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Todos por um

Summary:

A Guarda Real tem muitas obrigações. As principais delas são: obedecer ao Rei, proteger a Família Real e manter a ordem no reino. Kim Jongdae, Byun Baekhyun e Kim Minseok, os melhores mosqueteiros do Reino de Tornado (modéstia à parte, é claro) sabem bem disso. E quando o Príncipe herdeiro sofre um atentado e a vida de todos no Palácio vira de cabeça para baixo, cabe aos três desvendar o mistério, proteger a integridade da Família Real e se manterem unidos no final de tudo — mesmo que, para isso, tenham que desobedecer à Coroa.

Notes:

EXO Barbie Fest #selfplot

Olá, olá! Como estão, gente? Tudo certo?
Ai eu me sinto TÃO feliz postando essa fanfic aqui que vocês nem imaginam KSKSKKSLKK sempre gostei de Barbie e as três mosqueteiras, e mesmo assim, por muito pouco, esse plot quase não existiu! Mas no fim deu tudo certo (e quase não dá também, mas isso são detalhes), e eu AMEI cada minutinho do processo de escrita que tive, com tanta gente incrível que me apoiou nisso e participou junto (um beijão a toda a equipe do fest, vocês tem um lugar especial para sempre no meu coração) <3

Aqui está a playlist com cada uma das músicas que eu me inspirei para escrever os relacionamentos dos personagens e ainda criar cada elemento do Reino de Tornado (Alexa, play Tornado Spiral by EXO-CBX!).

É isso. Um beijão, gente. Espero que gostem da leitura <3

Chapter 1: O que precede o caos

Chapter Text

 

 

 

 

— Não deixe que saibam que estava comigo — a garota diz. Ergue o capuz sobre a cabeça e esconde metade do rosto. Só é possível ver a ponta do seu nariz e os lábios finos pintados de vermelho. Os cabelos curtos, cortados de mau jeito há pouco tempo, se escondem atrás dos panos grossos. — Não tira a droga desse capuz até chegar no Palácio. Sei que gosta de adrenalina, mas tenha um pouco de senso.

Ele, como se para contrariá-la, retira o capuz.

— Eu sou um príncipe, Joohyun. Não estou acostumado a usar trapos como estes.

Ela rola os olhos. Tenta resistir à vontade de deixá-lo falando sozinho.

— Certo, Alteza. Então me devolva os trapos e seja pego. Só não queira me afundar com você. 

As mãos dela param na cintura. Chanyeol se atreve a olhar, notando o cabo de madeira da adaga que ela carrega sempre consigo. Uma risada nervosa lhe escapa a garganta.

— Você é inacreditável, garota.

Ela não responde. Quase nunca responde quando ele decide ser ainda mais insuportavelmente presunçoso. Simplesmente segue seu caminho floresta adentro, deixando-o lá, sozinho.

Ele sabe como voltar para casa. As pegadas de Pesadelo — seu cavalo, e talvez maior companheiro — ainda marcam a estrada de terra que permeia o vilarejo do Norte e segue por entre as árvores densas até o Palácio. O rio também é um importante guia. O fluxo de suas águas corre por cada um dos cantos do Reino. Basta seguí-lo.

Com um suspiro, o Príncipe olha para cima. A Lua é apenas um traço fino e brilhante que mal ilumina a noite. Ele pega o cavalo e põe o capuz. 

Chanyeol sempre foi inteligente, e se orgulha disso. E embora Joohyun o dissesse frequentemente que suas atitudes inconsequentes ainda matariam alguém, não esperava que a vítima seria ele próprio. 

Ninguém poderia prever que, em questão de minutos, todo o Reino viraria de cabeça para baixo.

 

 

 

 

 

Os jardins do Palácio Real são considerados os mais bonitos do Reino.

As flores bem cuidadas recebem água e sol na medida certa todos os dias. Até mesmo a grama parece sempre verde, sempre viva, como um tapete imenso e portador dos maiores segredos da natureza. 

Se você rodear o Palácio — caso queira dar tamanha caminhada — encontrará uma estufa de vidro bem cuidada, com uma diversidade absurda de flores e plantas de pequeno porte. Algumas borboletas passam sua temporada ali, atraídas pelas cores e cheiros. Elas sempre dão cor e beleza às estátuas clássicas tornenses que adornam a entrada da estufa.

