até mesmo despudorado.
Esses pensamentos fizeram o coração do escritor palpitarem em um ritmo misterioso, repentino e que causou—lhe um arrepio seguido de uma aglomeração quente dentro de seu peito. Helmholtz pôs a mão em seu peito e apoiou a outra em sua mesa, por um momento parecia estar tendo algum tipo de ansiedade. Pensou rapidamente em tomar uma Soma, pelo menos para essa estranha sensação desaparecer, mas ele novamente não queria.
Havia algo de confortante naquela sensação, como se fosse um breve refúgio da realidade, algo que a Soma não poderia fazer.
Porém a doce e estranha sensação é despedaçada quando Helmholtz se sobressalta e rapidamente retira a mão do peito ao perceber sua Secretária entrando pela porta com um sorrisinho tímido, ele olhou para aquele sorriso e soube exatamente que aquela mulher estava jogando o máximo de charme que ela podia.
— Boa Tarde, Sr. Watson! Sr. Marx veio te visitar.
— Mande entrar.
Ordenou Helmholtz de forma ríspida, ignorando o tom doce da Secretária que agora ia embora menos empolgada.
O escritor houvera passado tanto tempo imerso em seus pensamentos que a realidade parecia ter sido completamente apagada. Ao olhar para baixo, ele vê uma pilha de papéis que precisam ser finalizados e entregues até o final da semana, fazendo-o suspirar antes de tomar um gole de seu chá.
Helmholtz começa com novos devaneios, e a imagem da secretária vem em sua mente, fazendo-o crispar os lábios de asco enquanto balança a cabeça em descrença de como as mulheres ao seu redor eram realmente irritantes, nunca valorizavam seu trabalho, apenas sua aparência, houve vezes que Helmholtz pensou que uma noite com várias mulheres ao mesmo tempo resolveria sua angústia constante por algum tipo de euforia, mas houvera feito isso tantas vezes que isso já não seria mais um motivo para se empolgar tanto assim. As vezes invejava Bernard por justamente nunca haver uma fileira de pessoas esperando poder dormir com ele, e ele sabia que Bernard o invejava por ter fileiras demais.
— Você não pode acreditar, oh, Ford! Você simplesmente não vai acreditar!
Entrou Bernard pela porta, já reclamando em seu tom de voz irritantemente alto e seu forte sotaque Britânico, tal como o de Helmholtz.
— Boa tarde para ti também, meu amigo.
Zombou Helmholtz, erguendo sua xícara em um brinde invisível.
Bernard se sentou na cadeira em frente a mesa, apoiando um cotovelo no acento para erguer uma mão ao rosto para massagear entre os olhos.
Helmholtz inevitavelmente notou a insatisfação de seu amigo e esperou-o contar por vontade própria.
Os dois sujeitos não fizeram nada além de coexistirem dos lados opostos da mesa enquanto o silêncio tomava conta do cômodo, porém a quietude é cortada com a voz repentina de Bernard.
— Eu estava tendo expectativas tão grandes para ontem a noite, eu deveria ter previsto que não daria certo.
O escritor olhou com curiosidade para seu amigo baixinho, no qual evitava contato visual enquanto continuava a massagear a cartilagem do nariz.
— O que aconteceu, Bernard?
Bernard torna a olhar para seu amigo escritor, no qual carregava consigo um tom monótono em sua pergunta como se não se importasse muito com a resposta, porém era notável a preocupação pela euforia negativa de seu amigo Psicólogo.
— Eu fui convidado pelos pescadores locais para uma festa na praia. Eu achei que poderia ter uma boa chance com alguém, porém...
— Porém?
— Eu neguei todos os pedidos de todas as mulheres que se insinuara para mim. Digo...eu já deveria saber que eu não aceitaria, eu odeio fazer essas coisas na frente de outras pessoas, me dá asco e você sabe bem disso.
Helmholtz suspira e se inclina para frente indicando seu interesse, determinado a tornar qualquer assunto mais profundo se necessário.
— É porquê você ainda pensa na Lenina?
Perguntou o escritor, recebendo um olhar confuso no qual Bernard franze o cenho, ficando com a boca semiaberta como se aquilo não fizesse o menor sentido. Bernard balança a cabeça em negação calmamente.
— O problema não foi minha negação, pelo amor de Ford. Eles me humilharam!
Helmholtz balança a cabeça em concordância enquanto vagamente mastiga a ponta de um lápis, pensando que nada realmente mudou para os dois desde que foram banidos da Inglaterra. Mesmo depois e ler todos aqueles livros antiéticos e obscenos, mesmo depois de perder um amigo, mesmo depois de tudo o que houvera pensado anteriormente e em sua insatisfação com sua realidade, ele continua escrevendo artigos para Hipnopédias e Bernard continua a ser Psicólogo e Vigilante do Comportamento sistemático das pessoas no qual zombam dele.
A rotina e os problemas já não eram um tópico destacável, visto que todos os acontecimentos e intrigas causadas não levaram em fim algum.
Apenas uma recomeço em um país diferente. Mas de qualquer forma, Helmholtz sentia pena de seu amigo que agora se contorcia na cadeira de maneira ansiosa. Incomodado, Helmholtz aperta um botão de comunicação via-megafone para se comunicar com sua secretário do lado de fora da sala.
— Claire, traga uma xícara de chá para o Senhor Marx, ele está agitado.
A voz de Helmholtz ecoou do outro lado da parede, fazendo Bernard se sobressaltar.
Helmholtz olhou para a postura contida de Bernard e notou como as mãos dele permaneciam juntas enquanto os cotovelos se apoiavam no braço da cadeira. O escritor imitou a posição afim de deixar Bernard mais confortável, sem parecer que estivesse mais confiante e espantasse a pouca autoestima de seu amigo, mas não é como se realmente estivesse anteriormente em uma postura elegante e rígida, na verdade, ambos pareciam igualmente cansados, e por mais que Bernard parecesse distraido em suas próprias mágoas como sempre, ele também percebeu essa melancolia para o lado de Helmholtz. Bernard reconhecia que podia ser um pirralho inconveniente para Helmholtz na maioria das vezes, mas admitia admirava a paciência do outro homem com seus problemas, se sentia profundamente sortudo por ter a amizade de Helmholtz e sua companhia de forma quase que ilimitada. Era a quem ele se espelhava, mas sempre se sentia cativante quando o escritor o elogiava. Não era apenas coisas para calar a boca de Bernard, eram coisas que ele sabia que eram verdadeiras, coisas que Helmholtz queria que ele enxergasse em si mesmo.
Mesmo que parecesse egocentrismo, Bernard gostava de Helmholtz além de ser por causa dos elogios, ele era tudo o que ele mais admirava e desprezava ao mesmo tempo, mas ele presava, acima de tudo, sua presença, por que até no silêncio sua presença seria bem quista por Bernard.
Por que ele realmente gostava de Helmholtz, e Helmholtz realmente gostava de Bernard.
Como se lessem a mente um do outro, os dois homens ganham bochechas ruborizadas com tais pensamentos. A sensação quente que havia se acumulado no peito de Helmholtz agora era uma sensação compartilhada pelos dois, e de alguma forma, talvez pela intimidade a muito tempo existente entre os dois, ambos pareciam saber -ou pelo menos desconfiar- que a sensação em seus peitos estava presente ali no momento.
— Diga-me, Bernard, o que aconteceu exatamente?