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Paris – 1656
Un
Os dentes brancos pareciam poder trincar a qualquer momento, tamanha a força com que Baekhyun pressionava sua arcada dentária, com seus lábios trêmulos os expondo, e o ar escapando de sua boca por qualquer espaço disponível entre as pérolas bem cuidadas, já que respirar pelo nariz era até doloroso naquele momento. Provavelmente ainda conseguia respirar por causa do espaço livre ao fundo da boca, no lado esquerdo, que costumava ter um dente; costumava porque Baekhyun o perdeu aos 15 anos enquanto treinava com o seu pai, e ao dar de cara com um muro só teve tempo de virar o rosto, não de colocar as mãos em frente à cara — mas não é nem preciso dizer que perder o segundo molar é bem melhor do que ficar sem os dois dentões da frente.
Seus olhos estavam arregalados e as têmporas vertendo suor, que escorria dos cabelos negros (e que quase passavam da altura do pescoço). Paris deveria ter temperaturas de talvez uns 14 ou 15 graus em setembro, mas Baekhyun sentia-se no extremo sul da Sicília em julho. Com a força que fazia naquele momento, a regata mais fininha de algodão parecia mais um sobretudo de veludo no meio do deserto mediterrâneo. Os cabelos estavam encharcados, mas o suor que escorria dos fios era bem distinguível da baba espessa que pingava da boca do São Bernardo obeso que Baekhyun carregava nas costas. Quase 100 quilos de afeto canino e 12 anos de muita saliva acumulada para soltar justamente nos ombros do jovem Byun.
Seu pai tinha uns métodos de treinamento nada ortodoxos.
— Eu já corri ao redor da casa com esse cachorro umas 50 vezes, pai — gritou Baekhyun, na esperança de que seu velho, sentado desleixadamente no balanço de madeira com uma garrafa de gin holandês, tivesse um pouco de misericórdia por ele —, o senhor não acha que já tá bom?
— Não, eu ainda não me cansei de te ver correndo, pode continuar — respondeu seu pai, seguido por um longo gole da bebida transparente. — Como você pretende atravessar o palácio com um membro da família real nas costas em um ataque surpresa? Se não consegue carregar um cachorro, como vai proteger a vida de quem come apenas brioches e coxas de galinha?
Baekhyun só parou lá por umas vinte voltas depois, mas isso só aconteceu porque o cansaço não permitiu que ele notasse o obstáculo que seu pai resolveu colocar no caminho — um saco enorme de farinha —, e assim ele caiu no chão. Não caiu de cara porque teve tempo de virar o corpo e segurar o cachorro contra seu peito. Caiu de costas para não quebrar os dentes e nem deixar que o velho Yves se machucasse — o coitado já era manco em duas patas —, mas cair com 100 quilos pressionando a barriga também não era algo tranquilo.
O garoto jurou ver sua visão escurecer por alguns segundos e alguns pontinhos brilhosos aparecerem distantemente. Sabia que não estava desmaiado porque sentia as lambidas do São Bernardo em seu rosto.
— Está bom por hoje. — Seu pai ficou em pé, apoiado na bengala de prata, e andou até o filho jogado no chão. — Você está pronto.
Baekhyun arregalou os olhos e se levantou em um pulo, acreditava estar ficando louco ou ter ouvido errado.
— Pronto?! Mas eu parei de correr antes de você mandar.
— Mais uma coisa que você precisa saber: se você espera algo de alguém, faça ela crer que as suas expectativas são maiores do que de fato são, ela vai se esforçar mais do que imagina que pode para atendê-las. — A calma com que o velho dizia aquilo quase deixou o garoto puto por ter sido feito de otário. — Na verdade, você tá pronto faz tempo, e eu não esperava mais do que trinta voltas.
— Eu duvido que você tenha treinado assim para ser mosqueteiro.
— Acredite, meu treinamento foi pior. — Seu pai riu. — Mas você não precisou passar por nada do que eu passei, talvez você simplesmente tenha mais talento do que eu, e isso é ótimo.
— Você tem certeza de que eu tô pronto? Às vezes eu acho que ainda tenho muito a aprender.
— Você tem mesmo muito a aprender, com certeza, mas tem coisas que esse velho barrigudo já não pode te ensinar, você só vai saber quando viver. — Firmou a bengala no chão e bebeu mais um gole do que certamente era forte demais para que qualquer pessoa tomasse sem fazer careta, mas ele não fazia (e por isso talvez seu pai já estivesse muito próximo de um nível sobre-humano). — E, sendo honesto, você tá em uma condição muito melhor do que a minha quando entrei para a guarda real.
— Certo... Então o senhor acha que já posso ir ao Palácio amanhã?
— Amanhã?! — Uma gargalhada grosseira fugiu da boca do velho, e por um momento Baekhyun sentiu um alívio por adiar a típica ansiedade do dia seguinte. Fisicamente talvez estivesse apto, mas precisava de, pelo menos, alguns dias para se preparar mentalmente. — Você vai hoje mesmo! Vá arrumar suas coisas.
— Hoje não! — Baekhyun gritou assustado. — Você enlouqueceu?!
— Se você não fizer isso hoje, vai adiar até os seus trinta anos. Eu conheço o filho que eu criei. — Começou a bater fracamente nas pernas do garoto com a bengala, como se o empurrasse para dentro de casa. — Nisso eu queria que você fosse mais parecido com a sua mãe. Ela nunca pensou muito antes de fazer tudo o que tinha vontade.
— E por isso acabou virando comida de coiote... — murmurou o rapaz, pegando uma bolsa grande de couro de vaca para guardar tudo o que precisava para ir embora de casa.
— Sua mãe não entendia muito o conceito de um animal carnívoro... — O mais velho ficou sem jeito, lembrando do episódio em que acordou com um bilhete de sua falecida esposa, dizendo que levaria cenouras aos coiotes que viviam na floresta perto de casa, pois eles pareciam famintos. Ele, que viveu o suficiente para saber que coiotes não tinham uma dieta vegetariana, correu como pôde atrás da mulher (quase como se não dependesse da bengala), para então encontrar a cesta de madeira jogada perto do rio, com os legumes intactos, alguns pedaços do vestido de linho, e a aliança de ouro que ele mesmo havia feito para ela. — Mas ela era uma mulher muito corajosa, e é isso que importa, você precisa ter a coragem dela... E a minha cautela, de preferência.
— E se eu não conseguir?
— Apesar de não ter toda a coragem de sua mãe, você tem a persistência dela. Eu sei que você vai conseguir. — Ficou quieto por um momento, para então tirar a corrente de prata que usava, com um pingente bem discreto com formato de cavalo, depois o entregou ao filho. — Quando você pensar em desistir, olhe para essa corrente, lembre-se de que eu ganhei do rei quando ele ainda era príncipe, como um agradecimento pela minha lealdade. Em algum momento, você vai receber um gesto assim da família que você protegerá, e isso é motivação suficiente. Eu sei que você consegue, Baekhyun.
Deux
Baekhyun pôde contar com um favor do pai, que o levou de carroça até o palácio real — claro, precisava garantir que o garoto chegasse devidamente limpo e que não fosse saqueado no caminho. O banho que deveria ser às terças e sábados (porque era um saco buscar água no rio para mais do que dois banhos na semana) excepcionalmente foi tomado naquela segunda feira, mas só porque precisava estar muito apresentável.
Despediu-se do pai com a mão trêmula, e logo que pisou em frente aos portões foi barrado por dois guardas, que olhavam o rapaz dos pés à cabeça, como se encarassem um delinquente ou um lunático que achava que podia entrar no palácio sem mais nem menos — porra, Baekhyun tinha que ter pensado nisso. Com um sorriso envergonhado e os olhos quase marejados de medo, ele sentiu coragem suficiente para ousar abrir a boca e falar.
— P-perdão... — gaguejou. — Eu quero me apresentar para ser um mosqueteiro.
Os dois guardas trocaram um olhar demorado, angustiantemente em silêncio, e então soltaram breves gargalhadas.
— Que gracinha! — Brincou o menor deles, que ainda era maior do que Baekhyun. — Mas você não pode entrar por aqui, precisa ir ao ofício da segurança real, lá — falou, apontando para uma instalação de pedra uns 100 metros à esquerda, um tanto destoante em relação à beleza do palácio —, e depois, se for aceito, você pode voltar aqui.
— Só isso?
— É... — disse o outro guarda, dando de ombros — Simples assim.
— Certo, muito obrigado. — Baekhyun finalmente soltou o ar que nem percebeu que prendia em seus pulmões, aliviado por não ser preso por ter errado a entrada.
Um pouco mais confiante do que quando chegou, foi ao tal Ofício que os guardas disseram, e nem precisou bater na porta, ela já estava aberta. Quando entrou, viu um senhor com, provavelmente, a mesma idade de seu pai, ocupado com dezenas de papéis. Ele se esforçava para ler o que estava na sua frente, com os óculos redondos e pequenos pendurados na ponta do nariz. Parecia não ter notado a presença do garoto ali.
— Com licença... — sem jeito, chamou a atenção do velho — Eu quero me apresentar para ser mosqueteiro.
— Guarda real — disse o homem, sem maiores explicações, e sem nem olhar para o rosto do jovem à sua frente, o que deixou Baekhyun um tanto confuso. Então ele quis acreditar que o sujeito havia entendido errado o seu pedido.
— Não, senhor, eu quero ser mosqueteiro.
— Não, — insistiu, finalmente olhando para Baekhyun — guarda real, para ser mosqueteiro você precisa ser alguém de confiança da família real.
— Mas meu pai foi mosqueteiro... Ele protegia diretamente o rei antes de se aposentar. — Baekhyun achou que falar sobre o currículo de seu pai talvez pudesse ajudá-lo em algo. — Será que você tem os registros aí? O nome dele é Baekbeom, ele precisou se aposentar porque quando lutou para salvar a vida do rei foi acertado com uma espada no tendão do calcanhar, então ele teve que começar a usar uma bengala para caminhar e...
— Onde está seu pai? — O oficial interrompeu a fala do garoto.
— Deve estar indo para casa, ele me deixou em frente ao palácio faz uns cinco minutos...
— Ah, entendi, por um momento achei que era ele quem estava se apresentando para ser mosqueteiro. — O tom sarcástico acabou machucando Baekhyun um pouquinho, ele não poderia mentir. — Você pode ser da guarda real, mas se não estiver bom temos outras funções.
— É mesmo?! — Se aquele menino fosse um cachorro, suas orelhas estariam em pé. — Quais?
— Você pode limpar as patentes, os estábulos ou lavar as roupas da guarda real, alguma delas te interessa?
Constrangido e derrotado, Baekhyun suspirou.
— Eu fico na guarda real.
Trois
Como se não bastasse ter que servir somente à guarda real, e não na almejada posição de mosqueteiro, Baekhyun não ficou responsável por qualquer perímetro dentro, ou ao menos ao redor do palácio. Não... Sua atribuição era vigiar o estábulo porque, de alguma forma, o cavalo rebelde do príncipe mais velho sempre conseguia fugir à noite. Pelo menos era o estábulo dos cavalos da família real. Mesmo com um leve cheiro de bosta que quase conseguia se sobrepor ao cheiro das flores, ainda era o estábulo real.