Byun Baekhyun gosta daqueles jardins como gosta de chocolates amargos, robes de seda e canetas de tinteiro decoradas com pedras brilhantes. Em seus horários vagos, nos dias de folga ou no meio da madrugada, quando não sente sono e as preocupações zumbem em seus ouvidos, ele caminha pela grama orvalhada e aspira fundo o cheiro de verde.

É uma situação corriqueira, infelizmente. Baekhyun arrisca dizer que depois de um tempo trabalhando na guarda, se torna impossível para qualquer pessoa manter a mente livre de alguns tormentos cotidianos. O jardim é um lugar que o acalma, e, àquele ponto, após tantas noites insones, pode dizer que conhece-o mais do que qualquer um. Provavelmente, mais do que o próprio Rei.

O sol brilha morno no céu. Naquela época do ano, dificilmente faz muito calor. Baekhyun abre os olhos, sente a brisa bagunçar seus cabelos e encara uma silhueta que brilha contra a luz incansável da manhã. Sorri, preguiçoso, e segura o braço erguido de Minseok. Levanta em um pulo. Ajeita o uniforme com as mãos e verifica o punhal amarrado na cintura. 

Alguém dá tapinhas em seu ombro. Ele vira o rosto a tempo de ver Jongdae lhe oferecendo o seu melhor sorriso compadecido. Não é novidade para ninguém o quanto Baekhyun aprecia os momentos de paz que só tem no meio daquelas folhas e gramíneas. Mas quando o dever chama… bem, não lhes restam alternativas a não ser abaixar a cabeça e dizer: “ Sim, senhor!”

Ou melhor dizendo, nesse caso, “ Sim, Vossa Majestade!”.

— Qual o serviço do dia?

Minseok joga os cabelos para trás. Seus olhos delineados se estreitam enquanto ele posiciona o chapéu de abas largas sobre a cabeça. O xale comprido que faz parte do Uniforme Real pende sobre os ombros dele, indicando que esfriará mais tarde. E que o trabalho que farão não é tão complexo assim.

Ele é o guia do trio. O eixo de equilíbrio, um abrigo na tempestade. Está sempre pronto para agir, sempre atento e dedicado. É por isso que Baekhyun veste o próprio xale e Jongdae o pendura em um dos ombros. Minseok quase nunca está errado.

— Vamos acompanhar Sir. Wonsuk em um compromisso oficial — ele responde, com a voz impassível. Baekhyun franze a testa.

Não é comum que o Conselheiro Real vá a compromissos oficiais sem a presença do Rei ou do Príncipe. Na verdade, não é comum que um evento desse tipo aconteça fora do Palácio sem algum aviso prévio.

— Quem deveria fazer isso não é Chanyeol ou o Santíssimo pai dele?

Jongdae ri alto, e corre um pouco para acompanhar o passo dos dois amigos. É ele o verdadeiro raio de sol ali, com um brilho acolhedor tão único que faz os famosos verões de Tornado parecerem banais. A risada estridente dele é meio contagiante e faz os outros dois rirem, mais contidos.

— Essa sua boca ainda vai lhe custar o emprego, Byun… — a voz de Jongdae soa repreensiva — aparentemente eles tiveram algum imprevisto. Coisas Reais, mesmo. Nenhum dos criados sabem.

— Hm. — parece estranho , pensa, porém não verbaliza. É apenas seu lado curioso falando mais alto.

Minseok ri de canto. Eles passam pela entrada do Palácio e encontram pelo menos meia dúzia de carruagens os esperando, enfileiradas na rua de pedregulhos.

Como se lesse sua mente, é ele quem diz:

— Estranho, não é? E pior. A Reunião vai ser no Centro Emergencial.

Baekhyun arregala os olhos.

O Centro Emergencial, ou Centro de Reuniões Emergenciais, como é realmente chamado, é onde ocorrem encontros diplomáticos que, por quaisquer que sejam os motivos, não podem acontecer no Palácio. A fachada é marcante: tem colunas grossas em gesso e uma pequena escadaria de mármore. E é tudo extremamente branco. Se fosse adivinhar, diria que o local devia ser um templo para algum império que viveu ali antes deles.

A última vez que usaram o Centro foi há três anos e meio, quando a Rainha Seohyeon faleceu após meses doente. Baekhyun sente um arrepio subir pela espinha. Cruza os dedos e torce para não ter ocorrido nenhuma morte.

