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Para Neil, assistir a primeira neve com o time era quase como um ritual obrigatório.
Assim que o clima esfriou, ele arrumou suas malas com tudo que precisava e até o que não precisava. Colocou dois casacos, já que Andrew sempre lhe roubava um, e um par de luvas a mais por precaução, caso Aaron vá queimar as dele de novo esse ano.
Neil amava tudo sobre o dia de hoje, desde o céu nublado que trazia um arzinho frio delicioso até o rosto inchado de Andrew por ter se levantado mais cedo do que o comum.
— Bom dia, Drew – disse.
Andrew se enfiou em sua poltrona em formato de gatinho, enrolando-se com o lençol que ele trouxe do quarto. Neil riu e olhou para o relógio na parede. Eram cinco e vinte da manhã.
— Eu fiz chocolate quente.
Andrew se remexeu, seu cabelo longo e bagunçado caindo para fora do lençol. Os fios loiros estavam maiores do que o comum, então Andrew tinha que prendê-los em um rabo de cavalo minúsculo sempre que ia dormir para que não ficassem caindo em seu rosto. Quando acordava, o rabo de cavalo estava tão embolado quanto um ninho de passarinho, e Neil podia usar os fios de cabelo no rosto como desculpa sempre que queria tocar as bochechas de Drew.
— Com leite? – o ruivo perguntou, pegando as canecas dele e de Andrew no armário de parede.
Elas combinavam.
Neil ainda se lembrava perfeitamente do dia em que Andrew e ele saíram para comprar coisas novas para o apartamento, e ele viu as canecas pela vitrine de uma loja de cultura chinesa. A estampa era diferente, mas juntas elas formavam a foto do casal de uma novel chinesa de sucesso que ele leu inicialmente por tédio, e acabou se tornando um grande fã.
Andrew fez uma careta quando percebeu que Neil estava olhando, e Neil disse que voltaria para comprá-las mais tarde. Ele acabou se esquecendo, no entanto, e quando voltou na loja as canecas não estavam mais lá. Neil voltou para casa como uma criança empurrada, realmente chateado, mas olhou para o balcão da cozinha, as canecas estavam lá.
Andrew havia passado na loja antes dele e comprado em segredo, e Neil se apaixonou por ele de novo.
— E açúcar – o loiro respondeu, finalmente se levantando da poltrona.
— Exagerado – Neil resmungou.
Andrew trouxe seu lençol consigo até a mesa da cozinha, se embolando em um montinho de calor enquanto bebia seu chocolate quente com as pernas e os braços encolhidos para dentro do lençol. Neil pediu permissão para prender seu cabelo, e Andrew disse sim. Ele tocou o couro cabeludo com cuidado, fazendo carinho enquanto arrumava o rabo de cavalo de Andrew.
— Me lembre de cortá-lo – Andrew disse.
Neil soltou um resmungo.
— Está bonito.
— É trabalhoso ter que prendê-lo toda vez.
— Eu não me importo – deu de ombros. – Eu gosto. Posso prendê-lo para você sempre que precisar.
Drew murmurou um som parecido com hum, e Neil sabia que isso era o máximo que ele receberia de um Andrew sonolento. Quando ele terminou de prender o cabelo, Andrew encontrou as costas em sua barriga, deixando o peso do corpo cair sobre ele. Neil riu.
— Não pode dormir aqui, Drew – Andrew grunhiu. – Se quiser, podemos voltar para a cama.
— Abby está esperando, Junkie.
— Abby está esperando a torta de maçã que você fez pra hoje a noite – Abaixou-se, suas mãos nunca tendo deixado o couro cabelo do namorado. Era macio e quente, Neil gostava. – Kevin pode levar.
Ele não precisava acordar cedo, de qualquer forma.
Andrew jogou o peso do corpo de um lado para o outro, pensando, e por fim se levantou com seu lençol e caminhou para fora da cozinha. Ela parou, esperando por Neil, que sorriu e mandou uma mensagem para Kevin sobre a torta antes de segui-lo de volta para a cama.
Neil pretendia chegar mais cedo para decorar a torta, mas o que podia fazer? Ele próprio estava tão ansioso ontem a noite pelo dia de hoje que mal conseguiu dormir, então também estava com muito sono.
No fim, ele se aconchegou nos braços do namorado e dormiu um pouco mais.
*
Às nove da manhã, Neil e Andrew chegaram à casa de Abigail. Nicky abriu a porta e, ao invés de recebê-los com um bom dia, ele quase se jogou aos pés de Andrew.
— Por favor, diga ao idiota do seu irmão que não vamos assistir Velozes e Furiosos.
Andrew revirou os olhos e passou direto por ele. Nicky se virou para Neil.
— Não olhe para mim – Neil passou por ele.
— Ele é seu cunhado! – Nicky apontou.
— E seu primo – Neil rebateu.