E pelo jeito o cavalo era muito mais inteligente do que todos do palácio, da guarda real, quem fosse... Porque já tentaram de tudo, e mesmo assim o cavalo conseguia escapar à noite. Sabe-se lá se saía para comer grama ou para namorar alguma égua do estábulo da guarda real. O fato é que esse cavalo é tão esperto que eles acharam necessário colocar dois novatos da guarda para vigiar. E foi assim que Baekhyun fez um amigo, Chanyeol, um garoto da sua idade que também acabara de se apresentar à guarda, mas ele já não tinha pretensão de ser mosqueteiro, apenas queria ser da guarda para conseguir dinheiro e ajudar a família — nenhuma aspiração, tampouco um grande sonho.
E talvez Baekhyun tenha se superestimado demais em relação à história do cavalo, porque o bicho foi mais esperto do que ele e Chanyeol juntos. Bastava meio minuto de distração ou uma única pausa para ir ao banheiro para o cavalo fugir sem nem dar uma pista de para qual lado havia seguido. Mas eles não eram tão estúpidos ao ponto de reportar as fugas aos superiores, claro que não! Esperavam o cavalo aparecer do lado de fora, pouco antes do nascer do sol, para então guardá-lo no estábulo e fingir que nada aconteceu.
Podia até ser imprudência, mas assim eles não eram chutados para fora da guarda real, e o oficial tinha a ilusão de um problema resolvido.
Acontece que, numa noite Baekhyun ficou muito intrigado com a possibilidade daquele maldito cavalo ser inteligente a ponto de esperar que os guardas se distraíssem para então fugir. Levando isso em consideração, esperou Chanyeol se afastar para mijar atrás do estábulo, e então saiu para espiar o cavalo do lado de fora — ele estava muito determinado a descobrir como diabos aquele bicho enorme desaparecia do nada, sem deixar rastros.
E bingo!
Um sujeito encapuzado cai do teto — que não é tão distante do animal, certamente não é uma distância suficiente para causar dor e fazê-lo por consequência relinchar —, e o cavalo, como se tivesse sido adestrado para saber exatamente o que estava acontecendo e o que precisava fazer, saltou sobre a cerca à sua frente e galopou em direção à floresta escura do jardim real.
É claro que um cavalo da realeza não faria som algum! Esses animais eram treinados para ostentar toda a graciosidade que parecia estar no sangue de todo membro da nobreza, desde os coelhos até o rei que morreu agonizando de dor, mas não soltou um único resmungo.
Baekhyun sonhava em servir à nobreza, mas não é como se ele apreciasse a classe — sabia muito bem que havia nascido e morreria um plebeu —, então não se sentia nada culpado em julgar as frescuras elitistas presentes até mesmo nos cascos do cavalo do príncipe.
O fato, contudo, era: alguém roubou o cavalo do príncipe, e o garoto só conseguiu sorrir de orelha a orelha diante da oportunidade. Bem, não pensava no quanto poderia se ferrar por não notar um sujeito escondido no estábulo para furtar os cavalos da realeza... Na realidade, só pensou em como aquele era o seu bilhete premiado para finalmente se tornar um mosqueteiro. Não foi impulsivo como sua mãe quando decidiu não chamar Chanyeol para que pegassem o larápio juntos, não, essa não foi a impulsividade de um rapaz bondoso que agiu no calor do momento e esqueceu de chamar o outro guarda. Foi puro e claro egoísmo, ele não negaria isso a si mesmo. Baekhyun não quis chamar Chanyeol, e pensou nisso com todas as letras, porque não existia honra nenhuma no trabalho para um que foi feito por dois, não quando o assunto era se tornar um mosqueteiro. Por mais podre que isso pudesse torná-lo, não se importaria se Chanyeol fosse visto pela guarda real como alguém que não consegue fazer a sua única obrigação. Ser mosqueteiro sempre foi o sonho de Baekhyun, e ele não queria perder a oportunidade que caiu em seu colo.
Se teve alguma impulsividade, foi ao escolher montar no cavalo da rainha para perseguir o sujeito entre as árvores enormes perto dali. Todos os treinos com seu pai de corridas incessantes se revelaram muito efetivos — coisa que Baekhyun nunca notara —, porque ele nunca havia movido as pernas tão rápido em sua vida como fez naquela madrugada para o cavalo da rainha correr. E quando finalmente ficou lado a lado com o ladrão, usou um impulso que não sabia ter para saltar no corpo do seu bilhete premiado e derrubá-lo no chão. É claro que Baekhyun não se machucou, foi ágil o bastante para usar o corpo do desconhecido para amortecer sua queda.
Os cavalos correram por pouco mais de 20 metros antes de pararem totalmente. Mas antes disso Baekhyun já tirou a espada da bainha e apontou contra a nuca de quem quer que estivesse deitado abaixo de si, com a cara contra a grama.
— Mostra as mãos bem devagar — disse o guarda, sem conseguir conter o sorriso.
— Tudo bem, tudo bem, não vou reagir! — A voz grossa aparentava um pouco de medo, enquanto duas mãos grandes se distanciavam do tronco para ficarem espalmadas contra o chão. — Tira o meu capuz, por favor.
Ficou confuso pelo pedido, já que a última coisa que uma pessoa que furtava cavalos da família real poderia querer era ser identificado. Mesmo assim, Baekhyun o fez, e acabou se arrependendo amargamente dos últimos 5 minutos de sua vida.
— V-vossa alteza?! — Qualquer confiança que podia ter deu lugar a gaguejos quando ele viu o perfil do rosto do príncipe mais velho, Sehun.
Quatre
Atordoado. Muito atordoado. Sem saber o que esperar dentre tantas possibilidades terríveis o que poderia acontecer, Baekhyun quase arrancava os cabelos enquanto andava em círculos ao redor do príncipe — que mesmo com a bunda doída, permanecia sentado em uma pedra, pois ficar em pé doía ainda mais. Talvez fosse preso por ferir um membro da família real, independentemente de ter a intenção ou não, talvez fosse até executado... De qualquer forma, qualquer alternativa, para Baekhyun, parecia ser mais razoável do que ter que voltar para casa após ser expulso da guarda real.
Ele estava cagado de medo, para dizer o mínimo.
Pensando melhor — e bem melhor —, Baekhyun até gostaria de ter chamado Chanyeol, assim poderia jogar a culpa toda nele. Isso porque ele podia ser uma pequena víbora quando se tratava de sua ambição, e não tinha problema algum em reconhecer isso para si mesmo, mas ainda assim nunca faria esse tipo de coisa fora da sua imaginação fértil... Seria uma vergonha para o seu pai.
— Ei... — Sehun deixou que a voz saísse pela primeira vez desde que foi jogado brutalmente no chão. Com os cabelos longos e bagunçados tapando parte de seu rosto, segurava um lenço branco contra a testa ralada, e aos poucos o pano começava a ser tomado pelo vermelho do sangue. — Você não vai contar isso para a minha mãe, vai?
Naquele momento, Baekhyun estava de costas para o monarca. Descrente do que ouviu, parou no mesmo lugar e se virou para encarar o rapaz. O príncipe estava com medo de ser delatado?
— Como é? — Por não acreditar no que ouvia, foi obrigado a questionar o monarca.
— Por favor, não diga nada à rainha, eu volto ao meu quarto, como se nada tivesse acontecido, não incomodo nunca mais e deixamos isso entre nós dois, eu posso te compensar, eu prometo!
O pedido quase que desesperado do príncipe de olhos arregalados e voz trêmula deixou Baekhyun muito confuso, para dizer o mínimo. Ele não sabia nem mesmo o que supostamente deveria responder, não sabia nem o que o príncipe pretendia quando dizia que não queria que a rainha soubesse do que aconteceu (como se Baekhyun tivesse algum acesso a ela). Em outras palavras, não era possível acreditar que um fodendo príncipe que foi ferido por engano por um membro da guarda real não queria que a situação fosse relatada à rainha.
Acontece que, diante do silêncio de Baekhyun, Sehun ficou tão surpreso quanto ele.
— Você não sabe? É novo na guarda? — Como se perdesse o receio, ficou em pé e se aproximou de forma curiosa do rapaz mais baixo. — Bem que eu desconfiei, eu não sou muito bom com rostos, mas eu tenho certeza de que nunca tinha visto o seu no palácio!
— É... Sim, sou novo. — Continuou olhando para o mais novo, sem entender muito bem onde ele queria chegar.
— Digamos que eu tenho um espírito um pouquinho aventureiro e isso não agrada muito a minha mãe... — explicou um tanto sem jeito — Ela me proibiu de sair do palácio à noite, e eu não posso ser castigado outra vez, eu não suportaria.
— Castigado? — Àquela altura, Baekhyun (que não era nenhum idiota) já tinha percebido que o príncipe estava se cagando de medo, muito mais do que ele sentiu ao achar que teria problemas por derrubar o herdeiro do trono. A situação, na verdade, era até engraçada. O filho mais disciplinado do rei (que era preparado desde a morte de seu pai, quando tinha só 7 aninhos, para assumir o trono quando fosse mais velho) sendo castigado por ter o estupendo espírito aventureiro de passear com seu cavalo no território real durante a madrugada com seus 18 anos. — O que a rainha faz? Tira seus brioches por três dias?
Magoado com o deboche do guarda, Sehun desviou o olhar. Não que fosse algo tão absurdo crer que um príncipe pode ser mimado, isso era até verdade em certos pontos. Mas não deixava de doer ter seu temor reduzido a isso... Era da família real e tinha privilégios, mas ainda tinha suas paixões, e elas eram mais importantes do que tudo.
— Ela me proíbe de cavalgar até a coroação.
Baekhyun se sentiu um pouquinho culpado pela piada. Seu senso de humor era de fato muito bom, sabia disso, mas também sabia que podia machucar outras pessoas quando esquecia de pensar antes de falar — o que acontecia com uma frequência maior do que gostaria. E a julgar por tudo que os levou até ali... Não poder cavalgar era uma ideia que feria o príncipe.
— Ah, entendi, foi mal. — Sorriu sem graça.
— Por favor, não conte nada a ela. — Sehun voltou a pedir. — O que você quer? Dinheiro? Ouro?
— Não, claro que não.
Baekhyun recusava o suborno, assim como tentava garantir nas 4 palavras que não iria dizer nada à rainha. Mas, talvez pelo medo, o príncipe não entendia o que o rapaz estava falando, e acreditou que grana ou ouro não fossem ofertas suficientes para comprar o silêncio dele.
— Já sei! Você quer ser mosqueteiro, não quer? Hoje mesmo posso te colocar na minha segurança pessoal, eu vou pedir à minha mãe, digo que confio em você e...
— Não! — Baekhyun foi mais firme em sua voz, não permitiu que Sehun terminasse de falar. — De forma alguma! Eu não sou o cara mais ético do mundo, também sou egoísta pra caramba, mas quero ser um mosqueteiro pelo meu mérito, não com chantagem ou suborno. Meu pai teria nojo de mim.
— O que você quer então? Eu imploro, tem que ter alguma coisa que você queira pra não dizer a ninguém que eu saí à noite.