Eles sobem em uma das carruagens destinadas para os Mosqueteiros. Minseok vai na frente, Jongdae depois — e Baekhyun nota a marca da espada que ele carrega nas costas debaixo do xale. Ele é o melhor espadachim que já conheceu, e recebe muitos elogios por isso. Sinceramente, Baekhyun sente-se orgulhoso por todos eles, quase como se fossem dirigidos a si.

Quando os cavalos se movem, eles já estão acomodados nos bancos. É sempre uma comoção no Reino enquanto as carruagens passam. As locomotivas Reais são maiores, mais robustas e bem decoradas do que as comuns. Têm detalhes em folhas de ouro puras, pedras preciosas e tecidos caros. Nenhum morador do Reino possui condições para comprar uma daquelas.

Baekhyun não pode dizer que teve uma infância humilde. Sua família sempre possuiu uma renda acima da média — o que levou a uma arrogância e uma sede por controle acima da média também, mas Baekhyun não gosta de pensar muito nisso —. Mesmo assim, nunca se imaginou em uma carruagem daquelas, sendo alvo da atenção de jovens e crianças com feições sonhadoras e sorrisos brilhantes. No fundo, não sabe nem exatamente como agir naquelas situações.

Olha para os amigos rapidamente. Minseok está quieto e Jongdae encara a janela com os olhos brilhando mais que constelações inteiras. Ele, sim, é bom com crianças. 

O silêncio entre os três não consegue perdurar por mais de cinco minutos.

— Achei que teria o dia livre — Baekhyun diz, contrariado. Minseok sopra um riso.

— Se você tivesse um dia livre, ia só ficar no jardim — ele zomba. Não está mentindo, de qualquer forma —, ou bagunçar ainda mais seu quarto. 

— Você fala como se eu fosse um porco.

— Seu quarto não está muito longe de um chiqueiro — Jongdae se intromete. 

Baekhyun sente que perdeu os argumentos. Aquilo é um complô contra ele, por acaso? 

Tudo bem que não é o maior exemplo do mundo no quesito organização, mas mesmo assim!

— Com licença? — a voz sai esganiçada — não devem falar mal do quarto de um homem que sabe usar um punhal.

— Me admira que você ainda encontre o punhal no meio daquele tanto de quinquilharias.

Jongdae ri. Ele o olha de canto com um sorriso travesso, e solta a cartada final:

— Não sei como Sehun aguenta.

Ah, golpe baixo. Golpe muito baixo.

Sehun é o ponto fraco de Baekhyun. Seu tendão de Aquiles. Aquele único ser humano que consegue desarmá-lo por inteiro apenas por ter seu nome citado em uma conversa. O único argumento capaz de vencê-lo em um debate.

Jongdae e Minseok sabem disso. Talvez seja essa a razão do riso deles ao que Baekhyun sorri e murmura, doce como mel e apaixonado como um adolescente vivendo o primeiro amor:

— É o meu charme natural.

E o silêncio surge novamente.

Baekhyun olha para o próprio uniforme e cutuca um botão meio solto, aproveitando a quietude para deixar a mente voar para longe. É gostoso perceber que pode se sentir à vontade para conversar qualquer coisa com aqueles dois patetas. Quando entrou na Guarda, totalmente contra a sua vontade e apenas para agradar a terceiros, nunca imaginou que encontraria sua família naquele lugar. Uma família que nunca teve, mesmo entre aqueles com quem compartilha o sangue.

Ele está seguro agora. Pode viver bem consigo mesmo sem medo de brigas e julgamentos. Se livrar dessa parte do seu passado é um dos muitos presentes inesperados que trabalhar no Palácio acabou lhe trazendo.

Sorri curto, e olha para a janela. O céu azul começa a ser coberto por nuvens cinzentas. As pessoas que estavam nas ruas correm para as suas casas. Com certeza vai chover. Só que, de alguma forma, não parece uma chuva normal.

Não sabe se pelo fato deles estarem indo para o Centro depois de tanto tempo, ou se pelos mistérios que cercam aquela ida, mas Baekhyun sente um aperto no peito ao que as primeiras gotas de chuva tocam-lhe o rosto. Uma angústia repentina serpenteia seu corpo e fica por ali, se remexendo, inquieta.