Nicky bufou e jogou os braços para cima.
A casa de Abby estava um caos, assim como sempre ficava quando as Raposas estavam por lá. Para cada lado que Neil olhava, alguém da sua família estava espalhado entre bagunça e confusão, discutindo entre si mais do que fazendo qualquer outra coisa.
Alisson estava na cozinha, se equilibrando em um pé só enquanto lavava os pratos, o cabelo loiro preso em um enorme coque frouxo, e ela reclamava com Renee sobre a receita errada. Renee estava com uma garrafa de suco enorme em mãos e dizia, pela décima vez, aparentemente, que não se colocava limão de verdade na torta de limão.
— Em que porra de mundo isso faz sentido? – Alisson xingou.
— Não pergunte para mim – Renee deu de ombros –, pergunte ao criador da receita.
Nicky e Aaron estavam sentados no chão da sala, dezenas de fitas e DVDs espalhados ao redor deles enquanto eles discutiam sobre assistir ou não o mesmo filme que assistiram no ano passado.
— Pelo amor de Deus, Aaron – Nicky estava quase explodindo –, nós não vamos assistir Frozen de novo.
— Foda-se então! – Ele jogou os DVDs que segurava no chão e se levantou, sentando-se no sofá de braços cruzados.
Andrew se sentou ao lado dele, sua postura debochada.
— Crianção – ele zombou.
Aaron ergueu o dedo do meio para ele.
Matt e Dan não estavam à vista, nem Kevin ou Katelyn, a namorada de Aaron. Ela não era uma raposa, mas era amiga da maioria e aos poucos estava começando a fazer parte do time. Na maioria das vezes que o time se reunia para algo, ela estava ao lado do namorado com seu sorriso educado e rosto cheio de sardazinhas. Neil esperava vê-la hoje também, mas parecia que não seria o caso dessa vez.
— Neil! – Dan chamou por ele, e Neil se virou para vê-la limpar seu rosto sujo de fuligem e correr para ele. – Por favor, me diga que você sabe acender uma fogueira.
— Eu sei – disse.
— Perfeito!
Dan segurou seu braço, puxando-o para o lado de fora da casa de Abby pela porta dos fundos, onde havia um pequeno jardim. A fogueira desse ano estava no mesmo lugar que a do ano passado, porém dessa vez era um pouco maior. Mais chances de Aaron queimar suas luvas.
Kevin estava agachado ao lado da fogueira, o rosto igualmente sujo como o de Dan. Ela o chamou e o Day levantou o rosto da madeira apagada para mostrar sua melhor expressão de raiva.
— Você sabe acender isso? – Perguntou para Neil, que assentiu.
— Onde está o treinador?
Normalmente, acender a fogueira era trabalho de David Wymack e seus conhecimentos de escoteiro.
— No mercado – Dan tossiu. – Ele disse que ficou preso na fila, que vai se atrasar e que deveríamos acender isso sem ele – apontou com o queixo para a madeira molhada com álcool.
No fim, eles tiveram que mandar uma mensagem para Wymack conseguir madeira seca, pois Kevin e Dan haviam encharcado a que tinham e ela não acendeu de jeito nenhum. A fogueira ficaria para depois.
Matt chegou um pouco mais tarde, seus braços cheios de sacolas de supermercado cheias de todo tipo de besteira e guloseimas que ele encontrou pelo caminho. Katelyn chegou um pouco depois, trazendo consigo um lindo bolo de cenoura com cobertura de chocolate e uma garrafa de refrigerante.
Horas depois, quando Wymack chegou, todos já estavam prontos para ir para o jardim. David acendeu a fogueira em minutos e todos se espremeram ao redor do fogo, sentando-se um ao lado do outro para tentar absorver o calor do fogo e dos corpos próximos.
Neil estendeu um lençol sobre a grama e reservou o lugar de Andrew ao seu lado, que resmungou algo sobre ele ser irritante antes de oferecer a palma da mão para ele. Neil entrelaçou seus dedos com os de Andrew e chegou mais perto, encostando-se nele para guardar suas mãos no bolso do seu casaco.
— É quente – Andrew disse, baixo demais para que alguém além de Neil ouvisse, e Neil sorriu.
Abby ligou o projetor quando todos já estavam acomodados, a animação de Mulan sendo reproduzida no lençol branco que Aaron pendurou mais cedo. O filme era interessante o suficiente para ganhar a atenção de Neil durante quase todo o tempo, perdendo apenas para um Andrew sonolento que lentamente começou a cair sobre seu ombro.
Neil desviou os olhos do filme já na metade, encarando o rosto inchado do seu namorado que estava fazendo um grande esforço para lutar contra o sono. Aparentemente, a soneca de algumas horas mais cedo não foi o suficiente para descansar o corpo de Andrew.