— Eu não quero nada, alteza, o que você faz à noite não me interessa, desde que você não esteja em risco. — Talvez seu modo de ser honesto fosse um tanto cru e áspero, mas não havia como ser mais sincero do que isso em sua fala. — Eu vim pra esse lugar pra proteger a família real... Ou os cavalos, como me mandaram fazer por enquanto, sei lá — disse com certo desânimo, seguido de um suspiro —, e apenas isso. Eu não vim para me aproveitar de ninguém, mas também não quero me arrumar problemas, então eu preciso que você pare de pegar esse cavalo de madrugada, ou eu vou acabar sendo mandado embora por não ter a capacidade nem de cuidar de um maldito cavalo.
— O “maldito” se chama Bastien, tenha mais respeito, ele é da realeza e na hierarquia social está acima de você. — Ao ter seu companheiro ofendido, Sehun se permitiu ser o babaca classista para retribuir a grosseria, apesar de se sentir patético ao usar essa carta. — De qualquer modo, agradeço a sua discrição, mas eu insisto e imploro: eu não posso simplesmente deixar de cavalgar à noite, é o único momento em que estou sozinho e não tem cinco, seis, sete guardas agindo como babás ao meu redor. É o único momento do meu dia em que eu me sinto livre.
— Eu entendo o seu lado, alteza, mas preciso que você entenda o meu... Se a guarda real descobre que eu estou deixando o Bastien — deu ênfase ao nome do cavalo para mostrar ao príncipe que entendeu o desrespeito trocado — simplesmente ser furtado, eles chutam a minha bunda pra longe daqui, e eu vou ter que voltar para casa sendo a maior vergonha da vida do meu pai. Você entende isso?
— Está bem, vamos entrar em um acordo? — Sehun respirou fundo. — Tenho certeza de que podemos encontrar um meio-termo.
— Certo, vou ser razoável com você. — Baekhyun acreditou que seria melhor ceder. — Eu posso ficar um pouco mais distraído e distrair meu companheiro de vigia uma vez por semana, se é que você me entende.
— Uma vez por semana? Nem pensar, vou enlouquecer. Três vezes!
— Alteza, o outro guarda é tapado, mas nem tanto, não podemos abusar da sorte. — Estendeu a mão em direção ao príncipe. — Duas vezes por semana ou não temos um acordo.
Sehun olhou fundo nos olhos do mais velho, então encarou a mão à sua frente. Pensou por um bom tempo no que tinha a perder, e no que tinha a ganhar com aquele acordo. Também não podia ser estúpido ao fazer com que um guarda compreensivo — e que não tinha qualquer pretensão de extorqui-lo, como outros já fizeram — ser mandado embora. Era simples, precisava de pessoas como ele para negociar, e reconhecia que aquele guarda, na verdade, estava fazendo uma concessão muito arriscada para si mesmo, apenas para que o príncipe pudesse dar seus passeios noturnos proibidos.
Certo, precisava ser compreensivo também.
— Está bem — respondeu, e logo apertou a mão do baixinho. — Duas vezes por semana.
— Pode deixar que eu levo os cavalos ao estábulo. — Baekhyun caminhava em direção aos cavalos reais que comiam a grama bem aparada ali perto.
— Tudo bem, muito obrigado... — Quando ia falar o nome do guarda, percebeu que nem mesmo sabia. — Na verdade, não perguntei seu nome.
— É Baekhyun — respondeu o outro, sem nem olhar para trás.
— Obrigado, Baekhyun — Sehun sorriu. — Quando eu for cavalgar à noite, faço questão de deixar para você os brioches que a rainha me proibir de comer.
Com a provocação, Baekhyun finalmente se virou para encarar o príncipe com a maior indignação que poderia mostrar. Mas, naquele momento, o garoto já havia dado as costas e caminhava em direção ao palácio.
A missão da vida de Baekhyun era, definitivamente, servir e proteger a família real, mas não se engane... Isso não mudava o ódio que ele podia sentir por ela enquanto classe.
Cinque
Baekhyun estava apreensivo. Não nervoso, apreensivo. E culpe a sua prepotência, porque qualquer tranquilidade que tinha naquele momento se explicava de forma simples: ele achava Chanyeol estúpido. Não o entenda mal, não achava o garoto burro ou incapaz, apenas havia percebido que quando alguma coisa não preocupava o garoto, ele ficava completamente desatento. Se ele se importava com o seu trabalho, era outra história. O negócio é que ele provavelmente nem imaginava qualquer risco envolvendo o estábulo, e por isso não se preocupava o suficiente para ficar em alerta.
Um dos diversos defeitos de Baekhyun era se assumir mais inteligente que os outros, beirava a arrogância sem nem perceber ou ter a intenção, mas era fato que ele sabia distinguir muito bem quando alguém estava atento ou não. E esse era exatamente o caso de Chanyeol nas vigias do estábulo a cada madrugada. Só que mesmo subestimando os outros, Baekhyun ainda era cauteloso e não dava chances para más casualidades, e por isso aguardava o momento perfeito para fazer o sinal ao príncipe.
Alternando o foco entre os olhos pouco visíveis em meio à escuridão da abertura no teto de madeira e o guarda que desenhava na terra com sua espada, ele esperava pela oportunidade exata em que, religiosamente, Chanyeol se distrairia.
Tinha aquela taverna não muito distante do palácio que ficava aberta até altas horas da madrugada, era um dos locais mais boêmios da região, com muitas bebidas e damas da noite, dava para ver o tumulto do estábulo. Baekhyun não era de tirar conclusões precipitadas — pelo menos não sem fortes indícios —, mas se tivesse que fazer alguma aposta, diria que quando as luzes daquele lugar se apagavam, Chanyeol pensava na cerveja que não tomou naquela noite e, além do desânimo, sentia vontade de mijar.
Isso não era um evento isolado, Baekhyun já notou que todas as vezes em que as luzes da taverna se apagavam o outro guarda anunciava que iria sair para se aliviar. E isso certamente deixava as coisas muito mais fáceis.
Assim que Chanyeol sumiu de vista, Baekhyun bocejou: era esse o sinal para que Sehun montasse em seu cavalo. Feito isso, um embrulho de pano foi jogado para o baixinho, que sem olhar para o príncipe, o guardou dentro da camisa — aquele era o brioche que comeria no café da manhã, não uma mera piada. Além de fingir distração, Baekhyun também precisava se certificar de que nenhum outro membro da guarda real rondava por ali, e por isso saiu pelo lado oposto de onde Chanyeol havia saído, para garantir que ninguém observava.
Lá fora, tossiu. Baixo o suficiente para que não atraísse a atenção de Chanyeol, mas alto o suficiente para que Sehun ouvisse e soubesse que poderia partir com seu cavalo.
Por duas semanas, aquele plano foi perfeito. O problema é que foi naquela específica madrugada de sexta-feira, Chanyeol teve que encontrar uma galinha perdida e ficar muito surpreso com aquilo, a ponto de desistir de mijar só para voltar ao estábulo e chamar Baekhyun para ver a tal da galinha.
Porém, quando ele voltou, não viu Baekhyun lá dentro, apenas um sujeito com uma longa capa preta em um capuz montado no cavalo do príncipe. E, pior, parado ainda porque Baekhyun não havia dado o sinal para que ele saísse, a tosse, pois estava lá fora verificando se Sehun poderia sair ou não.
— Baekhyun! — gritou o rapaz, pulando na direção do sujeito em cima do cavalo parado. — Peguei um ladrão!
Baekhyun sentiu um embrulho no estômago com a possibilidade de ser dedurado pelo príncipe ao ter seu esquema arruinado. É bom frisar: não há motivos para disfarçar isso, ele era egoísta, e o fim das saídas noturnas do príncipe não mudaria nada em sua vida se ele não pudesse se dar mal por isso. Sejamos honestos: Baekhyun se importou o suficiente e foi empático a ponto de arriscar sua função ao abrir uma brecha para Sehun se aventurar à noite.
E ele até poderia apenas se fazer de desentendido, deixar que Chanyeol descobrisse quem era o sujeitinho encapuzado, e depois Sehun que se virasse com qualquer suborno. Ou poderia se fazer de desentendido e, juntamente a Chanyeol, entregar o príncipe à família real, assim sairiam como os bons guardas que devolveram o garoto de espírito aventureiro aos limites do palácio — de onde era expressamente proibido de sair à noite. Mas ele não era falso.
Se você considera a melhor atitude ou não, Baekhyun acreditava estar sendo extremamente burro ao decidir preservar o maldito valor da confiança que seu pai sempre frisou na sua criação, e se comover novamente pelo drama rebelde do herdeiro real... E assim foi correndo até Chanyeol, antes que ele tirasse aquele capuz do príncipe e soubesse quem estava jogado no chão.
E precisava pensar rápido para isso... Pelo menos, mais rápido que Chanyeol.
— Ei! Você está louco?! — Baekhyun repreendeu o outro guarda em um sussurro alto. — Não crie caso com isso, você está caindo na armadilha.
O rapaz loiro, que mantinha sua espada próxima à nuca de Sehun, olhou confuso para o mais velho.
— Como assim, Byun? O cara estava roubando o cavalo do príncipe.
— Chanyeol, você não sabe como essas coisas funcionam? Você deveria estar ciente! — Baekhyun sabia manipular pessoas desatentas, e muito bem. Basta plantar uma informação de um modo que ela se envergonhe por não ter conhecimento; no caso de Chanyeol, algo que precisava saber relacionado à sua função. Não queria ser chutado para fora da guarda real, queria? — Esses larápios criam distrações. E que valioso seria para eles se dois guardas se distraíssem com um “ladrão” no estábulo, gritassem e chamassem a atenção de outros guardas. Você não vê que é uma distração para que outro marginal entre no palácio?
— Caramba... — Pelo tom de Chanyeol, Baekhyun não sabia dizer ao certo se havia sido convincente o bastante, talvez a sua firmeza tenha feito o trabalho, mas também era possível que o garoto tenha ficado tão confuso com tantas informações que recebeu a ponto de resolver simplesmente se abster para não arrumar problemas por coisas que supostamente deveria saber. — Eu acho que você tem razão, o que vamos fazer?
— Eu preciso que você fique aqui no estábulo, para caso algum amiguinho dele resolva vir procurá-lo. — Baekhyun afastou Chanyeol do príncipe, e assim o levantou pela capa, cuidando para que o capuz não caísse. — Eu vou mandar esse aqui para bem longe do palácio, deve ser um pobre coitado fazendo de tudo por um prato de comida para a família.
— Não deveríamos prendê-lo?
— A masmorra já está cheia, e eu tenho certeza de que seria mais confortável do que ficar nas ruas.
Baekhyun não deu mais tempo para que Chanyeol fizesse outras perguntas — pensava rápido, mas não era nenhum gênio, e poderia se complicar em algum momento —, apenas seguiu arrastando o príncipe para longe do estábulo. Quando se enfiou em meio às árvores com Sehun e julgou estar a uma distância segura, o soltou com tanto cuidado que parecia querer se desculpar pela brutalidade com que o levou para o bosque.