Alguma coisa está errada. Ele não sabe o que é, mas sente que não é bom.

E aprendeu há muito tempo a não ignorar a sua intuição.

Quando estão perto de desembarcar, ele fala, sem olhar para nada em específico:

— Vocês estão com um mau pressentimento?

Pelo canto do olho, percebe que Jongdae e Minseok se encaram.

— Como assim?

— Como… uma calmaria suspeita. Algo precedendo o caos absoluto.

Jongdae resmunga, detestando o rumo daquela conversa.

— Credo, Baek.

— Você não sente? — pergunta novamente, agora olhando-o nos olhos.

Minseok suspira, cansado. Jongdae desvia o olhar do seu.

Ninguém responde nada. O que, de certa forma, é uma resposta.

 

 

 

 

Reuniões burocráticas do Reino podem durar muitas horas, e Mosqueteiros devem esperar na porta, atentos a cada movimento suspeito que pode pôr em risco os membros da nobreza envolvidos, sem de forma alguma saber o que é conversado lá dentro.

Minseok é alguém criativo. Nos dias em que a vigilância está tediosa demais, ele acha divertido jogar ao vento sugestões sobre o que está sendo dito na reunião. Às vezes solta algumas possibilidades mais realistas, mas admite que prefere ser fantasioso e criar cenários sobre, quem sabe, uma invasão de monstros marinhos ao Reino ou alguma outra coisa que lhe venha à cabeça.

Nesse dia em específico, porém, se sente tenso demais para formular qualquer ideia mirabolante. Ele não quer nem pensar no que está sendo dito lá dentro, porque as palavras de Baekhyun ressoam na sua mente, insistindo em incitar aquele mau pressentimento que já começa a incomodá-lo. 

Se não passam o tempo inteiro em silêncio, é graças ao próprio Byun, que aparentemente não superou as acusações feitas na carruagem. É uma pessoa um pouco rancorosa, realmente.

— Não é porque você, Minseok — ele começa, pelo que deve ser a décima vez —, tem mania de limpeza e essa síndrome de perfeição que todos devem ter, também.

— Pelo menos meu quarto é um lugar minimamente habitável — Minseok diz, apenas para provocar. Mas há uma pitada de orgulho na sua voz — e cheiroso.

Jongdae sopra uma risadinha. Ele tenta manter a postura perfeita mesmo com aquela espada pesada nas costas, e é mero espectador da briga dos outros dois. 

Um guarda respira fundo do outro lado. É um sinal de que devem falar mais baixo. Nem todos são apreciadores das brincadeiras fora de hora do trio.

E nem precisam. Não importa muito, se for sincero.

A realidade é que eles têm certa liberdade para aquilo. E moral, também. São, modéstia à parte, os melhores mosqueteiros do Reino. Embora parecessem, à primeira vista, pessoas irresponsáveis e brincalhonas demais, nunca faltam ao serviço.

Quando estão juntos, é certo que irão concluir qualquer coisa com êxito. Minseok odeia admitir essas coisas para si mesmo por sempre achar que está sendo soberbo demais, ou orgulhoso demais. Mas lutou a vida inteira por aquilo. Saiu de sua casinha no Sul e treinou por anos para entrar na Guarda. Deu tudo de si ao se tornar mosqueteiro. Sabe lidar com os perigos diários daquele trabalho e tem um psicológico até bem trabalhado para tudo o que pudesse vir a acontecer. Ele merece certos créditos. 

— Sejam sinceros — Baekhyun continua, dessa vez aos sussurros — Vocês acham meu quarto inabitável?

— Você não deveria levar o que o Minseok fala para o coração — Jongdae diz. Ele dá um passo para trás e não o olha, mantendo-se na mesma posição que os outros dois, com o queixo erguido e a atenção ativa. 

— Agora magoou — Minseok fala, com falsa indignação — achei que vocês me levassem a sério.

— Devemos levar os mais velhos sempre a sério, não? — Baekhyun arrisca. Minseok apenas revira os olhos — Vou tirar o pó esse fim de semana, senhor Kim.

— Essa eu quero ver — ele responde. Baekhyun vem prometendo isso há algumas semanas. 

Um vento mais forte surge, fazendo-o fechar o xale. O tempo está piorando. Espera que a reunião não demore muito. Não gosta da ideia de acabar tomando chuva de novo.