Neil arrumou sua postura, evitando se encostar nas pernas de Kevin, que estava sentado atrás deles em uma cadeira, para chegar um pouco mais perto de Andrew sem realmente tocá-lo. O loiro olhou para o ombro oferecido, e não pensou duas vezes antes de se encostar discretamente, sem chamar a atenção das outras Raposas.
Kevin saiu da cadeira, dando espaço para que Neil pudesse se encostar sem precisar evitar suas pernas. Aaron notou o movimento pelo canto do olho e viu o jeito que Neil estava sorrindo feito um idiota apenas por Andrew estar deitado em seu ombro, decidindo ignorar pelo bem da sua saúde mental.
Quando o filme chegou ao fim, já era quase meia noite. Nicky trouxe um jogo de tabuleiro para fora e as Raposas jogaram durante as horas seguintes, esperando pelos primeiros flocos de neve.
E eles vieram às três e cinquenta da manhã, quando todos já estavam embalados um nos outros e a fogueira já estava quase apagando. Matt abriu a garrafa de champanhe em um estouro e Abby brincou ao gritar feliz ano novo!, fazendo todos rirem. Renee trouxe a torta de Andrew o bolo de Katelyn para fora, e Alisson trouxe sua torta de limão sem limão.
Mesmo quando a fogueira se apagou e todos se levantam para se abrigar na aconchegante sala de Abigail, Neil continuou onde estava. A cabeça de Andrew ainda estava confortavelmente descansando em seu ombro.
— Você não vem, Neil? – Renee parou no meio do caminho, esperando por ele.
— Daqui a pouco.
A garota sorriu e assentiu, propositadamente deixando para trás um dos lençóis perto o suficiente para que Neil pudesse pegá-lo se esticasse o braço. Ele o pegou e, com cuidado, jogou sobre os ombros de Andrew.
— Você já sabe que eu estou acordado.
— Você percebeu? – Neil riu. – Pensei em fingir para ficarmos nessa posição por mais um tempinho.
Andrew se afastou. Neil resmungou sobre o frio que sentiu ao não ter mais o calor do namorado por perto.
— Seus ombros doem?
— Não – Como se para provar sua afirmação, Neil balançou os braços e deu de ombros várias vezes. – Você não colocou todo peso em mim.
Andrew levantou o rosto, vendo os pequenos flocos de neve que caiam do céu. Não parecia ser grande coisa, mas amanhã de manhã todos os telhados da cidade já estariam cobertos com até três dedos de neve.
E então ele se virou, olhando para Neil. O sol estava quase nascendo no horizonte, formando um degradê de azul, rosa, roxo e laranja. Andrew pensou que o azul do céu não era tão bonito quanto o azul dos olhos de Neil, e quando os primeiros raios de luz tocaram o rosto do seu namorado, iluminando seu cabelo e fazendo parecer que seus fios ruivos eram quentes como a lava de um vulcão, Andrew quis beijá-lo.
Como se pudesse ler a intenção em seus olhos, Neil chegou mais perto, para que ele pudesse juntar seus lábios sem precisar sair do lugar. Ele não o beijou, por mais que quisesse, esperando que Andrew tomasse a iniciativa.
— Não enche, viciado – Andrew o empurrou.
Neil riu alto, suas bochechas e ponta do nariz ficando vermelhos por causa do frio. Andrew o puxou de volta, juntando suas testas, e sussurrou seu sim ou não.
— É sempre sim com você, Drew.
Andrew revirou os olhos, e juntou seus lábios. A boca de Neil estava gelada, mas sua língua era quente. Neil fechou as mãos em punho sobre os joelhos, os dedos formigando com vontade de segurar o cabelo de Andrew, mas silenciosamente esperando por permissão. Andrew puxou suas mãos e colocou-as em seu pescoço, deixando que Neil afundasse seus dedos ali e brincasse o quanto quisesse com seu cabelo.
Ele não iria mais cortá-lo. A sensação dos dedos de Neil brincando com seu cabelo longo era boa demais para ser jogada fora.
— Pegue essa ponta – Andrew estendeu para ele o outro lado do lençol.
Neil se escolheu de volta para a posição de antes, quando ele guardou suas mãos no bolso do casaco, e se aconchegou perto de Andrew para que os dois pudessem se cobrir com o mesmo lençol. Andrew enterrou seu rosto no cabelo cacheado, sentindo o cheiro do shampoo de frutas vermelhas que Neil adorava, e relaxou.
Era quente. Estava nevando, mas ele se sentia quente por dentro, e sabia que Neil também se sentia assim.
Eles ficaram lá por mais alguns minutos, apenas próximos um do outro, vendo o sol nascer sem se mexer ou falar, até que Neil espirrou.
— De pé – Andrew o empurrou. – Está frio, vamos entrar.
Neil se esticou, bocejando.
— Vamos dormir o resto do dia, não vamos?
Andrew sorriu ladino.
— Você leu a minha mente.