— Precisamos falar sobre isso, alteza. — Baekhyun cruzou os braços, enquanto o príncipe se sentava em um tronco caído próximo. — Se você não tiver uma estratégia muito boa para continuar a cavalgar durante a noite, sinto muito, mas acredito que não poderei mais ajudá-lo.
— Por favor, Baekhyun, foi uma mera coincidência, podemos cuidar disso. Eu mesmo exigirei que os jardineiros retirem todos os ninhos de perto do estábulo, eu invento algo...
— Alteza, preciso ser extremamente honesto... Eu entendo que você goste de fugir por algumas horas de toda essa ideia de ser o próximo rei. Reconheço que deve ser muito mais assustador porque isso vai acontecer muito em breve, e você fez 18 anos há pouquíssimo tempo.
Até mesmo a delicadeza com que o guarda escolhia as palavras já entregava a sua honestidade, ele de fato se compadecia pela situação em que o príncipe estava. Sendo da família real ou não, tendo a vida fácil ou não, ainda era um garoto, e só dois anos mais novo do que ele. Sabia que Sehun tinha seus próprios sonhos... Mas Baekhyun também tinha os dele, e não podia deixar com que algumas horinhas de diversão do príncipe destruíssem tudo o que ele sempre quis alcançar.
— Mas eu não posso ser hipócrita — continuou, atento a cada expressão no rosto do monarca —, eu estou aqui vigiando cavalos porque também tenho um destino. Eu quero uma chance em um milhão que quase ninguém consegue, porque não tive a sorte de nascer em uma família de nobres ou burgueses. Meu vô era um padeiro, meu pai, que nunca teve luxos, tornou-se um mosqueteiro. Eu também quero me tornar um. E essa oportunidade de cuidar de um estábulo que fede à merda certamente é a única que vou receber, eu não quero arriscar perder isso por tentar livrar você de ser pego em seus passeios. Essa é a minha maior preocupação no momento.
Baekhyun não fazia ideia se Sehun, do alto de seu futuro trono e criado ao redor do ouro e da seda, poderia — ou se faria algum esforço para — entender o lado dele. Talvez beirasse o absurdo esperar que a fina nata da nobreza seria capaz de se colocar no lugar de alguém tantas classes abaixo para colocar algum de seus luxos em questionamento.
E àquela altura, Baekhyun pouco se importava.
— Eu sei, eu sei... Eu, de verdade, não quero colocar ninguém nessa situação, não quero que você corra riscos... Mas eu só não posso parar de cavalgar à noite, simplesmente não dá! — Sehun enterrou o rosto nas palmas das mãos por poucos segundos, tenso, e depois voltou a encarar o menor. — E eu não espero que você entenda.
O modo como o príncipe falava deixou Baekhyun, no mínimo, desconfiado. Seja qual fosse o motivo para essa enfática insistência em não poder parar de cavalgar, ele não estava tão à vontade para revelar.
— Alteza, por que você não pode apenas cavalgar durante o dia? Talvez a rainha tenha proibido seus passeios noturnos por medo de invasores. O terreno do palácio é imenso, cheio de bosques, não há como os guardas ficarem de olho em tudo e ainda vigiar todo o perímetro das grades durante a noite, acredito que seja uma preocupação com a sua segurança.
— Não, Baekhyun, não é nada disso... — O príncipe suspirou. — Eu só não posso parar, por favor, vamos dar um jeito nisso, confia em mim.
— Com todo o respeito, mas se você não confia em mim o bastante para ser honesto sobre a sua situação, por que espera que eu confie em você para acobertar suas saídas do palácio?
A pergunta direta que Baekhyun soltou pegou Sehun desprevenido, que se viu obrigado a falar o que preferia manter como um segredo apenas seu... E de seu cavalo.
— Veja... A rainha me proibiu de cavalgar a noite porque eu não fico apenas entre as grades desse terreno. Eu consigo sair por uma parte da grade que até hoje ninguém nunca soube, e nunca conseguiram arrancar essa informação de mim — falou seguido de uma risada triste, era uma pequena vitória em meio a uma história que não achava tão feliz assim —, faço isso desde meus 16 anos, e algumas vezes aconteceu de algum guarda me encontrar nas ruas e me devolver ao palácio. Só que há alguns meses a minha mãe definiu o dia em que iria passar a coroa para mim. Escolheu o mês, o dia, o horário... Eu só fui avisado, como se eu fosse um mero espectador da minha própria vida.
Surpreso o suficiente ao saber que o príncipe, um moleque, simplesmente fugia da segurança das terras reais sem grandes dificuldades, e também ao saber que a rebeldia de Sehun era muito maior do que poderia se esperar, Baekhyun permaneceu calado e olhando atentamente ao mais novo.
— Eu não posso mentir, desde pequeno eu sabia que em algum momento teria que me tornar o rei — continuou —, sou o mais velho entre meus irmãos, eu meio que fui o único filho que meus pais escolheram educar para o trono. Só que era como se nunca tivesse caído a ficha de que isso aconteceria cedo, mesmo depois da morte do meu pai, e ainda sabendo que a minha mãe não iria querer seguir sendo a regente depois que eu fizesse 18 anos, por alguma coisa envolvendo o “respeito” à linearidade da coroa, mas também porque ela está perto dos 50 anos e quer preservar a saúde.
— Mas a rainha ainda é jovem... — Baekhyun comentou baixinho.
— Ela é — Sehun concordou —, tem condições de reger por mais uns 20 anos, pelo menos. Mas ela não pensa dessa forma, acha que já está velha para isso, e também nunca se sentiu muito pertencente ao lugar da hierarquia máxima por ser mulher. Sendo honesto com você, acho que a minha mãe é uma líder até melhor do que o meu pai foi, mas ela já passou por coisas por ser uma mulher no poder que a fizeram querer distância do trono o mais rápido possível.
Àquela altura, o príncipe parecia ter esquecido qualquer apreensão que teve em se abrir para o guarda que dava poucos — mas mais do que esperava — indícios de ser um amigo, sacou um cantil de bolso de algum lugar de sua capa, abriu e bebeu um gole, logo ofereceu a bebida para Baekhyun. O baixinho cheirou aquilo e não identificou, mas sabia que era forte o bastante para queimar sua garganta quando bebesse, o que se confirmou quando ele jogou um pouco da bebida para dentro de sua boca. Era como se o diabo transasse bem em cima da sua língua.
— Bem, como eu dizia — Sehun voltou a falar —, há pouco tempo a rainha anunciou quando eu seria coroado, e isso me fez surtar. A ficha que não havia caído por tantos anos caiu como uma estante na minha cabeça naquele dia, e eu percebi que tudo o que eu menos queria era ser rei. Eu fiquei muito irritado e não pensei nem por um único segundo quando eu ameacei fugir para não me tornar o rei, e foi aí que a minha mãe me proibiu de pisar fora do castelo à noite e ameaçou me proibir de até mesmo cavalgar até o dia em que eu fosse coroado.
— Entendo... — Baekhyun respirou fundo, vendo o príncipe virar um pouco mais da bebida que não tinha nem metade do requinte das bebidas que qualquer nobre costumava consumir. Isso chegava a ser simbólico, os maiores desejos de alguém que sempre teve de tudo eram as coisas mais banais: cavalgar sozinho à noite e beber algo de procedência duvidosa. — Eu sinto muito por isso, alteza, eu acho que...
— Sehun — o príncipe interrompeu o mais velho —, sem essa de alteza, já estamos bebendo juntos, quero que você me chame pelo meu nome.
— Certo, Sehun, o que eu quero dizer é que eu acho que mesmo que você não passe por dificuldades como pessoas com realidades diferentes da sua, saber que vai ser o rei e governar a vida de tantas pessoas é uma pressão tremenda. Um garoto tão novo não deveria ter uma responsabilidade tão grande sendo jogada nos braços assim, ninguém deveria ter que carregar um peso tão desproporcional. Eu entendo que você tenha pensado em fugir.
— Eu ainda tenho vontade de fugir, saio à noite para me imaginar vivendo sem esse título de monarca nas costas... Mas eu não tenho coragem, e sei que a maior decepção da minha mãe, além de me ver fugindo, seria abdicar do título para passar aos meus irmãos. — Sehun riu, mas a risada já não era mais triste, trazia um pouco de descontração também. — Na verdade, eu nunca seria estúpido de passar a coroa para o meu irmão, ele é completamente lunático. E a minha irmã... Bem, ela tem 14 anos, não sei se ela já entende o que a minha mãe passou sendo a regente, não sei se ela estaria disposta a passar por isso, e muito menos sei se eu me sentiria bem em fazer com que ela tivesse que enfrentar algo assim.
— Escolhas difíceis sempre têm as piores consequências, não importa muito por qual caminho você vai, sempre vai ter que sacrificar algo. — Baekhyun aceitou um último gole daquela bebida e devolveu o cantil ao príncipe. — Eu agradeço por você ter confiado em mim para contar tudo isso, e sei que você entende que não posso continuar me arriscando para acobertar essas saídas, eu também tenho muito a perder com isso. Mas você precisa saber também que eu nunca seria capaz de trair a sua confiança te entregando ou deixando você ser pego por um guarda, não depois de beber com você. — Com o comentário, ambos riram.
— Você vai pedir para eu parar de sair à noite, não é? — Sehun voltou a mostrar um pouquinho de desânimo no tom da pergunta.
— Eu não vou pedir para você deixar de fazer nada, o que eu quero é que você me tire da posição em que eu preciso escolher entre trair a confiança de alguém e perder a minha única chance de ser um mosqueteiro, porque eu posso ser egoísta, mas não sou falso. — Baekhyun era firme em suas palavras, mas sem parecer exigente. — Não estou pedindo para você falar ao chefe da guarda para elevar minha posição de trabalho, eu definitivamente não quero que isso aconteça dessa forma, então, por favor, não me entenda errado. Eu quero que você peça a ele apenas para mudar minha ronda para o bosque durante a manhã, assim não serei eu a pessoa a ser punida quando você furtar o seu cavalo à noite. Não me importo em acordar mais cedo, se pelo menos puder dormir tranquilo sabendo que não irei trair a sua confiança ou perder a oportunidade de estar na guarda real.
— Entendi... — Sehun estendeu a mão ao outro para um aperto e sorriu; tímido, mas exibiu um pouco de conforto. — Temos um segundo trato.
Six
Um pedacinho pequeno de Baekhyun se arrependia de ter abandonado sua função no estábulo para rondar o bosque durante a manhã, quando as coisas mais emocionantes que aconteciam eram brigas entre esquilos ou filhos de duques caindo das árvores. Não que o estábulo fosse muito mais empolgante, mas é importante dizer: Baekhyun sentia uma certa falta da adrenalina de ajudar o príncipe em suas missões furtivas... E do príncipe mesmo.