É quando se ouve o grito.

E não há tempo para pensar que foi mera impressão. Outro grito infantil ecoa com o vento, e os guardas se entreolham. 

Eles não devem abandonar seus postos. É a regra, a lei agindo sobre cada um dos Funcionários Reais. Mas não é como se pudessem simplesmente ignorar. Pode haver uma criança em perigo!

Minseok não consegue esperar por um terceiro grito. Ele pega um mosquete e corre pelo gramado que cerca o centro. Baekhyun grita seu nome, e o som está ligeiramente abafado.

Mosquetes geralmente não são preferíveis para o combate por pesarem demais. Quando precisam, usam espadas, punhais ou adagas. Às vezes, o próprio corpo. Aquele tipo de arma assusta mais do que é realmente útil no dia a dia, e é exatamente isso que Minseok quer. Aquelas monstruosidades pesadas são a sua especialidade desde o treinamento. Ele é bom lidando com elas.

Não se surpreende ao ver as pessoas abrindo espaço por onde passa, algumas assustadas, outras parecendo estranhamente empolgadas. Minseok não se importa muito. Corre tanto que o xale quase cai dos seus ombros. Segue o som baixinho de um choro.

Ele segura firme o mosquete quando vê.

É uma menina. Não deve passar dos cinco anos, e está chorando atrás de uma árvore. Uma mão grosseira e masculina aperta o braço dela com força, e a boca da garotinha  se move em um pedido de socorro.

Minseok corre o mais rápido que o peso de um mosquete permite. Se põe na posição certa para atirar.

Quando para na frente do homem, ouve o que ele diz.

— Me dá logo isso, menina! Ou eu te levo junto comigo!

— Levar ela para onde, senhor? 

O homem vira o corpo, assustado. Em uma análise rápida, diria que ele está na casa dos cinquenta anos. Tem a pele desgastada pelo sol e pelo cansaço, os cabelos grisalhos caem pelos ombros e a barba está por fazer. As vestes revelam que ele é um homem humilde.

O vê engolir em seco.

— Perdão?

— Levar para onde? Foi isso que perguntei — repete, com a voz firme. Intercala o olhar entre o homem e a garota assustada — é algum familiar da menina?

— Eu quero a minha mãe! — ela grita. A mão do homem de repente solta o braço dela.

— Senhor, essa garota apenas pegou algo que era meu. É uma ladrazinha!

Minseok suspira. Ah, então é isso. Ele se abaixa ao lado da menina e sorri pequeno para ela.

— O que você pegou dele, mocinha? — pergunta. Com as mãozinhas trêmulas, ela tira algo do bolso.

A feição do homem se torna horrorizada. A pele empalidece tão rapidamente que é assustador. 

— E-essa pedrinha brilhante, moço — a garota diz — estava no chão. Eu achei que dava para fazer um colar para minha mamãe.

A pedra vermelha reflete a luz do sol. É uma anderídea , rara no Reino de Tornado mas muito comum em reinos vizinhos, principalmente em Kaedora. Minseok olha para o homem. Ele carrega um saco cheio delas em uma das mãos, e tenta escondê-las o quanto pode, enterrando-as contra o peito.

Retorna a atenção para a menina.

— Querida, tenho certeza que a sua mamãe não vai ficar feliz de saber que você pegou algo que não é seu — explica — devolva para o moço, hm? Você vai achar alguma outra pedrinha linda para fazer um colar para sua mãe. Eu garanto.

Ela assente. As bochechas cheias ficam vermelhas de vergonha. Quando ergue a mão para o rapaz, ele se levanta, assustado.

— Não precisa! Não precisa, senhor, excelência, eu… — ele bate as mãos na calça e aperta o saco de anderídeas no peito. — Já estou indo.

E sai andando o mais rápido que pode.

— Senhor! — Minseok grita, mas tudo o que o homem faz é apertar o passo e correr até sumir na curva mais próxima.

Ele está fugindo. Fugindo do quê, exatamente? Minseok larga o mosquete no chão e se prepara para correr atrás dele. Antes que possa dar um passo, porém,  sente uma mãozinha pequena puxando a barra da camisa do seu uniforme.

— Moço, onde está minha mãe?