Há três meses, Baekhyun deixou sua casa para tentar a sorte na guarda real — embora não fosse esse o plano inicial, e ele devia ter sido menos inocente e previsto isso. Há dois meses, ele derrubou Sehun do cavalo, e há um mês pediu para que não fosse mais o responsável por vigiar os cavalos da família real. Desde então, com a chegada do frio de dezembro, Baekhyun via o herdeiro cada vez menos, e isso, por mais que achasse um pouquinho esquisito admitir, o deixava meio chateado. Não era todos os dias que tinha a oportunidade de ver os cabelos negros saltando sobre os ombros largos ou aquela postura invejavelmente impecável cavalgando. Querendo ou não, apesar da presunção inicial de que qualquer membro da família real estava cagando e andando para problemas de plebe, surpreendeu-se ao encontrar gentileza, vulnerabilidade e um nível saudável de ironia no príncipe.
No mínimo, poderia dizer que encontrou um amigo no monarca quando dividiram uma bebida forte que até hoje Baekhyun não saberia dizer o que era.
Era uma manhã de quarta-feira; o dia em que até mesmo brigas de esquilos e pequenos acidentes com as crianças da nobreza eram raros, e nada acontecia. Baekhyun ficou rondando o bosque por pouco mais de uma hora, e não viu sentido algum em andar por ali feito um idiota, isso não traria nenhum evento importante que o faria ser promovido na guarda real, então pouco importava seu esforço ali. Não havia como saber se ele se tornaria um mosqueteiro com 25 ou com 30 anos, mas era fato que dependia do tempo servindo para qualquer promoção em sua função, e aí sim poderia encontrar as oportunidades ideais para provar o seu valor.
Baekhyun arrancou uma maçã do pomar mais próximo e se sentou sob o sol morno para apreciar a fruta que, apesar de estar nas terras reais, não era tão doce quanto aquelas que ficavam ao redor da casa da sua família.
Ah, sua família... Sentia tantas saudades de casa. Sentia falta de sua mãe, mas isso não seria aliviado nem se ele voltasse para casa, e ter que se conformar com isso era o que mais doía. Porém, quem sabe, talvez encontrasse seu pai em algum dia de folga — o que soava quase absurdo para um membro da guarda real.
Com aquele frio e o rosto sendo aquecido pelo sol, era inevitável sentir sono... Poxa, teve que levantar-se às 5 da manhã para a sua ronda, e só poderia voltar para seus aposentos ao meio-dia. Que mal faria um cochilo de meia hora? Na verdade, Baekhyun nunca iria saber que mal faria, pois logo que fechou os olhos ouviu sons de cascos no chão e uma voz agradavelmente familiar.
— Vejo que está muito empenhado em seu trabalho, Baekhyun. — O príncipe fez seu cavalo parar e então desceu.
— Quando há trabalho a fazer, de fato, estou... — A voz sonolenta do guarda o entregava, mas mesmo com preguiça ele se levantou para falar com Sehun. — O que não é o caso hoje.
— Nunca se sabe, vocês precisam estar em alerta — brincou.
— É mesmo? — O menor riu. — Quando eu vigiava o estábulo, você pedia para que eu fizesse justamente o contrário. Eu deveria ficar distraído... Não era isso?
— Nunca falei que eu era alguém consistente, meu amigo.
Sehun sorriu, uma das poucas vezes em que mostrou uma expressão genuína de alegria. Baekhyun apreciava esses momentos, o príncipe — considerando toda a situação em que estava — era alguém com uma aura um tanto triste, e era satisfatório ver sorrisos no rosto nobre que parecia ter sido desenhado com tanto empenho quanto suas roupas caras foram.
E não podia negar, achou Sehun bonito desde o minuto em que o viu pessoalmente, mas aquela percepção aumentou desde que recebeu a confiança e conheceu o lado vulnerável do garoto que parecia estar acima de qualquer problema.
— Sehun, como têm sido os seus passeios? — Acompanhado da mudança rápida de assunto, Baekhyun se escorou na árvore atrás de si e apoiou os braços na cintura.
— Não tão frequentes, mas ainda consigo sair... Colocaram um guarda totalmente idiota com Chanyeol, mas ele não está lá todos os dias, então é só ir nos dias em que Chanyeol está sozinho e esperar ele sair para mijar. Depois daquela noite ele até ficou mais atento, mas ainda assim, eu consigo algumas brechas.
— Isso é muito bom, sei o quanto é importante para você. — Baekhyun sorriu. — Pelo menos dá para manter a cabeça no lugar, isso não tem preço.
Em meio às palavras empolgadas do príncipe, que descreviam todas as coisas incríveis que via de madrugada quando fugia do palácio, Baekhyun quase se esqueceu de ficar atento aos seus arredores — e, do modo como foi criado e treinado por seu pai, isso não acontecia nem quando ele estava relaxado, era como se só faltasse ele dormir com um dos olhos abertos —, mas em algum momento ele ouviu sons de galhos se mexendo. Podiam ser só esquilos, mas isso não deixava de fazer Baekhyun agir como um cão de guarda com as orelhas em pé.
Do jeito que ficou alheio ao que Sehun dizia, era como se a voz do príncipe fosse uma música ao fundo, enquanto o baixinho concentrava a sua audição exclusivamente ao que vinha das árvores. Porém, em algum momento ele viu em sua visão periférica algo que o preocupou. Virou a cabeça no mesmo instante para verificar, e viu um sujeito mascarado com um arco e uma flecha apontando em direção ao príncipe.
Baekhyun não pensou, agiu. Seu pai o ensinou a ter prudência diante de escolhas difíceis, mas por criá-lo para ser mosqueteiro, ensinou a ele também que a segurança da família real deveria ser a sua prioridade; sendo assim, protegê-la não era uma escolha difícil, e nesse momento deveria ter toda a coragem súbita de sua mãe.
Por isso, derrubou o príncipe no chão, colocando-se em frente ao seu corpo e servindo como um escudo. Então a flecha que mirava o peito de Sehun acertou o ombro de Baekhyun. No entanto, mesmo com a dor ardente da carne perfurada, o guarda não teve tempo para se atentar a isso, apenas arrancou a espada da bainha e se levantou bruscamente para ir atrás de quem quer que tenha atentado contra a vida do herdeiro real. Acontece que, quando se virou, percebeu que era tarde demais.
O sujeito, ao ver que não atingira seu alvo, fugiu. E, claro, com os gritos assustados de Sehun, o único sinal de vida que Baekhyun encontrou ali em volta, além deles dois, foram os mosqueteiros que correram confusos para encontrar o príncipe a quem deveriam ter protegido.
Sept
— Eu gostaria muito, mas muito, de entender por onde andavam os idiotas que deveriam estar acompanhando o príncipe em sua cavalgada matinal, quando um estranho invade as terras do palácio e tenta assassinar o herdeiro do trono. — A rainha estava em pé, diversos degraus acima dos mosqueteiros que estavam extremamente fodidos, e não tentava esconder a fúria em sua fala. — Na verdade, eu gostaria de saber quem foi o grande imbecil que os designou para proteger a família real.
Baekhyun nunca imaginou que estaria tão contente por não ser um mosqueteiro, e não queria nem sonhar no que aconteceria com aqueles rapazes que deveriam estar cuidando do príncipe — talvez fossem mandados para fazer rondas no estábulo. Naquele momento, apesar de estar segurando o choro de tanta dor que sentia em seu ombro, estava sendo bem cuidado, com um médico tratando o ferimento causado pela flecha (e que ficou presa ali por uns agonizantes 20 minutos), bebendo um chá com as ervas mais nobres trazidas do novo mundo, e ainda comendo brioches quentinhos com mel e queijo camembert.
A última vez em que havia comido tão bem foi no seu aniversário de 12 anos, quando sua família fez um banquete para comemorar o fato de que o filho sobrevivera à infância e não se tornou uma estatística na mortalidade infantil francesa. Mórbido, mas realista. E nesse dia comeu tanto frango que hoje é a única coisa a que Baekhyun se dá ao luxo de não suportar comer.
Durante o sermão da rainha, que repreendia os mosqueteiros da forma mais rígida possível, a porta do salão do palácio foi aberta abruptamente, e o príncipe mais novo, Gihun, entrou apressado, batendo os sapatos caros contra o piso de mármore. Ele marchou diretamente até os responsáveis (ou irresponsáveis, depende do ponto de vista) pela falha na segurança da família real.
— Vocês são inúteis! Espero que cuidem disso hoje mesmo e que isso nunca mais se repita! — A manifestação do garoto foi breve, mas foi suficiente para que Sehun revirasse os olhos. Intrigas entre irmãos devem ser comuns... Baekhyun não entenderia. — Com licença.
O rapaz saiu, e assim a rainha lançou um olhar mortal aos mosqueteiros diante de si.
— Por que um membro novo da guarda real, que é responsável por rondar o bosque, teve de se ferir protegendo o príncipe que vocês deveriam manter distante de qualquer perigo?
— Majestade, não seria culpa da guarda real a presença de um intruso no terreno? — perguntou um dos mosqueteiros, que tinha mais coragem do que bom senso.
— Escute bem, seu idiota, temos guardas espalhados por todo o terreno para impedir invasões, mas temos mosqueteiros para garantir que a família real não esteja em perigo. Acontece que o guarda real que deveria estar cuidando do invasor precisou fazer o trabalho de vocês de proteger o príncipe, e acabou se ferindo, porque vocês, estúpidos, deixaram ele sozinho!
— Mil perdões, majestade, é que estávamos cuidando o príncipe enquanto ele cavalgava, mas quando nos distraímos ele saiu de perto e...
— Quando vocês se distraíram?! Vocês supostamente deveriam ser a elite da segurança no território real, e são enganados por um garoto de 18 anos?! — A rainha bufou frustrada. — Sumam da minha frente, eu não quero mais que vocês pisem nesse palácio.
Quando os mosqueteiros (ou ex-mosqueteiros) saíram, a rainha voltou a sua atenção para Baekhyun sentado perto dali, e reparou em algo curioso. O garoto estava sem camisa para que o médico cuidasse de seu ombro, e isso a permitiu notar o pingente pendurado em seu pescoço por uma corrente discreta. Ela conhecia essa joia!
— Onde você conseguiu esse pingente? — perguntou de forma direta.
— Meu pai me deu, majestade. — Sorriu sem jeito, um pouco nervoso por estar falando com a rainha. — Ele foi mosqueteiro, cuidou pessoalmente da segurança do rei, mas se lesionou quando salvou a vida dele e precisou se aposentar... Então ele ganhou esse pingente do rei como um gesto de agradecimento.
— Que interessante, eu conheci seu pai. — Ela sorriu, e qualquer postura rígida e cheia de fúria parecia nunca ter existido no semblante gentil. — Ele era um homem de muita confiança da família real, e vejo que o título era justo, hoje o filho dele se feriu ao salvar a vida do príncipe. Se o rei ainda fosse vivo, estaria muito feliz agora. Muito obrigada.
— Eu quem agradeço, majestade. — Com os movimentos limitados pelas mãos do médico, Baekhyun se curvou minimamente diante da rainha. — Meu pai sempre falou com muito carinho dos anos que serviu à família real.
— Baekhyun, não pense que é um ato habitual para mim, ou até mesmo para a realeza como um todo, já que você é muito novo e serve à guarda há tão pouco tempo... Porém, dado o seu ato de bravura hoje, que nos mostra que podemos confiar em você, como confiamos muito em seu pai, nosso melhor mosqueteiro até hoje, quero oferecer uma oportunidade única a você. — A rainha se aproximou do garoto, que se recusava a criar qualquer expectativa do que poderia ouvir. — Eu gostaria que você se tornasse um mosqueteiro. Você aceita?
Huit
Se Baekhyun dissesse que estava confiante após, subitamente, tornar-se um mosqueteiro, quando já não tinha esperanças de que isso viesse a acontecer tão cedo... Estaria contando uma bela mentira. Para começar, enquanto caminhava do palácio até os seus aposentos na companhia do príncipe, sentiu um peso no coração ao ver os mosqueteiros que acabaram de ser expulsos pela rainha; com as cabeças baixas, sem as espadas, os chapéus, as capas... Nem mesmo as botas. Aquilo representava uma humilhação tão grande para aqueles rapazes, uma humilhação que Baekhyun detestaria levar para o seu pai — ainda mais pela possibilidade desonrar seu nome na família real. E tudo bem que ele era um garoto muito ambicioso e que chegava a ser bem egoísta em alguns momentos, mas inevitavelmente se sentia mal ao pensar que, para receber a oportunidade de ser um mosqueteiro, outros tiveram que falhar em suas funções.
Mas, principalmente, o que abalava a sua confiança era a rapidez com que alcançou seu sonho. Ficava confuso ao lembrar de como chegou ao palácio, há poucos meses, com a certeza de que seria um mosqueteiro no momento em que pisou lá, em virtude do peso do nome de seu pai, e por consequência toda a habilidade e os valores que teria recebido dele. Acontece que essa ilusão caiu por terra, e seu pai provavelmente sabia que ele passaria por essa quebra de expectativa, mas certamente não escolheu não falar nada... Baekhyun precisava enfrentar as frustrações da vida longe da família sozinho, e essa seria a primeira delas.
Não ter conseguido o que queria na primeira tentativa deixou Baekhyun focado o suficiente para não aceitar um não como resposta, mas não através da birra de alguém com o poder simbólico da moeda ou do sangue... Mas através da insistência e do próprio esforço. E é justamente por isso que Baekhyun questionava o feito tão repentino: que esforço mostrou naqueles meses vigiando o estábulo e o bosque além de ajudar o príncipe a burlar as ordens da rainha? Mas, de repente, surge a chance de salvar a vida do príncipe e Baekhyun passa a ser visto pela família real como alguém de confiança. Para ele, isso não era esforço, era a sorte de estar no lugar certo e na hora certa. O que aprendeu com o seu pai foi um mero bônus.
Com isso, Baekhyun começava a se questionar se era isso que ele de fato queria. Ou se ele só queria ser como o seu pai, sua maior admiração, e trazer orgulho a ele. Baekhyun escolheu ser racional e culpar a dificuldade de assimilar a recente conquista pelos pensamentos intrusivos.
— Você está tão quieto, Baekhyun. — A voz do príncipe o puxou para fora da própria mente. — Ainda não acredita que conseguiu o que tanto queria?
— Não... A família não tem homens tão treinados à disposição, tem?
— Vamos ser honestos, você é ágil, inteligente, forte a ponto de derrubar alguém maior do que você... Também sabe mentir muito bem. Com certeza tem o que precisa para ser um mosqueteiro.
— Mas...?
— Mas você não é um dos mais capacitados, e a minha mãe sabe bem disso.
— Então por que ela me deu essa chance? É só por causa do meu pai?
— Não, claro que não. Olha só, você tem uma coisa muito importante para a rainha que nenhum outro mosqueteiro tem.
Baekhyun arregalou os olhos e parou de andar de repente. Ele pensou e deixou as engrenagens em sua cabeça funcionarem por poucos segundos antes de chegar a uma conclusão ousada; não conseguia desassociar a fala do príncipe ao fato de ser, pelo menos, uns 10 anos mais novo do que qualquer outro mosqueteiro em serviço.
— A rainha gosta de garotos de 20 anos?! — Seu tom assustado fez Sehun parar e cobrir os olhos com a palma direita, suspirando impaciente.
— Qual é o seu problema, Baekhyun?! É claro que não, seu perturbado. A minha confiança! É isso que você tem.
— A sua confiança? Sehun, você pediu a ela para que me tornasse um mosqueteiro?! — A suspeita de Baekhyun fazia a sua voz transparecer indignação diante da possibilidade.
— Não, eu não pedi. Você me disse que não queria isso, e eu não fiz. — Sehun escolheu ignorar a acusação do amigo e voltou a andar, sendo logo acompanhado pelo baixinho. — A minha mãe não é ingênua, ela sabe que somos amigos, sabe que eu fugi de perto dos outros mosqueteiros para falar com você, e desconfio até que ela saiba da noite em que bebemos juntos... Sei lá. Para ela, é muito mais seguro que o mosqueteiro que vai ser minha babá seja alguém em que eu confie minimamente e que seja capaz de defender outra pessoa.
— Entendo... — Baekhyun respirou fundo, sobrecarregado mentalmente com toda a situação. — E o que você acha disso?
— Sinceramente? Acho ótimo. Sempre detestei ser vigiado o tempo todo por pessoas que são quase como estranhos para mim... É bom ter um amigo pela primeira vez na vida.
— Eu sou o seu primeiro amigo? — Por estarem perto de seus aposentos, Baekhyun parou e encarou Sehun com um sorriso discreto.
— Eu já falei o suficiente! — O príncipe desviou o olhar, irritado, com as bochechas se avermelhando. — Pegue as suas coisas, depois é só voltar para o palácio, alguém vai mostrar o seu novo quarto.
Baekhyun não acreditava que finalmente havia encontrado um ponto fraco do garoto mais elegante de toda a França. É claro que cutucaria isso em toda e qualquer oportunidade.
— Eu sou o seu primeiro, alteza? — Mostrou a expressão mais cafajeste que conseguia fazer, e que costumava funcionar com os meninos e meninas da vila em que morava até pouco tempo.
— Tchau, Baekhyun! — Sehun deu as costas para o mosqueteiro e saiu dali totalmente sem jeito.
Quando estava prestes a abrir a porta do pequeno chalé que dividia com Chanyeol, não pôde sequer segurar a maçaneta, pois a porta foi puxada sem qualquer delicadeza, o que assustou o rapaz. Mas o que o assustou mais ainda foi ver Gihun, o príncipe mais novo, saindo de lá. Ele olhou para o mosqueteiro da cabeça aos pés e não disse uma única palavra — nem mesmo um obrigado por ter salvado a vida do irmão, o que era no mínimo estranho depois de ter se mostrado tão revoltado com a incompetência dos outros mosqueteiros, mas pelo jeito a rainha não acertou na educação dos três filhos. Gihun apenas saiu de lá.
— Chanyeol... — Baekhyun entrou e fechou a porta. — O que o príncipe queria com você?
— Ele está preocupado com as pulgas no cavalo dele, descobriu que fico de vigia no estábulo e pediu para eu garantir que os ratos sejam “neutralizados” — explicou, fazendo aspas com os dedos —, acho que ele não aceita imaginar que o cavalo dele pode pegar pulgas quando ele sai para cavalgar.
— Nobres tão mimados não funcionam com lógica, Chanyeol, poupe sua sanidade e finja ignorância.
— Acredite, sou bom nisso... — Ele riu. — Soube que você acabou de salvar o príncipe Sehun e a rainha o promoveu a mosqueteiro, meus parabéns!
— Obrigado, de verdade. — Baekhyun sorriu sem graça, atordoado pela síndrome do impostor que o fazia se sentir uma farsa.
Ele evitou qualquer contato visual com o guarda, era como se tivesse vergonha de ter conseguido ser um mosqueteiro tão cedo, tinha medo de ser apontado como uma fraude, ou como alguém que não merecia isso. Não disse mais uma única palavra enquanto recolhia suas coisas para guardar em sua bolsa.
Neuf
Há menos de 15 dias para a coroação, Sehun se mostrava cada vez mais desanimado, e sem grandes expectativas em relação ao seu futuro. Nesses últimos dias antes da coroação, por algum motivo, o príncipe parou de sair à noite. Baekhyun, apesar de aliviado por saber que o amigo não estaria se arriscando fora dos limites do palácio, ficava com o coração apertado ao vê-lo tão... Sem cores.
Na verdade, um hábito inusitado começou a tomar as noites do príncipe; durante a madrugada, ele descia até os aposentos subterrâneos para chamar por Baekhyun. Ele dizia que tinha medo de invasores desde o incidente do bosque, e que dormiria mais tranquilo se o mosqueteiro ficasse em sua varanda para garantir que ninguém entraria no quarto pelo telhado. Ele criou esse receio desde o incidente no bosque, e Baekhyun não o culparia, foi um atentado contra a vida do príncipe.
Mas, naquela noite em específico, uma congelante madrugada de sexta-feira, Sehun não conseguiu dormir, mesmo que Baekhyun estivesse do lado de fora. Em seu pijama de seda fino demais para as temperaturas baixas da estação, abriu a porta de vidro da varanda e viu o mosqueteiro de costas para si. Ainda que Baekhyun estivesse exposto ao frio, parecia não se incomodar, pois as roupas grossas, o chapéu e as luvas de couro pareciam fazer um bom trabalho em manter o rapaz aquecido.
Sehun não dormiria bem sabendo que podia ser abrigado pelo calor da lareira e os cobertores macios, enquanto Baekhyun suportava o vento gelado em seu rosto para protegê-lo.
— Ei! — O horário exigia sussurros, talvez sua mãe não gostasse de saber que o filho levou alguém para o seu quarto, ainda mais de madrugada. — Por que você não entra?
— Mas você não quer que eu fique aqui fora cuidando a varanda?
— Por favor... Vou me sentir mais seguro se você ficar aqui dentro — disse o que parecia mais adequado ao momento, só para não falar com todas as letras que preferia a companhia dele.
Baekhyun não questionou, não desperdiçaria a oportunidade de sair do frio, e entrou no quarto do príncipe. Sehun, então, trancou a porta de vidro e se cobriu novamente em sua cama. O baixinho, sem jeito, sentou-se no divã do outro lado do quarto, mas já mais relaxado com o calor da lareira. Ele ficou quieto por uns bons minutos, sentindo seus olhos pesarem, enquanto observava o príncipe deitado, de costas para ele.
Cuidar da varanda, além do seu trabalho durante o dia, o sobrecarregava um pouco.
— Ainda se sente inseguro sobre ser mosqueteiro? — O monarca destruiu o silêncio, sem se virar para o mais velho.
— Não sei... Acabei descobrindo que o meu problema não é a falta de confiança. — Permitiu-se escorar as costas no divã para descansar um pouco. — É só que agora tudo parece sem sentido, depois que eu consegui o que eu queria, é muito estranha a sensação de não ter mais nada depois disso. Não senti a felicidade que eu achei que ia sentir, só a sensação de dever cumprido por orgulhar o meu pai, nada mais. É quase como se o meu sonho nunca tivesse existido.
— Um sonho que nunca existiu? — Sehun finalmente se virou para Baekhyun. — O que quer dizer? Não gostou de se tornar mosqueteiro?