Ele olha para a menina. Os olhos grandes dela estão vermelhos e marejados. Respira fundo. De onde está, já não consegue mais ver rastro do senhor das anderídeas. O perdeu completamente de vista.

Ah, droga.

— Tudo bem. Vamos lá, vou te levar até a sua mãe —  ele segura a mão dela — Você pode me entregar a pedrinha, meu anjo?

Ela balança a cabeça e entrega a anderídea em suas mãos. Certo. Isso pode ser importante mais para a frente. 

Minseok olha sobre o ombro novamente, como se pudesse entender com aquilo o que, de fato, acabou de acontecer.

Ele tem suas suspeitas. Apesar de não serem muito comuns, algumas vezes ao ano aparecem casos de comércio ilegal de anderídeas kaedorianas em Tornado. Imaginava-se ser um problema resolvido do passado, mas ultimamente tem crescido mais do que o esperado.

A atitude daquele homem é suspeita demais para que não pense ser exatamente isso. Aquela sacola de pedrinhas brilhantes não deve ter sido conquistada de forma tão honesta assim. 

Quando termina o serviço e volta para o seu posto, encontra Baekhyun sorrindo de canto.

— Achei que eu fosse o imprudente da relação, Seok.

— Fica quieto — responde, e prende um riso na voz. Deixa o mosquete em seu lugar, guarda a anderídea no bolso e olha para a frente.

— Foi uma tentativa de sequestro? — Jongdae sussurra. A voz dele está calma o suficiente para Minseok perceber que eles vão cobrir o seu deslize.

— Não. Acho que foram anderídeas ilegais.

Ele inclina a cabeça para o lado.

— De novo? Esta deve ser a terceira vez em dois meses.

— Exatamente — suspira — mais tarde-

— O CONSELHEIRO ESTÁ VOLTANDO — o grito o interrompe. Todos os guardas e mosqueteiros voltam às suas posições. A reunião havia acabado.

— Mais tarde explico tudo melhor. Prometo.

 

 

 

 

Na volta para o Palácio, o Rei anuncia uma Reunião de emergência com todos os funcionários.

É algo que nunca aconteceu antes, e por isso tudo vira uma confusão. Cozinheiros passam de lá para cá, o ateliê está uma bagunça e até mesmo os guardas estão tensos. O Palácio, sempre tão organizado, parece revirado por gente confusa e conversando baixo.

Baekhyun tira o chapéu largo. Jongdae larga a espada em seu quarto e volta para a sala, para encontrar os amigos.

— Está sentindo? — ele pergunta. Jongdae é expressivo em sua natureza. Seus olhos ficam mais brilhantes e os lábios secos quando está preocupado. As sobrancelhas se arqueiam. Os ombros ficam tensos e ele precisa sempre estar tocando algo, batucando, assobiando ou produzindo qualquer forma de som para se distrair dos pensamentos inoportunos.

Baekhyun, com o passar dos anos, aprendeu a ler cada um daqueles sinais, e se aproxima mais dele para devolver:

— O caos cada vez mais próximo? — Ele concorda, esfregando a mão no peito — Não aguento mais essa incerteza.

Como resposta, Minseok chega acompanhado de uma mulher.

Park Sooyoung. Ela tem cabelos longos e escuros e veste um vestido comprido com o símbolo da Alfaiataria Real. É responsável por desenhar e costurar alguns dos mais bem falados trajes de gala do Reino, assim como coordenar toda a equipe de costureiros.

Nas horas vagas, gosta de conversar sobre a vida alheia. Ela sempre chega com um sorriso no rosto, uma flor amarela pendurada na orelha e a voz carregada de novidades. Dificilmente há algo que ela não saiba.

Sua feição agora não parece alegre. O vinco entre as sobrancelhas deixa o rosto rígido. 

— Senhorita Park — Jongdae cumprimenta. Ela balança as mãos, dispensando cordialidades. Está visivelmente nervosa.

— Sua Majestade mandou um criado ao ateliê hoje cedo — ela diz. Uma das mãos de Minseok paira sobre as costas dela — ele pediu camisolas médicas.

— Camisolas?

— Tem alguém ferido, ou doente — Jongdae responde — e é grave o suficiente para o Centro ser usado.

A lembrança da Rainha Seohyeon volta à sua mente. Olha nos olhos de Jongdae e percebe que ele também havia lembrado.

Céus, que ninguém tenha morrido.