— Gostar eu gostei, claro, gosto desse trabalho... Mas é muito estranho pensar que é tudo o que achei que sonhava em ser desde pequeno, e agora eu só sinto um vazio depois disso... Eu acho que não tenho sonhos, só vontades.
— Eu entendo. — Sehun sorriu pequeno, queria mostrar toda a receptividade possível para que Baekhyun se abrisse para ele; era o mínimo depois de despejar todos os seus problemas com uma bebida ruim no bosque. — Na minha opinião, todos temos sonhos, mas muitas pessoas só não tiveram a sorte de descobrir quais são eles.
— E qual é o seu?
— Eu não sei — respondeu, dando de ombros —, quero fugir justamente para encontrá-los.
— Faz sentido... Eu espero que o que eu sinto agora seja só a confusão inicial, ainda é tudo muito novo. Mas, se não for esse o caso, vou tentar descobrir quais são os meus sonhos.
— Eu ficaria muito feliz se, um dia, você puder me dizer se descobriu.
— Também vou ficar feliz se eu puder fazer isso. — Se não fosse cortado por um bocejo, Baekhyun mostraria um sorriso sincero ao príncipe.
— Você deve estar cansado. — Sehun mostrou preocupação. — Pode dormir, não precisa ficar acordado.
— Você tem certeza? Sabe que eu não vou insistir para ficar acordado... — Baekhyun riu.
— Durma, você tem vigiado a varanda nas últimas noites, merece um descanso.
— Está bem. — Baekhyun já colocava os pés sobre o divã para dormir. — Sendo assim, boa noite!
— Não seja bobo, eu estou dizendo que você pode dormir aqui — disse e apontou para o lugar ao seu lado —, na cama. Isso aí não é nada confortável, você vai ficar com dores nas costas.
— Como é? — Como se o sono tivesse sumido, o mosqueteiro arregalou os olhos, não sabia se estava ouvindo coisas. — Dormir com você?
— Não se preocupe, a porta está trancada. — Sehun riu.
— Mas, Sehun, você é o príncipe! Não podemos fazer isso!
— Fazer o quê? Não seja perverso, Baekhyun, o convite é apenas para dormir.
Era nítido o tom de brincadeira na fala do príncipe, ele se divertiu com a ideia de deixar o outro garoto nervoso, e aproveitou a oportunidade para se vingar das brincadeirinhas que ouvia aqui e ali e deixavam suas bochechas vermelhas.
Baekhyun, sem dizer mais nada, se deitou ao lado de Sehun — mas sobre os cobertores, só porque acreditava que seria ousadia demais ficar sob o mesmo lençol que o príncipe. Depois disso, tirou a corrente que ganhou de seu pai (criou esse hábito para não estragar a joia delicada) e colocou em cima da mesa de cabeceira ao lado da cama.
E, aparentemente, Sehun observou e aguardou pacientemente até que Baekhyun finalmente se deitasse para dormir... Pois, sem qualquer aviso prévio, resolveu surpreendê-lo com um beijo mais rápido do que os goles que tomou na bebida ruim da outra noite. E, assim, o monarca se virou de costas para descansar, enquanto o mosqueteiro encarava o teto com os lábios formigando.
Sabia que não estava louco, de fato foi beijado pelo príncipe.
Dix
Faltando 7 dias para a coroação, Baekhyun ficava chateado por ver o príncipe tão desanimado com tudo em sua vida. Era como se Sehun não tivesse energia para mais nada, e os únicos poucos minutos em que conseguia sorrir de verdade durante o dia eram aqueles em que podia se desprender de títulos nobres para ser ele mesmo com Baekhyun; fosse em conversas sussurradas durante a madrugada, fosse durante passeios ao redor do palácio.
Ele continuava sem cavalgar, e isso era o mais preocupante.
Naquela manhã fria, excepcionalmente, Sehun se empolgou minimamente com alguma outra coisa. Acordou decidido a passar algumas horas lendo na biblioteca, e essa súbita vontade foi vista com otimismo por Baekhyun, que o acompanhou no mesmo segundo em que ouviu a ideia. E que escolha maravilhosa, pensava o mosqueteiro, porque ser agraciado com uma imagem do príncipe concentrado, franzindo as sobrancelhas para ler, era uma das coisas mais belas que já viu na vida.
Atirado na poltrona mais próxima, ele observava o monarca sentado à mesa com algum livro enorme de alguma história fantasiosa.
— Sehun, por que você resolveu vir à biblioteca do nada? — Baekhyun não conteve a curiosidade. — Não sabia que você se interessava tanto por livros.
— Não sei bem... Eu achei que, talvez, eu pudesse descobrir algum sonho lendo todos esses livros. — Envergonhado com a ideia que poderia parecer infantil à primeira vista, preferiu não olhar para o mais velho. — Sei que isso não vai acontecer antes da coroação, mas é o que eu posso fazer no momento.
— Livros são muito bons para isso, com certeza, mas eu acho que, para você, o melhor seria conhecer o que tem além do palácio, de Paris... Ou até da França.
— Você tem toda a razão. — Sehun suspirou e finalmente conseguiu encarar o outro rapaz. — Mas eu não posso fazer isso, não agora. E, à essa altura, nem sei se vale mais a pena fazer qualquer esforço para mudar um destino que sempre foi meu. Só tem dois jeitos de eu não me tornar rei: ou eu morro, ou eu envergonho a minha família... E eu não quero nenhum do dois.
Baekhyun queria confortar Sehun, queria dizer que não necessariamente precisava deixar que outros escolhessem o seu futuro em seu lugar, queria dizer que estava tudo bem em não querer assumir as responsabilidades de um rei, e que era dever de sua família compreender isso... Mas ele não sabia o que poderia dizer para, de fato, ajudá-lo. Não apenas se tratavam de conselhos vagos que, na prática, representavam decisões muito mais difíceis do que pareciam, como também eram palavras que, em partes, ele mesmo poderia ouvir.
O que fez Baekhyun se ver como um grande hipócrita foi o pensamento de deixar que outros escolhessem o seu futuro.
Desde que se tornou um mosqueteiro, não parava de pensar em como tudo parecia uma escolha que não foi sua, mas algo que foi ensinado desde pequeno a querer. Ele podia ser muito bom naquilo, mas não era algo que ele conseguia se imaginar fazendo no futuro. E certamente seu pai não fez por mal, ensinou tudo o que podia ao filho pois queria um futuro bom para ele. Diferentemente da infância dura que um pobre padeiro pôde proporcioná-lo — mesmo com tanto amor e esforço —, sendo um mosqueteiro e com o dinheiro que recebia da coroa mensalmente desde que se lesionou, ele conseguiu dar uma vida mais fácil a Baekhyun. Além disso, seu velho viu no garoto um meio de reviver o sonho que se encerrou prematuramente quando se feriu para salvar a vida do rei.
E era justamente por isso que o garoto tomou o sonho do pai como seu.
Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa a Sehun, as portas da biblioteca foram abertas com brutalidade. A rainha entrou acompanhada do filho do meio, por Chanyeol e por dois mosqueteiros, que prontamente seguraram Baekhyun pelos braços. E, naquele momento, tudo ficou muito confuso e caótico.
— O que é isso?! — Baekhyun ficou nervoso, sem entender o que estava acontecendo.
— Você será responsabilizado pelos crimes de conspiração e roubo de identidade — disse a rainha, sem grandes explicações.
— Como assim? — Ele tentava se soltar dos mosqueteiros. — Eu não sei do que a senhora está falando!
— Pare de nos tratar como idiotas! — Gihun resolveu intervir e mostrou o pingente que Baekhyun nem se lembrava de ter extraviado. — Encontrei isso no quarto do meu irmão, sabemos que você está se envolvendo com ele para manipulá-lo e extorquir a coroa. Isso é uma conspiração contra a família real!
— Você está louco?! — Baekhyun se exaltou, o que apenas o conseguiu um soco no estômago, de um dos mosqueteiros que o segurava.
— O quê?! — Dessa vez, quem se manifestou foi Sehun. — É claro que não, isso é um absurdo!
— Nosso guarda aqui, Chanyeol, viu este rapaz deixar o palácio várias vezes para se reunir com rebeldes, baderneiros que querem a decadência da coroa.
— Que merda é essa, Chanyeol?! — gritou com quem, em algum momento, ele chegou a considerar um amigo. — Por que você inventou essas coisas?!
Chanyeol permanecia calado, encarando a janela do outro lado da biblioteca, como se Baekhyun não existisse.
— O seu namoradinho, Sehun, não é quem diz ser... — Gihun entregou ao irmão um papel que, naquela distância, Baekhyun não conseguia saber do que se tratava. — Esse documento é a certidão de óbito de Baekhyun, filho do mosqueteiro que serviu nosso pai, ele morreu aos 12 anos. Este golpista roubou o colar do pai do garoto para se passar pelo filho dele e se infiltrar na segurança da família real.
Sehun analisou aquele papel silenciosamente por alguns segundos, antes de olhar para o mais velho e perguntar no tom mais baixo que um dia deixou seus lábios.
— Isso é verdade, Baekhyun?
— Não, Sehun! — O desespero era evidente em sua voz. — Óbvio que não, esse documento é falso! Meu nome é Baekhyun e eu sou filho do mosqueteiro que salvou o seu pai.
— Chega de mentiras! — A rainha voltou a falar. — Eu vou ser muito misericordiosa por não executá-lo, mas você está banido deste palácio, e se ousar se aproximar desse lugar, vai ser jogado na masmorra para sempre.
Guiado pelo mais profundo instinto de sobrevivência — e ainda a racionalidade de saber que não conseguiria resolver aquela situação com uma simples conversa —, Baekhyun buscou forças de partes que nem sabia que tinha em seu corpo para se soltar dos mosqueteiros que o seguravam. Só queria sair dali o mais rápido possível, antes que entrasse em colapso.
Se essas acusações injustas fariam seu pai se envergonhar, pouco importava, só podia recorrer à ajuda dele. Naquele momento, não sabia dizer se Sehun acreditava nele ou não... Mas estava pronto para o pior.
Baekhyun só percebeu que tinha esquecido de suas coisas quando estava quase passando pelos portões. Por bom senso e medo de ser preso, falou com um dos guardas, que o acompanhou até o palácio, para que ele pegasse suas coisas no que costumava seu o seu quarto. Nunca se sentiu tão humilhado em sua vida, nem mesmo quando pediu para ser um mosqueteiro e foi mandado para vigiar um estábulo.
O que o paralisou e o fez mandar à merda as coisas que tinha esquecido foi ouvir a voz do príncipe mais novo dentro de alguma sala ali perto.
— Será que eu vou ter que fazer todo o trabalho no seu lugar? — A fala de Gihun era abafada pela porta de madeira fechada. — Você espera receber alguma coisa assim? Espera que eu não mande você p’ra ser morto no sul?
Onze
A sensação que Baekhyun teve, após dois dias do seu retorno à casa de seu pai — ou exilo, como quiser chamar —, era de não conhecer totalmente o homem que o criou. Não apenas recebeu toda a compreensão e apoio do pai diante do que aconteceu no palácio, como também recebeu os melhores conselhos e a garantir de nunca ser um motivo de vergonha quando dividiu sua insegurança sobre a posição de mosqueteiro. Apesar de ter sido educado por uma pessoa gentil e compreensiva, teve muito medo de se tornar uma decepção para ele ao dizer que descobriu que ser mosqueteiro não era algo para ele, e é claro que as acusações de conspiração pioravam tudo exponencialmente.