Sooyoung balança a cabeça e encolhe os ombros, tirando-o de seus pensamentos.

— Eu estou com muito medo.

Um som agudo ecoa pelo Palácio. Quando as reuniões estão para começar, uma série de trombetas é tocada. É como um aviso para que todos os envolvidos no assunto se dirijam ao local marcado. Geralmente é a sala do Trono. Hoje, uma multidão caminha para o pátio. 

O Rei está sobre o palanque de mármore maciço e detalhes em ouro. Tem uma expressão rígida no rosto. Ele está mais cansado do que nos dias normais, e mais estressado também.

O Conselheiro Real está ao seu lado, assim como o representante do Parlamento, Jung Junseon.

O Rei pigarreia.

— Eu chamei a todos aqui para tratar de um assunto de extrema importância — Ele começa. A voz não falha vez alguma, mesmo com o tormento visível em seu rosto — E vou direto ao ponto: Chanyeol, meu filho e seu Príncipe Herdeiro, sofreu um atentado na última madrugada.

Sons de surpresa são ouvidos. Eles se tornam mais altos que a voz do Rei, e ele precisa esperar toda a comoção se acalmar para voltar a falar. Baekhyun olha ao redor, com o coração retumbando no peito e a cabeça rodando. Encontra os olhos tensos de Sehun na multidão e percebe seus dedos torcendo a borda do avental. Conhece aquelas mãos nervosas. Ele precisa estar sempre cutucando alguma coisa quando se sente muito ansioso.

Agora faz sentido. A ida ao Centro, a presença solitária do Conselheiro em uma reunião importante, o mau pressentimento que vinha corroendo-o o dia inteiro. 

Park Chanyeol não havia saído de casa em momento algum desde o dia anterior. Como isso poderia ter acontecido?

Aperta os olhos, tentando voltar a se concentrar no pronunciamento.

— Chanyeol estará dispensado de todos os compromissos pelos próximos dias, enquanto se recupera dos ferimentos. Só receberá visitas da família e de funcionários autorizados. — O Rei volta a falar — Segundo relatos dele, o ataque foi feito por uma pessoa trajada com o fardamento do Palácio. Ou seja, temos um traidor entre nós e faremos de tudo para que ele seja capturado o quanto antes.

Mais sons de espanto são ouvidos. Dessa vez, carregados de medo. Como quem manipula uma alavanca, a voz do Rei Han-Yeol cria um abismo entre os funcionários. De repente, a atmosfera unida de quem divide o mesmo temor e as mesmas preocupações se dissipa.

Baekhyun olha ao redor. Aquela quantidade de pessoas começa a ser sufocante. Sente-se desprotegido, de repente, e apesar de saber que é apenas a surpresa momentânea, tem a necessidade urgente de buscar um grupo para se abrigar.

Ele procura os amigos com os olhos. Encontra Jongdae já o encarando, com a mão erguida na sua direção, chamando-o para perto. Minseok está ao lado dele. Baekhyun caminha com cuidado no meio da multidão até estar perto o suficiente de Jongdae para ter o conforto dos braços dele ao redor de seus ombros. A multidão continua a falar ao redor.

— Você acha que foi alguém da Guarda? — uma mulher murmura atrás deles.

— Alguém daqui de dentro pode ter sido o mandante — outra pessoa especula, à esquerda.

— Não é idiotice demais atentar contra Sua Alteza usando o fardamento? — mais uma voz. Baekhyun desiste de prestar atenção em tudo o que dizem. Sua cabeça está rodando e um pouco de suor começa a escorrer nas têmporas.

Dessa vez, o Conselheiro Real toma a palavra antes do silêncio voltar.

— Sua Alteza, Príncipe Chanyeol, relatou a pessoas de confiança que o criminoso era bom no que fazia. Ele recebeu golpes de espada, cortes e socos. Não era, nem de longe, tarefa de amador — pausa. Passeia a sua atenção pelos criados devagar. Parece ameaçador e aterrorizante. Até o mais inocente se sente prestes a ser descoberto — é preciso desconfiar de todos. E desconfiar em dobro dos mais preparados.

E não é como se o olhar afiado dele direcionado a três pessoas em específico na multidão fosse passar despercebido. 

Baekhyun torce a boca. Jongdae enrijece ao seu lado e Minseok ergue o queixo.

É o início do caos.