Ter o apoio do pai foi essencial para ele não perder a cabeça de vez.
Mas não foi só o apoio que recebeu, como também a promessa de toda a ajuda que precisava para provar a sua inocência. E isso definitivamente era muito útil; seu pai foi mosqueteiro porque era um homem muito inteligente, e foi isso que os levou a conclusão de que Chanyeol trabalhava para o príncipe Gihun em algum esquema, e quis usar Baekhyun como um bode expiatório, o que fazia sentido, considerando o dia em que viu o moleque nos aposentos do guarda. Apenas isso explicaria o empenho de Gihun em acusá-lo com documentos falsos. Mas só iriam descobrir a motivação disso através de Chanyeol. Depois disso, era só usar truques psicológicos baratos, não era complicado arrancar informações daquele cara.
E chegar até Chanyeol não foi muito difícil. Baekhyun só precisou pedir um favor a uma velha amiga de pernas bonitas para distrair o guarda de alguma ronda e levá-lo para uma floresta próxima ao palácio. Lá, o pai de Baekhyun deu uma paulada na cabeça do rapaz, e assim o carregaram até em casa.
Sentado em uma cadeira com as pernas quase quebradas, dentro do porão escuro, e com o corpo amarrado, Chanyeol entrou em desespero ao acordar e ver um Baekhyun bem irritado ao lado de um velho igual a ele, mas mais irritado ainda. Ele gritou por ajuda, mas só recebeu risadas.
— Não adianta, não tem ninguém por perto — disse o velho mosqueteiro.
— Vou ser direto com você, Chanyeol — falou Baekhyun, e puxou uma cadeira para se sentar em frente a ele, mostrando uma adaga pequena, mas afiada —, nós já sabemos toda a verdade, sobre o príncipe Gihun e tudo, mas se você for inteligente vai nos dar o seu lado da história, sem poupar detalhes...
O baixinho, então, apontou a adaga sutilmente para o meio das pernas de Chanyeol, mostrando o sorriso mais sádico possível.
— Por que o que você escolher esconder ou não, pode determinar a sua capacidade de um dia ter filhos ou mijar outra vez — blefou, não iria de fato cortar o pênis do cara, só precisava fazer um pequeno terror psicológico para conseguir a informação que precisava — E, pelo seu bem, acho bom a sua história bater com o que a gente já sabe.
— Tudo bem, tudo bem! — Chanyeol cedeu, desesperado com a ideia de perder seu amigo lá de baixo. — Eu conto tudo, desde o começo, o que vocês quiserem!
— Vá em frente. — Baekhyun abaixou a faca.
— Aquilo sobre ajudar a minha família... Era mentira, foi invenção do príncipe Gihun, ele me mandou dizer isso. A verdade é que eu sou de Grenoble, mas precisei fugir para Paris porque colocaram um preço na minha cabeça.
— Quê?! — Confuso sobre o passado de Chanyeol, Baekhyun franzia uma das sobrancelhas. Não imaginava isso de alguém que ele acreditou ser tapado.
— Eu tive umas... Aventuras sexuais com a filha de um comerciante... Ele não gostou e ofereceu um prêmio para quem conseguisse me matar. Quando cheguei em Paris, comecei a andar com um pessoal não muito... Dentro da lei? — Ficou sem graça. — Eu frequentava lugares com essas pessoas, e o Gihun me encontrou lá, de alguma forma ele sabia sobre o que aconteceu em Grenoble, e disse que se eu não fizesse um serviço, ele ia me mandar direto para o comerciante que queria me matar.
— E qual seria esse serviço?
— Matar o príncipe Sehun. Ele quer a coroa, e não vai conseguir enquanto o irmão mais velho estiver vivo. Foi só por isso que eu entrei para a guarda real, mas você se tornou um problema quando começou a ficar próximo do príncipe. E só o Gihun poderia te tirar da jogada sem levantar suspeitas. Ele sempre quis ser o rei, mas a rainha nunca nomearia ele, Gihun é completamente louco, a morte de Sehun, após a coroação, é a única chance.
— Quem disparou a flecha?
— Eu, não tem mais ninguém envolvido nisso, eu juro.
Baekhyun parou para pensar, e sua prioridade não era mais se provar inocente ou anular seu banimento do palácio, mas sim salvar Sehun. Não suportaria ver o príncipe morto por incompetência da segurança real, ou pela inveja do irmão. E, para isso, precisava saber os próximos passos.
— Tudo bem... E o que Gihun pretende fazer agora?
— Ele quer envenenar Sehun. Recebi as ordens hoje. Na verdade, quer que eu pingue algumas gotas de veneno na bebida dele durante o brinde que será feito depois da coroação. É o frasco que está no meu bolso.
— Como podemos provar que quem te deu o veneno foi Gihun?
— Veja, isso foi produzido com especiarias das colônias africanas. O último membro da família real a viajar para lá foi ele... Está tudo registrado.
Douze
Baekhyun e seu pai foram extremamente meticulosos ao decidir o que poderia ser feito para salvar o príncipe Sehun. Primeiramente, ficaram com o frasco do veneno, mas mandaram Chanyeol retornar ao palácio com um frasco igual, contendo um líquido da mesma cor que o conteúdo tóxico que antes havia. Eles foram muito enfáticos ao ameaçar Chanyeol a manter silêncio sobre o que ocorreu, Gihun não poderia saber que seu plano foi descoberto, ou não teriam a mesma chance de impedi-lo.
A viagem de Gihun não era segredo para ninguém da coroa, o que faltava era comprovar que o veneno foi feito com elementos presentes apenas na flora das colônias que pouquíssimos franceses tinham acesso. Para isso, o pai de Baekhyun conseguiu a ajuda de um importante boticário de Paris (e amigo de muitos anos).
Com tudo providenciado para a manhã do dia da coroação, a ideia de Baekhyun não era desmascarar todo um complô diante da realeza toda. Pretendia falar somente com Sehun e a rainha... E precisava de seu pai naquele momento, pois sem ele nenhuma outra prova seria suficiente para salvar o príncipe.
Bem cedinho, Baekhyun e seu pai foram para trás das grades do palácio, onde conseguiram apagar dois guardas que quase dormiam em serviço. Vestiram seus trajes, deram um jeito de não mostrar totalmente seus rostos, e conseguiram se infiltrar no palácio. É importante lembrar: Baekhyun não era o cara mais ético do mundo — não era mal caráter, mas sabia tomar decisões polêmicas quando necessário —, porque seu pai o educou assim.
Não era como se o velho, em seus anos de mosqueteiro, fosse deixar de dar uma surra em alguns caras e enganar guardas se a vida do rei estivesse em jogo. No caso, era a vida de Sehun, e Baekhyun se importava com ele o bastante para fazer o que precisasse.
É claro que um velho mosqueteiro, e único homem de confiança do falecido rei, saberia localizar todas as entradas possíveis do palácio. E foi desse jeito que, discretamente, conseguiram chegar ao quarto do príncipe. Assim que abriram a porta, encontraram Sehun sentado à penteadeira, encarando a própria imagem no espelho.
Quando o garoto os notou, assustou-se e se levantou rapidamente, indo para o outro lado do quarto. Ele estava com medo, mas não o bastante para gritar pelos guardas. Ele reconhecia Baekhyun, mesmo sem ver todo o seu rosto, mas não havia como dizer se isso era algo positivo ou não.
O coração do garoto mais velho se apertava diante da possibilidade de fazer Sehun sentir medo.
— Sehun, eu sei que você está assustado, mas você precisa me ouvir com atenção. — Baekhyun tentava transmitir muita calma com gestos suaves e um tom baixo, deixou as mãos à mostra o tempo inteiro para garantir que não pretendia ferir o príncipe. — Você está em perigo.
— Eu não tô assustado, só tô surpreso... — O príncipe abandonou a postura tensa e relaxou os ombros. — Não achei que te veria outra vez.
— Você tem que acreditar em mim, eu não menti sobre meu nome, não participei de conspiração nenhuma... Veja, eu trouxe o meu pai, ele servia ao rei. — Apontou para o velho ao seu lado.
— Eu sei, eu acredito em você. — Sehun suspirou e se sentou na cama. — Eu tentei falar com a minha mãe, mas não adiantou nada, eu não tinha como provar que aquilo tudo sobre conspiração era mentira, mas eu só... Eu sabia, e talvez seja até por conta da minha inocência, mas eu acreditei em você todo esse tempo.
— Escute, Sehun, quem está por trás de uma conspiração é o seu irmão, ele quer te matar. — Baekhyun preferiu ir direto ao ponto, e deixar qualquer conversa de conforto para mais tarde.
— Baekhyun, eu acredito sim na sua inocência, mas dizer que o meu irmão quer me matar... Isso é loucura.
— Alteza, você reconhece esse frasco? — O pai de Baekhyun mostrou o veneno guardado sob uma tampa de marfim com detalhes cravejados em ouro. — É ouro verdadeiro, assim como o marfim.
— Claro, é da coroa, onde guardamos fragrâncias... Por que o senhor está me mostrando isso?
— Isso estava com um guarda que Gihun coagiu, é veneno, ele pretende envenená-lo após a coroação. Conseguimos pegar este e deixar outro frasco com ele, uma falsificação, o líquido é inofensivo, o marfim e o ouro são falsos, basta ver com atenção. — O velho entregou o frasco ao príncipe.
— Eu não sei bem como dizer isso a vocês... — Sobrecarregado com os próprios pensamentos e o que acabou de ouvir sobre seu irmão, Sehun já não tentava manter a postura impecável de sempre. Ele devolveu o veneno ao pai de Baekhyun, como se isso o fizesse parar de pensar em como seu próprio irmão pretendia matá-lo — Mas eu quero ir embora daqui, por favor, me tirem do palácio.
— Sehun, por favor, não se precipite... — Baekhyun tentou acalmar o amigo, temendo estar o levando a fazer uma decisão que trouxesse maiores arrependimentos. — Você não precisa fugir, podemos confrontar o seu irmão, há outras formas de impedi-lo sem que você tenha que abrir mão da coroa.
— Baekhyun, eu não quero ser rei. — Ele mostrou um sorriso triste, quase como se implorasse por um pouco de compreensão. — Se você realmente veio para me salvar, me tire daqui. Eu não estou fugindo, quero tentar descobrir se tenho algum sonho.
— Você tem certeza? Eu...
— Baekhyun — seu pai o interrompeu —, vá com ele, eu resolvo o que precisar com a rainha. Não pense que o príncipe está confuso, quem está com medo de arriscar é você.
E olhando bem para os olhos de Sehun, e então para o vasto campo visível a partir da janela do enorme quarto nobre, Baekhyun teve a certeza de que tanto os seus sonhos quanto os dele estavam bem longe dali.
Só precisavam encontrá-los.
Baekhyun agarrou a mão de Sehun e saiu correndo daquele palácio frio e nobre demais para qualquer sonho que poderiam ter.
